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Bastidores de uma história de genialidade, assassinato e superação

Tradução

Carmen Fischer


Copyright © 2010, Deborah Ball Copyright da edição brasileira © 2015, Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com Crown Publishers, um selo do Crown Publishing Group, divisão da Random House, Inc., New York. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2015. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Seoman não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Manoel Lauand Editoração eletrônica: Estúdio Sambaqui Capa: Gabriela Guenther

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ball, Deborah Casa Versace : bastidores de uma história de genialidade, assassinato e superação / Deborah Ball ; tradução Carmen Fischer. -- 1. ed. -- São Paulo : Seoman, 2015. Título original: House of Versace : the untold story of genius, murder, and survival. Bibliografia ISBN 978-85-5503-012-3 1. Comércio de vestuário - Itália - História 2. Estilistas de moda - Itália - Biografia 3. Moda - Estilo Itália - História 4. Versace, Gianni, 1946-1997 I. Título. 15-03417 CDD-746.92092 Índices para catálogo sistemático: 1. Itália : Estilistas de moda : Biografia 746.92092

Seoman é um selo editorial da Pensamento-Cultrix EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. R. Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoraseoman.com.br http://www.editoraseoman.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


Para meus pais, Georgina e Lawrence. Para meus irmĂŁos e suas respectivas famĂ­lias. Para Fabrizio.


Índice um

“Gianni foi baleado”

9

dois

A ovelha negra

31

três

Rompendo as amarras

47

quatro

Irmã, companheira de diversão e confidente

62

cinco

Uma nova era

73

seis

Rivalidades e parcerias

88

sete

Inspiração e musa

101

oito

Rock e realeza

115

nove

Supermodelos e uma superstar

132

dez

Diva

146

onze

Estragado(s) pelo sucesso

157

doze

Conflito

178

treze

Assassinato

194

quatorze

Atriz substituta no palco

210

quinze

Herança e perda

222

dezesseis

Irmãos em guerra

238

dezessete

Rumo à ruína

252

dezoito

No fundo do poço

268

dezenove

Recuperação

289

vinte

Um novo começo

306

agradecimentos

313

notas

319


um

“Gianni foi baleado” Já era meio da tarde do dia 15 de julho de 1997 e o calor em Roma continuava tão escaldante ao ponto de os saltos finos dos sapatos furarem o asfalto da Cidade Eterna e deixarem suas marcas nas calçadas. Na Piazza di Spagna, com sua sinuosa escadaria espiralada, havia uma tremenda agitação. No início da manhã daquele dia, a polícia havia feito uma varredura nos degraus de mármore amarelo-claro, espantando os artistas de rua e os malandros que pretendiam se fazer passar por Romeu com suas cantadas baratas nas belas turistas, para que as equipes de televisão pudessem instalar suas potentes câmeras e refletores sobre duas torres móveis. As equipes de televisão estavam montando as instalações para a transmissão, na noite do dia seguinte, do desfile Donna sotto le stelle, ou “Mulher sob as Estrelas”. Donna sotto le stelle era o tipo de atração que havia se tornado a marca da televisão italiana nos anos 1980. Dezoito grifes de moda, entre elas a Valentino e a Fendi, enviariam seus mais fabulosos vestidos de noite para que mulheres desfilassem, descendo as Escadarias Espanholas iluminadas, aumentando a atmosfera festiva com um agradável cenário romano ao fundo. Para acrescentar um pouco de dramaticidade ao espetáculo, seus organizadores sempre escolhiam um estilista para homenagear. Naquele ano, o escolhido era Gianni Versace. A irmã de Gianni, Donatella, havia chegado na noite anterior ao Hotel De La Ville, um antigo castelo do século XVII situado no alto da escadaria. Como de costume, ela ocupou o melhor quarto – uma cobertura de luxo no oitavo andar circundada por um terraço com vista panorâmica se estendendo da cúpula do Vaticano até o Coliseu. Na suíte, havia um pequeno piano de cauda branco, deixado no hotel pelo compositor Leonard Bernstein, que certa vez 9


havia vivido ali por seis meses. Santo, o irmão mais velho de Donatella e Gianni, odiava suítes extravagantes e havia desfeito suas malas num apartamento mais modesto do mesmo hotel. Naquela manhã, cada estilista havia tido um período de uma hora para ensaiar suas modelos nas Escadarias Espanholas, a mais traiçoeira das passarelas, com seus 135 degraus de mármore, muitos deles escorregadios em função do desgaste causado por séculos de trânsito de turistas. Dezenas de modelos ensaiaram cuidadosamente suas descidas usando os sapatos de salto fino que usariam no dia seguinte. Donatella já havia coordenado a primeira hora no esquema de ensaios daquela manhã. Como os produtores sabiam que os espectadores logo perdiam o interesse pelos longos desfiles de belas modelos em roupas maravilhosas, eles costumavam programar para que os estilistas mais importantes fossem os primeiros. Naquele ano, Gianni Versace fora o escolhido para iniciar o desfile. Devido ao enorme número de estilistas, os organizadores haviam estabelecido o limite máximo de quinze vestidos para cada um colocar na passarela. Donatella tinha ignorado esse limite e levado trinta e cinco vestidos, acreditando que o brilho das roupas de sua grife seria irresistível aos produtores do desfile e que ninguém iria, portanto, reclamar. Além disso, ela colocaria na passarela Naomi Campbell, a estrela das supermodelos, famosa por seu corpo perfeito, seu grande talento como manequim e sua capacidade de exibir um vestido com graça e elegância. Naomi era importante demais para comparecer ao ensaio daquela manhã, de maneira que outra garota a substituiria. Naomi havia chegado à Itália alguns dias antes para curtir uns dias de férias na Costa Amalfitana e seria conduzida por um motorista particular até Roma para o ensaio final naquela noite. Mesmo num mundo apinhado de egos de um milhão de dólares, Naomi era a suprema diva, graças tanto a suas excentricidades como à agilidade de seu corpo. O ávido interesse da superstar de vinte e sete anos por homens importantes, carros velozes e copiosas quantidades de cocaína constituía uma fonte incessante de exploração pelas colunas de fofocas. Os acessos de fúria de Naomi haviam se tornado lenda. Certa vez, a reação violenta que ela tivera por causa do extravio de sua bagagem fizera com que a polícia de Londres a arrastasse aos chutes e berros para fora do avião. Em outro de seus acessos, ela jogou um telefone celular em cima de sua empregada, provocando um corte que precisou ser costurado com pontos. Mas com Gianni, Naomi se comportava de maneira diferente, era uma criatura mais tratável. Havia muito tempo que ela era sua modelo preferida – a mulher que ele normalmente tinha em mente quando desenhava seus vestidos. A graça felina de Naomi era o perfeito contraste que fazia ressaltar o glamour 10


de suas criações. A grife Versace a tornara famosa como uma das supermodelos originais lançadas por Gianni. Ele também desempenhava o papel de irmão mais velho e protetor e, como tal, conseguia abrandar seu temperamento caprichoso e irritável. Para firmar seu vínculo com o clã, Naomi havia se tornado grande amiga de Donatella, que a convidava muitas vezes para passar finais de semana na mansão dos Versace à beira do Lago Como. Enquanto Naomi seguia viagem para Roma, duas salas de reunião no primeiro andar do Hotel De La Ville foram transformadas em bastidores provisórios, abarrotados de detritos típicos resultantes dos preparativos para um desfile de moda, e maquiadores, cabeleireiros e costureiras davam às garotas a aparência altamente estilizada e sensual com que deveriam se apresentar no ensaio. Vestidas com jeans gastos e desprovidas de maquiagem, as garotas davam risadinhas e fofocavam, sugando Coca-Cola diet em lata enquanto aguardavam sua vez. Com apenas quatorze anos, algumas ainda estavam na pré-puberdade e pareciam ter corpo de menina. Na realidade, com exceção das supermodelos, muitas modelos têm uma aparência surpreendentemente comum quando estão sem maquiagem. São camaleões que os estilistas conseguem transformar no tipo de mulher que desejam para projetar a moda da estação. Diante de uma parede, muitas mesas de toucador enfileiradas, equipadas com lâmpadas de luz forte e entulhadas de frascos, tubos e pedaços de cabelo artificial. Os maquiadores seguravam firmemente as cabeças das garotas, girando-as para a esquerda e para a direita para examinar o resultado de seus trabalhos. O ar do ambiente foi ficando carregado de cheiros enjoativos de produtos para cabelos, fumaça de cigarros e vapores de café. Como as garotas desfilariam apenas uma noite e não teriam que cumprir uma maratona de moda, o trabalho dos cabeleireiros e maquiadores era relativamente fácil. Durante uma semana de moda, quando as garotas tinham de se apressar de um desfile para outro, os cabeleireiros e maquiadores também precisavam ser rápidos, para remover unhas artificiais, penteados esmerados, o gel bronzeador que cobria o corpo todo, e tudo que tivera a ver com o último desfile. Uma modelo que participa de toda a maratona de cinco semanas de um desfile de estação acaba com a pele, cabelo e unhas totalmente arruinados pelos tratamentos impiedosos. Uma vez maquiadas, as modelos se despiam, ficando apenas de sapatos de salto alto e biquíni brasileiro, do tipo fio dental, e aguardavam a sua vez de serem vestidas sem estragar a maquiagem ou manchar os vestidos com a loção oleosa que haviam passado nas pernas para torná-las reluzentes sob os refletores. Como muitas modelos faziam dietas radicais para emagrecer em poucos 11


dias ou tomavam laxantes antes de um importante desfile, as costureiras maternais da Versace, com alfinetes entre os lábios, estavam prontas para ajustar os vestidos a suas novas figuras. Fita adesiva de dupla face era aplicada sobre os seios das modelos para impedir que eles saltassem para fora dos decotes, que eram a marca registrada da Versace, enquanto elas desfilassem na passarela. Bandejas de comida ficavam intocadas. Os assistentes de Donatella tiravam então fotografias Polaroid de cada mulher com o vestido que lhe era designado, acompanhado das joias e bolsa que ela usaria no desfile. As fotografias eram então fixadas numa prateleira com todas as peças que cada modelo usaria para que ela não esquecesse de nenhuma. Donatella estava observando uma costureira vestir uma modelo, fazer os ajustes de última hora, quando seu celular tocou. Era obviamente Gianni, ligando de Miami Beach, para atormentá-la com perguntas. Desde os anos 1970, Gianni vinha fazendo sucesso em desfiles de moda e, portanto, dominava perfeitamente o trabalho de orquestração necessário para a passarela, tarefa em que Donatella estava empenhada no momento. Ele sabia que um desfile – envolvendo uma sucessão rápida de até sessenta trajes em quinze minutos – tinha de ser tão bem coreografado quanto um balé, exigindo semanas de preparação para a escolha da música, das luzes e das modelos certas. A música tem de dar o tom e determinar o passo das modelos; o estilista tem que decidir qual a melhor modelo para dar mais realce a uma determinada roupa; e a ordem na qual os trajes são apresentados determina o impacto de toda uma coleção, sendo as peças mais cruciais as que abrem e encerram o desfile. Em geral, uma modelo apresenta pelo menos dois trajes por desfile e pode ter apenas trinta segundos para trocar de roupa, o que complica ainda mais a tarefa de orquestrar a garota certa com o vestido certo e na sequência certa. Gianni, perfeitamente consciente de que qualquer erro de cálculo em qualquer uma dessas variáveis poderia significar a diferença entre o sucesso e o fracasso de um desfile, ficou atormentando Donatella com perguntas sobre que vestidos ela havia decidido apresentar e qual era o efeito de cada um deles nesta ou naquela garota. O evento de Roma, que era um entretenimento estritamente televisivo, era menos importante do que as passarelas de Milão e Paris, já que a ele não compareciam os compradores nem os mais importantes editores de moda. Mesmo assim, Gianni continuava obcecado com a perfeição do desfile e preocupado com como Donatella daria conta de tudo. Apesar de amar profundamente sua irmã, Gianni não confiava totalmente em seus critérios de avaliação. Quando, no verão de 1994, Gianni fora diagnosticado como portador de um tipo raro de câncer no ouvido interno, ele havia sido obrigado a delegar 12


a Donatella as responsabilidades mais corriqueiras da administração da grife enquanto se submetia ao tratamento de quimioterapia. O relacionamento de Donatella e Gianni era marcado por aquilo que alguns comparavam ao de irmãos gêmeos e ela exerceu por muito tempo a função de caixa de ressonância e alter ego numa colaboração que se tornou uma das mais importantes do mundo da moda. Muitos anos antes, ele havia permitido que ela criasse uma nova linha, a Versus, apesar de ela não ter nenhuma formação formal em design de moda e nem saber desenhar. A Versus – com peças chiquérrimas feitas, sobretudo, de couro e com botões que expunham a estética de seu criador e custavam um quarto do preço das peças da grife de Gianni – havia recebido críticas razoavelmente lisonjeiras. Mas foi quando Gianni ficou doente que Donatella – então com quarenta e dois anos, nove anos mais jovem que seu irmão – saiu realmente de sua sombra pela primeira vez. Ela gostou de se colocar em evidência, dirigindo com prazer a equipe de Gianni, da qual a maioria dos membros estivera com ele desde a fundação de seu império. Ela dava entrevistas para matérias de capa bajuladoras em revistas, inclusive para um caderno de dez páginas intitulado “La Bella Donatella” publicado pela Vanity Fair. Mas depois que Gianni voltou recuperado de seu tratamento contra o câncer, a dupla começou a se desentender. Gianni, ao perceber que sua equipe continuava seguindo as orientações de Donatella, ficou ressentido. Durante meses, o relacionamento entre eles foi extremamente conturbado. Em 1997, a tensão entre eles continuava aumentando. Uma semana antes do desfile de Roma para a televisão, Donatella e Gianni haviam estado juntos em Paris para o desfile de moda da Versace, para cuja apresentação, no salão decorado com afrescos junto à piscina do suntuoso Hotel Ritz situado na Place Vendôme, Gianni havia despendido dezenas de milhares de francos. Muitos anos antes, quando Gianni havia decidido apresentar um desfile de moda no Ritz, alguns representantes da tradicional instituição francesa se sentiram ofendidos. O Ritz era uma instituição de Paris, que havia hospedado celebridades como Ernest Hemingway, cujo nome havia sido dado a um de seus bares em sua homenagem; e também Coco Chanel, que fizera de um de seus apartamentos dúplex sua casa por mais de trinta anos e que representava a mesma instituição da moda francesa que Versace, um joão-ninguém pretensioso vindo do sul da Itália, tinha agora o desplante de querer superar. Para o seu desfile de julho de 1997 no Ritz, a intenção de Gianni era que as modelos descessem a escadaria dupla e entrassem na passarela de vidro que ele mandaria construir sobre a piscina turquesa. Donatella havia insistido com Gianni para que Karen Elson fosse a modelo final a desfilar a peça 13


mais importante da moda tradicional, o vestido de noiva. Elson era a garota do momento, cuja fama havia começado naquele mesmo ano quando o fotógrafo Steven Meisel a convencera a raspar as sobrancelhas e pintar o cabelo de vermelho vivo para a sua primeira aparição na capa da revista Vogue italiana. Mas na véspera do desfile, sentada sozinha na primeira fileira, Donatella observara Gianni, vestido com um simples blusão de malha e calças amarrotadas, andando de um lado para outro sobre o plástico transparente que havia sido colocado sobre a passarela de vidro para conservá-la impecavelmente limpa. Ele se mostrara indignado ao ver Elson descer nervosa as escadas e percorrer a passarela. Gianni não havia gostado de seu modo de andar, trotando à maneira de um cavalo, e ficara furioso com Donatella por ter ousado sugerir a garota. Ele a substituíra por Naomi, que o deixara envaidecido vendo-a desfilar com o vestido de noiva – uma espécie de camisolão de um tecido metalizado provocante adornado com cruzes prateadas de tamanho extraordinário. Elson irrompera em lágrimas e Donatella ficara com cara de tacho. Com sua insistência, Gianni havia deixado claro que não confiava nela quando se tratava de tomar decisões chave. Depois do desentendimento em Paris, Donatella estava determinada a preservar algum grau de autonomia. Ela estava feliz por Gianni ter antecipado suas férias de verão e não comparecer ao desfile de Roma. De qualquer maneira, havia muito tempo ele não comparecia mais ao Donna sotto le stelle. Ele odiava a maneira como a produção do evento o misturava com todos os seus concorrentes numa mesma embolada, o que tornava inevitáveis as manifestações tolas de ciumeira. Os estilistas tinham que usar as mesmas modelos contratadas para o desfile e alguns deles, para ganhar vantagem, gastavam mais tempo vestindo as mais bonitas. Certa vez, Giorgio Armani e Valentino haviam chegado a se insultar aos berros, por Valentino ter usado mais tempo do que lhe havia sido destinado para ensaiar suas modelos.1 O calor também era um problema recorrente. Os estilistas apresentavam suas últimas coleções – roupas para a estação outono-inverno – sob um calor escaldante, e as garotas transpiravam por baixo daquelas vestimentas pesadas e casacos de pele, enquanto a maquiagem escorria de suas faces. Mas, na maioria das vezes, Gianni não comparecia simplesmente por estar exausto. O desfile no Ritz havia exigido dele dezoito horas de trabalho por dia, durante uma semana, para terminar mais de uma centena de vestidos exclusivos feitos à mão. Para grande alívio de todos, Gianni e Antonio D’Amico, seu companheiro há quinze anos, haviam tomado um voo para passar alguns dias na mansão de trinta e quatro quartos que Gianni tinha em Miami Beach. 14


Com a Versace como sua grife de destaque, o desfile seria finalizado por Donatella, descendo as Escadarias Espanholas de mãos dadas com Naomi – um momento triunfante para uma mulher que havia conseguido florescer, mesmo se sentindo confinada à sombra de seu irmão. Donatella reconhecia que Gianni era o irmão mais forte do trio Versace, e que seu gênio tinha sido responsável pelo brilho que havia trazido o sucesso – e seus privilégios – a todos eles. A presença dele era o lastro que dava estabilidade à vida de todos os três irmãos. E, apesar de ter estado doente recentemente, ele continuava, tanto em termos criativos como comerciais, no topo de sua capacidade empreendedora. No final da década de 1990, Gianni havia aperfeiçoado e refinado sua grife, eliminando o espalhafato que tinha marcado negativamente algumas de suas primeiras criações. Ele havia se entendido com o espírito holístico abrangente da última década do milênio. Ele era agora considerado um dos maiores criadores de moda, entre Yves Saint Laurent, Coco Chanel e Giorgio Armani. Foi logo após a hora do almoço em Roma – e amanhecer em Miami – que Donatella recebeu o primeiro telefonema de Gianni. Ele encheu-a com tantas perguntas sobre o andamento dos ensaios que ela foi ficando cada vez mais irritada. Até que ela finalmente explodiu, dizendo: “Gianni, você não pode me ajudar daí” e desligou.2 Quando ele voltou a telefonar, trinta minutos mais tarde, ela não o atendeu e continuou aprontando as modelos. Pouco tempo depois, Santo, o mais velho e mais prático dos irmãos Versace, recebeu uma chamada em seu celular. Ele achou que fosse seu irmão, mas era uma secretária da Versace ligando de Milão. “Gianni foi baleado”, ela comunicou a ele. Era tudo que ela sabia. Naquele momento de horror, Santo teve um súbito ataque de indignação. Por que seu irmão tinha que ir para Miami, uma cidade notória por sua violência? Quantas vezes ele havia recomendado a Gianni que contratasse seguranças? Como sempre coubera a ele resolver os problemas da família, Santo começou a pensar em como trazer Gianni de volta para se tratar num hospital da Itália. Com uma expressão extremamente séria, ele correu atrás de Donatella, arrastando-a para longe da modelo que ela estava vestindo. “Donatella, vieni qua subito! Venha comigo!” Ele berrou com uma voz tão apavorada que assustou as modelos e auxiliares, que conheciam Santo como a cabeça mais fria dos três irmãos. Alarmada, Donatella correu atrás dele. Quando ficaram sozinhos, Santo comunicou a ela: “Um louco atirou em Gianni. Mas não se preocupe. Ele já está a caminho do hospital, onde será tratado.” Donatella não acreditou em seu irmão. Começou imediatamente a ligar para Miami. Quando conseguiu falar com uma secretária da Versace, que esta15


va em contato com o hospital, ela gritou histericamente, pressentindo que seu irmão Gianni já estava morto. “Sim, Donatella”, disse a voz séria do outro lado da linha, “Gianni está morto.” Donatella soltou um grito que chegou aos ouvidos das modelos que continuavam ensaiando na escadaria do lado de fora. Em seguida, ela desmaiou. Santo, parado ao lado dela, empalideceu e começou a tremer. Alguns minutos depois, ele e Emanuela Schmeidler, a encarregada da assessoria de imprensa da Versace, conseguiram carregar Donatella até sua suíte. Em seu quarto, ela voltou à consciência e, arrasada sobre sua cama, ela ficou soluçando com Santo. Subitamente, ela ergueu-se, preocupada com a possibilidade de as crianças saberem da notícia pela televisão. Uma assistente correu para o quarto ao lado, onde os filhos de Donatella, Allegra de onze anos e Daniel de seis anos, haviam ficado assistindo a desenhos animados. Era tarde demais. A televisão italiana estava transmitindo boletins noticiosos sobre a morte de Gianni e as crianças já haviam tomado conhecimento. Perturbadas, elas correram para os braços da mãe. Santo e Donatella lembram vagamente dos eventos que se sucederam; ambos estavam tomados pelo choque e dor da perda. Foram necessários trinta guarda-costas para arrastá-los através da multidão de fotógrafos do lado de fora do Hotel De La Ville; um deles havia tentado descer pelo lado do prédio para roubar uma foto dos dois na suíte. Um paparazzo conseguiu tirar uma foto de Donatella, encurvada no banco de trás de um Mercedes preto, com uma expressão de dor transparecendo por trás de seus enormes óculos escuros. O carro levou-os para Ciampino, o aeroporto militar de Roma. O homem mais rico da Itália, Silvio Berlusconi, que viria mais tarde a ser o primeiro-ministro do país, havia oferecido seu avião particular para transportar a família até Miami, mas um magnata da construção civil italiana havia se adiantado, disponibilizando imediatamente seu jato particular. Depois de um voo de dez horas, Donatella e Santo pousaram no aeroporto de Miami às três e meia da madrugada e foram diretamente para a mansão de Gianni, no coração do distrito de South Beach, para cuja popularidade o estilo de vida de Versace havia contribuído muito.3 Madonna tinha oferecido sua casa para eles se hospedarem, caso não quisessem ficar na casa de Gianni, mas eles declinaram. Eles passariam o próximo período de um dia e meio no palácio que Gianni tanto amava e em cuja reforma havia investido milhões de dólares – e que era agora a cena do crime. A casa estava sitiada pela parafernália dos meios de comunicação. Helicópteros de canais de televisão circulavam pelo ar, enquanto dezenas de fotógrafos 16


e cinegrafistas acampavam na rua, tirando fotos do santuário, com flores e velas, que havia sido improvisado nas escadas da frente onde o sangue de Gianni tinha acabado de ser lavado. Quando a notícia sobre a chegada de Donatella e Santo se espalhou, parte do bando foi para a porta dos fundos que dava para a viela atrás da mansão. Mais tarde, quando Donatella e Santo se preparavam para ir à casa funerária, os empregados de Gianni despacharam várias limusines extras como tentativa de afastar os paparazzi da área, mas de nada adiantou. Eles tiveram que sair cercados de guarda-costas, portando guarda-chuvas para protegê-los e foram para a limusine empurrados pela multidão. Às cinco horas da tarde, Santo, Donatella e o companheiro de Gianni, Antonio, chegaram à casa funerária, um local degradado num subúrbio lúgubre de Miami, para ver Gianni pela última vez. A face dele estava parcialmente desfigurada pelas balas, apesar dos esforços do agente funerário para ocultar os estragos.4 Donatella insistiu em vestir ela mesma Gianni, vencendo os protestos de Santo. Com uma dúzia de guarda-costas e agentes de polícia montando sentinela do lado de fora, eles realizaram uma pequena cerimônia na capela da casa funerária antes de cremar o corpo de Gianni. Naquela noite, a família se reuniu em torno da mesa de jantar. Santo e Donatella haviam demonstrado pouca emoção durante todo o dia, cercados como estavam de advogados, pessoal de relações públicas e amigos que tinham enchido a casa. O cozinheiro particular de Gianni preparou um prato simples de macarrão. Depois do jantar ele serviu um budino, uma versão italiana da sobremesa de baunilha que havia sido a preferida de Gianni. Ao verem a sobremesa, Donatella e Santo irromperam aos prantos.5 No meio da noite, quando o cerco da mídia havia arrefecido, Donatella saiu furtivamente da casa para ir beijar o local onde Gianni havia sido baleado. No dia seguinte, Donatella, Santo e Antonio embarcaram num avião de volta para Milão. Santo levava a caixa de bronze contendo as cinzas de Gianni aninhada em seu colo. O trio falou pouco durante a longa viagem de volta para casa. Ao partirem de Miami, eles deixaram para trás uma das maiores caçadas que já havia ocorrido nos Estados Unidos a um homem acusado de crime.

V Enquanto Donatella e Santo voavam de volta para casa, o pessoal de relações públicas da Versace ocupou-se com os preparativos para a missa de sétimo dia. Eles decidiram marcá-la pra a terça-feira, 22 de julho de 1997, exatamente uma semana após a morte de Gianni. Em Miami, oscilando entre a dor da perda 17


e a raiva pela morte violenta de Gianni, Donatella havia decidido fazer uma cerimônia de honras fúnebres da qual o mundo jamais esqueceria. “Gianni foi morto como um cachorro desgarrado”, ela disse para a chefe do departamento de relações públicas da Versace. “Eu quero que ele tenha uma cerimônia digna de um príncipe.” Ela instruiu sua assistente a ver filmes de cerimônias funerárias de membros da realeza em busca de ideias sobre como organizá-la. Ela decidiu que havia apenas um local apropriado para a cerimônia em memória de seu querido irmão: o Duomo, a magnífica catedral de Milão. No início, Santo mostrou-se chocado com a decisão de sua irmã, mas acabou concordando. Apesar de a Versace ter sua sede em Milão, nenhum dos irmãos gostava particularmente daquela cidade. Eles eram originários do extremo sul da Itália, uma região atrasada controlada pela máfia e que era a antítese do norte ascético e empreendedor, onde os meridionali, ou sulistas, eram vistos com desconfiança e preconceito. Gianni sempre havia considerado Milão uma cidade lúgubre, com suas cores cinzentas e seu povo de mentalidade tacanha e conservadora. Como muitos sulistas que foram para o norte em busca de oportunidades, Gianni respeitava a ética calvinista de trabalho dos milaneses, apesar de escapar da cidade todas as quintas-feiras à noite para passar o final de semana em sua mansão no Lago Como. Donatella, com seu cabelo pintado de loiro e roupas espalhafatosas, achava que os milaneses eram esnobes que a olhavam com desprezo. Santo também reconhecia a oportunidade que Milão havia lhe oferecido, mas se ressentia do preconceito contra os sulistas tão comum na cidade. Na realidade, as famílias tradicionais de Milão nunca haviam aceitado inteiramente os Versace, com suas atitudes tempestuosas, seu sotaque sulista e estilo de vida espalhafatoso. Desde o súbito crescimento econômico do pós-guerra, muitos milaneses cultivavam uma profunda antipatia por sulistas como os irmãos Versace, vendo-os como a escória corrupta que vivia do empreendedorismo do norte. Por ocasião da morte de Gianni, esse sentimento havia encontrado um forte meio de vazão na Liga do Norte, um novo partido político que defendia a separação imediata do resto da Itália. Para os milaneses de sangue azul, as criações de Gianni, tão populares entre os novos ricos que haviam emergido com a explosão do mercado financeiro de Milão nas décadas de 1980 e 1990, eram vulgares e de mau gosto. Giorgio Armani, com suas atitudes mais racionais, sua descendência nortista e sua homossexualidade mais discreta era muito mais tragável. O mesmo acontecia com Miuccia Prada, que provinha de uma família milanesa abastada que fabricava malas de couro para a camada mais alta da sociedade local desde antes da guerra. Mas a alta 18


burguesia da cidade, com seus sobrenomes compostos e sua preferência pela moda francesa, não conseguia entender a popularidade das roupas de Gianni. Quem se atreveria a comprar aqueles trajes? Toda aquela dinheirama que a empresa ganhava, eles cochichavam, só poderia vir da máfia. Por isso, a solicitação de Donatella para que a cerimônia em homenagem a Gianni fosse realizada no Duomo foi tomada por alguns milaneses como uma afronta. Nos últimos anos, nem mesmo a nata da sociedade local vinha obtendo permissão para realizar uma missa de sétimo dia no Duomo. A catedral, com capacidade para abrigar mais de quatro mil pessoas, era grande demais. Era o local onde eram realizadas apenas cerimônias cívicas, como a de 1993 em homenagem às vítimas dos atentados da máfia em Milão. Sendo a terceira maior igreja católica do mundo, o Duomo di Milano é uma grande e tosca construção triangular que parece enterrada na praça. Erigida durante o curso de seis séculos, mas jamais totalmente acabada, a catedral de Milão teve a intenção original de evocar a graça airosa de construções góticas francesas como a da catedral de Notre Dame. No entanto, ela acabou se transformando numa mistura de estilos, em consequência de um arquiteto após outro ter tentado impor-lhe sua própria visão. Apesar de impressionar unicamente por seu tamanho, a igreja é bastante lúgubre; é tão grande que nem mesmo a luz solar mais intensa consegue penetrar suficientemente através de seus vitrais coloridos para dissipar a penumbra de seu interior. De suas três fileiras de colunas do tamanho de sequoias, o mármore rosado de Candoglia foi com o tempo ficando amarelo-acinzentado, tornando-as ainda mais opressivas. Mas apesar de toda sua lugubridade, o Duomo representa para os milaneses o coração nostálgico de sua cidade. No alto do teto está a Madonnina, uma estátua banhada em ouro de quatro metros de altura de Maria que é o símbolo de Milão. Donatella estava querendo nada mais do que uma cerimônia de chefes de estado para seu irmão – que uma celebração da vida bruscamente interrompida de seu irmão lascivo, iconoclasta, moderno e subversivo fosse realizada no coração do establishment italiano. Quando o escritório de relações públicas da Versace solicitou ao prefeito que encaminhasse o pedido da Versace ao cardeal da cidade, as autoridades eclesiásticas recearam que a cerimônia pudesse se transformar numa espécie de espetáculo de moda/parada do orgulho gay em homenagem a um homem que havia repudiado publicamente a Igreja. Finalmente, Dom Angelo Mayo, o pároco do Duomo, aquiesceu, cedendo ao fato de o Duomo ser o único lugar suficientemente grande e imponente para acomodar todas as celebridades esperadas para a cerimônia. 19


A Casa Versace produziu o funeral como se fosse seu derradeiro desfile de moda – o que na realidade foi. Os encarregados enviaram convites para as estrelas preferidas da grife, para as quais foram feitas reservas no Four Seasons, o hotel cinco estrelas ao lado da sede da Versace no coração dos arredores da Via Montenapoleone. No ateliê do último andar da sede da Versace, as costureiras de Gianni lançaram mão das medidas detalhadas que registravam os tamanhos das estrelas preferidas da casa. Elas trabalharam dia e noite confeccionando trajes discretos para os membros femininos da família Versace, bem como para celebridades como a Princesa Diana e Naomi Campbell. As auxiliares colocaram depois as vestimentas – com todos os acessórios como bolsas, véus de renda e sapatos pretos – em suas respectivas suítes do hotel. A designação dos assentos era feita e refeita à medida que os convidados confirmavam a sua presença. Quando Dom Mayo concordou com a realização da cerimônia na catedral, o pessoal da assessoria de imprensa conseguiu obter uma série de permissões do Duomo e das autoridades municipais que surpreendeu muitos milaneses. Eles convenceram as autoridades municipais a interditarem toda a extensão da Via dell’Arcivescovado, a ampla avenida que passa pelo lado sul da catedral, concessão essa que não fora feita nem ao Papa João Paulo II quando de sua visita à cidade muitos anos antes. O Duomo cancelou duas de suas onze missas diárias e providenciou para que a igreja fosse esvaziada de turistas uma hora antes da cerimônia das seis da tarde. Para afastar as multidões e proteger as celebridades, as autoridades municipais deslocaram centenas de policiais extras para os arredores do Duomo e para a frente da sede da Versace, que se somaram ao número de seguranças pessoais contratados pela família. O Duomo concordou em demarcar cerca de vinte bancos da igreja na nave central com divisórias de madeira para acesso às celebridades. Imediatamente começaram a circular boatos de que Santo havia molhado a mão das autoridades da igreja com quinhentos mil dólares para convencê-las a realizar a Missa; ele negou peremptoriamente ter dado todo esse dinheiro e disse ter dado apenas a quantia normal que a família daria à igreja por um funeral. No dia da cerimônia, a mídia mundial se encontrava em Milão. As redes americanas enviaram equipes de Nova York, pagando milhares de dólares para garantir seu tempo de transmissão ao vivo via satélite e, para isso, instalaram seus equipamentos do lado de fora da catedral. As equipes da BBC, da CNN e de canais de televisão do Japão e da França haviam se hospedado nos hotéis em volta da catedral. Num esforço para impor um mínimo de sobriedade ao espalhafato da mídia, a assessoria de imprensa da catedral exigiu dos jornalistas em 20


busca de credenciais que se vestissem apropriadamente: os homens deveriam usar ternos pretos, enquanto os vestidos das mulheres não deveriam deixar demasiadamente expostos seus ombros e pernas. No interior da igreja, o pessoal da Versace isolou com cordão uma área contígua à entrada das celebridades para a mídia, para que seus profissionais tivessem a melhor visão das primeiras fileiras ocupadas por estrelas. Quando os primeiros convidados começaram a chegar, os jornalistas já haviam estado horas a postos, se empurrando em busca das melhores posições. Durante o verão, o Duomo oferece um refúgio do calor e, ao entrarem na igreja para a missa de sétimo dia de Gianni, os convidados se sentiram agradecidos por se encontrarem em sua amena obscuridade. Os cidadãos locais entraram pelas portas principais de bronze de frente para a Piazza del Duomo e rapidamente lotaram a metade de trás da igreja. Alguns haviam usado sacos plásticos e bolsas para guardar um lugar, muito antes da hora marcada para o início da cerimônia. Outros subiram nos bancos para enxergar as celebridades que ocupavam a parte da frente. Por volta das cinco e meia da tarde, um cortejo de Mercedes pretas adentrou a entrada designada ao pessoal VIP na Via dell’Arcivescovado. Cada celebridade tinha em mãos um convite branco com letras em relevo. Exatamente como nos eventos de tapete vermelho, os fotógrafos e repórteres estavam enfileirados na ponta extrema de uma área demarcada fora da entrada. Uma multidão de curiosos se amontoava sob o sol escaldante, alguns assobiando para as modelos mais bonitas, outros avançando sobre as celebridades para conseguir um autógrafo, pedido quase sempre negado. Jovens elegantes usando ternos pretos da Versace estavam postados logo na entrada para conduzir os notáveis até seus lugares diante do altar. Para chegar à parte designada às celebridades, os convidados tinham de passar diante de uma das estátuas mais curiosas da catedral: um São Bartolomeu esquelético, cuja pele solta em suas costas o faz parecer um saco vazio depois de ter sido esfolado vivo. A assessoria de imprensa havia tomado todas as providências para que as exigências das autoridades do Duomo quanto ao ritual ser discreto fossem respeitadas. (Eles haviam orientado os amigos para que fizessem doações a alguma instituição beneficente a portadores de câncer em vez de enviar flores; Tom Cruise e Nicole Kidman doaram 25 mil dólares.) Havia muitos arranjos simples, com muitas rosas brancas que eram as preferidas de Gianni, na base das colunas situadas a cada lado do altar, mas não havia adornos nas outras partes da igreja. A assessoria de imprensa havia providenciado para que os familiares e os convidados célebres mais próximos usassem trajes pretos ou 21


de algum tom azul-escuro para evitar qualquer sinal de ostentação. Apesar do calor, Donatella e Allegra usaram véu preto de renda e longas luvas pretas. Na primeira fileira, os familiares formavam um quadro vivo de dor. Santo, de cabeça baixa e ar cansado, vestia uma jaqueta preta de estilo informal sobre um blusão escuro de gola olímpica e calças plissadas. Com os braços cruzados e olhar inexpressivo, ele acompanhou distraidamente o desenrolar da missa, virando-se ocasionalmente para o banco de trás para tentar consolar sua inconsolável filha mais velha Francesca. À sua direita, estava Cristiana, sua esposa. Na extremidade do banco, separado por alguns outros membros da família, estava Antonio D’Amico, vestindo terno preto, gravata preta e camisa branca, traje que era usado na Itália principalmente em ocasiões formais. D’Amico estivera inconsolável durante toda a última semana e se sentindo quase incapaz de comparecer à cerimônia. Suas relações com os familiares de seu companheiro haviam sido tensas desde o instante em que conhecera Gianni num jantar quinze anos antes, e particularmente com Donatella, que se ressentia com todos que competiam pelo afeto de seu irmão. Agora que Gianni estava morto, nem Santo nem Donatella tinham que fingir que se davam bem com Antonio e a relação entre ele se deteriorou rapidamente. Com os olhos vítreos, Antonio fitava o piso, apertando os braços cruzados sobre o peito. À esquerda de Santo, estava Donatella, desprovida de todas as joias que costumava usar. Os cabelos soltos sob uma mantilha preta e a cara apenas levemente maquiada, com o olhar desconsolado perdido na distância, mal acompanhando a cerimônia. Ao lado dela, estava Allegra, derretendo de calor sob seu vestido preto de estilo imperial. Allegra encontrava-se no começo da adolescência, ainda com as bochechas rosadas de bebê e a pele lustrosa de uma menina saudável, começando a exibir os primeiros sinais de feminilidade apenas na maneira de andar. Ocasionalmente, ela se esforçava para puxar o véu de volta sobre seu cabelo castanho com mechas reluzentes, que era mantido preso por uma tiara simples. Muitas vezes ela chorava e usava o lenço branco que lhe fora dado por uma auxiliar, enquanto seu olhar atravessava de mau humor os fotógrafos que tiravam fotos dela. Volta e meia, ela erguia os olhos em direção a sua mãe, em busca de conforto, curvando a cabeça para deitá-la no ombro de Donatella, porém sua mãe tinha os olhos fitos no chão. Quando Allegra irrompeu aos prantos durante a leitura do evangelho, Donatella se moveu rapidamente, colocando um braço em volta da filha e puxando-a mais para perto. Paul Beck, o marido de Donatella, sentado no banco atrás de sua esposa e Santo, apertava seu filho irrequieto, Daniel, em seu colo, embalando-o de vez em quando para acalmá-lo. A figura de Paul, com seu cavanhaque cuidadosa22


mente aparado e seu cabelo louro reluzente que se esvoaçava para trás a partir de um meio bem assentado, se elevava sobre todo o grupo. Sua altura competia apenas com a de Naomi, que estava sentada ao seu lado. A supermodelo estava com a cabeça baixa, um véu preto cobrindo-a até os ombros. Estava usando um vestido preto simples que as costureiras da Versace haviam feito para ela, com um casaco de mangas longas e sem lapelas por cima e um grande crucifixo de prata no pescoço. Seus longos cabelos caíam até a cintura, suas pernas estavam nuas e usava sandálias pretas baixas sem nenhum adorno. Desde a morte de Gianni, ela andava inconsolável. Depois de seu assassinato, o agente londrino tivera dificuldade para convencê-la a cumprir o compromisso assumido para uma aparição num evento especial com Nelson Mandela na África do Sul. (Mandela ligou pessoalmente para a modelo para convencê-la a desistir de cancelar a viagem.) Na manhã do funeral, enquanto fugia da perseguição da mídia para chegar ao palazzo Versace, ela irrompeu aos prantos, cobrindo a cara com a bolsa para se desviar das câmeras. Por ocasião da morte de Gianni, Naomi estava tão próxima de Donatella como estaria uma irmã – certa vez Donatella fez uma cabeleireira vir de Nova York para alongar os cabelos de ambas enquanto comiam espaguete no banheiro de mármore de Donatella. Naomi também fazia o papel de uma improvável tia de Allegra. Durante a Missa, quando Dom Mayo convidou a congregação reunida a trocar votos de paz, Allegra abraçou primeiro sua mãe e, em seguida, colocou-se nas pontas dos pés para receber o abraço de Naomi. Na nave transversal, na primeira fileira adjacente, encontrava-se um grupo pouco provável de ser visto numa igreja. Na frente e no centro dele estava Elton John, sua figura atarracada coberta com uma jaqueta preta Versace com gola alta ao estilo chinês. Com seu costumeiro brinco em uma só orelha e seu típico penteado, ele parecia um menino envelhecido. Ele e seu namorado, David Furnish, haviam viajado naquela manhã de Saint Tropez, onde o cantor havia recentemente comprado uma nova mansão, em seu avião particular. David, com a barba recém-feita e usando uma camisa branca sem gravata e uma jaqueta escura, estava sentado ao lado de Elton, dando palmadinhas no braço de seu namorado com a intenção de consolá-lo. Elton era um dos amigos mais próximos de Gianni, além de seu ardoroso admirador. Eles haviam se conhecido na metade dos anos 1980, quando Elton, que já usava as criações de Gianni, estava fazendo compras na butique mais importante da Versace na Via Montenapoleone em Milão e pediu para conhecer o estilista. Os dois se entenderam instantaneamente, reconhecendo um no outro a inquietação do artista, e a dupla passou a visitar muitas vezes galerias 23


de artes, antiquários e leilões juntos. No edifício em que Gianni morava em Manhattan, Elton tinha sua própria suíte, equipada com uma cama que Gianni havia encomendado especialmente do ilustre artista de Nova York, Julian Schnabel. O famoso astro de rock usava quase exclusivamente roupas da grife Versace. “Elton tem praticamente um museu de minhas criações em sua casa”, Gianni comentou certa vez. “Ele tem mais peças em seu guarda-roupa do que eu guardo em meus arquivos.” Ao lado de Elton, estava sentada a maia famosa cliente da Versace, a Princesa Diana. Elton, que havia ajudado Gianni a cultivar a amizade com a princesa, havia enviado seu jato particular para buscá-la no sul da França, onde ela havia passado a última semana causando furores em suas primeiras férias badaladas com seu novo namorado Dodi al-Fayed, o filho de quarenta um anos do bilionário Mohamed al-Fayed, proprietário das lojas Harrods. Cerca de cinco anos antes, Diana havia se tornado o maior troféu de Gianni quando, recém-separada de seu marido Charles, o Príncipe de Gales, o havia procurado em busca de um novo estilo de elegância. Gianni apresentou-lhe uma coleção de roupas clássicas, mas com um toque de glamour – vestidos em cores ousadas que se ajustavam como luvas e conjuntos que revelavam suas formas. Depois da separação de Diana, Elton havia começado a convidá-la para suas festas em Windsor, onde ela muitas vezes via Gianni. Sempre disposto a cultivar as relações com seus clientes notáveis, Gianni paparicava Diana, fazendo pessoalmente algumas peças de seu vestuário. Quando soube da morte de Gianni, Diana se dispôs imediatamente a comparecer em seu funeral. Embora ela e Gianni não tivessem sido amigos próximos, ela ficou realmente chocada com sua morte. Além disso, Diana apreciava um bom funeral; o clima fúnebre era um apelo à sua imagem de consoladora dos aflitos e a elegante vestimenta de luto alimentava seu senso dramático. “Não se aflija”, Diana disse para Donatella antes do funeral. “Gianni foi para um lugar melhor.” Diana estava obviamente vestindo um traje da Versace criado especialmente para a ocasião. As costureiras da Versace haviam confeccionado para ela um vestido azul-escuro sem mangas sobreposto por um casaco escuro. Um colar de pérolas realçava seu bronzeado de verão e combinava com seu olhar discreto de corça e seu batom rosa reluzente. Apesar do calor lá fora, ela usava meias pretas. No meio da cerimônia, ela tirou o casaco preto, inadvertida das prescrições da igreja contra a exposição do corpo. A seus pés, havia uma bolsa reluzente de crocodilo, adornada com grandes medusas douradas, o logotipo da marca Versace. Não conseguindo acompanhar a missa em italiano, ela foi ficando cada vez mais distraída com o desenrolar da cerimônia, passando as 24


mãos do missal de cor creme para as pérolas de seu colar. A cerimônia em memória de Gianni seria uma das últimas ocasiões em que Diana apareceria em público. Apenas seis semanas depois, ela morreria num terrível acidente de carro em Paris e muitas das celebridades ali presentes voltariam a se reunir para homenagear a jovem princesa. Do outro lado de Diana, estavam Sting e sua esposa, Trudie Styler, coberta até os ombros por um enorme manto preto de estilo camponês. Enfileirada atrás deles estava a rainha da moda. Com os óculos de sol que a caracterizavam plantados na cara, apesar da obscuridade da catedral, Anna Wintour, a poderosa editora-chefe da revista Vogue americana, sentada ao lado de André Leon Talley, influente editor-geral da Vogue, que lançava olhares curiosos para Diana durante toda a Missa. Do outro lado dela, estava Karl Lagerfeld, o soberbo estilista da Chanel e amigo próximo de Gianni, olhando diretamente para frente, com seu cabelo totalmente branco puxado para trás em seu típico rabo de cavalo. Atrás deles, estavam os editores das revistas Vogue francesa, britânica e italiana. Também atrás de Diana estava Giorgio Armani, vestindo seu costumeiro uniforme de mangas longas, um blusão de malha preta, calças plissadas também pretas e sapatos brancos esportivos. Armani e Versace eram o yin e o yang da moda italiana, exibindo duas expressões que definiam os dois extremos do estilo milanês. Por mais de duas décadas, eles vinham desenvolvendo estéticas diferentes e eram igualmente bem-sucedidos nelas. Ambos haviam se sobressaído do rebanho de aspirantes a estilistas praticamente ao mesmo tempo nos meados dos anos 1970. De maneiras diferentes, cada um deles havia criado um novo estilo próprio de roupas para vestir a nova geração de mulheres profissionais e independentes que não queriam andar enroladas nas enfadonhas criações francesas que tinham sido usadas por suas mães. Anos depois, quando ambos já haviam alcançado fama global, o boato que corria era de que Armani vestia as esposas e Versace as amantes. Armani e Versace tinham em comum uma extraordinária ética profissional e ambição de sucesso; ambos viviam em apartamentos acima de seus ateliês para dedicarem o máximo tempo possível ao trabalho. Mas, afora isso, eles dificilmente poderiam ser mais diferentes. Se os desfiles de Versace eram estrondosos, os de Armani eram ostentosamente silenciosos. Enquanto as casas de Gianni Versace eram recipientes barrocos repletos de todos os estilos de arte, mobiliário e esculturas homoeróticas, as de Armani eram discretas em sua elegância, as paredes desprovidas de quadros, uma orquídea casual como adorno raro. Enquanto Gianni contava uma história mirabolante de sua infância como 25


filho de uma costureira provinciana, Armani recusava-se escrupulosamente a embelezar sua origem humilde. É possível que ali, naquela missa de sétimo dia, Armani tenha lamentado a morte violenta de seu concorrente, mas isso não quer dizer que houvesse alguma amizade entre eles. Milão jamais teria se tornado uma meca da moda sem os dois, apesar de eles se detestarem mutuamente. Para Armani, Versace, com seus rasgos sadomasoquistas, suas coleções extravagantes e espalhafato geral, era uma abominação, um insulto às mulheres. Armani o havia criticado publicamente, declarando que Versace oferecia as mulheres “como iscas para os homens, a encarnação de fantasias sexuais vulgares, uma espécie de boate, onde elas tiram a roupa para os machões presentes.”6 Versace, por sua vez, achava Armani insosso e desprovido de paixão. “Eu visto as mulheres que são mais bonitas, mais cheias de glamour”, Gianni declarou ao New Yorker um pouco antes de sua morte. “Ele, por sua vez, prefere o tipo de mulher que está sempre um pouco triste, um pouco embotada. Chamam a isso de chique. Eu nunca considerei isso chique, mas cada um tem sua própria opinião.”7 As pessoas presentes manuseavam desajeitadamente seus impressos sobre a sequência da cerimônia, enquanto Dom Mayo lia seu sermão: “A cerimônia de hoje não é algo guiado pelo oportunismo ou, pior que isso, um espetáculo”, ele disse, talvez mais levado pela necessidade de prevenir do que pela precisão. “É um ato de fé, repleto de significado... Compartilhamos a dor de Donatella e Santo com discrição e respeito.” Seguiram-se as homenagens: musicais e outras dos famosos amigos de Gianni. Um representante da Versace deu o sinal a Sting e Elton John e os dois deslizaram para fora do compartimento. Eles passaram diante do altar, onde Sting se ajoelhou rapidamente para fazer o sinal da cruz e Elton fez uma pequena reverência. Eles subiram os três degraus para o local onde estava o microfone. Dom Mayo havia advertido para que não fosse executada nenhuma outra música que não fosse de cunho religioso na cerimônia, de maneira que a assessoria de imprensa havia escolhido “O Senhor é Meu Pastor”. Apesar da simplicidade do salmo, o sacerdote de setenta e oito anos que regia o coro da catedral havia exigido de Sting e Elton John um teste de audição antes de conceder-lhes permissão para cantar. Seguindo a letra, a dupla cantou desacompanhada. Por um instante, Elton oscilou e Sting colocou uma mão em suas costas para firmá-lo. Donatella irrompeu em lágrimas. Santo, pela primeira vez no decorrer da cerimônia, cobriu o rosto com as mãos, aos prantos. Enquanto eram executados os últimos 26


acordes do salmo, foi-se formando aos poucos uma fila para tomar a comunhão, com muitos curiosos aproveitando a oportunidade para se aproximar do altar e poder ver as estrelas de perto. Depois de horas confinada atrás de barricadas de madeira, a mídia finalmente teve a oportunidade que vinha aguardando quando, durante a comunhão, Elton irrompeu aos prantos. Diana virou-se rapidamente para abraçá-lo. Muitos flashes espocaram quando os paparazzi conseguiram bater a foto que apareceria na primeira página dos jornais de todo o mundo no dia seguinte. Enquanto o coro masculino cantava o último salmo, Dom Mayo encaminhou-se para a família Versace. Donatella ergueu-se, lançando ao sacerdote um olhar pesaroso enquanto murmurava seus agradecimentos. Santo curvou um joelho para beijar a mão do sacerdote idoso. Allegra começou de novo a chorar. Um bando de funcionários da Versace entrou em ação, guiando os pranteadores, muitos com lágrimas escorrendo pelas faces, para uma espécie de fila para serem recepcionados pela família. Um grupo de guarda-costas avançou para escoltar Diana para fora da igreja, provocando uma explosão de flashes. Seguiram-se outras celebridades menos importantes. Valentino, com o cabelo lambido puxado para trás que moldava sua face bronzeada de sol, saiu sozinho. Um bando de supermodelos, exibindo uma beleza modesta, com pouca maquiagem e cabelos soltos, parou para cumprimentar a família. Carla Bruni, com as pálpebras dos olhos avermelhadas e o cabelo num penteado simples repartido ao meio caindo sobre os ombros, deteve-se um momento conversando com Antonio, que manteve os braços cruzados no peito como numa postura de autoproteção. Carolyn Bessette Kennedy, usando um elegante conjunto preto de calça e casaco, e com sua longa cabeleira loura batendo nas costas, juntou-se ao príncipe Aga Khan, Rupert Everett, Carla Fendi e Eva Herzigova, quando os fotógrafos se acotovelaram para tirar fotos da fila de celebridades. Quando as celebridades se retiraram e os fotógrafos começaram a recolher seus equipamentos, Donatella e Santo saíram abraçados em direção ao carro preto cujo motorista os aguardava do lado de fora.

V Em todo processo de luto, o período mais difícil vem depois das cerimônias fúnebres, quando a família tem de enfrentar o vazio deixado pela ausência da pessoa querida e começa a difícil tarefa de construir uma nova vida. Mas nos anos e meses que se seguiram, a morte de Gianni Versace levaria sua família à beira da ruína profissional e pessoal. Gianni havia sido o centro de gravida27


de para todo o clã – seu gênio era a força propulsora que dava estabilidade a suas vidas. Sua morte os deixaria girando fora de órbita. Sem ele, a profunda disfunção que havia permanecido oculta por duas décadas veio rapidamente à tona, ameaçando esmagar todo o clã Versace. Já naquele dia quente de julho, quando na Catedral de Milão pranteavam a morte do irmão, Donatella e Santo sabiam que o mundo inteiro já estava se perguntando se eles seriam capazes de manter o legado de Versace. Gianni morrera em seu apogeu; o nome Versace havia alcançado o status de ícone, tornando-se representante do exuberante estilo sensual que ajudou a definir os anos 1990. Mais do que qualquer outro estilista, Gianni Versace satisfazia a avidez do público por sexo, fama e dinheiro que caracterizava a prosperidade global em pleno desenvolvimento naquela década. Como o filho inquieto de uma costureira provinciana, Gianni havia conseguido abrir seu caminho por meio da união da energia bruta das ruas com a sofisticada elegância da alta-costura, buscando inspiração em tudo, desde a arte pop até a grega clássica. Para ele, as roupas deveriam ser algo prazeroso, grandioso e durável. Ele escolheu para ser sua musa a prostituta; elevou a vulgaridade a uma forma de arte. Às vezes, ele saiu da linha e seus detratores apelidaram suas criações de “alta-costura para prostitutas”. Suas roupas jamais causaram indiferença. Sua coleção S&M, com coleiras de couro e corpetes tipo armaduras, ofendeu até as pessoas sofisticadas da moda. Mas suas roupas vendiam e eram usadas. No final da década de 1990, ele havia mudado o vocabulário da moda. Gianni também fez a ponte entre a moda e a celebridade, misturando duas correntes da cultura popular e tirando proveito do crescente poder da mídia. Sendo um mestre em relações públicas, ele criava imagens suntuosas e extravagantes que atraíam o olhar: Elizabeth Hurley num vestido preto precariamente preso ao corpo com alfinetes de segurança de ouro; Madonna vestida com um traje de banho da Versace enquanto pinta as unhas de uma cadelinha; Claudia Schiffer cobrindo sua nudez apenas com um prato de mesa da Versace estrategicamente posicionado. Ele transformava modelos da moda em estrelas de primeira grandeza. Suas roupas e seus amigos célebres refletiam sua mentalidade aberta, sua determinação a devorar tudo que a vida lhe oferecesse. Suas criações, por todo seu prazer sensual, sua amostra bizarra de história e arte, como também por toda a quantidade de cobre envolvido, apelavam para uma necessidade humana de liberdade que é mais profunda do que a moda – uma premência vindo à superfície da sociedade numa época pós-religiosa, sexualizada e globalizada do final do século XX. Gianni “foi o grande estilista 28


pós-freudiano – aquele que não tinha nenhuma culpa”, disse Richard Martin, curador do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art.8 Para Gianni, o sexo era uma celebração da própria vida e, na década de 1990, essa visão estava em pleno acordo com a sociedade ocidental. Sua mistura de cultura sofisticada e popular, sua individualidade indomável e sua impaciência com as regras de decoro e classe também dizia algo para a camada endinheirada que estava surgindo em Miami, Rio de Janeiro e Moscou, que adorava sua doutrina que chocava a burguesia. Ao mesmo tempo, suas criações atraíam as mulheres da geração do final da guerra, que estavam chegando à maturidade e se sentindo mais livres do que nunca para exibir sua sexualidade e independência sem medo de perder seu poder. Mas a morte de Gianni ocorreu exatamente quando o próprio mundo estava mudando. Suas criações carregadas de imagens sexuais estavam começando a se desgastar, perdendo o impacto inicial de excitação e novidade. A moda estava se voltando para um novo estilo mais contido e deliberado, e estilistas minimalistas como Miuccia Prada, com suas afetadas criações em estilo retrô e sua preferência por materiais de última geração, estavam em ascensão. Além disso, estavam surgindo grandes mudanças nos negócios globais da moda, forças que iriam desafiar empresas familiares como a Versace. A globalização, o dinheiro fácil dos anos 1990, a obsessão crescente da mídia pela moda e sua clientela célebre – mudanças essas que a própria Versace forjou ou tirou em parte proveito – alteraram para sempre as regras do jogo no âmbito do mundo da moda. As grandes marcas de sucesso precisavam de uma rede mundial de lojas suntuosas, de uma constante afluência de novos produtos e milhares de páginas anuais de anúncios publicitários para poderem competir. Os principais nomes da moda eram agora grandes corporações que dispunham de verbas e capacidade de gestão para manter e suprir a máquina em expansão que era o novo negócio mundial de vender estilo. Gianni havia alimentado e soltado uma fera que ameaçava, por sua vez, devorar seus irmãos vivos. Enquanto ele viveu, Donatella e Santo puderam contar com a força de seu talento para esconder as rachaduras na fachada resplandecente da casa. Agora, quando Donatella assumia o lugar de Gianni como diretora de criação, e Santo tinha que tomar sozinho as decisões cruciais para os negócios, a ausência dele abriu uma caixa de Pandora de problemas. A morte dele faria com que os refletores se voltassem para Donatella, a frívola irmãzinha caçula cujos talentos escassos e personalidade autodestrutiva acabaram quase afundando a empresa, destruindo os laços familiares e quase matando ela própria. Santo, o diligente irmão mais velho, lutaria para salvar 29


duas décadas de trabalho árduo. Mas foi Allegra, a delicada filha de onze anos de Donatella, quem teve a vida mais alterada. Alguns meses antes de sua morte, numa decisão irrefletida num momento de raiva e ressentimento, Gianni havia sem querer condenado sua querida sobrinha – sua principessa – a muitos anos de aflições. Os Versace haviam subido muito alto, e rapidamente, da extrema pobreza da Calábria para a conquista de toda a Itália e do mundo. O quase desmoronamento de seu império, assim como o esforço para o seu reerguimento, ocorreria de maneira ainda mais rápida.

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1º capítulo casa versace  

1º capítulo casa versace  

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