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L. Hunter Lovins Boyd Cohen

Capitalismo Climático Liderança Inovadora e Lucrativa para um Crescimento Econômico Sustentável

Tradução CLAUDIA GERPE DUARTE EDUARDO GERPE DUARTE

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Título original: The Way Out: Kick-Starting Capitalism to Save Our Economic Ass. Copyright © 2011 L. Hunter Lovins e Boyd Cohen. Originalmente publicado em inglês por Hill and Wang, uma divisão da Farrar, Straus and Giroux. Copyright da edição brasileira © 2013 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2013. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. O gráfico da página 272 foi extraído de From Risk to Opportunity: Insurer Responses to Climate Change de Evan Mills, Ph.D., de Ceres, abril de 2009. Reproduzido com permissão. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Delela Coordenação editorial: Roseli de S. Ferraz Preparação de originais: Beatriz Bellucci Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Estela A. Minas Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Claudete Agua de Melo e Vivian Miwa Matsushita

CIP-Brasil Catalogação na Publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ L95c Lovins, L. Hunter, 1950Capitalismo climático: Liderança inovadora e lucrativa para um crescimento econômico sustentável / L. Hunter Lovins e Boyd Cohen; tradução Claudia Gerpe Duarte e Eduardo Gerpe Duarte. – 1. ed. – São Paulo: Cultrix, 2013. Tradução de: The Way Out: Kick-Starting Capitalism to Save Our Economic Ass. Apêndice ISBN 978-85-316-1241-1 1. Desenvolvimento sustentável – Aspectos ambientais. 2. Capitalismo – Aspectos ambientais. 3. Mudanças climáticas. 4. Política ambiental. 5. Proteção ambiental. I. Cohen, Boyd. II. Título. 13-02696

CDD: 338.9 CDU: 3381

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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Dedico este livro à memória do Dr. Stephen Schneider, um verdadeiro pioneiro que deu a vida para proteger o clima.

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Sumário

1. Soluções empreendedoras: o argumento empresarial a favor da proteção do clima ....................................................................................

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2. Eficiência energética: o fruto pendurado perto do solo que volta a crescer .........................................................................................

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3. As duas são melhores: a eficiência energética e a energia renovável desencadeiam a nova economia energética .............................

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4. Prédios verdes, bairros verdes: onde mora o Capitalismo do Clima................................................................................... 107

5. Seguindo em frente ....................................................................................... 135 6. O mundo sem petróleo ................................................................................ 161 7. Cultivando um mundo melhor ................................................................... 193 8. Mercados de carbono: indulgências, papo-furado ou a nova moeda? ......................................................................................... 237

9. A adaptação ao caos do clima ..................................................................... 267 10. Um futuro que dá certo ................................................................................ 291

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ApĂŞndice: como calcular e neutralizar as suas emissĂľes de carbono .......... 327 Notas .................................................................................................................... 329 Agradecimentos .................................................................................................. 387

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Capítulo 1

Soluções empreendedoras: o argumento empresarial a favor da proteção do clima

Empresários, empresas e países estão prosperando a partir da proteção do clima até mesmo em tempos difíceis. Este livro descreve como você, a sua família, a sua comunidade, a sua empresa e o mundo podem lucrar com o Capitalismo do Clima. Os capítulos apresentam boas notícias para você se tornar parte da solução. Eles mostram que a utilização inteligente de mecanismos de mercado podem solucionar a crise do clima não por um custo e sim como um investimento, apresentando uma lucratividade mais elevada e uma economia mais forte, bem como um futuro melhor para o planeta. A melhor e mais rápida maneira de proteger o clima é reduzir o uso desnecessário de energia fóssil. Também é a maneira mais rápida de obter um retorno imediato sobre o investimento. A redução do desperdício leva a uma economia de dinheiro, quer você seja um líder empresarial ou um chefe de família. As histórias de casos que se seguem demonstram que o empreendedorismo está vivo e bem-disposto, o que é bom, já que sem ele nenhuma solução de mudança do clima faz qualquer sentido. Isso também é bom por outro motivo. Os empreendedores descobrem oportunidades até mesmo no meio de crises financeiras. Ao longo da história, as nações que inovaram para atender às necessidades humanas governaram o mundo, do ponto de vista econômico, político e militar. É quase certo que a maneira como reagirmos às crises gêmeas que definem a nossa geração – o colapso econômico e a mudança do clima – determinará o mundo no qual viverão as futuras gerações.

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A atual crise econômica é extremamente fluida. Ela poderá seguir em várias direções. O empenho dos líderes mundiais em desencadear a economia verde poderá causar uma reviravolta no mundo. Inversamente, a demora em implementar medidas sustentáveis poderá intensificar a atual depressão, hoje reconhecida como a pior desde a década de 1930.1 A mudança decididamente vai ocorrer porque as melhores práticas do passado não são mais suficientes para lidar com os desafios que o mundo está enfrentando. As empresas e a política industrial certamente vão implementar as medidas descritas neste livro, caso contrário o mundo enfrentará crises que excederão em muito aquelas que este jovem século já nos trouxe.2 As escolhas que você fizer neste e no próximo ano determinarão se você, a sua comunidade e, em última análise, o seu país sairão do colapso econômico prósperos e em uma posição que garanta o futuro que você deseja, ou se a vida se tornará uma reação interminável a emergências que limitam a nossa capacidade de lidar com as situações.3 A história americana recente sugere que existem razões para esperança. O projeto Architecture 2030 ressalta o seguinte: Durante a crise do petróleo da década de 1970 (um período que durou 11 anos, de 1973 a 1983), este país, valendo-se da determinação e inventividade dos americanos, aumentou o seu PIB real em mais de um trilhão de dólares (em dólares do ano 2000) e adicionou 2,787 bilhões de metros quadrados de novos prédios e 35 milhões de novos veículos, ao mesmo tempo que reduziu o consumo total de energia e as emissões de CO2 nos Estados Unidos. Isso se deu em razão do aumento da eficiência e uso de materiais, equipamentos e tecnologias de valor competitivo, prontamente disponíveis e fabricados em série.4

Uma nova realidade, agora reconhecida como “o imperativo da sustentabilidade”, está impelindo inexoravelmente as empresas a implementar práticas que sejam mais responsáveis para com as pessoas e o planeta, porque são mais lucrativas.5 Quando empresas como a Goldman Sachs e a Deloitte informam que o valor das ações de companhias líderes em políticas ambientais, sociais e de boa governança é 25% mais elevado, a mudança está claramente a caminho.6 Ou quando um gigante da indústria como o Walmart começa a exigir que os seus fornecedores, cujo número varia entre 60 e 90 mil, respondam a um questionário de avaliação do desempenho de sustentabilidade com o objetivo de acompanhar

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a sua pegada de carbono, o seu impacto na água e em outros recursos e o envolvimento deles com comunidades locais, fica claro que se comportar de uma maneira mais sustentável deixou de ser uma posição de um nicho elegante e passou a ser um imperativo comercial.7

Fundindo o capital e o clima que está aquecendo Duas palavras definem a era atual: “clima” e “capitalismo”. As pessoas criadas com imagens de possibilidades ilimitadas, carros potentes, superioridade ocidental nos mercados mundiais e um padrão de vida ascendente ficaram observando em choque a General Motors, a icônica empresa americana, desaparecer na falência em 2008. Muitas ainda não se deram conta da magnitude desse colapso. Tampouco assimilaram a ideia de que a Toyota se tornou a maior empresa automobilística do mundo – cuja primeira colocação foi subsequentemente suplantada pela Volkswagen – alcançando a proeminência baseada no sucesso de veículos eficientes em termos de combustível que parecem afrontar tudo o que tornou os Estados Unidos um grande país. O ressurgimento da GM da falência está analogamente baseado em um pequeno híbrido elétrico. O colapso econômico de 2008 devastou comunidades e famílias, deixando mais de 15 milhões de pessoas sem trabalho, e aumentou o desemprego em 25% em Detroit e em outras cidades.8 Ele tornou a recuperação econômica a principal prioridade de quase todo mundo. Outro desastre, contudo, apresenta uma ameaça ainda maior. No outono de 2009, as Nações Unidas advertiram que mesmo que as nações do mundo cumpram as promessas existentes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), o planeta ainda assim se aquecerá além de níveis jamais vividos pela humanidade já no fim do século, ou talvez antes. Na sua introdução ao filme Uma Verdade Inconveniente, Al Gore chamou a mudança do clima de “uma questão moral”. Mas no fundo, ela não é nem uma questão moral nem ambiental. Ela é uma crise do capitalismo. O que é pouco reconhecido é que as ameaças gêmeas, ao clima e à economia, estão ligadas tanto na causa quanto na cura. A não ser que as nações tomem medidas agressivas para implementar a eficiência energética e a energia renovável, elementos primordiais da transição para outras fontes que não os combustíveis fósseis e necessários para salvar o clima, fica difícil ver como a nossa economia poderá se erguer da recessão ou evitar outras crises. Resolver a crise do clima É A SAÍDA para a crise econômica.

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O resgate do capitalismo Os críticos argumentam que a ciência é incerta. Sem sombra de dúvida. A meta da ciência não é a infalibilidade nem a unanimidade. Os cientistas não sabem quanto a situação ficará feia, ou com que rapidez o caos climático avançará. No mínimo, a ciência é conservadora nos seus prognósticos: por exemplo, a realidade observada da mudança do clima está deixando para trás os modelos científicos, acontecendo mais rápido do que até mesmo os cientistas mais alarmados anteviram que iria acontecer.9 No entanto, com todo o devido respeito aos grandes cientistas do clima, vamos partir do princípio de que os céticos estão certos. Eles não estão, e você seria um idiota se fosse para Las Vegas baseado na probabilidade de que eles possam estar, mas em um certo sentido, a ciência é irrelevante. Para fins de argumentação, vamos supor por um momento que os céticos estejam certos. Se você for apenas um capitalista que só pensa em maximizar o lucro, fará exatamente a mesma coisa que faria se estivesse apavorado a respeito da mudança do clima porque as empresas inteligentes estão reconhecendo que não é preciso acreditar na mudança do clima para acreditar nas suas soluções. Nós sabemos como resolver esse problema com lucro: por meio do Capitalismo do Clima. A DuPont está entre os primeiros capitalistas do clima. Há cerca de uma década, os líderes da empresa se comprometeram a reduzir as emissões de carbono em 65% em relação aos níveis de 1990, e a fazê-lo até 2010. Isso é um pouco mais ambicioso do que os planos dos Estados Unidos, já que o país ainda se recusa a ratificar o Protocolo de Kyoto, um compromisso de reduzir em 7% as emissões de carbono em relação aos níveis de 1990. A DuPont se juntou ao Greenpeace? Não. A empresa fez o seu pronunciamento a favor de aumentar o valor do acionista. E ela cumpriu a promessa. O valor da ação da DuPont aumentou 340%, enquanto a empresa reduziu as suas emissões globais em 67%. Já em 2007, o programa da DuPont tinha reduzido as emissões da empresa em 80% com relação aos níveis de 1990. Essa medida gerou uma economia para a empresa de 3 bilhões de dólares entre 2000 e 2005.10 O programa de proteção ao clima da empresa mostrou que custa menos implementar medidas para economizar energia do que comprar e queimar combustível. Em resumo, a DuPont resolveu o problema com lucro. Em 1999, a DuPont estimou que cada tonelada de carbono que ela deixava de emitir

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economizava 6 dólares para os seus acionistas. Em 2007, os esforços da DuPont para eliminar o desperdício fizeram a empresa economizar 2,2 bilhões de dólares por ano. Qual foi o lucro da empresa naquele ano? 2,2 bilhões de dólares.11 A DuPont se tornou uma empresa lucrativa porque está protegendo o clima. A DuPont não é de modo algum um caso atípico. Em 1990, a STMicroelectronics, fabricante de chips de computador, estabeleceu o que Jim Collins, o autor da área de negócios, chama de grande meta audaciosa e arriscada. A STMicroelectronics se comprometeu a eliminar por completo as emissões de CO2, tornando-se carbono neutra em 2010, ao mesmo tempo que aumentaria 40 vezes a produção. Quando a empresa assumiu esse compromisso, ela não tinha a menor ideia de como iria cumpri-lo, mas o processo da descoberta impulsionou a inovação corporativa, levando a STMicroelectronics, que era 12a maior fabricante de chips do mundo, para o 6o lugar. Além de receber prêmios, a ST calculou que quando atingisse a sua meta, ela teria economizado cerca de 1 bilhão de dólares.12 A Natural Capitalism Solutions (www.natcapsolutions.org) e outros consultores de sustentabilidade trabalham com essas empresas para ajudá-las a reduzir o desperdício, transformar o modo como fabricam produtos e implementar maneiras mais sustentáveis de fazer negócio. Uma empresa com a qual a NCS trabalhou tinha o hábito de deixar os seus 6.300 computadores e monitores ligados sem interrupção. Vários mitos urbanos como o de que desligar o computador pode encurtar a sua vida útil, ou a exigência do departamento de TI de que eles ficassem ligados, haviam levado a empresa a desperdiçar energia e dinheiro. Os consultores da NCS enfatizaram que o simples fato de criar uma norma determinando que os funcionários desligassem os computadores quando ninguém estivesse diante deles equivaleria a uma economia de 700 mil dólares apenas no primeiro ano.13 Nos Estados Unidos, 2,8 bilhões de dólares são desperdiçados simplesmente porque computadores são deixados ligados quando ninguém os está usando. Esses custos de TI podem representar um quarto do custo da administração de um prédio de escritórios moderno.14 Em março de 2010, a Ford Motor Company anunciou que economizaria 1 milhão de dólares por ano desligando os computadores que não estivessem sendo usados.15 Uma equipe da NCS trabalhou com um grande centro de distribuição, um depósito de 650 mil metros quadrados, no qual lâmpadas de 500 watts brilhavam sobre a parte superior de caixas empilhadas do chão até o teto. Os trabalhadores embaixo usavam iluminação concentrada para ver aonde estavam indo. Desligar simplesmente um interruptor equivaleria a uma economia de 650 mil dólares por

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ano.16 Nos Estados Unidos são desperdiçados anualmente de 5 a 10 bilhões de dólares ao deixar acesas luzes desnecessárias ou redundantes.17 A economia resultante da eliminação desse desperdício é gratuita – ou melhor do que gratuita. E ela existe em todas as empresas americanas. Até mesmo quando se faz necessário um investimento inicial de dinheiro para obter uma economia energética que protegerá o clima, este é um dos melhores investimentos que uma empresa pode fazer. A Diversey, fornecedora internacional de limpeza, saneamento e soluções de higiene para empresas, estabelecida em Wisconsin, projeta ter um retorno de 160% sobre os seus investimentos para reduzir a sua pegada de carbono, economizando energia.18 Isso é apenas um pouco melhor do que você vai obter do seu plano de aposentadoria. Na Europa e na Ásia, a adesão ao Protocolo de Kyoto está impulsionando a competitividade. Considerando-se a quantidade de energia economizada nos exemplos que acabaram de ser descritos, não deve causar surpresa o fato de que, em 2008, as empresas americanas, cuja maioria não implementou programas agressivos de eficiência, tenham usado duas vezes mais energia para produzir uma unidade de PIB do que as suas concorrentes europeias e asiáticas. O Conselho Americano para uma Economia de Eficácia Energética (ACEEE – American Council for an Energy Efficient Economy) estima que a economia americana desperdice 87% da energia que consome.19 Longe de restringir a inovação, os signatários do Protocolo de Kyoto, que os obriga a economizar energia para reduzir as emissões de carbono, se comprometeram com a inovação, economizando dinheiro no processo.

Gestão de riscos em um mundo de caos climático As empresas inteligentes reconhecem hoje que tolerar o uso esbanjador de energia e emissões de carbono mais elevadas é uma estratégia de alto risco. A volatilidade geopolítica, a imprevisibilidade dos suprimentos de energia, os aumentos de preço, as ameaças aos negócios causadas por eventos meteorológicos extremos e o risco de pedidos de indenização de responsabilidade por deixar de administrar o output de carbono tornam a redução do carbono uma boa estratégia empresarial. O Índice FTSE, o equivalente britânico da Média Industrial Dow Jones, resumiu sucintamente: “O impacto da mudança do clima provavelmente terá uma crescente influência no valor econômico das empresas, tanto de uma maneira direta quanto por intermédio de estruturas regulatórias. Os investidores, os governos e

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a sociedade em geral esperam que as empresas identifiquem e reduzam os seus riscos e impactos na mudança do clima, bem como identifiquem e desenvolvam oportunidades de negócios relacionadas”.20 Em 2007, a Oxfam International disponibilizou um relatório mostrando que os desastres naturais tinham aumentado de uma média de 120 por ano no início da década de 1980 para até 500 por ano.21 Os desastres provenientes de inundações e tufões aumentaram seis vezes, de cerca de 60 em 1980 para 240 em 2006. De meados da década de 1980 até meados da década de 1990, 174 milhões de pessoas foram afetadas anualmente por todos os tipos de desastres. De 1995 a 2004, esse número aumentou para 254 milhões de pessoas. As inundações de 2007 na Ásia afetaram 250 milhões de pessoas. A Federação Internacional da Cruz Vermelha e a do Crescente Vermelho ratificaram esses dados, estimando que desastres naturais de todos os tipos matam hoje mais de 120 mil pessoas por ano, o que é o dobro do número de vítimas da década de 1990.22 Esses números representam não apenas um desastre humanitário, mas também um risco empresarial. Em 2003, The Wall Street Journal noticiou que a segunda maior firma de resseguros, a Swiss Re, “anunciou que está pensando em negar cobertura, começando pelas políticas de responsabilidade civil de diretores e executivos, a empresas que ela concluiu que não estão administrando a sua emissão de gases de efeito estufa”.23 A presciência dessa declaração ficou clara quando pedidos de indenização de desastres relacionados a fenômenos meteorológicos aumentaram duas vezes mais rápido do que os de todos os outros tipos de infortúnios.24 O ano de 2008 foi o terceiro pior ano já registrado em relação a acontecimentos que geram prejuízos, com estes saltando de 82 bilhões de dólares em 2007 para mais de 200 bilhões, e mais de 220 mil vidas perdidas. O recorde absoluto continua a ser 2005, com 232 bilhões de dólares em perdas seguradas. Os custos estão agora aumentando dez vezes mais rápido do que os prêmios, a população ou o crescimento econômico.25 “Investidores nervosos começaram a fazer perguntas semelhantes às seguradoras”, noticiou The Washington Post em 2007. “Em um encontro da Associação Nacional de Corretores de Seguros, Andrew Logan, diretor de seguros da coalizão de investidores, que representa 4 trilhões de dólares em capital de mercado, advertiu que ‘o seguro como o conhecemos está ameaçado por uma tempestade perfeita de crescentes perdas com fenômenos meteorológicos, aumento das temperaturas globais e mais americanos vivendo em uma situação perigosa’.”26 John Dutton,

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reitor emérito da Faculdade de Ciências Minerais e da Terra da Penn State, estimou que 2,7 trilhões de dólares da economia americana de 10 trilhões por ano estão susceptíveis a uma perda de receita relacionada com condições meteorológicas, aumentando os riscos não incluídos no balanço das empresas.27 Compreensivelmente, os investidores estão se unindo para influenciar a maneira como as empresas lidam com a mudança do clima. Grandes investidores internacionais estão conduzindo campanhas de acionistas que recomendam com insistência que as empresas divulguem os riscos climáticos e implementem programas de mitigação.28 A Investor Network on Climate Risk abarca mais de oitenta investidores institucionais que coletivamente administram ativos no valor de mais de 8 trilhões de dólares. Lançada em 2003, a rede anunciou um plano de ação de dez pontos que pede aos investidores, instituições financeiras proeminentes, empresas e governos que lidem com o risco climático e aproveitem as oportunidades de investimento. Foi solicitado a empresas americanas, a firmas de Wall Street e à Securities and Exchange Commission (SEC) que apresentassem aos investidores uma análise abrangente e fossem transparentes a respeito dos riscos financeiros apresentados pela mudança do clima. O grupo se comprometeu a investir 1 bilhão de dólares em oportunidades empresariais prudentes que emergissem do impulso para reduzir as emissões de GEE. No dia 27 de janeiro de 2010, o plano teve sucesso, quando a SEC emitiu uma “orientação interpretativa” recomendando que as empresas públicas avisassem os investidores de quaisquer riscos graves que o aquecimento global pudesse representar para as suas atividades. Mary Shapiro, presidente da SEC, declarou: Não é surpreendente para nós concluirmos que é evidente que as empresas precisam levar em consideração se uma possível legislação – quer essa legislação diga respeito à mudança do clima, quer se relacione a novas exigências de licenciamento – está prestes ser implementada. Analogamente, as empresas precisam divulgar os importantes riscos que estão enfrentado, quer esses riscos sejam atribuíveis ao aumento da concorrência ou ao clima rigoroso. Esses princípios de materialidade formam a base da nossa estrutura de transparência.29

De fato, até mesmo antes desse parecer, a Lei Sarbanes-Oxley, a lei de ética corporativa americana, passou a considerar delito penal casos em que os dirigentes

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de uma empresa deixam de divulgar informações, até mesmo os riscos ambientais como emissões de carbono, que possam alterar a opinião racional de um investidor a respeito da organização.30 Na França, na Holanda, na Alemanha e na Noruega, as empresas já são obrigadas a informar as suas emissões de GEE.31 As empresas que deixam de administrar a sua pegada de carbono também enfrentam outros riscos. Desde 2002, uma ONG britânica, o Projeto de Divulgação do Carbono (CDP – Carbon Disclosure Project), vem examinando as Financial Times 500, as quinhentas maiores empresas do mundo. Inicialmente, somente 10% das empresas às quais o CDP solicitou relatórios atenderam ao pedido. Afinal de contas, quem morreu e designou o CDP como Deus? Em 2005, contudo, 60% das empresas inspecionadas responderam. Gigantes corporativos como Chevron, Cinergy, DET Energy, Duke Energy, First Energy, Ford Motor Company, General Electric, JP Morgan Chase e Progress Energy assumiram compromisso público de apoiar limites compulsórios aos gases de efeito estufa, reduzir voluntariamente as suas emissões ou divulgar para os investidores informações sobre o risco climático determinado pelo questionário do CDP.32 Por que a mudança? A ameaça da Lei Sarbanes-Oxley sem dúvida exerceu uma influência, porém talvez devamos examinar algo mais próximo. O CDP representa 534 investidores institucionais com mais de 64 trilhões em ativos, quase um terço de todos os ativos institucionais globais. Seria aconselhável que qualquer empresa interessada nos mercados de capital respondesse às perguntas do CDP. Este agora recebe relatórios corporativos anuais da pegada de carbono de quase 80% das 1.800 empresas relacionadas no Financial Times. Os investidores institucionais usam o banco de dados do CDP para tomar decisões de investimento baseadas nas emissões de gás de efeito estufa de uma empresa, nas suas metas de redução da emissão e nas estratégias para combater a mudança do clima. As empresas que não administram com responsabilidade a sua pegada de carbono são consideradas indignas de receber investimentos. O relatório de 2007 do CDP constatou que as maiores empresas do mundo estão cada vez mais atentas à mudança do clima e que muitas delas encaram isso como uma oportunidade de lucro. Quase 80% das que responderam à solicitação do CDP em todo o mundo consideraram a mudança do clima um risco comercial, citando eventos meteorológicos extremos e regulamentações mais rígidas do governo. Cerca de 82% declararam que reconheciam oportunidades comerciais para produtos novos ou existentes, como investimentos em energia renovável.

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CAPITALISMO CLIMÁTICO  

Capitalismo Climático demonstra que existe agora um forte argumento empresarial a favor da proteção do clima e que a lucratividade da respon...

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Capitalismo Climático demonstra que existe agora um forte argumento empresarial a favor da proteção do clima e que a lucratividade da respon...

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