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DECISIVAS DA HISTÓRIA

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James Lacey Autor de The First Clash Williamson Murray Autor de A War to Be Won

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BATALHAS MAIS

DECISIVAS DA HISTÓRIA Os Vinte Confrontos Militares Mais Influentes de Todos os Tempos

Tradução Carlos Augusto Leuba Salum Ana Lucia da Rocha Franco

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Título do original: Moment of Battle — The Twenty Clashes that Changed the World. Copyright © 2013 James Lacey e Williamson Murray. Publicado mediante acordo com Bantam Books, um selo da The Random House Publishing Group, uma divisão da Random House, Inc. Copyright da edição brasileira © 2017 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2017. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Cultrix não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de Carvalho Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Editoração eletrônica: Fama Editora Revisão: Nilza Agua

Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA., que se reserva a propriedade literária desta tradução. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editoracultrix.com.br E-mail: atendimento@editoracultrix.com.br Foi feito o depósito legal.

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Para os dois amores de nossa vida, Sharon e Lee

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SUMÁRIO

Introdução.................................................................................................... 9 MARATONA Atenas Salva a Civilização Ocidental.......................................... 13 GAUGAMELA Alexandre Cria um Novo Mundo.............................................. 32 ZAMA Um Império em Jogo.................................................................................. 52 FLORESTA DE TEUTOBURGO A Divisão da Europa................................. 76 ADRIANÓPOLIS O Fim da Supremacia Romana............................................ 92 YARMUK Início da Conquista Islâmica.............................................................. 112 HASTINGS A Remodelação da Europa.............................................................. 127 A ARMADA ESPANHOLA Milagre no Mar.................................................... 148 BREITENFELD A Criação da Guerra Moderna................................................ 175 ANNUS MIRABILIS O Avanço da Supremacia Britânica................................ 195 SARATOGA A Vitória dos Amadores................................................................. 216 TRAFALGAR Os Planos Frustrados de Napoleão............................................... 240 VICKSBURG A Divisão da Confederação.......................................................... 258 O MARNE O Fim da Velha Europa.................................................................... 280 A BATALHA DA GRÃ-BRETANHA Os Nazistas Detidos............................. 307 MIDWAY O Japão Imperial Detido..................................................................... 334 KURSK O Fim do Drang Nach Osten.......................................................... 357 NORMANDIA O Toque Fúnebre para a Alemanha Nazista............................. 379 DIEN BIEN PHU O Imperialismo Derrotado..................................................... 406 BATALHA DE BAGDÁ E O OBJETIVO PEACH O Avanço sobre Bagdá.. 426 Agradecimentos............................................................................................ 445 Notas............................................................................................................. 447 Índice remissivo............................................................................................ 470 7

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INTRODUÇÃO

Dizem que Leon Trotski, um dos mais competentes praticantes da arte da guerra, comentou que “você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você”. No entanto, ao longo das últimas décadas, a tendência da história acadêmica norte-americana parece estar indo na direção oposta. Seu mantra fundamental parece ser que as guerras e a história militar e estratégica são irrelevantes ao estudo do passado, que deveria se concentrar no estudo de grandes fatores e movimentos sociais, e não no poder militar. Os adeptos dessa abordagem têm suas razões porque o estudo da história “puramente” militar das batalhas, separadas do contexto político e social, parece ser não apenas enigmático, mas desvinculado dos próprios eventos que as precipitaram e que lhes deram significado. Além disso, os acadêmicos de hoje argumentam também que os chamados grandes homens da história têm na verdade desempenhado papéis menores no fluxo dos eventos centrais. Em outras palavras, batalhas, guerras, generais e estadistas são apenas pontos coloridos mas insignificantes na tela do radar de qualquer análise séria da mudança histórica. Mesmo assim, os autores deste volume, que viram a guerra muito de perto, sustentam que as guerras e as batalhas têm um grande impacto direto sobre o curso da história, que é essencial para a compreensão do mundo em que vivemos. Achamos que talvez o leitor concorde conosco. A despeito de todas as ideias intrigantes da análise acadêmica mais ampla das profundas e complexas correntes que percorrem a história, as guerras e as batalhas desviaram o curso dos eventos humanos para direções fundamentalmente novas. Na verdade, o impacto de fatores militares mudou o curso da 9

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história não apenas no curto prazo, mas também no longo prazo. No entanto, há perigo quando se remove a guerra e as batalhas do contexto cultural em que ocorrem. A Batalha de Canas, o grande confronto entre a Cartago de Aníbal e a República Romana, é um exemplo particularmente bom. Poucas batalhas da história têm atraído tanto o interesse de uma variedade de pessoas, que vai de estrategistas a historiadores militares. No final daquele dia horrível em 216 a.C., por volta de 50 mil romanos jaziam mortos sobre uma planície saturada de sangue no sudeste da Itália. Mesmo assim, o que a vitória de Aníbal conquistou? Roma não sucumbiu. Embora seriamente ferida, a República continuou a produzir legiões uma após a outra e a desafiar os cartagineses a oeste do Mediterrâneo, assim como na Itália e, por fim, em sua terra natal. O único resultado significativo de Canas foi permitir que Aníbal e seu exército continuassem na Itália por mais uma década, uma fator incômodo para os romanos, mas que não chegou a abalar sua determinação. No final, as legiões de Cipião invadiram o norte da África e forçaram Cartago a chamar Aníbal de volta para defender sua cidade. A resultante Batalha de Zama levou à sua derrota e ao estabelecimento da hegemonia romana sobre o Mediterrâneo, que durou mais de meio milênio. Ao decidir que batalhas incluir neste volume, os autores seguiram a direção estabelecida por Edward Creasy em seu estudo clássico, Fifteen Decisive Battles of the World “Existem algumas batalhas... que chamam a nossa atenção... por sua importância duradoura e por sua influência prática sobre nossa condição política e social, que podemos rastrear até os resultados desses combates. Elas têm para nós um interesse permanente e real... pelo qual ajudaram a fazer de nós o que somos; e também quando especulamos o que seríamos caso qualquer uma dessas batalhas tivesse chegado a um fim diferente”. Em outras palavras, como Creasy, selecionamos nossas batalhas com base no seu impacto no longo prazo sobre o curso da história e não com base na sua importância para o estudo da arte militar. Portanto, as vitórias mais decisivas de Napoleão, Austerlitz e Jena-Auerstedt, não têm lugar neste volume porque não chegaram a atingir o objetivo de Napoleão de criar uma hegemonia francesa sobre o continente europeu. Assim como Crécy e Azincourt que, a despeito do impressionante poder 10

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letal do arco longo, conseguiram apenas breves períodos de domínio inglês na França. As batalhas que despertaram o nosso interesse são, em particular, as que continuam a reverberar ao longo das eras. Isso, por sua vez, nos forçou a buscar no jogo precário da história contrafactual. Em outras palavras, se o resultado tivesse sido diferente, será que o curso do futuro teria seguido direções muito diferentes? A Batalha de Hastings é um caso relevante porque a vitória de Guilherme o Conquistador criou laços fortes entre a Inglaterra e o Ocidente latino. Além disso, a subsequente fusão das culturas saxônica e normanda resultou na criação da língua inglesa. De forma pouco provável, em termos estritamente militares, a vitória do rei Haroldo na Batalha de Stamford Bridge, poucas semanas antes da Batalha de Hastings, foi muito mais decisiva. Mas Stamford Bridge perdura como uma simples nota de rodapé na história, enquanto o impacto de longo prazo de Hastings continua a reverberar no mundo atual. É claro que isso não impediu que, em 1933, o Partido Trabalhista britânico aprovasse uma proposta, cujo mote era “a guerra nunca mudou nada na história humana”, a despeito do fato de sua conferência anual se reunir perto do local da batalha. Como no caso da história que procura propor questões mais amplas, nossas escolhas das batalhas que acreditamos ter sido decisivas são idiossincráticas. Mas, por exemplo, as primeiras cinco batalhas da nossa lista dão uma clara indicação do que queremos dizer com “decisivas”: 1. Maratona — Tornou possível a existência continuada de uma civilização e de uma cultura gregas distintas, exemplificadas pela Atenas de Péricles nas décadas que se sucederam. 2. Gaugamela — Levou à criação do mundo helenístico, que por sua vez se mostrou crucial para a difusão do cristianismo. 3. Zama — Derrubou para sempre o poder político e econômico de Cartago e fez de Roma a potência dominante no Mediterrâneo pelos cinco séculos seguintes. 4. Floresta de Teutoburgo — Impôs um limite à expansão romana e criou a cisão entre latinos e germânicos, que atrapalhou a paz europeia ao longo dos últimos dois milênios. 11

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5. Adrianópolis — Marcou o início do colapso da metade ocidental do Império Romano e pôs fim a um período de quinhentos anos de domínio militar e estratégico por parte do exército romano. Haverá os que desaprovam a nossa seleção de batalhas decisivas, uma realidade inevitável para quem escreve sobre a história militar. Na verdade, os autores estão mais do que dispostos a admitir que muitas outras batalhas importantes merecem consideração. Lepanto era uma séria candidata, mas no fim decidimos não incluí-la. Embora os otomanos tenham sido uma ameaça terrível para as terras cristãs a oeste do Mediterrâneo, nos últimos dezesseis séculos a história já estava se afastando deles. Na verdade, por causa da explosão europeia no palco global naquele século, o mundo mediterrâneo estava perdendo a sua posição de foco dominante do poder europeu em termos políticos, econômicos e culturais. O nosso interesse pelo tema de batalhas decisivas foi despertado, em parte, pelas alegações bizarras de analistas de defesa em Washington no final dos anos 1990. Segundo eles, o exército dos Estados Unidos estava prestes a criar recursos que permitiriam às forças militares conduzir rápidas operações decisivas contra qualquer potência que ousasse se posicionar contra os Estados Unidos. Na verdade, estavam perseguindo a miragem da batalha pela batalha — o mito de uma batalha decisiva esmagadora que é vencida com pouco custo para os vitoriosos. O que não levaram em conta foi o fato de que a maioria das batalhas não é decisiva no longo prazo, que a vitória no dia da batalha é muitas vezes seguida de dias de negra derrota, morte e sacrifício brutal. No fim das contas, as batalhas que discutimos neste livro foram eventos desprezíveis, miseráveis e sangrentos para os que ficaram do lado da vitória. Mas o que as torna especiais, acreditamos, é o fato de terem mudado o fluxo da história de maneiras profundamente fundamentais que ainda ecoam pelo mundo. O fato de haver 350 milhões de pessoas fluentes em inglês na Índia de hoje, vivendo numa nação democrática que funciona segundo a lei, é um reflexo direto de duas batalhas, com a distância de um oceano entre elas, ocorridas em 1759, que os britânicos da época chamaram de “annus mirabilis” — “ano dos milagres”. É a essas batalhas que continuam a reverberar através do presente que dedicamos este livro. 12

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MARATONA Atenas Salva a Civilização Ocidental 490 a.C.

Há dois mil e quinhentos anos, 10 mil hoplitas* atenienses enfrentaram a força do Império Persa. Mas em vez de esperar humildemente pela aproximação da horda persa, os atenienses atacaram. À medida que avançavam, gritavam seu feroz grito de guerra: Aleee! Para a grande multidão de persas que aguardavam, o ataque ateniense parecia temerário ao ponto da insanidade. Como podiam meros 10 mil soldados de infantaria ter a pretensão de derrotar um número três vezes maior de veteranos persas? Mesmo assim avançaram, primeiro a passo, depois correndo. No instante seguinte, as fileiras persas balançaram sob o impacto esmagador da pesada infantaria ateniense, cuja bravura nesse dia permitiu a sobrevivência da civilização ocidental. O Império Persa, fundado por Ciro o Grande em meados do século VI a.C., foi o maior império do mundo antigo até o surgimento de Roma. Ele se estendia do rio Indo ao mar Mediterrâneo e das costas do mar Negro ao Egito. Criado durante um longo período de guerras, o Império Persa se manteve por mais de duzentos anos graças apenas ao esforço determinado do seu poderoso *  Soldados de infantaria pesada. (N.E.) 13

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exército. No entanto, pouco mais de vinte anos antes de Maratona, o exército persa chegou perto de um desastre quando Dario I o Grande o conduziu para o norte do Danúbio até a vastidão vazia da Cítia. Atraído para a profundeza da estepe, o exército de Dario foi atormentado por ataques relâmpago de adversários muito ágeis, que se retiravam antes que qualquer combate sério começasse. Incapaz de trazer os citas à batalha, Dario sabiamente recuou antes que seu exército fosse completamente dizimado. Embora as baixas de Dario na campanha cita possam não ter sido tão desastrosas quanto alega Heródoto, o antigo historiador grego, elas foram com certeza substanciais. As cidades de predominância grega da Jônia, que tinham sido conquistadas décadas antes por Ciro, testemunharam o retorno do exército persa derrotado. Percebendo fraqueza, elas se revoltaram. Heródoto descreve o conflito como uma aventura imponderada, fadada ao fracasso desde o começo. No entanto, como os persas precisaram de seis anos de esforço quase máximo para esmagar a revolta, pode-se questionar a opinião de Heródoto de que o resultado estava predeterminado. Ainda assim, o poder persa era formidável. Para enfrentá-los, foram enviados representantes jônios em busca de apoio espartano e ateniense. Os espartanos, sempre relutantes em enviar seu exército para longe de casa, recusaram. Atenas, com vínculos mais apertados com a Jônia, enviou uma pequena força, junto com a cidade de Erétria. Unidos aos seus aliados jônios, essa força atacou, dominou e incendiou Sardis, a capital ocidental do Império Persa. Mas quando os persas ativaram a plena extensão de seu poder militar, os atenienses fizeram uma rápida retirada pelo Mar Egeu. A retirada veio tarde demais para evitar a imorredoura animosidade de Dario. Informado de que os atenienses tinham participado do incêndio de uma de suas cidades, Dario perguntou por eles. Heródoto, que provavelmente inseriu o nome de um deus familiar ao público grego, conta que, depois de receber a informação, Dario pegou um arco, ajustou a flecha na corda e a atirou para o céu. Enquanto ela subia no ar, ele disse: “Zeus, que me seja concedido punir os atenienses”. Dito isso, ele encarregou um de seus auxiliares de lhe dizer três vezes sempre que o jantar era servido: “Meu senhor, lembre-se dos atenienses”. 14

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Dario I o Grande (550-486 a.C.), rei da Pérsia e fundador da dinastia aquemênida; no trono, relevo, era aquemênida, século VI–V a.C., Persépolis, Irã Gianni Dagli Orti / The Art Archive em Art Resource, NY

Depois de seis anos de guerra, a Jônia sucumbiu. Dario, tendo jantado todas as noites contemplando de maneira ostensiva a vingança, estava agora livre para voltar toda a atenção para a Grécia. Ao longo de toda a costa do império, os portos fervilhavam com a construção de navios, pois Dario tinha ordenado a construção de uma grande frota, incluindo transporte especial para a cavalaria. Paralelamente a essa construção, o maior general da Pérsia, Datis, começou a convocar os veteranos da revolta jônica, calejados pela batalha. Quando essa força imbatível se reuniu, o Grande Rei enviou representantes para exigir provas de submissão dos gregos. Muitos se renderam e ofereceram terra e água — o sinal de submissão. Esparta e Atenas mataram os enviados persas. Para eles era guerra.

O Ataque Persa Depois de subjugar várias ilhas egeias, inclusive a Erétria, o exército persa aportou em Maratona, em agosto de 490 a.C. Datis escolheu o lugar por várias 15

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Estrada para Atenas

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Batalha de Maratona 490 a.C.

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Creta

Área detalhada

Mar Egeu

Baía de Maratona

Atenas

Grécia

Mar Mediterrâneo

Mar Jônico

Mar Adriático

Frota Persa


razões. É provável que a mais importante tenha sido o conselho de Hípias, um tirano ateniense deposto. Hípias estava agora perto dos 80 anos e fazendo uma última tentativa para reconquistar o poder. Sem dúvida, ele guardava a lembrança de aportar nessa mesma costa quando seu pai, Pisístrato, tomou militarmente o poder em Atenas, numa ação semelhante. Nessa época, o povo da colina aderiu à causa do seu pai e se juntou a ele em sua marcha triunfal para Atenas. Hípias esperava por certo uma recepção semelhante nessa ocasião, e foi o que prometeu aos persas. A planície de Maratona pode ter parecido um bom lugar para aportar, e oferecia mesmo um porto seguro. No entanto, tinha uma séria desvantagem. A planície tinha apenas uma saída adequada ao movimento rápido de um exército. Além disso, em vez de tomar essa saída e marchar sobre Atenas, os persas se demoraram ali por um período mais longo. Não se sabe ao certo quanto tempo permaneceram ali, mas foi tempo suficiente para que os atenienses concentrassem seus hoplitas nessa única saída viável da planície. É quase inconcebível que os atenienses não ocupassem essa saída, já que tinha sido o caminho usado pelo último invasor bem-sucedido de Ática: Pisístrato. Assim, a razão mais provável dos persas não terem marchado para fora da planície de Maratona foi o fato de haver várias centenas de tenazes hoplitas atenienses aguardando atrás da muralha fortificada que cruzava a estrada do sul. Eles não poderiam sustentar indefinidamente essa posição termofílica, mas não precisaram. Quando os persas conseguiram reunir forças suficientes para subjugar a posição grega, o resto do exército ateniense já tinha chegado. Enquanto o principal exército de Atenas marchava para Maratona, os atenienses enviaram um de seus corredores, Fidípedes, a Esparta para angariar o apoio dos melhores exércitos da Grécia. Como os espartanos não tinham nenhuma ilusão sobre seu destino caso Atenas caísse, resolveram ajudar. Mas, infelizmente para Atenas, eles estavam celebrando uma de suas muitas festas religiosas e se recusaram a marchar antes da lua cheia. A vanguarda ateniense chegaria em Maratona em menos de meio dia, e é provável que já estivesse lá antes do pôr do sol. De cima das colinas, observaram os mais de 35 mil persas dispostos pela planície, além de dezenas de milhares de outros marinheiros descansando perto da costa, preparando a refeição da tarde. 17

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Será que o hábil comandante do exército ateniense, Calímaco, ficou satisfeito ao inspecionar o terreno? Tinha razões para ficar, já que os persas haviam se enfiado numa garrafa, da qual ele e seu exército eram a rolha. A falta de energia de Datis permanece inexplicável, já que teria dominado os atenienses sem esforço antes que o fim iminente das provisões forçasse uma desonrosa retirada persa. É claro que Calímaco sabia disso: podemos imaginá-lo sorrindo enquanto considerava a vantagem com que Datis o presenteara. Se os persas avançassem para uma luta decisiva, encontrariam seu exército aguardando numa posição fortificada, em terreno de sua escolha. Se Datis ordenasse uma retirada, haveria um momento em que teria parte das tropas embarcada e a outra parte ainda na costa. Nesse momento de vulnerabilidade, Calímaco faria a falange ateniense atacar. Enquanto isso, os atenienses podiam treinar, se preparar e esperar pelos espartanos. Ao chegarem à base da planície, os atenienses montaram acampamento dentro do Santuário de Hércules. Lá, mil hoplitas da cidade de Plateias se juntaram a eles. O lugar que os atenienses tinham escolhido era uma forte posição defensiva. O santuário tinha um pomar extenso e, na época, a área à sua volta era ainda densamente arborizada. Tomado como um todo, o local proporcionava uma proteção excelente contra a cavalaria e era de fácil defesa contra a infantaria. Diante dos atenienses se estendia a planície de Maratona e o exército persa. À volta da planície havia colinas de tamanho suficiente para bloquear os persas, mesmo que estes não estivessem fortemente cercados por hoplitas atenienses. O rio Chardra (hoje um córrego) dividia a planície, enquanto a metade do norte era dominada por um grande pântano, intransitável para qualquer força militar significativa. Na extremidade norte do pântano, a península de Kinosoura formava um ângulo de 90 graus com a praia, proporcionando um abrigo perfeito para a frota persa, ancorada ao longo de uma estreita faixa de areia entre o mar e o grande pântano. A parte da planície que ficava entre o pântano e as posições atenienses era quase árida, com algumas árvores crescendo em pontos esparsos. Heródoto fala da chegada dos atenienses em Maratona, mas nos deixa no escuro quanto ao que aconteceu depois. Sabemos que vários dias se passaram sem que nenhum dos lados iniciasse o combate. Parece que, durante esse período inicial, o único evento notável foi um debate entre os dez 18

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generais tribais e Calímaco, o comandante geral ateniense, ou polemarco, sobre a conveniência de atacar. No relato de Heródoto, cada um dos dez generais atenienses tinha o comando por um dia, num sistema rotativo. No que lhe dizia respeito, o papel de Calímaco como polemarco era em geral honorário: ele não tinha mais autoridade do que qualquer um dos outros generais. Heródoto relata a disputa entre esses generais dizendo: “Os generais atenienses eram divididos em suas opiniões: metade deles era contra a batalha, achando que seu efetivo era pequeno demais para enfrentar as forças dos medos, enquanto a outra metade, incluindo Miltíades, instava-os à luta”. Como os generais continuavam assim divididos, Miltíades pediu a Calímaco para dar o voto de desempate. Segundo Heródoto, ele o fez através de uma bela peça de oratória, que convenceu Calímaco a votar a favor da batalha: Cabe agora a você, Calímaco, reduzir os atenienses à escravidão ou garantir-lhes a liberdade... Se você acrescentar seu voto a favor da minha proposta, sua terra ancestral pode ser livre e sua cidade, a primeira das cidades gregas. Depois disso, os quatro generais que tinham apoiado Miltíades transferiram para ele os dias em que deveriam comandar o exército, de modo que ele pudesse atacar quando quisesse. Miltíades aceitou os dias extras de comando, mas Heródoto relata que ele se recusou a atacar até que fosse o seu dia de comandar. Quanto a Datis, ele não podia esperar mais. Depois de cinco dias estava sem comida, e o fedor de carne podre de animais e dos dejetos de mais de 60 mil homens estava tornando intoleráveis as condições do acampamento. Datis considerou por certo atacar a posição grega, mas essa possibilidade devia lhe parecer aterradora. Ele via todos os dias os hoplitas reunidos em frente ao acampamento, seus escudos brilhando e as lanças em riste, desafiando-o para o ataque. Mas quando estudava a formação de 10 mil hoplitas disciplinados, com milhares de tropas ligeiras atrás deles, ele sempre pensava melhor. Sem uma infantaria pesada confiável, não tinha como forçar os gregos a sair de suas fortificações. Sem outras opções, Datis deu as ordens para o dia seguinte: desmontar acampamento e voltar para os navios. Essa era a mais perigosa das operações 19

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concebíveis, pois chamava o ataque. Eles levariam a noite inteira para desmontar o acampamento e manobrar os navios. A tarefa era ainda mais árdua devido à necessidade de esconder esses preparativos dos atenienses. Datis sabia por experiência que a tarefa mais difícil que tinha pela frente era embarcar toda a cavalaria antes do amanhecer, enquanto o restante do exército montava guarda. Se isso corresse bem, ele recuaria seu perímetro para a estreita faixa de praia, onde o pântano protegia um dos flancos e o oceano protegia o outro. Ali, a elite de persas e sakas (tropas citas de elite, em geral cavalaria) poderia manter a posição, protegida por milhares de arqueiros, à medida que o restante do exército embarcava. Enquanto estudava as fileiras gregas, que Dario tinha ordenado que destruísse, ele deve ter pensado uma vez mais: “Se ao menos os atenienses atacassem...” Precisamos sempre ter cuidado com o que pedimos.

Friso dos arqueiros; tijolos esmaltados do Palácio de Dario I, século VI a.C., Susa, Irã Erich Lessing/Art Resource, NY

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1º capítulo batalhas mais decisivas da história  
1º capítulo batalhas mais decisivas da história  
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