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ILUSTRAÇÃO: FRANCISCO SANTOS

OGUM

Marlúcia Mendes da

Rocha1 Ogum, em ioruba, significa luta, guerra. É a divindade da metalurgia, do ferro e do aço, da caça e dos caçadores, dos grandes caminhos. É o dono das armas, senhor dos exércitos, das guerras, da pujança e da força do sangue que corre em nossas veias e, por isso, forja o ferro e o transforma em instrumento de luta — sua espada. Seus assentos, nos terreiros de candomblé, estão ao ar livre, na entrada das casas e terreiros, às vezes, oculto no mato, pois ali se encontra sua forja, a céu aberto. 14

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1 Professora de Comunicação, na UESC, coordenadora do Colegiado de Comunicação, pesquisadora do Kàwé. 2 VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Currupio, 1981. p. 86


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digestão lenta, que faz com que as pessoas se demorem e conversem e bebam. Segundo a mitologia, foi o mais enérgico dos filhos de Odudua e quem assumiu o reino de Ifé, quando seu pai ficou temporariamente cego. Entre as muitas narrativas sobre Ogum, existe um itan, segundo Pierre Verger2 , que conta o seguinte: Ogum decidiu, depois de numerosos anos ausente de Irê, voltar, para visitar seu filho. Infelizmente, as pessoas da cidade celebravam, no dia de sua chegada, uma cerimônia em que os participantes não podiam falar sob nenhum pretexto. Ogum tinha fome e sede. Viu vários potes de vinho de palma, mas ignorava que estivessem vazios. Ninguém o havia saudado ou respondido às suas perguntas. Ele não era reconhecido no local, por ter ficado ausente durante muito tempo. Ogum, cuja paciência é pequena, enfureceu-se com

uma franqueza rude, da fala direta, sem rodeios para agradar a quem quer que seja. Arrogante demais para modificar seu jeito de falar. É o choque que lhe dá prazer. É a luta renhida e de flanco aberto que o mobiliza. Não dá importância à comodidade e dispensa qualquer luxo. Veste-se com simplicidade e escolhe suas roupas pela funcionalidade; não, pela beleza. Gosta de sentir-se em contato com a natureza, por isso prefere dormir no chão. Quando se apaixona, ama de maneira arrebatada. Sua sensualidade e sexualidade são avassaladoras. Não espera e não suporta qualquer tipo de rejeição. É alegre, divertido, principalmente com os amigos. Quando irado, é implacavelmente agressivo, destemido e vingativo. É um orixá masculino. Fora do combate e da demanda, é o orixá da diversão simples, dos bares, dos prostíbulos, das brigas de rua que surgem como flagrantes rápidos de um conflito anônimo e que geralmente não são levadas a sério. Ogum gosta da alegria de viver, de gente ouvindo sua fala enérgica e tranqüila, contando suas histórias. Gosta de estar entre amigos, viver o coletivo. Não é por acaso que seu prato predileto é a feijoada, comida de partilha por excelência, refeição de

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É o fundador da cidade de Ifé considerada a capital iorubana. É o irmão mais velho de Exu e sobre ele exerce grande influência e poder. Tem domínio sobre os caminhos. Tal como Exu, Ogum gosta de vir à frente, de lançar-se sobre os caminhos e à luta com garra, determinação e objetividade. É o símbolo do trabalho, do pioneirismo, da atividade criadora do homem e seu poder de transformação, produção e expansão. Identifica-se com os dois primeiros signos do zodíaco ocidental: Áries (pela sua impulsividade indomada e criadora) e Touro (pela sua visão determinada, utilitária e prática na busca de seus objetivos). Na África, Ogum é considerado o mais famoso defensor das causas humanas, o grande protetor dos viajantes e andarilhos das estradas, protegendo-os das emboscadas, dos ataques súbitos, dos assaltos, acidentes e tocaias traiçoeiras. É representado por sete instrumentos de ferro pendurados em uma haste de metal, representando a lavoura, a caça e a guerra. Sua ferramenta é o símbolo das primeiras transformações tecnológicas, produzidas pelo homem. Ogum é um orixá de muita popularidade. É a representação do escravo reprimido, apartado e isolado de sua terra, de seu papel e valor social. É a representação sígnica do conquistador e trabalhador braçal, do operário que, com sua rudeza, opera e transforma a matéria-prima em produto. É a tecnologia. Um filho de Ogum segue o seu arquétipo. Pessoa objetiva, de

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É aquele que suscita o desejo feminino, estabelece um rápido relacionamento e parte sozinho em busca de novos caminhos, novos desafios e aventuras, até porque a rotina o exaspera. Nos terreiros de candomblé, Ogum é considerado um orixá ligado ao elemento Terra. A terçafeira é o dia consagrado a seu culto, quando recebe oferendas de inhame assado e regado com dendê ou mel. O candomblé de Keto lhe atribui a cor verde, enquanto a maioria das outras nações lhe atribuem a cor azul em seus vários matizes. Para os de origem jeje, ele é Gu e, para o candomblé de Angola, ele é Nkosse Mukumbe. Para os que praticam o sincretismo, na Bahia, Ogum é Santo Antônio. Na maioria dos Estados do Sul do Brasil, ele é São Jorge. Em Cuba, ele é São João ou São Pedro. Filho de Iemanjá com Oranian, Ogum é sempre saudado em todas as casas com uma louvação em voz alta: Ogum, Yê! (Olá, Ogum!)

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o silêncio geral, por ele considerado ofensivo. Começou a quebrar os potes com golpes de espada e, logo depois, sem poder se conter, passou a cortas as cabeças das pessoas mais próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe as suas comidas prediletas, como cães e caramujos, feijão regado com azeite de dendê e potes de vinho de palma. Enquanto saciava a sua fome e a sua sede, os habitantes de Irê cantavam louvores, nos quais não faltava a menção a Ogunjá. Satisfeito e acalmado, Ogum lamentou seus atos de violência e declarou que vivera bastante. Baixou a ponta de sua espada em direção ao chão e desapareceu pela terra adentro, com uma barulheira assustadora. Antes de desaparecer, entretanto, ele pronunciou algumas palavras. A essas palavras, ditas durante uma batalha, Ogum aparece imediatamente em socorro daquele que o evocou. Porém, elas não podem ser usadas em outras circunstâncias, pois, se não encontrar inimigos diante de si, Ogum se lançará sobre o imprudente que pronunciou as palavras em vão. O número associado a Ogum é o sete, que ele divide com seu irmão, Exu. A diferença entre ele e o irmão é que Ogum não tem a dissimulação e o jogo de cintura tão característicos de Exu. Ogum ataca de frente, como um clássico guerreiro. Quanto maior a dificuldade, maior o seu empenho e prazer excitante de permanecer na luta. É o arquétipo do herói corajoso, desprendido, empreendedor, duro com os inimigos. Dono de muitos amigos, mas graças a sua excessiva franqueza, tende a ficar solitário. É o personagem dos filmes de espionagem americano, que domina um conhecimento prático, tecnológico, mas não é intelectual.


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