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NASCIDA À MEIA-NOITE OS SOBRENATURAIS


C. C. Hunter

NASCIDA À MEIA-NOITE OS SOBRENATURAIS

Tradução: GILSON CÉSAR CARDOSO DE SOUSA DENISE DE C. ROCHA DELELA


Título do original: Born at Midnight. Copyright © 2011 C. C. Hunter Copyright da edição brasileira © 2011 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1ª edição 2011. 5ª reimpressão 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Denise de C. Rocha Delela e Roseli de S. Ferraz Revisão de linguagem: Giovanna Rocha Delela Revisão: Maria Aparecida Salmeron Diagramação: Fama Editoração Eletrônica Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance, são também produtos da imaginação do autor e são usados de modo fictício. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hunter, C. C. Nascida à meia-noite : os sobrenaturais / C. C. Hunter; tradução Gilson César Cardoso de Sousa. — São Paulo : Jangada, 2011. Título original: Born at midnight. ISBN 978-85-64850-00-2 1. Ficção norte-americana I. Título. 11-08330

CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editorajangada.com.br http://www.editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.


Para Lilly Dale Makepeace. Seu sorriso me dรก a certeza de que a magia continua viva e saudรกvel neste nosso velho mundo.


Agradecimentos Dizem que é preciso uma aldeia para se criar um filho; bem, para colher a centelha de uma ideia e transformá-la em livro, também. Quero, primeiro, agradecer à minha editora, Rose Hilliard. Sua confiança em mim significa muito mais do que você possa imaginar. Os outros habitantes da aldeia são: meu marido, solidário ao ponto da perfeição. Vou amá-lo para sempre, querido! Minha agente Kim Lionetti, que ajuda a transformar meus sonhos em realidade. Qual será o próximo, Kim? Os anjos da aldeia, parceiros críticos e família literária: Faye Hughes, Jody Payne, Suzan Harden e Teri Thackston. Garotas, obrigada pelo apoio; mas obrigada, sobretudo, pela amizade.

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Capítulo 1 — Isso não tem graça! — resmungou o pai. Não, graça nenhuma, pensou Kylie Galen abrindo a geladeira para pegar uma bebida. Na verdade, tão pouca graça que ela gostaria de poder se esgueirar para dentro da geladeira, se encolher entre a mostarda e cachorrosquentes bolorentos e fechar a porta para não ouvir mais as vozes irritadas que vinham da sala. Lá estavam seus pais brigando de novo! Não que aquilo fosse durar muito, pensou ela enquanto observava o vapor escapando pela porta da geladeira. Hoje ela sabia que o pai iria embora! Kylie sentiu um nó na garganta. Engoliu a emoção em seco e se recusou a chorar. Aquele devia ser o pior dia da sua vida. E ela já vinha tendo alguns muito ruins ultimamente. Um cara desconhecido na sua cola, Trey terminando o namoro com ela e os pais anunciando o divórcio — caramba, era desgraça que não acabava mais! Seria então de admirar que seus terrores noturnos tivessem voltado com tudo? — O que você fez com a minha cueca? — O grito do pai penetrou na cozinha, meteu-se pela fresta da porta da geladeira e ficou pairando em volta dos cachorros-quentes. A cueca dele? Kylie pressionou uma latinha gelada de refrigerante contra a testa. — O que eu iria fazer com a sua cueca? — perguntou a mãe com aquela voz de “não estou nem aí”. Era bem sua mãe, ela nunca estava nem aí. Fria como gelo. Kylie olhou pela janela da cozinha o quintal, onde há pouco tinha visto a mãe. E ali, da grelha da churrasqueira ainda fumegante, pendia a cueca do pai. 9


Que beleza! A mãe tinha feito churrasco da cueca do pai. Só isso. Kylie nunca mais comeria nada do que fosse assado naquela grelha. Tentando conter as lágrimas, ela devolveu a latinha ao refrigerador e foi até a porta da sala. Talvez, se a vissem, parassem de agir como crianças e deixassem que ela fosse a adolescente ali. O pai estava no meio da sala, segurando na mão uma cueca. A mãe, no sofá, bebericava com a maior calma um chazinho quente. — Você precisa de tratamento psicológico! — gritou ele para a mulher. Dois pontos para o pai, pensou Kylie. A mãe realmente precisava de ajuda. Mas então por que era Kylie que tinha de ficar estendida no divã da analista duas vezes por semana? Por que o pai — o homem de quem, todos juravam, ela conseguia tudo — é que precisava ir embora, abandonando-a? Kylie não o censurava por querer deixar sua mãe, a Rainha do Gelo. Mas por que não levava Kylie com ele? Outro soluço sufocado na garganta. O pai virou-se e a viu; em seguida, entrou no quarto, obviamente para guardar o resto de suas coisas — menos a cueca, que naquele momento fazia sinais de fumaça na churrasqueira do quintal. Kylie ficou parada olhando a mãe, que remexia em pastas de trabalho como se aquele fosse um dia igual a qualquer outro. As fotos emolduradas de Kylie e o pai, na parede acima do sofá, chamaram sua atenção e encheram seus olhos de lágrimas. Tinham sido tiradas durante as excursões anuais que os dois faziam juntos. — Você tem que fazer alguma coisa! — implorou. — Fazer o quê? — perguntou a mãe. — Convencê-lo a ficar. Peça desculpas por ter assado a cueca dele. — Que lamenta ter água gelada nas veias. — Faça qualquer coisa, mas não deixe que ele vá embora. — Você não compreende. — E com isso a mãe, sem um mínimo de emoção, voltou aos seus papéis. Nesse momento o pai, de mala em punho, atravessou a sala. Kylie correu atrás dele até a porta que se abria para a tarde sufocante de Houston. — Me leve com você — pediu, sem esconder as lágrimas. As lágrimas talvez ajudassem. Antes, quando chorava, conseguia o que queria dele. — Eu não como muito — fungou, tentando fazer graça. 10


Ele balançou a cabeça, mas, ao contrário da mãe, pelo menos tinha alguma emoção nos olhos: — Você não compreende. Você não compreende. — Por que vocês estão sempre dizendo isso? Já tenho 16 anos. Se não compreendo, então me expliquem, me contem o grande segredo e pronto. Ele olhou para os pés como se aquilo fosse um teste e as respostas estivessem na ponta dos sapatos. Depois, suspirando, ergueu os olhos: — Sua mãe... precisa de você. — Precisa de mim? Está brincando? Ela nem me quer aqui! — Nem você me quer. Essa constatação fez com que o ar se imobilizasse em seus pulmões. Ele na verdade não a amava. Enxugou uma lágrima na bochecha e olhou de novo para ele. Só que agora, em vez do pai, Kylie via o soldado Dude*, que vivia atrás dela. Ali na rua, trajava o mesmo uniforme militar de antes. Parecia ter acabado de sair de um daqueles filmes sobre a Guerra do Golfo de que sua mãe tanto gostava. Só que, em vez de disparar para todos os lados ou voar pelos ares, ele permanecia imóvel, olhando para ela com um ar triste, mas muito assustado. Ela o surpreendeu espreitando-a há algumas semanas. Nunca falaram um com o outro. Mas, no dia em que ela o apontou para a mãe e a mãe não o viu... bem, o mundo de Kylie saiu dos eixos. A mãe chegou à conclusão de que ela tentava chamar a atenção ou coisa pior. E quando dizia “coisa pior” ela se referia ao risco de Kylie estar perdendo contato com a realidade. Sem dúvida, os terrores noturnos que a atormentaram quando criança tinham voltado, mais assustadores ainda. A mãe disse que um analista poderia ajudá-la a superá-los — mas como, se Kylie nem sequer se lembrava deles? Só sabia que eram ruins. Ruins o bastante para fazê-la acordar gritando. Kylie queria gritar agora. Para que o pai se voltasse e visse o soldado Dude — provando assim que ela não estava maluca. Talvez, se ele realmente visse o homem que a perseguia, ela não precisasse mais ir à analista. Aquilo não era justo. A vida, porém, não é justa, conforme sempre lhe lembrava a mãe. * Dude (gíria), termo genérico usado informalmente com referência a uma pessoa qualquer; cara, sujeito (N. da T.). 11


Mas, quando Kylie olhou de novo, ele já tinha ido embora. Não o soldado Dude, mas seu pai. Ela caminhou até a porta da garagem e o viu colocando a mala no banco de trás do Mustang vermelho conversível. Ao contrário do pai, a mãe nunca gostou daquele carro. Kylie correu até ele. — Vou pedir pra vovó falar com a mamãe. Ela vai conseguir... Mal essas palavras escaparam dos lábios de Kylie ela se lembrou do outro grande acontecimento trágico de sua vida. Não podia mais pedir que a avó resolvesse seus problemas. A avó estava morta. A imagem dela deitada, fria, no caixão dominou a mente de Kylie e outro soluço brotou em sua garganta. O olhar do pai demonstrava agora preocupação. O mesmo olhar que levara Kylie para o consultório da terapeuta três semanas antes. — Estou bem. Só esqueci. — Porque a lembrança machucava muito. Sentiu uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. O pai se aproximou e a abraçou. Esse abraço durou mais do que qualquer outro, mas terminou cedo demais. Como ela podia deixá-lo ir? E ele, como poderia abandoná-la? Os braços do pai se soltaram e ele a afastou. — É só me telefonar, meu bem. Contendo as lágrimas, odiando a própria fraqueza, Kylie acompanhou o conversível vermelho do pai ficando cada vez menor à medida que descia a rua. Precisando muito ficar sozinha em seu quarto, correu para dentro de casa. Mas então, lembrando-se, olhou para o outro lado da rua. Será que o soldado Dude já tinha desaparecido num passe de mágica, como costumava fazer? Não. Continuava lá, observando, espionando. Deixando-a morta de medo e, ao mesmo tempo, muito irritada. Era por causa dele que Kylie tinha que ir à analista. Então a sra. Baker, sua vizinha idosa, saiu para apanhar a correspondência. Sorriu para Kylie, mas nem sequer uma vez a velha bibliotecária reparou no soldado Dude bem ali, de pé em seu jardim, a menos de um metro de distância. Muito estranho. Tão estranho que um calafrio desceu por sua espinha, o mesmo calafrio que sentiu durante o funeral da avó. O que estaria acontecendo? 12


DESPERTA AO AMANHECER


C. C. Hunter

DESPERTA AO AMANHECER OS SOBRENATURAIS

Tradução DENISE DE C. ROCHA DELELA


Título original: Awake at Dawn. Copyright © 2011 Christie Craig. Copyright da edição brasileira © 2012 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado originalmente em inglês por St. Martin’s Griffin, 175 Fifth Avenue, New York, N.Y., 10010, USA. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1ª edição 2012. 4ª reimpressão 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produto da imaginação da autora ou usados de maneira fictícia. Coordenação editorial: Denise de C. Rocha Delela e Roseli de S. Ferraz Revisão: Maria Aparecida A. Salmeron Diagramação: Fama Editoração Eletrônica Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hunter, C. C. Desperta ao amanhecer / C. C. Hunter; tradução Denise de C. Rocha Delela. — São Paulo : Jangada, 2012. Título original: Awake at Dawn. ISBN 978-85-64850-07-100-2 1. Ficção norte-americana I. Título. 12-0112408330

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Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813.5 Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editorajangada.com.br http://www.editorajangada.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


Para o meu marido, Steve Craig — meu parceiro, melhor amigo e herói. O seu amor, o seu apoio e sua disposição para se encarregar da roupa suja me ajudaram a realizar meus sonhos e fazer deles a nossa realidade. Obrigada por fazer parte dos meus sonhos. Eu te amo.


Para os meus fabulosos parceiros de crítica, que riram comigo durante muitos almoços, me deram apoio infinito quando meus personagens estavam se comportando mal e beberam martínis de chocolate para comemorar comigo cada bom momento da vida. Para a incrível e compreensiva equipe da Katy Budget Books. Vocês são demais. Para meu pai, Pete Hunt, e minha mãe, Ginger Curtis, que me ensinaram o valor do riso e do amor. E à minha filha, Nina Makepeace, e meu filho, Steve Craig, Jr. De longe, vocês dois são as melhores coisas que já fiz na vida. E por último, mas nem por isso menos importante, ao meu maravilhoso editor e agente, cuja crença em mim é o trampolim da minha inspiração.


Capítulo Um

“Você tem que impedir isso, de qualquer maneira, Kylie. Do contrário, acontecerá com alguém que você ama.” As palavras agourentas do espírito soaram às costas de Kylie, confundindo-se com o crepitar da enorme fogueira que ardia a alguns metros dela. A lufada de ar frio anunciava a presença do fantasma da maneira mais clara possível, mas as palavras eram só para ela e não para os outros trinta campistas de Shadow Falls que formavam o círculo cerimonial. Miranda, ao lado de Kylie na corrente humana, completamente alheia ao espírito, apertou-lhe a mão com mais força. — Isso é tão legal! — murmurou, olhando para Della, do outro lado do círculo. Miranda e Della, além de amigas íntimas, eram também colegas de alojamento de Kylie. — Damos graças por esta oferenda. — Chris (ou Christopher, como tinha se apresentado essa noite), ficou no meio do círculo e ergueu para o céu escuro o cálice sagrado, enquanto abençoava seu conteúdo. “Você tem que impedir isso”, sussurrou de novo o espírito por trás do ombro de Kylie, desviando sua atenção do ritual. Cerrando os olhos, Kylie visualizou o espírito tal como ele vinha aparecendo para ela ultimamente: em torno de 30 anos, longos cabelos negros, saia branca — manchada de sangue. A frustração fez com que as entranhas de Kylie se contraíssem ainda mais. Quantas vezes tinha gritado para o espírito as perguntas quem, o quê, quando, onde, por quê? Mas a mulher morta se limitava a repetir o mesmo aviso. 9


Para encurtar a história, fantasmas recentes têm dificuldade para se comunicar, a mesma que os sensitivos inexperientes encontram para arrancar deles alguma coisa. Assim, a única opção de Kylie era esperar que a mulher finalmente conseguisse explicar o aviso. Mas aquela não era a hora ideal. No momento, estou muito ocupada. Portanto, a menos que você me dê detalhes, o melhor é conversarmos depois. Kylie manteve essas palavras na mente, esperando que o fantasma pudesse ler seus pensamentos. Por fim, os arrepios que corriam pela espinha de Kylie desapareceram e o calor da noite voltou — o calor do Texas, úmido, viscoso e intenso, mesmo sem a colaboração da fogueira. Obrigada. Kylie procurou se descontrair, mas a tensão em seus ombros não lhe dava trégua. E por uma boa razão. A cerimônia daquela noite era mais uma novidade em sua vida. Uma vida que tinha sido bem mais simples antes de Kylie descobrir que não era inteiramente humana. Sem dúvida, o melhor seria que pudesse identificar seu lado não humano. Mas, infelizmente, a única pessoa que sabia a resposta era Daniel Brighten, seu verdadeiro pai. Kylie ignorava sua existência até ele lhe fazer uma visita há pouco mais de um mês. E Daniel aparentemente desejava que ela resolvesse sozinha sua crise de identidade. Ele raramente a visitava, reforçando a velha imagem do pai ausente. Na verdade, Daniel estava mais que ausente: estava morto. Morrera antes de Kylie nascer. Ela ignorava se havia cursos de aperfeiçoamento para pais no além, mas sentia-se tentada a sugerir que ele procurasse um. Porque agora, quando de fato aparecia, ficava só olhando para ela; e se Kylie abria a boca para fazer uma pergunta, sumia, deixando atrás de si apenas um ar gelado e a pergunta não respondida. — Vamos lá — disse Chris. — Soltem as mãos e deixem a mente vazia. Mas, façam o que fizerem, não quebrem o círculo. Todos seguiram as instruções. Mas, embora soltasse as mãos, Kylie não conseguiu deixar a mente vazia. Uma rajada de vento agitou algumas mechas do longo cabelo loiro de Kylie e as espalhou pelo seu rosto. Ela as recolocou atrás da orelha. Seu pai ausente tinha medo que ela lhe fizesse perguntas sobre sexo ou coisa semelhante? Isso sempre fazia sua mãe sair correndo do quarto — e sair à procura de algum manual de educação sexual para adolescentes. Não que Kylie conversasse com ela sobre o assunto. A mãe seria a última pessoa 10


no mundo a quem ela recorreria para esse tipo de conselho. A simples menção de que estava interessada em algum garoto já fazia a pobre mãe entrar em pânico, com as letras S-E-X-O faiscando em seus olhos. Felizmente, desde que Kylie tinha sido despachada para o acampamento Shadow Falls, o suprimento de manuais de sexo tinha diminuído. Mas quem poderia dizer o que a mãe estivera selecionando no último mês? Talvez tivesse reunido uma pilha de folhetos sobre doenças sexualmente transmissíveis que Kylie ainda não conhecia. Nesse caso os estaria guardando para quando a filha fosse visitá-la depois de três semanas de ausência. Kylie não estava pensando muito nessa visita, embora, com certeza, a relação entre elas tivesse melhorado desde que soubera que Daniel era seu verdadeiro pai. Mas os novos laços entre mãe e filha ainda eram frágeis. Kylie chegava a se perguntar se esses laços, por serem tão delicados, justificariam um encontro de mais de duas horas. E se ela voltasse para casa e descobrisse que por ali nada havia mudado? E se a mãe continuasse indiferente? E como seriam agora as coisas com Tom Galen, o homem que durante toda a sua vida Kylie acreditou ser seu pai biológico, o homem que abandonou a mãe por uma garota pouco mais velha que a filha? Era uma verdadeira tortura vê-lo aos beijos e abraços com aquela assistente tão jovem. Mas ela ainda não tinha dito isso a ele. A brisa de fim de noite arremessou uma nuvem de fumaça da fogueira no rosto de Kylie. Ela esfregou os olhos, mas não ousou sair do círculo. Como Della tinha lhe explicado, fazer isso seria falta de respeito com a cultura dos vampiros. — Deixem a mente vazia — repetiu Chris, passando o cálice ao campista que se achava a seu lado no círculo. Cerrando as pálpebras, Kylie tentou de novo seguir as instruções de Chris, mas ouviu então o som da cachoeira. Abriu bem os olhos e voltou-se na direção do bosque. Será que a cachoeira estava assim tão próxima? Desde que tinha ouvido falar da lenda sobre os anjos da morte que existiam ali, Kylie sentia vontade de conhecer o local. Não que quisesse encontrar cara a cara um anjo da morte. Já tinha fantasmas demais na vida dela. Mas, ainda assim, a cachoeira a atraía. — Está pronta? — Miranda inclinou-se na direção dela e sussurrou: — Está chegando perto. 11


Pronta para o quê?, foi o primeiro pensamento de Kylie. E então se lembrou. Brincadeira de mau gosto de Miranda? Kylie viu o cálice comunal sendo passado de mão em mão ao longo do círculo. Quase parou de respirar ao perceber que só faltavam dez pessoas para ele chegar até ela. Aspirando profundamente o ar saturado de fumaça, tentou não mostrar repugnância. Tentou. A ideia de beber num recipiente onde tanta gente tinha posto a boca provocou-lhe na mente algo entre a náusea e a indignação. Mas, sem dúvida, o que mais lhe causava nojo era o sangue. Ver Della consumindo diariamente seu alimento preferido tinha ficado mais fácil, no último mês, para Kylie, que chegara a doar um pouco de sangue em favor da causa — sobrenaturais fazem coisas assim por seus amigos vampiros. Contudo, degustar a substância que lhes dava vida era outra coisa. — Sei que é nojento. Mas finja que está tomando suco de tomate — sussurrou Miranda à amiga Helen, de pé ao seu lado. Mas quem disse que o sussurro não seria ouvido em meio a tantos sobrenaturais com sentidos aguçados? Kylie observou o círculo de campistas sobrenaturais, com os rostos banhados pelo fulgor intermitente das chamas da fogueira próxima. Viu Della franzindo a testa na direção delas, os olhos projetando faíscas amareladas. A audição aguçada era apenas um de seus muitos dons. Sem dúvida cobraria de Miranda, mais tarde, aquele “nojento”. Ou seja, Kylie teria de convencer Della e Miranda a não se matarem. Como duas pessoas podiam ser amigas e ainda assim brigar tanto, isso estava além de sua compreensão. Reconciliá-las tinha se tornado, para Kylie, uma tarefa de tempo integral. Viu outra campista levar o cálice à boca. Sabendo quanto aquilo significava para Della, Kylie se preparou mentalmente para sorver um gole do sangue sem vomitar. O que, porém, não impediu seu estômago de se rebelar. Faça isto. Faça isto. Por Della. Talvez até aprecie o sabor do sangue, tinha dito Della um pouco antes. Não seria ótimo se você descobrisse que é uma vampira? Não, pensou Kylie, mas sem ousar abrir a boca. Ser vampiro era tão ruim quanto ser lobisomem ou metamorfo. Ela se lembrou de Della quase chorando ao falar da repulsa do ex-namorado pela temperatura baixa do 12


seu corpo. Não, Kylie preferia manter sua própria temperatura. E o que dizer de uma dieta essencialmente à base de sangue...? Ela nem comia carne vermelha com frequência e, quando comia... era muito bem passada, por favor! Holiday, líder do acampamento e sua mentora, achava improvável que Kylie começasse a exibir mudanças físicas muito acentuadas. Mas achava também que tudo é possível. Na verdade, Holiday — uma fada da cabeça aos pés — não poderia prever o futuro de Kylie. Porque Kylie era uma anomalia. E detestava ser uma anomalia. Ela nunca tinha se ajustado ao mundo humano, é verdade, e não estava nem aí se não se ajustasse ao sobrenatural também. O que não significava que os outros campistas não a aceitassem. Pelo contrário, ela se sentia mais próxima deles do que dos adolescentes humanos. Bem, só tinha passado a pensar assim depois de descobrir que ninguém ali estava louco para transformá-la em jantar. Como Della e Miranda eram agora suas duas melhores amigas — não havia nada que ela não compartilhasse com as duas. Doar sangue era uma boa prova disso. Só havia uma coisa que ela não podia dividir com suas duas melhores amigas. Os fantasmas. A maioria dos sobrenaturais tinha o pé atrás com fantasmas. Mas quem disse que a própria Kylie também não tinha? O que não impedia, porém, que aqueles fantasmas irritantes vivessem aparecendo para lhe fazer uma visitinha. De qualquer maneira, não importava o tipo de sobrenatural que ela fosse, ser um ímã para fantasmas era o dom que ela tinha. Ou... um deles. Holiday achava que se comunicar com fantasmas provavelmente era um dos muitos dons de Kylie, e outros se manifestariam no devido tempo. Kylie só esperava que qualquer dom futuro fosse mais fácil de lidar do que falar com gente morta, o que lhe parecia ao mesmo tempo um enigma e um desafio. — Está chegando! — avisou Miranda. Kylie viu alguém passando o copo para Helen. Sua garganta se contraiu um pouco mais e seu olhar se desviou para Derek, o meio fae de cabelos castanhos que, no círculo, estava três campistas antes de Helen. Ela não o vira bebendo o sangue. O que não a incomodava nem um pouco. Da próxima vez que se beijassem ela não queria pensar nele com sangue nos lábios. 13


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C. C. Hunter

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Tradução: DENISE DE C. ROCHA DELELA

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Título do original: Whispers at Moonrise. Copyright © 2012 Christie Craig. Publicado mediante acordo com St. Martin’s Press, 175 Fifth Avenue, New York, N.Y.10010. Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1ª edição 2013. 2ª reimpressão 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção: Estela A. Minas Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Maria Aparecida A. Salmeron e Vivian Miwa Matsushita Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hunter, C. C. Sussurros ao luar / C. C. Hunter ; tradução Denise de C. Rocha Delela. 1. ed. — São Paulo : Jangada, 2013. Título original: Whispers at Moonrise. ISBN 978-85-64850-35-4 1. Ficção norte-americana I. Título. 13-03581

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1. Ficção : Literatura norte-americana 813

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editorajangada.com.br http://www.editorajangada.com.br

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À minha editora, Rose Hilliard, e à minha agente, Kim Lionetti, por me ajudarem a atingir meus objetivos como escritora. Ao meu marido, por cozinhar, lavar a louça e se encarregar da roupa suja, para que eu pudesse ter tempo de cumprir os prazos da editora e tornar os meus sonhos realidade.

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Agradecimentos

Tantas vezes nesta vida perdemos tempo apontando os erros dos outros, desde a garçonete do restaurante até o empacotador do supermercado. Mas nós nos esquecemos de dizer às pessoas quando elas acertam. Então eu gostaria de tirar o meu chapéu para uma organização e um grupo de pessoas que estão fazendo a coisa certa. Ao Romance Writers of America, pela criação de uma organização que me proporcionou o conhecimento necessário para ascender nesta carreira. À Rosa Brand, pelos seus vídeos incríveis e pela amizade. À Faye Hughes e Kathleen Adey, por me ajudarem a dar conta de tudo. Obrigada por tudo o que vocês duas fazem por mim. A todos os meus amigos escritores, cujo apoio é essencial para transformar essa carreira quase sempre solitária no convívio com um grupo de pessoas que ri e chora junto, e que mantém viva a inspiração uns dos outros. Um agradecimento especial a outra amiga escritora, Susan Muller, pela hora de caminhada, pelas conversas e pelas risadas que damos todos os dias. Aos meus pais, Pete Hunt e Ginger Curtis. Vocês devem ter acertado, porque eu não me saí tão mal assim. Bem, eu não sou perfeita, mas, no geral, vocês devem ter me criado da maneira certa. Aos meus filhos, que também não se saíram tão mal assim. Eu estou orgulhosa de vocês dois. E como, enquanto escrevo estas linhas, é quase Dia dos Pais, obrigada a Jason, meu genro, por ser um pai campeão para a minha precio­sa neta. Um grande agradecimento aos fãs que recomendaram a minha série aos amigos. E minha gratidão àqueles fãs que me escreveram e-mails e disseram que os meus livros os tocaram

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de alguma forma. Esses e-mails ajudam a manter viva a minha alegria de escrever e me incentivam, mesmo quando estou lutando contra prazos apertados. Obrigada a cada um de vocĂŞs por fazerem a coisa certa.

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Capítulo Um

Kylie Galen estava de pé na varanda do escritório de Shadow Falls, o pânico colocando à prova a sua sanidade. Uma rajada de vento de final de agosto, ainda gelado devido à presença do espírito de seu pai, fez esvoaçar os seus longos cabelos loiros e os espalhou pelo seu rosto. Ela nada fez para afastá-los. Ou para respirar. Só ficou ali, com o ar preso nos pulmões, enquanto olhava através das mechas para as árvores balançando ao sabor da brisa. Por que a vida tinha que ser tão difícil? A pergunta quicava em sua mente como uma bola de pingue-pongue enlouquecida. Então a resposta surgiu tão rápido quanto a pergunta. Porque você não é totalmente humana. Nos últimos meses, Kylie tinha se esforçado para identificar o tipo de sangue não humano que corria em suas veias. Agora ela sabia. De acordo com o seu velho e querido pai, ela era um... camaleão. Um lagarto, como os que ela via tomando sol no seu quintal. Ok, talvez não exatamente como eles, mas bem parecida. Antes ela se preocupava com a possibilidade de ser um vampiro ou um lobisomem, porque seria um pouco difícil se adaptar ao hábito de beber sangue ou se transformar em lobo na lua cheia. Mas isso... isso era... incompreensível! Seu pai tinha de estar errado. Seu coração batia forte contra o peito, como se quisesse sair pela boca. Ela finalmente respirou. Inspirou o ar, e em seguida expirou. Seus pensamentos se afastaram do problema do lagarto e se desviaram para outras coisas igualmente ruins. 9

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Sério, nos últimos cinco minutos ela tinha sido nocauteada não apenas por uma, ou duas, ou três, mas por quatro revelações absolutamente surpreendentes. Bem, uma dessas coisas — a confissão de Derek de que ele a amava — não poderia ser considerada totalmente ruim. Mas com certeza também não poderia ser considerada boa. Pelo menos não naquelas circunstâncias. Não quando ela já considerava o relacionamento entre eles coisa do passado. Quando tinha se empenhado durante semanas para se convencer de que eram apenas amigos. Sua mente fazia malabarismos para pensar nas quatro descobertas ao mesmo tempo. Ela não sabia em qual delas se concentrar primeiro. Ou talvez sua mente, na verdade, soubesse. Eu sou um maldito lagarto! — Isso é pra valer? — ela perguntou em voz alta. O vento do Texas carregou para longe suas palavras; Kylie esperava que ele as levasse até o seu pai, onde quer que os mortos aguardassem até completar a sua passagem. — Sério, pai? Um lagarto? Claro que o pai não respondeu. Depois de dois meses falando com espíritos, o dom de ver fantasmas e suas limitações ainda a deixavam exasperada. — Droga! Ela deu mais um passo em direção à porta do escritório principal, prestes a descarregar toda a sua frustração em Holiday Brandon, a líder do acampamento, mas então parou. Burnett James, o outro líder do acampamento e um vampiro de toque gelado mas temperamento ardente, estava com Holiday. Como Kylie não conseguia mais ouvi-los discutindo, ela achou que isso significava que poderiam estar fazendo outra coisa. E, sim, por outra coisa, ela queria dizer se pegando, trocando saliva, fazendo a dança da língua. Todas as expressões bizarras que sua amiga Della, uma vampira irreverente e de maus modos, usaria. E citá-las provavelmente significava que Kylie estava de mau humor. Mas ela não tinha direito a um pouco de mau humor depois de tudo o que havia acontecido? Cerrando os punhos, ela olhou para a porta da frente do escritório. Já tinha interrompido sem querer o primeiro beijo de Burnett e Holiday, e não queria fazer o mesmo com o segundo. Especialmente depois que Burnett ameaçara deixar Shadow Falls. É claro que Holiday poderia fazê-lo mudar de ideia. Ou será que não? 10

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Além disso, talvez ela precisasse se acalmar um pouco. Pensar por um momento antes de correr para Holiday com seus surtos histéricos. Seus pensamentos se desviaram para o seu mais recente fantasma. Como ela poderia ver o fantasma de alguém que ainda estava vivo? Era um truque, certo? Tinha que ser um truque. Kylie olhou em volta para se certificar de que o fantasma realmente tinha ido embora. O frio havia desaparecido. Virando-se de costas para a porta, ela desceu correndo os degraus da varanda e contornou a cabana onde ficava o escritório. Começou a correr, querendo experimentar a sensação de liberdade que sentia quando corria realmente rápido, como nenhum ser humano podia correr. O vento levantava o vestido preto que ela usara no funeral de Ellie e o fazia dançar em torno de suas coxas. Seus pés se moviam com ritmo, sem quase nem sentir falta dos tênis Reebok que ela normalmente usava, mas, quando chegou à borda da floresta, Kylie fez uma parada abrupta — tão abrupta que o salto de seus sapatos deixou sulcos profundos na terra. Kylie não podia ir para a floresta. Ela não tinha uma sombra, uma companhia obrigatória que a ajudasse a afastar o perverso Mario e seus companheiros, caso estes decidissem atacá-la. Atacá-la novamente. Até agora as tentativas do velho para acabar com a vida dela tinham fracassado, mas duas delas tinham resultado na morte de alguém. A culpa fez latejar o seu peito já apertado. Depois veio o medo. Mario já tinha provado até onde estava disposto a ir para capturá-la, quanto ele era cruel ao tirar a vida do próprio neto bem na frente dela. Como alguém podia ser tão perverso? Ela olhou para a fileira de árvores e observou enquanto as folhas dançavam com a brisa. Era um cenário completamente normal que devia fazê-la se sentir em paz. Mas Kylie não sentia paz. O bosque, ou melhor, algo que se escondia dentro dele, a desafiava a encarar o medo e entrar. Provocava-a para que ela avançasse até a espessa fileira de árvores. Confusa com a estranha sensação, Kylie tentou afastá-la, mas o sentimento persistiu, ainda mais intenso. Ela inspirou o cheiro de mato e, no mesmo instante, soube. Soube com clareza. 11

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Soube com certeza. Mario não desistiria. Cedo ou tarde Kylie teria de enfrentar o malfeitor novamente. E não seria um encontro sereno, tranquilo ou pacífico. Apenas um deles sairia vivo. Você não estará sozinha. As palavras ecoaram dentro dela como se para lhe oferecer um pouco de paz. Mas a paz não veio. As sombras entre as árvores dançavam no chão, convidando-a, chamando-a. Para fazer o que, ela não sabia. A apreensão oprimiu outra vez o peito de Kylie. Ela cravou os saltos mais profundamente na terra batida. A sola do sapato direito produziu um estalo, um som sinistro que pareceu acentuar o silêncio. — Merda! — Ela olhou para os próprios pés. O palavrão parecia ter sido arrancado do ar e nada exceto um zumbido sobrenatural permaneceu. E foi então que ela ouviu. Alguém com uma respiração áspera. Embora o som fosse apenas um sussurro, ela sabia que havia alguém atrás dela. Bem perto. E como nenhum calafrio de morte a cercava, ela sabia que não se tratava de alguém do mundo dos espíritos. O barulho voltou. Alguém enchia os pulmões com o ar vivificante. Estranho como ela agora temia os vivos mais do que os mortos. Seu coração parou abruptamente. Como os sulcos deixados na terra pelos saltos de dez centímetros, seu medo crescente deixou sulcos em sua coragem. Ela não estava pronta. Se fosse Mario, ela não estava pronta. Independentemente do que precisasse fazer, o plano ou destino que estava fadada a seguir, ela precisava de mais tempo.

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C. C. Hunter

ESCOLHIDA AO ANOITECER OS SOBRENATURAIS

Tradução: DENISE DE C. ROCHA DELELA

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Título do original: Chosen at Nightfall. Copyright © 2013 Christie Craig. Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com St. Martin’s Press, 175 Fifth Avenue, New York, N.Y.10010. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2013. 2a reimpressão 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Estela A. Minas Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Maria Aparecida A. Salmeron e Vivian Miwa Matsushita

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ H922e 1. ed. Hunter, C.C. Escolhida ao anoitecer : os sobrenaturais / C.C. Hunter ; tradução Denise de C. Rocha Delela. — 1. ed. — São Paulo : Jangada, 2013. Tradução de: Chosen at Nightfall ISBN 978-85-64850-54-5 1. ficção norte-americana. I. Delela, Denise de C. Rocha. II. Título. 13-05200

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CDD: 813 CDU: 821.111-3

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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Para Val Sturman. Quando conheci você, a minha vida ficou um pouquinho mais brilhante. Você abriu caminho pela minha vida com passos de dança, um sorriso, uma obsessão por contar histórias e uma palavra carinhosa para qualquer pessoa disposta a ouvir. Sinto-me honrada e abençoada por chamá-la de amiga. Sentirei saudades.

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Agradecimentos

A Rose Hilliard, minha editora, que me catapultou para o gênero jovens adultos e me ajudou a realizar este fantástico e inacreditável sonho editorial. Você é demais! A minha agente, Kim Lionetti, que me ajudou a enfrentar os altos e baixos da minha carreira e as suas loucas reviravoltas. Foi uma jornada de tirar o fôlego e não vejo a hora de saber aonde ela vai nos levar a seguir. Ao meu marido, Steve Craig, que começou tudo ao dizer: “Se você quer ser escritora, então seja!”. E obrigada por me ajudar a seguir em frente, cozinhando e cuidando da roupa suja. Aliás, amor, os sutiãs não podem ir para a máquina de secar. A Kathleen Adey e Shawnna Perigo, por me ajudarem em todas as coisas relacionadas ao ofício de escrever. Vocês duas me fizeram parecer ótima, obrigada. Aos meus fãs: aqueles e-mails que vocês mandaram, os comentários no Facebook e as coisas que postaram no Twitter contribuíram para dar mais alegria a esta alma de escritora. Vocês me mantiveram inspirada. Um enorme obrigada a todos os pais por pagarem pelos livros, de modo que seus filhos adolescentes pudessem mergulhar de cabeça no meu mundo ficcional, e especialmente às mães e aos pais que os levaram aos lançamentos e fizeram questão de me contar quanto os filhos adoram Shadow Falls. Para todos os adultos que confessaram “Eu não sou adolescente, mas adoro a sua série”. E, por fim, mas não menos importante, àqueles escritores pelo mundo afora, com sua incansável determinação para encontrar um lugar ao sol no mundo editorial: com milhares de rejeições nas costas, acreditem quando digo: nunca, nunca desistam do seu sonho.

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Capítulo Um

Kylie Galen desviou os olhos da sua fatia de pizza de pepperoni sobre o prato de porcelana e tentou ignorar o fantasma que brandia a espada sangrenta bem atrás do seu avô e da sua tia-avó. Os membros recém-descobertos da sua família até que eram... gente boa, mas um pouco certinhos demais. E gente certinha provavelmente não apreciaria um fantasma indesejado manchando de sangue as paredes da sala de jantar. O espírito, uma mulher de cabelos escuros e soltos, com trinta e poucos anos, conteve o movimento da espada e olhou diretamente para Kylie. Ou você mata ou matam você. É simples assim. As palavras reverberaram na cabeça de Kylie. Elas tinham sido transmitidas telepaticamente e, considerando o tópico discutido, essa provavelmente era a melhor opção. — Não é tão simples assim — Kylie contra-atacou. — Estou tentando comer, então você se incomodaria de ir embora? — Que indelicadeza! — exclamou o fantasma. — Você deveria ajudar os espíritos. Precisa ser fiel às suas próprias regras. Kylie torceu o guardanapo de pano em seu colo. Será que existe alguma coisa nos manuais que obrigue alguém que se comunica com fantasmas a ser educado com espíritos detestáveis? Ah, espere aí, ela não tinha uma droga de manual nem instruções a seguir. Estava improvisando. Improvisando em tudo, na verdade: na comunicação com fantasmas, no fato de ser sobrenatural e de ser a namorada de alguém. Ex-namorada de alguém! Ultimamente, ela sentia que estava improvisando toda a sua droga de vida, e fazendo uma confusão danada, também. Como sua decisão de deixar Shadow Falls, o acampamento recentemente transformado em escola para adolescentes paranormais. Na época ela sentiu que era a coisa certa a fazer. 9

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Na época. Ela estava ali, na morada dos camaleões, havia menos de duas semanas e não tinha mais tanta certeza. É verdade que tivera uma boa razão para vir — descobrir mais sobre sua herança paranormal. Ter a chance de conhecer o avô, Malcolm Summers, e a tia-avó, Francyne. Meses depois de saber que não era totalmente humana, ela finalmente descobriu que era um camaleão, uma espécie rara que foi obrigada a se esconder depois que uma unidade do governo paranormal, a Unidade de Pesquisa de Fallen, ou UPF, tinha usado alguns dos seus membros como cobaias para tentar explicar suas habilidades. A própria avó de Kylie tinha morrido por causa desses experimentos. E agora o mesmo ramo da UPF queria fazer testes com Kylie. Dava para acreditar que isso estava acontecendo?! Mas a maior motivação de Kylie para deixar Shadow Falls não tinha nada a ver com a UPF ou com a descoberta da sua herança familiar. Tinha tudo a ver com a sua fuga. Fuga de Lucas, o lobisomem por quem era apaixonada. O lobisomem que tinha prometido a própria alma a uma garota da própria espécie e esperava que Kylie acreditasse que aquela promessa não significava nada para ele. Como Lucas podia ter feito uma coisa daquelas? Como podia ter beijado Kylie com tanta paixão ao longo de todo o mês anterior e, no entanto, ter-se encontrado com aquela garota toda vez que ia para a casa do pai? Como Kylie podia ficar em Shadow Falls e continuar olhando na cara dele? O problema era que ela até podia ter conseguido fugir de Lucas, mas não da própria desilusão. E agora não estava sofrendo apenas por causa de um certo lobisomem; estava sofrendo porque... cada célula do seu corpo sentia falta de Shadow Falls. Tudo bem, talvez não tanto de Shadow Falls, mas das pessoas de lá. Os amigos que tinham se tornado sua família: Holiday, a fae líder do acampamento, que era como uma irmã mais velha. Burnett, o vampiro austero, outro líder do acampamento que era ao mesmo tempo um amigo e uma espécie de pai para ela. Suas duas colegas de alojamento, Della e Miranda, que se sentiram abandonadas quando Kylie partiu. E Derek, que tinha declarado seu amor, mesmo sabendo que ela amava Lucas. 10

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Ah, Deus, ela sentia tanta falta de todo mundo! E o mais irônico era que estava só a alguns quilômetros de Shadow Falls, entocada numa região isolada e montanhosa e que poderia muito bem estar do outro lado do mundo. Claro que ela falava com Holiday todo dia. A princípio o avô tinha recusado esse direito a ela, mas a tia havia insistido para que ele fosse mais razoável. O avô tinha voltado atrás, mas só se ela usasse um certo aparelho telefônico e fosse muito breve, para que os telefonemas não fossem rastreados. E de maneira nenhuma Kylie poderia contar onde estava. Como o acampamento era filiado à UPF, o avô não confiava em ninguém em Shadow Falls. E essa desconfiança só contribuía para aumentar o seu sentimento de isolamento com relação a todos que amava. Até com relação à mãe, que telefonara para avisar que viajaria para a Inglaterra com John, o seu novo namorado, com quem Kylie não simpatizava nem um pouco. Evidentemente, o avô permitia que ela retornasse a ligação da mãe toda vez que ela ligava. Por isso elas tinham se falado duas vezes. Mas só duas vezes. As lágrimas provocaram um aperto na garganta de Kylie, mas ela se recusou a chorar. Tinha que ser forte. Já estava bem crescidinha e precisava agir como a adulta que era. — A pizza está boa? — a tia-avó perguntou. — Sim, está ótima. — Kylie viu os dois parentes idosos cortarem a pizza de pepperoni como se fosse um bife. Ela sabia que eles tinham servido a pizza apenas por causa dela, pois perguntaram quais eram seus pratos preferidos depois de ver que ela mal tocara em suas refeições nos últimos dias. Sentindo-se obrigada tanto a comer quanto a demonstrar boas maneiras assim como eles, ela se forçou a morder um pedaço de pizza e mastigá-lo. Ela não era um vampiro agora, portanto devia estar apreciando a comida. Mas não estava. Nada parecia ter gosto. Nada parecia certo. Não parecia certo comer pizza com garfo e faca, num prato de porcelana tão fina que parecia rara e antiga o bastante para estar num museu. Nem se sentar nessa luxuosa mesa de jantar posta com toda a pompa. E, especialmente, não parecia certo ver um espírito se aproximando do avô, segurando uma espada sobre a cabeça dele. Kylie olhou para o espírito. 11

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— Ou você me diz exatamente do que você precisa, sem que isso envolva assassinato, ou é melhor ir embora. Uma gota de sangue caiu na testa do avô. Não que ele pudesse ver ou sentir. Mas Kylie podia. O espírito fazia aquele showzinho só para chamar a atenção de Kylie. E estava funcionando. — Pare! Vá embora. — Kylie lançou um olhar de advertência para o espírito. — Você está com um péssimo humor, sabia? — disse o fantasma. Sim, ela estava, Kylie admitiu para si mesma. A desilusão fazia isso com as pessoas. Tirava toda a alegria de viver. Ou talvez o que mais tirasse essa alegria fosse a falta que todo mundo fazia. Não que o tempo passado ali com o avô não tivesse sido proveitoso. Ela descobrira muito sobre si mesma e sobre os camaleões naqueles treze dias. Os camaleões só tinham aparecido havia algumas centenas de anos. Embora eles se considerassem uma espécie, na verdade eram uma mescla de todos os paranormais — indivíduos dotados do DNA e dos poderes de todas as espécies. O problema era que aprender a controlar esses poderes era dificílimo. A maioria dos camaleões só conseguia essa proeza com vinte e poucos anos. Não que houvesse muitos jovens camaleões tentando fazer isso. Os camaleões eram raros. Segundo o avô, existia uma centena de comunidades como aquela ao redor do mundo, mas no total havia menos de dez mil membros da sua espécie. E a cada dez casais de camaleões, só um era capaz de gerar uma criança. Por isso a população era tão pequena. Kylie não podia deixar de perguntar se um dia conseguiria ter filhos. Mas, que droga! Ela só tinha 16 anos, era muito jovem para começar a se preocupar com a possibilidade de não ser fértil. — Como foram as aulas hoje? — perguntou o avô. Kylie concentrou a atenção no homem. Aos setenta e poucos anos, seu cabelo ainda era loiro avermelhado, com apenas alguns fios brancos. Seus olhos, de um azul brilhante, eram da mesma cor dos olhos dela e dos do pai. 12

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Outra gota de sangue caiu na bochecha dele. Kylie rosnou para o fantasma risonho, que cortou o ar com a espada, parando a apenas um centímetro da cabeça do ancião. — Eu disse pra parar! — exclamou Kylie, apertando os olhos. — Não foi tudo bem? — o avô perguntou, obviamente lendo a expressão facial da neta. — Não, foi tudo bem, sim. Eu já sou... já fui capaz de mudar meu padrão de lobisomem para fae. Todos os sobrenaturais tinham padrões que podiam ser vistos pelos outros. Os camaleões tinham o seu próprio padrão, que eles escondiam. E, ao contrário de qualquer outro sobrenatural, podiam assumir o padrão de qualquer espécie e adquirir seus poderes ao se transformar. O problema era que, assim como seus outros poderes, esse não era fácil de controlar. As aulas ali não incluíam inglês, matemática e ciências, mas o treinamento de como controlar seus poderes e esconder seu verdadeiro padrão de todo mundo. — Isso é ótimo. Então por que a cara feia? — o avô perguntou. — É que... — Eu estou muito infeliz aqui. Quero voltar para Shadow Falls. As palavras estavam na ponta da língua, mas ela não conseguiu dizê-las. Não diria enquanto não tivesse certeza de que conseguiria voltar. Enquanto não soubesse como conseguiria sobreviver ao olhar para Lucas. — Eu não estava fazendo cara feia para o senhor. É que... — Kylie tem companhia — disse Francyne. A tia não podia se comunicar com fantasmas. Ela dizia que não conseguia vê-los ou ouvi-los, mas podia sentir a presença deles sem dificuldade. O fantasma segurava a espada em riste, apontando-a para o teto como se fosse fazer uma grande declaração. — Você em breve terá mais companhia. Kylie não sabia o que aquilo significava, mas agora ela não encarava o fantasma, mas o avô, que a fitava confuso. — Companhia? — O avô olhou para a tia. — Ah! — Ele ficou tenso. Então arregalou os olhos. — É a minha mulher ou o meu filho, Daniel? — Não. — Kylie gostaria que fosse Daniel, seu pai, que morrera antes de ela nascer. Ela bem que precisava de um pouco de consolo e seu pai era realmente bom nisso. No entanto, ele já esgotara o seu tempo na Terra. 13

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— Nenhum deles. É... outra pessoa — respondeu Kylie. Alguém que ainda tinha que explicar o que queria ou precisava. Bem, a não ser pelo fato de que ela já tinha dito que precisava de Kylie para matar alguém. O que o espírito pensava que ela era? Uma assassina de aluguel? O espírito se curvou para chegar mais perto da orelha do avô de Kylie. — É uma pena que não possa me ver. Você é uma graça. — Ela lambeu o sangue da bochecha dele. Bem devagar. E olhou para Kylie enquanto fazia isso. Kylie derrubou o garfo. — Pare de lamber meu avô, agora mesmo! O espírito voltou a pôr a língua dentro da boca e olhou para Kylie. — Pare de lutar contra o seu destino. Aceite o que tem que fazer. Deixe-me lhe ensinar como deve matá-lo. — Matar quem? — Kylie deixou escapar, mas em seguida se encolheu ao perceber que estava falando alto. — Lamber? Matar? O quê? — o avô perguntou. — Nada — insistiu Kylie. — Eu estava falando... — Ela estava falando com o espírito, eu presumo — completou a tia, com as sobrancelhas franzidas, demonstrando preocupação. — Falando sobre matar alguém? — o avô perguntou, olhando diretamente para Kylie. Quando a neta não respondeu, Malcolm olhou em volta da sala como se estivesse nervoso. Sua expressão de medo lembrava muito a dos outros sobrenaturais de Shadow Falls. Foi nesse momento que um pensamento lhe ocorreu. Kylie tinha vindo por achar que iria se adaptar e, no entanto, mesmo vivendo num complexo de cinquenta acres do Texas com 25 outros camaleões, ainda não conseguira se entrosar. E não era só porque falava com fantasmas, mas porque era muito mais madura do que os outros quatro adolescentes que moravam ali. E eles também não pareciam muito entusiasmados diante de uma novata muito mais precoce do que eles. Os anciãos do grupo — que incluíam seu avô, sua tia-avó e mais quatro outros — achavam que o desenvolvimento precoce de Kylie devia-se ao fato de ela também ser uma protetora, uma sobrenatural com poderes extraordinários. Embora isso parecesse o máximo, Kylie não concordava com aquela descrição por várias razões. 14

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No topo da lista estava o fato de ela só poder usar esses poderes para proteger os outros, nunca a si mesma, o que para Kylie não fazia o menor sentido. Se ela tinha a incumbência de proteger os outros, não era importante que se mantivesse viva? Quem, afinal, tinha inventado aquela regra? Kylie soltou um suspiro que, ao escapar dos lábios, denunciou sua tristeza. Será que era sua sina ser uma eterna desgarrada? O avô se curvou para a frente e apoiou o garfo e a faca de prata sobre o caro prato de porcelana. — Kylie, eu detesto me intrometer nos seus... assuntos espirituais, mas por que um espírito estaria conversando com você sobre matar alguém? Kylie mordeu o lábio e tentou encontrar uma maneira de explicar sem assustá-los demais. Especialmente porque aquilo também a deixava apavorada. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi salva por uma campainha. Uma campainha muito alta, mais parecida com uma sirene. As luzes do lustre sobre a mesa começaram a piscar. O avô, mais carrancudo ainda, tirou o celular do bolso da camisa imaculadamente branca e bem passada, apertou um botão e colocou-o junto à orelha. — O que é? — Ele fez uma pausa. — Quem? — perguntou com rispidez, desviando os olhos para Kylie. — Já estou indo! Ele desligou o telefone e se levantou da cadeira, depois olhou para a cunhada. — Você e Kylie, sumam daqui. Escondam-se no celeiro. Volto logo. Quando disse “sumam”, Kylie presumiu que ele estivesse se referindo a ficar invisível, outra coisa que os camaleões faziam. Desvanecer-se no ar. — O que está acontecendo? — Kylie perguntou, lembrando-se de que o fantasma a advertira de que logo ela teria companhia. — Temos intrusos. — O tom prático e severo do avô se aprofundou ainda mais e ficou mais sério. — Intrusos? — Kylie perguntou. Os olhos dele se estreitaram. — É a UPF! Agora sumam! A tia contornou a mesa e pegou a mão de Kylie. Então a mulher se desvaneceu no ar e, numa fração de segundo, Kylie olhou para baixo e viu que suas pernas tinham desaparecido. 15

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C. C. Hunter

LEVADA AO ENTARDECER OS SOBRENATURAIS

Tradução: DENISE DE C. ROCHA DELELA

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Título do original: Taken at Dusk. Copyright © 2012 Christie Craig. Copyright da edição brasileira © 2012 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com St. Martin’s Press. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1ª edição 2012. 3ª reimpressão 2014. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance, são também produtos da imaginação do autor e são usados de modo fictício. Coordenação editorial: Denise de C. Rocha Delela e Roseli de S. Ferraz Consultoria de linguagem: Giovanna Rocha Delela Diagramação: Fama Editoração Eletrônica Revisão: Liliane Scaramelli M. Cajado Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hunter, C. C. Levada ao entardecer : os sobrenaturais / C. C. Hunter ; tradução Denise de C. Rocha Delela. — São Paulo : Jangada, 2012. Título original: Taken at Dusk. ISBN 978-85-64850-23-1 1. Ficção norte-americana I. Título. 12-11905

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CDD-813.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813.5

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editorajangada.com.br http://www.editorajangada.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


Sempre há, em nossa vida, uma pessoa que, sabemos, ajudou-nos a nos tornar quem somos. Uma pessoa sem a qual não teríamos empreendido a mesma jornada. Uma pessoa que não apenas fez diferença, mas foi o trampolim para tudo o que conquistamos. Obrigada, maridão, Steve Craig, por tudo o que você fez para me ajudar a me transformar em quem sou. Obrigada pelo amor, pelos anos e pelas infinitas risadas que compartilhou comigo. Nós formamos uma equipe e tanto, não acha?

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Agradecimentos Ao meu agente, cujo apoio e orientação são exatamente do que esta escritora precisa. A Rose Hilliard, um anjo de editora. A Faye Hughes, minha primeira leitora, que não tem medo dos meus rascunhos assustadores. Obrigada pela ajuda, mas principalmente pela amizade. A Susan Muller, Teri Thackston e Suzan Harden: agradeço a todas vocês pelo apoio, pela amizade, pelas críticas e pelas muitas risadas. Vocês não podem imaginar o quanto significam para mim. A Jody Payne, uma mulher cuja coragem e força me inspiram, e cuja amizade e apoio na redação deste livro foram inestimáveis. A Rosa Brand, também conhecida como R. M. Brand, cujo brilhantismo como artista gráfica me encanta. Obrigada pelo seu apoio, pelos vídeos fabulosos e pela nova amizade. Obrigada a Kathleen Adey pela edição e pelo apoio com a publicidade; você faz com que o cumprimento dos prazos seja uma tarefa mais fácil.

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Capítulo Um

Eles estavam ali. Bem ali no acampamento. Kylie Galen saiu do refeitório lotado, rumo à claridade da luz do Sol, e olhou para o escritório do acampamento Shadow Falls, mais à frente. Não ouvia mais as vozes dos outros campistas. Passarinhos cantavam a distância, uma rajada de vento agitou as árvores, mas ela só ouvia o som do próprio coração martelando no peito. Tum. Tum. Tum. Os avós estavam ali para vê-la. Seu pulso acelerou ao pensar que encontraria os Brightens, o casal que tinha adotado e criado seu pai biológico. Um pai que ela nunca conhecera em vida, mas tinha aprendido a amar com as breves visitas que ele lhe fizera da vida após a morte. Ela andou em direção ao escritório, insegura com o torvelinho emocional que se agitava dentro dela. Empolgação. Curiosidade. Medo. Sim, muito medo. Mas do quê? Uma gota de suor, mais de nervosismo do que do clima quente de final de verão no Texas, rolou pela sua testa. Vá e descubra o seu passado, para que possa descobrir o seu destino. As palavras misteriosas dos anjos da morte se repetiam na sua cabeça. Ela deu um passo à frente e depois parou. Embora não visse a hora de solucionar o mistério sobre quem era o seu pai, quem ela era e, com sorte, a que espécie pertencia, seus instintos gritavam para que desse meia-volta e fugisse dali. 9

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Era disso que ela sentia tanto medo? De saber a verdade? Antes de vir para Shadow Falls, alguns meses antes, Kylie tinha certeza de que era só uma adolescente confusa, cuja sensação de ser diferente era uma coisa normal. Agora entendia por quê. Ela não era normal. Não era nem humana! Pelo menos não totalmente. E descobrir seu lado não humano era como tentar solucionar um enigma. Um enigma que os Brightens podiam ajudar a resolver. Kylie deu outro passo. O vento, como se estivesse ansioso para fugir assim como ela, soprou e levou com ele algumas mechas rebeldes dos seus cabelos loiros, cobrindo seu rosto. Ela piscou e, quando abriu os olhos, o brilho do Sol tinha desaparecido. Ao olhar para cima, viu uma imensa nuvem carregada bem acima dela, provocando uma grande sombra ao seu redor e sobre o arvoredo. Incerta se aquilo era um mau presságio ou uma simples tempestade de verão, ela congelou, o coração acelerando ainda mais. Inspirando o ar com aroma de chuva, Kylie ia dar mais um passo, quando sentiu uma mão segurando seu braço. A lembrança de outra mão agarrando-a fez o pânico disparar em suas veias. Ela se virou, sobressaltada. — Calma! Está tudo bem? — Lucas afrouxou os dedos em torno do braço dela. Kylie prendeu a respiração e fitou os olhos azuis do lobisomem. — Tudo bem. Você só... me assustou. Você sempre me assusta! Precisa assobiar quando estiver se aproximando de mim. — Ela expulsou as lembranças de Mario e do neto vampiro, Ruivo. — Desculpe. — Ele sorriu, enquanto desenhava pequenos círculos com o polegar no braço dela. De algum modo aquela leve carícia com o dedo pareceu... íntima. Como ele conseguia fazer um toque tão simples parecer um doce pecado? Outra rajada de vento, está prenunciando tempestade, agitou o cabelo preto de Lucas e jogou-o sobre a testa. Ele continuou olhando para ela, os olhos azuis aquecendo-a e afastando seus piores medos. 10

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— Você não parece bem. Alguma coisa errada? — Ele estendeu o braço e tirou do rosto dela um fio de cabelo, recolocando-o atrás da orelha. Ela desviou os olhos e fitou a cabana onde ficava o escritório do acampamento. — Meus avós... Os pais adotivos do meu pai biológico estão aqui. Ele devia ter percebido a relutância dela em estar ali. — Achei que você queria vê-los. Por isso pediu que viessem, não foi? — É... Eu só... — Está com medo. — ele terminou a frase por ela. Kylie não queria admitir, mas, como os lobisomens podiam farejar o medo, mentiras eram inúteis. — É. — Ela olhou novamente para ele e viu um toque de divertimento em seus olhos. — O que é tão engraçado? — Você. Ainda estou tentando entendê-la. Quando foi raptada por um vampiro delinquente não parecia tão assustada. Na verdade, você foi... incrível! Kylie sorriu. Não, Lucas é que tinha sido incrível. Ele tinha arriscado a própria vida para salvá-la das garras de Mario e de Ruivo, e ela nunca se esqueceria disso. — Sério, Kylie, se esse é o mesmo casal que eu vi entrando há alguns minutos, então são só dois idosos simplesmente humanos. Acho que você pode dar conta deles com as duas mãos amarradas nas costas. — Não estou assustada desse jeito. Só estou... — Ela fechou os olhos, sem saber ao certo como explicar algo que nem ela entendia direito, mas então as palavras brotaram da sua boca. — O que vou dizer a eles? “Eu sei que vocês nunca disseram ao meu pai que ele era adotado, mas ele descobriu depois de morto. E veio me ver. Ah, sim, e ele não era humano. Então, podem, por favor, me dizer quem são os pais verdadeiros dele? Para que assim eu possa descobrir também o que sou?” Lucas certamente percebeu a angústia na voz dela porque seu sorriso se desvaneceu. — Você vai encontrar um jeito. 11

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— É. — Mas Kylie não estava tão confiante. Ela recomeçou a andar, sentindo a presença dele, o calor do seu corpo, enquanto subia com ela os degraus da cabana. O trajeto tinha sido mais fácil com ele ao seu lado. Lucas parou ao lado da porta e acariciou o braço dela. — Quer que eu entre com você? Ela quase disse sim, mas isso era algo que precisava fazer sozinha. Ela pensou ter ouvido vozes e olhou para trás, em direção à porta. Bem, no final das contas não estaria completamente sozinha. Sem dúvida Holiday, a líder do acampamento, esperava por ela lá dentro, preparada para oferecer apoio moral e também para acalmá-la com seu toque tranquilizador. Normalmente Kylie não gostava que suas emoções fossem manipuladas, mas esse momento poderia ser uma exceção. — Obrigada, mas tenho certeza de que Holiday está aí dentro. Ele assentiu. Seu olhar desceu para sua boca e seus lábios chegaram perigosamente perto. Mas, antes que sua boca exigisse a dela, aquele calafrio que sempre acompanhava os mortos envolveu o corpo de Kylie. Ela pressionou dois dedos sobre os lábios dele. Beijar era algo que ela preferia fazer sem uma plateia, mesmo que fosse do outro mundo. Ou talvez não fosse simplesmente a plateia. Ela estaria realmente pronta para se entregar aos beijos dele? Era uma boa pergunta, e ela precisava de uma resposta, mas tinha que pensar num problema de cada vez. No momento ela tinha os Brightens com que se preocupar. — Tenho que ir — ela disse, apontando para a porta. O frio se fez sentir novamente. Corrigindo: ela tinha os Brightens e um fantasma com que se preocupar. A decepção brilhou nos olhos de Lucas. Então ele mudou de posição, parecendo desconfortável, e olhou em volta como se percebesse que não estavam sozinhos. — Boa sorte. — Ele hesitou um pouco e depois começou a se afastar. Kylie o observou indo embora e, então, olhou ao redor, procurando pelo espírito. Arrepios percorreram sua espinha. Sua capacidade de ver fantasmas tinha sido a primeira pista de que ela não era normal. — Isso não pode esperar até mais tarde? — ela sussurrou. Uma nuvem de fumaça apareceu ao lado das cadeiras de balanço brancas, na varanda da cabana. O espírito obviamente não tinha poder ou co12

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nhecimento suficientes para completar a manifestação. Mas o que tinha bastou para fazer as cadeiras balançarem. O rangido da madeira no assoalho parecia fantasmagórico... o que de fato era. Ela esperou, supondo se tratar do espírito da mulher que tinha aparecido naquele mesmo dia dentro do carro da mãe dela, quando passavam na frente do Cemitério de Fallen, a caminho do acampamento. Quem era ela? O que queria de Kylie? Nunca havia respostas fáceis quando se tratava de fantasmas. — Agora não é uma boa hora — ela insistiu, mesmo sabendo que seria inútil. Os espíritos acreditavam na política de portas abertas. A nuvem de fumaça começou a tomar forma e o peito de Kylie inflou de emoção. Não era a mulher que ela vira antes. — Daniel? — Kylie estendeu a mão e as pontas dos seus dedos penetraram na névoa gelada enquanto ela tomava uma forma mais familiar. Um sentimento cálido — uma mistura de amor e remorso — subiu pelo braço dela. Ela puxou a mão para trás, mas lágrimas inundaram seus olhos. — Daniel? — Ela quase o chamou de pai. Mas aquilo ainda parecia esquisito. Ela assistiu enquanto ele se esforçava para se manifestar. Daniel explicara uma vez que o seu tempo de permanência na Terra era limitado. Mais lágrimas encheram seus olhos quando ela percebeu o quanto era limitado. Seu sentimento de perda triplicou quando pensou em como isso devia ser difícil para ele. Seu pai queria estar ali quando ela conhecesse os avós. E ela também precisava dele ali — queria muito que ele tivesse lhe contado um pouco mais sobre os Brightens — e desejou mais do que tudo que ele não tivesse morrido. — Não! — A única palavra de Daniel, pronunciada rapidamente, soou urgente. — Não, o quê? — Ele não queria (ou não podia) responder. — Eu não devo perguntar a eles sobre os seus pais verdadeiros? Mas eu tenho que fazer isso, Daniel, esse é o único jeito de eu descobrir a verdade. — Não é... — Sua voz falhou. — Não é o quê? Não é importante? — Ela esperou pela resposta, mas a fraca aparição empalideceu e o frio espiritual que a rodeava começou a 13

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se dissipar. As cadeiras brancas diminuíram seu balanço e um silêncio caiu sobre ela. — É importante para mim — disse Kylie. — Eu preciso... O calor do Texas afugentou o frio persistente. Ele tinha ido embora. De repente ocorreu a Kylie que ele poderia nunca mais voltar. — Não é justo! Ela secou com um gesto brusco as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. A necessidade de correr e se esconder se tornou quase irreprimível. Mas ela resistiu até que passasse. Segurou a maçaneta da porta, ainda sentindo frio por causa do espírito de Daniel, e se preparou para enfrentar os Brightens. No interior da cabana, Kylie ouviu leves murmúrios vindos de uma das salas de reuniões, nos fundos. Ela tentou discernir as palavras. Nada. Nas últimas semanas, tinha se surpreendido ao perceber que sua audição estava ultrassensível. Mas esse novo dom se revelou passageiro. Que bem poderia fazer um talento como esse se ela não sabia como usá-lo? Só contribuía para aumentar a sensação de que tudo em sua vida estava fora de controle. Mordendo o lábio, ela cruzou silenciosamente o corredor e tentou se concentrar no seu objetivo principal: obter respostas. Quem eram os verdadeiros pais de Daniel? De que espécie ela era? Kylie ouviu Holiday dizer: — Tenho certeza, vocês vão amar Kylie! Os passos dela ficaram mais lentos. Amar? Não era um pouco demais? Eles poderiam simplesmente gostar dela. Isso já estava de bom tamanho. Amar alguém era... complicado. Mesmo gostar muito de alguém tinha suas desvantagens, como ela comprovou quando um certo meio fae supergato decidiu que ficar perto dela era difícil demais... e deu no pé. É isso aí, Derek era definitivamente um exemplo da desvantagem de se gostar muito de alguém. E ele provavelmente era a razão de ela hesitar em aceitar os beijos de Lucas. Um problema de cada vez. Ela afastou o pensamento ao entrar pela porta aberta da sala de reunião. O homem idoso sentado à mesa estava com as mãos cruzadas sobre a grande escrivaninha de carvalho. 14

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— Em que tipo de problema ela se meteu? — Como assim? — Holiday voltou os olhos verdes para a porta e jogou os longos cabelos ruivos por sobre os ombros. O velho continuou: — Nós pesquisamos sobre Shadow Falls na Internet e descobrimos que é um acampamento para adolescentes problemáticos. Que maravilha! Os pais de Daniel achavam que ela era uma delinquente juvenil. — Vocês não devem acreditar em tudo o que leem na Internet. — Uma ponta de contrariedade transpareceu na voz da líder do acampamento. — Na verdade, somos uma escola para adolescentes muito talentosos que estão tentando conhecer a si mesmos. — Por favor, não me diga que são drogas! — exclamou a senhora de cabelos grisalhos, sentada ao lado do homem. — Não sei se eu conseguiria lidar com isso. — Não sou uma drogada! — disse Kylie em voz alta, sentindo na pele o que Della, sua colega de quarto vampira, tinha de suportar com essa suspeita dos pais. Todas as cabeças se voltaram para Kylie que, sentindo-se o centro das atenções, prendeu a respiração. — Ah, querida! — lamentou a mulher. — Eu não quis ofendê-la. Kylie entrou na sala. — Não estou ofendida. Só queria deixar isso bem claro. — Ela fitou os olhos de um cinza desbotado da mulher e depois se voltou para o velho, em busca... do quê? De uma semelhança, talvez. Por quê? Ela sabia que eles não eram os pais verdadeiros de Daniel. Mas eles o haviam criado, provavelmente tinham transmitido a ele seu jeito de ser e suas qualidades. Kylie pensou em Tom Galen, seu padrasto, o homem que a criara e que até pouco tempo antes ela acreditava ser seu verdadeiro pai. Embora Kylie ainda não tivesse aceitado bem o fato de ele ter abandonado sua mãe, depois de dezessete anos de casamento, ela não podia negar que tinha alguns trejeitos dele. Não que não visse mais de Daniel em si mesma; ela herdara do pai desde o DNA sobrenatural até suas características físicas. — Nós lemos num site que este era um abrigo para adolescentes problemáticos. — Kylie percebeu um pedido de desculpas na voz do velho. 15

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Ela se lembrou de Daniel dizendo a ela que seus pais adotivos o amavam e que a amariam também se a conhecessem. Amor. A emoção se acumulava em seu peito. Tentando decifrar a sensação, Kylie se lembrou de Nana, a mãe de sua mãe, e do quanto a adorava, o quanto tinha sofrido quando ela morrera. Será que era a constatação de que os Brightens já tinham bastante idade — e que seu tempo na Terra era breve — que a fizera se lembrar da avó falecida? Como se o pensamento na morte de algum modo o tivesse evocado, um frio fantasmagórico se instalou na sala. Daniel? Ela o chamou mentalmente, mas o frio que pinicava sua pele era diferente. Quando o ar frio entrou nos pulmões de Kylie, o espírito se materializou atrás da senhora Britghten. Embora a aparição parecesse feminina, sua cabeça raspada refletia a luz acima. Pontos cirúrgicos de aparência recente eram visíveis no couro cabeludo raspado, fazendo Kylie se encolher de aflição. — Só estamos preocupados — explicou o senhor Brighten. — Não sabíamos que você existia. — Eu... entendo — Kylie respondeu, incapaz de desviar o olhar do espírito que olhava para o casal idoso com perplexidade. Ao ver o rosto do espírito novamente, Kylie percebeu que era a mesma mulher daquela manhã. Obviamente, a cabeça raspada e os pontos cirúrgicos eram uma pista. Mas uma pista do quê? O espírito olhou para Kylie. — Estou tão confusa! Eu também, Kylie pensou, sem ter certeza se o espírito podia ler seus pensamentos como os outros podiam. — Tantos querem que eu diga uma coisa a você! — Quem? — Percebendo que ela tinha sussurrado a palavra em voz alta, Kylie mordeu o lábio. Daniel? Nana? O que eles querem que você me diga? O espírito encontrou os olhos de Kylie como se entendesse. — Alguém vive. Alguém morre. Mais enigmas, Kylie pensou, e desviou os olhos do fantasma. 16

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Ela viu Holiday olhar ao redor, sentindo o espírito. A senhora Brighten olhou para o teto como se procurasse um ar-condicionado para culpar pelo ar gelado da sala. Felizmente o espírito desapareceu, levando com ele o frio. Tentando afastar o fantasma de sua mente, Kylie voltou a olhar para os Brightens. Seu olhar foi atraído para o tufo de cabelos grisalhos e grossos do ancião. Sua tez pálida indicava que ele tinha sido ruivo quando mais novo. Por alguma razão, Kylie se sentiu compelida a arquear as sobrancelhas e verificar os padrões cerebrais do casal. Esse era um pequeno truque sobrenatural que ela tinha aprendido só bem recentemente e que na maioria das vezes os seres sobrenaturais usavam para reconhecer uns aos outros e os seres humanos. O senhor e a senhora Brighten eram humanos. Pessoas normais e provavelmente decentes. Então, por que Kylie estava tão nervosa? Ela observou o casal enquanto eles também a observavam. Esperava que fizessem algum comentário sobre o quanto ela se parecia com Daniel. Mas não fizeram. Em vez disso, a senhora Brighten disse: — Estamos de fato muito felizes em conhecê-la. — Eu também — disse Kylie. Mas também apavorada! Ela se sentou na cadeira ao lado de Holiday, em frente aos avós. Estendendo o braço sobre a mesa, buscou a mão de Holiday e a apertou. Uma calma muito bem-vinda fluiu do toque da amiga. — Vocês podem me contar alguma coisa sobre o meu pai? — Kylie perguntou. — Claro! — A expressão do senhor Brighten se suavizou. — Ele era um garoto muito carismático. Popular. Esperto. Extrovertido. Kylie pousou a mão livre sobre a mesa. — Não era como eu, então. — Ela mordeu o lábio, arrependendo-se de dizer aquilo em voz alta. A senhora Brighten franziu a testa. — Eu não diria isso. A sua líder do acampamento estava nos dizendo o quanto você é encantadora. — A senhora estendeu o braço sobre a mesa e descansou a mão quente sobre a de Kylie. — Mal posso acreditar que temos uma neta! Algo no toque da mulher mexeu com os sentimentos de Kylie. Não apenas o calor da sua pele, mas o ligeiro tremor, os dedos finos e nodosos que o tempo e a artrite haviam deformado. Kylie lembrou-se de Nana, de 17

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como o toque suave da avó tinha se tornado frágil um pouco antes de ela morrer. Sem aviso, a dor aumentou no peito de Kylie. Tristeza por Nana e talvez até mesmo um prenúncio do que ela sentiria pelos pais de Daniel, quando a hora deles chegasse. Considerando-se a idade do casal, essa hora não tardaria. — Quando você soube que Daniel era seu pai? — A mão da senhora Brighten ainda repousava sobre o pulso de Kylie. E o toque era estranhamente reconfortante. — Só recentemente — disse ela, com a emoção provocando um bolo em sua garganta. — Meus pais estão se divorciando e a verdade de repente veio à tona. — Aquilo não era uma completa mentira. — Divorciando-se? Pobrezinha... O velho balançou a cabeça em concordância, e Kylie notou que seus olhos eram azuis — como os do pai e os dela. — Estamos felizes que você tenha resolvido nos procurar. — Muito felizes. — A voz da senhora Brighten tremeu. — Nós nunca deixamos de sentir falta do nosso filho. Ele morreu tão jovem... — Uma sensação silenciosa de perda, de dor compartilhada, envolveu a sala. Kylie mordeu a língua para não dizer que ela também passara a amar Daniel. Para não assegurar a eles que o pai os amava. Tantas coisas ela desejava perguntar, lhes dizer, mas não poderia. — Trouxemos fotos! — anunciou a senhora Brighten. — Do meu pai? — Kylie se inclinou para a frente, entusiasmada. A senhora Brighten assentiu e mudou de posição na cadeira. Com a lentidão típica da idade, ela puxou um envelope pardo da sua grande bolsa branca de senhora. O coração de Kylie acelerou com a expectativa de ver as fotos de Daniel. Será que ele se parecia com ela quando jovem? A mulher passou o envelope para Kylie e ela o abriu o mais rápido que pôde. Sua garganta apertou quando viu a primeira imagem: Daniel na infância, talvez com uns 6 anos de idade, sem os dentes da frente. Ela se lembrou das suas próprias fotos de escola, banguela, e podia jurar que a semelhança era incrível. As fotos a levaram ao longo da vida de Daniel — desde que ele era um adolescente com cabelos longos e jeans rasgados até a idade adulta. 18

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Na foto na idade adulta, ele estava com um grupo de pessoas. A garganta de Kylie apertou ainda mais quando ela percebeu quem estava de pé ao lado dele. A mãe dela. Seu olhar se desviou da foto. — Esta é a minha mãe. A senhora Brighten assentiu. — Sim, nós sabemos. — Sabem? — perguntou Kylie, confusa. — Eu achei que vocês não a conheciam. — Nós suspeitávamos — o senhor Brighten explicou. — Depois que soubemos de você, suspeitamos que ela poderia ser a garota da foto. — Ah... — Kylie olhou para as imagens e se perguntou como eles poderiam ter feito aquela dedução a partir de uma foto. Não que isso importasse. — Posso ficar com elas? — Claro! — concordou a senhora Brighten. — Eu fiz cópias. Daniel ia gostar que você ficasse com elas. Sim, ele ia. Kylie se lembrou dele tentando se materializar como se tivesse algo importante a dizer. — Minha mãe o amava — Kylie acrescentou, lembrando-se da preocupação da mãe de que os Brightens ficassem ressentidos com ela por não tentar encontrá-los antes. Mas eles não pareciam cultivar nenhum sentimento negativo. — Tenho certeza disso. — A senhora Brighten se inclinou e tocou a mão de Kylie novamente. Calor e emoção genuínos irradiaram do toque. Era quase... mágico! Um bipe súbito do telefone de Kylie quebrou o frágil silêncio. Ela ignorou a mensagem de texto, sentindo-se quase hipnotizada pelos olhos da senhora Brighten. Então, por razões que Kylie não entendia, seu coração se abriu. Talvez ela de fato quisesse que eles a amassem. Talvez quisesse amá-los também. Não importava o pouco tempo que lhes restasse. Ou o fato de não serem seus avós biológicos. Eles tinham amado seu pai e depois o perdido. Assim como ela. Simplesmente parecia certo que eles se amassem. 19

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Seria isso que Daniel queria dizer a ela? Kylie olhou para as fotografias mais uma vez e então as recolocou no envelope, sabendo que iria passar horas contemplando-as mais tarde. O telefone de Kylie tocou. Ela ia desligar, mas viu o nome de Derek na tela. Seu coração deu um salto. Ele estaria ligando para se desculpar por ir embora? Ela queria que ele se desculpasse? Outro telefone tocou. Dessa vez era o celular de Holiday. — Com licença. — Holiday se levantou e começou a sair da sala enquanto atendia à chamada. Ela deu uma parada abrupta na porta. — Fale mais devagar — disse ao telefone. A tensão na voz da líder do acampamento mudou o clima da sala. Holiday deu meia-volta e se aproximou de Kylie. — O que foi? — Kylie murmurou. Holiday apertou o ombro de Kylie, em seguida fechou o celular e olhou para os Brightens. — É uma emergência. Vamos ter que remarcar esta reunião. — Algo errado? — Kylie perguntou. Holiday não respondeu. Kylie viu os rostos decepcionados dos B ­ rightens e sentiu a mesma emoção se infiltrando em seu peito. —Não podemos...? — Não! — disse Holiday com firmeza. — Vou ter que lhes pedir para partirem. Agora. O tom de voz da líder foi pontuado pelo barulho alto da porta da frente da cabana se abrindo violentamente e batendo contra a parede. Tanto a líder quanto os Brightens se sobressaltaram e olharam para a porta ao ouvir os passos ruidosos de alguém entrando apressadamente na sala de reunião.

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BOX - SAGA ACAMPAMENTO SHADOW FALLS  
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