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Schulz SCHULZ and Peanuts

& PEANUTS

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8/22/07 8:56:19 AM


David Michaelis

tradução

Denis de Brong Mattar José Julio do Espirito Santo


Título original: Schulz and Peanuts: a biography Copyright © 2007 David Michaelis Copyright da edição brasileira © 2015 Editora Pensamento-Cultrix Ltda. Publicado mediante acordo com HarperCollins Publishers. Texto de acordo com as novas regras ortográficas da língua portuguesa. 1a edição 2015. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas críticas ou artigos de revistas. A Editora Seoman não se responsabiliza por eventuais mudanças ocorridas nos endereços convencionais ou eletrônicos citados neste livro. Coordenação editorial: Manoel Lauand Capa e projeto gráfico: Gabriela Guenther Editoração eletrônica: Estúdio Sambaqui Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Michaelis, David Schulz & Peanuts : a biografia do criador do Snoopy / David Michaelis ; tradução Denis de Brong Mattar, José Julio do Espírito Santo. -- 1. ed. -- São Paulo : Seoman, 2015. Título original: Schulz and Peanuts : a biography. Bibliografia ISBN 978-85-5503-027-7 1. Cartunistas - Estados Unidos - Biografia 2. Cartuns 3. Desenhos humorísticos 4. Schulz, Charles M. (Charles Monroe), 1922-2000 5. Schulz, Charles M. (Charles Monroe), 1922-2000 - Biografia 6. Schulz, Charles M. (Charles Monroe), 1922-2000 Cartunista 7. Schulz, Charles M. (Charles Monroe), 1922-2000 - Peanuts I. Título. 15-08892

CDD-741.56973 Índices para catálogo sistemático: 1. Cartunistas : Estados Unidos : Biografia 741.56973

Seoman é um selo editorial da Pensamento-Cultrix. Direitos de tradução para o Brasil adquiridos com exclusividade pela EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA. R. Dr. Mário Vicente, 368 – 04270-000 – São Paulo, SP Fone: (11) 2066-9000 – Fax: (11) 2066-9008 E-mail: atendimento@editoraseoman.com.br http://www.editoraseoman.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Foi feito o depósito legal.


PARA JamIe , Henry E DIana


CONTENTS sumário

prefácio

9

Preface

ix

Parte um: NOROESTE

Part One: NORTHWEST SPARKY 17

1

2 PARENTES

23

3

41

9

50

28

1

2

Sparky

RelatIves A ARTE DA BARBEARIA

3

The Art of BarberInG

4

East Comes West

4 O LESTE VEM AO OESTE

3

37

PARTE DOIS: FILHO DE DEUS Part Two: SON OF GOD

5 disfarçado

65

5 DIsGuIsed 6 joões-ninguém

84

53

7

96

84

6

7

OrdInary Joes

SPIKE E A and TURMA SpIke The

GanG

8 Classde of 8 classe um One 9

94

106

Alone

9 sozinho GI Interlude:

72

1943-1945

Interlúdio militar

114

124

131

140

Part Three: MIDDLE WEST

PARTE três: meio-oeste 10

10

BreakInG the Ice

11

Heads and BodIes

159

quebrando o gelo

169

12 FaIth e corpos 11 cabeças

191

190

200

202

13

Redheads

14

SaGa

12 fé

13 ruivas

212

14 saga

235

181

224


Parte quatro: para o oeste 15 em direção às rochosas

251

16

275

PEANUTS E CIA.

17 chamada da califórnia

296

18

326

Alameda do café

19 evangelho

355

20 O ALVORECER DA ERA SNOOPY

372

PARTE cinco: zênite 21 um bom homem

413

22 arena

430

23 casinha de cachorro

474

24 felicidade

493

PARTE seis: império de um só 25 pobre bebezinho

511

26 pelúcia

532

27 ainda procurando

545

28 adeus às tiras

566

agradecimentos

577

fontes

585

créditos

587


PREFÁCIO Quando Charles Schulz morreu, ele deixou para trás cinquenta anos de pistas sobre sua vida embutidas em seus quadrinhos. Para um homem considerado reservado, ele deu um número espantoso de entrevistas em que contava detalhes reveladores, às vezes com uma franqueza surpreendente. Quando adulto, ele tinha o hábito de fazer perguntas delicadas e muitas vezes pessoais a quem cruzasse seu caminho, e buscava uma compreensão sutilmente diferenciada dos mistérios da vida aonde quer que ele fosse. Ainda assim, ele não mostrava o mínimo interesse em compreender a si mesmo ou as implicações de seu trabalho. Ele insistia que suas tiras falavam por ele e a respeito dele. Como muitos artistas, ele afirmava que poderia ser conhecido apenas através de sua criação. No sossego de seu estúdio na cidade de Santa Rosa, no norte da Califórnia, ele esquadrinhava suas recordações mais secretas e suas peculiaridades mais pessoais e as codificava diariamente em quatro (mais tarde, três) quadros cuidadosamente elaborados da arte em quadrinhos. “Uma tira”, ele aprendera em um curso por correspondência na década de 1940, “é, na verdade, uma imagem que demonstra um pensamento com a forma de outro”. Em cada oportunidade que tinha, ele oferecia a seus leitores uma chave: “Se uma pessoa ler minhas tiras todos os dias, ela me conhecerá, com certeza – saberá exatamente o que sou”. Aqueles que realmente o conheciam entendiam que ele era “difícil de conhecer, difícil de entender” e, como ao menos um amigo reconheceu: “Ele não gostava de se aproximar demais de ninguém”. Um outro amigo, familiarizado com seus modos, disse: “Ele gostava de se considerar um homem simples, mas não era simples – ele era enigmático e complexo”. Ele carrega em torno de si um ar de mistério e uma necessidade de privacidade. A palavra mais usada para descrevê-lo, depois de “tímido” e “humilde”, era “complicado”. Parte da atmosfera de mistério de Schulz era sua total autossuficiência. Por quase cinquenta anos, conforme reza a lenda, ele foi “sempre o único ser humano a escrever, esboçar a lápis, cobrir com tinta e colocar as letras em Peanuts, a tira em quadrinhos”. Ele desenhou cada uma das 17.897 tiras – todas sem assistentes. Ain-


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SCHULZ & PEANUTS

da mais importante: ele nunca usou ideias de ninguém. Cada episódio de Peanuts era dele e dele apenas, iluminando o mundo e, ao mesmo tempo, permitindo – na verdade, dando poder – ao cartunista, de se manter separado dele por uma parede. Para fazer o que fez, ele tinha de estar sozinho, somente a cargo de seu universo modesto mas completo. Uma pessoa mais gregária e mais equilibrada não poderia ter criado o continuamente sofredor mas perseverante Charlie Brown, a brigona e frequentemente malvada Lucy, o filosófico Linus, a sapeca Patty Pimentinha, o decidido Schroeder, e o grandioso e absorto Snoopy. “Uma pessoa normal não conseguiria fazer isso”, ele se justificou. Ainda assim, muitas vezes ele dizia a eles que era “apenas um sujeito normal”, “apenas um cidadão comum do Meio-Oeste”, pouco diferente do “jovem zé-ninguém” que havia crescido em Saint Paul, filho único de um barbeiro de esquina e uma mãe amável e bondosa. Sua ambição, ele dizia frequentemente, “era ser tão querido quanto seu pai”. Até mesmo quando ele se tornou o cartunista mais bem pago do mundo e com todos os outros aspectos de uma pessoa de sucesso em sua área – até mesmo alguns sobre os quais nunca haviam sido refletidos antes dele – ele dizia: “Tive um sucesso enorme? Você acha?”. Ele sempre voltava a ser o filho do barbeiro, o menino na esquina da Selby com a Snelling. Para seus milhões de fãs, o criador de Peanuts era como aquele vizinho amigável – ele mesmo brincava que parecia um farmacêutico. A palavra Schulz deriva de um nome ocupacional que significa “prefeito de cidade pequena” e, de fato, ele havia feito de si o supervisor do que Walter Cronkite sagazmente chamou “vila em quadrinhos” – global em seu alcance. Ele era apresentado a seu público como “um amigo do mundo, afetuoso, confortador, familiar e fácil de se amar”. Pessoas em todos os lugares sentiam como se tivessem crescido com ele, sido curadas por ele na infância, confortadas na adolescência e acalmadas na vida adulta. Indivíduos completamente desconhecidos o consideravam da família. Mesmo assim, no auge da fama, perguntaram a Schulz: “Você se considera acessível para que todo o mundo o veja?”. A resposta, no mínimo, contradizia ele mesmo: “Sim, mas não deixo o mundo me ver”. “É quase como se Charles Schulz morresse com um segredo trancado dentro de si”, sugeriu o colunista de um jornal. Ele deixara seu público conhecer apenas o bastante, até mesmo a respeito de Peanuts. Além da afirmação de que Snoopy havia sido inspirado em Spike, o cão indomitamente independente de sua própria infância, ele deixava deliberadamente sem respostas quaisquer perguntas sobre se Charlie Brown e Lucy, com suas respectivas ansiedades e vícios, tinham modelos na vida real, e negava quaisquer


preface

xi

prefácio

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any questions about whether Charlie Brown and Lucy, in their respective anxieties and viciousness, had reallife models, and uns would any paralparalelos entre os relacionamentos de seus personagens, comdeny os outros, e seus lels between his characters’ relationships with each other and his own relapróprios relacionamentos da vida presente, ocasionalmente aludindo a desapontionships the present, occasionally alluding personal adisappointments tamentos einconstrangimentos pessoais que tinhamtoacontecido ele em dias passados, ou simplesmente passando a pernahim emin todas indagações analógicas ao and embarrassments that had befallen daysaspast, or simply outflankalegar que tudo aquilo era ele: “Essas são todas as minhas vidas”, ele dizia. ing all analogical inquiry by claiming that all of it was him: “These are all vocêhe criar personagens de histórias em quadrinhos, poderá criá-los apenas my “Se lives,” said. a partir sua própria Na verdade, você nãocan conseguirá criar only mui“If de you’re going personalidade. to create cartoon characters you create them to mais ao observar outras pessoas. Simplesmente não há muito mais a observar” from your own personality. You really can’t create too much by observing – uma declaração assustadora de alguém que estava sempre observando e que other people. There’s just not that much to observe”—a startling statement tinha uma ótima percepção. from one who was endlessly observing and who had a great eye. Fazer histórias em quadrinhos pode ser intensamente pessoal e expressivo. Cartooning can be intensely personal and expressive. Schulz needed Schulz precisava saber que ele estava atingindo o leitor com sua própria voz – quato knowsethat he was reaching reader withque his seu own voice—almost as if se como a mídia fosse o rádio –the pois ele queria público não se identifihis medium radio—for he wantedConforme his audience to identify with casse com ele,were mas com seu temperamento. o tempo passava enot a atração him but with his por temperament. As timede went on, and Peanuts’ appeal do grande público Peanuts se expandia sua primeira aceitaçãomass nos círculos expanded its firstdas vogue amongpara hip,ser collegeeducated to menos being descolados from e instruídos faculdades tudo para todos,circles cada vez ele things confiava o leitor reconhecesse o quanto indiretamente all toque all people, he less and less trusteddele theestava readersendo to recognize how expresso quadrinhos da semana. Enquanto, inicialmente, ele via valor much of através himselfdos was being obliquely expressed through the week’s panels. nas pessoas imaginarem que ele era Charlie Brown, por volta de 1972 ele responWhereas he initially saw the value in people imagining that he was Charlie dia à pergunta padrão, feitaanswering dez vezes por Brown é realmente Brown, by 1972 he was the semana, standard,“Charlie ten-timesa-week quesseu alter ego?”, com uma risada dissimulada: “Na verdade, não, se bem que isso dá tion “Is Charlie Brown really your alter ego?” by saying, with a chuckle, uma boa história”. “Not really, although it makes a good story.” Dez anos mais tarde, a novelista Laurie Colwin perguntou se alguém que Ten years later, the novelist Laurie Colwin inquired whether someone acompanhasse a tira desde o início “realmente conseguiria fazer um retrato biowho followed therespondeu strip fromcom thea voz outset writeque a biográficohad de você?” Schulz mais“could suave deactually todas: “Acho sim. graphical portrait of you?” Schulz answered in his mildest voice: “I think Suponho que teria de ser alguém bem esperto”. so. Um You’d have to be pretty bright, I suppose.” ensaísta recebeu a notícia de sua aposentadoria com uma resposta ainda One essayist had greeted the news of his retirement with yetmerecedor another diferente: “Nós conseguimos imaginar qualquer norte-americano mais answer: “We can’t think of any American morededeserving of a Rosebudde uma busca de interpretação biográfica ao estilo Rosebud. Todavia, Schulz, sempre um mestre da narrativameaning. em [quatro] juntoua as peçasof para nós”. style search for biographical Butquadros, Schulz,jáalways master [four]frame narrative, has already put the pieces together for us.”


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SCHULZ & PEANUTS

De fato, ele havia juntado: em 1941, Cidadão Kane, de Orson Welles, chegara ao cinema Park Theatre em Saint Paul, e um “Sparky”1 Schulz eletrizado imediatamente reconheceu sua grandeza. Com o passar dos anos, se tornaria uma fascinação pessoal e seu filme favorito.

APRESENTANDo

o qUE ESTá ASSISTINDo?

é A PRImEIRA VEZ qUE ASSISTo...

“CIDADão KANE”

Já VI UmAS DEZ VEZES

“RoSEBUD” ERA o TRENó DELE!

Ele assimilava a história, repetidamente, talvez chegando a assisti-la quarenta vezes: um homem reservado e poderoso, um filho único de pais circunspetos – enxotado de seu lar, uma choupana numa pradaria coberta de neve, e despachado às pressas por uma locomotiva para o centro da vida americana, onde, criado por um bancário, ele progride a uma eminência majestosa mas isolada em Xanadu, seu castelo interminável. Como o herói de Welles, Charles Foster Kane, que “conseguiu tudo que queria e então perdeu”, Charles Monroe Schulz teria sucesso em uma escala além de seus maiores sonhos de infância e, ainda assim, ele teria dificuldades em amar e ser amado. Por toda a vida, ele se sentiu sozinho, passando a maior parte do meio século de sua vida adulta ansiando por ser cuidado, ser compreendido. Por quê? Se sua mãe o tinha amado tanto quando ele era garoto, onde havia começado essa sensação dolorosa de que a coisa que ele mais precisava tinha sido tirada dele? 1

Apelido de Charles Schulz, “Sparky” significa brilhante ou vibrante em português. (N.E.)


prefácio

13

Quando pediam que falasse sobre sua vida, ele nunca começava pelo início, com seu nascimento em 26 de novembro de 1922, mas sempre com a morte de sua mãe em 1º de março de 1943, sua própria partida para a guerra e a impiedosa velocidade de tudo aquilo: na mesma semana, Dena Halverson Schulz havia falecido na segunda-feira, sido enterrada na sexta e, no sábado, o exército o levou embora. A história sempre começou com um jovem solitário, não mais do que um menino, sendo levado embora de trem pela neve.


PARTE UM PART ONE

NOROESTE NORTHWEST

Whenera hepequeno, was little,Gatsby Gatsbyganhou got a sled Quando umfortrenó Christmas, he calleddeit“Rosebud”! “Rosebud”! de Natal eand o chamou CHARLES M . SCHULZ , PEANUTS CHARLES M. SCHULZ, PEANUTS


CAPíTULo 1

SPARKy Provavelmente, nós nunca mais nos veremos. – DENA HALVERSON SCHULZ

O grande trem da tropa, mais de 400 metros de vagões verdes-oliva, saía da estação e entrava na tempestade. Quase 30 centímetros de neve haviam caído a Noroeste durante o dia e, agora, na curta tarde de inverno, a nevasca cobria o domo na parte mais alta da sede do governo estadual em Saint Paul e o topo piramidal da Foshay Tower, o prédio mais alto de Minneapolis. A neve colocava uma cortina entre as Twin Cities2, nublando as distâncias cotidianas. Somente a estrada de ferro e os trilhos do bonde traçavam nítidas linhas negras na cobertura branca que se acumulava cada vez mais. No vagão, Sparky mantinha-se isolado. Ninguém o conhecia ainda. Na lista, ele vinha depois de “Schaust” e antes de “Sciortino”, mas, exceto por sua posição na relação da companhia ferroviária, ele parecia não ter nenhuma conexão com os homens e, como um de seus colegas de assento recordaria, “nenhum interesse em se juntar a qualquer conversa”, nem mesmo a respeito do tempo. Os flocos de neve girando nas janelas do vagão apenas contribuíam para sua impressão de ter sido jogado em meio a “pessoas selvagens”.

AqUI ESToU NUm ÔNIBUS INDo PARA o ACAmPAmENTo

ÔNIBUS DE ExCURSão São BEm BoNIToS, EU ACHo…

*SUSPIRo* ESToU No ÔNIBUS Há APENAS 10 mINUToS E Já mE SINTo SoZINHo...

PARECE qUE fUI CoNVoCADo PARA o SERVIço mILITAR!

Minneapolis e Saint Paul, apelidadas de “Twin Cities” (cidades gêmeas), são as principais cidades da maior região metropolitana do Estado de Minnesota, nos EUA. (N.T.) 2


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SCHULZ & PEANUTS

Para seus companheiros recrutas, ele se apresentava como uma figura sem características distintas: simples, brando, modesto – só mais um rosto na multidão. Com sua aparência normal, ele se passava por um indivíduo sem expressão, tão facilmente, que a maioria das pessoas acreditava nele quando insistia, como fez tantas vezes alguns anos mais tarde, que ele era um “nada”, “ninguém”, um “homem descomplicado com interesses banais”, embora qualquer um que conseguisse atrair atenção para si por ser tão sensível e inseguro tinha que ser complicado. Don Schaust, que havia sentado ao lado de Schulz no vagão, mais tarde recordaria que, enquanto troavam pelas Twin Cities, seu colega de assento permanecia silencioso, “muito quieto, muito deprimido, absorto em seu próprio mistério”, e de como ele perguntara a si mesmo: “Qual é o problema com este sujeito?”. Não importava o que os outros diziam ou faziam. Sparky ficava sentado, assistindo à neve correr até a janela, não dando sinal algum de que tinha acabado de passar os piores dias de sua vida. Ele nunca falava sobre o verdadeiro tipo de câncer que tinha abatido sua mãe. Por toda sua vida, amigos, parceiros de negócios e a maioria de seus parentes acreditavam que Dena Schulz tinha sido vítima de câncer colorretal. Na verdade, o foco primário da doença de sua mãe foi o colo do útero e ela ficou seriamente enferma a partir 1938. Cedo, desde o segundo ano do Ensino Médio, Sparky voltava para casa e encontrava sua mãe acamada.

apresentando

Em algumas noites, ela passava tão mal que não fazia o jantar. Em outras, ele era acordado pelos gritos de dor dela. Contudo, ninguém falava diretamente a respeito da aflição que a atingia. Apenas o pai de Sparky e Marion, irmã e confidente de sua mãe, sabiam sobre a doença e nunca a reconheceram como câncer na presença de Sparky, mesmo quando a moléstia atingiu estágio final – em novembro de 1942, o mesmo mês em que ele foi convocado.


SPARKY

19

Em 28 de fevereiro de 1943, com a licença de um dia do Fort Snelling, voltou dos alojamentos do quartel do exército para ficar ao lado da cama de sua mãe, subindo as escadas de um prédio na esquina da Selby Avenue com a North Snelling Avenue, endereço do apartamento para o qual os Schulz haviam se mudado, para que seu pai, no trabalho em sua barbearia na Selby, e o farmacêutico na farmácia da esquina, pudessem subir as escadas correndo para administrar morfina durante as piores agonias de Dena. Naquela noite, antes de se apresentar de volta aos alojamentos, Sparky entrou no quarto de sua mãe. Ela estava em sua cama, contra a parede, em frente às janelas que davam para a rua. Ele disse que era hora de ir. “Sim”, ela disse, “eu acho que deveríamos dizer adeus”. Ela mudou seu olhar o melhor que pôde. “Bem”, ela disse, “adeus, Sparky. Provavelmente, nós nunca mais nos veremos”. Mais tarde, ele disse: “Nunca vou superar aquele episódio dramático enquanto viver”, e, de fato, ele não conseguiu, até o dia de sua morte. Foi, certamente, a pior noite de sua vida, a noite de “minha maior tragédia” – a qual ele, repetidamente, colocava nos termos de seu veemente sentimento de não realização por sua mãe “nunca ter tido a oportunidade de ver algo meu publicado”. Ele a via sempre à distância e, conforme os anos se passavam, a cada novo e estoico relato da história, o momento se tornava cada vez mais icônico. A ocasião ficou a salvo, congelada no tempo – uma despedida tão estarrecedora, nessa resolução calma e quieta, quanto a fala interpretada pela mãe, enquanto ela se prepara para perder o filho em Cidadão Kane: “Estou com essa mala toda arrumada. Estou com ela arrumada faz uma semana”. Frequentemente, várias vezes publicamente, Sparky expunha o terrível e resignado páthos, que sua mãe tinha dito a ele naquela noite. Apenas quando ele envelheceu e passou pela experiência de ser pai, conseguiu “entender a dor e o medo que ela deve ter passado pensando sobre o que seria de mim”. A nevasca fez tudo parar. Ainda assim, o trem continuava a retumbar através de Saint Paul e pontos de referência familiares, alertando-o de que sua vizinhança estava se aproximando. Assobradados de tijolos sujos de lama amontoavam-se por sua rua isolada pela neve. No local em que o viaduto da Great Northern Railway cruzava a North Snelling, ele conseguia enxergar o cruzamento desta com a Selby, dois quarteirões para o sul, onde desde segunda-feira ele andara feito sonâmbulo, às voltas com os arranjos do funeral junto com seu pai, na residência alugada no andar superior de um prédio sem elevador. Mesmo antes desta semana de calamidade, ele havia considerado esta porção de Saint Paul o cenário da “parte mais influenciadora da minha vida quando criança”.


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SCHULZ & PEANUTS

Acima dos prédios à sua direita, uma entrada com um frontão no estilo grego sinalizava a enorme escola primária que ele frequentara. Ele conseguia enxergar a Dayton Avenue, uma rua secundária com a moradia pequena e triste em que Carl e Dena viveram em 1921, durante o primeiro ano do casamento deles; e, na casa ao lado, o telhado sob o qual Carl protegera sua família durante a Grande Depressão, alguns dos anos mais solitários da infância de Sparky, e o quintal apertado onde Spike, um cachorrinho maluco que vivia em seu próprio mundo, tinha engolido algum vidro. Ali, na esquina da Selby com a Snelling, ficava o ponto de parada deles, de onde vinha, entre suas recordações mais remotas, a imagem de si mesmo entrando no bonde com sua mãe: um garotinho no assento de vime, indo para as lojas de departamentos. A viagem para o centro da cidade era tranquila. O bonde era livre, arejado e cheio de luz. Na viagem de volta, ele ficava lotado. Sábado era o grande dia de compras em Saint Paul. Passageiros carregados de pacotes aglomeravam-se dentro do veículo, ocupando todos os assentos. Logo que aparecia uma mulher ou uma menina, era de praxe um jovem, mesmo que fosse um garotinho acompanhando sua mãe, se levantar para ceder o seu lugar. Sparky fazia tal cortesia, embora isso significasse que ele tinha que lutar para se manter ao lado de Dena. Primeiro, um novo passageiro o tirava do lugar enquanto o bonde balançava para lá e para cá. Depois, um outro. A cada nova onda de viajantes voltando para casa, mãe e filho eram empurrados cada vez mais longe, um do outro. No final, ele a perdia de vista totalmente e, a partir daquele instante, ficava atado a seu pavor, imaginando que ela se esqueceria dele e desceria sozinha, deixando o bonde carregá-lo para longe, preso e sozinho. Anos mais tarde, ele ridicularizaria a ideia de que sua mãe o teria esquecido ou se descuidado dele: “Ela nunca teria feito isso”. Por natureza, ela não era desligada. De fato, registros mostram que Dena era uma protetora atenta, até mesmo meticulosa, de sua única cria. Contudo, o que quer que acontecesse a Charles Schulz no resto de sua vida – até mesmo quando ele se casou e iniciou uma família e se tornou conhecido como cartunista, tratado como celebridade, uma figura de sabedoria em toda a nação, um filósofo mor querido por milhões, um “vidente” reverenciado ao ponto da idolatria, com sua posição medida em quatro décadas de incessante reconhecimento universal como um dos artistas mais queridos do mundo – ele se sentia negligenciado. Ele nunca parou de acreditar que fora abandonado e que havia sido deixado para trás, que ninguém ligava. Em seu trabalho, a indiferença seria a resposta dominante para o amor. Quando seus personagens tentam amar, eles são recebidos não apenas pela rejeição, mas


SPARKY

21

por uma indiferença fria e até mesmo brutal, que se prolonga e é manifestada ou como insensibilidade ou como aceitação profundamente fatalista. Quando menino, ele tinha sido amado por sua mãe, ou assim ele sustentava. No entanto, Dena Halverson Schulz tinha uma qualidade indireta: ela podia ser distante, fria, evasiva, debochada e um pouco arrogante, mas era astuta por natureza, com um senso de humor que seu filho recordava como mordaz. Em um estágio primordial, algo havia atado os laços de Sparky com ela, que o fazia temer que, se ele virasse as costas, ela não estaria mais lá. E agora é exatamente isso que havia acontecido, deixando-o desorientado, desamparado, com o olhar fixo na janela de um trem de tropa: ela o havia deixado sozinho na batalha. Isso foi muito embaraçoso, Marcie...

Por que você tinha que dizer a Chuck que nós sentiríamos falta dele e que o amamos?

Foi a ternura do momento, senhor… Sabendo que estávamos partindo para o acampamento…

E poderemos nunca mais nos ver novamente…

Marcie!

Até entrar no exército, ele havia passado apenas duas noites de sua vida separado de sua mãe (em um torneio de golfe, quando ele tinha 18 anos) e tinha sentido uma tremenda saudade de casa. Ele nunca havia imaginado viajar para algum lugar sem ela. Ele nunca tinha visto o mar, ficado em um hotel ou comido num bom restaurante. Ele era um estranho para o mundo. Você tem seu próprio quarto, Charlie Brown?

Ah, sim… Tenho um quarto muito bonito

Espero que você saiba que não terá seu próprio quarto para sempre… Algum dia você será convocado ou algo assim e terá que deixar seu quarto!

Por que você me diz coisas assim?

Está numa lista que fiz para você…

Eu a chamo “Coisas que Você Também Deveria Saber”

Desde a graduação na Central High School, dois anos antes, ele havia vivido uma vida de menino, protegido por seus pais do sofrimento e de tempos difíceis. Seu pai o ajudava e tratava dos seus negócios bancários, embora não houvesse muito o que poupar. O emprego após o Ensino Médio era como entregador de produtos de mercearia. Ele nunca largara seu apelido de infância, Sparky, ou seu embaraço com as garotas. Ele não conhecia nada sobre as artes do amor e nunca tinha tido uma namorada – apenas paixões platônicas, e nada mais do que encon-


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SCHULZ & PEANUTS

tros para tomar sorvete com as filhas de amigos da família. Sua mãe era a única mulher que importava. E agora ela nunca retornaria e não o conheceria quando ele crescesse. E aqui estava ele. Sem dúvida, um “sad sack”3, um menino entre homens vestidos de cáqui, muitos dos quais talvez não voltassem nem envelhecessem, pois estavam vagando pelo frio implacável em direção a algum lugar desconhecido, onde eles receberiam rifles e seriam ensinados a matar. “Eu me pergunto como sobrevivi até o fim”, ele disse mais tarde. Ele sempre resolveu seus problemas ficando sozinho e desenhando. Deixar sua mão à vontade com nanquim e uma pena de corvo curava a maioria das coisas. Junto com seus apetrechos, ele levava um caderno de desenho feito especialmente para a ocasião e alguns lápis. Sob essas circunstâncias, ele podia rabiscar e esboçar seus próprios esquetes da vida militar. Ele ainda pleiteava a ideia de que o exército poderia usá-lo, oficialmente, como artista. Entretanto, ele não podia mais estimular sua ambição. Seu desejo mais antigo: desenhar uma tira num jornal, para mostrar que ele era diferente e melhor do que seus parentes, agora azedara junto com tudo mais. Pois mesmo que ele sobrevivesse ao combate e voltasse para casa com braços, mãos e dedos intactos, ele nunca conseguiria provar a sua mãe que era especial, afinal de contas, ela havia ido embora para sempre. Tudo que ele poderia fazer agora era tornar-se um soldado. Ganhando velocidade, o trem parecia varrer a paisagem de Saint Paul pela janela. O cruzamento de sua vida, Selby com Snelling, passou cintilante, desaparecendo na neve.

3 The Sad Sack foi uma tira criada pelo cartunista George Baker quando estava no exército, durante a Segunda Guerra Mundial; o protagonista era um soldado raso vivendo as agruras da vida militar. (N.T.)

1º capítulo schulz e peanuts  
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