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Magia Manipulativa: agora não precisamos de fé... Em um post anterior, comentei sobre a questão do Ritual Satanista. Coloquei que ele partia de dois pontos principais. Primeiro, a necessidade de o indivíduo exteriorizar seu sentimentos/aflições/dores/anseios/etc. que de alguma forma estivessem a provocar algum tipo de mal estar intenso; e de forma secundária, temos a noção da fé na magia, que por sua vez é compreendida como uma mudança de eventos de acordo com a própria vontade, sendo estas energias/forças/poderes/etc. exteriorizados no ritual, os elementos que provocariam tais mudanças. Lembrando mais uma vez que esta fé é opcional, e tem por fim primeiro o ritual o aliviamento daquilo que de alguma forma consome o indivíduo.Entretanto, o conceito de magia para o Satanista, como cheguei a comentar ao final do texto sobre ritual, não se limita à cerimonial. LaVey a divide em dois tipos, cerimonial e manipulativa. Da primeira já falei, e o tema de agora é justamente esta última, também nomeada de magia inferior (Lesser Magic). A Bíblia Satânica trata de nos explicar que a magia manipulativa é aquela a partir da qual provocamos mudanças de eventos (definição primeira comum aos dois tipos de magia) a partir de ações mais "práticas". Isto significa que não recorremos à fé, ou ainda numa exteriorização de energias. Simplesmente agimos de tal forma que as coisas ocorram de acordo com os nossos desejos e anseios. LaVey nos diz que esta prática era antigamente reconhecida como glamour e fascinação e a partir disto ele comenta sobre o poder que as bruxas exerciam com sua capacidade de dominar os homens através de olhares, toques, sexo, enfim. O que temos na Bíblia é uma valorização destes elementos, funcionando estes como uma "ferramenta" nas ações que caracterizam o uso da magia manipulativa. Particularmente sinto falta de uma exploração maior deste conceito tão fundamental. Talvez LaVey não quisesse ir além, não viu necessidade, enfim. Mas acredito que podemos pensar um pouco mais sobre a questão... Primeiramente, é preciso ampliar o que é dito na Bíblia. Segue transcrita a definição da magia manipulativa: "Não ritual ou magia manipulativa, algumas vezes chamada de "Magia Inferior", consiste no ardil e fraude obtida através de vários artifícios e situações elaboradas, que quando utilizadas, podem criar mudança, de acordo com o desejo de alguém. " The Satanic Bible, página 60, Anton Szandor LaVey, tradução própria Voltemos a atenção a estas duas palavras, “ardil” e “fraude”. Pensemos apenas na primeira por enquanto. “Ardil”, se procurarmos em qualquer dicionário de nossa língua, terá como significado termos sinônimos como astúcia, manha, artifício, estratagema, e outros de mesmo campo semântico. E é justamente a partir destas palavras que podemos pensar um primeiro ponto. Ora, o Satanismo parte de um princípio fundamental que rege todos os seus conceitos, que é a busca pela satisfação do indivíduo. Então, a partir do momento em que esta passa a ser a meta das ações satanistas (e humanas, como um todo), podemos encarar que toda ação por si só é uma ação de magia manipulativa. Isto, pois uma vez que estamos inseridos em uma sociedade e somos dotados de pensamento, todas os nossos atos inexoravelmente exercem influencia em nosso meio. Estamos vivos e interagindo a todo o tempo, provocando mudanças a cada segundo. O que difere um simples agir, de um agir mágico manipulativo? Talvez a questão seja respondida na própria Bíblia, quando LaVey exemplifica este agir com o glamour. Mas ora, glamour não seria apenas uma forma de promover uma mudança de acordo com a nossa vontade? O indivíduo não possui um leque enorme de ações e pensamentos para criar situações concretas de acordo com seus desejos? Sigo perguntando, não seria toda ação necessariamente mágica manipulativa? Ou este tipo de magia refere-se apenas a glamour, sedução e fascinação? Desta vez, para tentar respondermos a estas perguntas, podemos partir dos sinônimos “estratagemas” e “astúcia”. Assim, pode-se dizer que o que de fato difere uma simples ação de uma ação manipulativa, se podemos assim nomear, é o empenho que é exercido de acordo com o desejo. Ainda teríamos aqui a satisfação como meta, entretanto, o que varia é a intensidade do empenho que é desprendido para que o desejo seja realizado. Tem-se isto, pois tanto o agir de forma astuta, quanto o agir a partir de um estratagema pressupõem certo esforço de pensamento, certo esforço de ação. É interessante que esta noção de intensidade paralelamente se manifesta quando pensamos na magia cerimonial, pois sua ocorrência justifica-se justamente por uma “quantidade” considerável de sentimento/força/emoção/fardo/etc., assim como um labor mais enérgico se apresenta na magia manipulativa quando temos algo maior a ser alcançado. O segundo ponto coloca-se por sua vez a partir de uma crítica que se pode fazer com relação à noção de magia em questão. A algumas linhas atrás, destaquei duas palavras, “ardil” e “fraude”. Tratei do ardil até então como "estratagema" e "astúcia". Entretanto, há outra palavra que consta em dicionários e que nos


remete a noções que não estão presentes nestas duas últimas. Estou a falar de "armadilha". Se pensarmos tanto em "fraude", quanto nesta, veremos que há certa carga de algo mais "sujo", mais "enganoso", no sentido, indo um pouco mais além, de aproveitar-se de outrem. Isto se torna mais palpável, se pensarmos em uma situação mais concreta, na qual o indivíduo, em sua fraude e armadilhas, acabe, em função de uma satisfação própria, pro prejudicar alguém. E esta é uma questão que se coloca não somente se pensarmos no assunto em questão, mas no próprio Satanismo de uma forma geral. Digo isto, pois uma das grandes críticas feitas ao nosso modo de pensar é justamente aquela que parte da interpretação errônea de que passamos por cima de tudo e de todos para conseguirmos o que desejamos, e bem, seria então, por conta deste erro de compreensão, a magia manipulativa um respaldo conceitual que viria a validar esta crítica. A partir de tal, tem-se a resposta no próprio Satanismo. Acima da busca da satisfação individual, está a noção da reciprocidade. Negá-la para simplesmente validar o esforço para se conseguir o que se deseja, é simplesmente fornecer bases para o caos. Ou seja, se eu quero algo, e não me importa a vida alheia, matarei, roubarei, trarei dor a quem nada me fez. Assim seria muito fácil. Mas não é isto que o Satanismo prega. Da mesma forma que não viramos a outra face, também não damos um tapa na cara de ninguém de forma gratuita! Em suma, para encerrar o post, mais longo que de costume, entendamos a magia manipulativa como a ação prática que produzimos, sendo esta caracterizada por certo labor e empenho considerável, com a qual visamos obter aquilo que, de forma intensa, e não simplesmente comum, desejamos. Sem deixar de lado o fato de que não estamos sozinhos no mundo, e que o nosso agir que tem por meta a satisfação individual não tem de causar qualquer revés alheio a troco de nada. Publicado originalmente dia 29 de Dezembro de 2008 em http://recantodoopositor.blogspot.com/ Vítor Vieira Ferreira


Magia manipulativa agora não precisamos de fé  
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