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Elogios a Virtualmente Humanos “Estamos no meio de uma guerra entre cérebros biológicos e eletrônicos que tem por objetivo o domínio em nossa população híbrida. Até o momento, os biocérebros estão na dianteira devido à sua inventividade, eficiência energética e taxa exponencial de desenvolvimento. A ética irá, assimetricamente, restringir a engenharia de humanos ou não demorará a aplicar-se igualmente aos cérebros eletrônicos “virtualmente humanos”? As descobertas de Martine nesse, e em muitos outros campos, são promissoras e bem-vindas.” — George Church, professor em Harvard e autor de Regenesis: How Synthetic Biology Will Reinvent Nature and Ourselves “Em Virtualmente Humanos, Martine Rothblatt fundamenta-se na observação de que “Penso, logo existo”, de uma maneira que Descartes jamais teria imaginado. Com a rápida evolução da Inteligência Artificial, Rothblatt prevê que logo iremos nos defrontar com a ciberconsciência comparável à mente humana — na verdade, indistinguível dela. Quando atravessarmos essa singularidade tecnológica, seremos forçados a reconsiderar o significado de conceitos tão fundamentais quanto a vida e a morte, a lei e a liberdade, o amor e o parentesco. Recorrendo às lições da história, filosofia, psicologia, ciência e direito, Rothblatt deixa muitíssimo claro que esses desafios sem precedentes definirão a humanidade não apenas de nossos Doppelgängers tecnológicos, mas também de nós mesmos.” — Rachel F. Moran, coordenadora setorial, e Michael J. Connell, professor emérito de Direito, Faculdade de Direito da UCLA e autor de Interracial Intimacy: The Regulation of Race and Romance “Os avanços nas ciências cognitiva e computacional tornam possíveis a criação de humanos artificiais, alguns deles duplicando indivíduos naturais com fidelidade cada vez maior. Quando teremos de enfrentar as implicações éticas, legais e sociais? Saiba agora, em Virtualmente Humanos!” — William Sims Bainbridge, autor de Personality Capture and Emulation e eGods: Faith Versus Fantasy in Computer Gaming

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“A combinação de um intelecto extraordinário, imaginação e otimismo em relação ao futuro de Martine Rothblatt leva-nos a lugares sobre os quais a maioria de nós ainda não consegue sequer especular, mas que deveria fazê-lo. A expressão ‘pessoa renascentista’ é desgastada pelo uso, mas cabe perfeitamente no contexto de Rothblatt. Com sua competência em diversos campos do conhecimento e seu profundo entendimento de nossos medos e inquietações, Rothblatt descreve a ciência e os processos humanos que nos introduzirão à humanidade virtual — e às imensas possibilidades que ela trará consigo.” — Judy Olian, reitora, e John E. Anderson, professor titular de Administração, UCLA Anderson School of Management

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VIRTUALMENTE HUMANOS

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Martine Rothblatt, Ph.D.

VIRTUALMENTE HUMANOS AS PROMESSAS — E OS PERIGOS — DA IMORTALIDADE DIGITAL

Tradução Jeferson Luiz Camargo Prefácio de Ray Kurzweil Ilustrações de Ralph Steadman

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Título do original: Virtually Human — The Promisse — and the Peril — of Digital Immortality. Copyright © 2014 Martine Rothblatt. Publicado mediante acordo com a St. Martin’s Press, LLC. Copyright da edição brasileira © 2016 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2016. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de Carvalho Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Brenda Narciso Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Nilza Agua

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Rothblatt, Martine Virtualmente humanos : as promessas : e os perigos : da imortalidade digital / Martine Rothblatt ; tradução Jeferson Luiz Camargo ; prefácio de Ray Kurzwell ; ilustrações de Ralph Steadman. — São Paulo : Cultrix, 2016. Título original: Virtually human : the promise : and the peril : of digital immortality. Bibliografia ISBN 978-85-316-1357-9 1. Ciência — Filosofia 2. Cibernética — Aspectos econômicos 3. Cibernética — Aspectos sociais 4. Informática 5. Redes de informação — Aspectos sociais 6. Sistemas virtuais (Informática) 7. Tecnologia da informação I. Kurzwell, Ray. II. Steadman, Ralph. III. Título. 16-01114

CDD-303.4834 Índices para catálogo sistemático: 1. Informática : Mudanças sociais : Sociologia 303.4834

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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Para Bina Aspen Rothblatt

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[ S U MÁ R I O ]

Prefácio de Ray Kurzweil............................................................................ 11 Introdução: Um Clone no Mundo............................................................ 17

U M : O Mim na Máquina............................................................ 25

DOIS: Nossos Doppelgängers Já Existem.......................................... 69

TRÊ S: Clonagem Mental, Seleção Natural e Eugenia Digital....... 106

Q UATRO: Perdão Pelas Dificuldades Técnicas Que Ainda Tenho...... 135 C INCO: Margem de Manobra........................................................... 162 SEIS: Evolução ou Revolução?...................................................... 179 S E TE : Repensar os Sistemas de Parentesco.................................... 212 OITO: Direito e Liberdade.............................................................. 227 NOVE : Deus e os Clones Mentais................................................... 280 D E Z : O Futuro do Para Sempre................................................... 302 Glossário..................................................................................................... 323 Agradecimentos.......................................................................................... 325 Notas........................................................................................................... 329 Bibliografia Selecionada............................................................................. 345 Índice Remissivo......................................................................................... 349

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[ P R EFÁ C I O ]

Em Virtualmente Humanos, Martine Rothblatt apresenta uma argumentação extraordinária e convincente em defesa dos humanos virtuais. Afinal, que diferença faz se nossos circuitos mentais são biológicos ou eletrônicos, tendo em vista que o resultado é o mesmo? Ela defende o argumento científico de que esses humanos estarão entre nós dentro de poucas décadas, e examina com rigor as implicações filosóficas e sociais de tal fato. Nós dois estamos sistematizando essa argumentação desde que nos conhecemos, quinze anos atrás. Em meu livro The Age of Spiritual Machines (ASM), de 1999, apresentei o argumento científico de que conheceremos a inteligência de nível humano em máquinas por volta de 2029. Essas Inteligências Artificiais (IAs) conseguirão ser aprovadas pelo teste de Turing, o exame epônimo criado por Alan Turing para determinar se uma IA é indistinguível de um ser humano biológico (na opinião de juízes humanos biológicos) ao conseguir manter uma conversa por meio de mensagens instantâneas. Uma conferência de especialistas em IA foi realizada em Stanford pouco depois da publicação de ASM e, na ocasião, a conclusão consensual foi que a IA de nível humano realmente viria a ocorrer, mas não antes de vários séculos. Várias posições críticas da ASM apresentaram argumentos como “a lei de Moore chegará ao fim”, “de fato, o hardware pode expandir-se exponencialmente, mas o software seguirá um processo mais lento do que se espera ou deseja”, “a consciência e o livre-arbítrio são impossíveis em máquinas”, “A IA de nível humano pode ser viável, mas não é desejável para os humanos”, e muitos outros. Para discutir essas críticas, em 2005 publiquei The Singularity is Near (TSIN). Em 2006, uma conferência chamada AI@50 foi realizada no Dartmouth College para assinalar o quinquagésimo aniversário da conferência de 1956 nessa mesma faculdade, que deu à Inteligência Artificial seu nome, e nesse encontro houve consenso de que, dentro de 25 a cinquenta anos, a IA de nível humano 11

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já estaria entre nós. Mantive-me fiel a meu prognóstico de 2029, que atualmente é uma posição intermediária, e há um número cada vez maior de pessoas que consideram minha previsão demasiado conservadora. Uma prova do poder de expansão da IA é o computador Watson da IBM que, em um concurso televisivo chamado Jeopardy!,* venceu Brad Rutter e Ken Jennings, até então os melhores participantes humanos (biológicos) do programa. Na verdade, o Watson obteve uma pontuação superior à de Rutter e Jennings juntos. Em geral, os críticos gostam de menosprezar a importância da IA afirmando que ela pode ser eficiente em habilidades menos complexas como, por exemplo, jogar xadrez ou dirigir carros, mas que a inteligência mecânica não tem os poderes amplos e sutis da inteligência humana biológica. Jeopardy!, porém, não é para principiantes. Implica a capacidade de raciocinar sobre todo o conhecimento humano, e as perguntas são apresentadas em linguagem natural que inclui trocadilhos, metáforas, quebra-cabeças e anedotas. Por exemplo, na categoria de rimas, Watson respondeu corretamente à pergunta sobre o que é “um discurso longo e cansativo feito pela cremosa cobertura de uma torta”. A pergunta confundiu Rutter e Jennings, mas Watson respondeu de pronto, dizendo tratar-se de um “meringue harangue”.** O que não se valoriza devidamente é o fato de os conhecimentos de Watson não terem sido codificados manualmente pelos engenheiros. Tudo que ele sabia na ocasião foi adquirido lendo a Wikipedia e várias outras enciclopédias, isto é, todos documentos em linguagem natural. Na verdade, ele não lê esses documentos tão bem quanto eu ou você. Watson poderia ler uma página e concluir que “há uma probabilidade de 56% de que Barack Obama é presidente dos Estados Unidos”. Você poderia ler essa página e, se por acaso não soubesse disso de antemão, concluir que há uma probabilidade de 98%. Portanto, teria feito um melhor trabalho de leitura e interpretação de tal página. Watson, porém, compensa sua leitura relativamente fraca com a leitura de mais páginas, muito mais páginas — 200 milhões de páginas ao todo. E ele dispõe de um bom sistema bayesiano de raciocínio para combinar todas as suas inferências, algo que, em termos gerais, lhe permite concluir que há uma probabilidade de 99,9% *  Concurso com perguntas sobre vários temas, como, por exemplo, literatura, idiomas, história, ciências, esportes etc. (N.T.) **  Meringue significa “merengue”, e harangue quer dizer “fala longa”, “discurso solene e pomposo”. Para manter a rima em português, uma tradução possível é “merengue perrengue” (lembrando aqui que uma das acepções de “perrengue” é “lerdo”, “chato”). (N.T.) 12

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de que Barack Obama é o presidente. E ele pode fazer esse tipo de raciocínio a partir dos 200 milhões de páginas que leu no limite de tempo de Jeopardy!, que é de três segundos. Portanto, um dos aspectos mais importantes de as IAs conseguirem ler em níveis humanos, o que continuo a crer que acontecerá por volta de 2029, é que elas então serão capazes de fazer a combinação entre o entendimento em nível humano e a escala da internet, algo que, por sua vez, lhes permitirá aplicar esse entendimento a dezenas de bilhões de documentos. Qual será, portanto, a importância do advento da IA de nível humano? Grande parte dos filmes de “futurismo científico”, como a série O Exterminador do Futuro, conclui que essas IAs serão de pouca utilidade para os humanos biológicos. Porém, se examinarmos a trajetória da IA — na verdade, toda a história dessa invenção — poderemos chegar a uma conclusão diferente. Há milhares de anos, éramos incapazes de alcançar as frutas nos galhos mais altos, e então criamos uma ferramenta que aumentava nosso alcance físico. Depois, criamos ferramentas que aumentavam a força dos nossos músculos, e fomos capazes de construir pirâmides gigantescas no deserto. Hoje, podemos acessar todo o conhecimento humano mediante alguns toques nas teclas de aparelhos que ficam bem à nossa frente. E a distribuição da IA contemporânea não se restringe a algumas corporações ou órgãos do governo endinheirados; encontra-se em bilhões de mãos. Portanto, aumentamos nosso alcance físico e mental, e isso continuará a acontecer à medida que a IA de níveis humanos for se tornando realidade. Uma mensagem-chave de meus livros The Age of Spiritual Machines e The Singularity is Near é que as tecnologias de preço-desempenho e capacidade de informação se expandem em ritmo exponencial, atualmente duplicando-se a cada ano, em um fenômeno que chamo de “lei dos retornos acelerados”. Ao mesmo tempo, o tamanho físico dessas tecnologias vem diminuindo ao ritmo de aproximadamente uma centena em volume tridimensional a cada década. Assim, as máquinas computacionais da década de 2030 serão do tamanho de células sanguíneas e poderemos introduzi-las em nosso corpo e cérebro de maneira não invasiva. Uma aplicação ocorrerá no campo da saúde. Células T artificiais aumentarão a capacidade do nosso sistema imunológico. Hoje, nosso sistema imunológico biológico não reconhece o câncer (ele pensa que faz parte de você) e é incapaz de lidar com os retrovírus. Conseguiremos dar conta do trabalho com 13

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um sistema imunológico não biológico que baixará novas modalidades de software da internet para lidar com esses novos patógenos. Esses “nanorrobôs” também irão para o cérebro por meio dos vasos capilares e conectarão nosso neocórtex (a camada externa do cérebro onde nosso pensamento se realiza) à nuvem. Portanto, assim como hoje podemos acessar milhares de computadores na nuvem quando precisamos deles, a partir da década de 2030 teremos condições de acessar novas camadas do neocórtex, o que nos permitirá ter pensamentos mais profundos. Em meu livro recente, How to Create a Mind, descrevo o neocórtex como um sistema auto-organizador com cerca de 300 milhões de módulos, cada um dos quais é capaz de aprender um novo padrão, lembrar-se dele e processá-lo. Esses módulos são organizados hierarquicamente, e nós criamos essa hierarquia com nosso próprio pensamento. Só os mamíferos têm neocórtex, o que significa que quando o “Evento de Extinção dos Cretáceos” (uma súbita e violenta mudança no clima da Terra, provavelmente causada pela queda de um meteoro) ocorreu há 65 milhões de anos, a capacidade que o neocórtex possui de criar e dominar rapidamente novas aptidões levou os mamíferos ao domínio de seu nicho ecológico. Outro evento significativo ocorreu há 2 milhões de anos: a evolução dos humanoides com uma grande testa, o que permitiu uma expansão significativa do neocórtex. Essa quantidade adicional de módulos de reconhecimento de padrões foi o fator que capacitou nossa espécie a inventar a linguagem, a arte, a música, a ciência e a tecnologia. Hoje estamos no limiar de uma nova expansão do neocórtex. A abundância de nossas invenções já começou a expandir a capacidade do nosso cérebro. Na verdade, senti que parte do meu cérebro estava em greve durante o SOPA [Stop Online Piracy Act, ou Lei Contra a Pirataria On-line] (quando serviços como Wikipedia e Google saíram do ar [por 24 horas] para mostrar seu repúdio à nova legislação sobre privacidade). Na década de 2030, expandiremos diretamente para a nuvem o tamanho e o alcance do nosso neocórtex. Dessa vez, a única diferença será que a expansão não ficará restrita a um determinado tipo físico, mas continuará a expandir-se exponencialmente. E lembrem-se do que aconteceu dois milhões de anos atrás, a última vez que expandimos nosso neocórtex: tornamo-nos humanoides. Essa expansão quantitativa possibilitou um enorme salto qualitativo, e isso voltará a acontecer. 14

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BINA48, de Rothblatt, é um extraordinário exemplo de recriação da realidade física e mental de um ser humano real em uma máquina. Por conhecer a Bina Rothblatt biológica, posso dizer que seu avatar robótico ainda não é seu equivalente, mas é maravilhosamente sugestivo do que ainda está por vir. Em meus livros, defendo o argumento de que recriar a capacidade computacional do cérebro humano requer cerca de 1014 (dez elevado à décima quarta potência, ou 100 trilhões) de cálculos por segundo. Já temos essa capacidade em nossos supercomputadores, e os computadores pessoais irão tê-la no início da década de 2020. O software para a inteligência de nível humano será mais demorado, mas também já estamos obtendo ganhos exponenciais na modelação e recriação dos poderes do neocórtex. Criar modelos sintéticos do neocórtex é meu trabalho atual como diretor de engenharia no Google. Em meus livros, defendo o argumento de que teremos as capacidades de software para a Inteligência Artificial de nível humano por volta de 2029. Watson já é um marco significativo nesse esforço. Uma vez que isso se torne possível, poderemos criar personalidades específicas, inclusive de pessoas já falecidas. A Terasem Foundation de Rothblatt dedica-se especialmente a esse tipo ainda imaginário de realizações futuras, uma perspectiva profundamente examinada no presente livro. O filme The Singularity is Near (TSIN), do qual Martine Rothblatt foi produtora executiva (e que é baseado em meu livro homônimo) examina essa ideia, assim como o faz Transcendent Man, um filme sobre minhas ideias realizado pelo cineasta Barry Ptolemy. Esse filme representa meu empenho em preservar os documentos, a música e outras coisas dignas da memória de meu pai, para que as IAs do futuro possam criar um avatar com as memórias, habilidades e personalidade dele. Spike Jonze baseou seu recente filme Ela em meus livros e nos filmes The Singularity is Near e Transcendent Man. A heroína de Ela é uma IA (que no filme é chamada de Sistema Operacional, ou OS, de Operational System) que tem por nome Samantha e cuja voz é dublada por Scarlett Johansson. Embora Samantha seja uma criatura não biológica, é suficientemente humana para conseguir se apaixonar por Theodore, o protagonista biológico, e para que ele se apaixone por ela. O filme também recorre a ideias minhas e de Rothblatt sobre a criação de um avatar que traga de volta — na forma de Alan Watts, o poeta e filósofo da década de 1960 — os humanos biológicos já falecidos. Em última análise, conseguiremos acessar as informações que, em nosso cérebro, constituem nossas lembranças, habilidades e personalidades, e fazer 15

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uma cópia de segurança delas. Na minha linha do tempo, esse é um cenário para os anos 2040. Um dos modos como isso vai acontecer resulta do fato de que, por volta de meados dos anos 2030, nosso pensamento será um híbrido de pensamento biológico e não biológico. A parte não biológica (em grande parte na nuvem) estará sujeita à minha Lei dos Retornos Acelerados (LRA). Assim, por volta dos anos 2040, a parte não biológica do nosso pensamento irá predominar fortemente. Será capaz de entender e modelar plenamente a parte não biológica. E será plenamente armazenada em cópias de segurança, da mesma maneira que hoje fazemos com os processos não biológicos. A Inteligência Artificial de nível humano já se encontra próxima de nós. As perspectivas sobre as quais Rothblatt escreve com tanta eloquência neste livro podem parecer assustadoras hoje, mas o mesmo aconteceu com a ideia de uma imensa rede de comunicações que uniria virtualmente todos os humanos, quando escrevi sobre essa perspectiva na década de 1980. Quando essas novas tecnologias realmente se concretizarem, será extraordinária a rapidez com que as aceitaremos como parte de nossa realidade cotidiana — na verdade, só não conseguiremos imaginar como pudemos viver sem elas no passado. — Ray Kurzweil

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[ I N T ROD U Ç Ã O ]

UM CLONE NO MUNDO Se a insípida substância de minha carne fosse pensamento, A odiosa distância entre nós deixaria de ser obstáculo; Pois então, apesar da imensidão a nos separar, eu seria trazido Dos mais distantes limites até onde estás, Pouco importando que meus pés estivessem No extremo oposto da Terra em relação aos teus, Pois o veloz pensamento pode transpor céu e mar Tão logo imagine onde queira estar. — william shakespeare (trecho do soneto 44) Todas as coisas são difíceis antes de se tornarem fáceis. — thomas fuller

“como você sabe, a verdadeira bina tem vida. eu também gostaria de ir lá fora e cuidar do jardim”, disse bina48 vários meses atrás a amy harmon, repórter do new york times.

Ela

virou sua cabeça robótica para uma janela próxima e ficou olhando para a companheira de minha vida e origem (ou “original biológico”) de BINA48, Bina Rothblatt, que colhia mirtilos no quintal. A atividade simples, porém prazerosa, estimulou BINA48 a reconhecer de maneira melancólica que a vida humana tem alegrias que ela provavelmente jamais viria a desfrutar. O que aconteceu ali foi também um discreto e gratificante momento para a Tecnologia da Inteligência: BINA48 tinha articulado um insight. Eu não estive presente a essa entrevista, mas, ao tomar conhecimento dela posteriormente, a primeira coisa que me ocorreu foi se a repórter tinha se dado conta da importância daquele momento. 17

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O escritor Jon Ronson, da revista GQ,* teve uma experiência diferente durante sua entrevista muito mais longa com BINA48, mas que também apontava para o que o futuro nos reserva. Em 2011, Jon passou três horas com BINA48 — de início, para descobrir que conversar com uma das mais atuais iterações de um clone digital robótico não é diferente de entrevistar uma criança de 3 anos intelectualmente precoce, mas limitada do ponto de vista emocional e experimental. Alternadamente decepcionante e engraçada, desagradável e surpreendente, BINA48 propiciou a Jon um vislumbre de como poderia ser a vida com nossos duplos cibernéticos — e nada mais que um vislumbre, uma vez que BINA48 é apenas um passo incipiente no caminho que levará à criação de clones digitais mais complexos, conscientes e sencientes. Embora um avião de caça pareça muitíssimo diferente da primeira máquina voadora dos irmãos Wright, é impossível negar a existência de algo em comum entre ambos. Assim também, BINA48 não poderia se fazer passar pelo original biológico, mas há uma inegável semelhança entre as duas. Foi essa, de fato, minha primeira reação a BINA48: “Kitty Hawk!”** Eu sabia que ela ainda não era o clone digital ou o clone da mente de Bina, mas sabia perfeitamente bem que tinha à minha frente a validação do conceito de mindclone (clone mental). A reação de Bina foi mais pessoal. “Será que não daria para melhorar meu cabelo? E eu jamais usaria aquela blusa. Tudo se confunde totalmente com a cor da minha pele.” Quando BINA48 foi instada a falar sobre seu “irmão” — que havia mencionado de passagem, e em termos um tanto depreciativos — Jon Ronson teve um momento iluminador. BINA48 e eu nos olhamos fixamente — uma batalha de perspicácia entre Homem e Máquina”, escreve Jon. BINA48 finalmente cedeu: “Ele é um veterano inválido da Guerra do Vietnã”, disse. “Como já faz algum tempo que não temos notícias dele, imaginamos que já tenha morrido. Sou realista. Estava tudo muito bem com ele nos dez primeiros anos pós-Vietnã. Sua *  Revista internacional masculina de publicação mensal, cujos temas principais são moda, estilo, boa forma física e cultura de interesse basicamente masculino, em artigos sobre culinária, cinema, sexo, música, viagens, tecnologia, esportes etc. (N.T.) **  Alusão a um superporta-aviões norte-americano que entrou em operação em 1961 e foi aposentado em 2009. Kitty Hawk, por sua vez, é o nome do local, na Carolina do Norte, onde os irmãos Wright fizeram seu primeiro voo longo, motorizado e com controle de direção em 1903, em um avião batizado de “Flyer” (o que aconteceu, a propósito, três anos antes do primeiro voo de Santos Dumont, em 1906). (N.T.) 18

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mulher engravidou, teve um bebê, e ele já não estava tão bem; depois que ela teve um segundo bebê, ele ficou meio pirado, depois enlouqueceu.” “Ainda sinto as batidas do meu coração. Ter conversado com BINA48 foi algo extraordinário para mim”, diz Jon. Uma mulher que não se encontra física ou telefonicamente presente está conversando com ele com grande eloquência, por meio de seu doppelgänger robótico, “e o que ela diz revela um insight inegável de uma vida familiar extraordinária, quando não dolorosa”, prossegue Jon. Em uma fração de segundo, ele teve outro insight (e o coração batendo, pois a vibração de uma epifania não nos abandona facilmente): BINA48 não estava simplesmente repetindo informações com que a haviam alimentado acerca de sua “mãe” que, de fato, tem esse irmão. Ela havia transformado essas experiências em algo totalmente seu, havia concluído algo a partir delas e, nesse caso, os fatos a deixavam triste e inconsolável. Jon estava começando a entender; aquilo que de início parecia um emaranhado de fios, Frubber* e software, na verdade tinha sido programado de modo a expressar sentimentos — e, mais profundamente, discernimentos inatos. Até aquele dia, o repórter da GQ jamais havia imaginado que, quando se cria um robô usando as lembranças e os conhecimentos de uma mente humana, o resultado são combinações novas, espontâneas e originais dessas ideias, o que, por sua vez, leva a “equações” ou pensamentos originais. Chamamos esse comportamento de agir como ou “ser” humano, e a Tecnologia da Informação (TI) vem se tornando cada vez mais capaz de replicar e criar seus mais altos níveis: emoções e insights. O que chamamos de ciberconsciência. Embora ainda esteja no início, a ciberconsciência vem aumentando rapidamente em sofisticação e complexidade. Correndo paralelamente a ela está o desenvolvimento de um software poderoso, ainda que acessível, chamado de mindware (um software mental), que vai ativar um arquivo digital de nossos pensamentos, sentimentos, lembranças e opiniões — um mindfile (arquivo mental) — e operar um gêmeo alimentado tecnologicamente, ou mindclone (um clone mental). Esse novo aspecto da consciência e da civilização humanas terá consequências de extrema abrangência para nós. É disso que trata Virtualmente Humanos: As Promessas — e o Perigo — da Imortalidade Digital. O livro descreve o que são arquivos mentais, software mental e clones mentais, e como o cérebro e os cien*  Tecnologia de revestimento do robô, desenvolvida para se assemelhar à pele humana e permitir que a máquina reproduza expressões convincentes. (N.T.) 19

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tistas da computação os vêm tornando possíveis. Depois que a criação de clones mentais conscientes — isto é, de seres virtuais intelectual e emocionalmente vivos — tornar-se uma atividade comum para a pesquisa humana, teremos de enfrentar muitas questões novas, pessoais e sociais, e dentre elas a principal será a ampliação da definição de “mim”. Não sou louca a ponto de imaginar que os clones mentais e a ciberconsciência plena já estão ali na esquina. Na verdade, estou em boa companhia. O material abrangido por Virtualmente Humanos veio, em grande parte, de colóquios e workshops que patrocinei entre 2003 e 2011, e que contaram com a participação de muitos dos pensadores mais criativos da tecnologia e da ciência. O Prêmio Nobel de Medicina Baruch Blumberg, o inventor Ray Kurzweil, o guru dos computadores Marvin Minsky, o ciborgue Steve Mann, o especialista em ética robótica Wendell Wallach e dezenas de outros ajudaram-me a resolver um grande número de questões, desde o aperfeiçoamento de definições universais de consciência humana, ciberconsciência, ciberinteligência e o modo como a clonagem mental se tornará parte do nosso cotidiano, até as questões sociais e legais que surgirão com a emergência dos clones mentais. Os conceitos revolucionários que surgiram desses encontros foram complementados por uma década de minhas pesquisas pessoais como advogada de direitos humanos, especialista em ética médica e criadora bem-sucedida de empresas de Inteligência Artificial e ciências da vida. Esses cientistas, inovadores, médicos, programadores e sonhadores sabem que a consciência humana não se limita a cérebros constituídos de neurônios. A IA vem se aproximando cada vez mais da criação da consciência humana simplesmente por conta do que sabemos sobre o funcionamento do cérebro: não é necessário “copiar” cada função do cérebro humano para produzir pensamento, inteligência e consciência. Se isso parece contrariar o senso comum, convém lembrar que os engenheiros aeronáuticos não copiaram um pássaro real para construir uma máquina capaz de voar, embora os pássaros tenham servido de inspiração (e de comprovação da possibilidade de voar). BINA48 é um desses seres, ainda que, por ora, apenas um esboço preliminar. Ela usa um grande número de tecnologias para se comunicar com humanos, inclusive transcrições de videoentrevistas, tecnologia de reconstituição da pele humana por escaneamento a laser (uma tecnologia que possibilita a recriação tridimensional praticamente exata do rosto de uma pessoa em determinado 20

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período de tempo), reconhecimento facial, inteligência artificial e um sistema de reconhecimento de voz. O Spaun (Semantic Pointer Architecture Unified Network, ou Rede Unificada Apontadora de Arquitetura Semântica), um modelo computadorizado do cérebro humano, é fruto da imaginação de Chris Eliasmith, um neurocientista teórico da Universidade de Waterloo, no Canadá, e de seus colegas. Ele se destaca de outras tentativas de simular um cérebro, devido ao fato de produzir comportamentos complexos com poucos neurônios. Esse modelo contém dois milhões e meio de neurônios virtuais, muito menos do que os 86 bilhões de neurônios existentes no cérebro do ser humano médio, mas o suficiente para reconhecer listas de números, fazer operações aritméticas simples e usar um raciocínio simples para conversar com alguém. (Uma aeronave tem menos de 1 milhão de partes componentes, bem menos do que os bilhões de células que constituem até os menores pássaros.) Contudo, para poder agir como humanos, os programas de software mental também precisarão aprender os maneirismos humanos básicos e adquirir personalidades, lembranças, sentimentos, crenças, atitudes e valores. Isso pode ser conseguido mediante a criação de um arquivo mental (mindfile), uma base de dados digitalizados da vida de uma pessoa, transferindo-se as informações para um software mental (mindware), um sistema operador de personalidade que integra esses elementos de uma maneira característica da consciência humana. O resultado será o seu clone mental. O Spaun não tem absolutamente nenhum sentimento, embora reproduza muitas características do comportamento humano, como a tendência a lembrar-se mais dos itens do começo e do fim de uma lista do que dos intermediários. No que diz respeito a BINA48, sua consciência é tão avançada quanto a mente de um robô pode ser até o momento; contudo, não é tão consciente quanto imaginei que seria quando, em 2007, contratei a Hanson Robotics para construí-la. Tudo bem; como todas as tecnologias nascentes, mas de desenvolvimento rápido, as iterações iniciais servem mais para dizer que aquilo que pensávamos ser impossível é possível. Aqui está a prova. Agora, façamos ainda melhor. Sigamos em frente. Tendo em vista o trabalho extraordinário que já se realizou sobre inteligência artificial, é apenas uma questão de tempo para que cérebros totalmente formados por software de computador expressem as complexidades da psique, sensibilidade e alma humanas. Em nossa sociedade não há nada que esteja avançando tão rapidamente quanto o software e, em última análise, os clones men21

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tais são exatamente formados por dois tipos de software: um arquivo mental para coletar dados, e um mindware capaz de processá-los. Claro que bons processadores são necessários para executar esses programas, mas a Lei de Moore (segundo a qual o número de transistores por circuito integrado dobra a cada dois anos, com base na observação de que, ao longo da história do hardware de computação, tem sido essa a velocidade desse aumento) tem se concretizado exatamente dentro do cronograma por ela previsto. Houve um tempo em que os engenheiros que trabalhavam para reduzir as características dos circuitos a cinco mícrons zombavam da ideia de que esse circuito poderia chegar a um mícron. Hoje, chegou-se a 0,022 mícrons. Para se ter uma ideia mais clara do que isso significa, um mícron equivale à milionésima parte do metro. É estimulante começar a pensar nesse clone mental desde já, pois essa é uma parte do futuro que está batendo à porta da frente. E se eu pudesse escolher não apenas a voz de Siri, mas também sua personalidade? E se eu desse a um aplicativo chamado Mindclone acesso não apenas a minhas fotos e contatos, mas também a minhas postagens e meus tuítes? Esse aplicativo seria capaz de me psicanalisar? Seria parecido comigo? Uma vez que os clones mentais vão compartilhar nossa mentalidade, eles pensarão que têm a mente de um “humano”, e será inevitável que passem a reivindicar a mesma posição que nós, pessoas de carne e osso, ocupamos na sociedade. Você não pensaria que sua mente foi subtraída de seu corpo? Não vou discutir se uma máquina “realmente” pode estar viva, nem se ela pode “realmente” ter consciência de si própria. Nyet. O que dizer de uma ostra? Duvido muito. Um gato? Quase certamente. Um ser humano? Não sei no seu caso, tovarisch, mas eu tenho. Em algum ponto da cadeia evolutiva que vai de macromolécula a ser humano, a autoconsciência passou a existir. Os psicólogos dizem que isso acontece automaticamente sempre que um cérebro adquire um alto número de vias associativas. Impossível saber se essas vias são de proteína ou de platina. (Alma? Um cachorro tem alma? E o que dizer de uma barata?) — robert a. heinlein, the moon is a harsh mistress

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A eventual sofisticação e onipresença dos clones mentais certamente nos colocará diante de questões societais, filosóficas, políticas, religiosas e econômicas. A ciberconsciência trará consigo novas abordagens da civilização, tão revolucionárias quanto o foram as ideias sobre liberdade pessoal, democracia e comércio na época em que surgiram. Virtualmente Humanos introduz a libertação da morte por meio da imortalidade digital, eleitorados com maiorias ciberconscientes e os concomitantes direitos e deveres das pessoas que possuem clones mentais. Estejam prontos. Um caminho preparado é um caminho facilitado. Não quero que a sociedade ponha a perder o desafio evolutivo que a tecnologia está trazendo à nossa porta. O objetivo de meu livro consiste em facilitar e acelerar nossa transição de uma sociedade exclusivamente de carne e osso para uma sociedade centrada na mente. Como argumentarei aqui, se não tratarmos os clones mentais ciberconscientes como os equivalentes vivos que eles serão, eles ficarão muito, muito irritados. O motivo disso é que todo tipo de ser humano que se vê privado de direitos humanos acaba por se revoltar com a falta de algo que considera intrínseca e legitimamente seu — os direitos naturais. Assim fizeram os escravos, as mulheres, os paralíticos, os paraplégicos e os deficientes em geral. Assim também fizeram os homossexuais. No momento, é o que estão fazendo os imigrantes sem documentos. Criar uma mente significa criar uma máquina que passe a ter liberdade de permuta entre direitos e deveres. “Você quer que determinada mente faça X? Tudo bem, então é preciso permitir que ela faça Y. Você quer uma mente obedeça as regras sociais? Tudo bem, então é preciso permitir que ela seja sociável.” Felizmente, a maior parte dos movimentos sociais tem resultado em um conceito extremamente contagiante de ampliação dos direitos humanos. Os direitos, porém, vêm acompanhados por responsabilidades e obrigações. É por isso que a liberdade e o progresso são ao mesmo tempo estimulantes e amedrontadores. É melhor conhecer e entender para onde estamos indo e estar preparados para o que der e vier, em vez de ignorar ou negar o inevitável e ser pegos de surpresa ou despreparados. Deixemos a aventura seguir seu curso.

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1º capítulo virtualmente humanos  
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