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TEMPESTADEs DE SANGUE

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Kel Costa

TEMPESTADES DE SANGUE Série Fortaleza Negra – Livro Dois

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Copyright © 2015 Kel Costa. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2015. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Jangada não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, organizações e acontecimentos retratados neste romance são produtos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Editor: Adilson Silva Ramachandra Editora de texto: Denise de C. Rocha Gerente editorial: Roseli de S. Ferraz Produção editorial: Indiara Faria Kayo Assistente de produção editorial: Brenda Narciso Editoração eletrônica: Join Bureau Revisão: Bárbara Cabral Parente

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Costa, Kel Tempestade de sangue / Kel Costa. – São Paulo : Jangada, 2015. – (Série Fortaleza Negra ; 2) ISBN 978-85-5539-021-0 1. Ficção brasileira 2. Ficção fantástica I. Título. II. Série.

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CDD: 869.3 Índice para catálogo sistemático: 1. Ficção: Literatura brasileira 869.3

Jangada é um selo editorial da Pensamento-Cultrix Ltda. Direitos reservados EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. Rua Dr. Mário Vicente, 368 — 04270-000 — São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 — Fax: (11) 2066-9008 http://www.editorajangada.com.br E-mail: atendimento@editorajangada.com.br Foi feito o depósito legal.

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“Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo.” — Mark Twain

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Agradecimentos

Acho esta parte sempre complicada, pois sou, naturalmente, uma pessoa muito esquecida. Sempre fico com medo de esquecer de dizer algo importante ou de citar alguém especial. Ao colocar o ponto final neste livro, refleti sobre todo o processo que vivi para a sua criação. Foram dias, semanas e meses de muito trabalho árduo e nenhuma folga. Este foi, até o momento, o livro ao qual eu mais me dediquei, para entregar a vocês uma história tão boa quanto as que eu adoro ler. Agradeço por toda a paciência que minha mãe, Fátima, teve comigo durante esse caminho. Sei que me tornei chata, ranzinza e difícil de se conviver, mas foi por uma boa causa! A ela e meu irmão Rodrigo pelo apoio, palavras e todas as inúmeras conversas que tivemos desde o começo e que ainda temos todo dia. E a toda a minha família, pelo carinho e torcida desde o primeiro livro! Agradeço também a pessoas especiais, Glaucy Ramalho e Mayara Pongitori, que me ajudaram com a revisão enquanto eu escrevia. E também à minha querida Samantha Almeida, que precisou me dar uma aula rápida de biologia sobre coisas nas quais não prestei atenção no colégio. Também deixo registrado meu carinho mais que especial pelas primeiras leitoras de Tempestades de Sangue. Pessoas queridas, que me acompanharam durante essa jornada: Aline, Francielle, Joara, Lhayenny, Priscila, Kese, Raissa, Josiane, Crislei, Gleici, Flavia, Monique, Luiza e Nayara. Meninas, o apoio e a opinião de vocês foram muito importantes para que o livro ficasse lindo! Obrigada por surtarem, rirem e chorarem com meus personagens! Foi muito divertido! Não posso deixar de agradecer aos meus calos fofos (apelido carinhoso dos meus leitores), os antigos e os que estão chegando agora, espalhados por esse Brasil enorme (e alguns pelo mundo). Os calos tornam a minha vida muito mais feliz! Aos blogueiros que receberam Fortaleza Negra com tanto carinho e fizeram o possível para espalhar a história por aí. Espero que amem Tempestades de Sangue! A toda a equipe do Grupo Editorial Pensamento, por apostarem no meu sonho! E obrigada, Deus, por nunca me abandonar.

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PRŁLOGO

FOI DIFÍCIL ABRIR OS OLHOS. Precisei fazer um esforço extraordinário para mantê-los abertos, tamanha era a dor que eu sentia. A primeira coisa que percebi foi a penumbra. Apenas uma luz bruxuleante iluminava o teto acima, vinda da fogueira acesa a alguns metros. Logo procurei me sentar. Levei as mãos amarradas à cabeça e fiz o possível para tatear o local dolorido. Eu sentia um latejar na nuca, mas o crânio parecia intacto. O único sangue, que por sinal já estava seco, tinha saído dos meus ouvidos quando Rurik me atacou e do meu nariz quando ele me deu um soco na cara. Eu também tinha alguns arranhões nos braços e nas pernas. Meu olho direito não abria totalmente e eu sentia dor ao piscar. Eu me arrastei até conseguir apoiar as costas na parede fria e úmida. Então, com uma rápida olhada ao meu redor, descobri que estava dentro de uma caverna. À minha esquerda, um túnel parecia levar até a saída. O chão desnivelado estava coberto por um limo nojento e havia um pouco de neve acumulada em alguns locais. Minhas roupas estavam molhadas e meus dedos doíam quando eu os mexia, por causa do frio. Ia acabar morrendo de hipotermia se não saísse logo dali. Gemi em protesto, sem querer acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo comigo. Como eu tinha sido tão estúpida a ponto de me deixar ser pega daquele jeito? Se não morresse desta vez, com certeza morreria quando Mikhail pusesse as mãos em mim. O Mestre ficaria muito irritado ao descobrir que eu não estava mais na Fortaleza. Encostei a cabeça na parede e fechei os olhos para aliviar a dor. Não queria olhar, por enquanto, para o corpo estendido ao meu lado. Ainda precisava tomar coragem e conferir se ele estava vivo ou morto.

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Capítulo Um Quinze dias antes

HAVIA QUEM PENSASSE QUE O ÚNICO MOTIVO que me levava a me arrastar para todos os lados como um zumbi era o fato de ainda estar de luto pela minha amiga. O que não era mentira, mas não explicava tudo. Podia até ser que Mikhail não tivesse me abandonado, que ele apenas precisara se ausentar por alguns dias. Só que eu não conseguia enxergar as coisas desse jeito. Tinha sido, sim, abandonada, justamente num momento extremamente delicado da minha vida. Minha mágoa era por ele nem sequer ter se despedido antes de partir. Como se uma carta escrita rapidamente e com poucas palavras pudesse ser suficiente para aplacar a tristeza que eu sentia. Naquele dia fatídico da morte de Helena, minha melhor amiga, eu li a carta deixada por ele, me avisando de que se juntaria aos outros Mestres para caçar o grupo de minotauros que atacara a Fortaleza. No momento em que me vi sem ele para me apoiar, achei que fosse morrer de desgosto. Eu já estava abalada pelo que tinha acontecido a Helena e ainda fora surpreendida com a ausência abrupta do Mestre. Nem fui ao enterro. Cheguei a vestir roupas pretas, mas meus pés travaram na hora de passar pela porta de casa. Um caixão lacrado não era a última imagem da minha amiga que eu queria ter gravada eternamente na minha memória. Por sorte, Lara e Kurt resolveram me fazer companhia enquanto minha família seguiu para o cemitério. Tanto Helena quanto seu pai foram devidamente enterrados como moradores da Fortaleza. Mesmo que nunca tivessem pisado do lado de dentro dos portões. Durante dois dias inteiros, permaneci de luto e sem vontade de fazer nada. Meus pais, pelo menos, entenderam a situação. Eles me deixaram quieta em meu quarto, na companhia dos meus amigos que, de vez em quando, apareciam por lá. No terceiro dia após o enterro, porém, minha mãe me obrigou a voltar ao colégio. Sendo assim, há mais de uma semana eu frequentava as aulas como se fosse um robô. Não prestava atenção nas matérias, não conversava direito com ninguém e só falava quando necessário. Então, quando entrei no ônibus escolar, ignorei mais uma vez os olhares curiosos sobre mim. Desde que voltara às aulas, passava por esse tipo de situação diariamente, como se eu fosse alguma aberração andando à solta pela Fortaleza. — Sasha!

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Olhei na direção de Lara e Kurt. Ele se levantou e se sentou no banco de trás para me deixar um lugar vago ao lado dela. Tirei os fones de ouvido, interrompendo Summertime Sadness, da Lana Del Rey. Eu me joguei de qualquer jeito no assento e resmunguei um bom dia para eles. Soltei a mochila aos meus pés e virei o rosto para olhar pela janela. Lara me encarava daquele seu jeito complacente e sabia que eu não queria conversar. Pelo menos não ali dentro do ônibus, com todo mundo tomando conta da minha vida. — Respire fundo, hoje será um ótimo dia. — Ela apertou meu ombro. — É só mais um dia — respondi sem muita emoção, minha cabeça latejando. — Não é só mais um dia! — Senti Kurt apoiar-se no encosto do nosso banco e colar a bochecha na minha. — É um dia lindo, com finos flocos de neve caindo do céu e um mundo de possibilidades! Lara revirou os olhos e empurrou a cabeça para trás. Como eu não respondi, ele suspirou e se ajeitou no banco. — Ah, tudo bem, você não está no clima. É só mais um dia, então — resmungou, tamborilando os dedos na janela. O vazio dentro de mim era enorme e me passava uma sensação enervante de impotência. Eu não sentia nem vontade de respirar, só fazia isso porque não era do tipo suicida. E porque, quanto mais fugimos dos problemas, mais rápido eles nos encontram. Eu havia descido do ônibus e caminhava de costas pela calçada, esperando Kurt amarrar os cadarços dos tênis. Estava tão distraída que acabei trombando com alguém. Virei rápido para tentar me equilibrar, mas acabei caindo com a outra pessoa. Era Erica, uma líder de torcida. Ela tinha feito parte da banca de jurados no dia do meu teste para entrar na equipe — aquele mesmo teste que eu desejava esquecer para sempre. — Ô, esquisita! Não olha por onde anda? — Histérica, ela balançava as mãos na frente do corpo, com medo de tocar na própria roupa. — Olha só o que você fez! Enquanto eu me levantava e arrumava minha mochila, olhei para a camiseta branca que ela vestia e que agora estava manchada de esmalte rosa. Erica tratou de se levantar também e me empurrou pelos ombros. Foi um empurrão tão forte que eu tropecei e quase caí em cima de Kurt, atrás de mim. — Ei, qual é o seu problema? — perguntei, recuperando o equilíbrio. — Desculpa, ok? Trombei com você, mas foi sem querer. — Você manchou a minha blusa! — E que culpa eu tenho? Quem manda pintar as unhas e andar ao mesmo tempo? Isso é coisa de gente doida! Lara e Kurt tentaram me puxar na direção do prédio do colégio, mas de repente eu me senti muito mais interessada em arranjar confusão. Aquela discussão infantil era revigorante e libertadora. 10

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— Eu sou a doida? — Ela me fulminou com o olhar. — Pelo menos não vivo me envolvendo em ataques de mitológicos. O que você é? Algum tipo de ímã para problemas? — Você não sabe o que está falando. — Sasha, vamos embora. — Lara pegou minha mão e tentou me puxar. — Deixe essa garota falando sozinha. A líder de torcida estava toda sorridente, limpando inutilmente a mancha rosa da camiseta branca. Resolvi ignorar a provocação e comecei a me afastar, mas só tinha dado três passos quando ouvi a mocreia chamando o nome de Lara. — Cuidado! — falou para Lara. — Eu soube que as amigas dessa aí costumam virar petisco de mitológico. Eu não era do tipo que me envolvia em brigas no colégio. Também nunca fui dessas pessoas que se exaltam por qualquer motivo e perdem a cabeça com facilidade. Isso até eu me mudar para a Fortaleza. Era impressionante como, desde o primeiro dia em que pisara ali, eu sempre me metia em confusão! As pessoas deviam achar que era eu quem procurava problemas, mas não era verdade. Os problemas é que me encontravam, sem que eu pedisse. E, quando isso acontecia, eu simplesmente os encarava. Senti o sangue ferver e meu coração se apertou dentro do peito, diante daquela ofensa que eu tinha acabado de ouvir. Lara me soltou, tão chocada que ficou com as palavras de Erica. Kurt mostrou o dedo do meio a ela, mas nenhum gesto que meus amigos fizessem seria suficiente para eu me sentir vingada. Meus pés deslizaram pelo chão quando avancei sobre a loira esnobe. Ela arregalou os olhos ao perceber minha intenção e tentou recuar, sem sucesso. — Retire o que disse! — gritei e agarrei os cabelos platinados dela com tanta força, que ela gritou e se contorceu, tentando tirar os fios da minha mão. — Retire! Agora! — Me solta, sua louca! — ela berrou, arranhando os meus braços, mas não senti dor alguma naquele momento. Quando dei por mim, estávamos as duas no chão. Naquela posição, ficou ainda mais fácil agredi-la, e eu não pensei duas vezes antes de estapeá-la no rosto. Também levei alguns tapas e chutes, mas, cada vez que minha mão estalava de encontro à pele dela, eu me sentia mais aliviada. Infelizmente, não demorou muito para que apartassem a briga. Senti alguém me puxando e me tirando de cima da garota. Dei uma cotovelada no estômago da pessoa e ouvi um gemido. — Calma, gatinha raivosa! — Era Kurt, que me colocou no chão, mas continuou segurando meu braço. — Sasha, acho melhor a gente sair daqui antes que o diretor apareça. Olhei para o homem carrancudo parado bem atrás dele, de braços cruzados e uma expressão de cão raivoso. Tudo me levava a crer que eu não sairia dali 11

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impune. Não sabia se ele tinha visto a briga desde o início, mas com certeza presenciara o final. O diretor consultou o relógio de pulso e, antes de se virar para entrar no prédio, apontou para mim e para a loira descabelada. — Quero as duas na minha sala agora! Entenderam? — Então balançou a cabeça com desgosto e nos deu as costas. — Eu tentei evitar que isso acontecesse. — Kurt suspirou. — Agora, você precisa torcer para não ser suspensa. — Foi só uma briga de garotas, Kurt. Não é o fim do mundo. — Respirei fundo e saí apressada, sem esperar pelos meus amigos. Ajeitei a roupa e me encaminhei para a sala do diretor. Ele estava sentado atrás da escrivaninha, impassível. Antes que eu tivesse chance de pedir licença, ele já tinha me mandado entrar e me sentar. A patricinha arrogante chegou logo em seguida, puxou a cadeira ao meu lado e cruzou as pernas, fazendo pose. Com exceção da mancha na camiseta, ninguém que olhasse para ela diria que tinha se envolvido numa briga alguns minutos antes. Ao passo que a minha aparência não devia ser das melhores. Ao contrário dela, eu não havia parado na frente do espelho para ajeitar os cabelos. — Muito bem, eu não vou perguntar quem começou a briga, porque vocês, adolescentes, nunca dizem a verdade. Uma vai colocar a culpa na outra, e eu vou acabar perdendo meu tempo. As duas vão receber advertências, que deverão ser assinadas pelos pais. — Abri a boca para retrucar, mas ele levantou a mão. — Sem discussão, senhorita Baker. Ouvi o resmungo da loira, que também não estava contente. Mas o diretor parecia tão insatisfeito com aquela conversa quanto nós. — Estão dispensadas. Podem ir para as suas salas e, no final da primeira aula, voltem aqui. Suas advertências estarão esperando por vocês. Assim que ele terminou de falar, Erica se levantou e saiu da sala, rápida como um raio. Eu me levantei devagar, sentindo uma fisgada no joelho direito. Ela continuava linda e ágil, eu estava descabelada e manca. Minha vida nunca era fácil. — Quando sair do colégio, a senhorita deverá ir diretamente à Morada dos Mestres. Ordem do Mestre Klaus. Girei nos calcanhares e olhei chocada para o diretor. — O quê? Uma advertência não é suficiente? — No seu caso, tudo indica que não. — Ele também mandou que a Erica fosse até a Morada? — Apontei na direção da porta, mesmo sabendo que a garota já tinha sumido. — A ordem foi única e exclusivamente para você, senhorita Baker. Não dificulte ainda mais as coisas. E sua aula já vai começar. O que ainda está fazendo aqui? — Ah, mas que beleza... 12

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Joguei a mochila de qualquer jeito sobre o ombro e saí da sala. Meu sangue fervia e a raiva que eu sentia daquela garota só tinha aumentado. De Klaus também, porque ele não tinha o direito de se meter na minha vida. O Mestre estava levando muito a sério a promessa que fizera a Mikhail. Desde a morte de Helena, aquela seria a terceira vez que ele me faria pisar na Morada. As duas primeiras tinham sido para se certificar de que eu não estava me metendo em nenhum problema. Pois bem, agora, eu finalmente tinha arranjado um. r r r

Quando entrei na Morada pela segunda vez naquela semana, a funcionária me olhou enviesado. Ela não ia com a minha cara desde o dia em que eu tinha me jogado no chão, chorando e implorando para falar com Mikhail, logo após a fatídica luta na qual ele perdera — e recuperara — um braço. Sorri para ela, debruçando-me sobre a grande bancada de vidro. — Mestre Klaus mandou me chamar. — Ele já a está aguardando. Pode subir. Ignorei a amargura na voz dela e fui adiante, entrando no elevador e esperando que ele me levasse ao destino incerto. Olhei meu reflexo no espelho e fiz uma careta para meu rosto pálido, sem um pingo de maquiagem. Meu cabelo também não ajudava, desgrenhado e preso num rabo de cavalo desleixado. O elevador parou e a porta se abriu, revelando o salão de apresentações que eu já conhecia muito bem. Caminhei preguiçosamente pelo piso negro, até parar diante de Klaus. Ele estava sentado, todo relaxado, em sua cadeira e me olhava sem muito interesse. — Queria me ver, Mestre? — perguntei, sem conseguir esconder a rispidez em minha voz. O silêncio pairou entre nós. Incomodada, eu o encarei decidida. Ele me olhava fixamente, o rosto apoiado numa das mãos e uma expressão de quem avaliava qual seria o melhor castigo para mim. O manto entreaberto revelava uma camisa branca amarrotada. Um visual bem desleixado para quem andava sempre impecável. Klaus parecia ter interrompido alguma coisa muito interessante para falar comigo. Dei de ombros, me controlando para permanecer calada. Quando ele finalmente se mexeu na cadeira, apoiou os cotovelos nos joelhos, pronto para iniciar o sermão. — Estou tentando entender em que momento me degradei a tal ponto que agora me encontro aqui, repreendendo uma criança que brigou no colégio. — Não sou criança. — Ignorei o sorriso dele. — E eu já recebi uma advertência, não era preciso me chamar. Ele se levantou numa fração de segundo e parou diante de mim. O deslocamento de ar causado pelo movimento agitou os fios da minha franja. Suspirei, de olhos 13

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fechados, e os abri para encarar o vampiro. Meu coração acelerou de forma drástica, mas não deixei transparecer minha agitação. — Não pense você que, por estar de luto, vou aceitar que fale o que quer, Aleksandra. Não se esqueça de que não sou Mikhail. Os olhos azuis do Mestre refletiam sua ira e eu cheguei a recuar um passo quando ele sussurrou tão perto do meu rosto. Depois de alguns segundos, no entanto, me lembrei de que Klaus não era a pior criatura que eu já tinha enfrentado. — Desculpe, Mestre. — Ajeitei a postura e pigarreei para recuperar a firmeza da voz. — Se pretendia me assustar, devo dizer que nada pode superar o terror que senti no dia em que um minotauro pulou em cima de mim. Ele estreitou os olhos e exibiu as presas, mas, depois de alguns segundos me encarando, fechou a boca. Acabou sorrindo, daquele seu jeito horripilante de quem estripa filhotes de gatos sem pestanejar. Senti suas mãos pesadas em meus ombros, enquanto ele me virava devagar em direção à saída. — Você é realmente uma criatura insuportável. Saia daqui e não me invente mais nenhum problema, senhorita Baker. Senão vou trancafiá-la por alguns dias no calabouço e, desta vez, não vou negociar sangue com seu pai. Ele me acompanhou até o elevador, mas, antes que pudesse se livrar de mim, eu me virei para encará-lo pela última vez. Klaus provocou aquela pressão detestável na minha cabeça, deixando bem claro que nossa conversa amigável tinha acabado. Resisti ao ataque e mantive o olhar fixo nele. — Pode, por favor, me dar notícias? — Do quê? — Dos mitológicos que nos atacaram. E dos Mestres que foram atrás deles. — Eu mordi o lábio com força quando senti meus pés saírem do chão. Meu corpo foi empurrado para trás com violência e eu sabia que aquilo ia doer. — Por favor, Mestre! Minhas costas bateram nos fundos do elevador e meus pés voltaram a tocar o chão num baque. Então percebi que não estava sozinha. Dentro do elevador; estava o segurança do Buraco, o mesmo para quem eu tinha doado sangue duas vezes. Meu corpo todo gelou. Não sabia se a presença do homem, naquele momento, tinha alguma coisa a ver comigo. Porém, ele nem demonstrou ter me reconhecido. Saiu do elevador, fez uma reverência para o Mestre e esperou. Klaus aproximou-se e segurou as portas metálicas com as mãos, enquanto o apito insistente avisava que o elevador queria fazer seu trabalho. — Concentre-se apenas em não arranjar mais nenhum problema. Durante, pelo menos, uma semana. – Ele se afastou para que as portas se fechassem e eu suspirei aliviada, não vendo a hora de sair dali. A ausência de Mikhail nem era o mais difícil, mas sim a falta de notícias. Isso me tirava o sono e me deixava cada dia mais estressada. Depois que tinha descoberto que Rurik estava por trás de todos os ataques, em conluio com os mitológicos, eu não conseguia mais ficar tranquila. Sempre acabava pensando no que viria a seguir. 14

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Não muito depois de ter saído da Morada, tive que atender ao telefonema de Kurt. Ele sabia que eu me encontraria com Klaus e tinha ligado para que eu descrevesse detalhadamente o nosso encontro. Não que eu tivesse algo bom a dizer. Depois de desligar, abracei meu corpo, arrepiado com uma ventania que parecia anunciar chuva para mais tarde. Eu já sabia, graças a Mikhail, que chuva na Fortaleza não era uma condição climática comum. Ela geralmente indicava um terrível mau humor do Mestre Klaus. Teria o seu estado de espírito algo a ver com a visita do segurança do Buraco? Eu queria ter o dom da invisibilidade para poder ficar na Morada e ouvir a conversa dos dois. Distraída, atravessei a rua sem notar que o semáforo estava aberto. Parei ao som de uma buzina estridente e senti meu coração quase sair pela boca. Enquanto me apalpava para ver se faltava alguma parte do meu corpo, vi Blake sair de dentro do seu carro e correr na minha direção. Ele estava tão apavorado quanto eu. — Minha nossa, Sasha! Você não viu o semáforo? — Na verdade, não. — Olhei em volta, notando que alguns curiosos tinham parado para assistir à cena. Torci para que o incidente não chegasse aos ouvidos de Klaus. Ele acabaria pensando que eu fazia aquelas coisas de propósito. Blake me segurou pelos ombros e me olhou nos olhos. — Você está bem? Era paranoia minha ou ele parecia feliz por quase ter me atropelado? Talvez porque assim teria motivo para falar comigo, já que não nos falávamos direito desde o Baile Branco. Com a mesma rapidez com que eu tinha me encantado com o garoto de sorriso lindo, também tinha me desencantado. Agora, olhando Blake de perto, dava para perceber por que era fácil ficar caidinha pelo garoto de cabelos escuros e olhos carinhosos. Ninguém era capaz de perceber o que ele vinha tramando em segredo. Até mesmo eu havia cogitado a hipótese de ter imaginado toda aquela conversa sobre traição, que havíamos tido da primeira vez em que visitei a casa dele. — Estou bem. Só me distraí um pouco e acabei não prestando atenção. Vi que Blake tinha bloqueado uma faixa da rua ao parar para me socorrer. Agora os carros precisavam ultrapassar o veículo dele pela contramão, mas o garoto não parecia nem um pouco preocupado com isso. — Se eu tivesse machucado você, não me perdoaria — ele disse, tirando a franja da testa. — Está indo para casa? Posso te dar uma carona. — Não precisa. Não quero atrapalhar — respondi, sem graça. — Eu faço questão, Sasha. — Como eu ainda estava meio desnorteada, deixei que ele segurasse a minha mão e me levasse até o carro. — É melhor não corrermos o risco. Se você está tão distraída, não é seguro ficar andando por aí na rua. Quando Blake abriu a porta e eu entrei, senti o cheiro do seu perfume impregnado ali dentro. Coloquei a mochila aos meus pés e apoiei a cabeça no encosto do 15

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banco. Tinha de admitir que uma carona não era de todo uma má ideia. Ela poderia me poupar vários minutos de caminhada. Blake, pelo jeito, era um cara bem metódico. O interior do sedã estava impecavelmente limpo e arrumado. A única coisa fora do lugar eram alguns papéis no assoalho do carro. Deviam estar empilhados no banco traseiro, mas, quando Blake freou, tinham se espalhado e agora estavam por todos os lados. Peguei os que estavam ao meu alcance e os arrumei, mas, antes de colocá-los de volta na pilha, meus olhos foram atraídos para uma palavra que eu já conhecia bem. Blake já estava dando a volta no carro, então não tive muito tempo para bisbilhotar, mas notei algumas especificações técnicas da Exterminator e seu funcionamento. Coloquei os papéis no banco traseiro segundos antes de Blake abrir a porta. — E então, como você está? — ele perguntou, finalmente dando partida no carro. — Não tivemos muita oportunidade para conversar ultimamente. — Eu estou indo. Tentando lidar com o que aconteceu. — Dei de ombros. — Sinto muito mesmo pelo que houve com sua amiga e o pai dela. Foi horrível! Espero que saiba que pode contar comigo para o que precisar. Eu sei que não agi da melhor forma com você antes, mas gostaria que ficasse tudo bem entre nós. Eu não estava com vontade de conversar sobre a morte de Helena, nem sobre o que tinha acontecido entre mim e Blake. Eu tinha gostado dele por um tempo e ele de mim. Então ele me irritou ao se afastar, alegando que trabalhava com meu pai e não queria se indispor com o chefe. Eu fiquei com raiva, acabei me envolvendo com Mikhail, e Blake tornou-se passado na minha vida. Ponto final, sem nada mais a ser discutido. No entanto, a parte chata de ficar perto dele é que o garoto sempre batia na mesma tecla. Ele agora estava arrependido de ter me tratado daquele jeito e insistia no assunto, causando-me um desconforto instantâneo. — Eu não devia ter me preocupado com o que o seu pai ia pensar, mas você tem que entender que eu tinha uma reputação a zelar. — Blake. — Você tem razão em ficar com raiva de mim. Aceito que tenha me ignorado nas últimas semanas e tudo mais... Ele não parava mais de falar, embora sempre atento à direção. Se ao menos olhasse para mim, veria minha expressão de frustração e ficaria quieto. Respirei fundo, cogitando abrir a porta do carro. Podia me jogar na rua só para evitar todo aquele papo de sempre, mas me virei no assento e estalei os dedos perto do rosto dele. — Blake! Não quero falar sobre isso, ok? Ele passou a língua pelos lábios, uma cena que antigamente teria me deixado com corações desenhados nas pupilas. — Eu sinceramente não entendo. — Mas não há nada para entender. Eu já te superei, não sinto mais nada por você. Me desculpe, mas é a verdade. — E eu posso saber o motivo? 16

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Para minha felicidade, estávamos entrando na minha rua, mas notei que Blake desacelerava justamente para prolongar minha presença ali. Peguei minha mochila no assoalho do carro e a abracei com toda a força. Com as mãos ocupadas, eu não corria o risco de voar no pescoço dele e obrigá-lo a dirigir mais rápido. — São vários motivos. Você me magoou e também aconteceram outras coisas na minha vida. Acabei perdendo o interesse. — Que outras coisas? Você está falando dos ataques? Eu estava falando da minha relação com Mikhail, mas não podia entrar em detalhes com Blake. Não que eu pudesse chamar meu envolvimento com o Mestre de “relação”. Eu sabia que estava apaixonada por ele, que sentia coisas que nunca tinha sentido na vida. Não conseguia nem ter olhos para outra pessoa. Porém, infelizmente, eu não sabia como Mikhail se sentia. Ainda não tinha aceitado aquela nossa discussão sobre namoro. Meu futuro com ele era incerto, pois eu sabia que a qualquer momento ele poderia enjoar de mim. Aonde aquela relação nos levaria, era um mistério. — Sim, foram os ataques — afirmei, para despistar. — Desculpe, Blake, mas não sinto mais nada por você. E, enfim, muito a contragosto, ele parou na porta da minha casa, desligou o carro e tirou o cinto. Eu esperava que não tentasse se inclinar sobre mim nem nada do tipo. Por via das dúvidas, levei a mão à maçaneta da porta o quanto antes. — Uau, isso é o que eu chamo de um balde de água fria! — Só não quero mais prolongar o assunto, ok? E obrigada pela carona. Abri a porta e desci do carro, mas, antes de fechá-la, Blake apoiou o braço no banco do carona e me olhou com aqueles olhos de cachorro abandonado. — Será que podemos pelo menos ser amigos? — Claro! — menti, pois não tinha a menor intenção de ser amiga do futuro traidor da Fortaleza. Não precisava acrescentar aquele tipo de problema ao meu vasto histórico. Quando entrei em casa, minha mãe me olhou com cara de poucos amigos. Eu não andava muito sociável, então ela tinha se acostumado a me ver em casa logo depois do colégio. Como dessa vez eu tinha demorado, estranhou. Joguei a mochila no sofá e me sentei para relaxar um pouco. Estiquei as pernas sobre a mesinha de centro e liguei a televisão, consciente dos olhares da minha mãe. Ela estava em pé na porta da cozinha, de braços cruzados, esperando que eu começasse a falar. Parei de mudar os canais da TV e soltei o controle, sem querer assistir a nada em especial. — Levei uma advertência no colégio e fui chamada na Morada dos Mestres. 17

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— De novo, Aleksandra? — A exasperada jogou o pano de prato em cima do ombro e se aproximou de mim com uma carranca. — Você sabe que não deve arranjar problemas com Mestre Klaus. E que advertência foi essa? — Bem, ao que tudo indica, ele parece gostar da minha companhia, mãe. Não tenho culpa se fica me chamando toda hora. — Eu me joguei preguiçosamente na direção da mochila e abri o bolsinho externo, retirando o papel para ela assinar. Mamãe suspirou quando entreguei a advertência e passei por ela para subir as escadas. Ela não devia reclamar, já que tinha passado os últimos dias pedindo para que eu saísse da inércia que andava tomando conta de mim. — Foi apenas uma briga, nada demais. E, em minha defesa, foi impossível não reagir. A garota quis me provocar, falando de Helena. — Deixasse ela falar. Imagina como seria se eu resolvesse brigar com todo mundo que fala algo que eu não gosto de ouvir. Não pense que isso vai passar em branco! Vamos conversar melhor no jantar, quando seu pai estiver em casa. Fechei a porta do meu quarto enquanto ela ainda reclamava da advertência. Girei a chave para me trancar e respirei fundo. Ainda dava para sentir um pouquinho da fragrância da vela de lavanda que eu acendera na noite anterior. Sem me incomodar em trocar de roupa, me joguei de bruços na cama e fiz aquilo que fazia quase todos os dias: chorei. Por mais que meus amigos fossem maravilhosos e sempre tentassem me animar, nada supria a falta que eu sentia de Mikhail. Mesmo que nunca tivesse se comportado como alguém muito romântico ou sensível, ele sempre se mostrara solidário à minha tentativa de trazer Helena para a Fortaleza.

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1º capítulo tempestades de sangue  
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