Page 1

Trilogia Ecos do Espaรงo Livro 3

ESPAร‡O LIMITES

SEM

Espaรงo sem Limites.indd 1

22/12/16 13:04


Espaรงo sem Limites.indd 2

22/12/16 13:04


MEGAN CREWE

ESPAÇO LIMITES

SEM

Tradução JACQUELINE DAMÁSIO VALPASSOS

Espaço sem Limites.indd 3

22/12/16 13:04


Título do original: A Sky Unbroken Copyright © 2015 Megan Crewe. Copyright da edição brasileira © 2017 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com Sandra Bruna Agencia Literária, SL e Adams Literary. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2017. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de Carvalho Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Join Bureau

Revisão: Nilza Água

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Crewe, Megan Espaço sem limites / Megan Crewe ; tradução Jacqueline Damásio Valpassos. – São Paulo : Jangada, 2017 Título original: A sky unbroken ISBN: 978-85-5539-075-3 1. Ficção canadense 2. Ficção fantástica I. Título.

16-00351

CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura canadense em inglês 813

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

Espaço sem Limites.indd 4

22/12/16 13:04


Para Chris, com amor de todo tipo.

Espaรงo sem Limites.indd 5

22/12/16 13:04


Espaรงo sem Limites.indd 6

22/12/16 13:04


1. Skylar

A

cordo num recinto escuro com o corpo tenso e dolorido, e sozinha. Quando abro os olhos, não há nada para ver. Não existe sequer um pontinho de luz. O piso no qual estou caída é frio e duro. Um cheiro mineral familiar permeia o ar. Eu tateio em volta com as mãos e os pés e só encontro paredes. O espaço não é muito maior do que o closet do meu quarto lá em casa. Lá em casa... Meu lar. Uma onda de fogo varrendo a atmosfera da Terra, abrasando toda a superfície do planeta enquanto eu testemunhava tudo lá de cima. Nuvens vermelhas e roxas flamejantes arrasando o que havia no caminho. Cada partícula de vida azul e verde consumida pelo fogo. Meu estômago se revira. Inclino a cabeça, engasgando com a saliva de gosto ácido e azedo. Então me arrasto, tentando me erguer um pouco do chão, até sentir as costas batendo na parede atrás de mim. Sentada ali, limpo a boca. Minhas pernas tremem. Acho que não conseguiria me levantar mesmo se quisesse.

Espaço sem Limites.indd 7

► 7

22/12/16 13:04


Meu lar já não existe mais. A minha casa, a minha rua, a minha escola, o parque onde eu praticava cross-country, a Michlin Street com seus cafés, a loja de tortas, o brechó favorito de Angela e... Angela. Mamãe e papai. Lisa. Evan. Meus avós. Cada colega e professor que eu tive. Cada um dos meus vizinhos. Todo mundo... O horror disso se avoluma dentro de mim, sufocando-me. Meus olhos ardem. Mortos. Estão todos mortos. Minha mente não consegue assimilar os fatos — afasta-se desse pensamento e se debate pelos cantos como um rato preso em uma jaula com um elefante. Simplesmente não há espaço dentro de mim para a verdade plena a respeito disso. No entanto, não há nada mais além disso. Só eu, sozinha no escuro. Baixo a cabeça e balanço de um lado para o outro. Não percebo que estou chorando até que os soluços desesperados começam a escapar de mim, as lágrimas escorrendo pelas bochechas, salgando os meus lábios. Um som grave e estranho irrompe no meu peito, como se o meu corpo estivesse tentando sufocar a verdade. Como se, ao abafar a verdade, ela deixasse de existir. Aperto os braços em torno dos joelhos, ainda balançando pra lá e pra cá. Não. Não. Não. Eu me recuso a aceitar isso. ☆

Quando volto a mim, não sei quanto tempo se passou. De repente, percebo a sensibilidade na garganta e no rosto, na região onde eu o esfreguei contra o jeans, a gola da camiseta encharcada pelas lágrimas e as multiplicações por três reverberando no fundo da minha mente como se fossem um eco: 3 vezes 19.683 é 59.049, 3 vezes 59.049 é 177.147, 3 vezes 177,147 é... A noção do que aconteceu permanece lá, como uma montanha distante por trás da minha consciência. Eu evito olhar mais de perto. Enquanto ela estiver lá, palpável, mas apartada do restante dos meus pensamentos, eu me sentirei mais como eu mesma. Não posso lidar com a enormidade da catástrofe neste momento. Eu iria continuar multiplicando, tentando chegar ao infinito.

Espaço sem Limites.indd 8

► 8

22/12/16 13:04


Em vez disso, procuro respirar de forma calma e controlada, e pressiono as palmas das mãos contra o chão frio. Há um sutil tremor na superfície abaixo de mim. Eu ainda estou em uma nave, acho. Uma nave que está se movendo muito rapidamente, mesmo nos padrões kemyanos, para que o tremor seja tão perceptível. Eu estava em uma nave quando tudo aconteceu. A espaçonave de passeio do irmão de Tabzi. Na cabine de comando, assistindo pela gigantesca tela de monitor aquele turbilhão devastador... Win disse que a bomba tinha a mesma tecnologia que levou à destruição acidental de seu planeta e obrigou os kemyanos sobreviventes a viver na estação espacial em órbita acima dele, milênios atrás. Eu viajei até o seu antigo planeta como membro de uma expedição de mineração. Não havia ali o menor vestígio de vida: por todos os lados, até onde a vista alcançava, a mesma paisagem monótona de terra árida marrom e água cinzenta. Deve ser assim que a Terra está agora. Sinto um nó no estômago, e afugento a imagem. Não quero pensar nisso neste momento. Primeiro, tenho que lidar com o que está acontecendo agora. Minhas impressões sobre o que se seguiu à detonação são fragmentadas. Um esquadrão de policiais kemyanos irrompeu na cabine acompanhados por Thlo. Nós seis olhamos para eles, e para ela, a mulher que liderou o nosso grupo de rebeldes até aquele ponto. Para seus olhos impenetráveis enquanto ela gesticulava para os Executores. Lembro-me do guincho metálico de uma blaster e o corpo de Isis sendo arremessado, cachos vermelhos e pretos se desgrenhando; Britta saltando para cima e sendo alvejada também. Thlo apontando para mim: “Cuide daquela ali”. Win atirou-se na minha frente e absorveu aquele disparo, mas isso de nada adiantou. Quando fui na direção a ele, caído e ofegante, um outro disparo acertou a minha nuca. Depois disso, escuridão total. Não tenho a menor noção de quanto tempo fiquei apagada. Obviamente, fui transferida da cabine de comando — mas a que distância estou dela? Será que ao menos estou na mesma nave?

Espaço sem Limites.indd 9

► 9

22/12/16 13:04


E onde estão os outros? Os Executores atiraram para entorpecer, não para matar... Pelo menos, enquanto eu estava consciente, antes de ser atingida. Poderiam estar todos mortos também. Tabzi e Emmer, que eu mal conhecia, mas que acudiram quando mais precisamos deles. Isis, que assumira o comando na ausência de Thlo, com sua habitual maneira de ser: doce, mas determinada. Britta, que arriscara a vida por mim, distraindo as naves que apareceram para nos deter, sem deixar de sorrir durante toda a operação. E Win. Aquele com quem pude contar o tempo todo, que esteve me protegendo até o último instante. Abraço o meu corpo, recordando o abraço dele. A última vez que o abracei, sabia que era para ser a derradeira vez. Era para eu partir e nunca mais vê-lo novamente. Mas ao menos eu saberia que ele estava bem, trabalhando para o futuro com o qual havia sonhado. Talvez ele, e todos os outros, ainda estejam bem. Eu mesma estou viva, apesar de tudo, embora seja uma terráquea levada ilegalmente para Kemya, e a quem fora permitido testemunhar todos os aspectos de suas vidas e tecnologia. O “protocolo-padrão” ditaria que eu deveria ter sido morta imediatamente. A menos que os Executores quisessem me interrogar antes. Thlo não gostaria disso, se ela estiver apenas mantendo as aparências, fingindo ser leal ao Conselho dos líderes de Kemya. Há tantas coisas que eu poderia revelar aos Executores, sobre quem esteve por trás das atividades rebeldes todos estes anos... Firmo meus pés contra o chão e as costas contra a parede. Não sei o que vou fazer quando alguém aparecer, mas não vou desistir sem lutar. Mesmo que o meu mundo, e todas as pessoas pelas quais eu estava lutando, estejam... Não devo pensar nisso agora. Não devo pensar nisso agora. Não devo pensar nisso agora. O tempo passa, e a escuridão permanece. O ligeiro tremor do piso não para. Nenhum som penetra as paredes. Ninguém vem. Meu estômago está embrulhado demais para sentir fome, mas a boca está seca como areia. A parte de trás da cabeça, onde fui atingida pelo

Espaço sem Limites.indd 10

► 10

22/12/16 13:04


Executor, dói, embora a pele em si não esteja machucada. Eu poderia descansar a testa nos joelhos e fechar os olhos, só por um momento, mas receio que, do jeito que estou esgotada, não seja só por um momento. Minhas pálpebras estão começando a se fechar por vontade própria quando um retângulo luminoso se abre diante de mim com um discreto ruído. Mal tenho tempo de registrar uma silhueta recortada contra a luz antes do disparo da blaster. ☆

Na segunda vez que desperto, deparo-me com uma rede de linhas finas e brilhantes que se entrecruzam no teto baixo. Estou deitada e sinto uma pressão no pescoço, antebraços e tornozelos, que me impede de fazer qualquer movimento maior do que me contorcer. Uma dor pungente sobe pelo braço quando testo a algema à minha esquerda, como se eu tivesse sido picada no interior do pulso. — Ainda não está ativo — um homem diz em kemyano, fora do meu campo de visão. — Pergunte a ela o que quiser, e me diga quando (...) isso. O que não está ativo? Uma figura se aproxima de mim e eu posso vê-la. Uma mulher musculosa e de pele escura, com uma blaster presa ao cinto prateado que traz na cintura. Ela é uma Executora. Eu gelo quando os olhos dela encontram os meus. Ela ergue a cabeça, os cantos de seus lábios curvados para baixo. — Tenho algumas perguntas para você — diz ela em inglês, sem emoção em seu tom de voz. — Você veio da Terra... há quanto tempo? Dois meses. Faz dois meses desde que Win e eu procuramos Jeanant, ex-líder dos rebeldes, por todo o meu planeta e através da História, coletando as peças da arma que ele havia escondido lá quando a sua missão para libertar a Terra falhara. Dois meses desde que Win convidou-me para vir para Kemya com ele, para acompanhar a tão sonhada conclusão da missão. Eu não sei quanto disso tudo os Executores já descobriram. Então, não respondo nada. A mulher não pressiona, apenas segue em frente.

Espaço sem Limites.indd 11

► 11

22/12/16 13:04


— Você ajudou seus “amigos” kemyanos no planejamento para desativar o gerador de campo temporal da Terra? Nós não planejamos apenas, nós conseguimos. Por talvez dez gloriosos minutos, a Terra ficou livre dos cientistas kemyanos e Viajantes que estiveram manipulando o nosso passado por milhares de anos de experimentações. Dez gloriosos minutos antes que Emmer avistasse a bomba sendo largada na atmosfera. — Sim — respondo. Não fazia sentido negar o óbvio. — Você pretendia voltar para Kemya depois disso? — Não. Eu queria ir para casa e esquecer que vocês existem. Eu engasgo com minha veemência. Os cantos da boca da Executora se curvam novamente, desta vez no que parece ser um sorrisinho afetado. Eu a estou divertindo? — Você detesta Kemya tanto assim? — ela pergunta. — Kemya é legal — respondo com dificuldade. — Eu apenas prefiro a Terra. Eu queria que fôssemos livres, e voltar para a minha vida do jeito que ela era. Só isso. — E agora? Agora tudo isso se foi. Levo um tempinho para conseguir falar novamente. Eu não vou chorar na frente dela. — Eu não sei. — Você queria libertar a Terra — ela continua sem pausar. — E quais seriam os motivos de seus “amigos” fazerem isso, na sua opinião? Em parte, pela mesma razão que eu, mas não acho que dizer isso irá ajudar. — Porque eles se preocupam com Kemya. Eles queriam que os experimentos parassem para que vocês começassem a procurar um novo planeta para se estabelecerem e terem um verdadeiro lar. — O que eles planejavam fazer em seguida? — Nada. Tínhamos concluído. Isso era tudo o que queríamos. — Uma onda de medo me invade. Ainda assim, não posso deixar de acrescentar: — Onde eles estão? Meus amigos?

Espaço sem Limites.indd 12

► 12

22/12/16 13:04


A Executora me ignora. Ela leva a mão até a orelha e depois se afasta um pouco. Após um momento, murmura algo que não consigo entender. Será que está falando com alguém através de um comunicador? — Acabou — diz ela depois de um minuto para outra pessoa na sala. — Comece. Acabou? Ela não perguntou sobre os outros que poderiam ter ajudado nós seis, ou quem estava nos liderando, ou qualquer outra coisa que eu teria esperado. Quem interrompeu o interrogatório, e o que disse a ela? Há um clique mecânico perto da minha cabeça. Sinto de novo picadas no pulso, mas apenas por um breve instante. — Quanto tempo leva para (...)? — uma nova voz pergunta, acentuadamente anasalada. Meu coração aperta. — O efeito começa de imediato — o homem que ouvi antes responde. — Vai levar algum tempo para se adaptar às... reações dela. Uma mulher diferente aparece ao lado dos meus pés. Uma mulher magra, com cabelo liso, de um louro platinado, e pele leitosa. Kurra. A Executora que seguiu a mim e Win na Terra, que quase me pegou em Kemya. Que eu vi atirar na cara de um menino terráqueo do lado de fora de uma caverna no Vietnã, deixando-o caído ali morto e com o rosto carbonizado. Meu pulso acelera enquanto seus olhos cinzentos e gelados pousam em mim. Ela vai... Eu tenho que... A onda de pânico nem bem me atinge e já recua, como se meu corpo fosse uma esponja e a sensação fosse absorvida de forma instantânea por ele. Minha garganta comicha com um sabor vagamente fermentado. Eu olho para Kurra. Alguém mais está falando. Não a minha língua. Mas eu deveria ser capaz de... Algumas frases penetram meus pensamentos dispersos: ... as ordens eram para... com os outros... não é um problema de... — Você me reconhece? — Kurra diz. Minha atenção volta rápido para ela. Outra onda de pânico me atinge e com a mesma rapidez é absorvida. Eu não consigo raciocinar. O que era... Ela está olhando para mim. Ela me fez uma pergunta.

Espaço sem Limites.indd 13

► 13

22/12/16 13:04


— Sim — respondo. — Você agora está em meu poder — diz ela. — Está com medo? A próxima onda de pânico é pouco mais do que um lampejo, que já desapareceu. Eu pisco perplexa para ela. Eu deveria estar. A blaster em seu quadril. O menino... Mas sua figura enche minha visão e tudo que sinto é placidez. — Eu não sei — respondo. Ela sorri levemente e diz algo por cima do ombro que eu não consigo captar. Quando ela chega mais perto, a primeira mulher retorna e toca em seu braço. Elas trocam palavras, depressa demais para que eu as siga. Minha mente entra e sai de foco. Eles fizeram alguma coisa comigo. Eles fizeram... A sensação de urgência se esvai tão rápido quanto meu pânico antes. A outra mulher está colocando a mão no meu cotovelo. Eu recuo e o meu braço se mexe. As contenções foram removidas. Um flash de alívio é sugado de volta para a piscina de placidez que me preenche. Um homem agarra o meu outro braço. Eles me puxam e me colocam de pé. Eu cambaleio um pouco antes de recuperar o equilíbrio. Elegantes estruturas em bege e aço me rodeiam na pequena sala, com monitores repletos de caracteres alienígenas brilhando em verde entre elas. Sou rebocada porta afora. Minhas pernas se movem, esquerda, direita, seguindo meus captores. Caminhamos por um corredor estreito, paredes e piso em cinza-claro, iluminação suave. Não estou onde estive antes. Antes, quando? A impressão é nebulosa. Enquanto dobramos uma esquina, tento lidar com as imagens embaralhadas na minha cabeça: um piso macio esponjoso; uma ampla sala de navegação com reluzentes terminais e uma tela que se estende por toda uma parede. Meu planeta. Azul, verde e branco, e vermelhos e roxos rodopiantes... Perco o fôlego. Placidez. Estou tentando juntar as peças novamente quando uma Executora abre uma porta, e as várias vozes antes audíveis caem no silêncio.

Espaço sem Limites.indd 14

► 14

22/12/16 13:04


Ela me empurra para dentro. A iluminação nesta sala é ainda mais fraca do que no corredor. Na penumbra, dezenas de pessoas estão de pé ou sentadas ao longo das paredes, em pequenos grupos. Há uma frieza no ar. A porta se fecha com um leve ruído atrás de mim. Então, uma figura com longos cabelos negros se atira na minha direção, abraçando-me apertado: — Skylar! Oh, meu Deus, eu pensei... Antes mesmo de entender o que está acontecendo, estou retribuindo o abraço. O rosto macio pressionando o meu, a voz radiante mesmo em meio ao seu choque, o aroma do xampu de jasmim em seu cabelo. A alegria explode dentro de mim. Placidez. Eu já estou abraçando-a mais apertado. — Angela? Quando ela se afasta um pouco, eu a olho perplexa. Angela está aqui. Angela. Aqui. Ela deveria estar... Uma pontada de dor. Placidez. — Skylar? Oh, querida... Sou envolvida em um abraço de ambos os lados. Braços trêmulos, um beijo pressionado no topo da minha cabeça, lágrimas nos olhos. Meus olhos se arregalam. Por um segundo, eu não consigo respirar. — Mamãe? Papai? A piscina dentro de mim engole tudo, deixando apenas calma. É um sonho. Tem que ser um sonho. A atmosfera até tem aquele sabor de sonho, frágil e vago. A maneira como as pessoas ficam dizendo coisas que eu não compreendo bem. Minha atenção se desviando, não importa quanto eu tente me concentrar. Era com isso que eu queria sonhar. Meus pais. Angela. Antes, no escuro, eu... Placidez. Meu olhar vagueia pela sala enquanto uma chuva de palavras desaba sobre mim. Lá está Evan, vindo em direção a nós, e... a professora de Física, Cavoy? Reconheço alguns colegas meus nessa matéria. Ali adiante... é o

Espaço sem Limites.indd 15

► 15

22/12/16 13:04


Daniel? E alguns de seus amigos. Um homem de pele escura que eu acho que ensina Química, e uma mulher de bochechas coradas do departamento de Inglês. Ali estão os Sinclair, vizinhos do outro lado da rua, e Ruth e Liora, que moram algumas casas mais adiante... Não faz sentido. Eu vi a Terra sendo incendiada. Todo mundo aqui, todos eles deveriam estar... Minhas emoções mudam e se acomodam de forma tão suave que eu perco o fio desse pensamento completamente. Mamãe ainda está falando. — ... onde você estava. Quando você não voltou para casa, e ninguém tinha visto você... estamos tão felizes que você esteja bem! — Eu não voltei para casa — repito. Levar as palavras do meu cérebro até a minha língua é como empurrá-las através da lama. — Ontem à noite — papai diz, e pausa. — Se é que foi ontem mesmo. Isso não é importante, Sky. O importante é que você está aqui agora, onde quer que aqui seja. — Nós vamos descobrir o que está acontecendo — mamãe diz, com uma voz feroz. — Eu não sei quem é o responsável por isso, mas eles não podem nos prender sem nenhuma explicação, isso é ridículo! Eles não sabem. Eles não sabem que isso é uma nave espacial, eles não sabem que nossos captores não seguem as regras da Terra, eles não sabem que a Terra... Placidez. Minha mente inteira tornou-se turva, pensamentos, memórias e sentimentos como peixinhos escorregadios que entram e saem de vista, logo abaixo da superfície. Eu me sacudo, mas a água não clareia. — Skylar — Angela diz, agarrando meu antebraço. Olho para os dedos castanhos contra a minha pele mais pálida e um vislumbre de memória pisca. Uma jovem mulher, Yenee, vaga e robótica. Tabzi, tocando-lhe o pulso, bem ali. O implante, ele a mantém... relaxada. Em uma pequena sala, com a... O que eu estava lembrando? Eu mergulho atrás das imagens e volto à tona de mãos vazias.

Espaço sem Limites.indd 16

► 16

22/12/16 13:04


— Você está bem? — Angela me pergunta. — Será que eles fizeram alguma coisa com você? Eles fizeram. Sim. Uma rede de luzes no teto. A picada no meu pulso. Se eu conseguisse reunir essas ideias, talvez pudesse responder adequadamente. Mas Angela fica olhando para mim com aqueles olhos grandes e escuros, cada vez mais arregalados a cada segundo que permaneço em silêncio. — Eu vou ficar bem — eu me ouço dizer. Toco o seu braço. Agarro a manga da mamãe. Eles estão aqui. Meus dedos apertam, mantendo-as perto. Consigo concatenar as ideias e formular uma única pergunta: — Como vocês todos vieram parar aqui? — Três jovens — diz mamãe. — Nós tínhamos acabado de chegar em casa do trabalho, eles devem ter arrombado a porta. Eles caminharam direto para a sala de estar e... — Ela olha para o papai. — O que foi que eles usaram, para nos apagar? — Eles deviam ter tasers — papai especula, mas ele está franzindo a testa. Blasters, eu penso. — Eu estava em casa com a mamãe — Angela diz, acenando para uma figura pequena que eu não havia notado antes, a mãe dela, agachada em um canto da sala — e Evan, ajudando-o com suas fotos... Mas meu pai estava no andar de cima. Nós não o vimos. Você acha que eles podem tê-lo ferido? Mamãe começou a remexer em seus bolsos: — Eu quase me esqueci. Um dos jovens, logo antes de ele me... apagar, me fez pegar isso. Ele disse que eu deveria dar a você. Sabe o que significa? Ela me passa um pedaço de papel. Eu olho para ele em silêncio. Há uma linha de caracteres alienígenas rabiscada nele. Minha visão embaça e estabiliza quando o significado da sentença me ocorre. Eu fiz o que pude. J. Apenas isso. J. Olhos escuros, lábios quentes, voz grave e provocante. Jule. Engulo em seco quando a dor me atravessa. Aqueles olhos angustiados, uma crueza na minha voz. Você colocou a nossa vida em risco para... Placidez. Uma piscina de placidez em que mergulho fundo, fundo, fundo.

Espaço sem Limites.indd 17

► 17

22/12/16 13:04


Minha mão se fecha em torno do papel, amassando-o. Por que meus dentes estão cerrados? Isso também se vai, as ondulações na água se acalmam. Jule fez o que pôde. Então, é por causa dele que os meus pais, Angela, todo mundo está aqui... Mas, como? Estou muito confusa para conjecturar. Minhas pernas oscilam, e minha mãe me puxa para ela. Deixo-me afundar no conforto de seus braços. — Está tudo bem — diz ela. — Podemos falar sobre isso mais tarde. De algum modo, eles estão aqui. Em uma nave. Indo para uma estação espacial como uma lasca de gelo pairando sobre um planeta estéril. As pessoas de lá, elas não gostam de nós. Eu sei muito bem disso. E agora os meus pais, os meus amigos... eles são tão cativos quanto eu.

Espaço sem Limites.indd 18

► 18

22/12/16 13:04

1º capítulo espaço sem limites  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you