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UMBANDA DE TODOS NÓS

UMBANDA DE TODOS NÓS


Sumário 1 – Introdução ................................................................................................................. 7 2 – Formas de contar a Umbanda ................................................................................. 10 2.1 - Momento Etimológico ..................................................................................... 17 2.1.1 – O Contexto Histórico ................................................................................ 17 2.2 - Momento Doutrinário...................................................................................... 35 2.2.1 – O Contexto Histórico ................................................................................ 35 2.2.2 - Esotérico e Exotérico................................................................................. 43 2.2.3 - Teogonia .................................................................................................... 47 2.2.4 - Codificação................................................................................................ 54 2.2.5 - A Prática do plágio .................................................................................... 60 2.2.6 - Umbanda como a Religião do Terceiro Milênio ........................... 62 2.2.7 - Iniciação .................................................................................................... 69 2.2.8 - Africanismo ............................................................................................... 71 2.2.9 - O Giro Conceitual de Matta e Silva .......................................................... 77 2.2.10 – A Dourina do Tríplice Caminho ............................................................. 81 2.3 - Momento Teológico ......................................................................................... 86 3 – Conclusão................................................................................................................ 93 4 – Anexos Filológicos ................................................................................................. 95 5 – Apêndice ............................................................................................................... 200 6 – Referências Bibliográficas .................................................................................... 207

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1 – Introdução

Como já dissemos, o volume de obras nestes 84 anos é bastante grande, porém, uma parte ponderável dela, em essência, repetiu sem os devidos créditos o que já havia sido escrito. Optamos por um recorte histórico-temático selecionando algumas obras, seja por sua relevância e importância em conceitos e doutrina ou pela raridade da obra. Nosso intuito foi relevar as obras que trataram a Umbanda de forma substantiva e não adereçada de receitas e formulações de ordem comercial. Entretanto, não poderíamos omitir determinadas obras e autores que infelizmente deslustraram e deslustram a Umbanda, até os dias de hoje. Nesta jornada de marchas e contramarchas da literatura Umbandista decidimos por três recortes temáticos, como dissemos, que preferimos chamar de ―momentos‖ – etimológico, doutrinário e teológico. Naturalmente é um recorte que não tem a pretensão de esgotar as obras, conceitos ou doutrinas, mesmo por que o movimento umbandista está em constante transformação, os ditos conceitos e doutrinas não são definitivos e estão sujeitos a mudanças ao longo do tempo, por isso também demos preferência ao termo momento. Na obra “Fundamentos Herméticos de Umbanda”, de Rivas Neto, na página 16, encontramos a seguinte afirmação que corrobora esta direção:

“Os leitores e simpatizantes de nossas obras, as que, via mediúnica “recebemos” do Caboclo Sr. Sete Espadas, sabem que ao término das mesmas, Ele frisa com veemência, que os conceitos expressos não são definitivos, aliás, muito ao contrário. Diz-nos que expressa ou manifesta parte da “Verdade Relativa”. Ora, se a Verdade que nos apresenta é relativa, a mesma é mutável, 7


dinâmica, adaptável, se potencializa, se desdobra, tudo visando uma maior proximidade com a “Verdade Absoluta”. (Rivas Neto, 1996, p. 16)

Entendemos aquilo que chamamos de momentos como um processo de construção e reconstrução contínuo, porém não linear, existem verdadeiros saltos de descontinuidade que determinadas obras promoveram no mar literário da Umbanda. Verdadeiros marcos que irromperam a paisagem das idéias vigentes e que se tornaram pilares de sustentação deste movimento espiritual e alicerce de escolas umbandistas. Quais os marcos destes três momentos? No início, ou seja, a partir de Leal de Souza o cerne da literatura umbandista procurou entender o que significa a palavra Umbanda e a origem deste culto, chamamos esquematicamente este período de ―momento etimológico‖. A primeira obra escrita de que se tem notícia sobre a Umbanda foi produzida por Leal de Souza, escalado pelo jornal ―A Noite‖ para ir a campo, investigar e explicar este culto largamente difundido no Rio de Janeiro. Numa linha investigativa similar tivemos a obra “Umbanda em Revista” de 1941 realizado por João de Freitas ao estilo de crônica. Além destes trabalhos de um jornalismo quase etnográfico, o livro do 1º Congresso de Umbanda teve em um de seus artigos, o de Baptista de Oliveira que foi exemplar deste momento. Mais tarde, o tema da origem, da etimologia da palavra Umbanda ganhou impulso impar com a obra ―Umbanda de todos nós”, de Matta e Silva, em 1956, um dos pilares da literatura umbandista até os dias de hoje, revolucionado posteriormente em 1989 pela obra ―Umbanda: a Proto-Síntese Cósmica” de Rivas Neto.

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No Momento Doutrinário, encontramos as obras iniciais de Oliveira Magno – ―A Umbanda Esotérica e Iniciática” publicada em 1950 e ―Umbanda e Ocultismo” de 1952 e Osório Cruz com ―O Esoterismo de Umbanda” de 1953. Um pouco mais tarde a soberba e estruturante obra ―Umbanda de Todos Nós” de Matta e Silva de 1956, que definitivamente fundou as bases da Escola Esotérica, novamente revolucionadas por Rivas Neto em diversas obras na chamada Escola de Síntese. O terceiro e último momento é o Teológico, ponto de intersecção entre Religião e Ciência, entre o empírico e o metafísico, racional e transcendente, do diálogo entre a academia e o templo. Em estado germinal vislumbramos este encontro na primeira obra citada de Oliveira Magno e aprofundada por Matta e Silva, mas que ganhou seu verdadeiro pilar nas obras de Rivas Neto e que se materializou definitivamente na fundação da primeira Faculdade de Teologia Umbandista. Vejamos agora como esta marcha se processou e suas contramarchas.

NOTA ESPECIAL: Boa parte dos livros que aqui utilizamos foram produzidos entre outras, pela Editora Espiritualista do Rio de Janeiro que usualmente não fazia menção a data da publicação dos seus originais, assim o ano citado por nós se refere ao da Edição da referida obra. Por exemplo, o livro “A Umbanda através dos séculos” de Aluízio Fontenelle foi publicado em sua 2ª edição em 1957, mas o autor faleceu e 1952, deduz-se daí, através de uma foto impressa no livro e assinada com data de 1951, que a data provável de publicação teria sido este último ano. Devido a essa ausência das referências de data original vou utilizar normalmente o ano da publicação da Edição que possuo.

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2 – Formas de contar a Umbanda

Antes de iniciarmos com o que chamamos de ―Momentos‖ na literatura Umbandista, gostaríamos de expor um pouco de quem foi Leal de Souza, assim teremos a possibilidade de entender melhor o primeiro autor Umbandista. Existem dois momentos distintos nos escritos de Leal de Souza, primeiro como jornalista que observou os vários terreiros com os olhos de um jornalista simpatizante e outro como prosélito de Zélio Fernandino de Moraes e condutor de um dos Templos ligados à Tenda Nossa Senhora da Piedade. Na primeira fase, chegou a relatar o primeiro encontro com Zélio, descrita uma consulta atravessada relatada pelo Prof. Émerson Giumbelli. Antônio Eliezer Leal de Souza nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, em 24/12/1880 ou 24/09/1880 dependendo da fonte. Foi Alferes, isto é, segundo tenente e participou da Guerra de Canudos ainda jovem. Cansado de sofrer prisões por combater o governo de Borges de Medeiros, desligou-se do quartel e então se dedicou ao jornalismo. Tornou-se então redator de A Federação de Porto Alegre. Mais tarde foi ao Rio de Janeiro, cursou Direito (não concluiu), foi diretor e repórter dos jornais A Noite, Diário de Notícias e A Nota. Como jornalista deu o furo de reportagem sobre o assassinato de Euclides da Cunha. Freqüentava a roda literária formada por Olavo Bilac, Martins Fontes, Coelho Neto, Luis Murat, Goulart de Andrade, Alcides Maya, Aníbal Teófilo, Gregório da Fonseca entre outros. Foi diretor de A Careta, semanário que explorava o recurso das caricaturas, tão a gosto dos cariocas da época e escreveu mais tarde dois romances e alguns livros sobre o espiritismo - preocupação que já se encontrava presente na obra Bosque Sagrado de 1917. 10


O Diário de Notícias

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iniciou sua Edição Matutina de 8 de Novembro de 1932

anunciando que a larga difusão do espiritismo no Brasil era um dos fenômenos mais interessantes do reflorescimento da fé, da necessidade do amparo divino e mesmo a curiosidade especial pela magia fez com que decidissem, no intuito de esclarecer o povo e as autoridades sobre culto e práticas amplamente realizadas na cidade do Rio de Janeiro, convidar então um especialista nesses estudos, o Sr. Leal de Souza para explicá-las nas colunas do referido jornal. Os leitores da época puderam tirar dúvidas, saber sobre as cerimônias e fenômenos ou esclarecer conceitos sobre espiritismo tiveram essa oportunidade com estes artigos. A compilação dos artigos divulgados por este jornal deu origem à obra “O Espiritismo, a Magia e as Sete linhas de Umbanda”. Portanto, não foi exatamente um livro, mas um apanhado, uma coletânea de artigos reunidos na forma de livro. Importante ressaltarmos que esta compilação, fora transformada em livro em 1933, quando Leal já era prosélito de Zélio Fernandino de Moraes e ocupava a Presidência da Tenda Nossa Senhora da Conceição. No entanto, os artigos anteriores a 1925, tiveram cunho jornalístico e investigaram as manifestações espíritas entre os cariocas. Dada a importância atribuída a Zélio de Moraes cumpre destacar alguns fatos significativos de sua vida. Ele não se dedicou apenas a sua crença ou as suas atividades profissionais normais, de fato também foi político pelo PRF2. Elegeu-se vereador em 18/05/1924 e em 10/04/1927. Também foi escolhido para secretário do Legislativo Gonçalense onde cumpriu um mandato de 3 anos. Abaixo imagem de um jornal da época.

1

Em seu livro ―Espiritismo, Magia e as Sete linhas de Umbanda‖ pág. 3 a 5.

2

PRF – Partido Republicano Fluminense – partido criado no fim do século XIX com o objetivo de

representar os ideais republicanos e oligárquicos da elite agrária do Rio de Janeiro.

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Retomando. Na obra “Caminhos da Alma – Memória Afro-brasileira” de 2002, organizado pelo antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, no capítulo intitulado ―As origens da Umbanda por intermédio de Zélio de Moraes e seu centro”, Émerson Giumbelli fez um panorama de como se constituiu o mito de Fundação da Umbanda. Escreveu o autor3 que o lugar de fundador ou pioneiro principal da Umbanda atribuído a Zélio foi uma construção tardia. Tardia porque foi atribuído a ele, muito tempo depois dos fatos ocorridos e por outras pessoas que eram seus prosélitos como foi Leal de Souza. Isso não significaria, afirma Giumbelli, que a história dele nada podia dizer sobre o surgimento da Umbanda no Rio de Janeiro e seus arredores. Com o objetivo de esclarecer os fatos, este pesquisador dedicou-se a buscar outras informações que pudessem esclarecer o mito de fundador da Umbanda atribuído à Zélio de Moraes, informações estas que trouxeram peculiaridades como a consulta atravessada dada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes à Leal de Souza. Tal consulta está relatada na obra “Mundo dos espíritos” de 1925 que segundo Giumbelli é um livro riquíssimo sobre as visitas realizadas a uma centena de Instituições, centros e cerimônias, um deles dirigido por Zélio de Morais, que vale a pena ser reproduzido. 3

Veja o texto na íntegra no ANEXO 1

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“... Após passar por “filas compactas de gente”, o jornalista sentou-se à mesa onde estavam os médiuns e o diretor dos trabalhos. Este, Dr. Meirelles, encarregou da prece inicial, à qual logo se seguiu um primeiro transe. A senhorita Zaira é tomada por um “espírito infeliz”, identificado como “João”. Em meio ao debate que se desenrolava entre Zaira e o diretor, entrou em transe Zélio:

Saudado como sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas, chefe espiritual do famoso centro, fez, em linguagem enérgica, uma vibrante exortação, suplicando e ordenando a intensificação da fé (idem, p. 370).

O Caboclo incorporado em Zélio fez questão de cumprimentar o jornalista, dizendo-lhe: “A minha esquerda, está uma irmã que entrou aqui como tuberculosa e a minha direita um irmão vindo do hospício. Curo-os, os dois, Nossa Senhora da Piedade”. Afirmou ainda estar vendo um espírito que seria a mãe de Leal de Souza. Ante o esclarecimento de que a pessoa não era falecida, Zélio saiu do transe após exclamar: “Quem é então? Há de incorporar e dizer quem é”. (GIUMBELLI, 2002, p.183-215)

Este pesquisador afirmou ainda que o jornal da Federação Espírita Brasileira, que trazia notícia sobre vários grupos da época, nada mencionou sobre a Tenda Nossa Senhora da Piedade e a incorporação do Caboclo das Sete Encruzilhadas. As primeiras menções a Zélio foram divulgadas nos últimos meses de 1932 por Leal de Souza, quando ele já era prosélito de Zélio e presidente da Tenda Nossa Senhora da Conceição. Essas menções ao suposto papel de 13


fundador surgiram nos artigos compilados de Leal de Souza que deram origem ao livro “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda” de 1933. Outra observação importante dada por este pesquisador é que mesmo Zélio praticando uma Umbanda com fortes influências kardecistas, (vide que a incorporação era feita na mesa) não faltaram a presença de caboclos, pretas-velha e índios, típicas das macumbas cariocas, ou seja, das influências africanas e ameríndias.4 (ANEXO 1) Cumpre lembrar ao leitor que apesar da ―mesa‖ (que é também usada no Catimbó), havia imagens e mesmo o nome ―Tenda Nossa Senhora da Piedade‖ reflexos de influências claramente católicas. Giumbelli mostrou em seu artigo que as literaturas religiosas tomadas por científicas restringiam-se ao ―espiritismo‖, marcadas por conceitos kardecistas, ou seja, importadas da Europa e, por oposição à ―macumba‖ ou cultos trazidos pelos escravos da África com fortes influências islâmicas. Nos relatos de Leal de Souza5 encontramos termos como "baixo espiritismo‖ 6, "falso espiritismo‖ 7, feitiçaria8, magia negra9, por influência também kardecista, que em resumo fazia uma classificação basicamente moral. O que Giumbelli quis dizer com moral? Com enfoque no mal e que condenava aquelas práticas como moralmente erradas.

4

GIUMBELLI, 2002, p.183-215

5

O Espiritismo, Magia e as Sete linha s de Umbanda,1933

6

Capítulo XI do livro "Espiritismo, Magia e as Sete Linhas de Umbanda" pag. 36-8

7

Capítulo X do livro ―Espiritismo, Magia e as Sete Linhas de Umbanda, pag. 33

8

Capítulo XII do mesmo livro, pág. 39-40

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Cap. XIV do mesmo livro pag. 43-6

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Giumbelli lembrou-nos, que não se tratava de uma idiossincrasia, os autores daquela época raciocinavam nestes termos10, todos sem exceção. Este pesquisador escreveu que mesmo Leal de Souza descrevendo o que ocorria em moldes kardecistas, apontou–nos uma origem diversa da idéia de uma suposta ―fundação‖ em 1908. Temos que concordar que o mito poderia ter seu valor em muitos aspectos, mas pretender impô-lo a toda coletividade Umbandista seria transformá-lo num instrumento de hegemonia. Importante lembrar que neste momento a ênfase do discurso estava na origem da Umbanda. De onde vinha? Qual a etimologia do vocábulo Umbanda? Entretanto não podemos esquecer que o momento que chamamos de etimológico, a preocupação dos que propuseram uma Umbanda adaptada aos moldes espíritas era criar uma imagem de pureza, de cientificismo e de evolução de inspiração kardecista. Vicente Nunes (autor da década de 50) foi outro exemplo de como este imaginário kardecista impregnava os escritos daquela época. Em ―Umbanda Oriental‖, já na introdução do livro, o autor se justificou dizendo que sua obra era destinada a esclarecer ―o que é Umbanda Evangelizada que o Divino Mestre (Jesus) criou para a evolução dos espíritos encarnados e dos seus humildes mensageiros que fazem parte das grandes falanges da caridade espiritual.” (NUNES, “Umbanda Oriental”, p. 3) Termos como ―Umbanda evangelizada‖, ―Divino Mestre‖, ―evolução dos espíritos encarnados‖, mesclavam conceitos kardecistas, claras influências cristãs. É como se o kardecismo fosse, em essência, um catolicismo reformado. Mas estas não foram as únicas influências nas formas de contar a umbanda, existiram outras. 10

Pag. 201-202 do livro "Caminhos da Alma - Memória Afro-Brasileira

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Partamos então para o ―Momento Etimológico‖.

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2.1 - Momento Etimológico

2.1.1 – O Contexto Histórico

Antes de entrarmos propriamente neste ―Momento‖, vale mencionarmos alguns fatos do contexto histórico, tanto Mundial quanto Brasileiro daquela época. Internacionalmente, a primeira metade do século XX foi marcante na história mundial. Época das duas grandes Guerras Mundiais e o início da Revolução Russa, que instituiu o comunismo na Rússia. Também se iniciou a popularização do rádio como mídia de massa e do automóvel como meio de transporte. Da Expansão do modelo Fordista e da crescente secularização da Europa, ao mesmo tempo que vários movimentos filosóficos e religiosos como o Pentecostalismo e o Esoterismo cresciam na América, como também cresciam os movimentos artísticos modernistas, especialmente na pintura e na música. Uma das conseqüências da 1ª Guerra foi permitir a ascensão do Nazismo, com Hitler, o surgimento do Fascismo italiano e ainda do Salazarismo Português. Os anos 30 foram considerados uma das épocas mais sangrentas de toda a história mundial. Neste período, Hitler ascendeu ao cargo de chanceler na Alemanha e iniciou o genocídio do que ele chamava de "raças inferiores", em especial os judeus. Logo depois, o início da Segunda Guerra Mundial que contabilizou mais de 70 milhões de mortes. Os Estados Unidos da América inventaram a bomba H e testaram nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando entre 140 mil a 220 mil civis, na maioria japonesa, sob a alegação de precipitar o fim da Guerra. Hitler cometera suicídio e Mussolini fora fuzilado. Tudo isso na década de 40. 17


Não podemos deixar de mencionar o que estava sendo proposto pela Antropologia na década de 30/ 40. Ciência Humana, disciplina dedicada ao estudo dos agrupamentos humanos e da compreensão do sentido do comportamento do homem, considerando em sua análise, as origens, o desenvolvimento e a construção das relações internas e externas das sociedades, preocupava-se em aprofundar o conhecimento por meio da pesquisa de campo, dos sistemas simbólicos e da estruturação das relações entre os grupos humanos que dela faziam parte e que com elas se relacionavam, seja em sua relação com o meio, seja em sua constituição cultural. Franz Boas, um ícone na Antropologia, conhecido como o pai da Antropologia Cultural contemporânea foi pioneiro nas idéias de igualdade racial. Franz Boas criticou veemente o determinismo biológico e geográfico. Tinha como crença o evolucionismo cultural. Apontava que cada cultura é uma unidade integrada, fruto de um desenvolvimento histórico peculiar. Afirmava que a dinâmica da cultura estava na interação entre os indivíduos e a sociedade. O contexto internacional exerceu influência, reflexos e conseqüências no Brasil. Entre a década de 10 e 30, Marechal Rondon colocou em relevo a questão indígena brasileira e criou o primeiro serviço de proteção ao índio que mais tarde inspiraria a fundação da FUNAI (1967). Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922 foi realizada, no Teatro Municipal de São Paulo, a "Semana de Arte Moderna", que contou com a participação de escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos. Seu objetivo era renovar o ambiente artístico e cultural da cidade. Iniciaram-se as primeiras transmissões de rádio. Ocorreu a Revolução de 30, movimento que chegou ao poder encabeçado pelo político gaúcho Getúlio Vargas. Em 1932 iniciou a Revolução Constitucionalista, organizada pelo estado de São Paulo. Convocação da Assembléia Constituinte em 1933. Em 1934 foi 18


promulgada a nova Constituição. Chegou ao fim a política do café-com-leite e teve início o Estado Novo, em novembro de 1937. Ao longo do restante da década não seriam realizadas eleições no país (as eleições só voltariam com o fim do Estado Novo, em 1945). Em 1934, Arthur Ramos de Araújo Pereira, médico psiquiatra, psicólogo social, etnólogo, folclorista e antropólogo brasileiro, um dos principais intelectuais de sua época, teve grande destaque na construção do mito da democracia racial e foi também importante no processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil. Difundiu o evolucionismo cultural em substituição ao evolucionismo racial de Nina Rodrigues. Foi o principal divulgador da idéia de que a palavra Umbanda viria de ―Mbanda‖ criticada por Matta e Silva, mas que até hoje é defendida por alguns. E qual era o contexto político no Movimento Umbandista? A pesquisadora Diana Brown analisou este contexto na obra “Umbanda e Política”. A autora contou que a repressão policial daquele período teve efeito muito importante sobre o Movimento Umbandista, pois estimulou os umbandistas a se organizarem, buscando proteção contra essas ações. Em função disso, em 1939, Zélio de Moraes e outros líderes fundaram a primeira Federação de Umbanda, a União Espírita da Umbanda do Brasil (UEUB), com o objetivo de oferecer a todos os ―centros de Umbanda‖ a ela filiados, proteção contra a ação policial. Para Diana Brown, a eficácia desta Federação foi bastante limitada para se contrapor às perseguições contra os terreiros que a integravam, entretanto, em pouquíssimo tempo se tornou uma importante base para organizar outras atividades. Foram os líderes da UEUB que organizaram e patrocinaram o 1º Congresso de Umbanda em 1941. Acreditava a pesquisadora que os intensos esforços para dissociar a Umbanda da imagem afro-brasileira podiam perfeitamente ser explicados pelo desejo de escapar das perseguições pelos quais os grupos religiosos afro-brasileiros estavam sujeitos. 19


Brown acrescentou ainda que a repressão de religiões afro-brasileiras no Nordeste ocasionou um efeito parecido ao do Sudeste, estimulando a formação de federações protetoras no Recife, em 1934, e em Salvador, Bahia, em 1937. Os fundadores das federações nordestinas, porém eram pessoas ―desde fora‖, isto é, pessoas que não eram praticantes da Umbanda como nas Federações do Rio, eram cientistas interessados em estudar a saúde mental e as aptidões de brasileiros de descendência africana, e intelectuais preocupados em preservar a herança cultural africana. Para a pesquisadora, no Nordeste, o patrocínio e a proteção das religiões afro-brasileiras tomaram a forma paternalista combinada com interesses científicos e artísticos, enquanto que no Rio representou um esforço proveniente da classe média em expansão com o intuito de atingir uma nova forma de auto-identificação em termos religiosos. Entretanto, nestas duas regiões, as federações assumiram rapidamente a forma de um patronato das classes média e alta em relação às práticas religiosas desenvolvidas pela classe baixa. (ANEXO 2) Finalizando este breve panorama do contexto histórico e adentrando na proposta deste trabalho, sigamos em frente. A origem da palavra Umbanda está associada à origem da religião de Umbanda e este é o centro temático do que esquematicamente chamamos de ―Momento Etimológico‖. Poderemos perceber em vários autores que aqui serão expostos, a necessidade de darem à Umbanda uma explicação não só do vocábulo, mas principalmente uma origem étnica – Umbanda Branca versus Africanismo, quando na verdade a Umbanda reflete um pouco de cada uma das etnias que deram formação ao Brasil - branca, negra e ameríndia. Ela é um sincretismo de culturas, de tradições e hábitos sociais. Essa riqueza está parcialmente expressa na literatura umbandista e por isso também procurei manter as citações originais nos anexos deste trabalho que retratam este fato. 20


Vamos a algumas destas formas. No próprio mito de fundação (conceito formulado por Diana Brown) proposto pela Escola de Zélio de Moraes foram registrados três termos diferentes, contava-se que a primeira versão dada pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas era ―Alabanda‖ (ou banda de Ala). Não se sabe bem se o médium ou o Caboclo teria considerado que aquela designação não soava bem e a teria substituído por ―Aumbanda‖ e finalmente por Umbanda. Se a palavra Umbanda surgiu através da mediunidade de Zélio, este nunca explicou o seu significado, limitou-se a definir sua função: “manifestação do espírito para a caridade”. Porém, mesmo após eleita, este movimento filo-religioso conviveu com outras denominações como ―Espiritismo de Linha‖ e para além do nome variaram também as interpretações de sua origem e significado. Retomando a questão etimológica, esta surgiu com vigor e explicitamente no 1º Congresso de Umbanda realizado em 1941, no qual participou o grupo de Zélio de Moraes. A idéia básica daquele evento era codificar a Umbanda como nos deixa claro no livro "1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda":

"A idéia do Congresso - O conceito alcançado entre nós pelo Espiritismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática deu motivo a fundação nesta capital de elevado número de associações destinadas especialmente a esta modalidade de trabalhos, cada qual procurando desempenhar-se a seu modo, para atender a um número sempre crescente de adeptos. Sua prática variada, entretanto, segundo os conhecimentos de cada núcleo, não havendo, assim, a necessária homogeneidade de práticas, o que dava motivo a confusão por parte de algumas pessoas menos esclarecidas, com outras práticas inferiores de espiritismo. 21


Fundada a Federação Espírita de Umbanda há cerca de dois anos, o seu primeiro trabalho constituiu na preparação deste Congresso, precisamente para nele se estudar, debater e codificar esta empolgante modalidade de trabalho espiritual, a fim de varrer de uma vez o que por aí se praticava com o nome de Espiritismo de Umbanda, e que no nível de civilização a que atingimos não tem mais razão de ser." (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 6-7 – ANEXO 3)

Há alguns detalhes importantes no texto. O primeiro se refere à frase - ―conceito alcançado entre nós pelo Espiritismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática”, ou seja, o Congresso reconheceu publicamente a existência de 20 anos de prática, o que significaria que sua ―fundação‖ se deu em 1920 e não 1908. Não por acaso encontra-se este ano de referência em trabalhos acadêmicos. O hiato de doze anos entre uma data e outra reforça a hipótese do ―mito de origem‖. Outro foi ―varrer de uma vez o que por aí se praticava com o nome de Espiritismo de Umbanda‖, ―nível de civilização‖ que deram tom etnocêntrico do evento. Ainda na questão etimológica, encontramos nas palavras do Senhor Diamantino Coelho Fernandes da Tenda Mirim, na sessão inaugural do Congresso em 19 de Outubro de 1941 que a Umbanda não era um conjunto de fetiches, seitas ou crenças originárias de povos incultos ou aparentemente ignorantes, mas que Ela era demonstradamente uma das maiores correntes do pensamento humano existente na terra há mais de cem séculos, cuja raiz se perdeu na profundidade insondável das mais antigas filosofias. Acreditava Fernandes que o vocábulo Umbanda era oriundo do sânscrito, a mais antiga e polida de todas as línguas da terra, a raiz das demais línguas existentes no mundo. 22


“Sua etimologia provém de AUM-BANDHÃ, (om-bandá) em sanskrito, ou seja, o limite no ilimitado. O prefixo AUM tem uma alta significação metafísica, sendo considerada palavra sagrada por todos os mestres orientalistas, pois que representa o emblema da Trindade na Unidade. Pronunciado ao iniciarse qualquer ação de ordem espiritual, empresta à mesma a significação de o ser em nome de Deus. Pronuncia-se om. A emissão deste som durante os momentos de meditação facilita as nossas obras psíquicas e apressa a maturação do nosso sexto sentido, a visão espiritual. BANDHÃ, (Bandá) significa movimento constante ou força centrípeta emanante do Criador, a envolver e atrair a criatura para a perfectibilidade. Outra interpretação igualmente hindú, nos descreve BANDHÃ como significando um lado do conhecimento, ou um dos templos iniciáticos do espírito humano. A significação de Umbanda, (o correto seria Ombanda) em nosso idioma, pode ser traduzida por qualquer das seguintes fórmulas: Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante.” (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 21-23 - ANEXO 4)

Este pronunciamento estabeleceu uma etimologia oriental para a palavra Umbanda, desligado à manifestação do Caboclo incorporado por Zélio. Se no primeiro momento a palavra fora associada à função caritativa, a partir deste evento foi elevada ao estatuto de Princípio – ―Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante”. No entanto, o Congresso não foi unânime em apontar uma só origem. O Dr. Baptista de Oliveira na reunião de 22 de Outubro de 1941, por exemplo, afirmou que mesmo havendo 23


grandes divergências por parte dos adeptos e simpatizantes da Umbanda, todos concordavam quanto as origens africanas. (ANEXO 5).

“A natureza das suas práticas, revestidas todas elas de tão grosseiros aspectos, assim como a rudeza do vocabulário com que se processam os atos de sua estranha liturgia, tudo isto lhes justifica a paternidade: Umbanda veio do continente Negro. Também sou desta opinião, muito embora discorde num detalhe. Umbanda veio da África, não há dúvida, mas da África Oriental, ou seja, do Egito, da terra milenária dos Faraós, do Vale dos Reis e das cidades sepultadas na areia do deserto ou na lama do Nilo. O barbarismo afro de que se mostram impregnados os ecos chegados até nós, dessa grande linha iniciática do passado, se deve a deturpações a que se acham naturalmente sujeitas às tradições verbais, melhormente quando, além da distância a vencer no tempo e no espaço, têm elas de atravessar meios e idades em absoluto inadaptados à grandeza e a luz refulgente dos seus ensinamentos. Com Umbanda foi isto o que se deu.” (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 114).

Para Baptista de Oliveira quando a civilização egípcia entrou em decadência pelas sucessivas invasões de povos bárbaros no país, a casta sacerdotal (a mais perseguida por ser a que foi confiado o segredo e os mistérios da Ciência) emigrou em diversas direções indo fundar os ―Mistérios‖ em diferentes pontos do Mediterrâneo. Essa emigração do clero e dos

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magos egípcios não se fez apenas para o Mediterrâneo, mas aos quatro cantos do Mundo, mesmo porque não havia direito de escolha. Segundo Baptista de Oliveira, a Etiópia recebeu um grande contingente desse povo sábio e ainda hoje é possível percebê-los no clero Copta, vínculos estes que os prendem aos ensinos exotéricos e esotéricos desse passado multissecular.

“Quem estuda como eu tenho feito, na medida do possível, a estrutura e a forma das iniciações que florescem no mundo africano e na Ásia Menor, todas elas erigidas sobre um dos dois princípios fundamentais da teogonia egípcia, quando não sobre os dois, ao mesmo tempo, não poderá ter qualquer dúvida, como eu não tenho, sobre as origens comuns dos “mistérios” no mundo ocidental. Todas as iniciações européias, diz um dos Durvile, são ramos de um mesmo tronco, de um tronco cujas raízes penetram nas terras dos Faraós.” (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 115 e 116).

Para este congressista, ―o chamado Espiritismo de Umbanda‖ apresentava três características distintas e capazes de nos reportar às suas origens, não tendo como obstáculo as deturpações determinadas pelo caldeamento imposto pelo meio. Falou de uma Umbanda praticada no Rio de Janeiro diferente da forma da Umbanda que se conhecia em todo o Nordeste, a partir da Bahia. Lá, o ritual e o culto teriam conservado certa feição e tendências do Oeste Africano, enquanto que no sul, a influência do aborígene se tornou incontestável devido a tantas evidências. 25


O autor fez uma ligação da Umbanda com a África quando falou de magia, pois acreditava ser ela uma reprodução do ―Segredo Egípcio‖ na forma preconizada no “Livro dos Mortos”, nos contou sobre a Ordem dos Arquitetos11, na África:

“Não há nenhuma notícia de que se recrutassem no meio da massa ignorante, sugestionável e passiva, conseqüentemente, os elementos desse grande centro de iniciação, o único conhecido em toda a história dos ritos oriundos da parte ocidental do Continente Negro. Admitidas essas origens africanas da Linha de Umbanda, ante a prova oferecida pelos argumentos evocados, somos forçados a considerar a magia como sendo sua própria natureza, porque tanto os “Mistérios Iniciáticos” como a religião dos Egípcios tinham por substância mesmo, a ciência esotérica dos princípios.”

(1º

CONGRESSO

BRASILEIRO

DO

ESPIRITISMO

DE

UMBANDA, 1942, p. 117-118).

Oliveira explicou ainda o que para ele significava ―forma‖. Tomou-a como sinônima de ritual, pois a forma de um princípio não se mediria no espaço, nem poderia ter qualquer relação com o tempo. Para ele, Umbanda não era uma coisa, mas um princípio em forma de lei. Em qualquer um dos dois planos em que a procurássemos, encontraríamos sempre a sua expressão. Esses dois planos a que ele se referia eram: o plano físico, o mundo visível e o mundo espiritual, ou mundo invisível. Falava em macrocosmo e microcosmo. Para ele o

11

Instituição secreta fundada no ano de 1767 tendo como ideais a descoberta da verdade, a cultura da

virtude, a conquista do saber, o desenvolvimento dos poderes latentes do homem, e todo o seu ritual, abrangendo os cinco graus constitutivos da Ordem.

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Universo se desdobrava em dois mundos: o físico, cenário da matéria e dos fatos e o mundo hiperfísico constituído de três campos de expansão: a da causa primária, isto é, dos princípios; a da essência puramente psíquica, correspondendo às leis e a da luz astral, dizendo respeito às virtualidades. Fez ainda uma relação do microcosmo com o Homem que ele acreditava mostrar-se por meio da dupla forma de existência, que era ao mesmo tempo visível e invisível, correspondendo à primeira à natureza, ao corpo físico e ao complexo orgânico do ser, e a última aos corpos superiores, o astral, o mental e o espiritual, em relação, respectivamente, ao subconsciente, à consciência e à ―super consciência‖. Em resumo, defendia que as ciências herméticas propugnavam que o Universo fora constituído por quatro elementos: matéria, força, leis e causa, e do mesmo modo o homem, tanto num caso como no outro, teria um lado visível e outros três invisíveis. Concluiu que o homem, debaixo da quádrupla forma que lhe era própria e por meio dela se constituía de uma natureza múltipla, poderia desvendar os enigmas do universo, percebendo assim que as formas universais e as formas humanas se correspondiam perfeitamente: o ser humano é matéria (corpo físico); o ser humano é força (corpo astral); o ser humano é lei (corpo mental) e que o ser humano é causa (corpo espiritual).

“Na primeira ocasião em que o homem, movido por seus instintos ou por sua curiosidade, vislumbrou uma face de sua natureza invisível ou sentiu um índice de sua força, praticou um ato de magia e despertou para o seu engrandecimento. Isso lhe valeu por uma revelação. Todo o nosso saber é o resultado das nossas experiências, nesta e nas passadas existências. O homem é um condenado ao autoconhecimento. Ele tem de 27


revelar-se a si mesmo, tem de se descobrir, tem de conhecer-se, pois a essa condição está ligada toda a possibilidade de seu progresso. Ora, as experiências sucessivas e repetidas do homem, nesse particular, isto é, no descobrimento de si mesmo, criaram um corpo de doutrina e uma norma de ação, doutrina e norma por meio das quais lhe é possível reproduzir as experiências feitas, agora de certo melhoradas quanto ao modo, o que se reflete no resultado, e avançar cada vez mais no descobrimento da sua natureza interior e invisível, assenhoreando-se mais e de melhor modo, dos lados ignorados da sua personalidade. Na medida em que o homem toma posse de si mesmo, por meio desse autoconhecimento, vai conseguindo um progressivo domínio sobre o Universo passa a ser um gênio e depois um Deus. Ele foi feito à imagem e à semelhança do seu criador. . .” (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 121-122).

Em resumo este último autor afirmou que a Umbanda tinha sua origem na África, mais exatamente na África Oriental, no Egito. A Umbanda se ligava as milenares Teogonias, mas precisava de uma codificação. Anterior ao Congresso, porém, divulgou-se principalmente nos círculos acadêmicos a idéia de que a palavra Umbanda derivava de MBANDA, que significava faculdade, ciência, arte ou ofício de curandeiro, ou ainda, como ―nação‖ ou ―um espírito poderoso‖ da ―nação‖ de Umbanda. O principal divulgador desta idéia foi Arthur Ramos na celebre obra ―O Negro Brasileiro”, editada respectivamente em 1934 e 1940. Um dos mais reconhecidos e importante autor umbandista, Matta e Silva discutiu esta questão levantada por Arthur Ramos, no capítulo de apresentação de seu livro “Umbanda de 28


Todos Nós”, em 1956, argumentou que até os anos de 1900, 1904, 1916 e 1917, autores em pesquisas e apurados estudos, na época em que os Candomblés conservavam-se mais puros, não conseguiram encontrar significado para o vocábulo Umbanda. Era inexistente, entretanto, em meados de 1934, Arthur Ramos em seu livro "O Negro Brasileiro", concluiu por meio de suas pesquisas, já existir a palavra Umbanda, e na página 102 o faz da seguinte forma:

"Registrei os termos umbanda e embanda (do mesmo radical mbanda), nas macumbas cariocas, mas de significações mais ampliadas. Umbanda pode ser feiticeiro ou sacerdote". (Acrescenta ainda: "ou ter a significação de arte, lugar de macumba ou processo ritual". Isto cabe dentro do estudo que H. Chatelain fez sobre a palavra Umbanda. (MATTA E SILVA, ―Umbanda de todos nós‖, 1992, p. 10)

Ainda assim, Matta e Silva afirmou que quando Arthur Ramos fez esse registro sobre a palavra Umbanda, não o fez com convicção de tê-la encontrado com o significado de feiticeiro ou sacerdote, e sim porque baseou-se no radical "mbanda", radical este divulgado por Heli Chatelain em "FOLK TALES OF ANGOLA (1894)12. Mais adiante em seu texto, Matta e Silva demonstrou que foi o próprio Arthur Ramos que confessou a não existência (no Brasil) de Cultos Africanos de origem pura. Para Ramos alguns Candomblés, principalmente na Bahia, a tradição gêge-nagô era a que teria sido mais ou menos conservada. Porém, reconheceu que não se pôde deter os processos sincréticos. Os vários cultos africanos haviam se misturados entre si e com as religiões brancas (o espiritismo e o catolicismo em especial). De modo que Ramos teria proposto uma ordem crescente de sin12

MATTA E SILVA, “Umbanda de todos nós”, 1992, p. 10

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cretismo: 1º - gêge-nagô 2º - gêge-nagô-muçulmi 3º - gêge-nagô-bantu 4º - gêge-nagô-muçulmi-bantu 5º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-caboclo 6º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-caboclo-espírita 7º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-caboclo-espírita-católico. Matta e Silva citou ainda Edison Carneiro (contemporâneo de Arthur Ramos), mencionando que em sua obra "Religiões Negras" (1936) disse ter visitado um Candomblé de Caboclo e que teria conseguido registrar as expressões umbanda e embanda dando apenas num cântico como "fonte" desse registro13. Escreveu ainda que em “Candomblés da Bahia", edição de 1948 e na 2.a edição de 1954, revista e ampliada com 239 páginas, não fez uma única referência ao termo Umbanda nem a Embanda e, ainda chamou a atenção dizendo que nesta mesma edição continha um vocabulário de termos usados nos Candomblés da Bahia com mais de 200 termos e seus respectivos significados, mas que ao termo UMBANDA, não havia uma só referência.14 (ANEXO 6) Matta e Silva discorreu suas pesquisas entre diferentes autores para provar a inexistência do vocábulo entre os ritos afro-brasileiros. Este autor entendeu que com o acréscimo do prefixo ―U‖ o significado da palavra transformou-se por completo, de um substantivo personalista e individual (sacerdote-feiticeiro), passou a ser substantivo absoluto e 13

MATTA E SILVA, “Umbanda de todos nós”, 1992, p. 12

14

MATTA E SILVA, “Umbanda de todos nós”, 1992, p. 12

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eclético (faculdade, ciência, arte, ofício, etc.). (ANEXO 7) No entanto, o uso da explicação oferecida por Arthur Ramos, tornou-se corrente entre alguns escritores umbandistas e acadêmicos e até hoje encontramos este tipo de explicação. Mas foi Matta e Silva que em 1956 fez a demonstração morfológica e geométrica original do vocábulo Umbanda e sua representação no setenário OYYXOOY e no ternário de OXY, uma verdadeira revolução. Demonstrou o autor que o Alfabeto Adâmico ou Vatan, (alfabeto que originaram todos os outros) tinha sua própria base nas cinco figuras geométricas fundamentais, o ponto, a linha, a circunferência, o triângulo e o quadrado, e que em suas correspondências essenciais formavam ADAM - EVA - ADAMA ou Adão-Eva-Lei ou Regra. E que a combinação destas figuras seria a representação morfológica e geométrica original do vocábulo Umbanda, cujos sinais se aglutinariam em sentido vertical ou horizontal e traduziriam a forma real da palavra "perdida" UMBANDA. Interessante é que o autor nos ofereceu complementos valiosos sobre estes caracteres, que seriam encontrados no alfabeto Ariano e nos sinais védicos, por exemplo, no AUM, invocado nos mistérios dos cânticos litúrgicos, sagrados e que seriam exatamente como estava formada a mesma palavra UMBANDA na grafia dos Orixás - Os Sinais Riscados da Lei de Pemba. Matta e Silva deu mais informações importantes sobre o trigrama perdido que a Lei de Umbanda revelou dentro de suas Sete Vibrações ou Linhas, que OYYXOOY seria igual a OXY, e significa o próprio princípio do círculo cruzado. Escreveu que todos os estudiosos (provavelmente daquela época) sabiam que nas antigas Academias, a letra inicial era a que tinha correspondência direta nas figuras geométricas originais e davam a base para a composição dos termos litúrgicos e sagrados. Essas 7 letras ou caracteres seriam as primeiras 31


nos termos que identificavam as 7 Linhas da Lei de Umbanda, que se reduziam a 3 por serem diferentes entre si. Esclareceu ainda que OXY eram as três figuras, três caracteres ou letras que davam a base para a formação dos termos litúrgicos que identificava as Sete Vibrações Originais ou as Sete Linhas em relação aos Sete Orixás que chefiavam cada uma delas, isto é, Oxalá, Ogum e Ossoxi (O), Xangô (X) , Yemanjá, Yori e Yorimá (Y). 15 (ANEXO 8) Tancredo da Silva Pinto por sua vez, explicou a origem da palavra Umbanda de outra forma. (ANEXO 9) Tido como fundador da Umbanda Omolocô, descreveu que a Umbanda se desenvolveu mais aqui no Brasil devido às imigrações africanas com vários cultos de diversas regiões ou aldeias daquele continente. Afirmou ainda que foi dentro dos quilombos que se deu a união de raças ou dos vários cultos, chegando assim negros de várias nações para pregarem os seus rituais. Atitude que teria sido aceita pelo chefe do quilombo. Como podemos perceber, Matta e Silva penetrou nos mistérios do vocábulo, da grafia e da origem transcendente da Umbanda, enquanto Tancredo se ateve a uma visão pontual, essencialmente etnocêntrica, ao associá-la apenas a imigrações de escravos. Rivas Neto foi outro autor que se ateve às origens e a finalidade da Umbanda de forma inovadora em toda a literatura umbandista, desenvolvendo estes temas em diferentes obras. Em “Fundamentos Herméticos de Umbanda” de 1996, por exemplo, apresentou a Umbanda, ou melhor, a Aumbhandan como a ―Condição Natural do Ser Espiritual‖, isto é, numa condição de indistinção entre Amor e Sabedoria, mas que na queda do Ser espiritual para o Universo Astral cindiu-se gerando a Proto-Síntese Cósmica e posteriormente a Sabedoria se dissociaria em Filosofia e Ciência e o Amor em Arte e Religião. 15

MATTA E SILVA, 1956, p. 37-45

32


O autor propugnou naquela obra a Umbanda como Princípio, definindo-a como ―Lei Divina em ação‖ que teve sua origem no plano Astral por meio dos 7 Orixás Planetários ou Ancestrais e que para ser aplicada a Humanidade precisou ser consolidada e revelada às primeiras raças que habitaram a Terra. Para o autor, essas primeiras civilizações receberam um ―Conjunto de Leis Educativas‖ que mantinha a unidade Homem/Espírito, por meio de Leis Regulativas do karma. A este Conjunto de Leis chamou de Tradição-Una, Princípio que velava e revelava a unidade da Religião Cósmica, expressa no Amor e Sabedoria (Tradição Cósmica) e que tem a Umbanda como sua guardiã. Com estes novos fundamentos distinguiu-se de forma clara o que era Umbanda ou Aumbhandan e Movimento Umbandista, confusão freqüente em toda a literatura umbandista. Para Rivas Neto atualmente faz-se o Movimento Umbandista para que seus adeptos encontrem o AUBHANDAN, assim como outros fazem Movimento Budista, Movimento Católico, Movimento Kardecista, Movimento Protestante, para irem ao encontro do Princípio de tudo e de todos. Salienta também que o Movimento Umbandista no Brasil é o grande amortecedor sócio-racial kármico e indutor da miscigenação cultural, social, política, econômica e racial, a qual fará surgir uma nova Raça, a Raça-Una, que por meio do Movimento Umbandista resgatará o AUMBHANDAN, isto é, a Proto Síntese Cósmica, portanto o Amor e Sabedoria Cósmicos.16 (ANEXO 10) Tomando uma suposta curva de Gauss das obras umbandistas referentes ao Momento Etimológico não é difícil perceber que tanto Matta e Silva como Rivas Neto, foram pontos fora desta curva, tamanha revolução que as mesmas produziram no cenário literário umbandista. 16

RIVAS NETO, 1996, p. 50-55

33


O Momento Etimológico na literatura produzida pelo Movimento Umbandista procurou explicar o advento da Umbanda dos mais diversos pontos de vista. Para alguns Ela surgiu como anunciação/revelação (Zélio Fernandino de Moraes, p. ex.) para alguns, transplantada no tempo ou no espaço (Tancredo da Silva Pinto e Baptista de Oliveira, p.ex.) e para outros ainda, ressurgida em solo brasileiro (Matta e Silva e Rivas Neto). A estes três pontos de vista somam-se enfoques esotéricos ou exotéricos de diferentes matizes, como as de cunho kardeciano, ocultista, ou mesmo racial (negra), antropológico (encontro ou choque de culturas), sociológica e etc., todos eles acrescidos em diferentes proporções na obra de cada autor. Claro, estas obras também foram filhas de seu tempo e refletiram os contextos e as heranças sócio-culturais de seus autores e n��o poderia ser diferente. O Movimento Umbandista também é reflexo do caldeamento de culturas de todas as etnias presentes em ―terras de brasis‖ que produziram uma cultura suis generis 17, uma cultura cabocla de misturas e sincretismos. É oportuno lembrarmos Edward Said que disse: “Todas as culturas estão mutuamente imbricadas; nenhuma é pura e única, todas são híbridas, heterogêneas, extremamente diferenciadas, sem qualquer monolitismo‖

1 8

. Ou, o que Lévi-

Strauss afirmou: “A exclusiva fatalidade, a única tara que pode afligir um grupo humano e impedi-lo de realizar plenamente sua natureza, é a de ficar sozinho” 19. Ao que nós podemos afirmar categoricamente: os umbandistas nunca foram sozinhos!

17

Particular, específica, que não há igual.

18

Edward W. Said, Cultura e imperialismo, Companhia da Letras, p.28

19

Calude Lévi-Strauss, Raça e história, in Antropologia estrutural 2, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,

1993

34


2.2 - Momento Doutrinário

2.2.1 – O Contexto Histórico

A década de 50 foi o marco inicial de uma verdadeira explosão no mercado editorial de autores umbandistas no Rio de Janeiro. Esta década também ficou conhecida como ―anos dourados‖, marcada por grandes avanços científicos, tecnológicos, mudanças culturais e comportamentais, mas infelizmente também por guerras. Vejamos alguns fatos relativos àquele contexto histórico. A Guerra da Coréia se estendeu de 1950 a 1953, o Pacto de Varsóvia (tratado de defesa militar que envolvia os países socialistas do leste europeu, comandados pela União Soviética). Em 1959 a Revolução Cubana e o início da Guerra do Vietnã no mesmo ano. O mundo viveu a primeira experiência da corrida espacial com o lançamento do Sputinik I (1957) e em 1958, o Sputinik II colocou em orbita da Terra o primeiro ser vivo, a cadela Laika, acirrando o clima da Guerra Fria. A TV Tupi fora inaugurada em setembro de 1950 e era o primeiro canal de televisão da América Latina. No dia 20 de outubro de 1951, foi inaugurada a I Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Um novo estilo musical despontou - a Bossa Nova, com nomes como: Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto. No cenário internacional surgiu Elvis Presley em 1956 e os Beatles no fim da mesma década. A seleção brasileira de futebol que havia perdido a final da Copa do Mundo para o Uruguai no Maracanã em 1950, sagrou-se campeã pela primeira vez na Suécia em 1958. Em 1953 foi criada a empresa estatal Petrobrás e em 1957 foi assinado o Tratado de Roma criando a Comunidade Econômica Européia (CEE). 35


Getúlio Vargas suicidou-se em 1954 e em 1955 Juscelino Kubitschek foi eleito presidente do Brasil que em 1956 lançou o Plano de Metas, cuja ―meta síntese‖ foi a construção de Brasília e abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro. Nesta década proliferaram no Rio de Janeiro diversos grupos e sociedades de espiritualistas interessadas no fenômeno da Umbanda. Um exemplo destes foi o da ―Sociedade Espírita Joanna D´Arc” remanescentes do extinto “Grupo Joanna D´Arc” ligados a Paulo Gomes de Oliveira que em 1953 lançou o livro ―Umbanda Sagrada e Divina” em dois volumes. Este mesmo autor fundou mais tarde a Ordem Umbandista do Silêncio. Havia também programas de rádio como os J. B. de Carvalho conhecido por ―O Batuqueiro Famoso‖, que liderava o Conjunto Tupi (nome que fazia referência à presença indígena nas representações religiosas afro-brasileiras) com o qual se apresentava em programas de rádio chegando a ter, inclusive, programa próprio dedicado à divulgação da Umbanda. A ele é atribuída a autoria de ―Cadê Viramundo‖:

Ô, cadê Vira Mundo, Pemba? Ta na terrêra, Pemba Com seu cambono, Pemba Veado no mato corredor Cadê meu mano caçador? Cadê caboclo Ventania? Esse caboclo nosso guia Galinha de preta na encruzilhada Gato de preto de madrugada Azeite de dendê Farofa amarela 36


Com três vintém Numa panela.

Caboclo Vira Mundo e Ogum Rompe-Mato eram as entidades que J. B. de Carvalho incorporava. Em 1947 Átila Nunes iniciou seu programa de rádio sobre Umbanda, Melodias de Terreiros, que apresentava pontos cantados executados por vários terreiros convidados. O programa chegou a ter quatro horas de duração, duas vezes por semana. Átila Nunes foi o primeiro umbandista a ser eleito para cargo público, elegeu-se vereador em 1958 e em 1960 foi primeiro deputado estadual umbandista por aquele Estado. Mas, além destes havia outros programas como o de Celso Rosa – Espiritualismo Pelo Ar, A Voz Cristã e os da própria Federação Espírita Brasileira – Brasil Espírita e o programa de televisão A Terceira Revelação. Além da rádio e da televisão a comunidade umbandista carioca também contava com um jornal, O Jornal de Umbanda, publicado pela UEUB - União Espírita de Umbanda do Brasil, desde 1949. Mas, havia outros umbandistas que escreviam em colunas de outros jornais. Foi um período de efervescência, não só de idéias e de fundamentos doutrinários, mas também de política no Movimento Umbandista. Falemos um pouco de política. A pesquisadora Diana Brown descreveu este momento, afirmando que em meados dos anos 1950 (aproximadamente) seis novas federações de Umbanda foram constituídas no Rio e no vizinho Estado do Rio, além da UEUB. Três delas foram organizadas por umbandistas de classe média e seguiam as linhas gerais da orientação ritual e doutrinária da chamada Umbanda Pura. Uma foi formada por um 37


ex-filiado da UEUB, chefe de um grande terreiro de Umbanda que concorrera sem êxito à cadeira de vereador e que abandonara a UEUB para fundar sua própria federação num esforço para criar uma base para futura atividade política (a pesquisadora não menciona o nome deste chefe de terreiro). As outras três federações defendiam uma forma de Umbanda de orientação africana. Seus líderes eram provenientes das classes mais baixas e muitos eram negros e mulatos. A primeira dessas federações, surgida em 1952, com o nome de Federação Espírita Umbandista, era liderada por Tancredo da Silva Pinto, líder religioso afro-brasileiro. Tancredo escrevia uma coluna semanal no jornal diário de maior circulação do Rio, O Dia, e nesta coluna Tancredo desenvolvia um trabalho de filiação para sua nova federação, prometia proteção e recomendava uma forma africana para o ritual da Umbanda. Esses filiados e patrocinadores eram quase todos originários das classes mais baixas, de terreiros de orientação africana, muitos deles localizados nas favelas da cidade. Tancredo tornou-se seu principal porta-voz e um líder que recebeu o título de "Tatá de Umbanda" (o "Papa da Umbanda"). A pesquisadora havia se surpreendido em 1966 com a fama e popularidade de Tancredo nas favelas de toda a cidade. Em cada uma delas, pelo menos uma pessoa mencionava seu nome, e muitos dos terreiros localizados nesses arredores já eram há muito tempo filiados a sua federação. Tancredo também manteve alianças com líderes de outras federações similares do Estado do Rio, e junto com elas produziu, em co-autoria, um grande número de livros sobre a Umbanda sob a ótica africana, que articularam uma posição fortemente africanista e que demonstravam forte antagonismo racial e de classe para com os líderes da Umbanda Pura (ver Brown, 1979). Foi assim que se formou uma rede de federações de Umbanda no interior das classes 38


mais baixas, paralela àquela organizada pelos líderes umbandistas de classe média, mas que representava uma compreensão muito diferente da palavra "Umbanda". Esta voz africanista insistia na identidade da Umbanda como parte da herança africana. Brown especulou que o surgimento de redes de Umbanda paralelas, brancas e negras, representou um movimento em direção ao separatismo racial e que estas organizações separatistas apareceram tanto no Rio como em São Paulo no início da década de 40. Membros do Teatro Experimental20 do Rio de Janeiro chegaram a visitar muitos terreiros de Umbanda afro-brasileiros durante os primeiros anos da década de 1950 para sugerir que eles adotassem uma postura separatista. Tudo indicava que duas formas de Umbanda estavam em desenvolvimento: uma, no interior da classe média, influenciada pelo kardecismo e pelo desejo de criar uma imagem socialmente respeitável, não-africana; e a outra, que representava as formas de prática afrobrasileiras. Parecia não haver grandes possibilidades de uma coalizão política entre essas correntes do Movimento Umbandista, mas para surpresa de Brown foi em 1956 encontrar publicado no Jornal de Umbanda que os líderes e as federações que representavam essas duas diferentes correntes se uniram, visando formar uma coalizão chamada naquela época de Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul, esta nova coalizão agrupou as cinco federações mais ativas do Rio e estava voltada para o trabalho de ―unidade‖ do Movimento Umbandista. A UEUB foi sua principal promotora, a coalizão incluiu também a Federação de Umbanda de

20

O Teatro experimental tem função política, social e moral. Teatro de reação à ordem instituída, ganha

muitas vezes contorno de teatro de luta, modificando não só a temática, numa atitude de crítica social, mas a estratégia dramática que será utilizada. Fazendo com que não só o teatro desperte para novos temas, mas também as linguagens utilizadas mudem para melhor refletirem, ocasionando assim uma ruptura face ao poder em vigor.

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Tancredo21, e o próprio Tancredo foi nomeado um dos presidentes da entidade. A pesquisadora foi além quando questionou o que poderia ter ocorrido para estimular essa aproximação. Ela inferiu, em razão dos eventos posteriores, que os interesses políticos tinham superados as diferenças de classe, raciais e rituais. A campanha política visando à obtenção de apoio e representatividade para a Umbanda e a eleição de líderes umbandistas para cargos públicos alcançou grande valor. Nada diferente dos dias de hoje, quando ―políticos‖ que se dizem preocupadas com o destino da Umbanda, na verdade querem fazer dela seu ―curral eleitoral‖. Voltando a Diana Brown, ela escreveu que entre 1950 e 1954, pelo menos três líderes de centros de Umbanda, grandes e ricos, com mais de 500 membros, todos filiados à UEUE, concorreram ao cargo de vereador. Todos eles obtiveram mais de 1.500 votos, cerca da metade do número necessário para a eleição, sendo assim nenhum foi eleito. Os líderes da classe média da Umbanda teriam reconhecido que nenhum centro isoladamente e nenhuma federação de Umbanda sozinha poderia fornecer uma base suficiente para se ganhar a eleição, e que era preciso uma coalizão mais ampla a fim de reunir um número suficiente de partidários políticos. Os terreiros afro-brasileiros foram usados como fonte importante e favorável a esse aumento significativo do número de partidários. Diante disso, Brown constatou que alguns desses líderes umbandistas da classe média pretendiam ampliar esta coalizão e incluir também os kardecistas, para obter mais adesões, os políticos umbandistas passaram a preferir o termo "espírita" (algo socialmente mais aceitável entre a classe média alta) ao invés de "Umbanda" em seus apelos políticos nos meios de comunicação. 21

A Federação de Tancredo tinha o nome de Confederação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB)

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Com a formação do Colegiado, o Jornal de Umbanda começou a ser veículo da atividade política entre alguns líderes umbandistas que, por ocasião das eleições de 1958, apresentou uma longa lista de candidatos "espíritas", não fazendo referência ao tipo de espiritismo que eles praticavam. Esse esforço político estendeu-se para além da cidade do Rio de Janeiro, incluindo candidatos dos estados vizinhos do Rio e São Paulo. Em 1960, os umbandistas conseguiram eleger candidatos próprios em vários estados. No Rio, Átila Nunes, em 1958 se elegera vereador, tornou-se o primeiro umbandista a se eleger deputado estadual pelo Rio, como já dissemos, no estado do Rio Grande do Sul, outro deputado estadual, Moab Caldas foi eleito. Não podíamos deixar de citar o que Diana Brown relatou sobre o Segundo Congresso de Umbanda, que fora organizado pelo Colegiado e realizado no Rio em 1961. Este Congresso, diferente do anterior, serviu para avaliar as modificações ocorridas na Umbanda durante os 20 anos que se passaram desde o Primeiro Congresso, em 1941. As discussões sobre doutrina e ritual dividiram espaço com a política. Para Diana Brown essas alianças levaram à formação de uma religião pluri classista, e reuniram dois setores sociais que praticavam, para ela, formas diferentes e contrastantes de Umbanda.22 Avançando para além das questões políticas, nesta década surgiram autores seminais que descortinaram diferentes olhares sobre a Umbanda, ultrapassando formulações de códigos morais ou de comportamento. Discorreu-se sobre a codificação, a importância da iniciação, aspectos esotéricos e exotéricos, cosmogônicos, teogônicos de Umbanda e sobre o africanismo.

22

BROWN, 1985, p. 23-28

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A fala de Baptista de Oliveira, no 1º Congresso de 1941 já dava indícios de transformações doutrinárias em relação à média do que se pensava naquela época sobre o assunto. Naquele pronunciamento, chamou a atenção dos Congressistas presentes sobre corpo de doutrina e para a norma de ação, lembrando-os que ambas formavam o que chamavam de Linha Branca de Umbanda. A doutrina dava a essa Linha a natureza que lhe reconheciam e a norma de ação lhe assegurava a forma. Uma era o fim ou finalidade, a outra era o meio ou o método. Uma nos dava o culto e a outra nos oferecia o ritual. Umbanda era o ritual indispensável à ação do homem no conhecimento de si mesmo e, conseqüentemente, no desbravamento do Universo, pois o Universo era um reflexo dele mesmo. Escrevia ainda que quando um homem se concentrava e pensava em tão transcendentes questões, sentindo-se atraído por elas, dava o primeiro passo no caminho que se abria à sua frente e que o poderia conduzi-lo ao conhecimento da sua múltipla natureza, ao conhecimento de si mesmo e do Universo que o rodeava. Afirmava que o ideal de Umbanda era a fraternidade humana. Era por isso que ela tinha por missão o desenvolvimento do homem no conhecimento de si mesmo. Era pelo saber e só pelo saber que o homem se engrandecia e o saber desenvolvia todas as virtudes do ser humano, tanto as do espírito como as do coração.23 (ANEXO 5). Antes de iniciarmos nossa exposição sobre os temas doutrinários, no entanto, ressalvamos que tanto os temas quanto os autores aqui revistos, não esgotam toda a produção literária produzida pelo Movimento Umbandista. Tivemos que optar por alguns deles e por alguns temas abordados pelos mesmos. Apesar destas limitações metodológicas o leitor poderá não só confrontar opiniões muitas vezes diversas entre autores sobre um determinado

23

1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 111-125

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assunto, mas, sobretudo vislumbrar a produção do panorama doutrinário umbandista desde a sua origem.

2.2.2 - Esotérico e Exotérico

A primeira obra umbandista que localizamos os conceitos esotérico e exotérico foi a de Oliveira Magno – “A Umbanda Esotérica e Iniciática” de 1950. Escreveu o autor que a:

“Umbanda, assim como todas as antigas ordens e escolas ocultistas, a sua doutrina, ciência e filosofia, é constituída em duas partes: uma esotérica e outra exotérica; isto é: uma parte destinada e reservada para os homens que estão preparados e em condições de receberem a luz da iniciação; e a outra parte, a exotérica, esta revelada como religião, segundo o aperfeiçoamento, mentalidade e cultura do povo.” 24 (ANEXO 12)

Além de apelar aos estudiosos, encorajava-os para que ―escrevessem uma obra religiosa-científica sobre a Umbanda‖. Para ilustrar, observemos a representação de Magno do símbolo esotérico para a Umbanda e seu significado.

24

Magno, 1950, p.7-8

43


As três setas – os três mundos: o físico, o intermediário e o espiritual; O coração – o amor Universal; A cruz – o Cristo, Oxalá; O círculo – o Universo; traduzido por prática do amor Universal, que é a verdadeira caridade, que o homem cria o Cristo em si, e se eleva nos três mundos, reintegrando-se em Deus e tornando- se Universal.25 Este autor fez a comparação entre os princípios da Unidade e do Ternário cristão, hindu e nagô e afirmou que a Umbanda era praticada em outros países, porém com nomes diferentes: ―na América do Norte é conhecida como lei ou culto de Vodu 26. Outro autor foi Osório Cruz – “O Esoterismo de Umbanda” de 1953. Ele escreveu que há no Espiritismo, como em qualquer outra manifestação do sentimento religioso, dois aspectos: um externo ou exotérico e outro interno ou esotérico. O aspecto externo, exotérico era o que se achava ao alcance das percepções mais densas, sensíveis aos sentidos físicos, ou seja, como são feitas as cerimônias, as solenidades, o ritual, as preces e orações. No aspecto interno ou esotérico encontraríamos os significados das cerimônias, das solenidades e dos rituais, o que estaria para além do aspecto positivo e caminhava para o sentido relativo e superlativo daqueles procedimentos sensíveis ou da forma como eram feitos. Acreditava Cruz que o esoterismo de um culto religioso, até certo ponto, exprimia-se 25

ibden, p.5

26

Ibden, p.15

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na doutrina, até certo ponto porque supunha que nem sempre a doutrina referia-se inteiramente ao lado esotérico das práticas religiosas. Pudemos perceber em nossas pesquisas como a idéias e valores Kardecianos estavam muito presentes nas obras destes autores, sendo que eles poderiam utilizar exemplo da própria Umbanda para ilustrar o que acreditavam, mas usavam referências kardecistas. Seria ato falho ou realmente a presença daqueles valores estava profundamente arrraigados neles? Veremos mais adiante uma possível resposta27 (ANEXO 11) Escreveu também: ―se a doutrina revelasse todo o aspecto esotérico do Espiritismo, não haveriam divergências nas interpretações dos princípios e dos fenômenos, pois o que caracteriza o fundamento oculto ou esotérico de qualquer doutrina espiritualista é uma unidade de princípios.” (CRUZ, 1953, p. 10) Em resumo, para ele, o Espiritismo Esotérico ultrapassaria o Espiritismo Doutrinário, ressalvando que o autor acreditava que Esoterismo e Doutrina estivessem intimamente ligados. Entre outras obras sobre este tema surgiu em 1996 a obra “Fundamentos Herméticos de Umbanda” de Rivas Neto. Nela o autor defendia haver dois aspectos de um mesmo evento, dois ângulos de um mesmo fenômeno. Estes dois ângulos ou aspectos seriam denominados, exotérico e esotérico, respectivamente, a forma e a essência, o superficial e o profundo, o regional e o cósmico. Para melhor compreendermos o que significava esotérico e exotérico, o autor lançou mão da analogia de que ambas seriam como as duas fases do dia terrestre. A fase solar, fase de luz tida como real, sem véus, sem mitos, portanto, esotérica e a fase Lunar, ou fase da sombra tida como ilusória, irreal, mitológica. Seria então, o dia – o esotérico e a noite – o 27

CRUZ, 1953, p. 9

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exotérico. A Luz Solar (real) e a Luz lunar (irreal). Usando desta analogia, Rivas Neto explicou que sem instrumentos ópticos adequados não se conseguiria mirar o sol sem lesar os olhos e, ao contrário, poderíamos olhar a luz lunar sem traumas, visto a mesma ser luz solar polarizada, amenizada. A Luz Solar, para Rivas Neto era a luz da verdade, que como o Sol poderia nos cegar se não tivermos preparados ou equipados para tanto (grau consciencial). Já a luz Lunar representa a noite, a imaginação, o irreal ou atenuação da luz da Verdade, o exotérico apresenta formas ou meios, para sem traumas, demonstrar a realidade aos que não estão preparados a enxergá-la. Aprofundou muitos conceitos, sendo um deles de que a própria Natureza se manifesta em dois níveis. Manifesta-se de forma concreta, tangível, visível, como no Reino Mineral, Vegetal, Animal e Hominal e no aspecto abstrato, invisível, intangível e impalpável, sendo eles o Reino dos Elementares, a região da matéria astral, as várias esferas hiper físicas, as Aldeias Espirituais e nas contrapartes etéreo-físicas da Natureza material. De forma inédita e direta, Rivas Neto fez compreender que os aspectos exotéricos e esotéricos seriam mais bem expressos como Forma e Essência. Ao contrário do que se podia imaginar, o concreto e o abstrato não se chocam, não se neutralizam, mas se complementam. O choque seria aparente, pois tudo no Universo se completaria, se complementaria no equilíbrio. Que tudo faz parte da mesma Unidade. 28 (ANEXO 13) Em resumo, esotérico e exotérico foram anteriormente pensados e propostos num dualismo irreconciliável e Rivas Neto demonstrou o contrário, que eles são conceitos interdependentes.

28

Rivas Neto, 1996, p.20-22

46


2.2.3 - Teogonia

Neste tópico poderíamos incluir um grande número de assuntos, mas pelas razões já aludidas vamos fazer menção apenas a dois deles: ―Espírito Puro‖ e as ―Sete Linhas‖, que aparecem nas demais obras que investigamos. Importante frisar que dois autores umbandistas – Matta e Silva e Rivas Neto, expressaram em suas obras inúmeros conceitos novos e sem paralelo com os demais autores. É bom que se frise que tais conceitos também foram desdobrados em várias obras e que a amplitude e a profundidade dos conceitos são incomparáveis aos demais autores. Como nossa revisão se propõe a fazer um painel do maior número possível de autores, optamos por expor os temas que são comuns. Iniciemos pelo conceito de ―Espírito Puro‖. Osório Cruz em 1953 foi o primeiro autor a expor este conceito. Disse que o Espírito puro era a substância pura dos ―espíritos‖ ou entidades astrais, que tanto poderiam ser os arcanjos, anjos ou serafins como os habitantes astrais dos planetas, que não eram criaturas, como os habitantes astrais da terra, que não eram humanos, como também as almas humanas.29 (ANEXO 14) Em “Umbanda, sua eterna doutrina” de Matta e Silva, em sua 4ª edição, o autor escreveu com profundidade o conceito de Espírito desvinculando-o de matéria. Inédito até então em outra obra Umbandista. Assim o autor se referiu à Espírito:

“... Espírito não é uma coisa agregada, composta, aglutinada, nem simples no sentido de defini-lo como um corpo – um micro, um “ponto”, nem

29

CRUZ, ―Esoterismo de Umbanda‖, 1953, p. 28

47


partícula, porque tudo isso tem relação própria com matéria – energia-massa, cujas propriedades são conexas, uma sem a outra não é... O único qualificativo para aproximar definições do indefinido, dos Seres Incriados, desconhecidos até pelo raciocínio, é o de Centro de Consciência Espiritual, porque estes três termos, em seus significados, embora definindo o aspecto relativo, são indefinidos em si próprios... cada qual não limita uma coisa, estão sempre “por dentro e por fora” – no Ser, na Vida-natureza, verdadeiramente no abstrato...” (MATTA E SILVA, “Umbanda sua eterna doutrina”, p. 36)

Encontramos mais a frente Rivas Neto, em ―Umbanda – A Proto Síntese Cósmica‖, 1989, o conceito amplificado de Espírito Puro dizendo que quando se referiu a Seres Espirituais, não era apenas sobre Espíritos encarnados ou desencarnados no Reino Natural ou Universo Astral, mas também aos Seres Espirituais que não desceram das infinitas regiões do Cosmo Espiritual ou Reino Virginal, onde evoluem isentos de qualquer veículo composto de Substância Etérica. Completa que, tanto os Seres Espirituais Puros, isto é, isentos de qualquer veículo, no Reino Virginal, como os Seres Espirituais que já estão com veículos de manifestação de sua consciência, percepção ou desejos, através da Substância Etérica, são de uma natureza diferente, quer seja do Espaço Cósmico, quer seja da Substância Etérica ou da energia condensada em vários níveis. Lembrou-nos que, ao contrário da matéria, os Seres Espirituais não se desintegram, não estão sujeitos aos processos associativos ou dissociativos da matéria. (ANEXO 15) Diante desta afirmação, o autor desdobrou o que Matta e Silva já havia dito sobre os Seres Espirituais ou Espíritos, que seriam Eternos, Incriados e Indestrutíveis, sendo, pois sua 48


Natureza Vibratória distinta da Setessência da matéria, ou seja, os Espíritos não seriam nada daquilo que fosse inerente à matéria, principalmente no que diz respeito aos seus processos de transformação, tal como as transformações da matéria densa para as mais sutis, como por exemplo, no fenômeno da morte física ou desencarne.30 Observamos em Osório Cruz, Matta e Silva e Rivas Neto a evolução da literatura Umbandista na construção do conceito de Espírito. Na contramão da evolução deste conceito encontramos na obra “Tratado de escrita Mágica Sagrada – um curso de escrita mágica” de 2007 do autor Rubens Saraceni, a afirmação:

“Deus é, em si, ação. Toda ação é verbo. Logo, Deus é verbo. Estas afirmações formam um silogismo, não? Pois é isso mesmo! Deus é verbo. Verbo é fator. Deus é fator. Deus é verbo. Verbo é som. Som é energia. Logo, Deus é energia. Deus é verbo, que é ação, que é som, que é fator, que é energia emanada pela sua fala divina.” (SARACENI, 2007, p. 17)

Portanto, contrariamente a toda metafísica Umbandista desenvolvida ao longo da história desta literatura, defendeu que a divindade era energia, ou seja, de onde se deduz que a Divindade teria surgido com o surgimento do Universo, muito provavelmente após o Big Bang e conseqüentemente Deus estaria também sujeito a um fim, já que por ser energia e, portanto matéria estaria sujeito as forças da entropia, ou seja, desorganização e morte.

30

RIVAS NETO, 1989, p. 27

49


Sobre às 7 Linhas, Leal de Souza foi o primeiro escritor a falar sobre elas em 1933, (“O Espiritismo, a Magia e as Sete linhas de Umbanda”) assim o autor escreveu que A Linha Branca de Umbanda e Demanda, compreende a sete linhas: a primeira de Oxalá; a segunda de Ogum; a terceira, de Euxoce (observe a grafia da época); a quarta, de Xangô; a quinta de NhaSan; a sexta de Amanjar (observe grafia) e a sétima a linha de Santo, também chamada de Linha das Almas. Essas designações eram sincretizadas assim: Oxalá/Jesus, em sua invocação de N. S. do Bonfim; a segunda, Ogum/São Jorge; a terceira, Euxoce/S. Sebastião; a quarta, Xangô/São Jerônimo; a quinta, Nha-San/Santa Bárbara e a sexta, a Santas Almas/Virgem Maria, em sua invocação de N. S. da Conceição, sendo que a linha de santo era transversal, e mantinha a sua unidade através das outras. Podemos perceber nesta obra e o modo como expôs, a presença do sincretismo com os santos católicos. Para este autor cada linha tinha o seu ponto emblemático e a sua cor simbólica. A de Oxalá, a cor branca; a de Ogum a encarnada; a de Euxoce, verde; a de Xangô, roxa; a de Nha-San, amarela; a de Amanjar, azul. Oxalá era a linha dos trabalhadores muito humildes, que possuíam a devoção dos espíritos de negros de todas as regiões, qualquer que fosse a linha de sua atividade, e era nas suas falanges, com Cosme e Damião, que em geral apareciam as entidades que se apresentavam como crianças. Observem que esta foi a primeira obra a fazer menção sobre a manifestação de entidades de ―Criança‖. A linha de Ogum que se caracterizava pela energia fluídica de seus componentes, caboclos e pretos da África, em sua maioria, continha em seus quadros as falanges guerreiras de Demanda.

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A linha de Euxoce (mantivemos aqui a maneira como o autor se referia a Oxossi) possuía notável potência fluídica, com entidades, freqüentemente dotadas de brilhante saber, fazia referências aos indígenas brasileiros. Para Leal de Souza, a linha de Xangô praticava a caridade sob um critério de implacável justiça. Quem não merecia, não tinha; quem fazia, pagava. Já para a linha de Nhan-San seria composta por desencarnados que na existência térrea eram devotados de Santa Bárbara. A linha de Amanjár era constituída por trabalhadores do mar, espíritos das tribos litorâneas, de marujos, de pessoas que morreram afogadas no oceano. Diferente das anteriores, a Linha de Santo seria a dos médiuns de ―cabeça cruzada‖, assim chamados porque se submeteram a uma cerimônia pela qual assumiram o compromisso vitalício de emprestar o seu corpo, sempre que fosse preciso, para o trabalho de um espírito determinado, contraindo ―obrigações‖, equivalentes a deveres rigorosos e realmente invioláveis, pois acarretavam, quando esquecidos, fortes e inevitáveis penalidades.31 (ANEXO 16) Osório Cruz, abordando o mesmo assunto em 1953, fazia uma distinção entre ―senda‖ e ―Linha‖ e escreveu:

―Não se deve confundir “senda” de “linha de Umbanda. Senda é o caminho das provas, ao passo que “linha” é a influência astral a que está subordinado o Espírito. A linha é mais ampla que a senda porque a linha abrange não somente uma como também várias sendas. 31

SOUZA, 1933, p. 61-65

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A linha de Oxalá, por exemplo, pode abranger as sendas das raças branca, preta, amarela ou vermelha. Acontece também que uma senda esteja compreendida dentro de duas ou três linhas. Um espírito pode estar em condições de servir indiferentemente, a Oxalá, Iemanjá, Oxocê, pela sua grande capacidade de trabalho, embora na prática ele não acumule atribuições diferentes.” (CRUZ, 1953, p. 33)

Houve e ainda há uma enorme profusão de entendimentos sobre as ditas Linhas. De forma geral admitiu-se uma hierarquia de Orixás Maiores, seguido logo abaixo pelos Menores e abaixo deles as Falanges. A título de ilustração vejamos o próprio Osório Cruz, na obra supracitada, e Benjamim Figueiredo no livro ―Okê Caboclo” de 1962.

Em Cruz temos: Orixá Oxalá Yemanjá Oxoce Xango Ogum S. Cipriano Oriente S. Cosme e S. Damião

Planeta Jupiter Venus Mercúrio Saturno Marte Urano Lua Vulcano

Irradiação em ondas Curtas e Médias Curtas Curtas e Médias Médias e Longas Longas Curtas Médias e Curtas Ondas Curtas

Além delas, Cruz mencionou a existência de mais duas linhas que não intervinham nos trabalhos de Umbanda:

Olorum Orixalá

Sol Netuno

Ondas Curtas Ondas Curtas

Fonte: Osório Cruz, 1953:34

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Já Benjamim Figueiredo propôs para os Sete Orixás Maiores a seguinte divisão: Orixá Oxalá Iemanjá Xangô Caô Oxossi Xangô-Agodô Ogum Iofá

Expressão Inteligência Amor Ciência Lógica Justiça Ação Filosofia

Fonte: Benjamim Figueiredo, 1962:118

Matta e Silva foi um autor de sua época a apresentar fontes bibliográficas e de dialogar com autores acadêmicos acerca da Umbanda32. Sua obra “Umbanda de Todos Nós” até hoje é referência, apesar de ter sido escrita em 1956. Ao contrário de outros autores, não apenas citou, mas explicou, aprofundou e deu fundamentos ao conceito de Linhas ou Vibrações. Definiu-as como manifestações de uma Lei em harmonia, que afere o Número, o Peso, a Quantidade e a Medida, do Átomo aos turbilhões, emanadas em origem pelos Sete Seres de pura luz espiritual, ou seja, os Sete espíritos de Deus... Seriam exteriorizações, manifestações do Absoluto, não seria Ele em si, mas viria Dele, seriam Dele, mas ainda não seriam Ele próprio porque a Luz indefinida, Indivisível, não é ―somada, nem subtraída, nem multiplicada‖. Para Matta e Silva os Sete espíritos de Deus coordenam essas vibrações que regem o movimento do Cosmos para todos os sistemas planetários, ou seja, do original, o Universo Mater. 33 (ANEXO 17)

32

Oliveira Magno em “A Umbanda Exotérica e Iniciática” de 1950 usou citações de vários autores

como Nina Rodrigues, Edison Carneiro, Donald Pierson, Arthur Ramos, Ortiz, Herskovits, Le Herissé e outros. Com eles, entretanto, não dialoga, mas usa-os como referência aos cultos de Nação, aos Vodus do Haiti, aos Nagôs em Cuba e os Fanti-Ashanti. Há também ausência de bibliografia. 33

MATTA E SILVA, 1956, p.57-59

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Por meio desta obra surgiu o vocábulo Yori e Yorimá. Explicou que estes termos identificavam espíritos na ―forma‖ de crianças e preto-velhos, pois com eles se completavam as ―7 palavras da Lei‖, expressões do próprio verbo. O autor fundamentou o vocábulo Yori que se desdobrou na seguinte forma silábica: YO ou Y como a potência Divina manifestando-se, Deus em ato por seu Verbo, o Santo sacrifício, a ação de sacrificar-se, a vitalidade saindo da luz ou da energia; RI em ser Rei, reinar e ORI na luz. O Esplendor, portanto, a Potência em ação da Luz Reinante ou a Potência em ação pelo Verbo. E ainda, YORIMÁ silabicamente traduziria como a Potência da palavra da Lei, Ordem Iluminada da Lei, ou ainda, Palavra Reinante da Lei. YO seria a potência ou princípio, Ordem; RI iluminado, reinante e MÀ seria a Lei. Esta última composta pelos primeiros espíritos que foram ordenados a combater o mal em todas as suas manifestações. Seriam os Orixás velhos, verdadeiros Magos, que velando suas formas kármicas, revestiam-se da roupagem de preto-velhos, distribuindo e ensinando as verdadeiras ―milongas‖, sem deturpações..., assim explicou Matta e Silva. O autor utilizou a expressão ―roupagens‖, conceito não cogitado por nenhum outro de sua época e afirmou que as ditas entidades não eram pretos nem velhos, nem ex-escravos, nem ignorantes.

2.2.4 - Codificação

A questão da codificação da Umbanda foi assunto de referência e motivo principal do 1º Congresso de Umbanda no ano de 1941. Um número pequeno, no conjunto de autores da 54


década de 50, manifestaram-se a favor, com opiniões que variavam essencialmente na maneira de como fazê-la. Poderíamos resumi-las a três variantes: os mais ―extremistas‖ propunham a codificação de sua própria autoria, os ―moderados‖ propunham fazê-la por consenso e os ―realistas‖ que apesar de convencidos da necessidade da mesma consideravam-na impraticável. Claro, existiram aqueles que se posicionavam contra a codificação como Francisco Louza em seu livro “Os Orixás governam o seu destino – Umbanda/ Religião/ Ciência”, que em um capítulo dedicado à codificação afirmou que nunca se falou tanto na codificação da religião de Umbanda, mas sempre que mencionada eram baseadas e comparadas às religiões que possuíam e ainda possuem suas normas de conduta codificadas em livros, as quais deviam ser seguidas pelos adeptos que as praticavam e até hoje praticam. Para Louza, as iniciações ocultas possuíam igualmente os seus fundamentos cimentados em princípios milenares e estas normas e conceitos, codificados por eminentes, autênticos líderes, reunidos através dos tempos, segundo as necessidades da época, meio e aspecto social, tendo sempre como objetivo primordial orientar e preparar líderes que, em cada religião, época e meio, se expressavam de forma autêntica e inconfundível, dando desta maneira, continuidade aos seus fundamentos, assegurando a sua divulgação a um número cada vez maior de adeptos. Diante disso, o autor ainda afirmou saber que a Umbanda precisava de um código de ética. Mas, questionou: quem ditaria as normas da tão almejada codificação? Homens ilustres? Doutores da lei de Umbanda? Ou seriam os filhos de carpinteiros, médiuns humildes que através de seus Orixás, guias e protetores apontariam as normas e conceitos capazes de gerar e planificar a codificação que lhes pertencia por direito e justiça?

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Alertou o leitor para analisar esta questão com justiça e sabedoria, induzindo este mesmo leitor a perceber que a Umbanda não era uma religião como as outras, que não se resumia em dogmas e rituais. 34 (ANEXO 18) Observe leitor que o autor argumentou usando a especificidade da Umbanda (―não é uma religião como as outras‖) e questionou a forma - ―quem ditará as normas‖. Vejamos sucintamente alguns autores pro codificação. Leopoldo Bettiol em sua obra “Umbanda perante a crítica” de 1954, separou a Umbanda da Quimbanda, e argumentou que a primeira não é catolicismo nem espiritismo, que se retirada dela o simbolismo católico, o ritual e a invocação do Orixá da Quimbanda e o mediunismo do Espiritismo, não sobraria nada, pois a Umbanda era a reunião dessas três correntes espirituais, vistas, interpretadas e discutidas sob outro ângulo de visão, mais liberal e mais ampla, mais convincente e de maior assimilação. Nas palavras de Bettiol:

“... um caldeamento de culturas variadas, entre o negro, o branco e o bugre, cuja origem se reporta ao período colonial e da escravidão. Admitamos que a propaganda seja nova, mas o fato em si é muito velho. A Umbanda começou na Senzala, no primeiro dia em que eles rezaram juntos.” (BETTIOL, 1952, p.8)

Apesar de admitir o ―caldeamento‖, Bettiol defendeu a necessidade de uma uniformidade de classificação, portanto, não entendeu que aquele fenômeno, descrito inclusive por ele, produziu uma religião nova e diversa, não redutível aos seus elementos formadores. Seu ponto de vista se aproximou mais da ―bricolagem‖ de culturas, da mera 34

LOUZA, Ed. Espiritualista, p.75-76

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justaposição das crenças que a formaram. Outro argumento: se foi verdade que a Umbanda ―começou na Senzala, no primeiro dia em que eles rezaram juntos”, então o autor teria que admitir que esta religião começou então num fato anterior: no momento em que os brancos rezaram com os vermelhos. Mas isto ele não cogitou. Entendemos hoje que a Umbanda é diversa em sua origem porque é formada pelo caldeamento de todas as etnias e de suas diversas culturas - diversidade que se mantém até hoje. Igualar ou uniformizar culturas, percepções e modos de se vivenciar o Sagrado é negar a alteridade e cometer um ato de violência. Um autor muito mencionado e muito mal lido pelos defensores da codificação nos dias de hoje foi Emanuel Zespo em sua obra “Codificação da Lei de Umbanda”, 1960. Após analisar o contexto, as tradições religiosas milenares dos ritos africanos – remanescentes da civilização Lemur – da sabedoria do homem ameríndio (toltecas, aztecas, maias, incas, tupi-guaranis etc.) e nas revelações feitas nas tendas e terreiros pelos Pretos Velhos, Caboclos e Orixás, chegou à conclusão da impossibilidade de execução deste projeto. Para este autor, codificar a Umbanda seria, portanto, arrolar todos os conceitos e normas da vida e religião já anteriormente escritas e que são lembradas em outras palavras pelos guias. Acrescentou que todas as bibliotecas do mundo seriam insuficientes para conterem tão grande manancial de saber divino. Afirmou não poder legislar sobre o que já estava funcionando e dando frutos, segundo a ―Lei do próprio Pai Maior‖. Não podia criar um código de preceitos religiosos porque estes remontariam as Leis de Manu35 e posteriormente

35

Historicamente, as leis de Manu são tidas como a primeira organização geral da sociedade sob a forte

motivação religiosa e política. O Código é visto como uma compilação das civilizações mais antigas, mas este uma projeção comparável ao Código de Hamurabi (lembrando que o Código de Hamurabi, é mais antigo que o

57


aprimorado no Evangelho de Jesus, em resumo, veio de há muito, não seria ele que contrairia aquilo que já fora definido (não por códigos, mas por uma prática inclusiva e diversa) como o melhor para esta Religião.

36

Aqui o autor demonstrou o quanto ele foi mal interpretado ao longo da história do Movimento Umbandista. Resta-nos questionar se o foi de forma proposital... Zespo é mencionado ainda hoje por aqueles que insistem em codificar a Umbanda, mas que fazem uma leitura desatenta ou intencionalmente distorcida da totalidade daquela obra. O exemplo de um discurso pró codificação ―extremista‖ foi feito por Aluizio Fontenelle. Em sua obra “A Umbanda através dos séculos”, 1957, 2ª edição, argumentou que a história das Religiões tem dado elementos suficientes para verificarmos com exatidão seu progresso crescente e que, o homem culto e inteligente não se deixaria arrastar por falsas demagogias e nem por falsos credos. Tentou justificar que a Umbanda seria a futura Religião do Universo (por não ser demagoga ou falso credo, tende ao progresso). Um discurso ufanista baseado em pseudo-argumentos, lógica frágil

de Manu em pelo menos 1500 anos), porém se infiltrou na Assíria, na Judéia e na Grécia. Em certos aspectos é um legado para essas civilizações, comparado ao deixado por Roma à modernidade. São concebidas como um calabouço profundo, onde o Hindu de classe média ou inferior encontrava um abismo legal diante de suas ações inseguras. Isto é justificado, em face da concepção de que o castigo e a coação são essenciais para se evitar o caos na sociedade. Segundo o código, os sacerdotes ocupavam uma casta superior na hierarquia social. Neste código há uma série de idéias sobre valores, tais como a Verdade, a Justiça e o Respeito. Os dados processuais que versam sobre a credibilidade dos testemunhos atribuem validade diferente à palavra dos homens, conforme às castas que pertencem. 36

ZESPO, 1960, p.110

58


e que beira uma defesa etnocêntrica da Umbanda. O autor desconsiderou que ―cultura‖ (tomada como erudição) e inteligência não são condições suficientes para que o homem entenda com profundidade e sabedoria o que as Religiões significam de fato. Basta observar casos concretos – de pessoas e países, para perceber que uma coisa não implica em outra. Não negamos que inteligência e erudição são importantes, mas não são elas que determinam o estado ou grau de consciência do espírito, pelo contrário, sem uma direção estes dois elementos podem até se tornar antagonistas da sabedoria. A argumentação de Fontenelle foi precária, não sustentou razões irrefutáveis para a Umbanda se projetar como futura Religião do Universo. A bem da verdade, não foi possível ler “A Umbanda através dos séculos” sem nos desvencilharmos do sentimento de ser produto de um autor cabotino. No capítulo VIII que trata da “Codificação da Umbanda – trabalhos filosóficos e doutrinários”, o autor escreveu que “codificação é a luta tremenda que se terá que realizar em torno de milhares de centros, tendas, terreiros, templos etc. com a finalidade de se separar “o joio do trigo”, unificando -se todas as interpretações espíritas em torno de um só poder, de uma só ordem, sendo essa ordem incontestável universalmente.‖ 37 O leitor deve ter percebido o tom beligerante da proposta. Outro capítulo tem o sugestivo e auto-explicativo título: ―COMO COMEÇARIA EU A CODIFICAÇÃO DA LEI DE UMBANDA‖, expressões que deixam claro o que afirmamos anteriormente. 38 (ANEXO 19) Uma análise serena dos argumentos expostos pelo autor demonstrou a insensatez 37

FONTENELLE, 1957, p.93

38

FONTENELLE, 1957, p.95-97

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da codificação, que na proposta idealizada por Fontenelle atingiu contornos delirantes, mas não menos ocupada com a questão do exercício do poder. A leitura atenciosa dos livros pro codificação (mesmos os atuais) nos leva invariavelmente ao questionamento da qualidade de compreensão destes autores sobre a Umbanda e o Movimento Umbandista, que é diverso desde a sua origem. É inegável também a influência das codificações das religiões abraâmicas sobre o imaginário destes autores, em particular da codificação kardecista, usada normalmente como referência positiva.

2.2.5 - A Prática do plágio

Sobre este tema, apenas dois autores deram suas impressões e justificativas. O primeiro foi Aluísio Fontenelle (1957) que falou da Umbanda através dos séculos, mas com explicações quase alucinantes. O segundo, Rivas Neto que demonstrou com lógica e coerência o que afirmava. (Poderão verificar suas palavras no item que virá em seguida quando falarmos da ―Umbanda a Religião do Terceiro Milênio‖.) Mas o que nos foi surpreendente quando outro autor, Francisco Xavier da Silva, em 1965, não por coincidência, escreveu um capítulo no seu livro “Saravá Umbanda” chamado ―A Umbanda como futura Religião Universal‖, cópia do primeiro ao último parágrafo do citado capítulo de Fontenelle, sem aspas e sem os devidos créditos, nota de rodapé e muito menos bibliografia. Vejamos um trecho para efeito de constatação.

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“A história das religiões tem-nos dado elementos suficientes para verificarmos com exatidão, o progresso cada vez mai crescente, no tocante ao que se concebe como religião, de vez que, o homem culto e inteligente, não se deixará arrastar por falsas demagogias, nem por falsos credos. Êle precisará pesquisar profundamente a questão religiosa, firmando-se nos conceitos puramente reais que a própria razão lhe ditará. O homem do futuro tirará suas próprias conclusões, à medida que os fenômenos espirituais forem surgindo à sua frente.” (FONTENELLE, 1957, p.85)

“A história das religiões tem nos dado elementos suficientes para verificarmos com exatidão, o progresso cada vez maior, no tocante ao que se concebe como religião, de vez que o homem culto e inteligente, não se deixará arrastar por falsas demagogias, nem pelos falsos credos. Ele precisará pesquisar profundamente a questão religiosa, firmando-se nos conceitos puramente reais, que a própria razão lhe ditará. O homem do futuro tirará suas próprias conclusões, à medida que os fenômenos espirituais forem surgindo à sua frente.” (XAVIER DA SILVA, 1965, p.129)

A prática do plágio explícito ou velado continua existindo em nossos dias, infelizmente.

61


2.2.6 - Umbanda como a Religião do Terceiro Milênio

Como dissemos anteriormente Aluizio Fontenelle escreveu um capítulo intitulado ―Umbanda, Futura Religião do Universo‖, por volta de 1957 e trinta e sete (37) anos mais tarde outro autor escreveu sobre o mesmo assunto. Vejamos as diferenças de enfoque sobre este tema abordado, em diferentes momentos da história do Movimento Umbandista. Iniciaremos citando Fontenelle e posteriormente Rivas Neto. Para Fontenelle, a Umbanda seria a futura religião e dominaria o mundo, por ser originária da vontade Divina. O Espiritismo na Lei de Umbanda seria entendido como verdadeira religião, pelo fato de que os seus seguidores terem contato direto com as manifestações espirituais, em cumprimento das leis divinas. Ele julgava que a Umbanda era mistificada e misturada. Ele contrapunha uma outra Umbanda: codificada, pura, na qual se aproveitaria de todas as religiões existentes na terra, somente o que fosse sublime e perfeito. Por exemplo, do Catolicismo, só se aproveitaria a organização, pois acreditava que tudo mais era falho, inclusive os dez mandamentos. Das religiões protestantes restaria unicamente a Bíblia, nos seus pontos onde existir a verdade (como poderíamos saber o que era ou não verdade?), já que seus pastores por serem fanáticos demais, não dariam o braço a torcer quando conhecessem de fato onde estaria a Luz Divina, na Umbanda. Das demais religiões espíritas aproveitariam os bons "médiuns" que, sendo conhecedores perfeitos das manifestações espirituais, não se deixariam arrastar pela mistificação. Fontenelle acreditava que os kardecistas chegariam à conclusão de aceitar irrestritamente as condições que ligavam o espírito à matéria, nas quais se concebiam que as entidades espirituais se distinguiriam de duas maneiras: 1°- "Guias Espirituais" possuiam Luz 62


Espiritual e grande força fluídica, conseguindo por essa razão dominar os maus elementos, forçando-os a praticar o bem. Por essa razão é que nas práticas da Umbanda se conseguiriam os maiores resultados; 2° - Os "eguns" ou espíritos dos mortos, evocados nas práticas do kardecismo possuíam quando muito apenas a Luz espiritual e por isso não teriam força suficiente para combater o mal. Foi além, afirmou que aos praticantes dos "Candomblés" e aos que praticavam a "Magia negra", seriam devidamente orientados e instruídos em novas práticas e assim abandonariam por completo os rituais bárbaros que os identificavam. Que o Espiritismo na Lei de Umbanda, em sua nova fase, surgiria com o progresso do mundo, novos horizontes seriam apresentados e o mundo marcharia de cabeça erguida, em direção ao aperfeiçoamento universal.39 (ANEXO 20) Então, Fontenelle em seu receituário para a redenção humana, por meio da Umbanda, propôs três coisas: expurgar da Umbanda os ―rituais bárbaros‖ do Candomblé, a ―magia negra‖ das macumbas e uma codificação conduzida por uma minoria de personalidades de reconhecido gabarito, sem deixar de lado os representantes do aparelho repressor do Estado. Em resumo era uma proposição de cunho aristocrático e fundamentalmente etnocêntrico. Quarenta e três anos depois, ou seja, em 1994, o autor Rivas Neto escreveu em seu livro “Lições Básicas de Umbanda”, um capítulo chamado “Umbanda, a Religião Cósmica”, que tratou do mesmo tema, porém com um enfoque completamente diverso. Mas, antes de falarmos deste capítulo, devemos fazer uma breve referência à sua fonte de inspiração – o capítulo “Movimento Umbandista e suas 7 fases”, no livro “Umbanda – A Proto-Síntese Cósmica”. 39

FONTENELLE, 1957, p. 85-92

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A primeira distinção entre os dois autores é que, para este último, o próprio Movimento Umbandista foi lançado pela ―Cúpula do Governo Oculto do Planeta‖, não era apenas um ―Movimento‖ produzido por homens. Em segundo lugar, não estava à deriva ou necessitando de codificações etnocêntricas, se não o contrário, pretendia abarcar toda a comunidade planetária e de forma atraumática, daí uma terceira diferença: seria um processo composto de 7 fases e de longo prazo. Em resumo, a Umbanda e o Movimento Umbandista vieram ―de cima para baixo‖ e não ―de baixo para cima‖, teria caráter universalista (sem exclusivismos, nacionalismos ou qualquer etnocentrismo), de longo prazo e com diferentes fases (atraumático e não por decreto) e acima de tudo um processo que seria conduzido por esta mesma Cúpula. No final destas 7 fases seria resgatado o Conhecimento Uno, a ProtoSíntese Cósmica e assim teríamos um só ―povo‖, uma só ―língua‖, uma só ―pátria‖ e um só ―pastor‖, uma nova ―Era Dourada‖. As 7 fases resumidas seriam: 1º. Fase de Ogum: chamamento; 2º. Fase de Oxossi: novos paradigmas, fraternidade universal e união entre os povos; 3º. Fase de Xangô: seleção de almas afim com a evolução planetária; 4º. Fase de Yorimá: preparação da Iniciação Cósmica, Planeta Terra uma só Pátria; 5º. Fase de Yori: pureza interior e ressurgimento da Proto- Síntese Religio-Científica; 6º. Fase de Yemanjá: Amor Cósmico, pleno equilíbrio social, econômico e político, países estão unidos como continentes; 7º. Fase de Oxalá: Amor e Sabedoria Universal, reencontro com a Proto-Síntese Cósmica, teremos diferente constituição somática e psíquica, fim das doenças. Portanto, as diferenças entre as duas obras são, praticamente, abissais. Retomemos o capítulo “Umbanda, a Religião Cósmica”. 64


O autor pedia ao leitor em seu texto que fosse deixado o sectarismo, o separatismo, o dogmatismo inútil e partíssemos para a síntese, para a visão interna, cósmica, holística. Lembrou-nos que estávamos no limiar do 3° milênio quando foi escrita, o milênio da grande transformação, onde haveríamos de revisar conceitos sociais, morais, político-econômicos e, principalmente, de comportamento da Comunidade Planetária. Chegaria o momento em que discutiríamos, mesmo que superficialmente, a maneira de como os homens se adaptariam aos "Novos Velhos Tempos", à "Nova Era". O homem haveria de fazê-la chegar... Na verdade, para Rivas Neto, esta "Nova Era" não era tão recente assim, uma outra oportunidade estendida a todo ser humano, com a finalidade do mesmo se redimir, se reajustar, amadurecer, se encontrar (ou reencontrar, se o pensarmos como espíritos que somos). A esperança renovada, tal qual a passagem de um ano a outro, onde tudo se renovaria, tudo poderia modificar-se, na dependência do próprio indivíduo. Afirmou o autor que o 3° milênio seria ainda uma promessa de realizações, de novos objetivos. Não bastava chegar, teria o Homem de alcançá-lo. Esses novos tempos só aconteceriam se o Homem se predispusesse a fazê-lo, e isto acontecendo, o Ser Humano poderia evoluir, crescer e alcançar a maturidade, se espiritualizar e retomar à Religião Primeva, do Amor e Sabedoria unos, mencionado por ele mesmo no capítulo da Proto Síntese Cósmica.

...“Cremos na Religião Cósmica, na Proto-Síntese Cósmica, que contém em si todas as Religiões, Filosofias, Ciências e Artes. É a visão holística, integral, desembuida do interesse perecível das embalagens, do externo, mas voltada para o conteúdo, à essência.”... (RIVAS NETO, “Lições Básicas de Umbanda”, p. 191)

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O autor sugeriu e descreveu 3 níveis básicos e fundamentais para alcançarmos estes auspiciosos eventos. O primeiro pretende reunir o próprio indivíduo consigo mesmo. O indivíduo começaria a perceber além da forma densa, do corpo ou organismo físico outros mais sutis e delicadíssimos invólucros do "EU", o qual é imortal. Afirmou ainda que acreditar que o espírito seria imortal, pois tudo que é perfeito em essência não se deteriora, não se fragmenta, não se transforma. Nosso "eu interior" era o que denominava Rivas Neto como Ser Espiritual e era ele que, além do Organismo etéreo físico (sutil e denso), possuía mais dois organismos: o mental e o astral. Quando encarnada, a individualidade assumia uma personalidade, a qual é trina (organismos: Mental, Astral e Físico). Para o autor, raros são os indivíduos que se encontram com seus três organismos vibrando de forma una. Alguns se polarizam no organismo Mental, outros no Organismo Astral (emocional) e a grande maioria no Organismo Físico (instintivo). Essa dissociação seria a responsável pela fragmentação e ausência do autoconhecimento do indivíduo. Destacou que a mente do indivíduo se divide em três. A consciência seria aquilo que o indivíduo percebe, mas ainda limitado por sua percepção. Seria um conhecimento relativo, variando na dependência da pessoa. No Subconsciente o indivíduo apresenta algum conhecimento, aqui estariam inclusos os hábitos e a memória, na dependência da maior ou menor percepção do indivíduo. No inconsciente, suporta, carrega toda a valência experimental kármica do indivíduo e seria totalmente ignorada pela consciência, podendo transitar nesta através dos sonhos, atos falhos, livres associações e processos patológicos (psicoses). No segundo nível reuniria o indivíduo com sua "Essência Genitora" que no Movimento Umbandista denomina-se Orixá. Nela estaria em unidade consigo e com os demais 66


indivíduos. Pensaria de forma una com os outros indivíduos, o que não significaria pertencer a uma "massa pensante" amalgamada e fundida, mas sim, conscientemente vibrado com seus afins (afinidade real do "Eu Interior"). Neste ponto, o indivíduo reconheceria-se como Ser Espiritual e buscaria pela compreensão reunir-se com outros seres espirituais. Não se senteria superior ou inferior, apenas seria... Assim caminharia ao encontro de seus "Ancestrais ou Genitor Divino", um dos "7 Espíritos de Deus" (Orixá). Afirmou ainda que tal plenitude não é impossível. Não é necessário ser "Santo", apenas "Homem Real", de "Verdade". Escreveu que para recuperarmos o tempo perdido, o trabalho deverá ser o método na conquista de nós mesmos, e tudo na paz, na luz e na harmonia. Seria, para ele, o início do processo de verticalização total, a União com Tupã (Deus), com o "Deus Interior". Desta forma adentrando ao terceiro nível que seria a União do Homem com o Divino, com o que há de mais espiritualizado em si mesmo. Seria a busca do real aperfeiçoamento, a verticalização - a união do Homem com Deus. Quando percebermos que também somos Seres Espirituais imortais, muito além da aparência, do invólucro, iniciaremos a procura de nós mesmos, de nosso "Eu Interior" ou "Eu Real" oposto ao "Eu Ilusório" (egoísmo), tangível, perecível, mortal. Teremos plena ciência de nossa natureza espiritual nos voltaremos ao "Deus Interior", que ao contrário do que pensávamos não é inacessível, não está tão longe, está próximo de nós, está em nós, portanto amorfo, imaterial, cósmico. Esse é o Deus (Tupã, Zamby, Olodumare, Ala, etc.) que se vive na Umbanda. O autor preconizou uma Religião Cósmica, acima de qualquer dogma. Que este seria o AUMBHANDAN que o Movimento Umbandista pretende resgatar e restaurar de maneira simples, suave e singela, pois visa o abarcamento de todos os níveis de entendimento espiritual. Afirmou ainda que os leitores não intransigentes, não intolerantes e inteligentes 67


perceberão que quando ele referiu-se à horizontalização (relacionamento do homem com o homem) e mesmo a verticalização (relacionamento do homem com o Divino), estava se referindo aos métodos utilizados por dentro do Movimento Umbandista, métodos estes que ocorrerão sem alardes, de forma serena, sem traumas, nos terreiros em todo o Brasil através de rituais simples, no contato direto do adepto com as Entidades Espirituais, buscando tomar o "Sagrado" próximo do indivíduo. Todos esses níveis seriam o que Rivas Neto denominou como a "Ciência da União Divina com os Homens", algo que surgiria quando o indivíduo e mesmo a coletividade iniciariam o amadurecimento espiritual, principalmente nos aspectos religiosos, entretanto essas maturações acontecerão na vivência, na sensação e mais que isso, na interiorização destes valores. É algo que será vivido naturalmente, tão natural que deixará de ser fé e passará a ser convicção. O autor aprofundou seu texto reafirmando que para a grande maioria, o que se busca, o que mais lhes interessaria (infelizmente) seria apenas o externo, buscariam meios religiosos ou sacerdotes que satisfaçam os desejos mais externos. Buscam os pseudos sacerdotes de conduta pouco recomendável, sem nenhuma ética espiritual, que nada cogitam sobre merecimento. Recomendou ainda muita serenidade, pois o sentimento religioso não é algo imediatista, mas sim um aprimoramento longe dos desejos mundanos, uma completa e verdadeira Iniciação Superior. Algo que tem um início, um desenvolvimento paulatino e um aprofundamento progressivo, elevando o indivíduo a um senso religioso ou místico natural e inato. Deixou então, ao término de sua explanação o desejo de ter conseguido demonstrar que a Umbanda é de fato, em seus aspectos mais depurados e mesmo nos mais confusos na 68


aparência, a Verdadeira Religião Cósmica, Universal. Holística, não dogmática, não separatista. Voltou a nos lembrar que o que praticamos é Movimento Umbandista, embora a denominemos de Umbanda.40 (ANEXO 21) Rivas Neto mostrou que é possível uma aproximação do ser humano com sua própria essência.

2.2.7 - Iniciação

Em 1950, Oliveira Magno lançou seu livro “A Umbanda Esotérica e Iniciática” e escreveu pela primeira vez sobre a Iniciação no Movimento Umbandista. Entre outras, fez comparações entre os nagôs e as Iniciações realizadas no Egito e Grécia e sobre isto escreveu que todas elas teriam por base e fim (escatologia)

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abreviar a evolução do homem, isto é,

conseguir em uma só encarnação o que pela ordem natural seria preciso diversas. Procurou exemplificar suas afirmações dizendo que no antigo Egito, pela iniciação criava-se no homem o Osíris. No Cristianismo primitivo que também era iniciático, procurava-se criar no homem o Cristo. No antigo culto Nagô, procurava-se criar no homem o Orixá, observando que em alguns terreiros, que conservam a tradição (como na Bahia) no chamado ―fazer o Santo‖. Oliveira Magno chamou atenção para a constatação que poderia haver diferença de métodos entre estas Religiões, em seus sistemas e rituais, porém a base e o fim seriam os mesmos, isto é, transmutar o homem terrestre e animal em ser espiritual e templo da 40

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RIVAS NETO, 1994, p. 187-190 Idéia de se perguntar a finalidade das coisas. Não apenas da forma positiva, sensível, o fim

literalmente, mas se perguntar sobre o processo. A pergunta básica ―de onde vim, para o que vim e para onde vou‖, sobre tudo escatológico. Importante lembrar que na escatologia o perigo é caminharmos para o niilismo.

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Divindade (autor se referiu a Deus). Portanto, para Magno, fazer verdadeiros babalaôs era fazer o aperfeiçoamento e a evolução de tais homens, era fazer deles ―habitações‖ para espíritos superiores. O autor, pela primeira vez falou que esses métodos, processos, rituais e sistemas de iniciação, variavam e se diferiam, de escola para escola, de povo para povo, pois o método e o sistema oriental diferem do ocidental. Tivemos a felicidade de constatar que naquela década de 50 havia autores que pensavam a Umbanda dentro do Movimento Umbandista, mas voltada aos seus aspectos internos e profundo, como sugere a obra deste autor. Magno afirmou que antigos Mestres (verdadeiros Mestres) não lançavam a semente na terra sem estar preparada para a dita semente; isto quer dizer que eles não iniciavam o homem que não estivesse preparado físico, moral e espiritualmente, em condições de receber a luz iniciática. Portanto, os antigos mestres não eram egoístas, como muitos materialistas e muitos modernos espiritualistas e espíritas dizem; mas sim, prudentes e sábios, pois só abriam as portas dos templos iniciáticos aos candidatos de boa moral, fortes e bons; e assim mesmo, só eram admitidos como neófitos, depois de terem passado e dado provas de coragem, bondade, caridade e domínio sobre si mesmo.42 (ANEXO 22) Matta e Silva em “Umbanda de todos nós” de 1956 apresentou outro enfoque. A iniciação na Lei de Umbanda toma-se contato com forças, conhecimentos, regras, sistemas e conseqüentemente responsabilidades que poderiam ser levadas a bom termo pelo iniciante que sentir "em si" forte vocação, índice de uma missão, legado de seu próprio karma, ou seja, conseqüência de causas e efeitos, os quais se manifestariam por certas faculdades que o induziriam a este caminho. No entanto, bem poucos estarariam capacitados a "conhecer a 42

MAGNO, 1950, p. 75-77

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via", porque tantos seriam os "espinhos" a encontrar, quantos se fizessem necessários às fases da ascensão. Aqui o autor referiu-se a Iniciação Superior, apropriada, inerente aos Princípios, Fundamentos, Sistemas, Regras da Lei de Umbanda em sua alta manifestação afim com evolutivos concernentes com suas reais expressões.43 (ANEXO 23) Citamos apenas um trecho de Matta e Silva para o leitor perceber as diferenças de enfoque, pois o tema foi desdobrado ao longo de sua obra, mas deu para perceber que muitos aspectos não foram nem cogitados por Magno, mas que seguindo uma lógica foi e ainda é aceita como importante à literatura e aos graus consciências de seus adeptos. Não feriu a lógica e o bom senso. Destacamos que apesar das diferentes percepções sobre a Iniciação, Matta e Silva e Magno concordaram que seria um processo e não um rápido aprendizado teórico, mas que a vivência, neste caso seria imprescindível. Cumpre lembrar que Rivas Neto recebeu o comando da Raiz de Guiné transmitida por Matta e Silva, isso por meio de um processo de Iniciação e transmissão deste legado desta Escola.

2.2.8 - Africanismo

Surgiram autores reivindicando a origem e fundamentos africanos para a Umbanda, como José Ribeiro em seu livro “O Ritual Africano e seus mistérios” e Tancredo da Silva Pinto em “A origem da Umbanda”. Na verdade, houve um período

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MATTA E SILVA, p. 206-207

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em que o Movimento Umbandista se polarizou entre uma ―umbanda african a‖ e uma ―umbanda branca‖. Pudemos constatar isso na pesquisa feita por Diana Brown, divulgada em 1985 em “Umbanda e Política”. Neste mesmo livro de Diana Brown, parte do capítulo intitulado Federações de Umbanda, descreveu as relações políticas na comunidade umbandista e desta última com a sociedade no período entre 1925 e 1970. Descreveu fatos não divulgados por autores umbandistas, até por aqueles que decidiram escrever sobre o centenário desta religião, como Diamantino Fernandes Trindade. Segue trecho importante, com detalhes que auxiliam no entendimento de como se processou a história naquele período, especialmente no momento em que Tancredo começou a se promover como autor:

...“Tancredo também mantinha alianças com líderes de outras federações similares do Estado do Rio, e junto com elas produziu em co-autoria um grande número de livros sobre a Umbanda de estilo africano, que articulavam uma posição fortemente africanista e que demonstravam forte antagonismo racial e de classe para com os líderes da Umbanda Pura (ver Brown, 1979). Foi assim formada uma rede de federações de Umbanda no interior dos setores inferiores, paralela àquela organizada pelos líderes Umbandistas do setor médio, mas que representava uma compreensão muito diferente da palavra “Umbanda”. Esta voz africanista insistia na Identidade da Umbanda como parte da herança africana. Pode parecer que o surgimento de redes de Umbanda paralelas, brancas e negras, representava um movimento em direção ao separatismo racial. Organizações separatistas com base no fator racial apareceram tanto no Rio 72


como em São Paulo no início da década de 1940, como por exemplo, o Teatro Experimental do Negro, fundado no Rio em 1944. Membros do Teatro Experimental chegaram mesmo a visitar muitos terreiros de Umbanda afrobrasileiros durante os primeiros anos da década de 1950 para sugerir que eles também deveriam adotar uma postura separatista similar. Esses visitantes davam seu apoio à Umbanda, mas argumentavam que os umbandistas negros deveriam adorar um Cristo negro (Freitas e Pinto, 1956:84-85). Tancredo e outros líderes religiosos afro-brasileiros rejeitaram com irritação esta sugestão.”...44 ( ANEXO 24)

Em resumo, a cizânia quase conduziu o Movimento Umbandista a uma polarização irreversível ou ruptura total. Tancredo, protagonista da crise, escreveu uma versão etnocêntrica sobre a origem da Umbanda. Nela mencionou que foi dentro dos quilombos que se deu a conjunção de raças ou vários cultos antes da liberdade, chegando negros de várias nações para pregarem os seus rituais o que era aceito pelo chefe do quilombo. 45 (ANEXO 25) O leitor pode facilmente observar que na tentativa de explicar a origem da Umbanda, Tancredo se enredou num círculo confuso de idéias, sem efetivamente explicar coerentemente de onde veio a Umbanda. Ele foi porta-voz dos autores que reinvindicaram uma origen africana, como José Paiva de Oliveira. Este último afirmou que foram os sudaneses e os bantus que legaram a Umbanda e os ritos litúrgicos que hoje se expandiram em todo o Brasil, sobre várias denominações e estilo, como Candomblé, o Xangô,

44

BROWN, 1985, p. 23-24

45

TANCREDO, 1970, p. 9-11

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Nagô e Gêge e o Keto.46 Babalorixá José Paiva de Oliveira nasceu em Pernambuco, elegeu-se Presidente das Federações dos Cultos Africanos e Terreiros de Umbanda de Pernambuco. De 1971 a 1974 realizou os considerados toques ritualísticos afro-umbandistas, como a saída de barcos de Yaôs. Escreveu entre outros, ―Filosofia Afro-Umbandista” e “Os Orixás Africanos na Umbanda‖, neste último fez uma pequeníssima retrospectiva histórica desde a chegada dos escravos, seus lugares de origem e onde instalaram seus costumes e práticas utilizadas no culto Omolocô, na Jurema dos Mestres e na Nação Nagô. Além de como eram preparados os Amacys, Yaôs, banho de Abôs etc. No círculo de pessoas que propagavam o africanismo, portanto próximas das idéias de Tancredo, encontrava-se um eminente escritor e professor baiano José Ribeiro. Jornalista,

professor de Línguas Sudanesas, Sacerdote do Culto Nagô e membro do Supremo Conselho Sacerdotal da ―União Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros‖. Este autor foi citado e fotografado por Matta e Silva no livro “Macumbas e Candomblés na Umbanda” na década de 70 e nele encontramos a famosa foto de José Ribeiro ―personificando‖ Yançã de Egun-Nitá (MATTA E SILVA, 1977, p.156).

46

OLIVEIRA, 1985, p.22

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José Ribeiro tinha um terreiro chamado Yansã Egun-Nitá que ficava na Estrada Santa Efigênia, 152 – Taquara – Jacarepaguá – Rio de Janeiro. No livro “O Ritual Africano” de 1969, sua biografia comentou: ―filho do Orixá ―Yansã‖, cuja dijina é ―Egun- Nitá‖. O seu orunkó, há 25 anos passados era: ―Oyacy NY- Afobá Ilá te Egun Nitá‖. Daí a razão para seu ―abaçá‖ ser denominado ―Terreira Yansã Egun- Nitá‖.

Foto: RIBEIRO, 1969, p.65

A entidade que lhe assistiu e que nomeou o seu abaçá e sua djna ―Egum-Nitá‖ se popularizou através de suas obras. Em nossas pesquisas encontramos a seguinte referência dada por William W. Megenney da University of California. Riverside ao termo Nitá:

“ Nitá. Até o momento segue sendo um mistério; em yoruba existe o vocábulo nitara «sanguíneo, zeloso, diligente», que poderia aparecer na expressão sob consideração, apocopado e com referência às qualidades de 75


Iansã, quem é bem conhecida pelo seu gênio irrequieto, altivo e empreendedor.” (Fonte:http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/014751766559364 17554480/p0000021.htm#I_27_)

Em resumo, Nitá seria uma qualidade de Iansã, popularizada como Djina daquele escritor. Hoje infelizmente, existe um escritor no meio umbandista (Rubens Saraceni) que afirma e propaga a existência de um Orixá Egunitá, algo não verídico, tratando-se provavelmente de mais uma invenção deste escritor (existem outras). Em nossas pesquisas o autor que melhor sintetizou os argumentos contrários ao africanismo da Umbanda foi Matta e Silva. Ele enumerou 9 motivos que colocaram por terra a idéia de uma Umbanda africana. Afirmou em um dos argumentos que nos Cultos Africanos puros, quer sejam os de África ou Colônias, inclusive os que estes mesmos africanos trouxeram primitivamente para o Brasil quando escravizados, nunca se admitiram eguns em seus rituais. Jamais invocaram espíritos ditos como caboclos (na África nunca existiram índios nativos), nem mesmo estes que chamamos de "Preto-Velhos e Crianças" nunca entraram em suas cogitações religiosas ou ritualistas de invocações. Eguns seriam espíritos de desencarnados, há séculos ou até milênios. A única exceção sobre eguns era quando "invocavam" numa cerimônia especial ou funerária a alma do "pai-de-santo" morto ou o "Orixá" a quem ele era votado, para ditar sua última vontade. Outro argumento importante de se conhecer é que jamais nos Cultos africanos primitivos se manifestou um Movimento igual a este que surgiu primeiramente como uma "linha branca de Umbanda" e depois se consolidou como Lei de Umbanda, cujas Entidades militantes, os "Caboclos e Preto-velhos",

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adotaram certos termos com os respectivos significados relativos, quer Afro quer Indígena. 47 (ANEXO 26) Com este último autor fechamos as referências ao debate sobre o africanismo da Umbanda. Matta e Silva provou definitivamente que o Movimento Umbandista teve em sua matriz formadora as influências rito-litúrgicas desta etnia, mas ela de forma nenhuma compõe sua totalidade. Matta e Silva realmente revolucionou este Movimento como veremos a seguir.

2.2.9 - O Giro Conceitual de Matta e Silva

A obra “Umbanda de todos nós” de 1956 fez um giro revolucionário em tudo àquilo que se conhecia e que havia sido escrito sobre a Umbanda. Nela o autor resgatou a influência da matriz ameríndia na formação do Movimento Umbandista, resgate não apenas semântico, mas de fundamentos dessas tradições presentes no Brasil e que a quase totalidade dos escritores umbandistas não haviam considerado até então. Da mesma forma que ele dialogava com essas tradições, nem por isso deixava de fazêlo com o Hinduísmo, com o Budismo, com o Esoterismo europeu e com o Zoroastrismo. Ele propôs uma Umbanda de todos, não apenas para os umbandistas, mas universal no sentido de dialogar com Culturas, Tradições espirituais e com a própria Ciência. Neste último aspecto debateu suas idéias com as de Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Roger Bastide, entre outros. Tudo isto demonstrou a seriedade do conjunto de suas obras, até hoje referencial no meio umbandista e acadêmico.

47

MATTA E SILVA, 1996, p.63-64

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Sua obra foi, sobretudo eclética, inclusive na interpretação das citações bíblicas que fez com desenvoltura impar. Como exemplo observemos o seguinte trecho:

“Estes fundamentos também foram mantidos por João em Apocalipse, quando diz que os "sete cornos do cordeiro são os Sete espíritos de Deus" representando o sistema planetário, que está designado por um castiçal de sete braços ou por sete castiçais e por Sete estrelas que refletem o Supremo Espírito Iluminado, ou seja, Deus. Os sete corpos celestes, Sol, Lua, Marte, Vênus, Mercúrio, Júpiter e Saturno, são simbolizados por ele (João) neste emblema, tendo o astro Sol ao Centro, três de um lado, três de outro. Se o leitor for um estudioso, convidamo-lo a pesquisar, neste dito Apocalipse, a questão dos números 7 e 12, considerados sagrados em todas as Teologias, porque, conforme vimos tentando explicar traduzem as duas maiores divisões do mundo: a do sistema planetário e a do Zodíaco ou das doze divisões do ano. Se contarmos quantas vezes o autor cita o número 7, somamos 24 vezes e o número 12, 14 vezes. (ver em Apocalipse) Diz o mestre Saint-Yves d'Alveydre: "todas as revelações que precedem, são autológicas pelos números, bem como pelas letras; não são, pois, palavras de homem, mas Palavras do Verbo, diretamente através dos fatos experimentais". (ver em “Jesus e sua doutrina” de A. Leterre.) Pois bem, meditem sobre isto e vejam em nosso mapa da Numerologia (n. 2) como os números se definem e correlacionam, e compreenderão o porquê de seus valores para todos os Iniciados, mormente quando sabemos que eles são básicos às 7 Variantes da Unidade ou 78


Vibrações Originais... e tirem conclusões. Até nas Dionisíacas, de Nonnus, se fala de "um livro das sete tábuas," que, em cada uma tinha o nome correspondente a um planeta e, nos mistérios de Mitra, também há sete estrelas que representam os mesmos sete planetas.” (MATTA E SILVA, 1956, p. 95)

Além de demonstrar profunda erudição acadêmica e mística, também era apologista da sabedoria popular e em termos espirituais lançou renovada luz sobre temas consagrados como o da mediunidade. Contrariando certos conceitos estabelecidos pelo kadecismo, afirmou que a mediunidade era um dom, uma faculdade, que viria como condição espiritual, e de qualquer maneira, era uma injunção karmânica quando se tornava atuante. Mas completou que, esta injunção do karma condicionado a um estado espiritual, fosse pela mediunidade natural ou pela prova, teria que se manifestar ou exteriorizar por um corpo físico e este, sendo matéria, teria que ter ―aptidões especiais‖ para receber, imantar e exteriorizar a mediunidade, através de seus vários fenômenos. Mas que para isto, esta faculdade, quando em atividade ou somente quando atuante, é que faria um indivíduo ser médium propriamente dito.48 Estas afirmações e explicações fundamentadas estavam muito à frente de seu tempo, mesmo para os dias atuais, em que ainda persiste a idéia kardecista de que todos são médiuns e de que basta fazer um curso para despertá-la. A idéia de que ela é um compromisso kármico, somada a sintonia vibratória entre entidade e médium, sua função para o médium e para o consulente, a conexão 48

MATTA E SILVA, 1956, p. 136-137

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desta função com as hierarquias espirituais e seu papel no mundo, não foram apenas inovadoras, mas abalou determinadas noções pré-estabelecidas até aquele momento. Os avanços foram inegáveis, mas incomodou muito aqueles que pretendiam manter estagnada a situação do Movimento Umbandista. Ainda sobre mediunidade, Matta e Silva deu explicações didáticas usando a analogia para que pudéssemos entender a chamada ―mecânica da incorporação‖. Destingiu duas fases. Na primeira chamada de inconsciente, ele representou por meio da metáfora do carro, nela um chofer cede seu lugar a outro, confiando-lhe a direção do carro. O primeiro torna-se completamente inconsciente e não interfere na ação do último. Do início ao fim, em atitude estritamente passiva e de confiança integral no novo chofer, mantém-se totalmente ―dirigido‖. Na segunda fase, chamada de semi-inconsciente, a situação se modifica. Nesta o chofer cede seu lugar, mas como ―receoso‖, conserva sua mão esquerda na direção, como que para impedir, em tempo útil, qualquer falha, mas obedece aos movimentos que o outro executa no volante. O médium fica ―semi dirigido‖. Apenas o subconsciente sabe o que se passa, não tem força direta para interferir na transmissão da entidade, e em geral, depois do transe, conserva uma lembrança confusa do ocorrido ou nem isso. Estes dois exemplos, aqui relatados, são minúsculos diante da vastidão dos temas expostos em sua volumosa obra. Apenas para citar podemos lembrar que ele revolucionou a Lei de Pemba, a função de Exu, sobre a função e origem da Quimbanda, os diferentes Ritos, a função das guias, preparações ritualísticas e tantos outros aspectos - metafísicos, cosmogônicos, teogônicos, etc. Impossível citar todos os temas e seria um 80


despropósito para a finalidade deste trabalho. O legado deste autor foi monumental e a proposta deste modesto trabalho de conclusão de curso não alcançaria nem de longe seus méritos. Ele marcou um novo período, foi um divisor de águas no Movimento Umbandista, uma referência obrigatória para os estudiosos sérios da Umbanda. Por fim, dando um relevo especial a uma de suas obras – ―Umbanda sua eterna doutrina” em que o autor escreveu sobre matéria, energia-massa, matéria espiritual aliando-se aos conceitos da Ciência para falar do espírito e de suas diversas realidades. Uniu harmoniosamente a Metafísica e a Ciência para explicar fenômenos e postulados da Umbanda, no conjunto sua obra fez a intersecção entre Ciência e Religião, ou seja, o que viria mais tarde a ser conhecido como Teologia Umbandista, proposto por seu ilustre discípulo, F. Rivas Neto.

2.2.10 – A Dourina do Tríplice Caminho

Rivas Neto propôs uma nova doutrina para o Movimento Umbandista, a Doutrina do Tríplice Caminho como meio evolutivo para todo o ser humano conquistar a Felicidade e a Libertação da dor e do sofrimento. Afirmou, o autor, que ela promoverá as condições necessárias para a realização da Paz Mundial, pois auxiliará cada indivíduo na conquista da Paz Interior. Assim a Paz Mundial será a conseqüência do Ser Humano renovado, com uma consciência amplificada de sua vida como Espírito Eterno, imperecível em sua Essência e, principalmente, em concordância com as Leis Divinas. Esta Doutrina utiliza-se de três caminhos interligados, a Doutrina Tântrica, a Doutrina Mântrica e a Doutrina Yântrica, para direcionar cada indivíduo à sua própria evolução 81


espiritual, ensinando-o a aperfeiçoar a si mesmo e a evitar a criação de causas que tenham um efeito negativo para a evolução do indivíduo. Esta Doutrina baseia-se na analogia com os eventos da Cosmogênese quando três fenômenos ocorreram: Luz (Doutrina Tântrica), Som (Doutrina Mântrica) e Movimento (Doutrina Yântrica). A interação da Essência Espiritual com a Substância Etérica amorfa produziu a Existência consubstanciada em Luz, Som e Movimento. Por isso, tudo na Natureza se apresentou de forma ternária, pela interação entre o ativo e o passivo que deu origem ao neutro ou gerado. Sendo o Homem um micro Universo comparável ao Universo pela Lei das Analogias, então os Organismos Mental, Astral e Físico representam os três fenômenos cosmogenéticos e se expressam através do Pensamento, do Sentimento e da Ação no plano das formas.

49

(ANEXO 28) A Doutrina Tântrica é o caminho para a purificação e sublimação do Organismo Mental no homem, e os Mestres Tântricos são os Mestres da Sabedoria e da Humildade. A Doutrina Mântrica é o caminho para a purificação e sublimação do Organismo Astral, e os Mestres Mântricos são os Mestres do Amor e da Pureza. A Doutrina Yântrica é o caminho para a purificação do Organismo Etérico-físico, e os Mestres Yântricos são os Mestres da Ação e da Fortaleza. 50 Sobre a tríplice forma de manifestação das entidades astralizadas nos rituais da Umbanda – ―Crianças‖, ―Caboclos‖ e ―Preto-Velhos‖, que muitas vezes foram difusa e confusamente tratados na literatura umbandista, exceto por Matta e Silva, o autor Rivas Neto propôs uma interpretação em três níveis, explicando que: 49

RIVAS NETO, 2002, p.376-377

50

RIVAS NETO, 2002, p. 13-14)

82


―Primeiro, escolheram estas variações regionais para facilitar o contato com aqueles que ainda traziam fortes traços culturais. Assim, os brasileiros de origem ameríndia facilmente se identificaram com os "Caboclos"; os brasileiros de origem africana se identificaram com os "Pais-Velhos"; os de origem européia se identificaram com as "Crianças", e assim por diante. Um segundo aspecto é que Crianças, Caboclos e Pais-Velhos representam as três etapas da vida humana: infância, maturidade e senilidade, aspectos esses presentes em todas as raças. O terceiro aspecto são os valores inconscientes ou arquetípicos que essas roupagens traduzem. Assim, a Criança é símbolo de Amor e Pureza; o Caboclo é símbolo da Fortaleza e da Atividade; o Pai-Velho é símbolo da Sabedoria e da Humildade. Novos horizontes se descortinam. O que antes parecia um fenômeno folclórico, fruto do animismo fetichista como quiseram fazer crer, agora passa a ser observado como movimento coordenado com intenções universalistas. Esse é o ponto de vista espiritual. ... Isso tudo faz parte do aspecto regional do movimento umbandista, das adaptações necessárias ao povo brasileiro, incluindo as formas de baianos, boiadeiros, marinheiros e outros, que têm funções ainda mais particulares e menos universais. Por outro lado, deve haver formas que simbolizam a Pureza, a Fortaleza e a Sabedoria em outros povos.” (RIVAS NETO, 2002, p.14)

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A Doutrina do Tríplice Caminho contém Epistemologia, Ética e Método para conduzir o Homem à união com o Sagrado, através da Triunidade. Sobre a Escola de Síntese seu fundador advogou que no Movimento Umbandista, em decorrência da variedade de ritos, de formas de se compreender a Umbanda e de se cultuar o Sagrado, várias tendências ou correntes doutrinárias surgiram. Naturalmente, essas tendências agruparam-se por afinidade e favoreceram a eclosão do conceito de escolas de pensamento filosófico dentro da Umbanda. Assim, no universo que engloba todos os umbandistas, há escolas mais voltadas à tradição africana, à ameríndia, como também outras que privilegiaram os conhecimentos do dito esoterismo, além das denominações conhecidas como Umbanda Omolocô, Traçada, Oriental, entre outras. O autor disse ainda que, consonante com a visão universalista preconizada pelos Mestres Astralizados responsáveis pela Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, formalizou sua abordagem da Umbanda através da Escola de Síntese, que coincidiu com o pensamento filosófico de conciliar todos os segmentos umbandistas e, ao mesmo tempo, conectar-se-iam com os demais setores filos-religiosos existentes em busca da Convergência para a Paz Mundial. (ANEXO 27) A base discursiva para essa escola compreendeu a idéia de que as Religiões seriam visões particulares e parciais do Sagrado, a Realidade Una, portanto, Absoluta. Assim, cada setor do Movimento Umbandista corresponde a uma visão mais ou menos abrangente dessa Realidade. Afirmou que partindo-se do pressuposto de que ninguém detém o conhecimento integral da Verdade, chegaremos à conclusão de que todos devem ser respeitados por conterem parte da Verdade. Por outro lado, evidenciou a necessidade de evolução para toda a humanidade, o que implica no desapego gradual dos vários rótulos e partir em busca da

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Essência que deve ser comum a todos. Desta forma, ele delineou o processo de Convergência que a Escola de Síntese propaga.51 Como forma de mostrar na prática este exercício de Convergência, F. Rivas Neto em sua Escola de Síntese realizou seis ritos diferentes, isto é, seis níveis de interpretação e de se vivenciar o Sagrado, que ritualizavam a Umbanda das formas mais regionalizadas até as formas mais universalistas e sutis de percepção e de vivência deste mesmo Sagrado. Para o autor a Epistemologia, Ética e Métodos aplicados na Escola de Síntese seriam também necessários para os processos da Teologia da Convergência ensinada na Faculdade de Teologia Umbandista. O Sagrado não poderia se restringir ou Ser confinado às quatro paredes do templo, tudo é Sagrado. Para ele, o Movimento Umbandista tem um papel na transformação da sociedade, a começar por uma nova ética e pelo engajamento de seus adeptos com a Cultura de Paz. Como vimos aqui, uma parcela dos autores umbandistas definiam que a Umbanda era a ―manifestação do espírito para a caridade‖, Rivas Neto propôs que a Umbanda veio resgatar a cidadania espiritual do Homem.

51

RIVAS NETO, 2002, p.12

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2.3 - Momento Teológico

Num esquemático terceiro momento, o mais recente, a Teologia passou a ser o motor das transformações do Movimento Umbandista, acelerada especialmente pelo advento da primeira Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), que diga-se de passagem, redefiniu a Teologia, pois a mesma sempre foi entendida como estudo da dogmática cristã. A FTU surgiu como um dos corolários do esforço do autor Rivas Neto que na obra ―Umbanda a Proto-Síntese Cósmica” já havia discorrido sobre as causas e cismas que antecederam a fragmentação do Conhecimento Uno ou de Síntese que conduziram o Homem a uma segunda queda, desta vez no reino da manifestação, e do seu necessário e imprescindível resgate. Nesta jornada de retorno, era preciso reunir novamente Ciência e Religião, e isso seria uma das incumbências desta faculdade. Discorremos brevemente alguns autores umbandistas que afirmavam esta necessidade – o de aproximar religião e ciência, mas o leitor atento percebe claramente que até então esta aproximação seguiu o viés kardecista, que a grosso modo, refutava o valor da religião substituindo-a por um cientificismo bastante particular. Com referências à Ciência e a Filosofia, via de regra para legitimar a codificação feita por Kardec, fez-se uma espécie de doutrinação destas ciências para as realidades do espírito, interpretadas e adaptadas à luz daquelas crenças kardecianas, que em nada se assemelhava à idéia de restaurar o Conhecimento Uno. Neste momento convém fazermos uma breve referência a uma destas contramarchas na história da literatura umbandista no processo de aproximação desta religião com a ciência. Falamos aqui mais especificamente da obra “O livro das energias” publicado em 1983 pelo autor Rubens Saraceni. Esta obra, importante que se frise, serviu de base segundo seu autor a 86


todos os seus outros livros e foi retirada de circulação após uma enxurrada de críticas da comunidade umbandista e de diferentes pessoas vinculadas a diferentes áreas do conhecimento humano. 52 Uma destas críticas foi feita pela Profa. Anita J. Marsaioli do Instituto de Química da UNICAMP (outras se encontram no anexo sobre este assunto). A professora afirmou que ao ler a apresentação do Livro intitulada “Livro das Energias”, de Rubens Saraceni, ficou interessada, pois o propósito do mesmo era ―esclarecer cientificamente a manifesta ção de Deus‖. Acreditando também que as religiões poderiam fazer uso de explicações científicas, a professora de boa fé e respeito irrestrito por todas as religiões deu prosseguimento à leitura do dito livro. O que mais chamou a atenção de Marsaioli foi a impressionante lista de filósofos e cientistas que foram invocados (pág.11) na árdua tarefa de explicar as energias, científica e subjetivamente, que seguiram textualmente citados no livro como ―Descartes, Kant, Copérnico, Abrahms, Edison, Lumuiere, Sadek, Hashem, Ranish, Lemoresh, Zorik, Coperfield‖. Curiosamente, em ponto nenhum do livro foi citado trechos das obras desses grandes homens, como ela mesma esperava. Outro fato que Marsaioli julgou estranho foi que, ao interpretar ―fenômenos relacionados à energia‖, foram utilizados argumentos com base nos elétrons, prótons, nêutrons (pág.112), elementos químicos (pág. 46) e no ―Big Bang‖ (pág.137, citado como ―centro que explodiu‖), de domínio cientifico desde os séculos XIX e XX e estudados por cientistas não mencionados. Disse textualmente a professora:

52

Tais artigos foram extraídos da internet na época, mas que atualmente não se encontram disponíveis.

Estavam salvos em meu computador pessoal.

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“Lamenta-se que a cada pagina deste livro, o leitor seja agredido por algum conceito distorcido da Física, Química ou Astronomia: Exemplificando, os nêutrons, foram definidos como “magnetos” (pág.112) e mais tarde como partículas que possuem dupla polaridade (pág. 166). Tais definições fogem de qualquer texto cientifico e mesmo didático, onde os nêutrons são simplesmente definidos como partículas atômicas neutras. Alias, existem centenas de partículas subatômicas, porém a elas são dados outros nomes.”...

A pesquisadora concluiu que:

“Seria bastante desgastante citar todos os conceitos errôneos e termos inadequados encontrados no texto, resumidamente direi que ao ler este livro lembrei-me do “O Samba do Crioulo Doido” e que a letra deste samba reflete com bastante propriedade a confusão de conceitos e explicações aqui expostas. Preocupo-me com os jovens leitores que, talvez devido a uma formação restrita em ciências, poderiam assimilar esse conjunto de idéias como verdadeiras.”

Conceitos completamente distorcidos e invenções, no mínimo delirantes, fizeram a professora escrever esta crítica. (ANEXO 29) Acadêmicos e Cientistas renomados como Paulo Sérgio Leite Fernandes da OAB; Sérgio Paulo Rigonatti, doutor em Psiquiatria Forense pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), médico-assistente doutor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, coordenador do Serviço de Tratamentos Biológicos (ECT) do IPHC da FMUSP e do Serviço de Psiquiatria Forense do 88


IPHC da FMUSP, Carlos de Brito Imbassahy e Yuri Tavares Rocha, entre outros, também se propuseram, em nome da dignidade científica, tecer suas críticas a esta obra. (ANEXOS 30, 31, 32 e 33) Além deste livro e o do já citado anteriormente (defendendo que Deus era energia), existem outros com uma profusão de erros, que têm sido discutidos nas listas de debates na internet. Gostaria de citar apenas mais dois: “O Código da Escrita Mágica Simbólica” de 2003, que na página 137 afirma:

“... nosso “ar” é uma combinação de vários gases no qual predomina o oxigênio, fundamental para a oxigenação das células...”

Em outro livro, “Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada” de 2005, na página 198, encontra-se a seguinte afirmação:

“Assim como as plantas absorvem gás carbônico à noite e exalam oxigênio durante o dia...”

Observe que estes erros crassos estão em livros que se dizem de teologia e de doutrina umbandista, que além de afrontar o bom senso e demonstrar ignorância do autor, alimentam o preconceito naqueles que sabem e a ignorância nos que não sabem. Rivas Neto defende que a ignorância é um dos piores venenos produzidos pelo ego, a ilusão de achar que sabe, quando na verdade, o sujeito nada sabe. Produzir e alimentar a ignorância alheia e estimular o preconceito contra a Umbanda e o Movimento Umbandista,

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são os efeitos colaterais destas obras, que ao invés de produzir o apaziguamento da Religião com a Ciência, criam abismos entre elas. As obras deste autor (outro cabotino) tentaram dar uma roupagem científica a uma produção literária, que sendo muito condescendente, poderia no máximo ser chamada de ficcional desprimorosa. Voltemos às águas mais límpidas do Momento Teológico. Falávamos da FTU que passou a desenvolver um revolucionário diálogo entre os quatro pilares do Conhecimento Humano, isto é, entre Filosofia, Arte, Ciência e Religião, inexistente até então não só na Umbanda, mas em todas as religiões e em todas as áreas de conhecimento. Rompeu o isolamento das diferentes disciplinas surgidas das especializações e, na Religião em particular, por seu divórcio histórico com a Ciência. Neste último aspecto redefiniu a Teologia como ponto de intersecção entre Ciência e Religião e o Primeiro Congresso Brasileiro de Umbanda do Século XXI realizado e patrocinado pela FTU, em novembro de 2008, foi o marco histórico e incontestável desta aproximação. Estas aproximações têm por objetivo o apaziguamento entre os diferentes campos do conhecimento humano e do próprio Homem, nas palavras de seu fundador:

“A Convivência Pacífica entre a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Religião nos remete à Convergência e à Paz Mundial” (Sacerdote, Mago e Médico, 2003, p.495)

Com o advento das obras deste autor o Movimento Umbandista tem assumido um papel cada vez mais ativo na proposição de soluções preventivas para os problemas do indivíduo e da humanidade. Ele cunhou, entre outros, dois aforismos exemplares deste novo momento para os umbandistas: ―Caridade é emergencial, responsabilidade social é estrutural‖ 90


e ―Nossa Pátria é o Planeta Terra‖. Sua proposta redirecionou o Movimento Umbandista para uma visão cada vez mais universalista expressos na meta de Convergência com vistas à Paz Mundial.53 (ANEXO 27). Uma Paz Mundial que não é apenas a ausência de guerras, mas que pensa o ser humano como um todo e, portanto, tem diferentes frentes de trabalho. O apaziguamento das religiões pelo diálogo intra e inter-religioso, concretizado na FTU por meio de mesas de diálogo, por ritos de confraternização, visitas a outros templos umbandistas e não umbandistas, nos projetos de responsabilidade social, nas campanhas de prevenção, com o programa de TV ―Ponto Convergência‖ e recentemente com inauguração e as atividades ritualísticas do Centro de Cultura Viva das Tradições Afro-brasileiras. Ainda no campo religioso, pelo importantíssimo conceito teológico descrito na obra ―Sacerdote, Mago e Médico‖ de 2003 chamado Vertente Una do Sagrado, um esquema descritivo hierárquico que abarca quaisquer formas de Religião. Nele, as diferentes e particularizadas formas de nomear e entender a ligação entre o Homem e sua ancestralidade de origem (Deus, Olorun, Tupã, Zambi e etc.) é chamado de Divindade Suprema, logo abaixo as Potestades Cósmicas Divinas (Orixás, Anjos e Arcanjos e etc.), abaixo deles os Ancestrais Ilustres Planetários (Caboclos, Pais-Velho, Boiadeiros, Santos e etc.) e finalmente a Humanidade. Este singelo esquema implica no apaziguamento definitivo entre diferentes concepções sobre o Sagrado pela diferentes Religiões. No campo coletivo propôs também uma nova axiologia reordenadora das diferentes esferas da vida social humana que prioriza a paz e o bem-estar da comunidade planetária. A paradigmática proposta hierarquiza as ditas esferas por seu grau de importância e prioridade:

53

RIVAS NETO, 2002, p. 11

91


I. II.

Espiritual Social

III.

Cultural

IV.

Político

V.

Econômico

Sabemos que a sociedade inverte esta hierarquia, pois coloca a supremacia das realizações no poder econômico que, entretanto, cria ricos e pobres; abaixo dele o político, que cria fortes e fracos; abaixo ainda, o poder cultural que cria uma sociedade dividia entre cultos e ignorantes; e abaixo dela o plano social que divide a sociedade em classes privilegiadas e uma maioria desprestigiada. A esfera do poder espiritual, normalmente regida por clerocracias, termina dividindo a comunidade em eleitos e não eleitos e faz o papel de fonte de convencionalismos e dogmas, local de lobby ou de troca de prestígio e indulgências. Outro aspecto importante nos avanços propostos por este autor se refere à relação do homem e da coletividade com a Natureza. Sua proposta com a FTU foi a de uma eco-teologia que entende a Natureza para além dos limites da preservação dos recursos naturais (visão de viés economicista) ou de um discurso ―politicamente correto‖ consumo responsável ou de preservação de ecossistemas. A idéia central é da Natureza ser a concretização do próprio Sagrado, manifestado pelo ―poder volitivo dos Orixás‖, de ser sua expressão – a Natureza é o próprio Orixá. Assim, ele propugna uma eco-teologia não dualista entre Natureza e Sagrado, e mais, lembra sempre seus alunos que o corpo é também a Natureza, que estamos incorporados nela, e ela somos nós mesmos. Concluímos que o Sagrado, a Natureza é o Homem são a mesma coisa, isto é, tudo é Sagrado. Este é o sentido último de sua proposta de resgatar a Cidadania Planetária.

92


3 – Conclusão

Ao longo destes 84 anos de produção literária pudemos constatar uma diversidade enorme de conceitos, visões e vivências que de alguma forma instituíram marchas e contramarchas na literatura umbandista. Alguns autores realmente inovaram e trouxeram progressos, questões e temas substantivos e de real relevo para a comunidade umbandista e para a sociedade como um todo. Uma grande maioria apenas reproduziu certo senso comum do imaginário umbandista, ou seja, mantiveram idéias e conceitos de autores que os antecederam (com plágios, inclusive). Outros, entretanto, representaram retrocesso ao Movimento Umbandista, como aqueles que defenderam e ainda defendem a codificação ou outros que simularam fazer pseudo-ciência, como vimos. O grande problema de algumas obras foi transformar inovação em invencionice, agredindo o bom senso e a lógica por motivos claramente mercadológicos, com codificações e dogmas que se chocam com os princípios espirituais norteadores do Movimento Umbandista. Criando mais preconceito e ignorância. Esta pesquisa constatou que de forma geral essa literatura refletiu e continua a refletir a diversidade de nossa coletividade, da diversidade de nossa origem e da natureza inclusiva desta comunidade espiritual. Verificamos que num 1º momento desse processo de construção da literatura Umbandista, os imaginários, católico, kardecista, africanista, esotérico e ameríndio serviram de base para explicar e formar nossa primeira imagem do que era a Umbanda. Buscou-se fora da Umbanda, muitas vezes em doutrinas exógenas, uma explicação para a sua origem, função e objetivos. 93


Como já explicamos, exemplo disto foi a idéia de que a Umbanda era apenas a ―manifestação do espírito para a caridade‖, idéia ainda muito disseminada no eixo Rio/São Paulo. Todavia este paradigma foi sendo modificado, principalmente após a fundação da Faculdade de Teologia Umbandista em 2003. Por fim, dois autores são dignos de serem estudados com maior profundidade e que este simples trabalho apenas tangenciou: Matta e Silva e Rivas Neto. Foram eles que permitiram que o Movimento Umbandista pudesse dialogar com os diferentes saberes, com outras religiões e com a sociedade. Por meio de suas obras e de suas ações nossa comunidade conseguiu o reconhecimento público e eles lançaram os alicerces para o surgimento de um novo Homem e de uma nova sociedade, num verdadeiro Mundo Novo, do afinal resgate da Cidadania Espiritual. O Movimento Umbandista deve muito a eles e eu também.

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4 – Anexos Filológicos54

ANEXO 1

O lugar de fundador ou pioneiro principal da Umbanda atribuído a Zélio de Moraes parece, portanto, uma construção tardia. Isso não significa que sua história nada possa dizer sobre o surgimento da Umbanda no Rio de janeiro e seus arredores. Diria mesmo que é justamente quando abandonamos a questão da precedência que podemos extrair da figura de Zélio e de seu centro os elementos mais interessantes para pensar o processo formativo da Umbanda. Com este objetivo, busquei outras informações que pudessem se juntar aos elementos já assinalados sobre a vida de Zélio. A característica peculiar dessas outras informações é que elas provem de fontes bem mais próximas da realidade de que tratam – o que não implica necessariamente maior objetividade, mas pelo menos oferece um olhar orientado por preocupações diferentes das que posteriormente se afirmarão. Sobre os eventos de fins de 1908 envolvendo o jovem Zélio, o jornal da Federação Espírita Brasileira, que trazia noticia sobre vários grupos, nada menciona. Mas fazem-lhes referências alguns artigos de jornais escritos nos últimos meses de 1932, por certo Leal de Souza, que tratam do espiritismo no Rio de Janeiro, especialmente do que chama ―Espiritismo de linha‖. Os artigos publicados originalmente no Diário de Notícias e depois compilados em livro (Leal de Souza, 1933), dão destaque ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, o qual teria sido responsável pela criação de diversas tendas vinculadas à Linha Branca de Umbanda e

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Filologia, em um de seus aspectos, segundo o Houaiss consiste em estudos científicos de textos (não

obrigatoriamente antigos) e estabelecimento de sua autenticidade através da comparação de manuscritos e edições, algumas vezes utilizando-se de técnicas auxiliares como a aleografia, história literária, econômica etc.

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Demanda. A primeira delas, 23 anos antes (ou seja, 1909), exatamente a Tenda Nossa Senhora da Piedade, por meio de Zélio de Moraes e seu pai. Depois, a partir da década de 1920, a Tenda Nossa Senhora da Conceição, a Tenda São Pedro e a Tenda Nossa Senhora da Guia. O autor do relato, Leal de Souza, era então o presidente da Tenda Nossa Senhora da Conceição e é impossível distinguir nele o jornalista e o crente. O interessante é que, antes de se converter, o mesmo Leal de Souza publicara uma série de reportagens para outro jornal, A Noite, no quadro de um ―inquérito sobre o espiritismo‖. No livro que compila seu trabalho, declara ter observado, com imparcialidade, os métodos e os resultados das práticas espíritas em quase todos os centros das duas cidades banhadas pela Guanabara (Leal de Souza, 1925, p. 386). Em um período que se estendeu por vários meses do ano de 1924, visitou quase uma centena de instituições, centros e cerimônias, legando-nos um testemunho riquíssimo do ―mundo dos espíritos‖. Um dos centros observados por Leal de Souza foi exatamente o dirigido por Zélio de Moraes (idem, pp. 369-73). Após passar por ―filas compactas de gente‖, o jornalista sentou-se à mesa onde estavam os médiuns e o diretor dos trabalhos. Este, Dr. Meirelles, encarregou da prece inicial, à qual logo se seguiu um primeiro transe. A senhorita Zaira é tomada por um ―espírito infeliz‖, identificado como ―João‖. Em meio ao debate que se desenrolava entre Zaira e o diretor, entrou em transe Zélio:

Saudado como sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas, chefe espiritual do famoso centro, fez, em linguagem enérgica, uma vibrante exortação, suplicando e ordenando a intensificação da fé (idem, p. 370).

O Caboclo incorporado em Zélio fez questão de cumprimentar o jornalista, dizendolhe: ―A minha esquerda, está uma irmã que entrou aqui como tuberculosa e a minha direita um irmão vindo do hospício. Curo-os, os dois, Nossa Senhora da Piedade‖. Afirmou ainda 96


estar vendo um espírito que seria a mãe de Leal de Souza. Ante o esclarecimento de que a pessoa não era falecida, Zélio saiu do transe após exclamar: ―Quem é então? Há de incorporar e dizer quem é‖. Logo em seguida, novo transe de Zélio, acompanhado de outro, furioso, de ―uma moça clara vestida com elegância‖. Revela-se, por meio de diálogos que envolvem o diretor e Leal de Souza, que as três entidades – respectivamente, ―Sofia‖, ―Eduardo‖, além de ―João‖ estariam perseguindo o jornalista. As entidades decidem partir e o diretor, reagindo, dedicalhes uma prece: ―Não sairão daqui a estado de perseguir alguém‖. Despertam então os três médiuns. Após um pedido de concentração vindo do diretor:

O Sr. Zélio, novamente em transe, curvado, numa linguagem deturpada, dizendo ser Pai Antonio, tomou as mãos de um enfermo e acompanhado dos presentes começou a cantar: Dá licença Pai Antonio/ Eu não venho visitar/ Eu estou bastante doente/ Venho para me curar. (idem, p. 372).

Por fim, antes do encerramento da sessão, um ―guia‖ manifesta-se por meio de outra médium, pedindo que se faça um ―trabalho especial‖ para ―um louco fugido do hospício‖. ...O episódio, como vemos, reúne em um cenário que remete inequivocadamente para o ―espiritismo de mesa‖, a presença do Caboclo das Sete Encruzilhadas e Pai Antonio e de elementos que para o autor evocam a ―macumba‖. Na verdade, espíritos de índios e pretos surgiam freqüentemente nas reportagens de Leal de Souza. Contabilizei 22 centros ou cultos que se enquadram em tal caso, envolvendo uma gama bastante variada de situações. Havia, por exemplo, o Centro Antônio de Pádua, cujo dirigente esclarecia: eu e os meus médiuns temos, cada um, três auxiliares, um de desenvolvimento, um indígena e um médico (idem, pp.374-77). Ou, então, o Centro Espírita Maria da Conceição, que funcionava na residência de 97


um major da polícia. Nessa agremiação, onde os rituais, como nos centros N. S. da Piedade e Antônio de Pádua, ocorriam em torno a uma mesa, manifestava-se Maria Africana, uma "preta-véia", que vivera na Costa da África, cuja médium falava na "gíria do preto-mina", fazendo previsões, prometendo auxílios, dando conselhos a pessoas da assistência (idem, pp. 115-18). Um pouco diferente era o Centro Espírita de Caridade Mãe Guiomar, que em vez da mesa, apresentava um altar com oratório, imagens de santos, velas, copos, tendo as paredes decoradas com estrelas douradas e cobertas de quadros com figuras sacras. Esse centro, onde eram especialmente considerados, por seus diagnósticos e conselhos, os espíritos de "crianças", tinham como protetores, além de Mãe Guiomar e outras entidades, o caboclo Pedro Paulo, Pai Sabino, Pai Benedito, o caboclo Atupy (idem, pp. 170-74; 318-21). Impossível deixar de notar ainda o terreiro de Pai Quintino, localizado nos subúrbios, em uma área descoberta, duas vezes visitada por Leal de Souza, a última delas durante uma festa de Ogum. Em suas cerimônias, Pai Quintino tornava-se "Pai Raphael de Ubanda", passando a falar na "língua de Angola" (idem, pp. 103-9; 342-44). Os elementos de seu culto - cantos, instrumentos musicais, danças, altar, consultas e tratamentos curativos, assistentes separados segundo sexo - parecem se encaixar fielmente nas observações que Arthur Ramos faria das macumbas cariocas. Trata-se apenas - é importante enfatizar - de ilustrações superficiais da variedade de situações descritas nas reportagens de Leal de Souza. (GIUMBELLI, 2002, p.183-215)

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ANEXO 2

A repressão policial deste período teve, contudo, outro efeito muito importante sobre a Umbanda: ela estimulou os umbandistas a se organizarem visando sua própria proteção. Foi em 1939, no apogeu do Estado Novo, que Zélio de Moraes e outros líderes dos principais centros umbandistas fundaram a primeira federação de Umbanda, a União Espírita da Umbanda do Brasil (UEUB), com o objetivo expresso de oferecer proteção contra a ação policial a todos os centros de Umbanda a ela filiados. Embora esta federação tivesse uma eficácia bastante limitada para se contrapor às perseguições contra os centros que a integravam, em pouquíssimo tempo se tornou uma importante base para organizar outras atividades. Foram os líderes da UEUB que organizaram e patrocinaram o primeiro Congresso de Umbanda em 1941. Seus intensos esforços para dissociar a Umbanda da sua imagem afrobrasileira podem perfeitamente ter sido influenciados pelo desejo de escapar às perseguições às quais os grupos religiosos afro-brasileiros estavam sujeitos. Esta federação continuou a exercer uma importante influência na Umbanda no período de pós-guerra. A repressão de religiões afro-brasileiras no Nordeste acarretou um efeito similar, estimulando a formação de federações protetoras no Recife, em 1934, e em Salvador, Bahia, em 1937. Ao contrário das federações do Rio, cujos organizadores eram eles mesmos fundadores e praticantes da Umbanda, os fundadores das federações nordestinas eram elementos de fora, cientistas interessados em estudar a saúde mental e as aptidões de brasileiros de ascendência africana, e intelectuais preocupados em preservar a herança cultural afro99


brasileira (ver Estudos Afro-Brasileiros, 1935, Correa, 1983). No Nordeste, o patrocínio e a proteção das religiões afro-brasileiras tomaram a forma de uma noblesse oblige paternalista, combinada com interesses científicos e artísticos da parte da intelligenzia, enquanto no Rio representaram um esforço proveniente do interior dos setores médios (classe média) em expansão no sentido de se atingir uma nova forma de auto-identificação em termos religiosos. Nas duas regiões, entretanto, essas federações assumiram rapidamente a forma de um patronato das classes superiores e médias em relação às práticas religiosas desenvolvidas pelos setores inferiores desprotegidos. No Rio, isso foi logo traduzido diretamente na atividade política e na mobilização dos eleitores dos setores populares por parte dos setores médios. (BROWN, 1985, p. 16)

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ANEXO 3

A idéia do Congresso - O conceito alcançado entre nós pelo Espiritismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática deu motivo a fundação nesta capital de elevado número de associações destinadas especialmente a esta modalidade de trabalhos, cada qual procurando desempenhar-se a seu modo, para atender a um número sempre crescente de adeptos. Sua prática variada, entretanto, segundo os conhecimentos de cada núcleo, não havendo, assim, a necessária homogeneidade de práticas, o que dava motivo a confusão por parte de algumas pessoas menos esclarecidas, com outras práticas inferiores de espiritismo. Fundada a Federação Espírita de Umbanda há cerca de dois anos, o seu primeiro trabalho constituiu na preparação deste Congresso, precisamente para nele se estudar, debater e codificar esta empolgante modalidade de trabalho espiritual, a fim de varrer de uma vez o que por aí se praticava com o nome de Espiritismo de Umbanda, e que no nível de civilização a que atingimos não tem mais razão de ser. (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 6-7)

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ANEXO 4

Umbanda não é um conjunto de fetiches, seitas ou crenças, originárias de povos incultos, ou aparentemente ignorantes; Umbanda é demonstradamente, uma das maiores correntes do pensamento humano existente na terra há mais de cem séculos, cuja raiz se perde na profundidade insondável das mais antigas filosofias. O vocábulo umbanda é oriundo do sanskrito, a mais antiga e polida de todas as línguas da terra, a raiz mestra, por assim dizer, das demais línguas existentes no mundo. Sua etimologia provém de AUM-BANDHÃ, (om-bandá) em sanskrito, ou seja, o limite no ilimitado. O prefixo AUM tem uma alta significação metafísica, sendo considerada palavra sagrada por todos os mestres orientalistas, pois que representa o emblema da Trindade na Unidade. Pronunciado ao iniciar-se qualquer ação de ordem espiritual, empresta à mesma a significação de o ser em nome de Deus. Pronuncia-se om. A emissão deste som durante os momentos de meditação facilita as nossas obras psíquicas e apressa a maturação do nosso sexto sentido, a visão espiritual. BANDHÃ, (Bandá) significa movimento constante ou força centrípeta emanante do Criador, a envolver e atrair a criatura para a perfectibilidade. Outra interpretação igualmente hindú, nos descreve BANDHÃ como significando um lado do conhecimento, ou um dos templos iniciáticos do espírito humano. A significação de Umbanda, (o correto seria Ombanda) em nosso idioma, pode ser traduzida por qualquer das seguintes fórmulas: Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante. 102


A raiz mais antiga de que hรก registro conhecido a cerca de Umbanda, encontra-se nos famosos livros da รndia, os Upanishads, que veiculam um dos ramos do conhecimento mental e filosรณfico encerrados nos Vedas, a fonte de todo o saber humano acerca das leis divinas que regem o Universo. (1ยบ CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 21-23)

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ANEXO 5

“As origens”

Não obstante as divergências por vezes profundas na concepção que de Umbanda têm os seus afeiçoados e adeptos, todos são acordes quanto às suas origens africanas. A natureza das suas práticas, revestidas todas elas de tão grosseiros aspectos, assim como a rudeza do vocabulário com que se processam os atos de sua estranha liturgia, tudo isto lhes justifica a paternidade: Umbanda veio do continente Negro. Também sou desta opinião, muito embora discorde num detalhe. Umbanda veio da África, não há dúvida, mas da África Oriental, ou seja, do Egito, da terra milenária dos Faraós, do Vale dos Reis e das cidades sepultadas na areia do deserto ou na lama do Nilo. O barbarismo afro de que se mostram impregnados os ecos chegados até nós, dessa grande linha iniciática do passado, se deve a deturpações a que se acham naturalmente sujeitas às tradições verbais, melhormente quando, além da distância a vencer no tempo e no espaço, têm elas de atravessar meios e idades em absoluto inadaptados à grandeza e a luz refulgente dos seus ensinamentos. Com Umbanda foi isto o que se deu. Quando a civilização egípcia entrou em decadência pelas sucessivas invasões de povos bárbaros no país, a casta sacerdotal então a mais perseguida por ser a depositária de ciência que fizera a grandeza material e intelectual do povo, emigrou em direções diversas indo 104


fundar os ―Mistérios‖ instalados posteriormente em diferentes pontos do mundo mediterrâneo, tais como os de Delfos, de Olímpia, os de Eleusis, de Argos e de Chipre e tantos outros contemporâneos dos tempos homéricos da Hélade. Ora, essa emigração do clero e dos magos egípcios, involuntária e precipitada, uma verdadeira fuga processada sob o pavor das hordas devastadoras, não se fez apenas para este. Ela se realizou na direção de todos os quadrantes, mesmo porque não havia nem vagar nem direito de escolha. A Etiópia recebeu um grande contingente desse povo sábio e ainda hoje se vê nos esplendor do clero Copta e nas tradições religiosas dos abexins, os vínculos que os prendem aos ensinos exotéricos e esotéricos desse passado multissecular da terra encantada do Vale do Nilo. Quem estuda como eu tenho feito, na medida do possível, a estrutura e a forma das iniciações que florescem no mundo africano e na Ásia Menor, todas elas erigidas sobre um dos dois princípios fundamentais da teogonia egípcia, quando não sobre os dois, ao mesmo tempo, não poderá ter qualquer dúvida, como eu não tenho, sobre as origens comuns dos ―mistérios‖ no mundo ocidental. Todas as iniciações européias, diz um dos Durvile, são ramos de um mesmo tronco, de um tronco cujas raízes penetram nas terras dos Faraós. Imagine-se o que poderia resultar do contacto da alta ciência e da religião dos egípcios, uma e outra tão profundamente precisas nos seus conceitos e tão expressivas na sua forma representativa dos sentimentos de um povo grandemente civilizado, com os povos semibárbaros, senão bárbaros, do ocidente africano, das regiões incultas de onde, por infelicidade nossa, se processou o tráfico de escravos para o Brasil, de uma escória que nos trouxe com suas mazelas, com seus costumes grosseiros e com seus defeitos étnicos e 105


psicológicos, os restos desses oropéis abastadardos já por seus antepassados e de uma significação que ela mesma não alcançava mais. Tais foram as tradições orais que nos chegaram de todo o vasto saber acumulado dos egípcios, através dos elementos afros que os navios negreiros, no exercício de um comércio infamante, transportaram para as terras brasileiras, nos primórdios da nossa formação nacional.

A natureza

O chamado Espiritismo de Umbanda, no nosso meio, apresenta três características bem distintas e capazes de nos reportar às suas longínquas origens, não obstante as deturpações determinadas pelo caldeamento imposto pelo meio. A Umbanda que se pratica no Rio de Janeiro difere essencialmente na forma, da Umbanda que se conhece em todo o Nordeste, a partir da Bahia. Lá, o ritual e o culto conservaram, mais ou menos, a feição e as tendências do oeste africano, enquanto que aqui no sul, a influência do aborígene se tornou incontestável, tal a sua evidência. No setentrião brasileiro as práticas de Umbanda se processam sob formas bem diferentes das que se observam no Rio e na Bahia, tendendo mais para a ascese a que são obrigados os adeptos do rito iniciático indiano.

Os mestres construtores africanos

A ordem dos Arquitetos, na África, é uma instituição secreta fundada no ano de 1767. Os seus ideais eram a descoberta da verdade, a cultura da virtude, a conquista do saber, o 106


desenvolvimento dos poderes latentes do homem, e todo o seu ritual, abrangendo os cinco graus constitutivos da Ordem, era uma reprodução do ―Segredo Egípcio‖ na forma preconizada no ―Livro dos Mortos‖. Não há nenhuma notícia de que se recrutassem no meio da massa ignorante, sugestionável e passiva, conseqüentemente, os elementos desse grande centro de iniciação, o único conhecido em toda a história dos ritos oriundos da parte ocidental do Continente Negro. Admitidas essas origens africanas da Linha de Umbanda, ante a prova oferecida pelos argumentos evocados, somos forçados a considerar a magia como sendo sua própria natureza, porque tanto os ―Mistérios Iniciáticos‖ como a religião dos Egípcios tinham por substância mesmo, a ciência esotérica dos princípios. Da magia, devemos dizer, sempre e fez uso e abuso, em todos os tempos e em todos os meios e como a natureza humana em nosso mundo é muito mais propensa ao mal, os abusos super abundaram os usos, em número e intensidade. Originou-se desta circunstância o mau conceito em que a magia passou a ser tida, em todos os meios cultos, especialmente depois dos tempos calamitosos do arbítrio, dos séculos turvos da Idade Média, dessa quadra dificilmente atravessada pelo pensamento humano, época em que o homem, sentindo-se estrangulado em todas as suas aspirações e tolhido nos seus movimentos, apelou para os ―deuses‖ e para os ―gênios‖, fazendo ressurgir com a mesma feição bárbara dos tempos antigos, o culto pagão das forças divinizadas. A magia, no entanto, é a mais inocente de todas as coisas divinas como são as suas origens e santos, como devem ser os seus e os propósitos de todos aqueles que lhe penetram os arcanos. A natureza mágica da Linha de Umbanda se prova igualmente, pelo exame desses restos de um ritual pomposo, mas deturpado e apenas conhecido numa proporção tão pequena 107


que não nos permite ligar alguns dos restos conhecidos a algum dos restos supostos, na tentativa que fizermos para estabelecer, do todo, pelo menos um órgão pelo qual se remonte a sua identidade. Não é nem será por meio dessas deduções diretas que chegaremos a reconstituição da coisa procurada. Há outros meios de ação, outras formas de ensinamento e outros caminhos por onde é possível chegar-se a realização desse tão elevado objetivo: a iniciação.

A forma

É com as restrições necessárias e tão recomendadas no caso, que eu me aventuro a abordar, nesta memória, a questão da forma, em me referindo a Linha Branca de Umbanda, e o faço com o pensamento na Linha oposta, evitando na medida do possível, oferecer aos seus filiados, às legiões numerosas dos seus adeptos, ensinamentos que lhe possam ser proveitosos na prática diurtuna dos seus crimes. A forma, aqui, é sinônima de ritual porque a forma de um princípio não se mede no espaço nem pode ter qualquer relação com o tempo. Umbanda não é uma coisa, é um princípio a que já se deu corpo em forma de lei. Em qualquer dos dois planos em que a procuremos, está sempre a sua expressão. Esses dois planos a que me refiro são: o plano físico, o mundo visível e o mundo espiritual, o mundo invisível. Sabemos, desde os ensinamentos de Hermes, o Trimegista, que o macrocosmo é como o microcosmo, por isso que o que está em cima é como o que está embaixo, para que se cumpra a lei da unidade. O homem é como Deus. Lá, no Alto, o Universo se desdobra em dois mundos, o físico, cenário da matéria e dos fatos e mundo hiper físico constituído de três esferas, a da causa primária, isto é, dos 108


princípios, a da essência puramente psíquica, correspondendo às leis, e a esfera da luz astral, dizendo respeito às virtualidades. Aqui, o microcosmo se mostra através da forma dupla do homem que é ao mesmo tempo visível e invisível, correspondendo esta parte da sua natureza ao corpo físico e ao complexo orgânico do ser e aquela aos corpos superiores, o astral, o mental e o espiritual, em relação; respectivamente, cada um deles, ao subconsciente, à consciência e à super consciência, tal como na divisão do macrocosmo. Em resumo: as ciências herméticas concebem o universo constituído por quatro elementos: matéria, força, leis e causa, e do mesmo modo nos apresentam o homem como um conjunto desses quatro elementos, e tanto num caso como no outro, há um lado visível, o primeiro, e três invisíveis, os restantes. Partamos desses postulados antigos, admitidos e aceitos, dessas conquistas, definitivas e firmes, das investigações milenárias procedidas nos domínios do astral humano e do astral universal, em todas as partes do mundo para chegarmos a uma conclusão clara na solução do problema que nos interessa. Pelo estudo do homem, elemento posto ao nosso alcance, estudamos simultaneamente o universo imenso que nos escapa. Tomemos, pois, o homem, debaixo da quádrupla forma que lhe é própria e através dessa sua natureza múltipla, desvendemos esses enigmas do universo:

O ser humano é matéria - Corpo Físico O ser humano é força - Corpo Astral O ser humano é lei - Corpo Mental. O ser humano é causa - Corpo espiritual.

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Poderemos dizer, por analogia, a mesma coisa em relação ao cosmos e nessa analogia haverá profunda verdade. As formas universais e as formas humanas se correspondem perfeitamente. Na primeira ocasião em que o homem, movido por seus instintos ou por sua curiosidade, vislumbrou uma face de sua natureza invisível ou sentiu um índice de sua força, praticou um ato de magia e despertou para o seu engrandecimento. Isso lhe valeu por uma revelação. Todo o nosso saber é o resultado das nossas experiências, nesta e nas passadas existências. O homem é um condenado ao autoconhecimento. Ele tem de revelar-se a si mesmo, tem de se descobrir, tem de conhecer-se, pois a essa condição está ligada toda a possibilidade de seu progresso. Ora, as experiências sucessivas e repetidas do homem, nesse particular, isto é, no descobrimento de si mesmo, criaram um corpo de doutrina e uma norma de ação, doutrina e norma por meio das quais lhe é possível reproduzir as experiências feitas, agora de certo melhoradas quanto ao modo, o que se reflete no resultado, e avançar cada vez mais no descobrimento da sua natureza interior e invisível, assenhoreando-se mais e de melhor modo, dos lados ignorados da sua personalidade. Na medida em que o homem toma posse de si mesmo, por meio desse autoconhecimento, vai conseguindo um progressivo domínio sobre o Universo, passa a ser um gênio e depois um Deus. Ele foi feito à imagem e à semelhança do seu criador. . . Senhores congressistas, esse corpo de doutrina e essa norma de ação a que me refiro, são o que vós chamais Linha Branca de Umbanda. O primeiro fator, a doutrina, dá a essa Linha, a natureza que lhe reconhecemos, e o segundo, a norma de ação, lhe assegura a forma. Um é o fim. O outro é o meio. Um nos dá o culto e o outro nos oferece o ritual. Umbanda é o

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ritual indispensável à ação do homem no conhecimento de si mesmo e, conseqüentemente, no desbravamento do Universo, pois o Universo é um reflexo seu. Quando um homem se concentra e pensa em tão transcendentes questões, sentindo-se atraído por elas, esse homem dá o PRIMEIRO PASSO no caminho que se abre à sua frente e que o poderá conduzir ao conhecimento da sua múltipla natureza, ao conhecimento de si mesmo e do Universo que o rodeia. Esse primeiro passo o põe à PORTA DO TEMPLO, no limiar da estrada. A essa PORTA, posição ou estado, chamais vós, senhores congressistas, de PONTO DAS ALMAS, visto tratar-se justamente do ponto de reunião de todos aqueles que se sentiram atraídos pelo desafio da Esfinge: Decifra-me. Assim decidido e animado, esse homem que resolveu conhecer-se penetra o TEMPLO, põe o pé no caminho que lhe é indicado, disposto a vencer a primeira etapa na estrada imensa. A sua tarefa, já agora, será facilitada em parte pelos companheiros que encontrará de certo pelo caminho. É que outros o antecederam na jornada e pelas experiências que já possuem, poderão adiantar-lhe muitas coisas... Isso será para nosso homem um valiosíssimo APOIO, estado ou condição a que vós, senhores congressistas, chamais de XANGÔ. Mas, o nosso caminhante avançou. Tudo quanto lhe disseram os companheiros encontrados no seu caminho foi muito bem compreendido e agora, já instruído e com uma boa soma de experiências, ele irá prestar aos outros, que se iniciam na caminhada, o mesmo APOIO que lhe foi dado, a mesma ajuda recebida dos que o precederam. Temo-lo agora, em ação. O nosso itinerante já é um Mestre, alcançou a terceira etapa, chegou a esse estado ou condição a que: vós, senhores congressistas, chamais de OGUM. Nunca devemos esquecer que isto que se passa a menor com o homem, se dá a maior com a humanidade e que todas essas situações ou estados encontrados no astral das criaturas, estão reproduzidos, nas suas justas proporções, nos domínios do seu criador. 111


O ideal de Umbanda é a fraternidade humana. É por isso que ela tem por missão o desenvolvimento do homem no conhecimento de si mesmo. É pelo saber e só pelo saber, que o homem se engrandece e o saber desenvolve todas as virtudes do ser humano, tanto as do espírito como as do coração. (1º CONGRESSO BRASILEIRO DO ESPIRITISMO DE UMBANDA, 1942, p. 111-125).

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ANEXO 6

Verifica-se, portanto, que, até os anos de 1900, 1904, 1916 e 1917, estes autores em pesquisas e apurados estudos, na época em que os Candomblés conservavam-se mais puros, NÃO CONSEGUIRAM ENCONTRAR O VOCÁBULO UMBANDA SIGNIFICANDO COISÍSSIMA ALGUMA. ERA INEXISTENTE. Entretanto, pelas alturas de 1934, o ilustre Prof. Arthur Ramos, em seu livro "O NEGRO BRASILEIRO", averiguou já existir a palavra Umbanda, e na página 102 o faz da seguinte forma:

"Registrei os termos umbanda e embanda (do mesmo radical mbanda), nas macumbas cariocas, mas de significações mais ampliadas. Umbanda pode ser feiticeiro ou sacerdote". (Acrescenta ainda: "ou ter a significação de arte, lugar de macumba ou processo ritual". Isto cabe dentro do estudo que H. Chatelain fez sobre a palavra Umbanda. (Ver pág., 89).

Todavia, o Prof. Arthur Remos, quando fez esse "registro: sobre a palavra Umbanda, não o fez com a convicção de tê-la POSITIVAMENTE encontrado com o significado de feiticeiro ou sacerdote e etc., tanto que baseia-se no radical "mbanda", porque havia robustecido o seu conceito, louvado mais no que diz o Sr. HELI CHATELAIN em "FOLK TALES OF ANGOLA _ 1894‖, (Folk Tales of Angola", de Heli Chatelain ) página 268, sobre o mesmo radical MBANDA em relação com os termos Quimbanda (Ki-mbandai) e Umbanda 113


(U-mrbanda). Para isto, na mesma página 102, faz a transcrição do texto original (em inglês) no qual se arrimou. (6) E, para que se verifique que: este autor não encontrou o vocábulo Umbanda com seus significados claros e positivos nas "macumbas" por onde pesquisou, isto é, que o SIGNIFICADO VERDADEIRO desta palavra ERA DESCONHECIDO, observe-se a maneira vaga e imprecisa das informações que obteve quando, na mesma página, diz que: "Linha de Umbanda" dizem ainda os negros e mestiços cariocas, no sentido de prática religiosa, embora outros me afirmassem que Umbanda era uma "nação" e alguns, um espírito poderoso da "nação" de Umbanda... Está claro, portanto, que nem nos candombl��s, nem nas ―macumbas cariocas", ninguém sabia até aquela época, o VALOR REAL da palavra Umbanda. Apenas foi constatada sua existência súbita nos "meios", pois que, quando interrogados, não sabiam dar mais do que VAGAS EXPLICAÇÕES... É ainda Arthur Ramos que confessa (pág. 146): "Em suma, já não existem, no Brasil, os Cultos Africanos puros de origem: (nunca existiu no Brasil há séculos que deixaram de existir, em sua pureza original, no sem próprio habitat). Em alguns Candomblés, principalmente na Bahia, a tradição gêge-nagô é mais ou menos conservada. Mas não se pode deter a avalanche de sincretismo. Os vários cultos africanos se amalgamaram a princípio entre si, e depois, com as religiões brancas: o catolicismo e o espiritismo. De modo que temos, em ordem crescente de sincretismo:

1º - gêge-nagô 2º - gêge-nagô-muçulmi 3º - gêge-nagô-bantu 114


4º - gêge-nagô-muçulmi-bantu 5º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-cabo'clo 6º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-caboclo-espírita 7º - gêge-nagô-muçulmi-bantu-caboclo-espírita-católico.

O Sr. EDISON CARNEIRO, em sua obra "RELIGIÕES NEGRAS" - 1936, corrente com o Sr. Arthur Ramos, na pág. 96, diz que: "Num Candomblé de Caboclo, consegui registrar as expressões umbanda e embanda, sacerdote, do radical mbanda", dando apenas num cântico a "fonte" desse registo:

Ké ke min ké umbanda Todo mundo min ké Umbanda

Mas, por estranho que pareça, o mesmo autor, em seus ―CANDOMBLÉS DA BAHIA", quer na edição de 1948, quer nesta última 2.a edição, de 1954, revista e ampliada, com suas 239 páginas, não faz uma única referência ao termo UMBANDA nem tampouco a EMBANDA e, note-se, contém um "VOCABULÁRIO DE TERMOS USADOS NOS CANDOMBLÉS DA BAHIA com mais de 200 DESTES TERMOS E RESPECTIVOS SIGNIFICADOS. Nessa obra, o autor esmiúça crenças, costumes, práticas, etc.. (MATTA E SILVA, ―Umbanda de todos nós‖, 1992, p. 10-12)

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ANEXO 7

... com a anteposição do simples prefixo ―U‖, transformou-se completamente o significado da palavra, ou seja, de um substantivo puramente personalista e individual (sacerdote-feiticeiro), passou a ser substantivo absoluto e eclético (faculdade, ciência, arte, ofício, etc.). Cremos que não se faz necessário entrar em maiores dissertações para descobrir, claramente, que existe certa ingenuidade na asserção ―daqueles‖ que querem ensinar Umbanda como representando feiticeiro ou sacerdote, ingenuidade essa que se pode traduzir até por precipitação. (MATTA E SILVA, ―Umbanda de todos nós‖, 1992, p. 35)

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ANEXO 8

“ORIGEM REAL, CIENTÍFICA E HISTÓRICA DA PALAVRA UMBANDA”

O Alfabeto Adâmico ou Vatan, que originou todos os outros, tem sua própria base nas cinco (5) figuras geométricas fundamentais, ou seja: o PONTO, a LINHA, a CIRCUNFERÊNCIA, o TRIANGULO e o QUADRADO, que, em suas correspondências essenciais, FORMAM ou SIGNIFICAM: ADAM - EVA - ADAMA ou Adão-Eva-Lei ou Regra, de acordo com os valores e a própria expressão fonética destas 5 figuras no dito alfabeto Adâmico, que se pronunciam precisamente como se formam, da seguinte maneira, em linha horizontal (ou em linha vertical, lendo-se de baixo para cima, conforme era escrita a língua) :

isto é, o mesmo que ADAO - EIV A - LEI ou REGRA, ou seja ainda, por analogia, PAI- MÃE - FILHO, ou mais explicitamente: o Princípio Absoluto (ADÃO) que atuou na Natureza (EVA) gerando o Mundo da Forma (REGRA). Estas citadas figuras fundamentais dão a base para a formação de TRÊS (3) 117


CONJUNTOS GEOMÉTRICOS:

1.0)

esta figuração geométrica é a correspondência fonética de AUM (OM) ou UM

(que significa Deus ou o Supremo Espírito) assim subdivididas: a U ou V no alfabeto Adâmico; a

(círculo) correspondente

(linha singela), corresponde ao A simples e o ·

(ponto), corresponde ao M ou O no citado alfabeto; 2.0)

(linha), encerrada no círculo, servindo-lhe de diâmetro (que é a forma

gráfica do B ou BA no Adâmico ou no Ariano) cuja correspondência é A ou AN ou BAN, que significa originalmente - CONJUNTO - PRINCÍPIO - LIGAÇÃO; 3.0)

(linha singela e ângulo), que corresponde a A e D ou ADAM ou ADÃ ou

AD ou, por metátese, DA, que significa LEI no sentido de Lei Universal. Formaremos, então, a seguinte figuração geométrica:

que é igual a DEUS - CONJUNTO - LEIS, ou seja, CONJUNTO DAS LEIS DE DEUS ou ainda ADAM-EVA-LEI. Esta figuração é a representação MORFOLÓGICA e GEOMÉ'TRICA ORIGINAL DO VOCABULO UMBANDA, cujos sinais se aglutinam em sentido vertical ou horizontal e traduzem a forma real da palavra "perdida" - UMBANDA - que a tradição e os Iniciados falam, mas que não dizem como "perdeu-se", isto é, foi esquecida a sua grafia, origem e significado. Assim, representemos melhor as suas correspondências fonéticas: 118


Estes caracteres são encontrados ainda no alfabeto Ariano e nos sinais védicos (os Brahmas, conservaram apenas a primeira representação gráfica, o AUM, que dizem ser a "palavra impronunciável" que invocam nos mistérios dos seus cânticos litúrgicos, sagrados) e, SÃO EXATAMENTE como estão formados acima a mesma palavra UMBANDA na GRAFIA DOS ORIXAS - Os Sinais Riscados da Lei de Pemba. A verificação da eufonia destes caracteres pode ser feita também através do Arqueômetro, quer no próprio aparelho, quer na figura, bem como na própria lexiologia que é dada no livro. Na Federação Espírita Brasileira, deve existir um aparelho arqueométrico doado por A. Leterre, onde os estudiosos e duvidosos poderão comprovar a veracidade de nossas asserções. Devemos, desde já, avisar a todos os leitores e pesquisadores que desejarem investigar este aparelho, o fazerem munidos de conhecimentos hermenêuticos ou de alguém portador dos mesmos, pois assim procedemos quando procuramos averiguar esta Revelação, que originalmente nos foi feita pelo Astral Superior da Lei de Umbanda. 119


OBS.: o som original do "B" sempre existiu em sua origem, com sua própria representação gráfica. Esta, no Vatan ou no Ariano, mudava de posição de acordo com a vogal que lhe desse o som; era BA, ou BE, etc., quando a vogal dava sons labiais. Porém, quando a vogal, que lhe desse o som formasse uma sílaba ou fonema nasal, era, de conformidade com a Lei do Verbo, representado numa esfera ponteada e assim traduzia exatamente o som de BAN. Esta sonância constituía a ligação fonética da verdadeira pronúncia, representada pela junção de três sons em uma só palavra, que expressava, por si só, a própria Regra do Verbo (a forma de aglutinar estes sinais, sons ou fonemas - do termo Umbanda - era guardado hermeticamente e de uso exclusivo dos magos e sacerdotes primitivos. Dentro desta aglutinação a linha singela e o triângulo se pronunciavam também como ADA ou DA) . Mais tarde, quando dos últimos cataclismos históricos e naturais, houve necessidade de transmitir este som às gerações vindouras, e, para isso, impôs-se nova criação gráfica que o representasse isoladamente, criação esta traduzida mais tarde, pelo advento das línguas grecolatinas, para a grafia moderna, na letra que conhecemos como o "B". Cremos, e nada nos contesta, que o maior depositário desses conhecimentos, teria sido JETRO, sábio sacerdote de pura raça negra, sogro de Moisés, conhecedor profundo das quatro ciências hierárquicas, e onde o dito Moisés bebeu os conhecimentos mágicos e religiosos, inclusive o significado real dessa palavra UMBANDA, que mais tarde, na sua Gênese, traduziu por ADAO - EVA -LEI que nada mais são que os princípios fundamentais da própria Lei de Deus. Antes de prosseguirmos em nossa dissertação, devemos mencionar também o "X", como letra oculta ou Hermética, de uso dos sábios e Iniciados; cuja designação identificava, para eles, a Revelação da Verdade. 120


Temos, assim, que as quatro hierarquias das ciências originais eram representadas pelas QUATRO LETRAS DO NOME DE DEUS: IEVE (segundo a pronúncia, IEOA), ou seja, JEHOVAH, que, por sua vez, era representado pelo "X" algébrico, que constituía a VERDADE OCULTA. Este SINAL era a CHAVE de identificação entre si, de uma Lei (Karmânica), que ligava as Causas aos Efeitos entre as sete Variantes da Unidade, ou seja, o chamado setenário. Vamos então demonstrar, com mais uma prova, o TRIGRAMA PERDIDO que a LEI DE UMBANDA REVELOU dentro de suas SETE VIBRAÇÕES OU LINHAS, que se traduzem da seguinte forma:

OYYXOOY que é igual a OXY, que ainda é o próprio PRINCÍPIO DO CÍRCULO CRUZADO.

Ora, todos os estudiosos sabem que nas antigas Academias, a letra inicial era a que tinha correspondência mais direta nas figuras geométricas originais e davam a base para a composição dos termos litúrgicos e sagrados. Essas 7 letras ou caracteres são as primeiras nos termos que identificam as 7 Linhas da Lei de Umbanda, que se reduzem a 3, por serem, somente estas, as diferentes entre si. Assim, temos o "

" como Círculo, o "X" como Linhas Cruzadas (como a cruz deu a

vibração principal na era cristã), e o "Y" como Triângulo aliado à Linha vertical, o que, por assimilação, ou seja, por transposição de sinais ou figuras representativas, a seguinte composição:

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Que é igual a

Temos assim, exatamente, as mesmas figuras que no diagrama original: um Círculo, três Linhas, um Angulo e um Ponto. Figuremos melhor agora, a dita correspondência num simples esquema:

Devemos esclarecer mais ainda ao leitor, que OXY são as três figuras ou os três caracteres ou LETRAS que dão a BASE (como dissemos acima) para a formação dos termos litúrgicos, sagrados, vibrados, místicos, que identifica as SETE VIBRAÇÕES ORIGINAIS ou as SETE LINHAS em relação com os SETE ORIXAS que chefiam cada uma das ditas Linhas. 122


Isso será bem compreendido no mapa nº 2 da NUMEROLOGIA, que PROVA pelos NÚMEROS como se correlacionam na DIVINDADE. Assim, verão também no mapa n.o 1, do Princípio do Círculo Cruzado como a Unidade se manifesta pelo Ternário e daí gera o Setenário, de acordo com o cruzamento do círculo. Devemos chamar atenção aos estudiosos, que o dito mapa da Numerologia é inédito, e o do Princípio do Círculo Cruzado, apesar de haver aproximação na literatura do gênero, conforme o apresentamos, não é conhecido. Isso posto, leitor irmão, principalmente se fores umbandista, lê e relê, compara e torna a comparar, pensa e medita; não passes essas páginas "ao corrido", como se a "coisa" fosse muito complicada, porque agora vamos demonstrar como os 7 Orixás aferem nas Vibrações ou Linhas e como se desdobram na Lei, principalmente na mediunidade dita incorporativa. Antes, porém, vamos identificar o dia da Umbanda como o 22 de Março, data altamente esotérica, pois a própria KABALLA tem como potência, o número 22. (MATTA E SILVA, 1956, p. 37-45)

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ANEXO 9

Na sua origem a Umbanda desenvolve mais aqui no Brasil, onde se proliferou devido as imigrações africanas com vários cultos de diversas regiões ou aldeias daquele continente, professando e respeitando a doutrina de uns aos outros. Dentro dos quilombos então foi que se deu a conjunção de raças ou vários cultos ante da liberdade ao apoio, chegando assim pretos de várias nações, para pregarem os seus rituais o que era aceito pelo chefe do' quilombo. Então quando foram destruídos, encontraram imagens dos santos católicos como: São Benedito, Santa Efigênia, N. S. Aparecida que adotaram com muita precisão, aonde foi apoiada como a padroeira do Brasil; considerada também pela sua epiderme, a padroeira dos negros. Nas escamas do peixe, encontramos a imagem de Santa Efigênia, que até hoje se pode ver. A origem do culto Omolocô vem do sul de Angola, sendo uma pequenina às margens do rio Zambeze que o tem como Zambi, que lhes dava a alimentação necessária, proveniente das enchentes. O seu culto baseia-se nos efeitos da natureza. É um culto muito grande com ritual e preceitos ricos na espiritualidade, surgindo daí muitos folclores que fazem parte dos grupos Bantus. A fim de trazer aos nossos leitores coisas que nos permitem trazer à público, nossa kabalah, que é a força da magia e erroneamente interpretada, sendo por muitos que não a conhecem dividida na forma de: Magia Preta ou Magia Branca, o que na verdade não acontece, porquê Magia é a força do poder oculto. 124


O povo Lunda Quiôco, que é de onde nasceu o culto do Omolocô, sendo esse nome composto de 7 (sete) letras. A Umbanda também composta de 7 (sete) letras, que juntadas: 7 + 7 = 14 = 1 + 4 = 5, como o número representativo da força espiritual, 7 (sete) representando o poder espiritual que está dentro da natureza, dando a devida força para este planeta . Juntando os números 7 + 5 = 12, obtemos o número doze, que representa os doze toques quando a pessoa se inicia, que são em número de sete dias, a saber: Três eras que se passa na Camarinha recebendo a devida purificação, e quatro dias guardando o devido preceito que lhe é atribuído, para o iniciado poder prosseguir na aprendizagem dentro do culto que abraçou, respeitando a sua vocação. Temos o fruto sagrado que é Obí-Orobô de quatro quinas, que a pessoa iniciada come 1/4, sendo os 3/4 restantes da fruta repartidos entre Tata Ti Enkice que o iniciou, juntamente com padrinho e madrinha. No fim de cada ano, procede-se com a mesma operação da fruta, seu sagrado ritual, seus preceitos, para que no final vinte oito anos (28), a pessoa possa fechar o seu ciclo. Depois que a pessoa se inicia, passa a tomar o seu nome de origem no culto, de acordo com seus conhecimentos vai assumindo sua responsabilidade, para que no final de sete anos de feitura possa escolher sua vocação recebendo o seu nome na força para o homem. Antes de ser iniciada uma pessoa, o Tata Ti Enkice fará o jogo dos búzios para certificar da missão daquele espírito, o que tem a cumprir, determinando assim o seu grau na mediunidade e a vocação que receber aqui na terra, ou até onde pode chegar sem adulterar o seu destino. Por isso, todos nós pelo grau mediúnico temos os nossos graus na classificação mediúnica. Quando a pessoa que foi iniciada comer Três Obís e que se dará num ciclo de vinte e 125


um anos (21), ela escolherá o seu livre arbítrio, porque a pessoa só pode chegar até onde aprendeu. Se for homem passara a ser chamado de Iaboré; se for mulher passará a ser chamada de Iawô, isto no primeiro ano da iniciação, passando do segundo ano em diante outros nomes, caso a pessoa iniciada não venha deixar de fazer cumprir com suas devidas obrigações. Nós temos o roncó, local onde se inicia a pessoa, sendo portanto a sala de liturgia; encontramos no seu interior os vultos e assentamentos dos santos de origem no nosso culto. Ali, depois de jogar e verificar todos os pormenores, é que a pessoa dará o seu primeiro passo. Todos êsses passos se dão no Roncó. Para deitar o iniciado, ocupamos sete (7) pessoas que vão debaixo do Alá, a saber: O Tata Ti Enkice que é o que procede como sacerdote da iniciação, Quatro (4) Sambas. O Padrinho e a Madrinha, os quais regressa em número de seis pessoa, representando assim a kabalah do mestre que é o número 6 (seis), ficando o iniciado cumprindo a sua obrigação na Camarinha. Só podem pegar no Alá, e ser padrinho ou madrinha, os que tenham suas iniciações no culto, exceto o caso onde isso não se dá colocamos outras pessoas. (SILVA PINTO, 1970, p. 9-11)

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ANEXO 10

O vocábulo origem tem como sinonímia, como significado: princípio, nascimento, procedência, etc. Tomemos a sinonímia Princípio. A Umbanda como Princípio, é a própria "Lei Divina em Ação", que tem sua origem no Plano Astral, através dos 7 Orixás Planetários ou Ancestrais. Estes Fundamentos da Lei Divina aplicados à Humanidade Terrena, para serem firmados, consolidados, foram revelados às primeiras Raças a habitarem a Terra... Essas Raças foram solidificando-os através de uma Tradição-Una, isto é, Princípio que velava e revelava a unidade da Religião Cósmica, expressa no Amor e Sabedoria. (Tradição Cósmica) Nesta época havia a Umbanda ou o AUMBHANDAN que foi, e é, a Proto-Síntese Cósmica, que reúne o Amor e Sabedoria Cósmicos. Como os Irmãos de Fé podem aquilatar, não havia um Conhecimento fragmentado. O Divino, a Natureza e suas Leis eram a própria Tradição-Una - A Proto-Síntese Cósmica. A Sabedoria e o Amor eram unos. Não se era Puro sem ser Sábio, e vice e versa. Se o Sábio era Puro e o Puro era Sábio, é porque esta era uma condição natural, eram intrínsecas, inseparáveis, formavam um todo. Esse todo era o Aumbhandan - A Condição Natural do Ser Espiritual, que possuía o, Amor e Sabedoria unos, indistinguíveis. Então, quando afirmávamos que a Proto-Síntese Cósmica era o Amor e a Sabedoria, já 127


havia acontecido a primeira cisão. Sim, a Sabedoria, que mais tarde se dissociaria em Filosofia e Ciência, separara-se do Amor que por sua vez, dissociara-se em Arte e Religião. A Proto-Síntese Cósmica que era Una. Natural, Espiritual, pois não se fragmentava, tinha em si o Amor e a Sabedoria Cósmicos Unos, não dispersos, se fragmentou em Amor e Sabedoria. Esta foi a 1ª fragmentação – a 1ª cisão. O Uno se Dualiza. É dessa dualização, que concluímos, surgiram todas as demais deturpações, inclusive a dicotomia da Sabedoria que se dualizou em Ciência e Filosofia. O mesmo acontecendo com o Amor que se dualizou em Arte e Religião. Após esta dissertação, percebe-se que a finalidade do Aumbhandan, nos primórdios, nas primeiras Raças, era um Conjunto de Leis Educativas que mantinha a unicidade do Homem/Espírito. Eram Leis Regulativas de um karma, mas que se encontrava em equilíbrio, pois o Homem venerava a Natureza, respeitando sua Natureza Física, como venerava o Divino, pois era o verdadeiro elo de ligação com sua própria Essência Espiritual. Examinemos, após discorrermos sobre a origem, o léxico finalidade. Esse vocábulo tem como sinônimo: Objeto, alvo, destinação. Praticamente já respondemos sobre as finalidades ou objetivos do Aumbhandan ou Umbanda, mas, reforçando, diremos que o mesmo teve como função principal, através dos 7 Orixás Planetários, estender às Raças Primevas, a Tradição Espiritual o Caminho, a Via de Retorno ao Reino Espiritual ou Cosmo Espiritual. Nossos prezados Leitores e Irmãos de Fé, após nossa dissertação, a qual acompanharam em todos os seus pormenores, devem ter percebido que falamos do AUMBHANDAN - da Proto Síntese Cósmica e não do que fazemos hoje em nossos Templos. Atualmente, fazemos Movimento Umbandista, assim como outros fazem Movimento Budista, Movimento Católico, Movimento Kardecista, Movimento Protestante, mas que, segundo o 128


grau consciencial de seus adeptos, buscam o AUMBHANDAN - O Conjunto das Leis Divinas.

NOTA COMPLEMENTAR

Há dois universos de evolução para os Seres Espirituais. No Universo Espiritual que tem como sinonímia Reino Virginal ou Cosmo Espiritual, evolui-se através do Karma Causal. O outro denomina-se Universo Astral, também chamado Reino Natural. No Cosmo Espiritual havia o Princípio Espiritual Uno (Essência). Este Princípio reunia de forma una o Amor e a Sabedoria. Assim, Amor e Sabedoria não existiam separados, não eram conhecidos dissociados. O Princípio Espiritual tinha o Amor e Sabedoria Unos, não distintos, indistinguíveis. Só tiveram existência, quando do rompimento do Princípio Espiritual Uno. Este rompimento gerou o Karma Causal, que é Lei Regulativa, a Lei Divina aplicada no Cosmo Espiritual. Embora, o Princípio Espiritual tenha se polarizado, o mesmo não estava separado. Os Seres Espirituais possuíam, no Reino Virginal ou Cosmo Espiritual, Amor e Sabedoria, embora distintos, polarizados, não estavam separados, eram existentes (Existência). 129


Visando o retorno ao Principio Espiritual Uno, o Ser Espiritual teve necessidade de experimentar o Reino Natural, o Universo Astral, onde o Amor e a Sabedoria estavam separados (Substância). No Universo Astral ou Reino Natural, em seus diversos loci cósmicos, visando sanar tal anomalia, teve de surgir o Karma Constituído. A finalidade do mesmo é, em primeira instância, fazer retornar o Ser Espiritual a unidade, isto é, o Amor e Sabedoria Cósmicos não desassociados. No Universo Astral relativo à nossa galáxia, em especial em nosso Sistema Solar, no Planeta Terra, a Lei Regulativa denomina-se AUMBHANDAN - que é a manifestação do Amor e Sabedoria Cósmicos. Desde o início dos tempos, relativo ao planeta Terra, tivemos várias cisões, cismas, deturpações e interpolações no Amor e Sabedoria Cósmicos. É digno de menção que, no Reino Natural, o nível de inversões e cisões do Amor e Sabedoria Cósmicos definem o maior ou menor comprometimento do Ser Espiritual. É esse grau de comprometimento que qualifica o seu "habitat" no Reino Natural. No planeta Terra, o resgate é feito através do AUMBHANDAN, que é o Conjunto das Leis Divinas em ação. Como o Amor e Sabedoria Cósmicos estão cindidos, descaracterizados, pois se perdeu a unidade, há blocos dissonantes, que são arremedos, fragmentos denominados: Ciência e Filosofia (Sabedoria) em que há outras subdivisões, as quais se afastam ainda mais da unidade da Sabedoria. O mesmo acontece com a Arte e Religião (Amor) que também se subdividiram, aniquilando a unidade, a síntese. Após estas explanações, conclui-se que, o Karma Constituído, relativo ao planeta 130


Terra tem como escopo fazer todos atingirem o AUMBHANDAN - A Proto-Síntese Cósmica que é o Amor e Sabedoria Cósmicos. Devido às diversas subdivisões, que geraram tremendas confusões de ordem moralespirítica, o Governo Oculto do Planeta Terra, seus 7 Espíritos Planetários (Orixás Ancestrais) sob a égide de Oxalá - O Cristo Jesus - incrementaram vários Movimentos Espiríticos por todo o planeta. Esses Movimentos Espíriticos ou Mistico-Filosóficos, as denominadas Religiões, visam resgatar a unidade perdida. Interessante, e digno de se mencionar e meditar, é que o Ser Espiritual terreno não apresenta uma só característica fenotípica, morfológica, genética. Na verdade há quatro grandes grupos raciais, quais sejam: o Negro; o Vermelho; o Amarelo e o Branco. Embora haja a miscigenação entre todos, a mesma ainda não é patente. Para nós, tal quantidade de Raças explica a causa da unidade, que acreditamos será reconstituída através da miscigenação étnico-racial. Dissemos dos Movimentos Espiritualistas, todos, sem exceção, recebem e emitem informações desde o século XVI ao Movimento Umbandista, surgido e forjado aqui no Brasil, mas que já se manifesta, com outras vestimentas, em todo o planeta. O Movimento Umbandista no Brasil é o grande amortecedor sócio-racial kármico, e indutor da miscigenação cultural, social, política, econômica e racial, a qual, em futuro, fará surgir uma nova Raça, a Raça-Una, que através do Movimento Umbandista resgatará o AUMBHANDAN - a Proto Síntese Cósmica - o Amor e Sabedoria Cósmicos. Após estas nossas alusões, relembramos ao Leitor Amigo que em nossa obra, Lições Básicas de Umbanda - Capítulo I há as minúcias exotéricas, externas do surgimento do

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Movimento Umbandístico, como há também fatores propedêuticos deste nosso Capítulo. (RIVAS NETO, 1996, p. 50-55)

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ANEXO 11

Há no Espiritismo, como em qualquer outra manifestação do sentimento religioso, dois aspectos: um externo ou exotérico e outro interno ou esotérico. O aspecto externo, exotérico, é o que se acha ao alcance dos nossos sentidos físicos, o que consiste de cerimônias, solenidades, ritual, preces, orações. O aspecto interno ou esotérico está no significado das cerimônias, solenidades, rituais etc. O esoterismo de um culto religioso, até certo ponto, exprime-se na doutrina. Dissemos até certo ponto porque nem sempre a doutrina refere-se inteiramente ao lado esotérico das práticas religiosas. Citemos um exemplo. A prática ritualística do espiritismo Kardecista tem por finalidade estabelecer relações mais estreitas entre as criaturas que estão no mundo físico e as desencarnadas. Para isso utilizam-se os médiuns, há concentração de pensamento, recitam-se preces etc., em reuniões realizadas em ambientes apropriados. Essas práticas são visíveis. A doutrina explica-nos porque elas se realizam, diz-nos qual o sentido das mesmas, mas não nos esclarece a respeito da maneira como se dão as relações com as almas desencarnadas. (CRUZ, 1953, p. 9)

Disse ainda: se a doutrina revelasse todo o aspecto esotérico do Espiritismo, não haveriam divergências nas interpretações dos princípios e dos fenômenos, pois o que 133


caracteriza o fundamento oculto ou esotérico de qualquer doutrina espiritualista é uma unidade de princípios. (CRUZ, 1953, p. 10)

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ANEXO 12

A Umbanda, assim como todas as antigas ordens e escolas ocultistas, a sua doutrina, ciência e filosofia, é constituída em duas partes: uma esotérica e outra exotérica; isto é, uma parte oculta destinada e reservada para os homens que estão preparados e em condições de receberem a luz da iniciação; e a outra parte, a exotérica, esta revelada como religião, segundo o aperfeiçoamento, mentalidade e cultura do povo. (MAGNO, 1962, p. 7-8)

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ANEXO 13

Assim, sucintamente, analisemos dois aspectos de um mesmo evento, os dois ângulos de um mesmo fenômeno. Estes dois ângulos ou aspectos são denominados, exotérico e esotérico. Recorrendo-se a etimologia das palavras encontramos os radicais Exo e Eso, as coisas externas e internas, respectivamente. Em suma, a forma e a essência, o superficial e o profundo, o regional e o cósmico. No rela propósito de melhor perceber-se os aspectos exotéricos e esotéricos, faremos um estudo analógico, diversas analogias que melhor ilustrarão nosso estudo. Iniciaremos nosso estudo analógico com as duas fases do dia terrestre. A fase solar, fase da luz é tida como real, sem véus, sem mitos, portanto, esotérica. A fase Lunar, ou fase da sombra é tida como ilusória, irreal, mitológica. São o dia e a noite. A Luz Solar (real) e a Luz lunar (irreal). Não fica difícil o entendimento do processo analógico exemplificado, pois sem instrumentos ópticos adequados não se consegue mirar o sol sem lesar os olhos. Ao contrário, podemos olhar a luz lunar sem traumas, visto a mesma ser luz solar polarizada, amenizada. A Luz solar é para nós a luz da verdade, que como o Sol pode nos cegar se não tivermos preparados ou equipados para tanto (grau consciencial). A analogia, Luz lunar com a noite, imaginação, irreal ou atenuação da Luz da verdade, 136


são formas ou meios, para sem traumas, demonstrar a realidade aos não preparados a enxergalá. É o que acontece com o Sincretismo (concepção heterogênea), com o mito, superstições. É na verdade uma linguagem preparatória a outras fases, a "Fase do Sol" (aspectos internos, cósmicos). Após este estudo preliminar, conceituemos as expressões: exotérico e esotérico. Exotérico é o externo, comum, ordinário, mítico, profano. Esotérico é o interno, incomum, secreto, oculto, cósmico, iniciático. São estes dois aspectos que tentamos expressar, pois este livro pretende discutir aspectos esotéricos ou herméticos desta Umbanda de todos nós. Antes de penetrarmos nos conceitos herméticos, continuemos exemplificando. A própria Natureza se manifesta em dois níveis. Manifesta-se de forma concreta, tangível, visível. O Reino Mineral, Vegetal, Animal e Hominal são os aspectos concretos da Natureza. O outro aspecto é o abstrato, invisível, intangível e impalpável. O Reino dos Elementares, a região da matéria astral, as várias esferas hiperfísicas, as Aldeias Espirituais, as contrapartes etereofísicas da Natureza material, propriamente dita. O mesmo acontece com as Forças Sutis ou vitais, base, próto-forma, arquétipo de toda a Natureza Física e Hiperfisica. Após estes aspectos fisiogônico, da própria Natureza, expressos no exotérico e esotérico, partamos para os aspectos androgônicos. No "contexto homem" temos o aspecto visível e tangível, os aspectos manifestos, expressos no Corpo Físico denso. Há também os aspectos invisíveis, expressos nos organismos dimensionais (Organismos Astral e Mental). O Psiquismo pode ser dividido em aspectos sensível e latente. O sensível é representado pelo aspecto consciente da psiquê, isto é, aspectos visíveis, palpáveis. O latente é representado pelos aspectos subconscientes, inconsciente e supraconsciente, os quais são aspectos impalpáveis, não visíveis, etc. 137


Na verdade, os aspectos exotéricos e esotéricos seriam melhor expressos na Forma e Essência, respectivamente. Ao contrário do que se pode imaginar, o concreto e o abstrato não se chocam, não se neutralizam, se complementam. O choque é aparente, pois tudo no Universo se completa, se complementa no equilíbrio. Não há porque criticar-se algo, pois o mais importante é entender que tudo faz parte da "Verdade Absoluta ou Integrar', da Unidade, a qual é adaptável aos vários graus conscienciais. É a tão famosa Lei das Correspondências ou dos Análogos, pois desde a Luz Divina até a temporária e ilusória treva total (que, de forma absoluta, não existe) obedecem à Lei. E pela Lei das Correspondências tudo se corresponde, tudo tem seus paralelos. O "mais alto" se corresponde ao "mais baixo", fazendo com que a manifestação seja una. É o famoso equilíbrio ou harmonia dos opostos. (Rivas Neto, 1996, p.20-22)

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ANEXO 14

O Espírito puro é, pois a substância pura dos ―espíritos‖ ou entidades astrais, que tanto podem ser os arcanjos, anjos, serafins, etc. como os habitantes astrais dos planetas, que não são criaturas, como os habitantes astrais da terra, que não são humanos, como também as almas humanas. (CRUZ, ―Esoterismo de Umbanda‖, 1953, p. 28)

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ANEXO 15

Quando falamos Seres Espirituais, queremos nos referir não apenas aos Espíritos tanto encarnados como desencarnados no Reino Natural ou Universo Astral; também são Seres Espirituais aqueles que não desceram das infinitas regiões do Cosmo Espiritual ou Reino Virginal, onde evoluem, como vimos, isentos de qualquer veículo composto de Substância Etérica. Tanto os Seres Espirituais PUROS, isto é, isentos de qualquer veículo, no Reino Virginal, como os Seres Espirituais que já estão com veículos de exteriorização de sua consciência, percepção, desejos, etc., através da Substância Etérica, são de uma natureza diferente, quer seja do Espaço Cósmico, quer seja da Substância Etérica ou da energia condensada a vários níveis. É também importante salientar que, ao contrário da matéria, os Seres Espirituais não se desintegram, não estão sujeitos aos processos associativos ou dissociativos tão comuns na matéria. Com isso, afirmamos que os Seres Espirituais ou Espíritos são Eternos, Incriados e Indestrutíveis, sendo, pois sua Natureza Vibratória distinta da Setessência da matéria, ou seja, os Espíritos não são nada daquilo que seja inerente à matéria, mormente em seus processos de transformação, tal como as transformações da matéria densa para as mais sutis, como por exemplo, no fenômeno da morte física ou desencarne. (RIVAS NETO, 1989, p. 27)

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ANEXO 16

A Linha Branca de Umbanda e Demanda, compreende sete linhas: a primeira de Oxalá; a segunda de Ogum; a terceira, de Euxoce; a quarta, de Xangô; a quinta de Nha-San; a sexta de Amanjar; a sétima é a linha de Santo, também chamada de Linha das Almas. Essas designações significam, na Língua de Umbanda: a primeira, Jesus, em sua invocação de N. S. do Bonfim; a segunda, São Jorge; a terceira, S. Sebastião; a quarta, São Jerônimo; a quinta, Santa Bárbara e a sexta, a Virgem Maria, em sua invocação de N. S. da Conceição. A linha de santo é transversal, e mantém a sua unidade através das outras. Cada linha tem o seu ponto emblemático e a sua cor simbólica. A de Oxalá, a cor branca; a de Ogum a encarnada; a de Euxoce, verde; a de Xangô, roxa; a de Nha-San, amarela; a de Amanjar, azul. Oxalá é a linha dos trabalhadores humílimos; tem a devoção dos espíritos de pretos de todas as regiões, qualquer que seja a linha de sua atividade, e é nas suas falanges, com Cosme e Damião, que em geral aparecem as entidades que se apresentam como crianças. A linha de Ogum, que se caracteriza pela energia fluídica de seus componentes, caboclos e pretos da África, em sua maioria, contém em seus quadros as falanges guerreiras de Demanda. A linha de Euxoce, também de notável potência fluídica, com entidades, freqüentemente dotadas de brilhante saber, é, por excelência, a dos indígenas brasileiros. A linha de Xangô pratica a caridade sob um critério de implacável justiça: quem não merece, não tem; quem faz, paga. A linha de Nhan-San

consta de desencarnados que na existência térrea eram

devotados de Santa Bárbara. 141


A linha de Amanjár é constituída dos trabalhadores do mar, espíritos das tribos litorâneas, de marujos, de pessoas que perecem afogadas no oceano. A Linha de Santo é forma de pais de mesa, isto é, de médium de ―cabeça cruzada‖, assim chamados porque se submeteram a uma cerimônia pela qual assumiram o compromisso vitalício de emprestar o seu corpo, sempre que seja preciso, para o trabalho de um espírito determinado, e contraíram ―obrigações‖, equivalentes a deveres rigorosos e realmente invioláveis, pois acarretam, quando esquecidos, penalidades aspérrimas e inevitáveis. Os trabalhadores espirituais da Linha de Santo, caboclos ou negros, são egressos da Linha Negra, e tem duas missões essenciais na Branca – preparam, em geral, os despachos propiciatórios ao Povo da Encruzilhada, e procuram alcançar amigavelmente de seus antigos companheiros, a suspensão de hostilidades, contra os filhos e protegidos da Linha Branca. Por isso, nos trabalhos em que aparecem elementos da Linha de Santos, disseminados pelas outras seis, estes ostentam, com as demais cores simbólicas, a preta, de Exu. Na falange geral de cada linha figuram falanges especiais, como na de Euxoce, a de Urubatan, e na de Ogum, a de Tranca-Rua, que são comparáveis as brigadas dentro das divisões de um exército. Todas as falanges têm características próprias para que se reconheçam os seus trabalhadores quando incorporados. Não se confunde um caboclo da falange de Urubatan, com outro de Araribóia, ou de qualquer legião. As falanges dos nossos indígenas, com os seus agregados, formam o ―povo das matas‖; a dos marujos e espíritos da linha de Amanjar, o ―povo do mar‖; os pretos africanos, o ―povo da costa‖; os baianos e mais negros do Brasil, o ―povo da Bahia‖. As diversas falanges e linhas agem em harmonia, combinando os seus recursos para a eficácia da ação coletiva. Exemplo: 142


... Muita vez, uma questiúncula mínima produz uma grande desgraça... Uma mulatinha que era médium da magia negra, empregando-se em casa de gente opulenta, foi repreendida com severidade por ter reincidido na falta de abandonar o serviço para ir a esquina conversar com o namorado. Queixou-se ao dirigente do seu antro de magia, exagerando, sem dúvida, os agravos, ou supostos agravos recebidos, e arranjou, contra os seus patrões um ―despacho‖ de efeitos sinistros. Em poucos meses, marido e mulher estavam desentendidos, um, com os negócios em descalabro, a outra, atacada de moléstia asquerosa da pele, que ninguém definia, nem curava. Vencido pelo sofrimento e sem esperança, o casal, aconselhado pela experiência de um amigo, foi a um centro da Linha Branca de Umbanda, onde, como sempre acontece, o guia, em meia hora, esclareceu-o sobre a origem de seus males, dizendo quem e onde fez o ―despacho‖, o que e por que mandou fazê-lo. E, por causa desse rápido namoro de esquina, uma família gemeu na miséria, e a Linha Branca de Umbanda fez, no espaço, um de seus maiores esforços. Propiciou-se as entidades causadoras de tantos danos, com um ―despacho‖ igual ao que as lançou ao malefício, e, como o presente não surtisse resultado, por não ter sido aceito, os trabalhadores espirituais da Linha de Santo agiram, junto aos seus antigos companheiros de Encruzilhada, para alcançar o abandono pacífico dos perseguidos, mas foram informados que não se perdoava o agra a médiuns da linha negra. Elementos da falange de Euxoce teceram as redes de captura, e os secundou, com o ímpeto costumeiro, a falange guerreira de Ogum, mas a resistência adversa, oposta por blocos fortíssimos, de espíritos adestrados nas lutas fluídicas, obrigou a Linha Branca a recursos extremos, trabalhando fora da cidade à margem de um rio. Com a pólvora sacudiu-se o ar,

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produzindo-se formidáveis deslocamentos de fluidos; apelou-se, depois, para os meios magnéticos, e, por fim, as descargas elétricas fagulharam na limpidez puríssima da tarde. Os trabalhadores de Amanjar, com a água volatizada do oceano, auxiliados pelos de Nha-San, lavaram os resíduos dos maléficos desfeito e, enquanto os servos de Xangô encaminhavam os rebeldes submetidos, o casal se restaurava na saúde e na fortuna. (SOUZA, 1933, p. 61-65)

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ANEXO 17

Agora que situamos bem o que são Vibrações, Linhas e Orixás vamos determinar o sentido real da palavra Orixá s, vamos determinar o sentido real da palavra Orixá. Esta palavra, que é ORISHA ou ORISÁ, foi por contração, extraída da primitiva ORISHALÁ ou ORISA-NLÁ e tem sua origem nas línguas Árabes, Persa, Egípcia, Sânscrita, Vatan ou Adâmica etc., que havia chegado à raça negra, de outros povos, especialmente dos Árabes... assim ela foi abreviada para melhor aferir na pronúncia (o S yorubano ou nagô tem o som de CH ou X) .e vejamos então o que ela traduzia pela original ORISHALÁ ou ORISANLÁ ou ainda suas variações ORINCHAMALLAH ou ORICHALAH, que gerou ORIXALA, da maneira que pronunciamos ... Façamos a divisão em sílabas deste termo sagrado: a primeira, ORI, que é a mesma ORIN, vem de ILORIN e esta, de ELOHIM (A palavra AELOHIM do hebraico, que traduziram como Deuses, na Gênese, de Moisés, tem o seu "sentido real" de LUZ, ASTRALIDADE, etc. ), que significa a mesma ORI e interpreta-se como divindade, mas em sentido de astralidade. Exemplo: LUZ-Reflexo. A segunda, SHA ou SAN ou ainda CRAM ou CHÃ, que gerou CHA ou XA, que é igual ao SA sibilante do nagô, traduz-se como Fogo-Senhor-Dirigente. A terceira, ALLAH ou ALAH ou NLA ou LÃ, que os árabes chamam Deus e, nos alfabetos primitivos, têm o mesmo significado... até na língua Kanúri, dos ditos africanos, ALÃ quer dizer o CÉU, em sentido 145


místico. Juntando-se essas sílabas falantes, verificamos que os africanos, e nós também, a pronunciamos assim: ORIXALÃ, que significa A LUZ DO FOGO DIVINO ou LUZ DO SENHOR DEUS, que corresponde à Iluminados pela Divindade, pelo Conhecimento, pelo Saber, etc. Isso tudo bem compreendido, começamos por afirmar que SETE são realmente as LINHAS DA LEI DE UMBANDA, porque o 7 sempre foi, é e será cabalístico. É o número de "expansão e centralização" da UNIDADE. Todas as Escolas assim o consideram desde a antiguidade: Vejamos: as 7 forças fenomênicas, as 7 vogais, as 7 cores do espectro solar, as 7 notas musicais, os 7 Princípios do homem, os 7 dias de duração do dilúvio, as 7 Qualidades do Divino, os 7 dias da semana, as 7 Maravilhas do Mundo, os 7 Sábios da Grécia, os 7 Pães do cesto de Cristo, os 7 passos mais penosos de Jesus, as 7 palavras pronunciadas no alto da cruz, os 7 pedidos do Pai-Nosso, as 7 cabeças da Hidra de Lema, as 7 válvulas abertas de nossa cabeça, os 7 Degraus Maçônicos, etc. No Apocalipse, temos 7 Igrejas, 7 Espíritos, 7 Selos nos livros dos Profetas, 7 Anjos, 7 Trombetas, são 7 as Cabeças da Besta, 7 Candeeiros, 7 Lâmpadas, 7 Estrelas e ainda 7 em 7, são as fases crescentes e decrescentes do homem (da infância à velhice), pois o 7 é o número sagrado de todos os símbolos. É composto do Ternário e do Quaternário (3 mais 4 igual a 7) e dessa reunião sai a Síntese Universal ou as Variantes da Unidade e constitui o Sagrado Setenário. É o único número da década que não é gerador nem gerado. Começaremos então, por dar a identificação nominal das sete vibrações Originais que IRRADIAM E ORDENAM OS SETE ORIXAS DE CADA LINHA:

1 - VIBRAÇÃO DE ORIXALA (ou OXALÁ) 146


2 - VIBRAÇÃO DE YEMANJÁ 3 - VIBRAÇÃO DE XANGÔ 4 - VIBRAÇÃO DE OGUM 5 - VIBRAÇÃO DE OXOSI 6 - VIBRAÇÃO DE YORI 7 - VIBRAÇÃO DE YORIMA.

Desdobraremos seus reais valores em relação aos 7 Mediadores Siderais, aos 7 Planetas, às 7 Cores, às 7 notas musicais, às 7 Vogais e aos 7 dias da semana - de acordo com os 7 Orixás das 7 Linhas... valores estes desdobrados de sua origem fundamental. Os Valores Significativos destes Termos litúrgicos, mágicos, sagrados. vibrados, ou seja, a sua lexíología , está baseada e extraída TAMBÉM, segundo "chaves próprias" que nos foram reveladas, do inigualável estudo de Saint-Yves d'Alveydre, em sua obra "L'archeomètre", termos estes cujas correspondências são encontradas, por suas figurações "morfológicas e falantes" ,em Sílabas, sonância ou fonemas, expressando valores Sagrados nas antigas línguas, como sejam: a Vatânica (Watan ou Adâmica), nos Sinais Védicos, no Sânscrito e ainda, no Hebraico, Árabe, etc. (MATTA E SILVA, 1956, p.57-59)

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ANEXO 18

Nunca se falou tanto na codificação da religião de Umbanda, e sempre que tocamos neste assunto nos baseamos nas religiões que, sabemos, possuem suas normas de conduta codificadas em livros, as quais devem ser seguidas pelos adeptos que as praticam. As iniciações ocultas possuem igualmente, os seus fundamentos cimentados em princípios milenares. Estas normas e conceitos, codificados por eminentes, autênticos líderes, foram reunidos através dos tempos, segundo as necessidades da época, meio e aspecto social, tendo sempre como objetivo primordial orientar e preparar líderes que, em cada religião, época e meio, se expressem em forma autêntica e inconfundível, dando desta forma, continuidade aos seus fundamentos, assegurando a sua divulgação a um número cada vez maior de adeptos. Bem sabemos que a Umbanda precisa de um código de ética. Mas, eu pergunto: quem ditará as normas da tão almejada codificação? Homens ilustres? Doutores da lei de umbanda? Ou serão os filhos de carpinteiros, médiuns humildes que através de seus Orixás, guias e protetores apontarão as normas e conceitos capazes de gerar e planificar a codificação que lhes pertence por direito e justiça? Pare um pouco, Irmão de fé, em teu caminho, analise com justiça e sabedoria, e verás que a umbanda não é uma religião como as outras; ela não se resume em dogmas e rituais. A manifestação dos guias e protetores é mistério que qualificamos de magia, e se tentarmos 148


penetrar esses mistérios termos que recorrer forçosamente à ciência. (LOUZA, Ed. Espiritualista, p.75-76)

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ANEXO 19

Em primeiro lugar, reunindo em local amplo e espaçoso, adrede preparado uma legião de médicos, cientistas, literatos, etc., inclusive chefes de centros kardecistas, de Umbanda e mesmo da Quimbanda, bem assim, como todo aquele que de fato se julgar um verdadeiro e, fazendo-se uma sessão espírita sob a direção de um único homem capaz de dirigi-la, obter-seia das entidades máximas que baixassem, uma orientação precisa para a regulamentação dos primeiros pontos básicos a serem estudados. Poderiam surgir nesse caso, desavenças e contradições, mas, em compensação, se teria a certeza absoluta onde está a verdade, de vez que, fácil seria desmascarar o embuste e a mistificação, quando os médiuns incorporados fossem argüidos por elementos capazes e de grande envergadura moral e intelectual. 2°) A distinta classe médica daria o apoio necessário às práticas do Espiritualismo, quando este lhe desse provas irrefutáveis da existência de uma força superior que não está na alçada da própria medicina. Por sua vez, os grandes cientistas teriam a oportunidade de estudar os fenômenos que se lhes fossem apresentados nas manifestações espirituais, e outras concepções nos seriam então atribuídas. 3°) As autoridades federais e municipais estariam em contacto direto com a direção, a fim de impedir a fraude e as práticas do exercício da falsa medicina. O curandeirismo seria posto à margem, para dar lugar a que a classe médica fosse chamada a intervir, quando os 150


casos a serem resolvidos assim o exigissem. 4°) Formar-se-ia um conclave mundial de verdadeiros espíritas, e, ministrar-se-iam ensinamentos perfeitos àqueles que desejassem trabalhar livremente, sujeitos entretanto a aprovação da entidade máxima. Todos os centros reger-se-iam por intermédio de uma sede central, a qual se encarregaria de julgar, emitir ordens, e permitir ou não o seu funcionamento, e ainda, reconhecer ou não a idoneidade dos trabalhos da seita. 5°) Acabaria a exploração, e a organização teria o apoio governamental. O Espiritismo puro surgiria forçosamente, não dando lugar a dissídios, tornando-se desta maneira útil ao homem e às sociedades. Terminariam as práticas e rituais absurdos que não condizem com o adiantado grau de civilização que ora atravessamos, e estou certo que a UMBANDA verdadeira, a UMBANDA que Jesus Cristo pregou sobre a face da terra, surgiria límpida e pura, em toda a sua finalidade redentora. 6º) As instituições espíritas teriam finalidade patriótica e caritativa. O povo seria orientado não pelos homens, e sim pela palavra fortalecida das entidades espirituais que as transmitiriam diretamente de Deus. Seriam banidos os mistificadores e os vendilhões dos templos. A caridade seria dada a mãos cheias, e uma nova era de progresso surgiria para a humanidade, de vez que não haveriam sofismas nem falsas promessas pois, o erro e o crime não teriam a bênção eclesiástica, e sim, o castigo divino, na própria consciência do criminoso, que seria atormentado pelo REMORSO. Essa seria a verdadeira codificação da LEI DE UMBANDA. (FONTENELLE, 1957, p.95-97)

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ANEXO 20

“UMBANDA,

FUTURA RELIGIAO DO UNIVERSO DOMÍNIO DOS ESPÍRITOS”

Este é um magno problema a ser encarado pelos povos do futuro. O homem idealizador e perscrutador de todos os fenômenos que encerram os mistérios da sua origem, e de tudo quanto possa existir na vida de além-túmulo, com certeza há de chegar a uma conclusão satisfatória. A história das religiões têm-nos dado elementos suficientes para verificarmos com exatidão, o progresso cada vez mais crescente, no tocante ao que se concebe como religião, de vez que, o homem culto e inteligente, não se deixará arrastar por falsas demagogias, nem por falsos credos. Ele precisará pesquisar profundamente a questão religiosa, firmando-se nos conceitos puramente reais que a própria razão lhe ditará. O homem do futuro tirará suas próprias conclusões, à medida que os fenômenos espirituais forem surgindo à sua frente. Ainda é cedo para conceber-se uma teoria formal e profunda, sobre os mistérios que envolvem o mundo e os seres humanos; entretanto, é preciso que comecemos desde já a abrir os olhos àqueles que desejam enveredar por uma senda sem espinhos, e sem os achaques da ignorância. O Brasil, infelizmente ainda conta com um número elevadíssimo de analfabetos; e, por esta razão, a sua evolução ainda marcará passo, embora a índole do seu povo seja e molde a conceber rapidamente essa questão religiosa. Não estamos mais na época de acreditar em lendas, e nem tão-pouco concebermos 152


fantasias que não condizem absolutamente com a realidade dos fatos. A religião católica já atingiu ao seu climax, e o nosso povo já está farto de mentiras. Em todos os países civilizados, procura-se descobrir a verdade que existia através dos faustosos salões onde se enclausuram os magnatas do ouro, na ofuscante faustosidade do Vaticano. Jesus, o Pai misericordioso e onipotente, não pregava ao povo, sentado em tronos de ouro, e nem tão-pouco envergava riquíssimas indumentárias. Seu aspecto era simples e nobre; e o seu verbo era apenas de bondade, de igualdade e de amor ao próximo. Hoje, tudo se deturpa. ―o clero está de mãos dadas com a política, e a figura de Cristo é mercantilizada ignóbil mente. O crucifixo é uma verdadeira obra de arte; e os templos são verdadeiras maravilhas, que condizem perfeitamente com os faustosos palácios de Nero. Voltamos novamente ao paganismo, com a capa de missionários do Divino Mestre. Mas... o Criador de tôdas as causas, não permitiu que todos os seus legítimos porta-vozes, nós, os ESPÍRITAS verdadeiros, nos encarregaremos de mostrar onde está a verdade de Jesus Cristo, a verdadeira fé cristã, que conduzirá os povos à suprema glória de servir a Deus. Foram-se os tempos da ignominiosa INQUISIÇÃO... surgiram as REFORMAS RELIGIOSAS ... e agora, aproveitando-se o que há de puro numa concepção perfeitamente espiritual, surgiu para o mundo civilizado urna nova aurora e com ela a LUZ DA UMBANDA. Poderão as civilizações do futuro, encarar as questões religiosas por um prisma mais acertado, de vez que, já não é mais concebível, misticismos incoercíveis, em torno de um problema que é essencialmente básico para a educação de um povo. A situação do momento exige provas mais irrefutáveis de todos os fenômenos que surgem a cada passo; e, assim, necessário se torna que os doutos procurem esmiuçar a verdade que ainda se encontra na obscuridade dos verdadeiros inconscientes. 153


O mundo está passando por uma verdadeira metamorfose, e as desinteligências se acentuam de um modo completamente incompreensível. O egoísmo humano atingiu o seu ponto máximo, e, dia virá, em que, inconcebíveis cataclismas assolarão a face da terra, a ponto de modificar-lhe a própria estrutura. O homem está esquecido de Deus, e seu único pensamento é dar vasão aos seus sentimentos torpes de domínio e de destruição. Ninguém está satisfeito com o que possui, e a ânsia de prover para si todos os bens materiais, leva-o ao abismo do desespero e da incompreensão. A maldade impera nos corações humanos, e o egoísmo domina todos os sentimentos. O homem julga-se forte, potente e imperioso, quando não passa de um polichinelo nas mãos do destino. Ele não desconfia que outra força superior o domina, e o traz algemado aos grilhões da fatalidade. Nem todos são predestinados; pois, por mais inteligente e culto, por mais sábio, e POI mais alto que se considere estar, mais depressa ruirá por terra. Já é tempo de refletirmos um pouquinho mais... Deixemos de lado certas considerações que a sociedade nos impôs, e olhemos para o horizonte, onde o plano horizontal encontra-se com o plano vertical, formando o infinito. É para lá que nos dirigiremos. O caminho é longo, porém, se o alcançarmos, estaremos certos de haver descoberto mais um fenômeno científico: o FIM DO MUNDO. Assim é a religião... Os homens procuram por todos os meios, um ponto no horizonte, que matematicamente lhes prove que de fato existe um Deus; no entanto, a matemática divina lhes mostra a todo o momento, que ele está mais próximo do que imaginam. Inconscientemente o homem se afasta dele, crente de que, procurando-o no infinito o alcançará com as suas próprias mãos. Mero engano... Deus está no teu próprio coração, e não o sentes porque és 154


mau. Joga fora essa tua tola concepção de grandeza; põe de lado os teus sentimentos impuros, e abraça conscientemente os ditames nobres do teu coração, e terás encontrado a religião pura, sublime, de que tanto precisas para o teu bem estar material e espiritual. Várias gerações já passaram sobre a face da terra; várias religiões aparecem e desapareceram com o correr dos séculos; entretanto, uma delas, ou melhor: a primeira, ainda perdura, e perdurará, enquanto o mundo for mundo. Refiro-me a Umbanda; pois, encarada sob os mais variados pontos de vista, modificado o seu verdadeiro nome desde os primórdios da existência terrena, jamais deixará, entretanto de ser Umbanda, o verdadeiro sentido que se dá ao ESPIRITUALISMO, em qualquer condição que se o queira encarar. A Umbanda será a futura religião que dominará no mundo, de vez que, é ela oriunda da vontade divina. O Espiritismo na Lei de Umbanda será encarado como verdadeira religião, pelo fato de que os seus seguidores estarão em contacto mais direto com as manifestações espirituais, que outra cousa não representa, a não ser o cumprimento das leis divinas. A Umbanda a que me refiro, não é essa Umbanda mistificada e misturada com os diversos credos fetichistas hoje conhecidos no Brasil inteiro. Será uma Umbanda codificada, uma Umbanda pura, na qual se aproveitará de todas as religiões existentes na terra, somente aquilo que for sublime e perfeito. Do Catolicismo, por exemplo, só se aproveitará a organização, pois, tudo o mais é falho, inclusive os dez mandamentos da Lei de Deus que foram miseravelmente deturpados. Das religiões protestantes, restará unicamente a Bíblia, nos seus pontos onde existir a verdade, de vez que os seus pastores, por serem por demais apegados ao fanatismo, não quererão dar o braço a torcer, quando conhecerem de fato onde está a LUZ DIVINA. Das demais religiões espíritas, aproveitar-se-ão os bons "mediuns", que, conhecedores 155


perfeitos das manifestações espirituais, não se deixarão arrastar pela mistificação. Os kardecistas, por exemplo, chegarão à conclusão de aceitar irrestritamente as condições que ligam o espírito à matéria, nas quais se concebem que as entidades espirituais se distinguem de dois modos: 1.°- "Guias Espirituais" possuem Luz Espiritual e grande força fluídica, conseguindo por essa razão dominar os maus elementos, forçando-os a praticar o bem. Por essa razão é que nas práticas da Umbanda se conseguem os maiores resultados; 2° - Os "eguns" ou espíritos dos mortos, evocados nas práticas do kardecismo, possuem quando muito, apenas a Luz espiritual, e por isso não têm fôrça suficiente para combater o mal. Quanto aos praticantes dos "CANDONBLÉS" e aos que praticam a "MAGIA NEGRA", estes serão devidamente orientados, e, instruídos em novas práticas, abandonarão por completo os rituais bárbaros que os identificam. O Espiritismo na LEI DE UMBANDA em sua nova fase, surgirá com o progresso do mundo; novos horizontes nos serão apresentados, e o mundo marchará de fronte erguida, em direção ao aperfeiçoamento universal. (FONTENELLE, 1957, p. 85-92)

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ANEXO 21

“UMBANDA - A RELIGIÃO CÓSMICA” Após termos escrito estas "Lições Básicas", havíamos resolvido escrever obra complementar que viesse dirimir as dúvidas que haviam ficado, como também ampliar os Fundamentos expostos. Isto tudo lá pelos idos de 1991, mas decorridos praticamente três anos, e observando nossas outras obras escritas neste período, chegamos à conclusão que deveríamos fazer um longo complemento nesta obra, e futuramente, escreveríamos - "FUNDAMENTOS HERMETICOS DE UMBANDA" (no prelo). O leitor amigo poderia questionar do por que desta nossa decisão. Em primeiro lugar, para não darmos um ônus a mais aos simpatizantes de nossas obras. Outrossim, chegamos à conclusão que não nos adianta apenas discutirmos a embalagem (forma) do Movimento Umbandista, o mesmo se dando com a grande massa de pessoas, crentes que acorrem aos milhares de TERREIROS. Há milhares de "embalagens", uma diferente da outra. Mas na realidade, o que velam as "embalagens"? É o que tentaremos responder... Deixemos as discussões estéreis, improfícuas e busquemos, como sempre fizemos, o encontro da "Síntese do Equilíbrio", a qual é encontrada na fusão da harmonia dos opostos. Deixemos os extremos da verdade, pois, a maioria precisa mesmo é do equilíbrio do produto, do fruto que nasce da interação dos opostos. Abandonemos, pois, temporariamente a forma e busquemos o conteúdo real. 157


Sim, muito se tem discutido, até acirradamente, as várias embalagens que velam o conteúdo. Após estas conclusões ficamos pensativos e concluímos para nós mesmos, que as cisões, disputas, anátemas aconteciam em virtude de seus contendores estarem tendo visões diferentes da "forma". Será que desistiriam das disputas se ao invés da "embalagem‖ buscassem desnudar e estudar o conteúdo, a essência? É com este intuito que buscamos este apêndice, principalmente em seu prólogo. Deixemos o sectarismo, o separatismo, o dogmatismo inútil, e partamos para a síntese, para a visão interna, cósmica, holística. Estamos no limiar do 3° milênio, o milênio da grande transformação, onde haveremos de revisar conceitos sociais, morais, político-econômicos e, muito principalmente, de comportamento da Comunidade Planetária. Urge que venhamos a discutir, mesmo que superficialmente, a maneira de nos adaptarmos aos "Novos Velhos Tempos", à "Nova Era" que precisa eclodir. O homem haverá de fazê-la chegar... Na verdade esta "Nova Era" não é tão recente assim, é mais uma oportunidade estendida a todo terráqueo, com a finalidade do mesmo se redimir, se reajustar, amadurecer, se encontrar. É esperança renovada, tal qual a passagem de um ano a outro. Tudo se renova, tudo pode modificar-se, tudo dependendo do próprio indivíduo. Com isto afirmamos que o 3° milênio é ainda uma promessa de realizações, de novos objetivos. Não basta chegar, terá o Homem de alcançá-lo. Esses novos tempos só acontecerão se o Homem se predispuser a fazê-los, e isto acontecendo, farão com que o Terráqueo evolua, cresça, tenha maturidade, se espiritualize, retomando à sua Religião Primeva, qual seja, a do Amor e Sabedoria. Cremos na Religião Cósmica, na Proto-Síntese Cósmica, que contém em si todas as 158


Religiões, Filosofias, Ciências e Artes. É a visão holística, integral, desembuida do interesse perecível das embalagens, do externo, mas voltada para o conteúdo, à essência. Vejamos como poderemos fazer acontecer estes auspiciosos eventos para a Humanidade. Observemos da forma mais simples, segundo a visão do Astral Superior, como conseguiremos, em etapas básicas e fundamentais, mas voltada para o conteúdo, a essência. Denominaremos todo esse processo ou sistema de Proto-Síntese, e pelo que já expusemos, ele deverá ser a "CIÊNCIA DAS UNIÕES‖. As etapas ou níveis serão três. Descreveremos sucintamente os três, desde o inicial ao final. É bom entender-se que os mesmos não são estanques no tempo, podendo, pois, coexistirem.

PRIMEIRO NÍVEL

O primeiro nível pretende reunir em si mesmo o próprio indivíduo. Ele em si mesmo. Fazer com que perceba que não é apenas mera "embalagem" de carne e osso. Que comece a perceber além da forma densa, do corpo ou organismo físico outros mais sutis e delicadíssimos invólucros do "EU", o qual é imortal. Cremos que seja imortal, pois tudo que é perfeito em essência não se deteriora, não se fragmenta, não se transforma. Ao contrário, só se deteriora o que se fragmenta, que não é perfeito, sujeito, pois à morte, a transformação. Nosso "EU INTERIOR" é o que denominamos de Ser Espiritual, o que, mais uma vez afirmamos ser atemporal, infinito, eterno. Em sentido inverso, a forma é perecível, justamente por servir àquele que é puro e se maculou, e nos sucessivos retornos à forma se purifica, faz a grande catarse, retomando ao seu estado de perfeição espiritual. Além do Organismo etereofísico (sutil e denso), possui o Ser Espiritual encarnado 159


mais dois organismos: o mental e o astral. Quando encarnada, a individualidade assume uma personalidade, a qual é trina (organismos: Mental, Astral e Físico). Raros são os indivíduos que se encontram com seus três organismos vibrando de forma una. Há alguns que se polarizam no organismo Mental, outros no Organismo Astral (emocional) e a grande maioria no Organismo Físico (instintivo - automático). Essa dissociação é a responsável pela fragmentação e ausência do autoconhecimento do indivíduo. Para não divagarmos ainda mais, o próprio indivíduo, quando encarnado, envergando o complexo carbônico, sua mente, sua psiquê, se expressa em 3 níveis. O Nível Consciente é aquilo que o indivíduo percebe, portanto também limitado pela percepção. É um conhecimento relativo, variando na dependência da pessoa; o Nível Subconsciente é aquele que o indivíduo apresenta algum conhecimento. Estão inclusos os hábitos, a memória, etc. Também está na dependência da maior ou menor percepção do indivíduo; o Nível inconsciente é de suma importância, pois suporta, carrega toda a valência experimental kármica do indivíduo, é totalmente ignorada no nível consciente, podendo transitar neste através dos sonhos, atos falhos, livres associações e processos patológicos (psicoses). Após estas ligeiras considerações, urge que socorramos a nós mesmos enquanto houver tempo. Pela nossa sublevação, obliteramos nossa consciência, e embora acordados, em vigília, infelizmente, muitos de nós, a maioria esmagadora, encontra-se em sono profundo perante as realidades maiores. Vivemos enclausurados, insulados em nosso egoísmo, algo que nos afasta da realidade, encaminhando-nos a lúgubres caminhos da ilusão. Quase não usamos nosso cérebro, principalmente o hemisfério direito, isto sem falarmos de zonas completamente desconhecidas e atrofiadas, mormente no lobo frontal. Deterioramos e atrofiamos nossas faculdades nobres, concretizando-se estas no cérebro, em zonas completamente inativas. Tudo devido a nossa própria insubordinação às leis sábias que nos 160


regem os destinos. Carecemos, urgentemente, de urna maior integração entre nós mesmos, e asfixiarmos para todo o sempre o egoísmo, a vaidade, o logro do poder temporal. Conseguindo-se ajustar nossa conduta interior, buscando-se o equilíbrio, estaremos deliberadamente vislumbrando o nosso próximo. Esvaiu-se o egoísmo... É a integração da criatura com a criatura... É o início da Religião Cósmica, pois antes de olharmos, elevaremos nossos louvores ao alto, verticalizando nossos sentimentos, estaremos louvando a Deus, amando nossos semelhantes, amando-os como nos amamos tal qual nos ensinou Oxalá (Cristo Jesus) quando de sua peregrinação pelo planeta. Estaremos vendo o próximo como nosso próprio reflexo... Ah! Que tempos bons serão esses!...

SEGUNDO NÍVEL

O segundo nível reúne o indivíduo com sua "Essência Genitora" que no Movimento Umbandista denomina-se Orixá. Está uno com seus três organismos e com os demais indivíduos, com os quais se irmana. Pensa de forma una com os outros indivíduos, o que absolutamente significa pertencer a uma "massa pensante" amalgamada e fundida, mas sim, conscientemente vibrar com seus afins (afinidade real do "Eu Interior"). O indivíduo reconhece-se como Ser Espiritual e busca na compreensão reunir-se com outros seres espirituais. Não se sente superior ou inferior, apenas é... Assim caminha ao encontro de seus "Ancestrais ou Genitor Divino", um dos "7 Espíritos de Deus" (Orixá). É evidente que tal plenitude não é impossível. Não é necessário ser "Santo", apenas "Homem Real", de "Verdade". Muitas vezes tal estado é mal compreendido, pois os não preparados acham-nos "Santos" de hipocrisia. Esquecendo-se desses passageiros obstáculos àqueles que buscam o aperfeiçoamento de si mesmo, é bom a todos lembrar, que já perdemos 161


muito tempo... Haveremos de recuperá-lo no trabalho, na conquista de nós mesmos, e tudo na paz, na luz e na harmonia. É o início do processo de verticalização, em ângulo bem agudo, até conseguirmos o ângulo reto, a verticalização total, a União com Tupã (Deus), com o "Deus Interior".

TERCEIRO NÍVEL

O Terceiro nível é o da União do Homem com o Divino, com o que há de mais espiritualizado em si mesmo. É a busca do real aperfeiçoamento, é a verticalização - a união do Homem com Deus. O mais surpreendente de tudo é que quando percebemos que também somos Seres Espirituais imortais, muito além da "embalagem", iniciamos a procura de nós mesmos, de nosso "Eu Interior" ou "Eu Real" oposto ao "Eu Ilusório" (egoísmo), tangível, perecível, mortal. Quando temos plena ciência de nossa natureza espiritual, intuitivamente nos voltamos ao "Deus Interior", que ao contrário do que pensávamos não é inacessível, não está tão longe, está próximo de nós, está em nós, portanto amorfo, imaterial, cósmico. Esse é o Deus (Tupã, Zamby, Olodumare, Ala, etc.) que vivemos na Umbanda. Após a explanação desses três níveis está óbvio, todos perceberam, que quando fizemos alusão à "Proto-Síntese Cósmica", estávamos velando o AUMBHANDAN - " DEUS E SUA LEI CONOSCO" - A SÍNTESE CÓSMICA DE SE CULTUAR O SAGRADO - O DIVINO. Preconizamos uma Religião Cósmica, acima de qualquer dogma, abrangente, una. Este é o AUMBHANDAN que o Movimento Umbandista pretende resgatar e restaurar de maneira simples, suave e singela, pois visa o abarcamento de todos os graus consciencionais, todos os 162


níveis de entendimento espiritual. Os observadores não sectaristas e muito perspicazes perceberam que quando nos referimos à horizontalização (relacionamento da Criatura com a Criatura) e mesmo a verticalização (relacionamento da Criatura com o Divino), estávamos nos referindo aos métodos utilizados por dentro do Movimento Umbandista. Sim, o mesmo, sem alardes, de forma serena, num parto indolor, sem traumas, procura fazer o mesmo nos Terreiros através de rituais simples, no contato direto do crente com as Entidades Espirituais, buscando tomar o "Sagrado" próximo, o mais próximo do indivíduo. Estando-se próximo dos "Enviados Divinos" (Mentores Espirituais), o próximo passo (dificílimo e lento) é o encontro do "Deus Interior". Portanto, eis o Homem religado, unido à sua "Essência Espiritual". Todo esse processo é o que denominamos de "Ciência da União Divina com os Homens", algo que surge quando o indivíduo e mesmo a Coletividade iniciam suas maturações espirituais e, muito principalmente, nos aspectos religiosos. Ao expressarmos o vocábulo Religião nos referimos à Religião Cósmica, a qual independe de ritos, dogmatismos, sectarismos ou fanatismos, etc. É um conhecimento vivenciado, respirado, sentido e interiorizado. É algo que se vive naturalmente, parece que se respira este estado espiritual. É tão natural que deixa de ser processo de fé, mas sim de realidade, de pura certeza. Este é o estágio que buscamos atingir, como dissemos, acima de discussões estéreis, que só nos desgastam e fazem-nos perder precioso tempo. Claro está que não desejamos ser mais real que o próprio rei. Sabemos que a maioria das criaturas humanas vive atrelada à religião do medo, do interesse, do toma lá da cá, quando não de vingança, de olho por olho, das indulgências imerecidas, dos favores escuros. É a 163


imaturidade espiritual que ainda nos algema em princípios dúbios, falsos. Como para estes interessa apenas o externo, buscam meios religiosos ou sacerdotes que os satisfaçam em seus famélicos desejos. São os que buscam os "Sacerdotes" de conduta pouco recomendável sem nenhuma noção sobre ética espiritual, sobre merecimento. Desejam apenas que lhes satisfaçam seus desejos doentios, buscando pela própria afinidade os contrabandistas ou clandestinos do "Santé". Tenhamos muita serenidade, pois o sentimento religioso não é algo imediatista, é sim um aprimoramento longe dos desejos mundanos, é uma completa e verdadeira Iniciação Superior. É algo que tem um início, um desenvolvimento paulatino, um aprofundamento progressivo, elevando o indivíduo a um senso religioso ou místico natural e inato. O aprofundamento desse tema deixaremos para "Fundamentos Herméticos de Umbanda". Ao término desse tema esperamos ter conseguido demonstrar a todos, o que a Umbanda é de fato, em seus aspectos mais depurados e mesmo nos mais confusos na aparência, a Verdadeira Religião Cósmica, Universal. Holística, não dogmática, não separatista. Atualmente, praticamos o Movimento Umbandista, embora a denominemos de Umbanda. Nas várias unidades, mesmo as mais simples, encontramos fagulhas do pala reatador e restaurador da SÍNTESE PERDIDA, a qual será resgatada no Brasil, a Pátria Cósmica - Capital Planetária. (RIVAS NETO, 1994, p. 190 - 194)

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ANEXO 22

―A INICIAÇÃO‖ Todas as iniciações têm por base e fim abreviar a evolução do homem, isto é, conseguir em uma só encarnação o que pela ordem natural seria preciso diversas. Neste trabalho que apresentamos fazemos resumidamente uma comparação da antiga iniciação nagô com as antigas iniciações Egípcia e Cristã, tentando mostrar a afinidade e semelhança que há entre elas. No antigo Egito, pela iniciação criava-se no homem o Osíris. No Cristianismo primitivo, que também era iniciático, procurava-se criar no homem o Cristo. No antigo culto Nagô, procurava-se criar no homem o Orixá. Pois ainda em alguns terreiros, que conservam a tradição (como na Bahia), procura-se fazer o Santo. Comparando estas três iniciações, podemos concluir que pode haver diferença de métodos, sistemas e rituais, porém a base e o fim são os mesmos, isto é, transmutar o homem terrestre e animal em ser espiritual e templo de Deus. E esse Osíris, Cristo, Orixá ou Santo, que se manifesta nesse homem templo, é o seu próprio Eu, Espírito ou Centelha Divina. Portanto, o fazer verdadeiros babalaôs é fazer o aperfeiçoamento e a evolução de tais homens, é fazer habitações para espíritos superiores. Eis a resposta que deu um babalaô a um jornalista que em dia de sessão no seu terreiro 165


se dirigiu ao dito babalaô pelo seu nome pessoal: "Eu neste recinto e com estes trajes, não sou ―Fulano" sou Templo, pois o Santo habita em mim". Pelo que foi dito acima podemos concluir que esse babalaô não era mais um homem comum, pois não existia mais nele a personalidade humana, mas sim a Divina Individualidade. Uma vez que o iniciado egipciano consiga criar a seu Osíris, o cristão o seu Cristo, o nagô o seu Orixá, está terminado o ciclo de reencarnações no nosso mundo físico, pois quando se der a morte do seu corpo carnal não reencarnarão mais, pois ele conseguiu realizar o que em ocultismo se chama a Grande Obra. Quanto aos métodos, processos, rituais e sistemas de Iniciação, além do fim ser o mesmo, variam e diferem, de escola para escola e de povo para povo, pois o método e sistema Oriental diferem do Ocidental. Os antigos Mestres não lançavam a semente na terra sem ela estar primeiramente preparada para a dita semente receber; isto quer dizer que eles não iniciavam o homem que não estivesse primeiramente preparado física, moral e espiritualmente, em condições de receber a luz iniciática; o grande Mestre Jesus, isto confirmou, na parábola ao semeador quando respondeu: ―nem todos estão em condições de penetrar nos mistérios do reino do céu. Portanto, os antigos mestres não eram egoístas, como muitos materialistas e muitos modernos espiritualistas e espíritas dizem; mas sim, prudentes e sábios, pois só abriam as portas dos templos iniciáticos aos candidatos de boa moral, fortes e bons; e assim mesmo, só eram admitidos como neófitos, depois de terem passado e dado provas de coragem, bondade, caridade, domínio sobre si mesmo etc. (MAGNO, 1950, p. 75-77)

166


ANEXO 23

“A INICIAÇÃO NA LEI DE UMBANDA” Na

iniciação

na

Lei

de

Umbanda,

tomamos

contato

com

FORÇAS,

CONHECIMENTOS, REGRAS, SISTEMAS e conseqüentes responsabilidades que poderão ser levadas a bom termo pelo iniciante que sentir "em si" forte vocação, índice de uma Missão, legado de seu próprio Karma, ou seja, conseqüência de Causas e Efeitos, os quais se manifestam por certas faculdades que o induzem ou predispõem a este Caminho. No entanto, bem poucos estarão capacitados a "conhecer a via", porque tantos serão os "espinhos" a encontrar, quantos se fizerem necessários às fases da ascensão... mormente quando certas circunstâncias da vida se apresentam, encadeadas pelas forças das atrações negativas, em desafio ao Ego Superior, às quais inúmeros não resistem, deixando-se enlear, volvendo "ao doce comodismo da vida comum"... Naturalmente que não nos referimos aqui às iniciações de determinados setores, que estão situados nos subgrupamentos da 7.a Vibração ou Grau, que estão dentro, mas não são ainda a Umbanda em sua plenitude (a Lei é uma só, seu contro1e vai do Microcosmo ao Macrocosmo), e cujas "fixações" caracterizam-se em suas fases próprias, como "lavagens de cabeça, camarinhas, comidas de santo, cruzamentos, etc." Estamos falando da Iniciação Superior, apropriada, inerente aos Princípios, Fundamentos, Sistemas, Regras da Lei de Umbanda em sua alta manifestação afim com evolutivos concernentes com suas reais expressões. 167


E, para que haja melhor compreensão sobre o assunto, devemos esclarecer que a Umbanda, por intermédio de seus expoentes, isto é, de suas Entidades militantes, faz-se representar em TRÊS PLANOS de atividades que CONJUGAM SETE GRAUS ou Vibrações descendentes. No 1º PLANO (1º, 2º e 3º Graus), representam-se 399 Entidades, que, em cada LINHA, são qualificados como ORIXAS, na seguinte discriminação: 1ª Vibração ou Grau: 7 ORIXAS Principais, Chefes de Legiões não incorporantes; 2.a Vibração ou Grau: 49 ORIXÁS Chefes de Falanges; 3.a Vibração Ou Grau: 343 ORIXAS Chefes de Subfalanges. Multiplicando-se os Orixás de CADA LINHA por 7 ou somando-se 7 vezes, encontraremos 2.793 dos qualificados assim, em toda a Lei. Na modalidade, porém, que chamamos de "mecânica de incorporação", subtrai-se 49 desta quantidade, restando, portanto, 2.744 Entidades com funções de Chefia (Orixás) e incorporantes. Somados entre si, os algarismos deste total, teremos: 2 + 7 + 4 + 4 = 17 = 1 + 7 = 8, ou seja, "o duplo máximo da década‖. No 2º PLANO, vêm os qualificados como GUIAS de 4.a Vibração ou Grau, Chefes de Grupamentos em número de 2.401, limitação de 343x7. No 3º PLANO, situam-se os que são qualificados como PROTETORES, que aferem na 5.a, 6.a e 7.a Vibrações ou Graus. São limitados em 957.999 Espíritos militantes da Lei, para cada LINHA. (MATTA E SILVA, p. 206-207)

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ANEXO 24

As outras três federações defendiam uma forma de Umbanda de orientação africana. Seus líderes eram provenientes, sobretudo dos setores mais baixos e muitos eram negros e mulatos. A primeira dessas federações, surgida em 1952 com o nome de Federação Espírita Umbandista, era liderada por Tancredo da Silva Pinto, um líder religioso afro-brasileiro que se tornara um importante porta-voz dos praticantes de Umbanda de orientação africana. Tancredo conseguiu também uma coluna semanal no jornal diário de maior circulação do Rio, O Dia, através de ligações com seu proprietário, Chagas Freitas. Nesta coluna, Tancredo desenvolvia um trabalho de filiação para sua nova federação, prometia proteção aos eventuais filiados, e recomendava uma forma africana para o ritual da Umbanda. Esses filiados e patrocinadores eram quase todos oriundos do setor inferior, de terreiros de estilo africano, muitos deles localizados nas favelas da cidade. Tancredo tornou-se seu principal porta-voz e um líder lendário que recebeu o título de "Tatá de Umbanda" (o "Papa da Umbanda"). Por ocasião da minha primeira pesquisa em 1966, fiquei surpresa com a sua fama e popularidade nas favelas de toda a cidade. Em cada uma delas que visitei, pelo menos uma pessoa mencionava seu nome, e muitos dos centros localizados nesses arredores já eram há muito tempo filiados a sua federação. Tancredo também mantinha alianças com líderes de outras federações similares do Estado do Rio, e junto com elas produziu em co-autoria um grande número de livros sobre a Umbanda de estilo africano, que articulavam uma posição fortemente africanista e que 169


demonstravam forte antagonismo racial e de classe para com os líderes da Umbanda Pura (ver Brown, 1979). Foi assim formada uma rede de federações de Umbanda no interior dos setores inferiores, paralela àquela organizada pelos líderes Umbandistas do setor médio, mas que representava uma compreensão muito diferente da palavra ―Umbanda‖. Esta voz africanista insistia na Identidade da Umbanda como parte da herança africana. Pode parecer que o surgimento de redes de Umbanda paralelas, brancas e negras, representava um movimento em direção ao separatismo racial. Organizações separatistas com base no fator racial apareceram tanto no Rio como em São Paulo no início da década de 1940, como por exemplo, o Teatro Experimental do Negro, fundado no Rio em 1944. Membros do Teatro Experimental chegaram mesmo a visitar muitos terreiros de Umbanda afro-brasileiros durante os primeiros anos da década de 1950 para sugerir que eles também deveriam adotar uma postura separatista similar. Esses visitantes davam seu apoio à Umbanda, mas argumentavam que os umbandistas negros deveriam adorar um Cristo negro (Freitas e Pinto, 1956:84-85). Tancredo e outros líderes religiosos afro-brasileiros rejeitaram com irritação esta sugestão, e a consideraram como parte de uma "campanha suja":

―Para provocar separatismo racial e religioso... e para dividir a população em brancos e negros... Pode parecer à primeira vista que a idéia de um Cristo negro pretendesse elevar os negros... mas na realidade não passa de uma tentativa de agitação e separatismo racial, que nossas tradições históricas sempre rejeitaram‖. (BROWN, 1985, p. 23-24)

170


ANEXO 25

“A ORIGEM DA UMBANDA” Na sua origem a Umbanda desenvolveu, mais aqui no Brasil, onde se proliferou devido as imigrações africanas com vários cultos de diversas regiões ou aldeias daquele continente, professando e respeitando a doutrina de uns aos outros. Dentro dos quilombos então foi que se deu a conjunção de raças ou vários cultos antes da liberdade ao apoio, chegando assim pretos de várias nações, para pregarem os seus rituais o que era aceito pelo chefe do quilombo. Então quando foram destruídos, encontraram imagens dos santos católicos como: São Benedito, Santa Efigênia, N. S. Aparecida que adotaram com muita precisão, aonde foi apoiada como a padroeira do Brasil; considerada também pela sua epiderme, a padroeira dos negros. Nas escamas do peixe encontramos a imagem de Santa Efigênia, que até hoje se pode ver. A origem do culto Omolocô vem do sul de Angola, sendo uma nação pequenina às margens do rio Zambeze que o tem como Zambi, que lhes dava a alimentação necessária, proveniente das enchentes. O seu culto baseia-se nos efeitos da natureza. É um culto muito grande com ritual e preceitos ricos na espiritualidade, surgindo daí muitos folclores que fazem parte dos grupos Bantus. A fim de trazer aos nossos leitores coisas que nos permitem trazer à público, nossa kabalah, que é a força da magia e erroneamente interpretada, sendo por muitos que não a 171


conhecem dividida na forma de: Magia preta ou Magia Branca, o que na verdade não acontece, porque Magia é a força do poder oculto . O povo Lunda Quiôco, que é de onde nasceu o culto do Omolocô, sendo esse nome composto de 7 (sete) letras. A Umbanda também composta de 7 (sete) letras, que juntadas: 7 + 7 = 14 = 1 + 4 = 5, como o número representativo da força espiritual, 7 (sete) representando o poder espiritual que está dentro da natureza, dando a devida força para este planeta . Juntando os números 7 + 5 = 12, obtemos o número doze, que representa os doze toques quando a pessoa se inicia, que são em número de sete dias a saber: Três dias que se passa na Camarinha recebendo a devida purificação, e quatro dias guardando o devido preceito que lhe é atribuído, para o iniciado poder prosseguir na aprendizagem dentro do culto que abraçou, respeitando a sua vocação. Temos o fruto sagrado que é Obi-Orobô de quatro quinas, que a pessoa iniciada come 1/4, sendo os 3/4 restantes da fruta repartidos entre o Tata Ti Enkice que o iniciou, juntamente com padrinho e madrinha. No fim de cada ano, procede-se com a mesma operação da fruta, seu sagrado ritual, seus preceitos, para que no final vinte oito anos (28), a pessoa possa fechar o seu ciclo. Depois que a pessoa se inicia, passa a tomar o seu nome de origem no culto, de acordo com seus conhecimentos vai assumindo sua responsabilidade, para que no final de sete anos de feitura possa escolher sua vocação, recebendo o seu nome na força para o homem. Antes de ser iniciada uma pessoa, o Tata Ti Enkice fará o jogo dos búzios para certificar da missão daquele espírito, o que tem a cumprir, determinando assim o seu grau na mediunidade e a vocação que receber aqui na terra, ou até onde pode chegar sem adulterar o seu destino. Por isso, todos nós pelo grau mediúnico temos os nossos graus na classificação 172


mediúnica. Quando a pessoa iniciada comer três Obís e que se dará num ciclo de vinte e um anos (21) ela escolherá o seu livre arbítrio, porque a pessoa só pode chegar até onde aprendeu. Se é homem passará a ser chamado de Iaboré; se for mulher passará a ser chamada de Iawô, isto no primeiro ano da iniciação, passando do segundo ano em diante outros nomes, caso a pessoa iniciada não venha deixar de fazer cumprir com suas devidas obrigações. Nós temos o roncó, local onde se inicia a pessoa, sendo, portanto a sala de liturgia; encontramos no seu interior os vultos e assentamentos dos santos de origem no nosso culto. Ali, depois de jogar e verificar todos os pormenores, é que a pessoa dará o seu primeiro passo. Todos esses passos se dão no Roncó. Para deitar o iniciado, ocupamos sete (7) pessoas que vão debaixo do Alá, a saber: O Tata Ti Enkice que é o que procede como sacerdote da iniciação, Quatro (4) Sambas. O Padrinho e a Madrinha, os quais regressam em número de seis pessoas, representando assim a kabalah do mestre que é o número 6 (seis), ficando o iniciado cumprindo a sua obrigação na Camarinha. Só podem pegar no Alá, e ser padrinho ou madrínha, os que tenham suas iniciações no culto, exceto o caso onde isso não se dá colocamos outras pessoas. (TANCREDO, 1970, p. 911)

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ANEXO 26

Reajustemos, para fechar o exposto, os argumentos definitivos para os que querem "africanizar" a Umbanda de qualquer forma, contestarem dentro da lógica, análise ou pesquisas, se não são absolutamente CERTOS os itens abaixo: 1º - Os Cultos religiosos da África, no presente e no passado, JAMAIS sofreram quaisquer influências nossas, isto é, quer do que surgiu como Umbanda, quer do que por volta de 1547 já existia como expressão religiosa de nossos ÍNDIOS, denominada como "adjunto da Jurema" que significava: "sessão, reunião, agrupamento‖... 2º - Nos Cultos Africanos puros, quer os de África ou Colônias, inclusive os que estes mesmos africanos trouxeram primitivamente para o Brasil - quando escravizados, NUNCA se admitiram EGUNS em seus rituais e JAMAIS invocaram espíritos ditos como CABOCLOS (em África nunca existiram índios como nativos), tampouco estes que chamamos de "PretoVelhos e crianças" que nunca entraram também em suas cogitações religiosas ou ritualistas de invocações, pois são eguns, espíritos de desencarnados, muito embora NÃO como desencarnados recentes, mas, indubitavelmente, desencarnadas há séculos, milênios (quem sabe"). Única exceção sobre eguns era quando "invocavam" numa cerimônia especial ou funerária a alma do "pai-de-santo" morto ou o "Orixá" a quem ele era votado, para ditar sua última vontade ... 3º - Há séculos que estes Cultos africanos primitivos - no Brasil _ degeneraram seus rituais em conseqüência das misturas e adaptações com o elemento aborígine, e foram 174


absorvidos completamente, nesta metamorfose, pelos ditos espíritos de "Caboclos, PretoVelhos e Crianças", que precipitaram um MOVIMENTO de caráter religioso-moral-espiritual diferente do que EXISTIA e possa existir fora do Brasil, como culto africano ou rituais de nações... 4º - JAMAIS nos Cultos africanos primitivos se manifestou um MOVIMENTO igual a este que surgiu primeiramente como uma "linha branca de Umbanda" e depois se consolidou como LEI DE UMBANDA - cujas Entidades militantes, estes "caboclos e Preto-velhos", adotaram certos ELOS ou Termos com os respectivos significados relativos, quer Afro quer Indígena (ou ameríndio como se diz impropriamente)... 5º - NENHUM Ritual ou Culto dito como africano puro. ATUALMENTE, conserva esta pureza, pois 5% do que existe como "candomblé, mesmo não aceitando Caboclos, PretoVelhos e Crianças" (eguns) estão degenerados com as práticas do chamado como "catimbó" ou confundidos com as práticas provenientes do sincretismo católico c espiritismo particularizado por Kardec. 6º - 95% dos chamados Cultos afro-brasileiros usam práticas modernas e diferentes, mas, positivamente. DOMINADOS pelos tão citados Espíritos de "Caboclos. Preto-Velhos e Crianças" e estes mesmos 95% se EXPRIMEM EM NOME DA LEI DE UMBANDA... 7º - JAMAIS o termo UMBANDA foi conhecido, tampouco usado, no passado, como EXPRESSANDO LEI ou Linhas e muito menos como simples expressão religiosa, dentro dos Cultos afros puros, trazidos pelos escravos... 8º - Um FATO que comprovamos e OUTROS também, através de dezenas e dezenas dos chamados "TERREIROS" entre centenas de aparelhos, em observações meticulosas, que, quando entre estas centenas de aparelhos - ditos como médiuns ou "cavalos", aparece um ou outro que realmente tenha contato-mediúnico-direto com estes positivos espíritos de 175


"Caboclos e Preto-velhos", estas Entidades se adaptam ao que encontram, mas podem influir diretamente no "movimento espiritual do "terreiro". Tenda ou Centro. VÃO ABOLINDO SISTEMATICAMENTE estas práticas primitivas e superadas ... 9º - A Umbanda Ancestral - Pré-histórica e da necessidade de sua adaptação ou "tomada de posse" sobre o sistema africano retardado, imperante, dito como dos cultos afrobrasileiros. (MATTA E SILVA, 1996, p.63-64)

176


ANEXO 27

Muitos fatores fizeram de ―Umbanda — ―A Proto-Síntese Cósmica‖ um novo marco para o Movimento Umbandista, a começar pelo fato de ter sido a primeira obra a ser escrita diretamente por uma entidade de Umbanda, o Caboclo Sete Espadas (Mestre Orishivara) que deixou o linguajar de terreiro, o jargão umbandista, para transmitir os conceitos próprios de um sábio do Astral Superior. Nesta obra, o Senhor Sete Espadas apresentava, já no início, uma controvertida teoria antropológica que, se ainda não confirmada, ao menos encontra nos estudos recentes do sítio arqueológico da Pedra Furada no Piauí respaldo para o benefício da dúvida. Se esperarmos que aconteça como na profecia concretizada em relação ao vigésimo primeiro aminoácido ou nas questões que trata de matéria e antimatéria, basta o tempo para que o rigor científico venha ratificar esses escritos. A heterodoxia de Umbanda — A Proto-Síntese Cósmica avança ainda na demonstração geométrica e aritmética do número correto dos Arcanos Maiores e Menores e ainda explica o motivo do conceito vigente. Discorre sobre magia etérico-física em minúcias conceituais e aprofunda-se nos métodos oraculares restituindo seus valores adormecidos. Um capítulo especial é dedicado à organização do processo iniciático, em suas várias fases, ilustrado como acontecia nos tempos antigos dos grandes Colégios Divinos da tradição hermética. 177


Finalizando, Mestre Orishivara levanta os véus da universalidade da Umbanda, antecipando as mudanças sociais esperadas para o Movimento Umbandista no Brasil e para a coletividade planetária como um todo. Constituindo-se como tratado de filosofia hermética, magia, doutrina espiritual e prática mediunímica, ―Umbanda — A Proto-Síntese Cósmica‖ foi elevada à condição de texto sagrado basilar para boa parte dos templos umbandistas de todo o país e se tornou o paradigma da fase iniciática da Umbanda, por ela inaugurada. Tudo isso contribuiu para uma transformação da Umbanda e do que se pensava da mesma. Vivemos, atualmente, uma fase prolífica no setor umbandista que deixou de ter um caráter regional e passou a se relacionar naturalmente com outros setores filos-religiosos. A Umbanda participa ativamente das discussões das necessidades sociais e espirituais brasileiras e planetárias, propondo um método de abordagem da Realidade que se direciona para o universalismo expresso na meta de Convergência com vistas à Paz Mundial. (RIVAS NETO, 2002, p. 11)

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ANEXO 28

A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino propaga, ensina na teoria e na prática e sustem a Doutrina do Tríplice Caminho como meio evolutivo para todo o Ser Humano conquistar a Felicidade e a Libertação da Dor e do Sofrimento. A Doutrina do Tríplice Caminho promove as condições necessárias para a realização da Paz Mundial, pois auxilia a cada indivíduo na conquista da Paz Interior. Assim a Paz mundial será a conseqüência do Ser Humano renovado, com uma consciência amplificada de sua vida como Espírito Eterno, imperecível em sua Essência e, principalmente, em concordância com as Leis Divinas. Para tanto, utiliza-se de três caminhos interligados, a Doutrina Tântrica, a Doutrina Mântrica e a Doutrina Yântrica, para direcionar cada indivíduo rumo à sua própria evolução espiritual, ensinando-o a aperfeiçoar a si mesmo e evitar criar causas que sejam deletérias para sua própria evolução. Com isso, é claro, o indivíduo que busca sua Autocura evita as agressões à Natureza, aos seus semelhantes e a si mesmo, aprimora-se e contribui para melhorar a atmosfera planetária com sua Paz Interior que se reflete no meio ambiente. As Doutrinas do Tríplice Caminho baseiam-se em analogias com os eventos da Cosmogênese, quando se produziram os três fenômenos da Criação:a Luz, o Som e o Movimento, criando respectivamente, a Doutrina Tântrica, a Doutrina Mântrica e a Doutrina Yântrica. Sendo o Homem comparável ao Universo, pela Lei das Analogias, temos os 179


Organismos Mental, Astral e Físico representando os três fenômenos cosmogenéticos e se expressando através do Pensamento, do Sentimento e da Ação no plano das formas. Através da prática dos Três Caminhos, o discípulo amplia sua concepção da Vida e atinge patamares superiores de entendimento da Realidade, desfazendo as ilusões das formações impermanentes. Compreende a Vida depois da morte física e entra em contato com aqueles que já estão livres das reencarnações, que são os Mestres Astralizados. Também aprende o conhecimento de Síntese, tanto no que se refere à humanidade como ao Universo como um todo. Cultiva a Simplicidade, a Humildade e a Pureza como meios para a Realidade. Para trazer ao Homem o Equilíbrio na Mente, a Estabilidade no Coração e a Harmonia em suas Energias, a Doutrina do Tríplice Caminho faz com que ele reconheça e vivencie sua condição de Espírito Eterno, Imaterial e Imperecível, que habita um corpo físico e deve utilizar seus veículos de expressão como forma para voltar a sua Essência Espiritual, em sintonia com seus Genitores Divinos e com todo o Universo. (RIVAS NETO, 2002, p.376-377)

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ANEXO 29

Profa. Anita J. Marsaioli - Instituto de Química – UNICAMP - Campinas 08/julho/2000

Ao ler a apresentação do Livro intitulada ―Livro das Energias‖, de Rubens Saraceni, fiquei interessada, pois o propósito do mesmo ―esclarecer cientificamente a manifestação de Deus‖. Acreditando que as religiões, as quais têm meu respeito indiscriminado, com base em textos religiosos clássicos como a Bíblia, o Alcorão, Vedas e tantos outros, poderiam nos dias de hoje utilizar explicações cientificas atuais, continuei minha leitura. Chamou minha atenção a impressionante lista de filósofos e cientistas que foram invocados (pág.11) na árdua tarefa de explicar as energias, cientifica e subjetivamente, que seguem textualmente citados no livro como ―Descartes, Kant, Copérnico, Abrahms, Edison, Lumuiere, Sadek, Hashem, Ranish, Lemoresh, Zorik, Coperfield‖. Curiosamente, em ponto nenhum do livro, foram citados trechos das obras desses grandes homens, como seria esperado. Outro fato estranho é que, ao interpretar ―fenômenos relacionados à energia‖, são utilizados argumentos com base nos elétrons, prótons, nêutrons (pág.112), elementos químicos (pág. 46) e o ―Big Bang‖ (pág.137, citado como ―centro que explodiu‖), de domínio cientifico dos séculos XIX e XX e estudados por cientistas não mencionados. Lamenta-se que a cada pagina deste livro, o leitor seja agredido por algum conceito distorcido da Física, Química ou Astronomia: Exemplificando, os nêutrons, foram definidos como ―magnetos‖ (pág.112) e mais tarde como partículas que possuem dupla polaridade (pág. 166). Tais definições fogem de 181


qualquer texto cientifico e mesmo didático, onde os nêutrons são simplesmente definidos como partículas atômicas neutras. Alias, existem centenas de partículas subatômicas, porem a elas são dados outros nomes. Os termos supostamente científicos são por vezes totalmente inadequados, exemplificando, foi citado ―se derramarmos vários pigmentos numa solução aquosa teremos um amalgama colorido‖ é simplesmente estarrecedor, pois em química amalgamas são por definição ligas metálicas contendo mercúrio. A formula da molécula da água é citada por duas vezes como H2O (pág. 81), o que é incorreto, o certo seria H2O. Curiosamente a eletrolise (pág.112) é citada como método para alterar a composição do núcleo enquanto que, por definição, eletrólise é o processo no qual a energia elétrica é utilizada para produzir alterações químicas. As reações que ocorrem são oxido-reduções e não alterações nucleares. Finalmente sobre critica feita aos ―médicos e psiquiatras, que pouco sabem sobre os mistérios de Deus‖ (pág.32) gostaria de comentar que espero de um médico que ele tenha sido um bom aluno e entenda de medicina e trate do meu corpo, não espero que trate da minha alma ou espírito, para isto irei consultar um religioso ou sacerdote. Existem profissionais que tratam simultaneamente de ambas as coisas, mais a eles é recomendado não denegrir nenhum de seus colegas profissionais. Seria bastante desgastante citar todos os conceitos errôneos e termos inadequados encontrados no texto, resumidamente direi que ao ler este livro lembrei-me do ―O Samba do Crioulo Doido‖ e que a letra deste samba reflete com bastante propriedade a confusão de conceitos e explicações aqui expostas. Preocupo-me com os jovens leitores que, talvez devido a uma formação restrita em ciências, poderiam assimilar esse conjunto de idéias como verdadeiras. 182


ANEXO 30

Paulo Sérgio Leite Fernandes – artigo da OAB

Desenergizado o livro das energias

Não existe lei para coibir a publicação e distribuição de livros comprovadamente com erros conceituais. A inexistência de uma legislação pertinente tem deixado parte do corpo científico da Unicamp de "cabeça quente". Os pesquisadores detectaram uma publicação – O Livro das Energias, de Rubens Saraceni – que contém muitos erros conceituais graves. Entre outros, teriam sido cometidos abusos científicos relacionados à Física, à Química, à Botânica, à Astronomia, além de trazer o livro conceitos errados sobre Reprodução Humana e Sexualidade. Segundo estudiosos que examinaram a obra, caracterizada como de cunho científico, ela contém mensagens estimuladoras à pornografia, à depravação e à prática sexual irresponsável. As idéias transmitidas pela edição comentada, segundo os cientistas, podem contribuir para o aumento da promiscuidade entre jovens e engrossar o índice de AIDS, DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), adolescentes grávidas e aborto. Segundo o movimento, o livro põe por terra, de maneira descompromissada, todo o "trabalho de formiga" que tem sido feito ao longo dos anos no sentido de coibir a propagação das doenças sexualmente transmissíveis e mesmo da AIDS. O movimento já chegou até aos pesquisadores da USP. Recentemente, Sérgio Paulo Rigonatti, doutor em Psiquiatria Forense pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, "engrossou a fileira de militantes". Ao repassar o livro, apontou que o autor no sexto parágrafo da página 232 afirma que sacerdotes e demais celibatários ou 183


monogâmicos exclusivos recalcam seus impulsos sexuais com a única finalidade de não perderem sua "condição do exercício do cargo que ocupam". E, no 5º parágrafo da página 233, coloca que a velhice "é um modo de frear a sexualidade dos seres humanos", o que, salienta Sérgio Paulo Rigonatti, é uma colocação errada que vai contra as vigentes teorias da sexualidade. Mais grave ainda, o Psiquiatra Forense afirma que, em quatro páginas desse capítulo, encontrou uma profusão de exórdios à atividade sexual de maneira indiscriminada, descontextualizada, pautada egocentricamente na satisfação das necessidades próprias. Os cientistas afirmaram que procuraram o autor que, em um primeiro momento, se predispôs a corrigir os erros da obra com a ajuda deles (cientistas), que fariam o trabalho de forma voluntária, sob sigilo, e sem prejuízo à imagem do autor. Depois se negou a fazer as correções e "responsabilizou" uma "entidade do mundo espiritual" pela autoria do livro. Essa reação adversa do autor fez com que o grupo de cientistas entrasse em contato com várias instituições em busca de uma solução pacífica para o caso. Uma das medidas seria retirar a obra de circulação. Funcionários do Ministério da Educação, em Brasília, passaram o assunto para a Divisão do MEC em São Paulo, que repassou para a Secretaria da Educação, cuja representante disse que, por se tratar de obra não-didática, não era possível fazer nada. Sugeriram contato com a Câmara Brasileira do Livro, cujo operador do Departamento Jurídico, após examinar o caso, disse ser impossível qualquer atitude judicial corretiva.

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ANEXO 31

Sérgio Paulo Rigonatti, doutor em Psiquiatria Forense pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), médicoassistente doutor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, coordenador do Serviço de Tratamentos Biológicos (ECT) do IPHC da FMUSP e do Serviço de Psiquiatria Forense do IPHC da FMUSP.

Conceitos equivocados ou má-fé? Por meio de contato com amigos advogados, tivemos conhecimento do artigo da professora Anita na versão eletrônica do Jornal do Advogado, em que comenta o Livro das Energias, do escritor Rubens Saraceni. Como profissionais da área de saúde mental interessados nos assuntos que envolvem as religiões e manifestações místicas, procuramos ter contato com a obra em questão. Qual não foi nossa surpresa ao nos depararmos com uma série de conceitos nunca dantes vistos por nós, que somos habituados ao pensamento místico oriental e ocidental, bem como dos sincretismos afro-brasileiros. Não sabemos se nosso comentário cabe neste espaço que interessa à classe jurídica, mas não resistimos em compartilhar algumas idéias que nos vieram à mente, baseadas em alguns trechos particularmente interessantes, que pedimos a permissão para citar abaixo. Gostaríamos de aqui termos a oportunidade de fazer uma resenha literária com ênfase nos aspectos psicológicos.

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A despeito de todas as evidentes falhas nos campos da ciência, nosso interesse maior se voltou aos aspectos psicológicos da obra, portanto gostaríamos de transcrever e comentar alguns trechos do capítulo intitulado "Energia Sexual" que nos chamou especialmente a atenção. Na página 230 encontramos o quarto parágrafo como se segue: "Duas mulheres ou mais, vivem uma vida inteira em perfeita amizade, mas uma mulher não vive uma vida inteira, desse mesmo modo, com um homem. Não, pois logo seriam atraídos sexualmente, uma vez que pólos magnéticos opostos tendem por uma lei natural a se interpenetrarem caso estejam muito próximos. Isso é uma lei física e não espiritual". Esse parágrafo denota uma profunda imaturidade com fixação nos primeiros estágios do desenvolvimento da personalidade que se caracterizam pela necessidade exclusiva e egoística de satisfazer, incondicionalmente, os instintos primários, obedecendo aos impulsos do Id, especialmente no que se refere à libido. Nesse caso o impulso sexual, conforme cita o autor, não pode ser freado, nem mesmo redirecionado nas formas de sublimação como apontava já Sigmund Freud. Além do fato de se utilizar de conceitos atualmente já superados dentro da Psicologia, nos quais o desejo ou impulso que movimenta o homem é fundamentalmente de caráter sexual, algo questionado pelo próprio Freud em seus escritos mais tardios. A conclusão de que se tira disso, em termos leigos, é que não existe amizade sincera entre homem e mulher, mas apenas uma dissimulação do interesse sexual que espera ser saciado em um momento mais oportuno. Logo a seguir, no próximo parágrafo, outra pérola: "Ou um homem e uma mulher convivem como esposos ou amantes, ou não viverão juntos em equilíbrio, porque seus magnetismos são de ordens opostas, tendendo a se apossar da área ocupada pelo outro".

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Como ficam então as relações entre pais e filhas e mães e filhos, ou entre irmãos do sexo oposto? Teriam de ser relações necessariamente incestuosas? E entre um patrão e sua empregada? Assédio sexual? Estaria configurada a vitimologia? A empregada seria culpada de assédio passivo por ser mulher? Idem para os casos de estupro que ocorrem mais comumente entre pessoas conhecidas, conforme aparecem nas estatísticas norte-americanas. É claro que estamos em franco campo da Psicopatologia! Somente pessoas doentes mantêm esse tipo de idéia em suas mentes. Caminhemos à próxima página, de número 231. Continua na mesma toada, já no primeiro parágrafo: "Homem e mulher podem ser atraídos um para o outro, por todos os sentidos, mas apenas um sentido os unirá de forma e padrão mais sólidos: é a energia sexual, que ordenará ao seu condensador que realize a troca com o sexo oposto, no tempo mais breve possível. Caso isto não se faça, seu sexo o atormentará através do emocional que irá se desequilibrar totalmente". O que parece haver nesse parágrafo é uma condição de urgência em satisfazer um desejo, como uma necessidade fisiológica qualquer como urinar, por exemplo. O que pode representar uma incontinência emocional que sequer leva em consideração a reciprocidade do outro. Ou seja, que importa se o outro (a essa altura já considerado um objeto de desejo) sente a mesma coisa ou não? Ainda mais, parece existir a condição de que, se o desejo não for satisfeito, gerará indefectivelmente um desequilíbrio (ou tormento como prefere dizer o autor) na esfera emocional. Essa posição de se ter uma idéia fixa que necessita ser concretizada está arrolada nos anais de Psiquiatria como uma das características encontradas no Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), aqui expresso como uma idéia obsessiva que requer uma satisfação de maneira compulsória.

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No parágrafo seguinte, vemos textualmente: "Para que fique claro aquilo que foi dito acima, imagine um homem casado com uma mulher que ama e que é muito feliz ao seu lado. Se ela vier a falecer, ele não deixará de amá-la, mas o acúmulo de energias sexuais irá impelilo para que se una novamente a outra mulher, mesmo que não a ame, apenas para que possa realizar a troca de energias sexuais. Se não o fizer irá sofrer um desequilíbrio emocional, provocado por suas energias sexuais, que não deixarão de ser produzidas (condensadas) em seu todo energético, precisando ser trocadas (ato sexual) e não apenas descarregadas (masturbação)". Continua aqui o que parece ser o império dos sentidos, somos escravos dos nossos instintos e não senhores deles. Chama a atenção a frase "mesmo que não a ame", que sugere um comportamento semelhante ao encontrado na chamada personalidade psicopática, já que perde a percepção do outro e transgride os valores da própria ética, com a possibilidade de simular um afeto inexistente com o fim exclusivo de satisfazer sua urgência sexual. Cabe aqui a pergunta: o que faria um indivíduo assim caso não encontrasse a correspondência no parceiro? Como lidaria com a frustração? Grande incógnita!... Em que tal indivíduo é diferente dos animais? Continuando, a seguir: "A ausência da absorção dessas energias pelo pólo negativo, irá levá-lo ao desequilíbrio emocional que irá se aflorar nos seus outros sentidos". Vejam que fomos resumidos a impulsos e instintos, transformados em Ser Sexual, subtraindo todas as funções nervosas superiores como julgamento, crítica e, principalmente, livre-arbítrio. Estamos fadados a viver da busca incessante por sexo. Atualmente, esses casos têm recebido tratamento clínico especializado e há grupos de auto-ajuda nos mesmos moldes dos Alcoólatras Anônimos. Nesse contexto pintado pelo autor, parece-nos que todos aqueles que optaram por uma vida celibatária, como nos casos de votos monásticos estabelecidos por 188


católicos, budistas, iogues e outros, sofrem profundos desequilíbrios em virtude dessa vocação, restando-nos agora apenas o medo de procurar qualquer um desses que, notoriamente, procuram servir à comunidade com conselhos e orientações de vida. Nesse aspecto, por insano que possa parecer, o autor determina no sexto parágrafo da página 232 que sacerdotes e demais celibatários ou monogâmicos exclusivos, recalcam seus impulsos sexuais com a única finalidade de não perderem sua "condição do exercício do cargo que ocupam". Esquecem os autores que grande parte dos líderes religiosos abriga a sinceridade em seus corações. Finalizando, no 5º parágrafo da página 233, coloca que a velhice "é um modo de frear a sexualidade dos seres humanos", o que salientamos é uma colocação errada que vai contra as vigentes teorias da sexualidade. Podemos afirmar que os autores, o encarnado e o espiritual, leram superficialmente algumas coisas sobre o tema e não conseguiram apreendê-las, permitindo que as pobres imaginações elaborassem conceitos errôneos, revelando a ignorância dos mesmos sobre conceitos básicos da sexualidade. Em quatro páginas desse capítulo encontramos uma profusão de exórdios à atividade sexual de maneira indiscriminada, descontextualizada, pautada egocentricamente na satisfação das necessidades próprias. Considerando que muitos buscam nos meios místicos uma forma de orientação ou guia para o processo da individuação, emprestando a seus líderes ou gurus uma confiança irrestrita, com perda conseqüente da crítica e julgamento. Perguntamos, então: Como ficam aqueles que se vincularem a essa corrente? Não estariam correndo o risco de se transformarem em doentes da sexualidade caminhando para a insanidade franca?

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Sua doutrina não parece estar apoiada por nenhuma das tendências religiosas por nós conhecidas, mesmo nos chamados cultos neopaganistas ou no tantrismo shaktista em cujas doutrinas o hedonismo é exaltado como forma ou veículo de ascensão espiritual. Mesmo nesses cultos, tais práticas são executadas em um contexto ritualizado e, normalmente, se restringem a um pequeno grupo de pessoas que buscam a realização por meio do prazer juntas. Com exceção das seitas citadas, o que se observa normalmente é um comportamento responsável perante a sexualidade, especialmente nos tempos atuais onde as DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis) são muitas vezes letais. Finalmente, gostaríamos de citar um trecho de Hipócrates, citado pelo autor ao final do capítulo e do livro, com o qual o autor parece se identificar. "Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber. Em crer que se sabe, reside a ignorância.

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ANEXO 32

Carlos de Brito Imbassahy

A ENERGIA EM LIVRO

O sempre distinto amigo Antonio Cony envia-me "O Livro das Energias", segundo consta, obra psicografada por Rubens Saraceni e pede-me uma análise, como físico, do seu conteúdo. É lamentável, sem dúvida, culparem a Espiritualidade por uma série de sandices que os encarnados dizem e cometem. O autor do livro em questão, sem dúvida, faz uma terrível confusão, por ignorar, evidentemente, o assunto, misturando conceitos de energia os mais absurdos com a realidade dos fenômenos físicos. A impressão que se tem é a de que, sabendo que escreveria para leigos, ele poderia dizer todos os absurdos do mundo impunemente, atribuindo-os a nomes ilustres como se, de fato, tais celebridades houvessem lhe ditado algo de extraordinário ignorado pelo mundo. E o pior, como disse, é que arrola nomes de autores e cientistas célebres como coniventes com este trabalho. Na primeira parte do livro, o autor engloba o que ele chama de energias elementares, sendo elas, a divina, a cósmica, a Universal, a celestial e mais, estelares, galáctica, solares, planetárias, ígnea, aquática, terrena e aérea, mostrando que não sabe nada sobre o que venha a ser, de fato, a energia em si. E, segundo me disse o amigo, há quem leia e leve a sério tal barbárie. 191


Só para termos uma idéia dos absurdos contidos no livro, analisemos seus conceitos: A energia divina é original e anterior a tudo (sic). Ela se espalha por todo universo, imantando a todos e a tudo. Seria o caso de se perguntar: ela é divina ou magnética? Porque, a que imanta é o imã, ou seja, uma fonte magnética. No segundo capítulo diz o autor que a energia cósmica é derivada da energia divina, que por sua vez, é o mental divino em ação constante. Do irracional ao absurdo, sua tirada é um passo. E tudo piora quando o autor define a energia universal: "é, como dissemos, quando abordamos a energia cósmica, "positiva", no sentido de que ambas são os pólos da energia divina‖. Inconcebível! Mas é o que está escrito no livro. Prosseguindo: A energia celestial é a energia que, como se fosse uma capa grossa, envolve um corpo celeste. Já a energia galáctica é totalmente diferente das anteriores. Segundo o autor ela é mais um composto de energias do que uma energia propriamente dita. Afinal, é ou não é energia? Pasmem-se os que não tomaram conhecimento da obra! Ela nem chega a ser uma aberração, pois, da invencionice ao absurdo nada falta. Como nosso distinto leitor não é obrigado a conhecer Física nem seus conceitos atuais, o que se me afigura é que, impunemente, o responsável pelo "Livro das Energias" conta exatamente com esse fator para impingir uma farsa, certo de que ficará impune e que impressionará os simples com suas tiradas, principalmente porque elas são atribuídas a sumidades do conhecimento. Só que, temos a certeza, tais sumidades nem sabem que estão sendo usadas para tal fato. 192


Apenas, para aqueles que leram a obra, tenham uma idéia do absurdo, vou tentar, em palavras simples, explicar a posição da Física perante os conhecimentos atuais. O que se tem em mente é que existe um Universo, dito Cosmo, constituído de uma energia fundamental, amorfa, que se expande a partir de um fulcro central. Essa energia teria sido implodida por um Agente Supremo - que, para os religiosos, seria Deus - com capacidade para tal, no aludido fulcro fundamental do nosso Universo. A primeira hipótese sugerida, baseada nos buracos negros, é a de que toda essa energia teria explodido no famoso Big-bang, a partir do que passaria a se expandir. Com isso, por causa do distúrbio causado ante tal explosão, essa energia passaria a sofrer ação desse desequilíbrio, condensando-se sob forma de matéria. Todavia, a tese do Big-bang choca-se com um outro problema porque a expansão é contínua e estável, coisa que uma explosão jamais acarretaria. Essa energia é tudo: condensada, transforma-se em matéria, radiada, apresenta-se sob forma quântica, destacando-se a energia mecânica, que nos dá o movimento e a capacidade de trabalho, a energia acústica, imediatamente após a mecânica, dando-nos idéia de som. Junto a ela temos os ultra-sons, porque não são audíveis. Seguem-se a energia térmica, que produz calor e após ele o conjunto de ondas eletromagnéticas (OEM) das quais fazem parte a telegrafia, as ondas de rádio também chamadas de hertzianas, as ondas luminosas, incluindo as infravermelhas e as ultravioletas, os raios catódicos, sendo os mais conhecidos aqueles que as válvulas de rádio emitiam, o raio X, o famoso raio gama, o raio GE que gela a água de certos bebedouros e o badaladíssimo raio laser, sem falar os das células foto-elétricas, muito comuns em portas de elevador. Acima das emissões catódicas há um espaço de ondas ainda não conhecidas, onde os ingleses conseguiram detectar um comprimento de onda correspondente às emissões 193


telepáticas, essas que se vulgarizaram em espetáculos teatrais em que uma sensitiva adivinha coisas que seu companheiro pega junto aos assistentes. Finalmente, acima delas, as emissões cósmicas, esses raios que não podem atravessar a camada de ozônio e entrar em nossa atmosfera porque causariam bombardeios terríveis em tudo o que existe na face da Terra. Isto é a energia. O resto vem a ser mera fantasia. Nada mais existe, além disso. O que ainda podemos caracterizar nesta conjuntura é a existência de mais um estado da aludida energia, conhecido como plasmagel e que representa uma situação curiosa da matéria em si, transcendendo ao estado material da energia. Espero que, com esta simples exposição, os amigos leitores entendam que "O Livro das Energias" é pura fantasia destinada a enganar os incautos.

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ANEXO 33

Yuri Tavares Rocha – Mestre em Ciências, pesquisador Científico do Instituto de Botânica, doutorando do Departamento de Geografia da USP

EM DEFESA DAS PLANTAS E DA CIÊNCIA DO TEOFRASTO

Como espiritualista e cientista tive muita dificuldade em ler "O Livro das Energias", de Rubens Saraceni, além de me infligir uma grande e profunda indignação quanto ao seu conteúdo e à falta de método lógico de explanação e sustentação. Comecemos pelas dificuldades, apenas as principais. Apresentada como obra mediúnica e "ensinada" por seres espirituais ("Mestres da Luz"), cujas encarnações tiveram papel importante nos pensamentos filosófico e científico da Humanidade, convoca a incrédula crença de que tais espíritos, mais evoluídos, possam agora escrever, ensinar ou ditar conceitos e fundamentos sobre energia que contrapõem diametralmente os anteriormente postulados; se foi informado que tais espíritos estão em camadas superiores, como podem distorcer a lógica que tinham aqui nas suas encarnações? Como agora escrevem, ensinam ou ditam tamanhas asneiras? Sinto muito mas só me resta um comentário chulo, pedindo licença e desculpas: "Descartes, Kant, Copérnico, Abrahms, Edison,..." devem estar se remoendo nos respectivos caixões... Outra enorme dificuldade: esses espíritos estão falando e ensinando conceitos da matéria, do nosso nível atual, da Humanidade encarnada no planeta Terra e tudo que aqui está concretizado na matéria. Energia é matéria e dessa forma deve ser explicada; energias elétrica, mecânica, motora, eólica, cinética, etc. são fenômenos entendidos pela matéria, muito bem 195


explicados pela lógica da Física (aliás, perdoem-me os doutos dessa área pela intromissão) e outras ciências. Dessa forma, gostaria, lendo o referido livro, de entender como pode existir uma energia colorida e outra luminosa uma vez que a cor é um fenômeno físico relacionado à luz (sem luz, nada tem cor). Se as energias tratados no livro pressupõem uma nova maneira de entender a matéria e as energias, não está claro, nem escuro, nem colorido...Fundamentos, conceitos e postulados devem existir para explicar o que se pretendeu no "O Livro das Energias". Não os encontrei. Agora o maior entrave e o que consumiu maior energia (a minha). Há uma completa e absoluta falta de raciocínio lógico, nexo e concatenação de idéias nas frases, nos parágrafos e entre eles. Para exemplificar: se vou descrever um livro, digo que ele é um conjunto de folhas de papel, oriundo da celulose de madeira de uma árvore, chamadas de páginas que contêm letras arranjadas em palavras que formam frases e transmitem uma mensagem cognitiva; ou posso dizer, de uma forma desconexa: as letras são oriundas da celulose chamadas de páginas que em conjunto são chamadas de frases arranjadas em folhas de papel que transmitem uma mensagem...nenhuma. Minha grande indignação, especificando, é oriunda da leitura do capítulo do livro que trata da "Energia Vegetal" (p.177-80, op. cit.). Sinto-me absolutamente à vontade de comentar sobre o que está ali mostrado pois sou espiritualista e cientista da área de Botânica há anos. Assim, quando se fala ou se escreve sobre vegetal, planta e vegetação, estou atendo e assumo minha responsabilidade de aplicar os meus conhecimentos, mesmo que limitados e em constante evolução, no esclarecimento de idéias que são contrárias à ciência de Teofrasto, a Botânica. Seria omisso e egoísta se não me manifestasse. Esse esforço faço a seguir, enfrentando as dificuldades relatadas.

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Considerada pelo autor como a energia "mais leve", que se espalha no ar e o deixa úmido, "uma vez que ela é essencialmente aquática", pode-se entender que a energia vegetal é baseada na água e na energia aquática, ou seja, as moléculas de água são o seu vetor. Errado!!! Logo a seguir o autor se contrapõe: o ar sem essa energia é tão seco quanto o ar do deserto. Tentando esclarecer: a umidade relativa do ar é medida pela quantidade de água no seu estado gasoso (maior distância entre as moléculas) presente na composição total do ar, suspensa nele, independentemente da presença de energia vegetal já que é um fenômeno físico. Como o autor explicaria então o ar de uma sauna a vapor, úmida, sem nenhum vaso de samambaia por perto? Outro contra-senso: as correntes aéreas não "absorvem água em moléculas" mas carreiam, carregam tais moléculas. Falta de conhecimento básico de climatologia...Porém "Esse é um mistério desconhecido da ciência humana." Realmente deve ser: "Quando uma planta emite sua energia, ela cria no ar uma condição única, que lhe permite absorver moléculas de hidrogênio e oxigênio" (p. 177. op. cit.). Não vou me aprofundar muito na fórmula da fotossíntese mas o Dicionário Aurélio tem uma simples e cabal definição: "síntese de substâncias orgânicas mediante a fixação do gás carbônico do ar através da radiação solar. A clorofila tem participação fundamental nesse processo". O hidrogênio referido deve ser oriundo da água que a planta absorve; mas o oxigênio...ela não absorve e sim o elimina. Como o autor explicaria a origem do oxigênio na atmosfera se as plantas o absorvem? Outra falha imperdoável: como falar da energia vegetal sem tocar na absorção da energia solar pelas plantas? São inconcebíveis tamanhas inversão e confusão! Outros conhecimentos faltam mais ainda quando o autor faz uma comparação entre a floresta amazônica e o deserto do Saara. Somente a floresta é úmida porque tem a vegetação, o que não ocorre no deserto... Climatologia, geologia, tectônica de placas, teoria da evolução, 197


pedologia, teoria dos refúgios, biogeografia, etc. são fontes de informação e explicação sobre a razão de existir um deserto no norte da África e a floresta da Amazônia na América do Sul. O autor, assim "pensando", cria um determinismo mais pueril do que o geográfico, um determinismo irracional e dogmático. Continuando...O autor afirma que a energia vegetal flutua no ar e é a responsável pela "reunião de bilhões de moléculas" que "formam as pesadas nuvens, que desabam em aguaceiros constantes". A água pode estar em três estados: sólido. líquido ou gasoso, determinados pelo distanciamento entre as moléculas; a precipitação da água do seu estado gasoso se deve á presença de corpos de condensação, além de outros fatores tal como a diferença de temperatura. Nada disso é determinado pela energia vegetal; cursos e reservatórios d’água têm sua água evaporada, acredite o autor ou não. Em três frases a mesma afirmação: a energia vegetal é um híbrido formado por 80% de energia aquática (suponho que hídrica seria melhor mas quem sou eu para contrariar um "Mestre de Luz"?) e 20% de energia aérea. Então ela não é definida por si só, é uma energia transformada mas que não é explicada nem como nem por que nem onde. Mas o autor explica que a energia vegetal "é o meio em que as moléculas (de água) usam ao serem liberadas pelos vegetais" (p. 178. op. cit.). Lembrando da fotossíntese, para ela se processar a planta precisa absorver água e gás carbônico; todos os processos que envolvem perda de água para a planta comprometem a síntese orgânica para sua sobrevivência. Como entender que os vegetais liberam tão facilmente um bem precioso e que é seu maior componente segundo o autor (80%)? Sinceramente gostaria de entender...seria uma revelação! "A energia vegetal tem também qualidades terapêuticas. (...) chás das ervas aromáticas. Neste caso, a substância extraída pelo aquecimento (calor) é a energia vegetal derivada da absorção da energia terrena que está condensada nas folhas, raízes e sementes dos 198


vegetais" (p. 179. op. cit.). Anteriormente, tinha-se definido a energia vegetal como 80% da aquática e 20% da aérea; como agora ela tem energia terrena condensada??? E isso é reafirmado nos dois parágrafos seguintes... E que com a energia irradiante (energia aquática mais a aérea) "podemos arejar um ambiente" (p. 180. op. cit.); tem nexo??? Será que a originalidade desse livro está nos seus erros, grandes e inúmeros? Ou na parte da Botânica e da energia vegetal faltou a assistência espiritual de Lineu, Martius, Saint Hilaire ou do próprio Teofrasto? É com alegria, apesar das dificuldades e da indignação, que escrevi esse artigo pois foi uma oportunidade de assumir minha responsabilidade como cientista, exercitar minha cidadania planetária e cooperar no discernimento do que é falácia e do que é Ciência...do que é Realidade e do que é ilusão...Sugestão para a próxima edição do livro (rogo para que a atual seja recolhida): "O Livro das Ilusões". Concluindo: peço a infirmação desse livro!

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5 – Apêndice

MACIEL, Silvio Pereira – “Umbanda Mista – Justiça, amor e verdade – A lei do equilíbrio” – Editora Aurora, 2ª edição – Rio de Janeiro, RJ

BROWN, Diana - “Uma história da Umbanda no Rio”. In: BROWN, Diana, NEGRÃO, Lisías et al (orgs). “Umbanda e Política”. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985

MAGNO, Oliveira – “Umbanda e Ocultismo” – Editora Espiritualista, 3 edição, 1952 – Rio de janeiro, RJ

MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda do Brasil” – 2ª Ed. – São Paulo: Ícone, 1996.

MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda de todos nós (a lei revelada)” – 7ª Ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1992.

200


TRINDADE, Diamantino Fernandes – “Umbanda Brasileira – um século de História” – 1ª Ed. - São Paulo: Ícone, 2009

MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda - sua eterna Doutrina” – 4ª Ed. - Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1985

ARHAPIAGHA, Yamunisidha – “Umbanda - O Elo perdido” – 2ª edição – São Paulo: Ícone, 1994

RIVAS NETO, F. – “Umbanda – A Proto Síntese Cósmica” – São Paulo: Editora Pensamento, 2002.

XAVIER DA SILVA, Francisco – “Saravá Umbanda” – Editora Eco – Rio de Janeiro, 1965

RONTON, Josef – “Sacramentos da Umbanda Mística” – Tríade Editorial São Paulo: Ícone, 1989.

201


ARHAPIAGHA, Yamunisiddha – “Sacerdote, Mago e Médico: cura e autocura umbandista – terapia da alma” – São Paulo: Ícone, 2003

LOUZA, Francisco – “Os Orixás governam o seu destino” – Editora Espiritualista – Rio de Janeiro, RJ

OLIVEIRA, José Paiva de – “Os Orixás africanos na Umbanda” – Editora Espiritualista – Rio de janeiro, 1985.

RAMOS, Arthur – “O negro Brasileiro” 1º volume: etnografia religiosa – 5ª Ed. – Rio de Janeiro: Graphia, 2001.

SARACENI, Rubens – “O livro das energias” – 1ª Ed. – São Paulo: New Transcedentalis, 1993.

MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Macumbas e Candomblés na Umbanda” – 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1977.

202


RIVAS NETO, F. – “Lições Básicas de Umbanda” - 2ª Ed. (ampliada) – São Paulo: Ícone, 1994.

RIVAS NETO, F. – “Fundamentos Herméticos de Umbanda” – 1ª Ed. – São Paulo: Ícone, 1996.

YOKAANAM – “O Evangelho de Umbanda Eclética” – 5ª Ed. – Fraternidade Universal Planalto Central do Brasil, 1979.

CRUZ, Osório – “O Esoterismo de Umbanda” – 1ª edição - Rio de Janeiro, 1953

ZESPO, Emanuel – “Codificação da Lei de Umbanda – parte científica e parte prática” - Editora Espiritualista, 2ª edição, 1960 – Rio de Janeiro, RJ

GONÇALVES DA SILVA, Vagner (organizador) – “Caminhos da Alma – Memória Afro-brasileira” – São Paulo: Summus, 2002 203


MENESES, Heraldo – “Caboclos na Umbanda” – Coleção Afro–Brasileira, Rio de Janeiro.

SILVA PINTO, Tancredo da – “Cabala Umbandista” – Vol. I: Editora Espiritualista, Rio de Janeiro, 1971

BETTIOL, Leopoldo – “A Umbanda perante a crítica” – Edições Livraria Olímpia, coleção Santo Agostinho, 1954 – Rio Grande do Sul, RGS

MAGNO, Oliveira – “A Umbanda Esotérica e Iniciática” – Editora Espiritualista, 4ª edição, 1962 – Rio de janeiro, RJ

MAGNO, Oliveira – “A Umbanda e seus complexos” – Editora Espiritualista, 4ª edição, 1961 – Rio de Janeiro, RJ

FERREIRA, Túlio Alves – “A Umbanda do III Milênio” – 1ª Ed. – São Paulo: Editora Pensamento, 1984.

204


FONTENELLE, Aluizio – “A Umbanda através dos séculos” – 2ª Ed. – Rio de janeiro: Ed. Espiritualista, 1957.

GOMES DE OLIVEIRA, Paulo – “Umbanda Sagrada e Divina” – 1º vol. – Rio de janeiro: Aurora, 1953.

DE UMBANDA, Federação Espírita – “Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda” – Rio de Janeiro, 1942

SILVA PINTO, Tancredo da – “A origem da Umbanda”, Rio de Janeiro: Editora Espiritualista, 1970

DE SOUZA, Leal – “No mundo dos espíritos” – Rio de Janeiro, 1925

SARACENI, Rubens – “Tratado de Escrita Mágica Sagrada – um curso de escrita mágica” – 1ª Ed. – São Paulo: Madras, 2007. 205


SARACENI, Rubens – “O Código da Escrita Mágica Simbólica” – 1ª Ed. – São Paulo: Madras, 2003.

206


6 – Referências Bibliográficas

ARHAPIAGHA, Yamunisidha – “Umbanda - O Elo perdido” – 2ª Ed. – São Paulo: Ícone, 1994 ARHAPIAGHA, Yamunisiddha

– “Sacerdote, Mago e Médico: cura e autocura

umbandista – terapia da alma” – São Paulo: Ícone, 2003 BETTIOL, Leopoldo – “A Umbanda perante a crítica” – Edições Livraria Olímpia, coleção Santo Agostinho, 1954 – Rio Grande do Sul, RGS BROWN, Diana - “Uma história da Umbanda no Rio”. In: BROWN, Diana, NEGRÃO, Lisías et al (orgs). “Umbanda e Política”. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985 CRUZ, Osório – “O Esoterismo de Umbanda” – 1ª Ed - Rio de Janeiro, 1953 DE SOUZA, Leal – ―O Espiritismo, Magia e as Sete linhas de Umbanda” – Rio de Janeiro, 1933 DE SOUZA, Leal – “No mundo dos espíritos” – Rio de Janeiro, 1925 DE UMBANDA, Federação Espírita – “Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda” – Rio de Janeiro, 1942 FERREIRA, Túlio Alves – “A Umbanda do III Milênio” – 1ª Ed. – São Paulo: Pensamento, 1984. FIGUEIREDO, Benjamim – “Okê Caboclo!” – 1ª Ed. - Rio de Janeiro: Eco, 1962. FONTENELLE, Aluizio – “A Umbanda através dos séculos” – 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Espiritualista, 1957. GOMES DE OLIVEIRA, Paulo – “Umbanda Sagrada e Divina” – 1º vol. – Rio de Janeiro: Aurora, 1953. 207


GONÇALVES DA SILVA, Vagner (organizador) – “Caminhos da Alma – Memória Afro-brasileira” – São Paulo: Summus, 2002 LOUZA, Francisco – “Os Orixás governam o seu destino” –– Rio de Janeiro: Espiritualista - RJ MACIEL, Silvio Pereira – “Umbanda Mista – Justiça, amor e verdade – A lei do equilíbrio” – 2ª Ed – Rio de Janeiro: Aurora - RJ MAGNO, Oliveira – “A Umbanda e seus complexos” – Editora Espiritualista, 4ª Ed. 1961 – Rio de Janeiro, RJ MAGNO, Oliveira – “A Umbanda Esotérica e Iniciática” – Editora Espiritualista, 4ª Ed. 1962 – Rio de Janeiro, RJ MAGNO, Oliveira – “Umbanda e Ocultismo” – Editora Espiritualista, 3 Ed. 1952 – Rio de Janeiro, RJ MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda de todos nós (a lei revelada)” – 7ª Ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1992. MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda - sua eterna Doutrina” – 4ª Ed. - Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1985 MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Umbanda do Brasil” – 2ª Ed. – São Paulo: Ícone, 1996. MATTA E SILVA, W.W.W. da – “Macumbas e Candomblés na Umbanda” – 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1977. MENESES, Heraldo – “Caboclos na Umbanda” – Coleção Afro–Brasileira, Rio de Janeiro. NUNES, Vicente – “Umbanda Oriental” – Rio de Janeiro: Espiritualista - RJ

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Umbanda de todos nós