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James Carnac

a autobiografia do mais famoso assassino da história

tradução

Jorge Ritter


Título original: The Autobiography of Jack the Ripper Copyright © 2012, Montacute TV, Radio and Toy Museum Publicado originalmente na Grã-Bretanha, em 2012, por Bantam Press, um selo da Transworld Publishers, empresa que integra o Grupo Random House. Copyright da Introdução e Apêndice I © 2012, Paul Begg Mapa © John Taylor Copyright da edição brasileira © 2016, Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2016. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Seoman não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Manoel Lauand Capa e projeto gráfico: Gabriela Guenther Editoração eletrônica: Estúdio Sambaqui Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Carnac, James Eu sou Jack, o Estripador : a autobiografia do mais famoso assassino da história / James Carnac ; tradução Jorge Ritter. -- 1. ed. -- São Paulo : Seoman, 2016. Título original: The autobiography of Jack the Ripper ISBN 978-85-5503-034-5 1. Assassinatos em série - Inglaterra - Londres - História - Século 19 2. Jack, o Estripador 3. Vítimas de crimes - Inglaterra - Londres - Século 19 4. Whitechapel (Londres, Inglaterra) - História I. Título. 16-02507

CDD-364.1523092 Índices para catálogo sistemático: 1. Assassinos em série : Criminologia : Biografia 364.1523092

Seoman é um selo editorial da Pensamento-Cultrix. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. R. Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoraseoman.com.br http://www.editoraseoman.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


Parte I


Prefácio Quando um homem alcança qualquer grau de nota ou notoriedade, torna-se afligido pela comichão de escrever sua autobiografia. Duvido de que os meses de trabalho envolvidos em levar adiante tal tarefa possam ser justificados, com frequência, por um bom resultado, a não ser que consideremos como bom resultado a mera satisfação do autobiógrafo em escrever continuamente sobre si mesmo até atingir umas setenta mil palavras. Pouquíssimos entre esses autobiógrafos têm algo interessante a dizer, exceto pelo interesse, mais ou menos técnico, ligado à narrativa dos passos e da linha de conduta que levaram o indivíduo à eminência. É verdade que determinados autobiógrafos podem nos entreter ligeiramente ao relatar minuciosamente a frase espirituosa que Sir Herbert Tree – ou uma pessoa tão famosa quanto – disse, e assim por diante; ou ele pode apelar para nossa afeição por um escândalo vilipendiando os contemporâneos do autobiógrafo. Mas, de modo geral, creio que o estado de espírito no qual se encontra o autobiógrafo ao começar sua tarefa ingrata é o mesmo estado em que se encontra o sujeito enfadonho que me prende a um canto para contar-me das coisas maravilhosas que fez, das coisas espirituosas que disse e de como devo considerá-lo um sujeito inteligente. Por que então estou disposto a começar, com quase sessenta e nove anos de idade, a escrever minha autobiografia? Acho que fundamentalmente porque estive acalentando um 23


segredo empolgante por quarenta anos; tive de guardar esse segredo ao longo da vida, mas há uma incontestável satisfação em sentir que posso planejar sua divulgação após a minha morte. E foram feitas tantas especulações em relação à identidade e motivos de Jack, o Estripador que sinto como se fosse quase um dever acabar com essas dúvidas de maneira cabal e definitiva. E talvez eu também tenha sido influenciado por outra questão. Em vários dos inúmeros artigos que apareceram de tempos em tempos, Jack, o Estripador foi dogmaticamente descrito como um maníaco homicida; essa declaração foi feita tantas vezes, na realidade, que agora sua verdade parece ser quase universalmente aceita. Recentemente observei um artigo em uma enciclopédia popular que se refere a “Jack, o Estripador, um maníaco homicida que...” etc. Talvez eu tenha ficado mais sensível com o passar dos anos, mas devo admitir que declarações dessa natureza tendem a me irritar. A realidade é que os autores de artigos sobre Jack, o Estripador – e nunca ouvi falar de uma história sobre ele que não tenha vendido – têm imaginação demais ou nenhuma imaginação. Na primeira categoria estão aqueles que tecem teorias de extraordinária engenhosidade; na segunda estão aqueles que, sendo incapazes de compreender quaisquer ações humanas que se afastem do seu próprio padrão de normalidade complacente, recorrem ao velho termo: maníaco homicida. Quarenta anos se passaram desde que uma menção de Jack, o Estripador fosse suficiente para causar um estremecimento, não somente na região de East End em Londres, mas em todas as partes deste país. Um estremecimento, não de todo motivado pelo horror ao homicídio – como é tecnicamente chamado – pois foram cometidos muitos homicídios que não provocaram mais do que uma agitação bastante amena; mas motivado, acima de tudo, por um temor abjeto do desconhecido. Pois J. E. não era apenas um assassino; ele era um assassino misterioso e bizarro, e, na sua eficiência, onipresença e invisibilidade excepcional, ele parecia, para a imaginação popular, personificar em sua personalidade ocul24


ta os atributos de um demônio. A partir da minha própria lembrança do período, posso dizer que, por mais incrível que isso possa parecer agora, na realidade J. E. era considerado como um ser sobrenatural pelos membros menos esclarecidos da comunidade. Quando uma personalidade assume esse aspecto apócrifo, é muito difícil para a pessoa comum, destituída de imaginação, concebê-la como um ser humano que nasceu, come, ama e amarra os sapatos. Tal pessoa não consegue perceber que aquele ser tem seus pensamentos, sentimentos e sua própria percepção do universo; sendo incompreensível, o desconhecido tem de ser um maníaco. Assim, pode causar surpresa a alguns o fato de que J. E. foi ser humano e de que seus atos tenham sido fruto de reações que simplesmente diferiam, em alguns aspectos, das reações de seus contemporâneos. Desnecessário dizer que meu nome não é Jack. Dediquei alguma reflexão à questão de revelar, de imediato, meu nome, ou de reservá-lo, como iguaria principal, para o fim do relato. Mas decidi, acima de tudo devido à ideia de que talvez não viva para completar a obra, desfrutar em imaginação a sensação que a menção prematura de meu nome causará aos meus colegas. Meu nome é James Willoughby Carnac. “O quê, nosso Carnac?”, eu posso ouvir Fulano de Tal dizendo no clube. “Não pode ser!” E então vai folhear rapidamente as páginas até encontrar meu retrato (e espero que ele seja reproduzido neste livro). “Nossa, é ele mesmo!”, exclamará. “Mas não pode ser! Isto é uma piada. Ora, eu sentei de frente para Carnac no salão de fumar, todos os dias, por anos!” Mas asseguro-lhe, meu querido e velho amigo Fulano de Tal (acho que seria injusto especificar seu nome e assim jogar seu corpo aos repórteres), isto não é uma piada. Pelo menos, não o tipo de piada que você tem em mente. No início, você terá dificuldade em dar crédito ao relato, talvez porque tenha lido que J. E. era um maníaco homicida, e o velho Carnac 25


era obviamente são. Ora, ele jogava bridge muito bem! Mas, deixando de lado a questão da insanidade, com certeza você é capaz de compreender que J. E. existiu de fato. Que conheceu pessoas; sentou-se ao lado delas em bondes e teatros; comprou coisas em lojas. E você sabe que ele se tornou conhecido há apenas quarenta anos. Qual razão possível você pode ter para presumir que ele não viveu até seus setenta anos? Outros já viveram; você mesmo não é mais um garotinho, meu caro Fulano de Tal, se me permite mencionar. Quando você tiver lido este relato e descoberto que ele tampouco não contém nada incoerente, na realidade, nada que você mesmo não possa confirmar facilmente, será que você se sentirá horrorizado? Não; suspeito que o seu sentimento será de orgulho. Você teve o privilégio extraordinário de conversar quase diariamente com J. E. por quase quinze anos sem sabê-lo; que assunto extraordinário para uma conversa lhe foi presenteado agora! Acho, a propósito, que deveria enviar, junto ao meu manuscrito, um pedido para que as seis cópias gratuitas – que, segundo meu entendimento, costumam ser entregues ao autor por seu editor – sejam enviadas ao clube. De outra maneira, minha autobiografia talvez nunca alcance aquele lugar estagnado. Já que esta autobiografia será publicada somente depois de minha morte, posso conceder-me liberdade total ao escrevê-la, tendo em mente, no entanto, que a convenção determinou certos limites do que é permissível. Este livro não se destina a ser lido em voz alta para o círculo familiar, mas, por outro lado, não o quero recolhido pela polícia. Apesar de haver, talvez, a necessidade de abordar com delicadeza uma ou duas questões, há este fato: não tenho parentes e ninguém será prejudicado, portanto, como consequência do opróbrio (sendo a sociedade constituída como é) que se vinculará ao meu nome. E tive o cuidado de não me referir por nome a qualquer pessoa que, até onde eu saiba, esteja viva no momento. 26


Quanto à publicação final do manuscrito, tive de pensar bastante nisso. Mas não sou destituído de recursos e acredito que um pouco de criatividade superará essa dificuldade. Afinal de contas, existem os agentes literários, e se meu testamenteiro não se envolver com alguma dificuldade em relação à legitimação do testamento, não vejo razão pela qual o plano que desenvolvi, ainda que vago, não deva ter sucesso. Se meu tutor cumprir honradamente minhas instruções e não se deixar dominar pela curiosidade sobre aquilo com que está lidando, ao menos o manuscrito deverá chegar até o escritório de um editor. Quanto a quaisquer lucros derivados da publicação, estes devem ter o mesmo fim dos meus outros bens, os quais, por não ter nenhum parente, deixo a uma instituição de caridade ligada aos animais. Pelo menos essa havia sido a minha intenção; mas, recentemente, ocorreu-me alterar o testamento e deixar tudo para o Orfanato da Polícia. A ideia me atrai bastante. Antes de terminar este prefácio um tanto desconexo, é necessário que eu diga algumas palavras em relação às conversações neste livro. Reproduzi-las de modo literal após um lapso de quarenta ou cinquenta anos é obviamente impossível; mas um livro destituído de conteúdo conversacional é, a meu ver, maçante; falta-lhe um mínimo de vivacidade. As conversas aqui estão, portanto, “reconstruídas”, baseadas na essência do assunto tratado e trajadas com as dicções características das pessoas envolvidas, como as lembro. Em alguns casos especiais, no entanto, as palavras reais usadas permaneceram fixas em minha memória apesar da passagem dos anos; as observações da Sra. Nicholl sobre o seu canário, por exemplo. E quando menciono que Martha Tabron exclamou “Oh, Deus!”, que ela conseguiu pronunciar através dos meus dedos cerrados quando a luz refletiu a lâmina de minha faca, estou relatando um fato verdadeiro. Ela disse exatamente isso, nem mais nem menos.

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E uma última palavra ao leitor em geral. Este livro não se apresenta como obra literária, mas apenas como registro dos principais incidentes da minha juventude. Não tenho pretensão de possuir talento literário algum, e escritores competentes não se fazem aos sessenta e nove anos de idade.

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Capítulo 1 Nasci em Tottenham, na época um subúrbio novo – se é que poderíamos chamá-lo de um subúrbio de Londres. Minhas primeiras lembranças de infância do lugar são associadas com casas tradicionais e caminhos embarrados abertos nos campos verdes; a nossa própria casa era, creio eu, bastante nova. Era uma casa geminada, de frente dupla, a última de uma fileira de seis; o seu lado esquerdo dava para um campo de propriedade de um produtor de leite e neste campo pequenos grupos ocasionalmente se reuniam para fazer piqueniques, acendendo fogos furtivos em perigosa proximidade com a nossa cerca de madeira. Quando percebidos, os grupos dos piqueniques eram expulsos do campo pelo fazendeiro com quem meu pai cooperava com satisfação, temendo que cedo ou tarde ateariam fogo à sua cerca. Esse desastre nunca aconteceu, na realidade; mas muitas foram as discussões ocorridas por causa de nossa cerca. Várias delas terminaram com meu pai apagando o fogo ilegal com um balde de água e, nessas ocasiões, senti que apenas a cerca separando-os salvou meu pai de retaliações selvagens advindas dos visitantes. Aprendi a ver com uma expectativa empolgada a chegada de grupos estranhos no campo do nosso vizinho. Meu pai era um médico que, sem dúvida, considerava estar tomando uma sábia providência ao alugar uma casa no que parecia ser um distrito em rápida expansão. Mas, apesar 29


disso, hoje em dia sei que sua clientela foi pequena por muitos anos; ele foi se livrar de suas graves preocupações financeiras apenas relativamente tarde na vida. Nossa casa foi construída de acordo com o plano que vigorava na época, para ser conveniente. Ela tinha três salas de estar e um número comparativamente grande de quartos pequenos; o construtor, presumivelmente, estava determinado a fazer a provisão adequada baseado na iniciativa que incentivava a procriação, comum naquele período. Já que o nosso lar era limitado a mim e aos meus pais, uma grande proporção dos quartos nunca era usada. O quarto de baixo, do lado esquerdo do hall de entrada, ou “corredor”, era usado por meu pai como consultório; o quarto atrás dele que se comunicava com portas dobráveis havia sido modificado para servir como farmácia. Neste quarto eu era estritamente proibido de entrar sob quaisquer circunstâncias, mas uma violação secreta das ordens havia me mostrado que ele continha prateleiras guardando inúmeras garrafas de tamanhos diferentes e aparências fascinantes. O cheiro – que não era desagradável –, procedente dessa alcova de Barba Azul, permeava todo o andar de baixo e podia ocasionalmente ser sentido nos andares de cima. Meu pai, como o lembro pela primeira vez – se é que uma expressão tão definitiva possa ser aplicada a uma coisa tão indefinida quanto às primeiras percepções de uma criança – era um homem alto e magro que usava um bigode loiro que se unia a fartas suíças. Mais tarde, ele passou a usar óculos com aros dourados, pois seus olhos eram fracos e sua visão foi provavelmente afetada por seu hábito de se debruçar sobre um microscópio durantes os seus períodos de lazer à noite. Quando penso naqueles dias tão distantes, o vejo curvando-se sobre a mesa do chá que fora limpa instantes antes, um lado do rosto vermelho da luz refletida do fogo, o outro verde do abajur iluminado de uma lâmpada a óleo colocada ao lado do microscópio no qual ele espiava. Ou o via brincando com pinças pequenas e círculos minúsculos de um vidro quase inacreditavelmente fino, ou, com um tubo de vidro, extraindo 30


gotas de uma água aparentemente suja de uma garrafa para coleta a qual, aos meus olhos, não continha nada além de capim verde. Quando essas gotas eram colocadas em uma lâmina sob o microscópio, às vezes eu era convidado a olhar. Eu jamais acreditaria que as criaturas estranhas e em movimento que nadavam através do meu campo de visão tinham vindo da garrafa. A proficiência de meu pai em produzir essas coisas do nada me deixava impressionado e, no entanto, de alguma maneira, isso não trazia consigo um sentimento maior de orgulho por ele; de alguma maneira curiosa, adquiri a ideia de que o talento que ele demonstrava nesse procedimento mágico era algo inerente em todos os adultos. O hobby microscópico de meu pai coloria as caminhadas de domingo de manhã que eu dava com ele pelas estradas estreitas do interior, próximas da nossa casa. Um passeio favorito era para um lugar chamado Clay Hill, e meu pai sempre levava consigo nessas ocasiões uma bengala telescópica que eu considerava um milagre da engenhosidade. À extremidade prolongada disso, ele prendia uma garrafa para coleta com um anel aparafusado, e isso ele mergulhava em qualquer laguinho ou vala que encontrasse ao longo do caminho, transferindo o “prêmio” para uma das outras garrafas que enchiam seus bolsos. Nessas caminhadas, ele usava, em vez de sua cartola profissional, um gorro com abas de ouvido: ele persistia em usar essa cobertura na cabeça apesar dos protestos de minha mãe que considerava inaceitável para um homem na “posição” do meu pai sair para uma caminhada de domingo usando algo dessa natureza. Os pontos de vista frequentemente expressos de minha mãe quanto ao que era ou não respeitável formaram uma grande parte de minha criação em casa quando pequeno. Estou me lembrando da época em que tinha sete ou oito anos de idade, um período no qual as pessoas das classes mais baixas “sabiam o seu lugar”; quando os membros da comunidade da classe média acima do status social do “trabalhador” (mas que eram trabalhadores naquele tempo) viviam oprimidos pelo temor de violar a conduta convencional e assim con31


fundir a demarcação de classes. As “classes mais baixas” eram, em sua maioria, ignorantes – uma proporção bastante significativa não sabia ler ou escrever – e recebiam de seus conterrâneos em melhor situação social gorjetas de alguns centavos por serviços casuais, com aparente gratidão. Viviam, comiam e se reproduziam como animais – como um todo, no entanto, animais razoavelmente respeitáveis. E creio que viviam, a seu jeito animal irracional, mais satisfeitos do que o chamado trabalhador de hoje em dia. Ser culpado por qualquer ato ou hábito que pudesse ser atribuído às classes mais baixas, minha mãe repetia sempre, era motivo para sentir-se especialmente envergonhado. Uma conduta de meu pai ou minha que parecesse “baixa” a perturbava mais que qualquer outro tipo de manifestação; e suas visões religiosas convencionais eram, creio eu, baseadas mais no que parecia “respeitável” do que em qualquer convicção de benevolência divina. Sua aversão por um ateísta ou um livre pensador ocorria menos pela percepção que ele pudesse ser um pária de Deus do que pelo fato de suas convicções não serem consideradas respeitáveis. Estranhamente, minha mãe não era, para mim, uma personalidade tão definida quanto meu pai, embora eu andasse, suponho, mais em sua companhia. Ela tinha pouco a dizer à parte de seus acessos sobre questões religiosas e convenções às quais fiz alusão. Ela se movia em silêncio realizando suas tarefas do lar em um estado que poderia variar do mau humor à apatia – não sei dizer. E ela era dada a choros furtivos constantes. Acho que só quando cheguei aos dez anos, por aí, que percebi que os “hábitos” do meu pai eram a causa disso, e alguns anos mais se passaram antes que eu soubesse que os hábitos em questão eram ligados à bebida. É bastante evidente para mim agora que ele bebia com constância e persistência e que isso, sem dúvida, explicava até certo ponto sua falta de sucesso profissional. Posso tocar apenas de passagem esses anos primordiais, pois a memória deles é intermitente, e os incidentes triviais que sou capaz de me lembrar pouco interessam. Vou 32


pular o perĂ­odo dos meus primeiros anos escolares no que deve ter sido, creio eu, uma escola da igreja ou na casa de uma professora, e tentar descrever minha primeira escola de garotos para a qual fui enviado com aproximadamente doze anos.

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1º capítulo eu sou jack, o estripador  
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