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Artigos sobre a Ayahuasca Material de Estudos Fernando Guedes Email: contato@grupoboiadeirorei.com.br


O QUE É AYAHUASCA ?

AYAHUASCA - CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS

CRONOLOGIA

COMÉRCIO

UMA PLANTA DE PODER

TRADIÇÃO SHIBIPO

OPÇÃO ESPIRITUAL

DMT E NEUROCIÊNCIAS

CORREIO BRASILIENSE

UNIVERSIDADE GAIA

ESTADO VEGETATIVO

A HORA DO CHÁ

SOMA OU AYUAHUASCA

BUDISMO E DMT

O CIPÓ DA ALMA DA AMAZÔNIA

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

O DAIME, CAETANO E GIL

AYAHUASCA CONTRA DEPRESSÃO

XAMÃS URBANOS

SALTO QUÂNTICO DE CONSCIÊNCIA

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O QUE É AYAHUASCA

Definição: Ayahuasca, nome quíchua de origem inca, refere-se a uma bebida sacramental produzida a partir da decocção de duas plantas nativas da floresta amazônica: o cipó Banisteriopsis caapi (mariri ou jagube), que serve como IMAO e folhas do arbusto Psychotria viridis (chacrona ou rainha) que contém o princípio ativo dimetiltriptamina. É também conhecida por yagé, caapi, nixi honi xuma, hoasca, vegetal, daime, kahi, natema, pindé, dápa, mihi, vinho da alma, professor dos professores, pequena morte, entre outros. O nome mais conhecido, ayahuasca, significa "liana (cipó) dos espíritos". Utilizada pelos incas e também por pelo menos setenta e duas tribos indígenas diferentes da Amazônia. É utilizada em paises como Peru, Equador, Colômbia, Bolívia e Brasil. Seu uso se expandiu pela América do Sul e outras partes do mundo com o crescimento de movimentos religiosos organizados, sendo os mais significativos o Santo Daime, a União do Vegetal, a Barquinha, além de dissidências destas e grupos (núcleos ou igrejas) independentes que o consagram em seus rituais. Origens: A utilização de substâncias naturais que potencializam a percepção é uma prática milenar presente em várias culturas. Historicamente sabe-se que o uso de plantas de poder sempre teve a finalidade de alterar a maneira cotidiana de entender as coisas, estabelecendo uma ponte entre os homens e as suas divindades.

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Diversos registros confirmam isto. Estudos indicam que os Essênios já utilizavam plantas de poder em rituais de iniciação. Os índios mexicanos e norte-americanos utilizam o cacto Peiote. Há amplos registros de uso de cogumelos pelos povos da América Central. Os registros mais antigos indicam que os Vedas, a 3.100 a.c. já praticavam rituais onde comungavam uma bebida conhecida como “Soma”. Na América do Sul temos o uso da Ayahuasca, proveniente


dos Incas. No Brasil a Ayahuasca vem sendo utilizada há milênios pelos povos indígenas da região amazônica e recentemente pela União do Vegetal e pelo Santo Daime. A proposta básica destes e de diversos outros grupos é atingir o autoconhecimento através de experiências de tipo místico-espiritual, onde por meio de visões e estados de expansão da consciência chegase a um estado de integração total com o cosmos, com a natureza e com o Criador.

A primeira vista este chá normalmente é classificado pela sociedade como ‘droga’ ou ‘alucinógeno’. Isto de forma alguma deve desmerecer a Ayahuasca ou as pessoas que dela fazem uso, melhor seria esclarecermos que de acordo com a nomenclatura científica utilizada no mundo inteiro se denomina ‘droga’ qualquer substância, de origem animal, vegetal ou mineral, que, uma vez introduzida em um organismo vivo, produz alterações de ordem fisiológica, desta forma também podemos classificar como droga o café, o açúcar, o guaraná, o chimarrão, etc. Lembramos também que muitas drogas são usadas para salvar vidas. Porém, como socialmente se associa a palavra ‘droga’ as substâncias destrutivas e desestruturadoras, que causam dependência física e/ou psíquica, provocando desequilíbrios sociais, convém esclarecer de forma enfática que a Ayahuasca não se enquadra nesta categoria já que o uso dela não desequilibra, não causa dependência, nem destrói, muito pelo contrário, as pessoas que dela fazem uso são pessoas que buscam continuamente melhorar a si mesmas através do autoconhecimento, da evolução espiritual, e pregam a paz mundial, a harmonia entre os povos, o respeito pela natureza, etc., metas essas que só se atinge na plenitude das faculdades físicas e mentais.

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Enteógeno:

Os que classificam a Ayahuasca como ‘alucinógeno’ também cometem impropriedade conceitual, segundo o antropólogo norte-americano Gordon Wasson, em entrevista à revista Globo Ciência. Ele distingue ‘estados alterados de consciência’ ou ‘alucinações’ de ‘estados ampliados de consciência’ – sendo estes alcançados com a ingestão de Ayahuasca em contexto religioso, sob a supervisão de um dirigente responsável. Para alguns pesquisadores, a classificação da Ayahuasca como "alucinógeno" é uma imprecisão, pois a mesma não causa perda do contato com a realidade - como pressupõe o termo - mas sim um grau ampliado de percepção que permite a compreensão daquela realidade com maior clareza ou transcendência. Nesse sentido, pesquisadores da área de Etnobotânica têm proposto a classificação da Ayahuasca como "Enteógeno", ou seja, substância que "gera uma experiência de contato com o divino", causando uma sensação generalizada de aproximação com o Sagrado e facilitando o autoconhecimento e o aprimoramento do ser humano. Até o momento, ninguém jamais conseguiu demonstrar qualquer afirmação negativa contra o uso ritualístico da Ayahuasca ou mesmo que contrarie o que sempre afirmamos, que a

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mesma utilizada em contexto religioso, é benéfica à saúde física e espiritual do ser humano. Não se conhece um único caso de alguém dependente física ou mentalmente da Ayahuasca. Da mesma forma, não se tem conhecimento de nenhuma pessoa que, utilizando-a em rituais religiosos, sob a orientação de pessoas experientes, tenha sofrido qualquer espécie de dano. O que há habitualmente é justamente o contrário, ou seja, numerosos casos de pessoas que reestruturaram a vida familiar e profissional, a partir do uso em contexto religioso. Para mais informações continue pesquisando em nossa sessão de Artigos e Legislação.

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AYAHUASCA - CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS

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A Ayahuasca , também conhecida como Vegetal pela União do Vegetal ou chá do Santo Daime é uma bebida sagrada feita através do cozimento de um cipó chamado Mariri (Banisteriopsis Caapi) e das folha da Chacrona (Psicotria Viridis). É também conhecida como o Vinho da Alma (Aya=Alma, Huasca=Vinho), é utilizada de forma sacramental em diversos grupos religiosos com objetivo de se atingir um estado ampliado de consciência. Neste estado é possível uma comunhão e uma integração intensa com o Cosmos, com a Natureza e com o Criador. Existem milhares de relatos de experiências maravilhosas alcançadas com o uso da Ayahuasca, tais como: sentimentos intensos de felicidade, visões, compreensões da psicologia humana, reestruturação da família, estados de êxtase espiritual, samadhi, viagens astrais, melhoria do caráter, libertação de drogas como o cigarro, a bebida e outros casos de sucesso com recuperação de dependentes de drogas químicas. O efeito alcançado pela Ayahuasca é devido a um processo bioquímico natural que ocorre no cérebro. Normalmente os neurônios – as células nervosas do cérebro – liberam neurotransmissores para que os impulsos nervosos passem de um para outro carregando informações. Um desses neurotransmissores é a Serotonina. Mas, quando há muita Serotonina, entra em ação uma enzima monoaminoxidase, que destrói as moléculas para garantir o equilíbrio neurológico. Os alcalóides presentes no cipó Mariri impedem a formação dessa enzima, assim, sobra serotonina, o que intensifica as visões e provoca o estado ampliado de consciência. A folha da Chacrona é também muito rica em uma substância chamada Dimetiltriptamina (DMT). Sua molécula é semelhante à da Serotonina e se encaixa


nas regiões destinadas ao neurotransmissor, aumentando seu efeito. Após algumas horas o organismo produz mais enzimas que vão pouco a pouco eliminando a DMT e assim o efeito passa.

Cerca de vinte minutos após a ingestão da Ayahuasca a consciência se altera, mudando as ondas cerebrais. Normalmente ocorre redução da freqüência respiratória, diminuição do metabolismo, da pressão sanguínea, mudança de Ph, etc. e com isso aumenta-se a sensibilidade auditiva, olfativa, da visão e do tato. Neste nível a capacidade paranormal aflora espontaneamente, despertando os neurônios, aumentando a capacidade intelectual e criativa. Por vezes ocorre um estado chamado de ‘limpeza’, que é o nome dado ao processo de descondicionamento de antigas couraças, musculares e psíquicas; a "magia" está na oportunidade de se entender o porquê e o quê está sendo descondicionado, tanto no plano físico, como no plano do corpo astral e mental. O resultado é a pacificação gradual da personalidade e da mente, diminuindo a ansiedade e o medo, equilibrando o sistema nervoso - razão e emoção – permitindo desta forma que o cérebro passe gradualmente de estados Beta (atividade normal) para ondas Allfa (relaxamento) e chegando aos profundos estados Teta, onde ocorrem as experiências de êxtase místico-espiritual.

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A Ayahuasca coloca o cérebro em estados ampliados de vibração, trabalhando de forma ótima e assim a pessoa alcança estados elevados de consciência. Ayahuasca não é droga, não cria dependência, não provoca estados alucinatórios desequilibrados, nem há perda de consciência, pelo contrário, o sentimento é de total controle, maior lucidez mental, controle do corpo, sabe-se perfeitamente onde se esta e o objetivo da experiência, que deve sempre ser orientado por um dirigente responsável através de um grupo religioso sério e legalmente constituído.

Naturalmente isto faz com que aumente o nível de criatividade, de inteligência e de equilíbrio, dando à pessoa um inegável aumento de sua auto-estima, uma vez que ela se torna mais intuitiva, mais perceptiva, começando a vencer barreiras no aprendizado das coisas que antes tinha dificuldades, ampliando suas possibilidades de atuação na vida e na relação com o próximo. Diversos estudos realizados pelas entidades que comungam a Ayahuasca certificam que os usuários se tornam pessoas equilibradas, com saúde, ótima memória, possuem facilidade de aprendizado, maior paz de espírito, um profundo respeito pela natureza, e buscam de forma equilibrada promover a paz e a harmonia entre os povos.

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AYAHUASCA - UMA PLANTA DE PODER

Neste texto buscamos responder às dúvidas e perguntas mais freqüentes daqueles que trilham pelos caminhos da Ayahuasca. Pensamos que a leitura deste documento possa ajudar a aclarar o PORQUE de algumas de nossas mais essenciais convicções como: - Ayahuasca não é droga, não vicia, não causa dependência física ou psicológica, nem “alucinações”; - Ayahuasca está associada a inúmeros casos de cura de vícios, de dependência de álcool e drogas, e de recuperação da saúde; - Ayahuasca é uma via de auto-centramento, fortalecimento da psique, segurança, autoestima, firmeza, otimismo e paz interior. - A Ayahuasca age como um estupendo facilitador, de compreensão da existência das camadas profundas dos "impulsos de vida" e "impulsos de morte", nos permitindo dialogar com o seu centro inteligente, e seus desdobramentos energéticos no plano espiritual, ou seja “invisível “ mostrando e ajudando a eliminar profundas camadas psicológicas e espirituais de nosso SER, através de ações musculares de contração e relaxamento, chamadas de PURIFICAÇÃO ou limpeza. - Ayahuasca é um caminho para o reencontro com o que temos de melhor em nós e com o Divino manifesto na Terra. Estas afirmações, entretanto, serão inúteis se não forem fundamentadas nos fatos e comprovadas pela experiência de cada um.

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OS NOMES DA AYAHUASCA:

Natema, Yagé, Nepe, Ayahuasca, Santo Daime, Vegetal, Dapa, Pinde, Runipan, Bejuco Bravo; Bejuco de Oro; Caapi (Tupi, Brazil); Mado, Mado Bidada e Rami-Wetsem (Culina); Nucnu Huasca e Shimbaya Huasca (Quechua); Kamalampi (Piro); Punga Huasca; Rambi e Shuri (Sharanahua); Ayahuasca Amarillo; Ayawasca; Nishi e Oni (Shipibo); Ayahuasca Negro; Ayahuasca Blanco; Ayahuasca Trueno, Cielo Ayahuasca; Népe; Xono; Datém; Kamarampi; Pindé (Cayapa); Natema (Jivaro); Iona; Mii; Nixi; Pae; Ka-Hee' (Makuna); Mi-Hi (Kubeo); KumaBasere; Wai-Bu-Ku-Kihoa-Ma; Wenan-Duri-Guda-Hubea-Ma; Yaiya-Suava-Kahi-Ma; WaiBuhua-Guda-Hebea-Ma; Myoki-Buku-Guda-Hubea-Ma (Barasana); Ka-Hee-Riama; Mene'-KajíMa; Yaiya-Suána-Kahi-Ma; Kahí-Vaibucuru-Rijoma; Kaju'uri-Kahi-Ma; Mene'-Kají-Ma; KahíSomoma' (Tucano); Tsiputsueni, Tsipu-Wetseni; Tsipu-Makuni; Amarrón Huasca, Inde Huasca (Ingano); Oó-Fa; Yahé (Kofan); Bi'-ã-Yahé; Sia-Sewi-Yahé; Sese-Yahé; Weki-Yajé; Yai-Yajé; NeaYajé; Noro-Yajé; Sise-Yajé (Shushufindi Siona); Shillinto (Peru); Nepi (Colorado); Wai-Yajé; Yajé-Oco; Beji-Yajé; So'-Om-Wa-Wai-Yajé; Kwi-Ku-Yajé; Aso-Yajé; Wati-Yajé; Kido-Yajé; WekoYajé; Weki-Yajé; Usebo-Yajé; Yai-Yajé; Ga-Tokama-Yai-Yajé; Zi-Simi-Yajé; Hamo-Weko-Yajé (Sionas do Putomayo); Shuri-Fisopa; Shuri-Oshinipa; Shuri-Oshpa (Sharananahua). Ayahuasca ou Ayawasca ou cayahuasca, jayahuasca ou xayahuasca, aioasca, auasca, uasca é uma palavra do idioma Quéchua que significa "cipó dos espíritos", “chicote da alma” ou ainda “vinho dos espíritos” ou mesmo "vinho da vida". É o nome mais usado pelos índios do Altiplano Andino que falavam o Quéchua, e foi dado em homenagem a um dos últimos Incas, o Príncipe Huaskar, que desapareceu por ocasião da conquista espanhola. O conquistador Cortez se aproveitou disso para acusar o irmão de Huaskár - o Imperador Inca Atahualpa – pelo seu desaparecimento e suposto assassinato, e assim justificar a tortura e a morte em praça publica do Imperador, a mando do tribunal da Santa Inquisição. Na verdade o tal assassinato jamais ocorreu, pois o Inca Huaskar, segundo a lenda, fugiu para a Floresta Amazônica, onde se integrou, e depois de sua morte seu nome passou a ser dado ao chá feito a partir da cocção do CIPÓ MARIRI ou JAGUBE (Banisteriopsis Caapi) com a folha da CHACRONA (Psychotria Viridis). Aya significa ALMA e Huaska significa CHICOTE, significando, pois CHICOTE DA ALMA.

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Existem pelo menos 42 nomes indígenas para este preparado. É notável e significativo que pelo menos 72 tribos indígenas diferentes da Amazônia, não obstante as distâncias de suas separações geográficas, de idiomas e culturais, manifestem um conhecimento tão comum e detalhado da ayahuasca e de seu uso. Eis os principais nomes pelos quais a conhecem:

NATEMA é o nome dado pelos nativos Jivaro. O termo espanhol significa, literalmente, corda da morte (corda = cipó). YAGÉ significa em língua tupy pronuncia Ya-hay "sonho azul", devido à coloração azul de suas mirações. A origem indígena do Yagé é a tribo dos Putumayos, do norte do Peru e da floresta amazônica brasileira.

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SANTO DAIME é o nome dado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra a Ayahuasca, quando cristianizou o chá para uso no contexto urbano. VEGETAL - HOASKA é o nome adotado pelo Mestre José Gabriel da Costa, quando criou a União do Vegetal. ESTADOS ALTERADOS DA CONSCIÊNCIA PELA AYAHUASCA:

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A Ayahuasca é um meio de expansão da consciência, sendo que o estado de transe e extase é parte da prática religiosa de milhões de pessoas. Para o espiritismo o transe é condição necessária para possibilitar a comunicação com os espíritos dos mortos; o médium, em transe, emprestaria seu corpo para que um espírito o usasse como veículo de sua manifestação. A Ayahuaska joga rapidamente as ondas cerebrais de ALFA para TETA, levando para uma zona da memória onde toda a vivencia irá se desenvolver, buscando e rememorando a vida interior do corpo (genética e hereditária) e a vida exterior ou social da pessoa, no presente, passado e futuro, e abrindo para a paranormalidade. MUDANÇAS INTERNAS DO ORGANISMO DURANTE O TRANSE: A ingestão da Ayahuasca provoca uma mudança física, afetando diretamente o cérebro, cuja freqüência de ondas passa do nível BETA (ativo) para o nível ALFA (relaxado, entre 8 e 12 Hz) ou TETA (profundamente relaxado, entre 5 e 8 Hz). Simultaneamente ocorre redução do ritmo respiratório de 12-14 para 4-6 vezes por minuto, redução de oxigenação em até 20 por cento, redução do ritmo metabólico de 25 a 30 por cento, redução da pressão sangüínea, mudança no pH e nos níveis de bicarbonato de sódio do sangue, aumento da resistência da pele, bem como aumento da acuidade e sensibilidade da audição, da visão, e do tato. Ou a DELTA quando atingimos o ÊXTASE. REAÇÕES FÍSICAS do CORPO DURANTE O TRANSE:

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Dificilmente as ondas do cérebro serão alteradas sem alterar o organismo físico como um todo. Um está ligado ao outro, e naturalmente a alteração vai afetar todo o sistema nervoso. Sendo assim é inevitável que também os movimentos do esôfago e dos nossos intestinos sejam alterados, dependendo mais ou menos do estado de ansiedade e das condições físicas em que o indivíduo em questão se encontra no momento que passa pela experiência, podendo ocorrer eliminação de líquidos e substâncias aquosas retidas em algumas das dobras profundas dos mesmos, ocasionando um intenso bem estar em seguida.


REAÇÕES DURANTE O TRANSE QUE OCORREM NO CÉREBRO: Passando para o estado ALFA o cérebro passa naturalmente a funcionar com ondas mais calmas do que as do dia-a-dia, as BETAS, e tem a natural tendência de deter o fluxo dos pensamentos vagabundos, duais, que o habitam; trazendo um inegável bem estar, repassado para o corpo físico todo, tanto que mesmo a dor e as infecções tendem a diminuir durante o tempo em que a mente permanece em estado ALFA.

O TRANSE LEVA À PARANORMALIDADE. Os TIPOS de Paranormalidade são: Telepatia - Faculdade onde o sensitivo mantém comunicação com outra pessoa à distância. Pode também se comunicar com espíritos, elementais ou "coisas". Clariaudiência - Captação hiperfísica nos ouvidos humanos, podendo ser ouvidos até sons de outras galáxias. Clarividência ou Miração - O sensitivo consegue ver o que se passa em outros planos, como seres ou "coisas" que dele se aproximam no campo astral.

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Quando estas mudanças celulares eletroquímicas ocorrem, o aumento da atividade dos neurônios é inevitável, tendo a pessoa à impressão clara de que estava dormindo e acordou de repente, remodelando as redes neurais que estavam desconexas, fazendo com que o neocórtex (pensamento e intelecto), o sistema límbico e o tálamo (sensação e emoção) e o bulbo raquiano (intuição e inconsciente) se comuniquem. Restabelecida esta conexão, costumamos sentir que "estamos salvos", no plural.

Psicometria - Captação pelo toque das mãos em qualquer objeto ou superfície. Psicografia – Capacidade paranormal de “receber mensagens por escrito” de outros planos (como os Ícones cantados nos Trabalhos) Inspiração - O sensitivo consegue captar idéias que fluem pelo espaço, dentro de uma vibração semelhante à sua. Intuição - Manifestação vinda do Mestre Interior. Incorporação - Manifesta-se através do movimento do corpo, podendo haver também uma manifestação simultânea de clariaudiência e/ou de clarividência. Transfiguração - Mudança de aspecto físico. Hiperestesia Indireta do Pensamento (HIP) - "Leitura" do pensamento (através da linguagem corporal; capacidade de "ouvir" o pensamento à curta distância, poucos metros).

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Pantomnésia - Capacidade do Inconsciente de se lembrar de tudo. Talento do Inconsciente - Inteligência e raciocínio do Inconsciente. EFEITOS ESPIRITUAIS DO ÊXTASE:

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O Êxtase, do grego "ex stasis", significa literalmente "ficar fora", “estar fora”, isto é, "libertarse" da dicotomia da maior parte das atividades humanas. Êxtase é o termo exato para a intensidade de consciência que ocorre no ato criativo. Não é algo irracional: é supra-racional. Une o desempenho das funções intelectuais, volitivas e emotivas, provocando instantânea mudanças de comportamento. O cérebro ao entrar em Êxtase vai começar a funcionar em ondas celebrais TETA profundo, não raro inconsciente sem a Ayahuasca com o chá este estado fica plenamente concentrado intensamente e consciente. Quando inconsciente e porque entrou em DELTA, que sobre efeito do chá são poucos minutos, levando a experiência da imitação da morte. O ÊXTASE elimina a separação entre objeto e sujeito alargando as fronteiras da consciência humana, levando o sujeito à CRIATIVIDADE. Seus efeitos são: Oferece a certeza, a sensação de que “nada pode nos acontecer que já não nos pertença, guardado no nosso ser mais secreto”. Unidade, pois o individuo sente que a separação entre ele e um objeto exterior não se faz mais presente, embora saiba, ao mesmo tempo, que, num outro nível ele e os objetos (animados e inanimados) estão separados. Transcendência do Tempo e do Espaço, ao experimentar a sensação de eternidade ou infinidade. Altruísmo (transcendência do EGO) e sentimento de Humildade, pois a pessoa está mais capacitada a ouvir seu SER interior, superando a ansiedade, a inibição, a defesa, o controle, o conflito da loucura e da morte, e isto vale dizer que o medo diminui na vida pratica. Profunda sensação Interior de positividade, despertando alegria, bem-aventurança e PAZ.

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Sacralidade, o respeito e admiração em relação à presença de realidades inspiradoras. Objetividade e realidade, dadas pelos insights, ou iluminação a nível não racional, obtida por experiência direta


Paradoxalidade, experiências místicas que podem ser contraditórias, como “O Eu Existe e Não Existe”. Persistentes Mudanças de Comportamento em relação ao EU, em relação à VIDA, em relação à própria experiência mística. Livre-arbítrio ampliado devido à sensação de estar ativo, de se tornar o centro criativo de suas próprias atividades e de suas próprias percepções, mais autônomo, um agente livre, desta forma ampliando os próprios horizontes e conseqüentemente o LIVRE-ARBÍTRIO.

PURIFICAÇÂO é o nome dado ao processo de descondicionamento de antigas couraças, musculares e psíquicas, tanto no plano físico, como no plano do corpo astral. A PURIFICAÇÂO pode ocorrer em qualquer momento do Trabalho, ela atua tanto física, quanto mental e espiritualmente, através das aberturas do corpo. Os Xamãs a chamam "Peia", ou "Chicote de DEUS". Ela desbloqueia as nossas resistências físicas, há muito enraizadas nos músculos, como também a RESISTÊNCIA interna a mudanças, ao novo. A) A PURIFICAÇÂO PROMOVE ELIMINAÇÃO DE FLUÍDOS EXISTENTES NAS DOBRAS DO ESTÔMAGO QUE GERAM DOENÇAS. É crença geral que no momento em que contraímos a IDÉIA de uma doença ou de um mal, seja ele qual for, este pressentimento impregna o ar e vem em nossa direção, criando a energia geradora daquele mal, gerado nas entranhas dos intestinos. Enquanto esta energia não for expelida, a doença não pára de ativar seus efeitos, atraindo coisas específicas daquela vibração para o nosso corpo.

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SOBRE A PURIFICAÇÂO:

B) A AYAHUASKA PROMOVE A PURIFICAÇÂO NA LINGUAGEM-PENSAMENTO. Devido à fragmentação da linguagem (que provoca a desestrutura do pensamento) os pensamentos e as emoções se fragmentaram, causando grande dano mental e emocional, seja por qual razão ocorra. Quais os EFEITOS desta fragmentação e como agem em longo prazo? Agem sozinhos, nas horas menos previsíveis: parecem ter vontade própria. É o VERBO em estado caótico procurando se acomodar na nova ordem mental da mistura das letras geradas no mecanismo automático do pensamento. C) A AYAHUASKA PROMOVE A PURIFICAÇÂO NAS FORMAS FRAGMENTADAS DE EMOÇÕES. Trata-se de formas de EMOÇÃO não domesticadas, desprendidas e atraídas pela EMOÇÃO e que ganham vida pela palavra. São o que figuradamente podemos chamar do lixo das palavras que sobraram no plano mental coletivo.

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OUTROS EFEITOS DA AYAHUASCA:

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DIMINUI A DEPRESSÃO, religando ao Principio Divino, gradualmente. AJUSTA OS CORPOS SUTIS, pois são sete os planos de manifestação da vida neste planeta que nos permitem viver num corpo físico. Os sete planos, juntos, compõem o nosso corpo astral. A religação consiste em ajustar ou religar os sete corpos sutis criando HARMONIA, que se manifesta, no campo físico, pela harmonia entre pensamentos, sentimentos e a linguagem ou fala. ATIVA a MEMÓRIA, estimulando os neurônios. Para isso são usados cantos arcaicos, de sílabas sonorizadas, que expressam a linguagem simbólica e têm como objetivo trazer as forças da Natureza e do Cosmos para a experiência humana que, desde o começo de sua presença na Terra, insiste em restabelecer o contato com o Divino. O canto reconecta a Memória com o Sagrado, principalmente quando pronunciamos as sílabas dirigidas para o topo da cabeça. Está técnica ajuda a diminuir os pensamentos "vagabundos" que povoam a nossa imaginação. Os CANTOS ou ÍCONES são usados no sentido de buscar a consciência das palavras e das estruturas lingüísticas, com percepção clara do Poder da Linguagem formulada pelo cérebro, assim como da Palavra dita em Voz Alta. Estudando a estrutura das palavras saberemos porque um povo age de determinada maneira e não de outra forma. A música é capaz de ativar o fluxo de memórias acumuladas, através do "corpus callosum" uma porção de fibras que ligam os hemisférios direito e esquerdo do cérebro - ajudando ambos a trabalhar em harmonia, estimulando as endorfinas, opiáceos naturais segregados pelo hipotálamo, que produzem um sentimento de embriaguez, como o de estar apaixonado. Ajustando desta forma a emoção e a razão, acabamos de vez com a guerra existente entre estes dois lados da cabeça. Não há como acabarmos com as guerras exteriores e mundiais se não acabarmos primeiro com as desavenças dentro de nosso próprio cérebro.

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O SOM DO MARACÁ COMO ELEMENTO DE RESTAURAÇÃO: Nas técnicas xamânicas usam-se os Maracás, pois eles possuem o poder de restauração da saúde, eliminando obsessões de origem astral vindas de forças estranhas ao ser humano. Esses obsessores tanto podem ter origem em elementos da natureza, como em pensamentos das pessoas, e acabam ganhando vida própria.

AYAHUASCA NA TRADIÇÃO SHIBIPO

ENTREVISTA COM DOM MATEO ARÉVALO

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O resultado geral do uso da Ayahuaska pode ser descrito como a pacificação gradual da personalidade, diminuindo a ansiedade, eliminando o mau humor, e equilibrando o sistema nervoso – a razão e a emoção.

O xamã peruano Dom Mateo fala da sua iniciação como curandeiro e da sua missão com grupos que estão no estudo da Ayahuasca. Este depoimento foi gravado em fevereiro de 1997, na cidade de São Paulo, durante a primeira viagem do xamã ao Brasil. Meu nome é Mateo Arévalo Maynas, tenho 43 anos e sou membro de uma comunidade nativa, de indígenas peruanos, Shipibo-Conibo. Em minha vida ancestral, fui conhecedor de muitos segredos da selva. Obtive todos estes conhecimentos de uma forma ancestral, dos meus avós por parte de pai e de mãe, que também eram curandeiros.E como todo pai quer que seu filho siga a sua tradição, comecei a exercê-la com a idade de 28 anos. Exercendo como estudante, investigador das muitas propriedades das plantas medicinais. Contudo, já faz 12 anos que estou trabalhando como terapeuta nas áreas do que são diferentes sintomas, de enfermidades físicas e mentais. Também posso fazer trabalho com enfermidades contagiosas, mas não me aventuro porque é algo bastante delicado.

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Toda minha formação eu obtive de uma forma que é parte da minha vida, da minha tradição, que é parte do meu mundo cultural indígena. Não sou uma pessoa especial, não trato tampouco de ser especial. Trato de que minha mensagem, meu conhecimento e experiência cheguem às pessoas de uma forma baseada no amor espiritual. Muitas das pessoas que sofrem na cidade, como no campo ou na floresta, é basicamente pela falta de amor espiritual.

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Na cidade, muitas pessoas que se sentem mal, enfermas, é porque estão mal da mente. E isto carregado na alma, no espírito, no coração e no amor. Minha viagem também se deve ao fato de que tenho de preparar-me para dar este salto. Porque todas as pessoas devem dar este salto, e este salto requer uma boa preparação, porque de toda maneira todo mundo sente medo de dar os primeiros passos. Talvez eu tenha de me preparar dois, três anos para vir ao Brasil, um país muito maravilhoso, muito religioso e místico. Aqui tenho muitos amigos, como é o caso do Léo Artése, do Antonio Duncan, que conhecem muita gente. Todo mundo utiliza uma planta, ou duas, ou três, ou quatro plantas. Em minha iniciação, eu tomei muita Ayahuasca. No Peru, em diferentes regiões, nós chamamos Ayahuasca, em castelhano, que é uma palavra derivada do idioma quíchua. Alguns a chamam de "vinho da alma", outros a chamam "soga del muerto, la soga de la divindad, ponte do céu". Vocês a chamam de Daime, Yagé ou Caapi. Eu penso que todo mundo busca um caminho, e este é o caminho da verdade. Não interessa o meio, interessa o fim, o objetivo que cada pessoa persegue, e fazer sempre bem ao nosso próximo. Eu utilizei muito a Ayahuasca, mas também combinei muitas plantas com propriedades medicinais, porque respeito as experiências das outras pessoas. A Ayahuasca cumpriu a sua missão, o seu trabalho em mim. Porque entendo que ela fez para mim uma ponte deste mundo material com o mundo espiritual. Quando chego a este mundo espiritual, já tenho, digamos, a energia em meu corpo. Utilizo São Pedro, Peiote, a Datura, e estou em processo de aprendizagem com a Camalonga, e mais outras plantas, como Pinhão Colorado, Tabaco e outras essências. No meu trabalho terapêutico, utilizo pouquíssima quantidade, é somente para nos colocar em "onda". Uma base fundamental para podermos reunir, concentrar ou colocar-nos em nível de espiritualidade. É a pipa, ou cachimbo, que dizemos que é onde está concentrado todo nosso conhecimento, nossa sabedoria, nossa energia, o poder de um xamã ou curandeiro.

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Todos os nossos trabalhos se fazem, no início, com os icaros, que talvez não sejam muito compreensíveis para as pessoas que nos rodeiam, que têm de assistir a uma sessão de Ayahuasca ou uma sessão de cura. Somente o xamã, ou curandeiro, sabe o significado destes icaros. Esta melodia, este canto xamânico é todo conhecimento, todo poder do xamã ou


curandeiro. Pode-se "carregar" algum objeto com o icaro, o poder do xamã, segundo a enfermidade a ser tratada. Os icaros podem servir para carregar de energia a pessoa. No caso de pessoas que já têm o conhecimento, ele serve para reforçar seu conhecimento, para dar-lhe energia, força, ou para nivelar corpo, alma, espírito, mente e inclusive o sonho. Também serve para limpar a pessoa ou um objeto carregado de energias negativas. Serve para fortalecer, em casos de pessoas que estão muito desanimadas, melancólicas, tristes.

Em princípio, devo aprender com as duas energias, tanto a negra como a branca. No meu grau, a energia negra só serve como defesa dos espíritos, das energias, como meu guardião. Pois estou no lado branco, tenho de transmitir amor, que o amor é a razão. Todo tipo de trabalho para o xamã é sua arma de cura, sua arma de acumulação de muitos anos, de um poder multiplicador que serve para fazer terapia. Há gente que pode fazer mal, fazer dano com os icaros, as melodias. Todos nós devemos passar por essa etapa de busca de uma perfeição. Deve-se investigar, mas não como uma prova para dar ou não um efeito. O que eu faço hoje levou muitos anos de investigação, de acumulação, de experiências. E esta viagem ao Brasil servirá para eu demonstrar os efeitos multiplicadores de todo este conhecimento acumulado; demonstrar no campo, na cidade.

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Acontece que nós pertencemos à energia branca, pode-se dizer a medicina branca. Mas também há pessoas que, por intermédio da Ayahuasca e de outros conhecimentos, estão no lado negro. Não importa a definição dada; há gente que se dedica a outros tipos de energias.

Como se sabe, agora não é tempo de estar jogando com as energias. Pois nós acumulamos energias durante muitos anos para enviá-la ao nosso próximo, que necessita dos outros para trocar energias, para dar energias e também absorvê-las. "Minha missão é o curandeirismo" Eu venho de uma comunidade indígena, e meus pais, meus avós, meus tataravôs eram curandeiros . E assim temos um conhecimento ancestral. É um processo em que não passei por uma série de provas ou coisa assim. Eu assimilei. Por estar em Lima (Peru), absorvi o conhecimento da cidade e podia regressar à floresta. Qual era a minha missão? Era estar no curandeirismo. Como digo, não sou um grande conhecedor, não sou um grande xamã, um erudito na matéria. Penso que tenho a força necessária, talvez um pouco de conhecimento, e quero, com toda gente que está me acolhendo, fazer conhecer a maravilha destas plantas, não só a Ayahuasca.

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Que as pessoas podem ir conhecendo e obtendo seus poderes de curandeirismo. Comecemos pelo que se chama "Mãe das Plantas", ou também podemos dizer Deus das Plantas, Espírito das Plantas. O processo de aprendizagem pode ser feito como um pedido ao Pai, à Mãe das plantas para que nos ensinem em sonhos, para quem busca aprender de todas as Plantas Mestras que têm uma Mãe, um Espírito, que têm um deus, podemos dizer.

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Tem que fazer como um médico científico, que vai aprendendo por ciclos, por especialidades. O que nós fazemos para conseguir o nível de xamã é ir cumprir o período com as diferentes plantas com propriedades medicinais. E que têm sua Mãe, seu Espírito guia. Cada Espírito guia tem um animal de poder. A Ayahuasca, por exemplo, tem várias classes: é branca, amarela, negra, marrom. Cada classe tem um Espírito. No meu caso, estou com a amarela e a branca. Também se classificam por camarambi ou mixa, e cada uma tem sua Mãe. Camarampis tem as Águias e os Condores, ou uma ave que chamamos de Tisca. Já escutei seus cantos aqui na floresta do Brasil. E também tem sua Mãe que é uma grande Serpente, que nós a chamamos de Joni, que quer dizer serpente que pode estar em terra, na água, no espaço, nas nuvens, na roça, nas pedras e nas areias. Os outros guias espirituais são os Pumas, Tigres, Jaguares. O Espírito também é guardião do xamã, do animal em que ele se transforma para poder ir aos níveis de conhecimento. Ou quando está fazendo um trabalho para resgatar as almas dos enfermos. O xamã tem de se transformar em todos os animais de poder para resgatar a alma, o espírito, a mente, o sonho desse enfermo. E introduzi-lo em seu corpo. Tal como está, pois as energias estão nos 4 pontos cardeais; estão os animais de poder e as cores. Por isso que nós, xamãs, combinamos conhecimento da natureza com conhecimento de energias. Quando se quer combinar os Espíritos das diferentes plantas com poder medicinal, é como o diretor de uma grande orquestra, que já tem o domínio das plantas medicinais e ordena que cada Espírito possa fazer um determinado trabalho desta natureza. Para fazer essa combinação deve-se ter muito poder de concentração mental, muito poder de mando, porque às vezes alguns Espíritos-Guias são rebeldes. É como um pai que tem muitos filhos: cada um quer uma coisa. O xamã que tem muitos Espíritos tem de ser um homem que tem mando, que ordene, mande nos Espíritos que não querem trabalhar. Porque a maioria das plantas medicinais ou têm muita energia da terra ou muita energia do fogo. E deve-se saber domá-los (os Espíritos), manejá-los e guiá-los de acordo com o sentido do nosso trabalho.

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"Um centro na floresta para receber as pessoas" Meu amigo Agustín (Guzmán Morocho), que conheço há muitos anos, trabalha com o São Pedro, e eu com a Ayahuasca, e temos um grupo. Nossa finalidade é ampliar isso na floresta,


na selva peruana, depois de Pucallpa. A 4 horas de barco de Iquitos, temos um centro que está funcionando desde maio passado (de 1996). Um centro que pretendemos ampliar, para receber todas as pessoas interessadas, que querem encontrar-se consigo mesmo em plena floresta.

Queremos criar uma fonte própria de sustento, inclusive de animais menores para não trazermos muitas coisas sofisticadas da cidade. Produziremos mandioca, frutas, e também teremos mel de abelha. Peixe já temos em quantidade. Sim, o povo shipibo está suficientemente capacitado para abastecer-se. Venho trazer mensagem do povo shipibo, naturalmente conhecedor de certas técnicas de cura, e trazer mensagem do povo peruano. No aspecto de que nós não perdemos a irmandade, e pensamos que o povo latino-americano deve estar unido. Isto é o mais importante: sermos irmãos. E como bons irmãos ajudar-nos a multiplicar as energias e os conhecimentos que nos sirvam de alguma maneira. Não quero dizer que trago a verdade, que tenho a solução. Cada um é que vai dizer se é bom ou mal. Eu tomo Ayahuasca somente para fazer o bem.

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Gente que quer se iniciar neste campo de curandeirismo, e aprender da Ayahuasca, de Pinho Branco, Camalonga... Já que na cidade é um pouco difícil acompanhar esse processo de aprendizagem. É com essa finalidade que temos feito um centro a mais, que é a casa que pode receber investigadores, jornalistas, antropólogos, médicos inclusive, ou estudantes.

Em Brasília, fiz duas reuniões. Em São Paulo, fiz três sessões com Ayahuasca, na Chácara Flora com um irmão xavante e com o Léo foi a quinta sessão. Minha impressão é que todos têm uma expectativa, talvez pelo impacto da verdade que lhes digo. Não sou das pessoas que negam sua procedência. Eu orgulhosamente digo que sou um índio, um indígena, mas tenho tido a oportunidade de ter um pouco mais de conhecimento acadêmico. Vejo que as pessoas, por maior que seja o seu nível de conhecimento, têm sentido a autenticidade, a honestidade, a sinceridade com que eu chego a elas. As pessoas que estão um pouco desequilibradas, mentalmente erradas, eu vou com amor. O que digo pode ser verdade, pode ser mentira. Tudo depende de como cada um está orientado. Todas as pessoas que participam dos meus grupos têm saído reconfortadas. Talvez não pelo meu conhecimento, mas por haver me conhecido tal como eu me apresento, na minha sinceridade. Neste momento, somos irmãos que devem se conhecer inteiramente e, depois, ajudar-se uns aos outros, intercambiando experiências, pois nunca se deixa de aprender. Repito que não sou um grande xamã que traz uma solução. Primeiramente, é melhor nos conhecermos como somos, e depois poderemos nos programar com muito mais conhecimento de causa.

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Meu povo crê muito no curandeirismo, nos xamãs, porque de uma forma ou de outra somos líderes entre o nosso povo, somos guias espirituais, somos os médicos, e também temos de ver a vida política do povo shipibo e das demais etnias. No rio Ucayali são, por exemplo, 400 povos. Eu praticamente sou como um líder, viajo tanto para o baixo Ucayali como para o alto Ucayali, e outras cidades. Há xamãs muito velhos que perderam seus poderes, e de vez em quando precisam de ajuda, que lhes dêem energia.

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Nossa missão também é buscar o equilíbrio do mundo, o equilíbrio do universo. Minha missão é conectar-me com gente que também busca intercâmbios. Trato de conectar-me com pessoas que já estão em nível espiritual mais elevado, para ampliarmos este movimento. No Peru, há muita gente com conhecimentos superiores ao nosso, são descendentes dos incas, gente que mantém a energia solar. Fala-se que vai haver uma transformação, uma mudança no mundo. Uma parte do meu povo se prepara. Primeiramente, eu mesmo. Se eu não me sentir em paz comigo mesmo, não posso ter ordem em minha casa. Não posso ter ordem com minhas filhas e com minha mulher, e conseqüentemente com meu povo e o meu país. Acredito que as pessoas do Brasil e do Peru têm a missão de defender a selva amazônica, esta fonte de energia sã no mundo. E, se vai haver um choque, um colapso, orientar essa energia. Eu não sei como. Talvez seja um processo de aprendizagem, e esta minha viagem se deve a isto. Para conhecer pessoas que estejam mais conscientes do que vai haver, melhor orientadas nessas transformações que irão suceder. Por isso eu não vim fazer turismo, vim aprender. Para voltar ao Peru e desenvolver um programa com seguimento, porque isto terá um efeito multiplicador. Sempre disse que aos 40 anos eu deveria sair e visitar outros países, e aos 45 tenho que ter pelo menos uma visão global do mundo. E estou tratando de alcançar isto. Eu disse ao Agustín que, antes de ir a outros países, prefiro radicar-me no Brasil, aqui em São Paulo. Tem muita gente querendo me levar aos Estados Unidos, a Carolina do Norte, ao Novo México. Tenho trabalhado no Peru há vários anos e agora penso ir à Europa. Acredito ter bastante formação para suportar estes choques. Meu irmão também é um curandeiro, um investigador, e viaja muito.

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A confiança do paciente no seu curador é importante, e aí se realiza o que se chama o "milagre" da salvação, da fé. A gente que tem fé é uno, produz um efeito multiplicador para que a pessoa receba com boa predisposição a energia ou a palavra, e inclusive um sorriso transmitido. Achar coisas bonitas também é um efeito multiplicador. Este é um dos efeitos que a planta pode fazer. Porque se a pessoa não está com a energia


mental alta, não pode tampouco ver. Nós mesmos estamos iludidos, mas é uma ilusão encaminhada, ordenada. Vivemos de um sonho, e quem não sonha não vive a vida. Tem de ser um sonhador. Muitas vezes me dizem que estou louco. Eu aceito esta loucura, porque se é uma loucura multiplicadora de amor, de Deus, para com o meu próximo, com meu irmão, eu aceito esta loucura. Porque é uma loucura orientada a um fim. O fim de fazer bem ao meu irmão, não interessa a raça, a cor, a religião, a política, a ideologia... Para nós não há fronteiras, não há países.

Mesmo as autoridades policiais apóiam isso. Nós, por exemplo, pagamos à municipalidade para exercer isso, tiramos permissão especial da polícia. Já há um acordo do grupo médico peruano para que nós sejamos como membros paramédicos. O governo peruano está dando um amplo apoio ao nosso trabalho, e há uma classificação das pessoas que estão trabalhando profissionalmente. Para poder optar por seu título, o médico peruano tem de passar um ano num programa de medicina tradicional, ou talvez aprender a falar um dialeto. E participar por um ano de diferentes grupos. Eu concordo que as duas medicinas devem seguir paralelas.

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O governo peruano está dando um bom apoio à medicina nativa, porque haverá uma classificação dos verdadeiros guias espirituais ou especialistas em medicina. Inclusive há uma lei em andamento para apoiar a medicina tradicional, que depende do Ministério da Saúde.

Sinto que o Brasil está irmanado. Aliás, por parte de mãe eu sou descendente de índio brasileiro com indígena peruano. Talvez por isso eu me sinto muito feliz por estar no Brasil, não sinto tanta diferença, pois todas as pessoas fazem parte do meu mundo. Não sou um erudito, não sou um grande conhecedor, mas pelo menos trago a sinceridade, trago a honestidade. E para as pessoas que quiserem ter uma experiência, oferecemos o nosso centro, um pequeno espaço na floresta, onde se pode descansar, criar mais e conhecer mais. Por intermédio da Ayahuasca, conheci outros seres espirituais que me conectaram com outras plantas, com espíritos da terra, de água, das pedras. A Ayahuasca me deu esta oportunidade, mas guiado por outros xamãs velhos, que eram meus guias espirituais. A princípio, meu irmão e meus quatro tios que me iniciaram. Vários guias e mestres espirituais me têm dado seus dons, uma certa especialização. O resto aprendi dentro de minha loucura (risos). Combinando, fazendo misturas, buscando. Porque um ditado ensina que para chegar a ser um bom mago, primeiro é preciso ser um bom alquimista. E um bom alquimista é um bom mago. A natureza em si é mágica, e se a natureza lhe abre, se o coração da Mãe Pachamama, la

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Iacuruna... Tudo isto é uma aprendizagem que se consegue com sacrifícios, lutas e muita pena, pois no final se está satisfeito por haver se sacrificado, por haver lutado. Porque tem a satisfação de sentir-se dono de si mesmo e do seu conhecimento. Isto tem sim que produzir um efeito multiplicador, tem que dar às pessoas necessitadas o que se tem aprendido. Por isso, tenho no Peru muitos alunos que são mulheres e homens. Claro que nunca chegarão ao grau de um grande xamã, mas pelo menos têm um conhecimento guiado para ajudar as pessoas.

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AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL

As plantas sagradas, como um remédio, podem nos auxiliar a conscientizar um senso ampliado de identidade, provendo o estímulo necessário para a superação do hábito de restringir a nossa consciência de "eu" ao mundo das abstrações ou ao dos desejos egóico e pueris. Com certeza, uma poção com a Ayahuasca, (assim como a seiva de outras plantas tradicionais e de uso ritualista), é capaz de proporcionar o auxílio que precisamos para redirecionar o nosso destino; orientar a humanidade em direção à realização do homo-sapiens verdadeiro: um ser ponderado, compreensivo, compassivo, tolerante, flexível e integrado.

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O caminho dos vegetalistas, ou ayahuasqueiros, por ser mais intenso que muitas outras disciplinas, pode parecer de alguma maneira mais fácil por proporcionar um contato mais precoce e mais intenso com o numinoso. Tal contato pode inspirar compromisso e abrir as portas para mais força e criatividade, mais graça, para superar os conteúdos incômodos. Certamente, com um investimento enorme de tempo e esforço, estas mesmas expe-riências


podem ser obtidas pelos que dominam a ciência da meditação. Para investigadores cuja prática espiritual deve ser integrada com a necessidade de trabalhar e prover ao seu sustento, o uso adequado dessa tecnologia milenar pode tornar o pro-cesso da realização exeqüível. Para os que, mergulhados nessa nossa “sociedade de competitividade e consumo”, encontram o tempo para meditar essas experiências poderão vir a representar um salto qualitativo nas suas práticas.

A Ayahuasca revela que o conhecimento que temos do mundo, da existência, é um estado ou processo psicossomático. A experiência mística realiza a descrição cientifica da relação ecológica de todos os seres, do campo quântico e unificado; essa experiência implica desapego e transformação, isto é a drenagem do conceito de “ego”. Se a nossa intenção é sincera, se temos coragem e generosidade o suficiente, então vale a pena estudar todas as técnicas úteis para a realização espiritual - a Ayahuasca, utilizada com motivação certa, habilidade e integridade, pode contribuir muito para o alívio do sofrimento, dando acesso à sabedoria e visão necessária para a união mística.

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Porém, a Ayahuasca não é um caminho para todos; substâncias psicoativas não são pontes, ou atalhos, apenas vias mais rápidas. A escolha deve ser baseada no conhecimento amplo dos fatores envolvidos. Esclarecer-se requer a resolução de materiais e conflitos inconscientes; aqueles que aspiram a essa realização precisam avaliar a sua disposição e coragem, decidir o compasso e a intensidade com a qual desejam se encontrar com essa psicodinâmica, essa “purgação” ou purificação na linguagem dos adeptos da Ayahuasca.

AYAHUASCA COMO INSTRUMENTO DE AUTO-OBSERVAÇÃO: A percepção, habitualmente embotada, permite apenas aprender e acessar uma fração distorcida de realidade; uma realidade revestida de projeções pessoais e pressuposições. A propriedade central dos “enteógenos” ou “psico-integradores” é com certeza levantar o véu, amplificando a experiência. A Ayahuasca amplifica a capacidade psicossomática de responder a gradações mais sutis de estímulos além de muitas vezes integrar as diversas faculdades sensoriais em processos sinestésicos. Esse efeito de aumentar a capacidade de experienciar, de avaliar e apreciar por si mesmo, é central para a compreensão do seu significado. Esta amplificação, como uma lupa, permite uma (re)visitação intensiva e absorta dos conteúdos mentais - recordações, idéias, fantasias, pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais. Na dependência da ética e valores morais atuais do indivíduo, além de influir na intensidade e no foco das percepções, a experiência pode motivar a re-significação dos conteúdos sendo observados. Valores morais e atitudes são revistas.

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Aqui temos uma tecnologia que alterando a composição bioquímica do instrumento e dos meios de processamento da informação, permite a inativação temporária dos filtros culturais e psicodinâmicos que nos bastidores da mente agem determinando, formatando e hierarquizando, nossas experiências quotidianas. Pode se de fato aprender muito, crescer e liberar energia psíquica revendo, transformando, eliminando, aceitando e se reconciliando com conteúdos incômodos.

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COMO CAMINHO INICIÁTICO: SINCERIDADE E CORAGEM: A função de uma substância com a Ayahuasca é muitas vezes mal entendida. Muitos pensam que pelo fato de terem tido experiências maravilhosas, já obtiveram as respostas e foram de alguma maneira transformados. Em alguns aspectos foram, mas muitos descobrem a realidade de que existem muitas camadas de condicionamento e ignorância a separar a mente superficial do núcleo do ser. A Ayahuasca e outras plantas instrutoras podem levar à transposição dessas barreiras permitindo o acesso à nossa essência, necessitando, contudo persistência e comprometimento no sentido de mudar e remover os velhos hábitos que tendem a reaparecer. Muitos imaginam que a repetição da experiência irá manter um estado de lucidez e visão, de fato pode, mas freqüentemente, a mudança requer trabalho duro e esforço dedicado; algumas vezes a experiência transforma, outras vezes mostra o possível, aponta o caminho, a responsabilidade de implementar as mudanças nos pertence. Para o investigador espiritual sério, assim como para os que buscam conhecimento verdadeiro, a característica mais importante é a honestidade. Isto significa a coragem para olhar para o que se apresenta no processo, pela habilidade de admitir as suas falhas quando se tornam aparentes e pela determinação de mudar os seus comportamentos em função do que se revela. O contéudo e natureza das experiências que essa substância induz não são, portanto, produtos artificiais resultantes da sua interação farmacológica com o cérebro, mas expressões autênticas da psique que revela seu funcionamento e potenciais em níveis inacessíveis no estado ordinário de consciência.

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Para aquele cuja intenção real é instalar uma transformação psico-espiritual, a Ayahuasca pode funcionar como catalisador natural a revelar e liberar intuições e conhecimentos oriundos das facetas mais elevadas do ser, permitindo o acesso a uma sabedoria fundamental relativa ao universo e à nossa posição como indivíduo. O grande valor da Ayahuasca, trazidos à nossa atenção pelas sociedades indígenas, é que ela


dissolve os limites da mente inconsciente; ela dá acessos aos conteúdos reprimidos e esquecidos. Ela possibilita o reconhecimento das configurações universais da psique, os arquétipos de humanidade, junto com um leque mais abrangente de conhecimentos e maneiras de conscientizar, até eventualmente a vivência dos diversos aspectos da união mística. COMO CAMINHO INICIÁTICO: TOLERÂNCIA:

Na medida em que o indivíduo consegue ver as coisas de uma maneira não distorcida, vendo claramente não apenas o seu passado mais também a presunção e cegueira da sua própria cultura e grupos de referencias, ele necessita, além de tolerar a decepção e o sofrimento, superar sentimentos de desamparo. Nem sempre é fácil ter de ver e aceitar que não somos assim tão vítimas, mas sim responsáveis pelas nossas vidas; aceitar ser capaz, reconhecer o seu potencial e a responsabilidade que isso requer implica coragem e determinação. Podemos até recusar crer que fazemos jus a muita beleza e alegria, bem estar profundo, sem nada ter de pagar além de ser o que já se é; apenas sendo o que já somos. O gerenciamento emocional produtivo dessa reavaliação, a reorganização psíquica, implica um grau suficiente de equilíbrio e bom senso para que se tomam atitudes judiciosas sem precipitações.

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Uma substância como a Ayahuasca oferece opções terapêuticas já que tende a dissolver a fragmentação e a compartimentagem interna, a revelar mecanismos de defesas diversos como “projeção”, “negação” ou “deslocamento”, possibilitando o esclarecimento dos sectarismos e pontos de vistos intransigentes.

TRIANGULAÇÃO - AYAHUASCA COMO UM FENÔMENO TRÍPLICE: A PESSOA, O AMBIENTE E O CHÁ. Sobre a influência da Ayahuasca, a intensidade dos estímulos - tanto por amplificação e enriquecimento de detalhes e pontos de vistas perceptuais quanto pelo maior influxos de dados perceptivos - aumenta consideravelmente as possibilidades de respostas à experiência. Devido a essa magnificação da percepção, uma atenção especial tem se dado à qualidade dos estímulos provenientes tanto do indivíduo quanto do meio onde o chá esta sendo utilizado. A hipótese denominada em inglês de “set and setting” foi inicialmente formulada por Timothy Leary nos anos 60 no âmbito das pesquisas iniciais com agentes psicoativos e foi rapidamente aceita pelos demais pesquisadores da área. A teoria geral determina que o conteúdo de uma experiência com substância psicoativa é uma resultante da interação de três fatores básicos. Os fatores essenciais são: o “set”, que traduzo como sendo o “fator pessoal”, isto é aquele que o individuo traz consigo, os seus conteúdos (intenção, atitudes, personalidade, humor,

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etc.); o “setting” ou “fator ambiental” corresponde a todos os elementos externos ativos e capazes de influir a experiência (fatores interpessoais, social, ambiental, o âmbito). A substancia em si, o “Chá” age como um gatilho, ou catalisador, a conectar e por em interação os fatores citados numa dinâmica especifica, criativa e intensa. É evidentemente impossível definir qual dos fatores é o mais importante tanto quanto é impossível dizer qual o lado mais essencial de um triângulo isóscele. Contudo “o âmbito” é a vertente da experiência que pode ser programada, estudada, ensaiada e cuidadosamente preparada para um melhor proveito.

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TRIANGULAÇÃO - O FATOR PESSOAL: Como a Ayahuasca revela o nosso lado oculto, abrindo as portas do inconsciente numa linguagem psicológica, um enorme leque de opções e qualidade de experiência se apresenta. Na realidade essa poção psicoativa revela e liberta o que está dentro da pessoa, tornando a mente manifesta (ou seja, efeito “psicodélico” como “manifestação da mente”). A mente se torna sujeita a observação e, por isso mesmo, a transformação. A fluidez e a qualidade do deslocamento do ayahuasqueiro nesse labirinto psíquico depende antes do tudo do fator pessoal, do “conteúdo” que inclui os elementos do inconsciente pessoal, o registro da experiência de vida, assim como os mecanismos condicionantes em operação – recatos e defesas – a determinar a liberdade de opções, a qualidade, riqueza e legitimidade das interpretações, enfim, os principais desafios do indivíduo. Outro aspecto importante do conteúdo consiste nos valores e critérios pessoais; atitudes, aspirações, expectação, intenção e ética. Estes elementos irão influenciar a atração da atenção e determinarão o modo da pessoa lidar com o material psíquico revelado. TRIANGULAÇÃO - O FATOR AMBIENTAL: O fator ambiental se refere aos fatores externos ao indivíduo e capazes de influenciar a experiência: o lugar onde o chá é servido; a atmosfera do ponto de vista cultural, espiritual e emocional; como o indivíduo está sendo atendido; a quantidade de pessoas envolvidas; o tipo de liderança aplicada na experiência são alguns dos fatores a considerar.

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Normalmente o indivíduo se torna bastante impressionável quando sofre os efeitos de substâncias como a Ayahuasca, estado decorrente da magnificação perceptual já mencionada. Esse efeito acoplado como o aumento da perspicácia, capacidade metafórica e habilidade em gerar psico-associações criativas, alimenta o lado noético e o imaginário da experiência. É obvio que essa “impressionabilidade” não significa que o ayahuasqueiro é mais facilmente suscetível de influência do que o homem comum ou do que os fiéis das religiões de massas,


por exemplo. O grau de credulidade, ingenuidade, ou então de cepticismo (ver nota) de um indivíduo reflete opções cognitivas, filosóficas, assim como traços de personalidade profundos e estáveis, até mesmo inerentes, que não serão transbordados pela “força e influência” do chá. Ao contrário, são justamente esses conteúdos profundos do indivíduo – inclusive tendências básicas como credulidade ou cepticismo - que determinam a maneira de significar a experiência.

Um facilitador precisa ser paciente, empático, familiarizado com os processos da experiência; ele pode ser muito efetivo sabendo refletir os pontos essenciais, fazer perguntas, observações aparentemente casuais. Cantos, músicas, atitudes e até mesmo orientações diretas bem dosadas, podem ser importante para facilitar uma experiência suave e rica. O ayahuasqueiro descobrirá que dividindo possíveis dificuldades com companheiros receptivos e compreensivos poderá gerar claridade e conforto. Finalmente, e na maioria das vezes, o melhor guia é a nossa própria consciência e esse processo interno não deve ser interferido a não ser quando solicitado.

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O tipo e da qualidade do sistema de crenças, da visão, pertinente ao âmbito social no qual a experiência irá ocorrer assim como o tipo de liderança e dinâmica dos trabalhos são fatores essenciais, capazes de influenciar em grande parte a harmonia e tranqüilidade da experiência; possuir uma boa descrição do âmbito onde se irá comungar a poção é um fator importante. Uma liderança não muito interventiva e tranqüila favorece o acesso e estudo dos conteúdos pessoais, o exame e integração da sua própria trajetória, o encontro de caminhos e conceitos próprios.

Rituais inspiradores, universais e holísticos, ambientes naturais, atividades espontâneas e criativas, permitem a focalização da atenção para regiões psíquicas interessantes. Os próprios conteúdos, junto com a configuração de ambiente, a qualidade do chá, a própria intenção e a do grupo, configuram um processo singular, uma “gestalt”, um “ser maior”, o próprio eu transpessoal da experiência. Reconhecer e ter certeza de estar em sintonia e harmonia com esse “ser maior” gerado pelo evento é a chave de uma experiência de grupo bem sucedida. (Nota) Cepticismo: atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento. TRIANGULAÇÃO - O CHÁ: Investigações demonstram a variabilidade do chá na sua composição química. Fatores dependentes, das plantas e lugar de origem, da hora da colheita, do preparo (quantidade relativa das duas plantas, grau do apuro e tipo de água utilizada - fatores com pH, teor

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mineral da água) todos influenciam a qualidade do chá e, portanto os seus efeitos. A quantidade utilizada durante uma cerimônia é também um fator decisivo. Quantidades habituais ou moderadas permitem uma observação melhor dos seus próprios conteúdos, um estudo detalhado da sua própria psicodinâmica. Quantidades maiores são necessárias para se “viajar no astral” na linguagem dos usuários de algumas seitas. A utilização de grandes quantidades de chá, acima de 300 mililitros, numa única tomada é mais bem aproveitada em ambiente especifico, mais reservados com uma supervisão adequada e favorece o tipo de vivência descritas na fenomenologia como “experiências místicas”.

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Com uma prática adequada e um considerável trabalho sobre si mesmo é possível se chegar aos mesmos resultados com dosagens menores. INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - REAÇÕES: Como as defesas do ego são desafiadas, sentimentos reprimidos e recordações afloram na consciência, podendo criar algum nível de ansiedade - uma reação semelhante ao enfrentado em situações inusitadas ou de desfecho incerto como praticar esportes radicais, participar de competições esportivas ou ainda se submeter a alguma prova. Uma experiência desse tipo é geralmente muito proveitosa por ensinar mais. Reações adversas mais sérias ainda não foram descritas com o uso da Ayahuasca, em parte porque o chá tem sido utilizado com critério e responsabilidade, em doses adequadas, e que a Ayahuasca não tem sido promovido como sendo remédio e solução para curar as crises emocionais de pessoas seriamente transtornadas. Triagens para eliminar os prováveis candidatos a reações adversas, como as personalidades esquizóides e pre-psicóticas, os neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedades, os usuários de drogas e medicamentos psico-ativos possibilitam a realização de Cerimônias tranqüilas, seguras, criativas e de inestimável valor espirituais. INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - EFEITOS PRÁTICOS: Experiências como as proporcionadas pela Ayahuasca são por natureza transcendental, transpessoais, porque alargam a experiência e visão da realidade, diminuem o império do ego sobre a personalidade, facilitam uma mudança de valores.

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Torna-se evidente que a utilização de uma substância como a Ayahuasca é mais útil dentro de um contexto e de uma disciplina tendo como objetivo o crescimento e a evo-lução espiritual, um programa chamando atenção para os valores éticos e morais fundamentais. Uma disciplina adequada fornece um corpo de ética capaz de apoiar as mudanças requeridas, clarificando os objetivos, mantém a mente focada e aberta para o aprofundamento crescente da experiência.


É o indivíduo, a sua intenção que determinam se a experiência será mística e religiosa, evolutiva ou não. Bastante preparo é necessário para se chegar a uma experiência mística, mesmo usando Ayahuasca e um trabalho de integração efetivo é necessário para que a experiência seja de fato transformadora. Se o estado de consciência ampliado induzido pela experiência conduz ou não a mudanças positivas e duradouras, depende da intenção e dedicação do usuário.

Receber uma luz não é igual a aplicar essa luz no dia a dia; não há conexão inerente entre uma experiência mística de unidade e a expressão ou manifestação daquela unidade na vida cotidiana. Este ponto é talvez óbvio, contudo freqüentemente esquecido por aqueles que debatem se, em princípio, um agente psicoativo pode ou não ter valor no âmbito da busca espiritual. Qualquer que seja a fonte ou a origem da iluminação, as revelações só poderão ter efeitos práticos com a permissão e dedicação do individuo.

DMT E NEUROCIÊNCIAS

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Uma visão, mesmo rápida, de uma realidade maior pode mudar a vida de uma pessoa se ela resolve integrar essa visão à sua realidade.

JUSTIFICATIVA O N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2), o alcalóide psicoativo existente na “bebidas mágicas brasileiras” (Ayahuasca e Jurema), deve se tornar no principal antidepressivo deste século, indicado para processos terapêuticos de mudança de hábitos, principalmente em tratamentos de dependência química, podendo ainda ser utilizado para o estudo da mente e para o desenvolvimento humano. E, apesar desta substância, só existir em plantas no Brasil e de sua patente científica ser discutido no âmbito internacional, ainda são poucas as pesquisas interdisciplinares realizadas sobre o assunto.

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Sobre a Ayahuasca, há uma farta literatura botânica e antropológica, alguns estudos específicos sobre sua farmacologia e uma compilação interdisciplinar recente (LABATE & ARAÚJO; 2002) – que detalhamos adiante. Importante agora é ressaltar a descoberta do “efeito ayahuasca” (HOLMSTEDT-LINDGREN, 1967), isto é, de que a psicoatividade oral do DMT depende da inibição da monoanima-oxidase (a enzina catabólica MAO), causada pela ingestão simultânea de beta-carbonilas. Na Ayahuasca, o princípio simbólico feminino é constituído pela folha da Psichotria Viridis (Chacrona ou Rainha), portadora de DMT; e o princípio masculino, pelo cipó Banisteriopsis Caapi (Jagube ou Mariri), que contém harmina e harmalina, inibidores que geram a psicoatividade. Porém, nem a folha nem o cipó são psicoativos tomados separadamente. Sobre a Jurema, o estudo contemporâneo mais importante é harmahuasca, anahuasca e jurema preta: farmacologia humana de DMT oral mais harmine de Jonathan Ott (2002), em que se investiga a hipótese de sinergia psicoativa entre o DMT e as b-carbonilas em diferentes preparos: a pharmahuasca (cápsulas de DMT e Harmine sintéticos); a anahuasca (bebidas preparadas com plantas diferentes da Ayahuasca, mas com os mesmos princípios ativos); e, finalmente, a Jurema preta, que apresenta um nível de concentração de DMT muito superior ao de outras plantas e é principal fonte contemporânea de triptaminas para as pharmahuascas e anahuascas. Outra descoberta notável, é que, consumido via oral acima de 25 mg, o DMT é psicoativo por si só, não precisando de inibidores. Não haveria, portanto, o tão propalado “ingrediente perdido” do preparo da Jurema entre os índios nordestinos. Sobre o DMT propriamente dito, as pesquisas se iniciam com os textos de Terence McKenna (1992, 1993, 1994 e 1996). Hoje, na internet, encontram-se alguns sites com informação detalhada sobre a substância ([2]). Toda informação disponível referente a estes três pontos (a Ayahuasca, a Jurema e o DMT) será detalhada em diferentes revisões bibliográficas. OBJETIVOS E METODOLOGIA Além de investigar o efeito do DMT no cérebro, o objetivo principal desta pesquisa é, observando o aspecto reverso, estudar a mente através do DMT. Ou seja: não apenas estudar o efeito químico da substância no organismo, mas, sobretudo, compreender quais dimensões de consciência que este efeito propicia (telepatia, regressões mentais a traumas infantis, visualização de imagens do inconsciente profundo, mudanças na percepção do tempo e da realidade).

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Todavia, há também objetivos secundários bastantes relevantes. Em primeiro lugar, trata-se da importância de se estabelecer um projeto de pesquisa trans-disciplinar de ponta envolvendo pesquisadores locais (psicólogos, antropólogos, médicos, etc) com um assunto regional (uma vez que a jurema é nativa do semi-árido nordestino) dentro do Centro


A idéia é entrecruzar diferentes metodologias para investigar o DMT: estatísticas de entrevistas qualitativas, hipnose, encefalogramas, tomografias cerebrais, simulações holográficas, experiências com símios e outros animais e até dissecação do cérebro de doadores. Também é preciso colocar que cada sub-pesquisa do macro-projeto comporta uma metodologia específica aos seus objetivos particulares. Por exemplo: extrair DMT da Jurema e sintetiza-lo com b-carnboninas em um medicamento? Ou ainda se a potencialização homeopática do DMT+harmine aumenta a eficácia do medicamento em pequenas dosagens de longo prazo? Essas são investigações que comportariam metodologias e técnicas de pesquisas específicas. O essencial, no entanto, será demonstrado através do método lógico dedutivo, com ficará claro com a enunciação da hipótese da pesquisa, após as revisões bibliográficas necessárias para colocação do assunto no patamar atual. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA I – A AYAHUASCA A bebida conhecida como Ayahuasca ou Yajé é preparada através da infusão do cipó do Jagube ou Mariri (Banisteriopsis caapi) e da folha da Rainha ou Chacrona (Psycotria viridis) naturais da região. A bebida teria origem do Império Inca e seu uso teria se difundido entre várias tribos indígenas, das quais se tem razoável conhecimento antropológico. Ingerindo o chá, os índios absorvem o espírito da planta e, em transe, têm experiências psíquicas e vivenciam fenômenos paranormais, tais como a telepatia, a regressão a vidas passadas, contatos com os espíritos dos seus antepassados mortos, presciência e visão à distância. Há relatos de xamãs usavam a bebida para descobrir qual era a doença de seus pacientes e saber como tratá-la. Diversos antropólogos, inclusive, tomaram o chá e descreveram seus efeitos parapsíquicos. Ainda hoje, várias tribos praticam rituais com o uso da Ayahuasca no Brasil, como as dos Kampas e dos Kaxinawás, localizadas perto da fronteira com o Peru. Desde o início do século, nos contatos culturais entre seringueiros e índios, a Ayahuasca passou a ser usada pelos migrantes nordestinos, que colonizaram a Amazônia ocidental. Destes contatos surgiram diversos grupos que associaram o uso da bebida a um contexto religioso cristãoespírita, dos quais a União do Vegetal, no estado de Rondônia, o Santo Daime e a Barquinha, no Acre, são os maiores expoentes. Paralelamente ao crescimento desses grupos e à expansão do uso religioso do Ayahuasca,

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Internacional de Neurociências. Pensamos que a UFRN não deve apenas sediar este instituto de pesquisa, mas também participar desta iniciativa com seus pesquisadores, com temas de interesse público da sociedade potiguar. Mas não é só: o projeto quer também objetiva a elaboração e produção artesanal de um medicamento a base de DMT extraído da Jurema, bem como a possibilidade de sua utilização no tratamento de dependentes químicos. Para tanto, várias outras pesquisas específicas precisam ser desenvolvidas, ampliando assim o campo da investigação. Trata-se assim de um projeto geral a partir do qual outros projetos podem ser desenvolvidos.

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uma forte resistência dos setores conservadores da sociedade brasileira se formou, pressionando o governo para embargar o funcionamento destas instituições nos grandes centros metropolitanos. Porém, no dia dois de junho de l992, o conselho decidiu liberar definitivamente a utilização do chá para fins religiosos em todo o território nacional. Segundo a então presidente do Conselho Federal de Entorpecentes (Confen), Ester Kosovsky, “a investigação, desenvolvida desde l985, baseou-se numa abordagem interdisciplinar, levando em conta o lado antropológico, sociológico, cultural e psicológico, além de análises fitoquímicas”. O relator do processo de investigação, Domingos Carneiro de Sá, explicou que o fato fundamental para a liberação da bebida foi o comportamento dos ayahuasqueiros e a seriedade dos centros que utilizam o chá em seus rituais: “Não foram observadas atitudes anti-sociais dos participantes dos cultos, ao contrário, podemos constatar os efeitos integrados e reestruturantes do Ayahuasca com indivíduos que antes de participarem dos rituais apresentavam desajustes sociais ou psicológicos”. Contra-indicações e efeitos colaterais Geralmente se observa uma dieta estrita antes as sessões de ayahuasca: comida sem sal, açúcar, óleo, gorduras e condimentos picantes; e principalmente nenhum álcool ou sexo antes, durante ou nos dias imediatamente após a ingestão, em um marco de repouso, silêncio e isolamento do mundo cotidiano. Está comprovado que a dieta influencia diretamente na qualidade da experiência e, sem dúvida, o maior perigo físico ao ingerir ayahuasca está relacionado com os efeitos da harmala, harmalina e tetrahidroharmina que contém, os que cumprem uma importante função inibidora da enzima monoamina oxidasa (MAO). A tiramina é um aminoácido que normalmente é metabolizado pela MAO no intestino. Logo de levar compostos inibidores da MAO, a tiramina que se encontra em certos alimentos já não pode ser metabolizada pelo organismo enquanto a MAO se encontre inibida. Isto pode causar um acréscimo dos níveis de tiramina na sangre. Feito que os altos níveis de tiramina podem afectar a produção natural de noradrenalina, esta condição pode conduzir a uma crise hipertensiva. Numa crise hipertensiva a pressão sanguínea pode sobressair 180 e o batido cardíaco pode chegar a mais de 100 pulsos por minuto. Quem sofre de uma crise hipertensiva geralmente reporta uma terrível enxaqueca, e pode se complicar chegando a produzir hemorragias, infartos, problemas neurológicos entre outros.

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A tiramina se encontra em queijos, vinhos e geralmente em tudo fermentado. Também as drogas simpatomiméticas (MDMA, benzedrina, etc.) podem causar uma crise hipertensiva, além disso de certas ervas naturais a dar reações alérgicas. Os alimentos com alto teor de tiramina que devem ser evitados nos dias prévios e posteriores de cada sessão: queijos fermentados, molhos picantes, feijões, soja, caviar e sucedâneos, chocolate, enlatados, levedura, fígados, figos secos, pescado seco e encharque, banana, café, cerveja, vinho rosado e tinto, carnes em geral. Há também alimentos com moderado teor de tiramina a serem limitados: frutas (a maioria), produtos lácteos (leite, manteiga, yogurte, queijo fresco, etc.), chá, gasosos, vinhos brancos, missó e amendoim.


Incidentalmente, não só antidepresivos como os tricíclicos, heterocíclicos, SSRIs e outros antidepresivos atípicos podem causar interacciones perigosas com os começos ativos da ayahuasca, senão também muitas outras drogas, como os descongestionantes nasais, pílulas de emagrecimento, efedrinas, remédios contra a alergia e opiáceos. Também os medicamentos contra a enxaqueca, como o sumatriptan (Imitrex), são maliciosos à inibição da MAO. Ante a aparição inconfundível dos sintomas hipertensivos é recomendável uma cápsula sublingual de nifedipina 10 mg. cada 8 horas, ou se não tabletes de 25 mg. de clorpromazina (narcótico adrenolítica). Ambas podem abaixar a pressão, em caso de urgência. Em relação aos aspectos antropológicos do Ayahuasca (tradição indígena, grupos religiosos atuais, farmacologia e comportamento psicológico, na Internet, é possível levantar bastante informação sobre o assunto[3]. Mas, o trabalho científico mais importante publicado sobre o tema certamente é O Uso Ritual da Ayahuasca, (LABATE, B. C. & ARAÚJO W. S. (Orgs); 2002). Neste trabalho, além de trabalhos sobre as tradições indígenas e os principais grupos ayahuasqueiros brasileiros (Santo Daime, União do Vegetal e a Barquinha), encontram-se três estudos médicos coordenados pelo Dr. Glacus Brito, em que se relata os resultados da investigação realizadas em 1993 por um grupo de pesquisadores biomédicos brasileiros, norte-americanos e finlandeses para avaliar os efeitos bioquímicos e psicológicos do ayahuasca.

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Um problema mais sério é a possibilidade de interação com outras drogas como o álcool. Uma das interações mais perigosas com inibidores da MAO é a modificação de inibidores seletivos de serotonina (SSRIs). Isto pode desencadear uma síndrome serotoninérgica, parecida com a crise hipertensiva em quanto aos sintomas de elevação da pressão, mas com certas diferenças. Sintomas como agonia aguda na ponta-cabeça, sangramento pelo nariz, rigidez muscular e febre podem indicar o aparecimento de uma crise hipertensiva, de uma síndrome serotoninérgico ou de ambas.

Porém, o texto mais interessante desta compilação é o trabalho do psicólogo cognitivo israelense Benny Shanon, em que se investiga não apenas os aspectos antropológicos e botânicos do ayahuasca, mas também e sobretudo, no sentido reverso, se pesquisa da mente através da experiência do DMT. Pesquisa essa que queremos retomar no âmbito da neurociência. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA II – A JUREMA Não é difícil entender porque a Jurema seria sagrada para os índios nordestinos antes da chegada dos brancos. Além de seu caráter alucinógeno e do seu comprovado uso nas guerras e ritos de passagem, a Jurema, enquanto planta, desempenha um papel central no ecossistema semi-árido das caatingas nordestinas: durante os longos períodos de estiagem, quando a paisagem do sertão fica cinza e vermelho, apenas ela e o cacto do mandacaru resistem verdes e com reservas de água. Na verdade, no auge da estiagem, a casca da Jurema

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seca enquanto seu interior permanece viçoso. Quando a chuva volta, a casca seca cai e a árvore reaparece jovem. Esse fenômeno dá margem a uma longa mitologia de lendas e cantos envolvendo os ciclos de sazonalidade e morte/renascimento. Mas, ao contrário do mandacaru, do qual o sertanejo pode extrair água durante a estiagem, a água da Jurema é completamente inacessível ao uso humano. No caso da Jurema, a existência de água atrai a presença de pequenos insetos e de vários níveis de pequenos predadores da cadeia alimentar do ecossistema do sertão. As cobras são habituais no juremal, tanto pela existência farta de seu alimento como pela proteção dos galhos espinhosos, impossibilitando o trânsito de animais maiores. Este fato deu margem a uma extensa mitologia popular, cantada em pontos e chamadas tradicionais, em que as cobras protegem espiritualmente à árvore, assim como esta, com seus espinhos, protege os seus répteis guardiões. Assim, centro da resistência da vida orgânica à seca, em torno do qual todo ecossistema ‘não-humano’ (na verdade, nãomamífero) da caatinga gravita, a Jurema reina no sertão nordestino, desde tempos imemoriais, às margens de qualquer socialização: trata-se apenas um local perigoso e cheio de tabus, sob múltiplos aspectos. O próprio termo comporta denotações múltiplas, que são associadas em um simbolismo complexo (MOTA & BARROS, 1990:171). Além do sentido botânico[4], a palavra Jurema designa ainda pelos menos três outros significados: preparado líquido à base de elementos do vegetal, de uso medicinal ou místico, externo e interno, como a bebida sagrada, "vinho da Jurema”; cerimônia mágico-religiosa, liderada por pajés, xamãs, curandeiros, rezadeiras, pais de santo, mestras ou mestres juremeiros que preparam e bebem este "vinho" e/ou dão a beber a iniciados ou a clientes; e a Jurema como sendo uma entidade espiritual, uma "cabocla", ou divindade evocada tanto por indígenas, como pelos herdeiros de cultos afrobrasileiros, o Catimbó e a Umbanda. Antes dos colonizadores apenas os índios do sertão do Rio Grande do Norte, os Kariris e os Jê (ou Tapuios), tomavam Jurema. (SANGIRARDI JR; 1983) Essas tribos, detentoras dos ritos da Jurema, no entanto, se aliaram aos holandeses e foram completamente destruídas pelas forças portuguesas. A Jurema como identidade étnica foi então construída historicamente em segredo durante o período de colonização, chegando até tribos litorâneas distantes que não tinham tradição com a bebida. O uso da Jurema foi tolerado e aceito pelos portugueses católicos quando era canalizado para lógica de guerra contra invasores franceses e holandeses, enquanto seu uso religioso era condenado como feitiçaria. Há vários registros históricos (século XVI e XVII) sobre a eficácia militar dos guerreiros-juremeiros. Esta dupla permissão/condenação favoreceu uma expansão secreta e silenciosa da Jurema, levando o uso da bebida a ser conhecida até o Maranhão. (ANDRADE, 1992:9)

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Numa primeira fase da colonização, a resistência dos povos indígenas no Nordeste, não permitiu que a Jurema, enquanto árvore sagrada, fosse conhecida, em seus usos e significados, não sendo assim documentada pelos colonizadores e estrangeiros. Numa segunda fase histórica a Jurema representa um elemento ritual ligado à própria resistência armada dos povos indígenas ou à guerra empreendida contra inimigos inclusive em suas


E foi assim, neste contexto contraditório, que a Jurema se firmou como prática étnica indígena e se misturou com os cultos africanos. E não se trata, nesses cultos, de reduzir a planta a um ‘espírito’ de uma cabocla como conhecemos na umbanda: o candomblé africano reconhece a Jurema como orixá, o único genuinamente brasileiro.[5] A Jurema chegou ao império como uma forma religiosa de resistência cultural bastante complexa, mantendo viva seu caráter guerreiro e marginal e conheceu ainda um novo ciclo de religiosidade popular - o dos mestres da jurema no catimbó nordestino, que, até a primeira metade do século XX utilizavam a bebida para desfazer feitiços e encantamentos no CE, PB e RN (CASCUDO, 1978).

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alianças. Ainda nesta fase na qual a Jurema começa a ser documentada, seu significado ainda não é entendido mas seu uso já é motivo de repressão, prisão e morte de índios, (...). Na medida em que avança o rolo compressor da colonização, processo de genocídio ou tentativa de dominação, não só política e econômica como também cultural, aparece uma nova forma de resistência: a Jurema assume um lugar central na religiosidade popular, não só indígena regional - Catimbó. Diante do componente negro a Jurema garante seu reconhecimento, como entidade (espírito, divindade, cabocla) autóctone, "dona da terra". A Jurema é absorvida pelos cultos afro-brasileiros, tendo surgido inclusive os "Candomblés de Caboclos". Nas últimas décadas é no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo de sistematização e de expansão nacional, que a Jurema é integrada na cosmologia sagrada, no panteão da religião nacional. Constatamos em vários estados nordestinos as "Linhas da Jurema", dentre as linhagens e filiações religiosas da Umbanda. Nesses últimos anos, e paralelo ao movimento religioso propriamente brasileiro, a Jurema continua como "núcleo duro", segredo, bandeira ou símbolo, para os remanescentes indígenas, em pleno "movimento étnico", num contexto de defesa de seus direitos humanos, de suas áreas de reservas e de sua autonomia e reconhecimento no pluralismo da sociedade e das culturas brasileiras. (ANDRADE, 1992:2)

Porém, apesar de se constituir como um complexo rico em variações, a maioria dos estudos antropológicos sobre a Jurema descreve apenas o Toré, festa dos índios nordestinos em que a bebida é ritualmente consumida. O relato mais antigo data de 1946, quando Oswaldo Gonçalves de Lima descreve o contínuo uso xamânico do vinho da jurema entre os índios Pankararu do Brejo dos Padres, no sul de Pernambuco. Por volta de 1980, alguns pesquisadores advogam na extinção dos cultos da Jurema (SCHULTES & HOFMANN, citados por OTT, 2002:673). No entanto, sabe-se que algumas formas cerimoniais associadas ao Toré têm sobrevivido entre os Xucuru da Serra de Ararobá/PE; os Kariri-xocó de Colégio, na divisa entre AL e SE (MOTA, 1987); os AtickumUmã/PE (GRÜNEWALD, 1995); os Truká (BATISTA, 1995) e numerosos outros grupos espalhados pelo sertão nordestino (PINTO, 1995). Além disso, durante a segunda metade do século XX, a cerimônia indígena do Toré tem sido adotada simbolicamente por grupos umbandistas ao longo do litoral nordestino. Em A Jurema em “Regime de Índio”: o caso Atikum (GRÜNEWALD, 1995) observa-se o

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contraste de alguns aspectos simbólicos desta reconstituição do uso cerimonial da Jurema em um contexto religioso contemporâneo e entre seu contexto tradicional. O texto trata de como, entre 1943 e 1945, os caboclos da Serra do Uma, descendentes de tribos indígenas desconhecidas, sabendo de que o governo brasileiro tinha como critério para concessão de terras para reservas indígenas a realização do Toré, procuraram a tribo dos Tuxá para aprender o ritual e conseguir o benefício. O que realmente acontece em 1949, quando os caboclos de Umã são elevados a categoria de índios Atikums (nome de um suposto ancestral mítico da tribo). Assim, o Toré e o uso ritual da Jurema são tradições a serem exibidas como certificados étnicos, devidamente reconhecidas pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e depois dele, a FUNAI. Grünewald observa, no entanto, que não se trata de um mero ardil para garantir a posse coletiva da terra, mas que os caboclos de Umã realmente passaram a acreditar em sua nova identidade Atikum. A Jurema deu a esses homens mais do que um pedaço de terra: uma identidade étnica une um grupo separando-o de outros, dando a ele um lugar no tempo e no espaço social. Outro episódio, narrado de passagem neste texto, cita o trabalho desenvolvido por uma fundação holandesa, Friends of the Forest – Ethnopharmacological agents & rituals and drug dependency treatment research. A fundação, em conjunto com universidades e autoridades públicas holandesas, aplicava tratamento gratuito para reabilitação de viciados em drogas (heroína, cocaína, álcool, etc) utilizando-se principalmente da Ayahuasca. No entanto, devido ao corte de fornecimento pela entidade que gerencia o Santo Daime, que considerou o uso terapêutico da bebida fora dos seus preceitos religiosos, “os amigos da floresta” passaram então a pesquisar e utilizar os mesmos princípios psicoativos extraídos de outras plantas similares. Nesta “ayahuasca analógica”, a Jurema Preta (Mimosa Hostilis) passa a ser utilizada em combinação com sementes de Perganum Harmala, um arbusto do oriente médio muito conhecido por suas características sedativas[6]. Mas não é só: os próprios pesquisadores da fundação Friends of the Forest descrevem seu contato com os índios Atikum e como introduziram o uso desta nova fórmula em alguns de seus rituais (BARBOSA, 1998:27-28). Segundo eles, os Atikum não apenas reconheceram a potencialização dos efeitos da Jurema pelo Perganum Harmala, como também ficaram com sementes do arbusto para plantar no sertão. O texto insinua que houve uma assimilação cultural de técnicas de preparo científicas, importadas do exterior, pela “cultura Atikum” e que tal fato poderá ressuscitar a tradição da Jurema.

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Não sabemos se realmente os Atikum levarão adiante os ensinamentos dos pesquisadores holandeses. Também não é possível saber, pelo menos através da pesquisa antropológica, se realmente existe uma tradição secreta da Jurema, que detenha o conhecimento do ingrediente inibidor. O certo é que hoje é mais fácil encontrar trabalhos espirituais com a utilização da Jurema na Europa que nas caatingas do nordeste brasileiro. Vivemos um processo de reconstrução mítica globalizada, em que uma planta genuinamente brasileira, símbolo de parte de nossa consciência étnica, está sendo reinventada em um contexto global contemporâneo e até mesmo re-importada de volta para as classes médias culturalmente


mais sofisticadas da sociedade brasileira. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA III - O DMT

DMT é um neurotransmissor químico presente naturalmente no corpo humano bem como em plantas muitas. Ele não causa dependência física ou psicológica. Mas há contra-indicações: os efeitos de fumado N,N-DMT são dramaticamente aumentado se usados por indivíduos usando MAOIs. MAOIs são enzimas comumente encontradas nos anti-depressivos Nardil (phenelzine), Parnate (tranylcypromine), Marplan (isocarboxazid), Eldepryl (l-deprenyl), e Aurorex ou Manerix (moclobemide). Indivíduos com casos de esquizofrenia em sua história familiar, com tendências à psicose depressiva ou ainda em estado emocional fragilizado devem ter cuidado com psicolédicos pois eles podem ser um ‘gatilho’ para a manifestação desses desequilíbrios. NOME: N,N-Dimethyltryptamine NOME QUÍMICO: N,N-Dimethyl-1H-indole-3-ethanamine

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N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2) é um psicoactivo da família tryptamine, causa intenso visuais e forte estado mental psicodélico quando fumado, injetado, bufado, ou (quando levado com um MAOI tais como harmaline) quando engolido oralmente. N,N-DMT é muito chamou freqüentemente só "DMT", embora este nome cause confusão algumas vezes com seu primo químico 5-MeO-DMT. Ele está presente em milhares de espécie de plantas e foi usado tradicionalmente em América do sul ambas em Ayahuasca e rapés.

OUTROS NOMES: 3-[2-(dimethylamino)ethyl]indole, DMT FÓRMULA QUÍMICA: C12H16N2 PESO MOLECULAR: 188.27 PONTO DE FUSÃO: 44.6-46.8°C (116°F) (crystals) PONTO DE EBULIÇÃO: 60-80°C (crystals) Fumar DMT é muito diferente que usar ayahuasca. Usar Jurema ou DMT sintética e um IMAO farmacêutico também não são o mesmo. Há significativas diferenças tanto químicas como na experiência subjetiva. Os inibidores também apresentam diferenças relevantes. A maior diferença entre P. harmala e B. caapi reside nos níveis de harmalina e tetrahidroharmina. Na P. harmala os níveis de harmalina são mais altos (o que explica sua maior efetividade IMAO) e os níveis de tetrahidroharmina são muito menores ou estão ausentes. O uso de DMT em rapés dos índios da América do Norte e Central é documentado desde o início do Século VIII DC, mas suspeita-se que seu uso seja muito mais antigo. Os rapés Cohoba

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(da árvore Yopo) foram documentados em Columbia nos Séculos XVI até XIX. Em 1931, o primeiro DMT químico foi sintetizado por Richard Manske e chamado de "nigerine". É ilegal possuir ou vender DMT nos Estados Unidos e na maioria dos países desde 1971.

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Porém, o DMT ganhou notoriedade significante nos últimos 15 anos com Terence Mckenna. McKenna, foi o pioneiro no estudo sistemático das tradições de consumo de substâncias químicas. Autor de vários livros sobre diferentes substâncias psicoativas e religiosidade contemporânea (1993, 1995 e 1996) – estabelece uma associação estratégica entre duas hipóteses de outros autores, que se tornarão os cânones do movimento entheogênico[7]: 1. A hipótese de que foi através da ingestão de substâncias químicas psicoativas (principalmente o DMT) que os macacos se tornaram conscientes de si, dando início à evolução da espécie humana. Nesta hipótese, sugere-se que toda nossa experiência com o sagrado derivou originalmente do consumo de substâncias químicas. 2. A hipótese de Gaia (James Lovelock e Lynn Margulis) segundo a qual a biosfera da Terra é na verdade um organismo vivo. De forma que, mais do que dispositivos de poder para o controle social (as drogas), as substâncias psicoativas teriam como função primordial à religação dos homens com a consciência telúrica do planeta. Na mesma linha de raciocínio, Jeremy Narby, em seu livro A Serpente Cósmica, compara a dupla hélice do DNA às duas serpentes do símbolo do Caduceu e advoga a tese de que o DMT é a chave para o processo de evolução humana (o “programa lógico do mundo vegetal para rodar no cérebro humano”) do ponto de vista da biologia molecular. Tais abordagens vêem suscitando grandes debates no campo da neurociência e psicologia cognitiva. Debates esses, que queremos, neste projeto, revisar e aprofundar. Como já adiantamos no início, de todas as contribuições recentes sobre o tema, consideramos o mais relevante o de Benny Shanon, sobre a Ayahuasca como instrumento de investigação da mente (in LABATE, 2002; pág. 631), através dos parâmetros teóricos da psicologia cognitiva. Para ele, há questões fenomenológicas de primeira ordem (o que está sendo experimentado?) e de segundo ordem (Há uma ordem e um sentido no que está sendo experimentado?). Há também questões de dinâmica, de contexto e teóricas gerais a serem discutidas sobre o uso do Ayahuasca. Por exemplo, em relação às questões fenomenológicas de primeira ordem, Shanon distingue as questões de conteúdo das de domínio e de estrutura. Assim, felinos, pássaros e répteis são as imagens mais recorrentes nos transes, seguidos de perto pelos palácios, tronos e imagens arquitetônicas celestiais.

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A pesquisa destaca que as imagens são ‘universais da mente’ (semelhantes ao que Jung chamou de arquétipos[8]) pois surgem em indivíduos social e culturalmente diferentes. Esses conteúdos podem surgir de diferentes formas ou domínios e o encadeamento dessas formas com estes conteúdos forma estruturas narrativas paralelas aos rituais. E Shanon entrevê, através deste sistema cognitivo de conteúdos/domínios, os parâmetros estruturais da


consciência e destaca pelo menos quatro aspectos relevantes em relação ao efeito do Ayahuasca: a percepção do pensamento como uma cognição coletiva, a indistinção entre o interior e o exterior, e as experiências desindentificação pessoal e de tempo não-linear. Ou seja: quando tomam Ayahuasca as pessoas percebem que seus pensamentos não são individuais mas sim ‘recebidos em rede’ (a mente como um rádio); que não existe a distinção entre o sensorial e o sensível; podem se transformar em animais (jaguares e águias são freqüentes) ou em outras pessoas; e finalmente percebem o transcorrer do tempo de forma desigual, em que alguns segundos demoram séculos e horas se sucedem rapidamente e em que alguns momentos se experimentam a simultaneidade (ou a eternidade) temporal.

HIPÓTESE Acredito que no aprofundamento neurocientífico das teses de Shanon. Nossa principal hipótese de pesquisa é que o DMT poderá, dentro de um setting clínico não-religioso, funcionar com uma substancia vital ao desenvolvimento psicológico humano no século que se inicia. Acredito também que os países e regiões detentores das plantas ricas nesta substancia (como o nordeste em relação à Jurema e a Amazônia em relação à Ayahuasca) não podem ser privadas dos benefícios sociais e culturais decorrentes desta realidade.

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Quando baixamos arquivos no computador, pode-se perceber que alguns segundos demoram mais que outros, em função do peso do arquivo e da aceleração da conexão da internet. O que Shanon suspeita é que o mesmo acontece com o cérebro sob o efeito do Ayahuasca.

Assim sendo submeto este primeiro esboço de projeto de pesquisa à avaliação crítica dos interessados, na esperança de que, com novas contribuições, ele se consolide e vingue em seus objetivos estratégicos.

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Bibliografia ANDRADE, J. M – Jurema: da festa à guerra, de ontem e de hoje. João Pessoa, UFPB, 1992. BARBOSA, W. M. da S. A Jurema Ritual in Northern Brazil. From the Newsletter of the Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS) - Volume 8 Number 3 Autumn 1998 - pp. 27-29 <http://www.maps.org/news-letters/v08n3/08327yat.html> CASCUDO, L. da C. Meleagro; pesquisa do catimbó e notas da magia branca no Brasil. Natal: Agir/Fundação José Augusto, 1978.

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GRÜNEWALD, R. A. A Jurema e o "Regime de Índio" Atikum. Trabalho apresentado no 1o ERSUPP. Salvador, 1995. <http://users.lycaeum.org/~room208/jurema/Rodrigo/index.htm> LABATE, B.C. & ARAÚJO, W. S. (org.s); O Uso Ritual da Ayahuasca. Tradução de Claudia Rosa Riolfi e Valdir Heitor Barzotto. São Paulo: Fapesp/Mercado de Letras, 2002. MCKENNA, T. - Alucinações Reais' Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1993. Alimento dos Deuses Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995. Retorno à cultura arcaica Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1996. (com Ralph Abraham e Rupert Sheldrake) 'Caos, Criatividade e o retorno do Sagrado triálogos nas fronteiras do Ocidente' São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994. MOTA, C. N. Jurema and Ayauasca: Dreams to Live by. In: Ethnobiology: Implications and Aplications. Vol. 2. Belém, Museu Goeldi, 1990. MOTA, C. N. & BARROS, J. F. P. de. Jurema: Black-Indigenous Drama and Representations. In: Ethnobiology: Implications and Aplications. Vol. 2. Belém, Museu Goeldi, 1990. OTT, J. Pharmahuasca, anahuasca e jurema preta: farmacologia humana de DMT oral mais harmine, in MAPS: <http://www.maps.org/news-letters/v06n3/06332ott.html> SANGIRARDI Jr. Jurema. In: Os Índios e as Plantas Alucinógenas. Rio de Janeiro, Editorial Alhambra. 1983. --------------------------------------------------------------------------------

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[1] Jornalista, professor de comunicação da UFRN, doutorando em ciências sociais, currículo Lattes: http://genos.cnpq.br:12010/dwlattes/owa/prc_imp_cv_int?f_cod=K4792219T9


[2] V. http://dmt.lycaeum.org/ e http://www.erowid.org/chemicals/dmt/dmt.shtml [3] V. principalmente www.santodaime.org; www.ayahuasca.com e http://yage.net/ [4] Mimosa tenuiflora (Will.) Poiret (=M. hostilis Benth.) e outras espécies de Mimosáceas no Nordeste brasileiro, principalmente a Hostilis, chamada Jurema Preta. [5] A Jurema como nação: http://www.geocities.com/Athens/Atlantis/5418/

[7] Entheogênesis significa 'origem divina' (Theo = Deus, Gênesis = Origem). A palavra 'entheógenos', no entanto, surgiu em contraposição a denominação de 'alucinógenos' para designar a utilização de substâncias químicas com finalidades místicas, religiosas ou cognitivas. Segundo seus defensores a denominação de 'alucinógeno' para as substâncias químicas de efeito psíquico é preconceituosa, pois embute o sentido de entorpecimento. A enteogênesis seria, então, o uso não alienante das drogas. [8] Para Jung os arquétipos eram elementos estruturais do inconsciente coletivo e para psicologia cognitiva, os universais da mente são determinantes da vida psíoquica.

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[6] Também conhecido como Syrius Rue, essa planta é conhecida desde tempos pré-históricos do Mediterrâneo até Ásia central. Está associada à tradição dos tapetes voadores árabes e das bebidas sagradas da Antiguidade (o Soma do Rg Veda e do Haoma do Avesta da Pérsia).

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CHÁ HOASCA É INOFENSIVO A SAÚDE” Tópicos importantes de matéria jornalística do jornal Correio Brasiliense de 10 de julho de 1996. A afirmação, com base em conclusões preliminares de pesquisa ainda inédita – e publicada com exclusividade pelo Correio Brasiliense - , é entre outras de duas instituições respeitáveis: Escola Paulista de Medicina, da Universidade de São Paulo, e Universidade da Califórnia (EUA). Segundo elas, o chá Hoasca (também conhecido como Ayahuasca ou Daime) que se supunha substância entorpecente, é inofensivo a saúde. O chá, segundo a pesquisa, assinada por algumas das maiores autoridades mundiais em toxicologia, etnobotânica, psiquiatria e psicofarmacologia – entre outros, os cientistas norteamericanos Rick Strasman e Charles Grobb - é, do ponto de vista toxicológico, quase tão inócuo quanto a água e bem próximo ao suco de maracujá. ... ... Mesmo oficialmente liberado, o chá Hoasca, utilizado no Brasil por diversas instituições religiosas de origem amazônica... é tolerado com reservas pelas autoridades, visto por muitas como nociva, cuja proibição já foi diversas vezes proposta ao Confen. [a matéria é de quase dez anos atrás, hoje o confen já não existe e aquelas autoridades hoje modernizadas já reformaram opiniões] A pesquisa, porém, afirma coisas bem diferentes. Diz, por exemplo, que o chá “ não causa qualquer padrão de dependência, abuso, overdose ou abstinência”. Mais: “Não foi observado distúrbios posteriores ao uso do chá”. ...

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Os testes de DL – 50, que estabelecem a dose letal de uma substância – e são feitos com cobaias em laboratório, em geral camundongos – constataram que a DL 50 da Hoasca é 7,8 litros. A da água é de cerca de 10 litros, a do maracujá é de aproximadamente 8 litros e a do uísque é de apenas 1 litro.


Outro parâmetro para estabelecer o grau de toxidade de uma substância: ministra-la a cobaia em dose de 1 grama por quilo. Se até os cinco gramas não causar danos fisiopatológicos, a substância é considerada inócua. Com a Hoasca, essa marca foi ultrapassada: chegou a 5,8 gramas por quilo, sem efeitos danosos. Nos testes psiquiátricos, foram aplicados os recomendados pela ortodoxia científica, o CIDI (Composite International Diagnostic Interview), com os critérios do CID10 e DSM III-R, e o TPQ (Tridimensional Personality Questionaire).

Desfazendo afirmações correntes de que o chá enfraquece a memória, os testes neuropsicológicos constataram exatamente o contrário: que “os examinandos apresentaram desempenho significativamente melhor que os do grupo de controle quanto a capacidade de lembrar as palavras na quinta tentativa”. Foram melhores também em número de palavras lembradas, recordação tardia, recordação de palavras após interferência.... ...O comando da pesquisa coube ao cientista norte americano Charles Grobb, da divisão de psiquiatria da Criança e do Adolescente, da Universidade da Califórnia, coadjuvado por Dennis McKenna, diretor do Botanical Dimensions e um dos maiores pesquisadores mundiais da Hoasca, com diversas publicações, à frente da equipe de mais sete pesquisadores de instituições acadêmicas dos Estados Unidos.

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Constatou-se que os usuários de Hoasca comparativamente aos não usuários (grupo de controle) mostraram-se mais “reflexivos, resistentes, leais, estóicos, calmos, frugais, ordeiros, e persistentes”. E ainda mais “confiantes, otimistas, despreocupados, desinibidos, dispostos e energéticos”. Exibiram também, “alegria, hipertimia, determinação e confiança elevada em si mesmo”.

Entre os cientistas norte-americanos, um destaque: o psiquiatra da Universidade do Novo México Rick Strasmann, considerado o maior estudioso mundial em DMT (substância que comparece em um dos dois vegetais que formam o chá, a Chacrona). Strassmann é o único cientista do mundo com autorização expressa para pesquisar os efeitos da DMT em seres humanos, concedida pelo NIDA (National Investigation Drugs Abuse), órgão norte americano formulador da política de combate as drogas. Os alcalóides DMT (Dimethil-tripidamine) e harmalina, princípios ativos presentes no chá, são substâncias endógenas – isto é – produzidas pelo próprio corpo humano -, e não agridem o organismo. Pelo Brasil, participaram da pesquisa Cláudio Torres de Miranda, Cristiane Tacla e Eliseu Labigalini Junior do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina; Osvaldo Luis Saíde, do Departamento de Psiquiatria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, José Cabral do INPA; Alcidarta Galheda, da Universidade do Amazonas; Alba Brito e João Ernesto

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Carvalho, da Unicamp; e Guilherme Oberleander da Sociedade Brasileira de Psiquiatria Biológica. Pela Universidade de Kuopío, Finlândia, Jace Callaway (Departamento de Farmacologia e Toxicologia) e David Nichols (Departamento de Química Médica e Farmacologia). As conclusões da pesquisa, embora preliminares, são de grande significação, pois invertem numerosas teorias em circulação e confirmam o teor de duas resoluções do Confen, que garantem o uso legal do chá no Brasil.

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UNIVERSIDADE GAIA

Por 20 anos eu formei minha família, trabalhando como agente de viagens. Nos últimos anos conduzi Workshops no Brasil usando uma planta ancestral, “medicina” ou chá, a qual tem sido usada por tribos indígenas da Amazônia há milhares de anos. Esse chá é chamado Ayahuasca e contém uma poderosa substância psicoativa e visionária chamada DMT (Dimetiltriptamina). A DMT é encontrada em todas as coisas vivas, incluindo nós, humanos.

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Quando descobri a Ayahuasca, logo entendi que continuaria sendo um agente de viagens, mas agora mostrando às pessoas como fazer jornadas interdimensionais. Em nós, humanos, a DMT é produzida na glândula Pineal e pesquisas recentes indicam que a Pineal irá produzir DMT em grandes quantidades em pelo menos dois momentos das nossas vidas: no nascimento e na morte. Talvez ela prepare a chegada e a partida da alma. Pessoas que experimentam “situações de quase morte” – vendo luzes fortes, portais, ícones religiosos – relatam efeitos semelhantes aos das experiências com DMT. O processo visionário da Ayahuasca também traz o efeito de permitir que uma pessoal se resolva e se cure espiritual, psicológica, emocional e fisicamente. O chá é referido como


“enteogênico”, o que significa “contém Deus dentro”. Muito provavelmente parece (minha crença pessoal) que o cérebro humano é de alguma maneira atrofiado, e que o processo xamânico de re-introduzir DMT usando Ayahuasca tem o efeito de “ligar” a Pineal de uma maneira extraordinária. Outros estudos foram conduzidos e sugerem que os cérebros pós-Ayahuasca encontram-se literalmente “re-configurados” (novas sinapses). As moléculas de DMT são similares às moléculas da Serotonina e se encaixam nos mesmos receptores do cérebro. Isto é extraordinário porque, assim como a Serotonina, a DMT é uma chave específica que naturalmente se encaixa nesta “trava” do cérebro.

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Nota-se, nos diagramas abaixo, que as estruturas da DMT e da Serotonina são muito similares. Ambas se encaixam nos mesmos neuro-receptores do cérebro.

A Ayahuasca é um chá muito interessante e complicado feito a partir de duas espécies de plantas amazônicas: um arbusto chamado Psychotria Viridisfo (Chacrona) e um cipó chamado Banisteriopsis Caapi (Mariri). A Chacrona é uma planta fonte de uma quantidade relativamente grande de DMT, que é a principal fonte da experiência visionária. Todavia a DMT é inativa quando administrada oralmente porque é destruída no estômago pela enzima digestiva Monoamina Oxidase (MAO). O Mariri contém apenas alcalóides mediamente psico-ativos, especificamente Beta-carbolinas (Harmina, Harmalina e Tetrahidrahamina), os quais agem como inibidores de re-absorção da Serotonina pelo organismo, assim como têm propriedades pró-Dopamina. A Serotonina e a Dopamina são substâncias produzidas pelo organismo humano, similares a hormônios, e são poderosos neurotransmissores que criam estado de alerta, assim como colocam a pessoa num estado psicologicamente receptivo. Adicionalmente, esses alcalóides também agem

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como poderosos inibidores da enzima MAO. O interessante sobre a Ayahuasca é que, enquanto a DMT é inativa quando tomada oralmente e sozinha, os inibidores de MAO do chá permitem que a DMT permaneça intacta e ultrapasse as barreiras do sangue e do cérebro. Assim, você tem a DMT se encaixando aos receptores do cérebro, o que produz visões, enquanto as propriedades pró-Serotonina e pró-Dopamina do chá criam um estado de alerta e receptividade.

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Além disso, as propriedades de cura física da Ayahuasca são extraordinárias, para dizer pouco. A Ayahuasca tem sido investigada como um possível tratamento eficaz para o Mal de Parkinson, por exemplo. Já em 1928, uma substância natural chamada Banisterene foi usada com sucesso no tratamento do Mal de Parkinson. Banisterene é também um antigo e bem conhecido produto de plantas chamado Harmina. Harmina é o componente Beta-carbolina mais presente na Ayahuasca. Infelizmente o uso de Banisterene deixou de ser usado no tratamento do Mal de Parkinson, à medida que a indústria farmacêutica evoluía no estudo de drogas sintéticas que são patenteáveis, diminuindo o interesse por produtos naturais – que não o são. Mais interessante ainda é o fato de que muitas das drogas experimentais usadas atualmente para tratar o Mal de Parkinson, que podem ser encontradas na lista da Associação da Indústria Farmacêutica Britânica, contêm poderosos inibidores de MAO, assim com possuem propriedades pró-Dopamina. Jeremy Narby, no seu livro “A Serpente Cósmica”, comenta: “Aqui estão pessoas sem microscópios eletrônicos que escolheram, entre 80.000 espécies de plantas amazônicas, as folhas de um arbusto contendo um hormônio cerebral, as quais eles combinam com um cipó que contém substâncias que inativam uma enzima do trato digestivo, o que de outra forma bloquearia o efeito. E eles fazem isso para modificar seus estados de consciência. Isso ocorre como se eles soubessem sobre as propriedades moleculares das plantas e a arte de combinálas. E quando qualquer um os questiona sobre como eles tomaram conhecimento dessas coisas, eles dizem que esse conhecimento adveio diretamente das plantas”.

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Falando de forma geral, as lições são universalmente profundas. As propriedades de cura e expansão de consciência da planta-mestre levam-nos a uma magnífica experiência de quem nós somos. A Ayahuasca facilita a resolução do ser humano. Resolver a condição humana requer uma consciência grandemente expandida sobre duas questões fundamentais: Onde estamos? e Quem somos? Uma das lições da experiência com a Ayahuasca é uma percepção bastante expandida do quê nós crescemos chamando Realidade. O véu é levantado. Nós percebemos em 3-dimensões, com certeza. Mas nossa percepção se expande para além, para abranger uma realidade muito maior que “contém” a realidade 3-D. Essa realidade expandida, ou talvez realidade 10-D ou multi-D, não é restrita pela linha do tempo ou mesmo por causa-e-efeito.

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Ayahuasca é a Universidade de Gaia. A Natureza alcançando os humanos. A metáfora da “escola” na verdade não é uma metáfora de forma alguma. Tudo na Ayahuasca é sobre aprendizado. Durante uma cerimônia com a Ayahuasca, você começa num lugar e termina em outro. A próxima cerimônia traz você de volta ao lugar que você deixou. As aulas começam às 09:00h... o sino toca... e a “mãe-Aya” dá a lição do dia!

A percepção de 10-D não é algo que você fica verdadeiramente ciente apenas. Você fica também, de alguma forma, re-codificado com a memória dela. Muito tempo após a experiência com a Ayahuasca ter terminado, você se lembra do caminho de volta à extraordinária quietude desse lugar que você já habita. Você o habita como o seu Eu Superior. Eu mencionei a questão: “Quem Sou Eu?” Os seres humanos gastam seu seus melhores esforços para viver suas vidas, para superar inseguranças, para mascarar sua dor e para ganhar status e aceitação. Infelizmente o verdadeiro Eu de um indivíduo permanece quase que universalmente oculto. Nós definimos quem somos pelo status que temos, pelo quê fazemos e por quem estamos casados. A integração do eu (humano) com o Eu Superior (divino) é uma conseqüência natural de uma percepção expandida. A partir desta integração emerge o verdadeiro Eu. O “cérebro visionado”, agora totalmente funcional, elimina as questões baseadas no medo, que o ego constrói – as questões que são a praga da condição humana. A máscara do nosso falso-eu se torna irrelevante. Não é mais necessário impressionar os outros ou se envergonhar de quem somos. Nós nos tornamos resolvidos na nossa humanidade e na nossa divindade. E isto não é

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uma coisa para se pensar. É uma coisa para se saber. E esse saber é uma experiência atemporal para os nossos corações. O centro do coração se expande. Nós nos movemos em direção a uma nova experiência humana que é quase como os súbitos sentimentos do coração. Compaixão, intuição, percepção extra-sensorial, entrega, verdade, são todos resultados de trazer o coração intuitivo feminino como equilíbrio para o cérebro analítico masculino.

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Pesquisa recente sobre o próprio coração revela que ele contém um expressivo sistema neurológico que de fato age como um segundo cérebro. Esse “cérebro-coração” funciona coerentemente com o cérebro, à medida que o envia quantidades massivas de informação. O coração comunica com o cérebro através do sistema límbico contido no último. E a glândula Pineal (responsável pela produção da DMT) é adjacente ao sistema límbico. A realidade consensual é uma experiência masculina, lógica e cognitiva. Nós reagimos a eventos baseados nos dados armazenados na nossa memória, os quais usamos para tomar decisões. O cérebro sozinho não pode lidar com a multi-dimensão atemporal. A realidade multi-dimensional é uma experiência feminina e intuitiva, que não está restrita pela relação causa-efeito ou pela lógica. A reativação do cérebro atrofiado, a re-configuração de nossas mentes, mais uma vez, traz equilíbrio. Muitas pessoas acreditam (esperam) que a humanidade está às portas de um extraordinário salto. Esse salto, essa mudança, é realmente sobre o retorno da Energia de Deus à Terra. A cura está vindo para a humanidade a partir da natureza, a partir da Mãe-Terra, de Gaia. Tudo isso é sobre o retorno do feminino. O Espírito da Terra, ou Gaia, está literalmente trabalhando com os seres humanos para a conclusão desta era e o advento de uma nova. A Natureza está trabalhando para curar a si mesma. Terrance McKenna disse: “Uma coisa é quando você se torna interessado nas plantas (Ayahuasca) e outra coisa é quando as plantas se tornam interessadas em você.” De alguma forma, o mistério dessa mudança de era está contido no fato de que as plantas são sensitivas. Elas possuem uma consciência coletiva. Algumas plantas nos nutrem. Algumas são usadas para curar nossos corpos físicos. E outras plantas são remédios (medicina) para a alma. Elas nos ensinam o caminho de volta para o divino em nós. Elas infundem nossa consciência com a consciência da natureza.

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No seu livro “Universo Holográfico”, Michael Talbot escreve: “Nós estamos de fato numa jornada xamânica, meras crianças se esforçando para se tornar técnicas do sagrado. Nos estamos aprendendo como lidar com a plasticidade que é parte e parcela de um universo no


qual a mente e a realidade são um continuum e esta jornada é uma lição que está acima de todas as outras. Enquanto a sufocante e disforme liberdade do Além continuar nos assustando, continuaremos a sonhar um holograma para nós mesmos – um sonho que é confortavelmente sólido e bem definido.” O problema real com a humanidade é que nos esquecemos. Através das eras, nós concordamos em viver em uma prisão. Nós nos esquecemos quem somos, e nós nos esquecemos da eterna paisagem que habitamos. A Ayahuasca está aqui para mudar tudo isso.

Isolado durante uma semana em uma palafita mágica no coração do Peru, nosso repórter experimental sintoniza através da Ayahuasca uma misteriosa conexão entre a Amazônia e a Índia. Dez anos atrás, me embrenhei na alta floresta amazônica peruana, no Estado de San Martín, para conhecer a sede do Centro de Reabilitação de Toxicômanos e de Pesquisa de Medicina Tradicional, conhecido como Takiwasi. Na época, fui muito bem recebido pelo fundador, o médico e curandeiro francês Jacques Mabit. Tive a chance de ficar alguns dias. O trabalho efetuado no local mescla o saber milenar da cura com as plantas a modernas pesquisas científicas. Participei de algumas experiências e fiquei instigado a realizar o tratamento mais eficaz e profundo, chamado de “dieta”.

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ESTADO VEGETATIVO

A idéia é ficar de seis dias até meses em completo isolamento na floresta. Quem se habilita? O cidadão passa por uma supervisão com o xamã, que o orienta a tomar doses diárias de uma determinada planta de poder (mágica). O paciente isola-se em um “tambo”, espécie de cabana em que há um kit exíguo de objetos pessoais. Sabão, pasta de dentes, TV, computador, perfumes, edredom, doces e iguarias nem pensar. Isolado mesmo. Óbvio que tudo supervisionado pelo xamã e seus assistentes, que diariamente levam à cabana a comidinha sem sal nem açúcar de cada dia. Durante uma década o Takiwasi reverberou na minha claudicante memória. No início de 2007, o amigo e médico Ichiro Takahashi, no universo xamanista há anos, me contou de um centro próximo à cidade de Pucallpa onde o enigmático curandeiro Juan Flores desenvolve o trabalho da dieta enfiado dentro de um vulcão em pleno coração da floresta. Era o chamado da selva. Tracei um plano para afinal passar por essa experiência. Um verdadeiro rito de passagem, bem longe da cultura materialista e pasteurizada que domina nossas vidas como uma gosma pegajosa. Acertei as datas e me lancei em busca da pedra filosofal.

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Totens de fumaça

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Ichiro já conhecia o maestro Juan Flores de outras dietas. Quando entramos na sede de Mayantuyaku, descansamos nossos corpos embalando em redes instaladas na oca principal. Cenário indescritível, ambiente acolhedor: labaredas de vapor espalham-se por toda a cercania, onde a água borbulha a 100 graus – águas termais nas entranhas da selva, exuberantes totens de fumaça chacoalhavam as árvores de mais de 20 metros... estávamos literalmente dentro de um vulcão encantado na floresta amazônica. Os olhos tridimensionais de meu compadre Ichiro me guiavam, enquanto Juan Flores caminhava solenemente ao largo pelo rio. Vestindo os trajes da tradição indígena, o xamã Asháninka se aproximou e nos deu boas-vindas com reverência.

Suavemente, Juan Flores nos orientou sobre nossa dieta. Há centenas de plantas de poder que o xamã conhece. Nos trabalhos são utilizadas frutas, flores, raízes e cascas de árvores. Com seu olhar penetrante, ele nos destinou a dieta da sagrada árvore ayauma, mais conhecida como sala tree. Em quéchua, ayauma significa o Espírito Sem Cabeça. Em jejum pela manhã, tomaríamos uma dose da infusão da casca da árvore, depois outra dose na parte da tarde. Essa árvore cresce próxima a locais onde há água abundante. Do tamanho de um coco, a fruta também é conhecida como cannonball tree (bala de canhão), e seu nome científico é Couropita guianensis; alcança 20 metros de altura. Nativa na floresta amazônica, Malásia, Sri Lanka, Índia e Nepal, a tradição diz que tem o poder de cura e de feitiçaria. Mais tarde atentei a um detalhe muito especial sobre essa planta... acompanhe. Segundo o xamã, a ordem é permanecer em completa abstinência sexual de 15 a 30 dias depois da dieta, cuja função é limpar profundamente o organismo de substâncias nocivas e entorpecentes, além de estimular visões e dedicar espaço, sem tempo preestabelecido ou preocupações, para introspecção e retomada de contato direto com as forças da natureza. Nossa primeira tarefa em Mayantuyaku seria relaxar e preparar o corpo para a manhã seguinte.

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Logo cedo, o assistente do curandeiro nos ofereceu um copo do sumo da yawar panga, uma planta emética (que provoca vômitos) e catártica: a idéia é ativar os centros energéticos. Uma lenta tortura se operou nas minhas entranhas: enquanto ia colocando uma imensidão de


O tempo escorria lentamente. Percorria a beirada do rio onde imensas labaredas de vapor exalavam das águas termais. Os mosquitos, os pássaros e o vento uivando me lançavam em uma transmutação cinematográfica em que se misturavam Apocalipse Now e Predador. À medida que subíamos o rio, a água ficava mais fresca. Quarenta minutos depois, encontrei minha futura casa encaixada no morro onde deveria me encafuar por seis dias. Ali a água estava deliciosamente fria. Ichiro instalou-se na outra extremidade, em um tambo similar, a 100 metros de distância. Um pássaro emitiu um guincho fortíssimo, e de repente me senti observado por todos os lados. Sim, era um intruso ali. Minha morada era uma palafita aberta, sustentada sobre quatro paus, encimada por um telhado de palha seca, com um piso de cascas de árvores comprimidas. Tudo muito rústico: a única sofisticação era um colchão fino com lençol e um mosquiteiro amarelo. Isolamento

Entrei no útero do mosquiteiro por volta das seis da tarde. Me sentia em alerta geral. Levei uma pequena biblioteca, um caderno de anotações, canetas e lanternas. No primeiro dia permaneci madrugada adentro lendo e fazendo miríades de notas. Segui criteriosamente a dieta prescrita por Juan Flores. A força da beberagem da ayauma incandescia meu espírito e hiperventilava minha consciência... Medinhos e pensamentos turbulentos se dissipavam... Gradualmente ia me adaptando à natureza... Sentia insetos, mosquitos, aranhas e formigas devorando docemente meu corpo... Mas, com o corte abrupto do sal e do açúcar da comida diária, meu cheiro e suor adocicado diminuíram. Os primeiros finais de tarde foram um deus-nos-acuda: falanges de pernilongos grudavam em minhas roupas, cabelo e pescoço – todo o resto estava coberto por roupas e uma grossa camada de repelente. Dentro do útero amarelo, milhares de partículas entravam e saíam do mosquiteiro. O coaxar dos sapos dominava o final da tarde. Escutei um estranho rugido no anoitecer do terceiro dia. Fiquei miudinho, antenado com minhas lanternas.

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impurezas para fora e desbloqueando violentamente meu metabolismo, ectoplasmas borbulhavam pelo ambiente. Então, perdi por completo o controle do que aconteceu com meu aparelho e caí em absoluto abandono. Assumo hoje que não sabia com o que lidava... Depois de algumas horas, renasci pleno de energia, já preparado para me isolar na floresta.

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Era um contínuo aprendizado de meditação e observação. Nada era artificial, não havia TV, internet, cinema, restaurante, balada. Mas era difícil dormir na floresta. Tinha coceiras do couro capilar às cutículas dos dedos. Aproveitava para meditar... Senti-me conduzido para fora da placenta do mosquiteiro cor de laranja, onde tudo era verde, marrom, roxo... Admirava o brilho diáfano azulado-ouro das imensas borboletas, flutuava na meditação por todo o vale vulcânico, observava a ação dos madeireiros e da extração de petróleo... Eu era fora e dentro. Voava e penetrava em universos desconhecidos... Visitei o mundo subaquático onde o grande mestre Sumirana me recebeu com Yakumama (o espírito da serpente de água) e um farnel de especiarias. Muraya, o curandeiro, foi o anfitrião em minha descida ao sinistro mundo infraterreno. Voltei à terra sentindo o intenso odor dos sedimentos da floresta. Abri os olhos e súbito minha consciência notou o tagarelar incessante das reclamações da minha mente estimulada pela instabilidade do meu ego. Imerso no oceano verde, deixei fluir... o blabla-blá mental se dissolvia e um néctar se derramava pelas copas das árvores. Esse estado místico faz parte do dia-a-dia selvagem... vacilou, você pode cair num abismo, ser picado por uma cobra ou virar banquete de insetos... eu literalmente desencanei de voltar à cidade... Pratiquei yoga asthanga, pranayanas, caminhadas... quando vi, já estava no quinto dia de isolamento. Por todos os lados encontrava pistas para o meu florescimento que os espíritos tutelares e a sagrada natureza colocavam com sinais, sombras, cantos, movimentos e ruídos. As múltiplas formas da selva penetravam minha consciência, revelando uma lógica desconhecida. Confusas impressões da minha existência na Babilônia transformaram-se em adubo. Captava o sabor das plantas, o perfume das flores, o frescor e calor das águas. Era como se toda a vida da floresta circulasse pelas minhas tripas. Questionava-me. Qual a finalidade? Por que vim parar aqui? Reportagem? Experiência vital? As dúvidas pululavam por todos os poros enquanto eu vivia intensamente o cotidiano dos indígenas, suportando todas as condições contraditórias da vida urbana e seus comodismos ainda entranhados em mim. Para superar tédio, preguiça e outros males contemporâneos, observava que não era a alma que sofria de ócio, e sim a maldita mente entorpecida de egos carcomidos que haviam sido implantados dentro de mim pela sociedade. Arranquei as máscaras, viseiras, fantasias e identidades postiças que impregnavam minha essência. A maior dificuldade que tinha de superar na floresta não era o aborrecimento de me sentir mal, e sim de me sentir culpado por não fazer nada.

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Os habitantes da selva não se inquietam no ócio. A floresta nos faz entender que nada do que é vomitado pelos veículos de comunicação é indispensável, pois os totens culturais estão a milhares de quilômetros. A vidinha que gira em torno da moda, do último restaurante, de vernissages e salões de beleza não tem nenhum valor ali. A floresta ensina que expectativas de sucesso, imortalidade e grana são ilusões. Depois de seis dias em estado de planta, estava pronto para a grande experiência de tomar a ayahuasca.


De volta para a sede de Mayantuyaku, aguardei o dia inteiro em silêncio. O ritual seria realizado às nove da noite. As plantas são divididas em três categorias: purgativas (yawar panga, tabaco), curativas (mucura, unha-de-gato) e mestras (ayahuasca, ayahuma, toe, chiric sanango, wairacaspi lupuna, bobinzana etc.). A ayahuasca (Banisteriopsis caapi) é um cipó que os médicos vegetalistas definem como a planta mestra por excelência. Combinada com a chacrona (Psychotria viridis), compõe o supra-sumo que é a ayahuasca.

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Um drinque no paraíso

O xamã caminhava pela penumbra, aproximou-se e sentou-se ao meu lado. Sua silhueta emitia concentração e compaixão. Iniciou o ritual “soplando” seus objetos de poder e a ayahuasca. O ato de soplar é uma prática estranha: o curandeiro sorve tragadas fortes do tabaco (carpacho) da floresta e emite fumaçadas com seus ícaros (cantos sagrados) cerimoniais. O propósito da soplada é limpar o ambiente dos espíritos nefastos e fortalecer a concentração chamando ao trabalho os espíritos tutelares, consagrando a ayahuasca e invocando a proteção dos deuses e animais que ali transitam. Recebi o copo com a substância e percebi no breu que o líquido tem a cor e até a espuma de uma xícara de café. Ao primeiro gole, senti o gosto profundamente amargo do líquido, uma mistura de material vegetal fermentado. O tempo passava... Ichiro, Juan Flores e seus assistentes equilibravam a sessão cantando e tocando pequenos instrumentos... depois de uma hora, a planta começou a dialogar e ensinar. Alguns vomitavam... Fui ficando mais quieto, relaxado, completamente envolvido com a música, um canto penetrante cujo volume foi crescendo... Juan Flores balançava um

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feixe de galhos com folhas, criando vibrações de forças invisíveis. O rugido do vômito dos participantes combinado a lamentos, espasmos estomacais e gemidos ganhava uma bizarra qualidade musical... Para os recheados de toxinas ou doentes, o processo é desagradável, prolongado. A Planta prolonga o sofrimento de alguns, obrigando-os a tomar consciência da sua situação. Finalmente saí do processo de purgação e fui arrastado a mirações de sabedoria... Percebi os espíritos da floresta, viajei do mundo subatômico ao macrocosmo... Conectei o guardião da planta ayauma, o rei dos espíritos da selva, o eminente Sumiruna, e sob a forma de uma imensa anaconda ouvi seu silvo, limpando como um tsunami meu corpo e meu espírito... Juan Flores se aproximou me ofertando um copo de água fresca. Mais de sete horas de viagens fascinantes depois, a onda energética dissipava-se... Depois dessa fortíssima experiência, refleti que podemos escolher explorar essas dimensões estranhas ou esperar que a destruição da Terra torne irrelevante qualquer pesquisa: ou nos distanciamos ou buscamos a essência. Voltando a São Paulo, mergulhei em uma pesquisa profunda via internet e descobri que a poderosa ayauma (sala tree), além de árvore tradicional no universo xamânico amazônico, é planta sagrada no Nepal, terra de Sidharta Gautama, o Buda. Nos textos budistas, a árvore é mencionada por sua clarividência. Em um antigo livro de gravuras narrando a vida de Buda vi uma imagem do pequeno príncipe Sidharta com sua mãe, Mahamaya, caminhando sobre flores no jardim do palácio de Lumbini: precisamente as flores da ayauma. Amazônia, Índia... tudo está conectado. Ayahuasca visions

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No calor infernal da extremamente úmida Pucallpa as pistas dessa conexão já eram traçadas antes mesmo de eu me embrenhar na floresta. O Estado de Ucayali é colado ao Acre, bem perto de Xapuri, cidade onde minha adorável mãe nasceu. Volta às minhas origens e essência no DNA da floresta.


Durante os dois longos dias flanei pela cidade e, com Ichiro, aproveitei para fazer uma visita ao fascinante pintor Pablo Amaringo. Seus quadros são a quintessência das visões provocadas pela ayahuasca e suas experiências como xamã. O trabalho de Amaringo é conhecido mundialmente pelos connaisseurs da contracultura. Século passado, o etnobotânico e guru psicodélico Terence McKenna, seu irmão Denis e o antropólogo Luis Eduardo Luna divulgaram a obra de Amaringo.

Naqueles dias pré-isolamento, as pinturas se misturaram à minha ansiedade. Plantas mágicas, dieta, isolamento, criaturas da floresta e do mundo subaquático permeavam sonhos inexplicáveis cheios de insetos, dieta, feitiçaria, serpentes e animais obscuros, e encharcava os lençóis com um suor verde, esquisito. A conexão com as plantas da floresta é reveladora. Tira máscaras, deixa as águas menos turvas, traz à realidade. Hoje todo mundo quer participar de algum curso acelerado de esoterismo, yoga, magia e filosofia, esperando que o guru forneça atalhos para o graal da sabedoria. A pasteurizada civilização moderna nos obriga a virar uma engrenagem minúscula desse grande corpo materialista, senão o castelinho de areia desmorona. Na maioria das vezes as enfermidades só aparecem para a gente reconhecer que nossa vitalidade não é o que aparenta. Com as plantas, aprendemos: o ideal é sentir-se bem em qualquer lugar...

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A casa do mestre Amaringo fica ao lado da escola de pintura Usko Ayar, onde Pablo ministra aulas para crianças e adultos. Conversamos horas sobre o universo vegetalista e ganhei o estonteante livro Ayahuasca Visions, em que Amaringo e Luna esclarecem os mistérios das pinturas visionárias.

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A HORA DO CHÁ A ayahuasca conquista adeptos de outras religiões e vive seu momento de maior expansão e reconhecimento. Mas a bebida sagrada segue polêmica, no Brasil como e em outros países

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Revista Galileu - Pablo Nogueira O que têm em comum o ofício de baiana do acarajé, o frevo pernambucano e a festa do Círio de Nazaré? Os três são "patrimônio cultural imaterial brasileiro", título criado pelo governo em 2000 com o objetivo de auxiliar na preservação de tradições populares. Apenas 12 manifestações culturais receberam esse status, sendo que Bumba Meu Boi e o queijo Minas aguardam na fila. Em maio surgiu um novo candidato: o uso religioso do chá ayahuasca, mais conhecido como Daime. O pedido foi feito durante uma visita oficial do Comunhão de bens: noite de ritual do ministro da Cultura ao Acre, e tinha como portagrupo Beija-Flor de Lótus, que vozes políticos, religiosos e o governador do combina elementos do Daime e do estado, Binho Marques (PT-AC). A reação de Hinduísmo Gilberto Gil foi positiva: "espero que possamos celebrar, em breve, o registro do ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira". A imprensa nacional rapidamente repercutiu as palavras do ministro. Alguns veículos apenas registraram a iniciativa, mas outros questionaram a idéia, na linha "bebida alucinógena pode virar símbolo nacional", incitando comentários pró e contra internet afora. Tudo somado, o episódio mostra duas coisas: 1) Após quase oito décadas de existência, as religiões ayahuasqueiras vivem seu melhor momento. Assimiladas por outras fés e reconhecidas pelas autoridades, vêem seu número de adeptos subir 10% ao ano; 2) Todo esse ciclo de expansão é ignorado pela maior parte da sociedade brasileira, que continua desconfiando do uso de uma substância psicoativa de forma religiosa.

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A mais conhecida das três religiões do chá é o Santo Daime. A menos conhecida é a Barquinha, que praticamente não se expandiu para fora do Acre, onde surgiu. A que tem mais fiéis é a União do Vegetal (UDV). De estrutura centralizada e hierárquica, foi criada em 1961, em Rondônia, pelo baiano José Gabriel da Costa (1922-1971), chamado Mestre Gabriel. Sua doutrina é cristã e reencarnacionista, e eles chamam o chá de "hoasca" ou de "vegetal".

Discurso: "o uso religioso da ayahuasca tem apelo mundial, que é a preservação da floresta", diz a deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC). Abaixo ela posa em um pé de mariri (ou jagube), uma das plantas que compõem o chá

A UDV manteve um ritmo lento de crescimento durante boa parte de sua história e em 1998 contava com pouco mais de 6 mil adeptos. Uma década depois, esse total está próximo dos 15 mil, sendo que alguns participam de "núcleos" e "distribuições" (como chamam seus templos) sediados na Europa e nos Estados Unidos. O antropólogo Sérgio Brissac, que pesquisou a UDV em sua dissertação de mestrado no Museu Legitimidade: palestrantes dos EUA e Nacional, diz que o crescimento da religião está do Canadá fazem videoconferência no ligado ao próprio "espírito do tempo" que II Congresso Internacional de Hoasca, vivemos. "Frente ao relativismo contemporâneo, realizado em Brasília para divulgar as a dinâmica do ritual e a doutrina da UDV religiões do chá apresentam a alternativa de um conjunto sólido de verdades. Além disso, há uma busca por uma experiência intensa do sagrado, e a vivência com a ayahuasca, unida ao ritual e aos ensinamentos, oferece essa oportunidade", diz. Ele não aponta um perfil definido de

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Para tentar reverter esse quadro realizou-se em maio, em Brasília, o II Congresso Internacional da Hoasca. O encontro foi organizado pela União do Vegetal, que junto com o Santo Daime e a Barquinha, é uma das três religiões ayahuasqueiras brasileiras. Também participaram membros das outras duas correntes, e o congresso tornou-se uma defesa da religiosidade baseada no chá. "Essa é a religião da floresta", disse no evento a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC). "Queremos que o mundo reconheça nossa religiosidade, porque o Brasil não conhece a Amazônia." De formação católica, foi ela que iniciou a articulação do pedido de reconhecimento entregue a Gil, embora jamais tenha experimentado a bebida.

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freqüentador, mas nas grandes cidades predominam pessoas de classe média e formação universitária. Expansão e exposição

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A UDV tem capitaneado boa parte dos esforços para que o uso religioso do chá seja visto como algo legítimo também fora do Brasil. O caso mais controverso ocorreu nos Estados Unidos. Entre 1999 e 2006 a UDV enfrentou uma longa batalha jurídica a fim de preservar o direito de consumir o ayahuasca, que estava sendo contestado pelo governo americano. Durante esse período, os membros mantiveram suas práticas rituais (veja quadro "Uma sessão da união"), mas bebendo água em vez de chá. Em janeiro de 2006 a Suprema Corte anunciou um veredicto favorável ao grupo, e o ayahuasca voltou a ser consumido. À frente da batalha pela legalização estava Jeffrey Brofman, representante da UDV nos Estados Unidos. Ele recusou entrevistas a veículos como New York Times e CBS na época do veredicto e falou a Galileu sobre sua participação no Congresso em Brasília. De origem judaica, conheceu grupos indígenas que fazem o uso religioso de psicoativos antes de chegar à UDV, em 1990. Hoje ele comanda 180 adeptos nos EUA.

Conservação: o chá é guardado em geladeiras, geralmente em garrafas PET, e servido à temperatura ambiente. Costuma ser servido em copos de vidro, e alguns ritos envolvem mais de uma dose

A penetração do Santo Daime no exterior é bem maior. Estados Unidos (incluíndo Havaí), Canadá, Espanha, França, Itália, Suíça, Irlanda, Alemanha Inglaterra, Holanda e Japão têm grupos ativos. Como explica o antropólogo Alberto Groisman, da UFSC, o processo se iniciou com a visita de estrangeiros à região amazônica, nos anos 1970, e continuou na década seguinte, quando os daimistas brasileiros passaram a ser convidados a viajar para realizar rituais e ensinar os fundamentos da religião. Desse intercâmbio foram se formando grupos estáveis que se reúnem para praticar rituais como o bailado (ver quadro "Um bailado no Santo Daime") e cantar hinos religiosos que versam, entre outras coisas, sobre a espiritualidade da floresta amazônica. Sabe-se que eles atuam em diferentes condições legais, dependendo do país. Na Inglaterra os trabalhos são realizados secretamente, a fim de não chamar a atenção das autoridades. Na Espanha, dois daimistas brasileiros foram presos em 2000, acusados de tráfico de drogas, mas hoje a religião está inscrita no cadastro nacional de entidades religiosas.

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Nos EUA, os daimistas pleiteiam os mesmos direitos já outorgados à UDV. Na França, após uma vitória judicial inicial em 2005, o governo incluiu os princípios ativos do chá na lista de estupefacientes, tornando ilegal seu uso religioso ou não. "Cada país reagiu à chegada do


Daime conforme o estabelecido por suas normas nacionais de controle de drogas, aplicada conforme a demanda que aparecia", explica Groisman. Um bom exemplo desta mudança de atitude foi o caso da Holanda. Em 1999, dois daimistas foram presos devido ao uso religioso da ayahuasca. Dois anos depois, após um processo judicial que envolveu a consulta a médicos, psicólogos, teólogos e antropólogos, os rituais do Daime foram liberados. Groiman viveu algum tempo na Holanda acompanhando as igrejas daimistas do país. "O que mais me impressionou foi a dedicação dos holandeses em seguirem as formas e conteúdos tradicionais do Santo Daime. Eles cantavam os hinos em português, muitos estavam aprendendo a língua ." Chá em transe

Aqui no Brasil algo semelhante aconteceu a partir da popularização do uso religioso da ayahuasca nas grandes cidades do Sudeste. É cada vez maior o número de grupos religiosos que se baseiam no uso do chá mas incorporam elementos diferentes daqueles propostos pelos fundadores das três religiões. "Em 2000, pesquisando para o mestrado, encontrei 30 grupos em São Paulo; hoje deve haver pelo menos o dobro", diz a antropóloga.

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Mas em certas "igrejas" (como são chamados os templos do Daime) a mistura já é norma. "Acho que o Daime caminha para se tornar cada vez mais eclético", diz a antropóloga Beatriz Labate, autora de quatro livros sobre o uso religioso da ayahuasca e de outras substâncias psicoativas ". No exterior há igrejas que adotam influência hare krishna e de terapias alternativas. Em Assis, na Itália, há uma influência forte da mitologia local, ligada a São Francisco."

Gringo no chá: Jeffrey Brofman, desde 1992 representante da União do Vegeral nos Estados Unidos, diz que lá o chá reúne "médicos, psicólogos, advogados, gente de diferentes perfis profissionais, sociais e étnicos"

Talvez o exemplo mais conhecido dessa nova geração de usuários religiosos seja o umbandaime, tendência que, como o próprio nome sugere, busca uma aproximação com a religiosidade afro-brasileira. O terapeuta Antônio Marques Alves Júnior defendeu em 2007 um mestrado na PUC-SP sobre a aproximação entre Daime e umbanda. Alves ressalta que, embora o fundador do Daime, o maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971), chamado Mestre Irineu, fosse negro, a religião que ele criou não dava importância ao chamado transe mediúnico, comum nas religiões afro. "Talvez ele tenha deixado a mediunidade de lado intencionalmente, para escapar da perseguição religiosa que a própria umbanda sofria no inicio do século 20", especula.

Irineu morreu sem apontar um sucessor. Após sua morte, um de seus discípulos, Sebastião Mota Melo, chamado por daimistas de Padrinho Sebastião, passou a liderar uma comunidade

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batizada de Colônia dos Cinco Mil, perto de Rio Branco. Entre 1974 e 1980 esse grupo se tornou um pólo de difusão do Daime para fora da Amazônia.

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Ao chegar ao Rio de janeiro, no início dos anos 1980, o Daime atraiu o interesse de praticantes de umbanda, inclusive mães-de-santo. A partir desse trânsito, surgiu no Rio uma variante da religião. Nela, além dos trabalhos "tradicionais" de Daime, havia espaço também para outros rituais, onde o consumo do chá se ligava a "receber entidades". O próprio Padrinho Tião, um ex-espírita, se interessou por essa vertente, e seu filho, Alfredo melo, construiu rituais que exploravam a conexão entre daime e umbanda.

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"Muitos adeptos criticam essa aproximação, dizendo que isso não é Daime", explica Alves, ele mesmo um "aproximador". Nos anos 1990, ele abriu uma igreja daimista chamada de Reino do Sol, que se tornou referência desse tipo de sincretismo em São Paulo. O hino oficial da instituição diz que "O Daime é o sol da minha vida/e a umbanda é sua filha querida", e lá realizam-se, além dos trabalhos "oficiais" do Daime, rituais chamados de giras, com até 200 participantes, dos quais as pessoas participam descalças e vestidas de branco, e nos quais o ayahuasca facilitaria o transe mediúnico. Às terças-feiras, o grupo de Alves realiza um ritual no qual, assim como acontece nos centros espíritas, alguns indivíduos entram em transe e recebem "entidades", que dão consultas grátis à população como exercício de caridade. Antes de entrar em transe os médiuns podem beber pequena quantidade de ayahuasca. E durante as duas horas que dura o trabalho, um grupo de músicos canta suavemente hinos que misturam os imaginários da umbanda e do Daime. Ao final, todos os participantes formam uma roda e bailam e cantam hinos de inspiração daimista, terminando o ritual com a oração de São Francisco. "Acho que essa nossa síntese é um trabalho inovador. Sou umbandista tanto quando sou daimista. Pertenço a toda religião que não se considera a única", diz Alves.


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UMA SESSÃO DA UNIÃO Conheça as etapas do ritual seguido pelos adeptos da União do Vegetal

• Os adeptos usam uniforme na maioria das sessões. O homem à esquerda (quadro no canto superior esq.) está vestido como um mestre, nome dado aos sacerdotes 1>>>A pessoa encarregada de conduzir o ritual é chamada de mestre dirigente. Às 20h, ele se põe em pé e anuncia o início da sessão. Todos ficam de pé. A partir de agora, só ele pode falar livremente: os outros devem pedir permissão a ele para falar 2>>>As pessoas formam uma fila no sentido anti-horário e param ao lado do arco para receber o chá. Cada um recebe o chá diretamente do mestre dirigente. Eles seguram o copo com a mão direita,voltam a seus lugares e permanecem de pé 3>>>O mestre dirigente fala algumas palavras rituais e todos bebem o chá. Os mais graduados hierarquicamente bebem primeiro. Depois, todos sentam-se em silencio 4>>>Enquanto se espera que os efeitos do chá comecem a se manifestar, escuta-se a leitura dos regulamentos internos da UDV

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5>>>Após a leitura, o mestre dirigente entoa alguns cânticos, que visam colocá-lo num estado de inspiração espiritual 6>>>O mestre percorre a mesa no sentido anti-horário perguntando à alguns se elas estão sentindo os efeitos espirituais do chá, chamados de "força" e "luz" 7>>>A partir daí, os presentes fazem perguntas sobre a doutrina, que são respondidas pelo mestre dirigente. Quem quiser, pode beber uma segunda dose do chá às 22h. O rito se encerra às 00h15

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Passagem para a Índia Outro exemplo representativo de novo grupo é o Beija Flor de Lótus, que tem sua sede nos arredores de São Paulo. Ele é dirigido pelo músico e terapeuta Chandra Lacombe. Lá os rituais combinam alguns elementos do Santo Daime, como orações cristãs, uso da ayahuasca e o canto de hinos, com outros originários da espiritualidade indiana, tais como mantras, posturas meditativas e música hindu. Um dos hinos que o músico compôs diz assim: "É o sol e a Lua/ É Jagube e Rainha/ É o shiva e a shakti/ A divina alquimia". "Jagube" e "Rainha" são os nomes que os daimistas dão às plantas a partir das quais se faz o chá, e Shiva e Shakti são divivindades da Índia.

Sincretismo: à esquerda, momento do passe em ritual de umbandaime, que como diz o nome, mistura umbanda e Santo Daime criado por Mestre Irineu, representado à direita

Chandra começou a desenvolver o que ele chama de "linha unificada" dez anos atrás. Até então, era apenas membro de um outro grupo independente, no qual também se buscava aproximar o hinduísmo do Daime -ou seja, ele já é a segunda geração desse tipo de sincretismo no Brasil. Atualmente sua comunidade reúne 60 membros regulares. "A maior parte são pessoas que estavam insatisfeitas com a doutrina do Daime. Queriam mais espaço para abordar sua individualidade." Já os que chegam ao grupo vindos das seitas hinduístas tradicionais encontram a experiência mística associada ao chá. "Se consumido num contexto ritualístico, ele é mais do que simplesmente um alterador de consciência. Acreditamos que o mesmo estado poderia ser alcançado pela meditação, mas a pessoa precisaria de muito esforço e disciplina para chegar aos níveis rapidamente atingidos com a bebida."

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Ao longo dos seus anos como líder de grupo, Chandra viajou por diversos países coordenando rituais, onde formou um grupo regular de adeptos. Alguns deles vêm ao Brasil para matar a saudade dos trabalhos no Beija Flor de Lótus. É o caso de John, pseudônimo usado por um terapeuta de um país escandinavo que prefere não se identificar, com medo de que o


governo de seu país descubra que o ayahuasca está circulando por lá. Ele diz adorar "o Santo Daime tradicional", e vê o trabalho de Chandra como uma parte legítima dele: "Se o Mestre Irineu está incluído, para mim também é Daime". Discussões doutrinárias à parte, ele ressalta a importância da experiência com o chá: "os momentos de êxtase são a parte fácil. Difícil é quando você se confronta com a sua sombra. É aí que o Daime é importante para mim, e pode ser para outras pessoas. Às vezes penso que essa bebida poderia curar o mundo."

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UM BAILADO NO SANTO DAIME Neste ritual, os participantes cantam e dançam e tem lugar marcado

1>>>Homens e mulheres entram por portas separadas e se posicionam obedecendo a alguns critérios. Num grupo ficam os homens casados e mais velhos. No outro, os jovens casados e visitantes, e na próxima ala os jovens solteiros. As mulheres serão

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distribuídas da mesma forma, de modo que haja um espelhamento: os casados de frente para as casadas etc. 2>>>O padrinho é quem conduz todo o trabalho da noite. Ele fica na primeira fila, na extremidade direita. É ele quem diz as palavras que iniciam o ritual, e também as que o concluem

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3>>>Depois de se anunciar o início do ritual, homens e mulheres formam duas filas para receber o chá. Durante o bailado, que pode durar mais de 12 horas, bebe-se normalmente uma dose a cada hora e meia ou duas horas 4>>>Os ritos de bailado acontecem em datas específicas do ano. Em cada um cantase um conjunto específico de músicas. Essas músicas são chamados hinos. Numa noite, pode-se cantar 200 hinos ou mais. Além de cantar, os fiéis também dançam, realizando simultaneamente o mesmo passo 5>>>Os hinos são cantados com o acompanhamento de instrumentos instrumentos como violões e acordeões. Os músicos sentam-se ao redor de uma mesa. Sua referência são as puxadoras, que dominam o hinário e vão "puxando" as canções. 6>>>Chama-se fiscal o adepto que tem a função de colaborar com o andamento do ritual. Eles monitoram as filas, impedindo que o movimento das pessoas abra claros nas fileiras. Também prestam assistência às pessoas que deixam o salão. • Em toda a igreja há uma cruz de caracala, símbolo da base cristão do Daime • Nos rituais de bailado usa-se uma roupa conhecida como farda branca. A coroa das mulheres evoca a Rainha da Floresta, a entidade que apareceu ao fundador do Daime. Nas mãos carregam um instrumento musical chamado maracá

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Ainda polêmico

Na estrutura da comissão foram indicados representantes da União do Vegetal, das diferentes linhas de Daime e dos independentes, e Gonzaga entrou como representante desses últimos. "Os grandes, como a UDV ou o Daime, possuem mecanismos fiscalizatórios para controlar a maneira como o chá é utilizado. Já essas organizações novas, oriundas das maiores, não tem". Ele acredita que a tendência é que o número de grupos se reduza. "Estamos vivendo um momento de boom, mas com o tempo muitos grupos desaparecerão. Ficarão os que realmente fazem uso ritualístico. Só continuará bebendo ayahuasca quem souber porque está fazendo isso", diz. O fato é que uma das conseqüências desse boom é, justamente, a idéia de que o uso religioso da ayahuasca possa ser considerado patrimônio cultural brasileiro. Para Beatriz Labate, o que se passa agora com as religiões que usam o chá pode ser comparado ao que já aconteceu, por exemplo, com a capoeira. "Durante boa parte do século 20 a capoeira era marginalizada. Aos poucos foi entrando nas academias, nas escolas e hoje é um ícone do Brasil." Ela diz que a percepção dessa religiosidade como um fator de identidade cultural é mais forte na Amazônia e particularmente no Acre, onde os comerciais de TV que estimulam a visitação ao estado exibem cenas de daimistas bailando. "Essas religiões foram perseguidas de várias formas por décadas. Se hoje o governador do Acre e o ministro da Cultura estão se manifestando favoravelmente a elas, é porque ocorreu a expansão desses grupos. Ninguém ia dar a menor bola se fosse apenas um fenômeno regional."

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Para todos: o altar da Beija-Flor de Segundo o psiquiatra Wilson Gonzaga, são Lótus é abençoado mestres hindus, justamente os pequenos grupos independentes mestre Irineu e Nossa Senhora que preocupam as autoridades que regulamentam o uso religioso do ayahuasca no país. Ele é membro do grupo de trabalho interdisciplinar do Conselho Nacional Antidrogas, criado em 2004 para estabelecer princípios éticos a serem seguidos por todas as entidades usuárias do chá.

"MUITO DENTRO DE MIM MESMA" A monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista, conta como foi sua experiência com o chá ayahuasca

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"Um membro da minha comunidade fazia parte um grupo religioso que tomava chá de ayahuasca e me convidou para uma reunião festiva de Natal, onde se podiam levar convidados de fora. Convidei duas alunas minhas e fomos as três. Era um sítio pertinho aqui de São Paulo, nós chegamos já era noite. Fomos recebidos por uma senhora quer era líder deste grupo. Sentia-se muito a presença dela, a força dela como liderança.

Coen-xistência: a monja budista aprovou a experiência com o chá sagrado

Havia muitas crianças, adolescentes, famílias, e isso me surpreendeu. Entramos numa sala muito grande, muito cheia de pessoas, e nos deram copinhos com um chá - um chá cor de chá mesmo. Primeiro passaram umas frutas, cada um pegou um pedacinho e depois todos juntos comungamos deste chá, bebemos juntos. Me lembra muito o que nós fazemos no budismo, como as nossas cerimônias de alimentação, de chá. Então isso foi muito bonito pra mim, né? Nos sentamos e havia muitas músicas que eram muito agradáveis, mas a minha preocupação era à líder do grupo. Como eu sou líder de uma comunidade, me interessava ver como ela liderava. Como era Natal era tudo relacionado a Jesus. Havia uma fotografia de um senhor [Mestre Gabriel] da Amazônia, alguma coisa assim, que seria o fundador desta ordem, um senhor de bigodinho assim. O nome dele era falado algumas vezes e agradecido, como nós fazemos na nossa linhagem para os nossos monges fundadores. Algumas pessoas vomitavam e eu já tinha ouvido falar sobre isso, eu tinha ficado um pouco preocupada. Uma das meninas que foi comigo começou a passar mal; até que conseguimos acalmá-la e colocá-la numa cama ali num cantinho e ela dormiu. Mas me deu muita impressão de que ela ficou incomodada com o que estava acontecendo por um profundo desconhecimento. Essa moça sempre passava o Natal comigo e eu falei 'então vamos juntas', não te largar sozinha na noite de Natal. E foi um erro, ela não estava preparada. A outra não, ficou sentadinha ali do meu lado.

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Uma hora eu me senti mal, tive um momento que eu falei 'nossa' e levantei. Eu sou muito metida, cheguei dizendo 'não eu não vou vomitar, imagina'. Mas não adianta: tá todo mundo vomitando do seu lado, é muito difícil, né? Eu vomitei um pouco, não foi muito não. E aí eu fiquei do lado de fora... e isto foi agradável. Me perguntaram se eu não tive visões. Na verdade não, não que eu me lembre. Senti uma sensação de vastidão e conexão com a natureza, de bem estar com ela e com


Passado isso eu voltei para a sala. A música continuava, já era mais no final da noite, estavam em um momento de perguntas. As pessoas pediam licença e diziam: 'mestra eu posso fazer uma pergunta'. Se ela dissesse sim, fazia, se ela dissesse não, não fazia. E aí ela vai respondendo. E esta parte para mim foi mais interessante, porque parece um pouquinho com o que nós fazemos no templo budista, quando o mestre que tem mais sabedoria pode conduzir os novatos na vida. Comentei com o pessoa lá que isso de passar ensinamentos pode ser feito em qualquer religião. O que eu notei, dentro da minha visão que é um pouco parcial porque eu só vi um dia, é que a mestra conduziu todo este ensinamento dentro da visão cristã. A palavra Jesus é usada inúmeras vezes. Era noite de Natal, eu não sei se é sempre assim. Na viagem de volta, a minha amiga que passou mal estava muito bravinha. Ficava no banco de trás dizendo 'nossa que absurdo, alguém podia morrer numa cerimônia dessas'. A outra não, estava meio assim sem saber. E pra mim foi uma coisa muito péno-chão. Até comentei com o meu superior, que se interessou e ficou de ir. Estava no meu universo, naquilo que eu conheço. Eu estava ligada, não desligada. Não sei se isto é assim pra todo mundo, mas me deu uma sensação de estar muito em mim mesma, e muito capaz de fazer coisas. Foi muito interessante."

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todos os seus elementos. Fiquei pensando: porque que nós fazemos isto numa sala fechada, por que isto não é feito ao ar livre? Porque o ar e a natureza iam te abrir os braços! Talvez porque fosse frio, né? Há aqueles que dizem isto não é bom, isto não presta, isto tira do estado normal de consciência. O que é o estado normal de consciência? O que seria nossa consciência verdadeira?

SOMA OU AYAHUASCA

Desde o período Paleolítico Superior (entre 75.000 a 15.000 anos a.C) que nossos ancestrais já utilizavam certas plantas para fins medicinais e como meio de acesso ao reino dos espíritos, através do feitio das chamadas Bebidas Sagradas. O impacto do seu uso na estruturação da psique e da cultura humana é muito maior do que se pode imaginar. Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. Seus compostos psico-ativos produzem um estado de expansão de consciência. Num contexto espiritual apropriado geram experiências de êxtase místico. Nesses estados de consciência é que os santos, os avatares e os profetas lançaram o

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alicerce para muitas das grandes religiões de massa dos nossos dias. Dizem que, periodicamente, a força espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma (uma bebida sagrada que possui efeito similar à Ayahuasca) no período pré-védico, através da Civilização do Vale do Indo ou Dravida (por volta de 7.000 a.C) da Índia antiga, onde o Xamanismo Ancestral já estava em evidência e que através do Soma, passou a fazer uso dessa Bebida Sagrada para conectar-se com o Grande Espírito. Da Índia, por volta de 4.500 a.C, quando o subcontinente indiano passou a sofrer diversas mudanças climáticas causadas em parte pelo movimento de placas tectônicas no decorrer de vários séculos, fazendo com que grande parte dessa civilização migrasse para outras regiões do planeta, levando todo o conhecimento deste povo, foi que a primeira bebida sacramental, o Soma, tomou novos rumos e disparou para o mundo, alimentando assim os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os yogues da Índia e do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Astecas até chegar aos povos e culturas remanescentes do Éden original. Situadas na selva sul-americana, foi lá onde o Grande Espírito parece ter semeado grande parte da sua farmacopéia enteógena. A intensidade da experiência mística desencadeada a partir destas bebidas, usadas desde milênios, tem sido relatada e estudada com cada vez maior frequência. O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser. Vista através desse tipo de experiência, a Natureza não é apenas um conjunto de solo, paisagens, flora e fauna e sim a forma visível da Mãe-Terra, o ser biológico espiritual planetário. A forma pela qual essa compreensão ficou mais preservada chama-se Xamanismo. Ele é, segundo a já clássica definição de Eliade, aquelas técnicas arcaicas do êxtase, a primeira forma sistematizada pelo homem para acessar o desconhecido mundo dos espíritos. É profundamente excitante que este mesmo Xamanismo esteja novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabelecer uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana.

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Em torno dessa indagação sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central e seu papel como fator estruturador da auto-consciência do homem e na criação do próprio pensamento religioso está se criando um campo de estudos comum entre o saber científico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das Plantas e Bebidas Sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, elas nos estarão transmitindo a mesma mensagem. E a nossa consciência é ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada.


Isso é válido tanto para as técnicas xamânicas tradicionais quanto para as religiões enteógenas, fenômeno recente, dos quais a Religião do Santo Daime no Brasil, da Iboga no Gabão e do Peyote nos EUA são os maiores expoentes. Todos esses cultos utilizam um sacramento enteógeno, uma planta psico-ativa que se transforma em um líquido sagrado que produz uma expansão de consciência e uma experiência de cunho eminentemente místico. Na Amazônia Ocidental Brasileira o Xamanismo religioso dos pajés sempre esteve associado ao uso das plantas enteógenas. Uma das mais importantes delas é sem dúvida a Ayahuasca, em torno da qual convergem muitas tradições dos índios e caboclos da região.

Foi nesse cenário, ao mesmo tempo mágico, que floresceu o culto do Santo Daime, um típico exemplo desta nova forma de fenômeno espiritual cada vez mais presente nos dias de hoje. Nas florestas da América do Sul, o Mestre Raimundo Irineu Serra cristianizou as tradições caboclas e xamânicas da Bebida Sagrada Ayahuasca, que em idioma Quéchua significa liana de los espíritos, conhecida desde o tempo dos Incas e rebatizou-a com o nome de "Daime", significando com isso o rogativo que deveria ser feito pelo fiel ao comungar com a bebida. Raimundo Irineu Serra foi um maranhense de cor negra e elevada estatura física e espiritual. Com sua humildade e determinação, granjeou o respeito de todos quanto o conheceram. Depois de entrar em contato com a bebida na fronteira com o Perú, foi para a cidade de Rio Branco, onde começou a trabalhar com um pequeno círculo de discípulos. Obteve uma revelação da própria Virgem Maria, que lhe apareceu sob a forma da Rainha da Floresta. A partir deste momento, estava nascendo o Terceiro Testamento, uma Nova Anunciação Visionária, através dos hinos que o Mestre Irineu foi recebendo e que re-interpretava a cosmologia cristã pela lente e pelas luzes da Ayahuasca.

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Quando os imigrantes nordestinos trouxeram para a Amazônia seus mitos e suas crenças religiosas, bastante influenciadas por um catolicismo de raízes populares, aqui encontraram os povos nativos dessas matas, conhecedores dos seus múltiplos mistérios e dos segredos das plantas ultilizadas nos seus rituais xamânicos.

Mais uma vez, longe dos saberes eruditos e dogmáticos, da pompa dos cortesões eclesiásticos, um ensinamento espiritual de grande profundidade foi tecido por humildes seringueiros, no contexto de um cristianismo popular, durante o boom da borracha no final do século passado. Neste cenário ímpar foi que o Mestre Irineu reuniu em seu cadinho alquímico esse mesmo cristianismo com tradições pré-colombianas, esoterismo europeu, crenças africanas e Xamanismo enteógeno. O resultado dessa mistura é um sistema que consegue aliar a extrema simplicidade de sua formulação a uma profundidade espiritual raras vezes lograda por outras correntes que se dedicam a batalha e a investigação do auto-conhecimento. As visões, que são chamadas também de mirações, mostram tudo que a nossa fé precisa acreditar. Considerando que no passado os cristãos eram glorificados por crer naquilo que não tinham visto, a revelação

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enteógena promove um avanço substancial. Mata a cobra e mostra o pau.

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A cristianização da Ayahuasca é o fecho de um longo processo de resgate cultural e espiritual. Quis o Grande Espírito, que escreve certo por linhas tortas, unir a fé dos conquistadores cristãos (protagonistas da empresa colonialista que, sob a benção da Igreja, submetiam povos inteiros a escravidão e ao genocídio), com o sacramento destes povos subjugados e oprimidos. Com o Mestre Irineu, o Vinho das Almas se converte no novo sangue do Cristo, o Consolador Prometido, o Paráclito Vegetal, o Logos-Cipó. Através dele assimilou-se a espiritualidade dos nativos pré-colombianos ao mesmo tempo que se resgatava o karma desta página sombria da expansão da cristandade no novo continente. Isso sem falar na restauração do papel da experiência visionária como o centro da revelação espiritual, descrucificando assim o Ser Crístico da cruz dos dogmas a que foi reduzido. Assim, nasce a Doutrina da Floresta, mais conhecida como Santo Daime, que prolifera no Brasil a utilização e divulgação da Bebida Sagrada, o Vinho da Alma, a Ayahuasca.

AYAHUASCA Ayahuasca é uma bebida psicoativa, de poder espiritual milagroso que cura doenças do corpo e da alma. Ela é feita pela cocção de duas espécies vegetais distintas e utilizada atualmente em cerimônias ou rituais religiosos e místico-espirituais.

68 Cipó Mariri e a Chacrona Inicialmente era usada pelos nativos em rituais de cura espirituais para chamar os espíritos


curadores das matas. Seu culto de adoração é milenar, já era usado pelos ancestrais Incas após Huayna Cápac e cultuado pelos nativos, logo depois pelos caboclos acreanos, bolivianos e peruanos, os povos da floresta amazônica.

CIPÓ MARIRI

CHACRONA COM SEMENTES

A bebida é feita das duas plantas postas em maceração ou cozinhadas, com diversos graus de apuro e concentração. As plantas são conhecidas por várias outras denominações por estar sendo usada desde tempos imemoriais numa área extensa e por diversas nações indígenas separadas por grandes distâncias, diferenças culturais e idiomáticas. São conhecidos pelo menos quarenta e dois nomes indígenas para esta poção usada por pelo menos setenta e duas tribos indígenas da bacia Amazônica.

FEITIO DA AYAHUASCA

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Uma das plantas é a liana, cientificamente denominada Banisteriopsis caapi, e a outra é um arbusto da família das rubiáceas denominada Psychotria viridis. Em Quéchua, língua nativa dos Incas, as plantas são conhecidas como Mariri (Jagube na floresta amazônica), o nome da liana, e Chacruna ou Chacrona, o nome do arbusto. Na mesma língua o nome da bebida é Ayahuasca, o vinho dos espíritos, das almas, dos mortos ou dos ancestrais.

AYAHUASCA PARA CONSUMO

O efeito desta Bebida Sagrada, quando ingerida, é como se fosse aceso um grande candelabro sobre a alma, iluminando-a, tornando possível ver a verdade material e espiritual, abrindo um portal de revelações interiores e mirações de um mundo encantado de cores de luz em uma outra dimensão. É a harmonia entre o homem e a natureza, a união do animal com o vegetal

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que transmite a ciência e a sabedoria do Grande Espírito. A antiguidade do uso da Ayahuasca se perde na pré-história. De uma utilização regional milenar, centrada na Amazônia Ocidental, seu uso tem modernamente se expandido em toda a América do Sul, primordialmente, graças à preservação do uso pelos indígenas e mestiços, apesar da incessante repressão cultural desde os primórdios da colonização Brasileira. Muito do que se pratica e conhece sobre Ayahuasca vem da observação e conhecimento empírico acumulado pelos indígenas.

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O uso dessas plantas pelos mestiços em geral acontece dentro do contexto da etnomedicina e segue os princípios gerais do uso tradicional dos nativos (uso xamânico) com modificações e acréscimos atinentes aos diversos sistemas de crenças religiosas importados junto com a colonização, principalmente: espiritismo, cristianismo, maçonaria e cultos africanos. O impulso inicial em direção a uma expansão mundial da utilização da Ayahuasca se deu graça ao interesse geral por assuntos etnológicos e à expansão dos grandes movimentos religiosos sincréticos do Brasil, organizados em torno da utilização da Ayahuasca como sacramento, sendo os maiores o "Santo Daime", o mais antigo, e a "União do Vegetal (UDV)", entre várias outras denominações. A Ayahuasca vem sendo utilizada há séculos por milhares de pessoas. Um tal período de ensaio excede em muito os padrões de estudos administrados para a aprovação de drogas e medicamentos. Na maioria das culturas amazônicas, até hoje, a Ayahuasca ocupa culturalmente um elevado conceito ao lado de outras Plantas Mestras (professoras ou Instrutoras) como o Peyote. Durante as últimas décadas, a literatura contemporânea, sócio-antropológica, farmacológica e popular debateu significativamente as diversas dimensões e uso da Ayahuasca, do ponto de vista cultural, químico, psicológico e espiritual. OS NOMES DA AYAHUASCA Os nomes usados pelas diversas tribos e nações indígenas ao longo do Perú amazônico, Equador, Colômbia, Bolívia, Brasil ocidental e em determinada região da Venezuela são:

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Yagé; bejuco bravo; bejuco de oro; caapi (Tupi, Brasil); mado, mado bidada e rami-wetsem (Culina); nucnu huasca e shimbaya huasca (Quéchua); ka-malampi (Piro); punga huasca; rambi e shuri (Sharanahua); ayahuasca amarillo; ayawasca; nishi e oni (Shipibo); ayahuasca; ayahuasca negro; ayahuasca blanco; ayahuasca trueno, cielo ayahuasca; népe; xono; datém; kamarampi; Pindé (Cayapa); natema (Jivaro); iona; mii; nixi; pae; ka-hee' (Makuna); mi-hi (Kubeo); kuma-basere; wai-bu-ku-kihoa-ma; wenan-duri-guda-hubea-ma; yaiya-suava-kahima; wai-buhua-guda-hebea-ma; myoki-buku-guda-hubea-ma (Barasana); ka-hee-riama; mene'-kají-ma; yaiya-suána-kahi-ma; kahí-vaibucuru-rijoma; kaju'uri-kahi-ma; mene'-kají-ma;


kahí-somoma' (Tucano); tsiputsueni, tsipu-wetseni; tsipu-makuni; rami-wetsem (Kulina); amarrón huasca, inde huasca (Ingano); oó-fa; yajé (Kofan); bi'-ã-yahé; sia-sewi-yahe; seseyahé; weki-yajé; yai-yajé; nea-yajé; horo-yajé; sise-yajé (Shushufindi Siona); shimbaya huasca (Ketchwa); shillinto (Perú); nepi (Colorado); wai-yajé; yajé-oco; beji-yajé; so'-om-wa-wai-yajé; kwi-ku-yajé; aso-yajé; wati-yajé; kido-yajé; weko-yajé; weki-yajé; usebo-yajé; yai-yajé; gatokama-yai-yajé; zi-simi-yajé; hamo-weko-yajé (Siona do Putomayo); shuri-fisopa; shurioshinipa; shuri-oshpa (Sharananahua). No Brasil os nomes mais usados são: Yagê, Ayahuasca, Daime, Vegetal, Hoasca e Oasca.

O Jagube (Banisteriopsis caapi): As Betacarbolinas (Harmina, Harmalina e Tetrahidroharmina) são extraídas do chá do Jagube (Banisteriopsis caapi). Isoladamente o chá do Jagube pode induzir efeitos psicoativos indiretos, mediados pela sua atividade inibidora sobre a Monamina Oxidase e conseqüente elevação dos níveis de serotonina no organismo. O surgimento de imagens tipicamente hipnagógicas e modificações do humor e das emoções são atribuídos à elevação dos níveis de serotonina no sistema nervoso central. Os efeitos purgativos e eméticos são mediados pelo efeito da serotonina no intestino. A Chacrona (Psicotria viridis): A substância N-Dimethyltryptamine (DMT) está presente nas folhas da Chacrona (Psicotria viridis). O chá das folhas, ou as folhas, não são psicoativas quando ingeridas isoladamente devido à rápida destruição destes alcalóides pela Monoamina Oxidase (MAO), uma enzima naturalmente presente no organismo humano. A estrutura da DMT, como a de outros compostos psicodélicos, é bem semelhante à da serotonina (5Hidroxitriptamina ou 5-HT),um importante neurotransmissor de modulação. A serotonina age naturalmente, desinibindo controles e processos reguladores no cérebro. Suponha-se que tanto o acréscimo dos níveis de serotonina (efeito do Mariri) como os da DMT afeta os neurônios serotonérgicos, promovendo uma hiperestimulação e modulação, que desencadeia um largo espectro de efeitos como liberação de emoções reprimidas, recordações de memórias esquecidas e geração de imagens.

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A FARMACOLOGIA DA AYAHUASCA

Sinergismo Químico Jagube/Chacrona: A DMT foi produzida em laboratório em 1931. Desde o início descobriu-se que a substância produzia efeitos intensos quando aplicada por via intramuscular em doses diminutas de alguns miligramas (na ordem de 0.7mg por kg de peso), mas que em contrapartida era inativa por via oral até mesmo em doses mil vezes superiores. Uma vez bem estabelecido a sua inatividade por via oral levantou-se a necessidade de se explicar como doses diminutas, de aproximadamente 29 mg de DMT, tipicamente ingerida numa Cerimônia de Ayahuasca, são capazes de produzir efeitos intensos. A enzima Monoamina Oxidase (MAO) é a chave do mistério. Esta enzima, fisiologicamente presente no sistema digestivo, tem como função destruir as diversas monoaminas naturalmente contidas nos alimentos no sentido de proteger as diversas funções cerebrais

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mediadas por neuroreceptores ativados por monoaminas endógenas. Sendo a DMT uma monoamina ela passa a ser imediatamente, tão logo ingerida, oxidada e decomposta pela enzima MAO ao nível do intestino. Mas, no caso da Ayahuasca, acontece que os demais alcalóides presentes na poção, as Betacarbolinas trazidas pelo Jagube, inibem momentâneo e reversívelmente a enzima intestinal MAO a ponto de evitar a degradação da acompanhante DMT na área digestiva, ficando assim disponível para absorção e penetração na corrente sanguínea e sistema nervoso central sem nenhum prejuízo ao organismo humano.

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INOCUIDADE DA AYAHUASCA Entre 1991 e 1993, a Universidade Federal de São Paulo (antiga Escola Paulista de Medicina), Universidade de Campinas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade do Amazonas, Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), Universidade da Califórnia, Universidade de Miami, Universidade do Novo México e Universidade de Kuopio (Finlândia), foram convidados por inciativa de uma das igrejas sincréticas Brasileiras, a UDV, para gerenciar uma pesquisa cientifica, intitulada "Farmacologia Humana da Hoasca, chá usado em contexto ritual no Brasil". A pesquisa foi articulada pela direção central do Centro de Estudos Médico-Científico da União do Vegetal, órgão interno da instituição, que reúne seus adeptos profissionais de áreas relevantes. Os resultados constatam que a bebida Ayahuasca é inofensiva à saúde. A pesquisa está publicada em importantes revistas científicas como: "Psychopharmacology", em texto assinado por J. C. Callaway (PhD), e "The Journal of Nervous and Mental Disease", em texto de Charles S. Grobb (PhD). Este estudo se deu em Manaus e envolveu nove centros universitários e instituições de pesquisa do Brasil, Estados Unidos e Finlândia, financiados pela fundação norte-americana Botanical Dimension. A pesquisa começou a ser planejada em 1991 e aconteceu em 1993. Consistiu em aplicar testes laboratoriais e questionários, dentro dos procedimentos científicos padrões, em usuários da Ayahuasca. Eram pessoas de faixas etárias variadas, dos meios urbano e rural, freqüentadores assíduos dos cultos. Os testes foram também executados em não usuários servindo de grupo de controle. A avaliação psiquiátrica conduzida pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Centro de Referência da Organização Mundial da Saúde, não encontrou entre os usuários pesquisados nenhum caso de dependência, abuso ou perda social pelo uso da Ayahuasca, aspectos presentes em usuários de drogas proscritas pela legislação.

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As conclusões comparativas são surpreendentes. A primeira delas, confirmando a afirmação de que a bebida é inócua do ponto de vista toxicológico: não se constatou "nenhuma diferença significante no sistema neurosensorial, circulatório, renal, respiratório, digestivo,


endócrino entre os grupos experimentadores e de controle".

Embora o protocolo de estudo não permitia separar os benéficos atinentes ao contexto religioso dos efeitos da bebida em si, esta pesquisa confirma a impressão geral, decorrente da sua utilização milenar, da inocuidade da Ayahuasca. De fato não se conhece caso de lesões e doenças provocadas pelo seu uso "in natura", sem adulterações ou misturas.

ASSOCIAÇÃO COM MEDICAMENTOS

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Nos testes psiquiátricos, foram aplicados os recomendados pela ortodoxia científica, o CIDI (Composite International Diagnostic Interview), com os critérios do CID 10 e DSM IIIR, e o TPQ (Tridimensional Personality Questionnaire). Constatou-se que os usuários da Ayahuasca, comparativamente aos não usuários (grupo de controle) mostraram-se mais "reflexivos, resistentes, leais, estóicos, calmos, frugais, ordeiros e persistentes". E ainda: mais "confiantes, otimistas, despreocupados, desinibidos, dispostos e enérgicos". Exibiram também "alegria, hipertimia, determinação e confiança elevada em si mesmo". Os examinandos apresentaram desempenho significativamente melhor que os do grupo de controle quanto à capacidade de lembrar as palavras na quinta tentativa. Foram melhores também em "número de palavras lembradas, recordação tardia e recordação de palavras após interferência".

Está claro que a utilização concomitante de drogas inibidoras da MAO, ou que, de alguma maneira interferem com o sistema serotonérgico não é recomendado e deve ser evitado, já que teoricamente pode levar à chamada "síndrome serotonérgica", um quadro clínico resultando de uma elevação patogênica dos níveis de Serotonina e potencialmente perigoso e suceptivel de levar a convulsões, hipertermia e perda da consciência. Por uma questão de prudência e absoluta prevenção destes problemas (que nunca foram registrados com o uso tradicional da Ayahuasca) pelo menos teoricamente possíveis, não recomendamos o uso da bebida para pessoas em tratamento com fármacos psicoativos em geral e principalmente antidepressivos até três semanas antes da Cerimônia para permitir a total recomposição do estoque de MAO endógena e o retorno do sistema nervoso à sua fisiologia natural. CONTRA-INDICAÇÃO Consideramos ser contra-indicado o uso da Ayahuasca para pessoas com personalidades esquizóides e pré-psicóticas, neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedade (síndrome do pânico).

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Desde a década de 1960, época da descobertas de alguns antidepressivos e dos agentes inibidores da monoamina oxidase sabe-se que a utilização concomitante dessas substâncias deve ser contra-indicada. Aconselhamos os interessados a buscar referências na literatura especializada. Assim consideramos como contra-indicado o uso da Ayahuasca para os usuários de drogas e medicamentos psicoativos listados a seguir, a não ser após três semanas de suspensão da medicação, como: 

# Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina como: Fluoxetina (Prozac e outros); Citalopram (Cipramil, Denyl); Paroxetina (Aropax, Cebrilin, Pondera); Sertralina (Novativ, Sercerin);

# Antidepressivos tricíclicos como: Imipramina (Tofranil); Desipramina (Norpramina); Clomipramina (Anafranil);

# Antidepressivos de efeito dual ou complexo como: Venlafaxina (Efexor);

# Substância de mecanismo de ação não muito bem estabelecido como: Lítio (Carboclim, Litiocar, Neurolithium);

# Inibidores da Monoamina Oxidase como: Tranilcipromina (Parnate, Stelapar); Fenelzina (Nardil).

Por conta dos seus efeitos hipertensivos, eliminamos também os candidatos em uso de psicoestimulantes como Ritalina. O bom senso indica que enquanto não se sabe ao certo os efeitos específicos de cada uma das substâncias citadas em relação às dosagens habituais de DMT e agentes inibidores da monoamina oxidase tipicamente contida na Ayahuasca, não se deve incentivar o uso da bebida em pessoas usuárias dessas medicações. Apenas por questão de prudência não recomendamos o uso da Ayahuasca, a não ser em condições especiais, para mulheres grávidas. RECOMENDAÇÕES DE USO DA AYAHUASCA Evitar tirosina: Embora o efeito da Ayahuasca sobre a MAO seja de inibição curta e reversível é interessante, pelo menos para quem sofre de hipertensão, não utilizar alimentos contendo níveis elevados de tirosina (precursor da dopamina, epinefrina e norepinefrina) convertida em tiramina pelas bactérias intestinais.

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A tiramina, na vigência de uma inibição da MAO como a induzida pelo Jagube, pode também chegar na circulação gerando elevação da pressão arterial. O uso de alguns estimulantes do grupo das anfetaminas assim como alguns broncodilatadores podem também reforçar uma


tendência para hipertensão. Assim sendo para pessoas portadores de hipertensão achamos por bem recomendar a limitação do uso das bebidas e alimentos ricos em tirosina por 24 horas antes da Cerimônia. Alimentos ricos em tirosina: vinhos tintos, cerveja e whisky, soja fermentada (misso), favas, queijos envelhecidos (não os de coalho e ricotas), peixes defumados, patê de produtos animais enlatados, molhos concentrados de carne, salsicharia, repolho fermentado (Sauerkraut) e aditivos protéicos vendidos em academia de ginástica.

Vários estudos demonstram que a concentração de serotonina no cérebro é diretamente proporcional à concentração de triptófano no plasma e sistema nervoso. A ingestão dietética de triptófano influencia diretamente a quantidade de serotonina no plasma, cérebro e todos os tecidos do corpo. O metabolismo do triptófano requer uma quantidade adequada de vitamina B6 e magnésio para funcionar corretamente. O triptófano é o aminoácido essencial menos abundante nos alimentos. Além das carnes e anchovas os queijos tipo suíços, gruyère e parmesão, os ovos e as nozes são ricos em triptófano. Não é necessário esse tipo de dieta de eficiência duvidosa no sentido de reforçar os efeitos da Ayahuasca, de fato não existem notícias de investigações elaboradas no sentido de conferir os efeitos de um complemento dietético de triptófano em pessoas refratarias ou pouco sensíveis aos efeitos da Ayahuasca.

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O triptófano: Algumas pessoas esperando reforçar os efeitos do chá pretendem elevar os seus níveis de serotonina (um dos neurotransmissores mais importante do sistema nervoso) ingerindo maior quantidade do aminoácido essencial, precursor dietético fundamental na síntese orgânica da serotonina ou seja, o triptófano.

O regime dos vegetalistas: Na prática dos vegetalistas e curandeiros utilizando a Ayahuasca como medicina para cura é comum a recomendação de regimes diversos principalmente sem carne (sendo excluída a carne de porco por muitos dias antes da experiência), gorduras, sal, açúcar, bebidas alcoólicas e abstinência sexual; o tabaco, considerado uma planta sagrada, é usado em diversos rituais. Alguns desses preceitos, com a eliminação do sal e do álcool se justificam do ponto de vista bioquímico, outras tem justificativas de natureza essencialmente espiritualistas. O valor relativo das dietas: No fim vale a pena salientar que milhares de adeptos, afiliados às grandes seitas sincréticas como as do Santo Daime e da UDV, não recebem dos dirigentes nenhuma orientação dietéticas, além de não fumar nem usar bebidas alcoólicas ou drogas, sem por isso deixar de obter os resultados desejados nas suas experiências nem tampouco apresentar reações atípicas. SOMA OU AMRITA

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Para o Xamanismo Ancestral o Soma, também conhecido como Amrita (o Elixir da Imortalidade) é a Bebida Sagrada que originou a Ayahuasca. O Soma também era uma bebida sacramental utilizada na Índia antiga, originada no céu, e passou a ser comparada mais tarde como a Ambrósia dos Gregos. Ela é mecionada nos Vedas, as escrituras sagradas da Índia, a qual relata uma série de contos envolvendo sua ingestão por alguns Deuses Hindus.

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O Soma védico era uma bebida ancestral que promovia a imortalidade àqueles que a tomavam. Seu feitio era realizado através da planta medicinal Asclepias acida ou Sarcostoma viminales colhida nas montanhas do Vale do Indo. Soma também é o nome do Deus da Lua, e assim como a Lua ele possuía, para nossos ancestrais Indianos, um simbolismo ambíguo, representada o bem e o mal, muito mais o mal do que o bem. Astrologicamente, Soma é o regente invisível da Lua, que representa também o símbolo da ilusão, da Deusa Maya. Soma é o Deus misterioso que desperta a natureza mística e oculta da humanidade. Para os xamãs ancestrais o uso sagrado do Soma fornecia visões místicas e revelações espirituais recebidas através de transes profundos. O Soma era utilizado nas iniciações xamânicas e bramínicas no período pré-védico e védico. Os iniciados no Soma sentiam seus corpos se fortalecerem, seus corações se encherem de coragem, suas mentes se encherem de lucidez e da certeza da sua imortalidade. Contos Hindus afirmam que o próprio Deus Indra adoecia às vezes por tê-la bebido. Os simples mortais poderiam até mesmo morrer se bebessem uma dosagem forte. O Soma danificava profundamente o organismo, mas para os iniciados ele gerava uma felicidade tão transcendente que este preço no fundo não era considerado exorbitante. Nas lendas Hindus, a Lua era o copo onde os deuses bebiam o Amrita, o Elixir da Imortalidade. Os eclipses aconteciam sempre que o monstro Rahu conseguia agarrar a Lua e beber essa bebida mágica. Mas como o Rahu não tinha ventre, a Lua podia escapar sempre e "seguir o seu caminho."

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O mesmo Elixir da Imortalidade recebia o nome de Amrita na Pérsia. Algumas vezes era chamado o leite da Deusa Mãe, algumas vezes bebida fermentada, algumas vezes como sangue sagrado. E sempre em associação com a Lua. O orvalho e chuva se tornava seiva vegetal, seiva se tornava o leite da vaca, e o leite então era convertido em sangue: Amrita, água, seiva, leite e sangue representavam estados diferentes de um mesmo elixir. O vaso ou cálice deste fluído imortal é a Lua. O Soma podia ser bebido também entre os Deuses Hindu, e o Deus que bebia chegava à posição de Indra, o Rei dos Deuses.


Entre os humanos, ele possibilitava o renascimento em forma de Deus, deixando assim sua forma física, pois o Soma fornecia o divino poder de inspiração e desenvolvia no ser humano a faculdade de clarividência. Para o Xamanismo Ancestral o Soma possibilitava a mesma conexão que a Ayahuasca promove. O efeito era similar, apenas com uma diferença, mantras eram entoadas para intensificar ainda mais seu efeito.

O Soma grego passou a ficar conhecido em toda a Europa, entre as tribos Teutônicas, os Germânicos e os Anglo-Saxões como a Bebida dos Deuses. Porém, para os Hindus a destilação da bebida era empregada da mesma forma como a da Ayahuasca, através das fases da Lua. Para os Gregos da época de Homero o Soma passou a ser extraído do néctar da Ambrósia. Infelizmente, nessa época, o Soma do admirável Velho Continente passou a não possuir mais os efeitos místico-espirituais promovidos pela Ayahuasca . Em pequenas doses proporcionava apenas uma sensação de felicidade. Doses mais altas geravam visões, e com três doses de Soma se caía, depois de alguns minutos, num sono relaxante. Isto sem qualquer desgaste sério para o organismo ou para a mente. Os habitantes do Velho Continente libertavam-se assim de seu mau humor, conflitos cotidianos ou criatividade reprimida pelo sistema.

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Por fim, o segredo do Soma védico chega à Grégia antiga, e assemelha-se a Ambrósia ou néctar, a bebida dos Deuses do Olimpo. E passa então a ser utilizado nas iniciações Eleusianas. E para os Gregos aquele que bebia o Soma chegava facilmente à posição de Brahma, o Deus Criador da Trindade Hindu.

O Soma grego passou a ser visto como um direito dos cidadãos. Aprendia-se sobre as dosagens nas sessões de hipnopedia, e para o Estado era uma garantia contra a desadaptação pessoal e a divulgação de idéias subversivas. O Soma passou então a ser o ópio do Velho Continente, possuindo uma visão completamente contrária do Soma védico. "A religião, segundo Karl Marx, é o ópio do povo. No admirável Velho Continente, a situação invertera-se. O Ópio, ou antes o Soma, era a religião do povo." O DEUS SHIVA BEBE O VENENO DO MUNDO É surpreendente a força da religião na Índia. Qualquer visitante pode verificar que lá, os Deuses estão vivos! Shiva, que significa "O Benéfico", é uma das várias formas divinas que reúne aspectos contraditórios. As numerosas e diferentes formas de Shiva representam a dialética da própria natureza. Suas manifestações são complexas e contraditórias: Shankara é o Pai do Xamanismo Ancestral, Mahakala é o Senhor do Tempo, Mrituñjaya é o Vencedor da Morte, Pashupati é o yogi que medita nas florestas, Senhor das Feras, Sarva é o Arqueiro, Mahadeva é o Grande Deus, o deus da vida e da morte, Nataraja é o Rei dos Dançarinos, Ardhanarishvara é o andrógino, que unifica e transcende as dualidades.

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Diferentemente da idéia da cultura judaico-cristã, Shiva é a síntese, a integração das forças da vida e da morte. Seus mitos são símbolos que expressam de maneira poética e alegórica a percepção que o povo Hindu teve e tem das verdades universais, bem como da reconciliação entre a poesia e a religião por um lado, e a ciência, pelo outro. Dentre essas inúmeras formas, destacam-se duas que são pólos opostos: Nilakantha e Mahakala. Por um lado, Shiva é o preservador da criação, sob a forma de Nilakantha, "Aquele da Garganta Azul". Nessa forma, Shiva absorve em si próprio o veneno do mundo (halahala, ou kalakata). Esse veneno é a antítese do néctar celestial da imortalidade, chamado Amrita.

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Para que a imortalidade exista, a morte também deve existir. Apenas Shiva, o grande yogi que está além das dualidaes, pode absorver o veneno da morte e salvar o mundo. Shiva é ao mesmo tempo, então, o Senhor da Vida e da Morte, do nascimento e da destruição. Por outro lado, Shiva é igualmente Mahakala, o devorador do tempo, que dissolve o universo (mahapralaya) no final dos ciclos cósmicos (mahakalpas). Nesta forma, ele revela um aspecto de grande profundidade filosófica: o tempo é rítmico. É por isso que Shiva é o senhor da dança, Nataraja. Ele dança o tandava, a dança da dissolução, marcando o ritmo com o damaru, um tambor em forma de ampulheta. O mito de Nilakantha, conhecido como O Bater do Oceano de Leite (samudra mantham) exemplifica o quanto o Deus Shiva integra em si próprio as forças de criação e dissolução, bem como todas as ambigüidades, dualidades e pares de opostos. A história é assim: muito, mas muito tempo atrás, deuses e demônios estavam engajados numa luta sem quartel pela supremacia e pela conquista da imortalidade. Nessa guerra, a arma definitiva seria o Amrita, o Elixir da Imortalidade, que jazia no fundo do Oceano das Águas Causais. No entanto, todo o poder dos deuses, inimaginável para nós, mortais, era insuficiente para extrair o Amrita das profundezas. Ainda mais, quando os demônios estavam concentrados na mesma tarefa, e boicotavam o esforço dos deuses.

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Brahma, o Deus Criador, conclamou então um encontro para resolver a questão. Acordou-se que deuses e demônios cooperariam entre si, ao invés de lutar. Vishnu assumiria a forma de Kurma, uma tartaruga gigante. O ciclo do deus Vishnu inclui dez encarnações, das quais a tartaruga é a segunda. Essas encarnações são chamadas Avatara, que significa "Aquele que Desce [para salvar o mundo]". Sobre as costas de Kurma, os demais deuses colocariam o monte Mandara, e ele desceria carregando essa montanha até o fundo do Oceano das Águas Causais (Samudra). O deus-


serpente Vasuki, enroscado ao redor da montanha, serviria como corda, puxada alternadamente por deuses e demônios, cada grupo ficando numa das beiras do Oceano. Desta maneira, Kurma, girando alucinadamente com os braços e as pernas abertos, trabalhou como uma espécie de liquidificador gigante, que espalhou as águas do Oceano em todas as direções, fazendo com que os tesouros submersos nele desde o início dos tempos, viessem à superfície. A tarefa estava dando muito certo, até a aparição do Veneno.

A aparição do veneno kalakata marca o fim da Primeira Era das quatro do presente ciclo cósmico. Essa Era Cósmica chama-se Satya Yuga em Sânskrito, que significa Era da Verdade, ou Era do Dharma. Shiva estava meditando no alto do Himalaya. Deuses e demônios foram lhe rogar para serem salvos daqueles vapores letais. Ele aquiesceu, e bebeu o veneno, ficando com a garganta colorida de azul. É por isso que ele é chamado Nikalantha, o da Garganta Azul. O nome Garganta Azul aponta para o fato de que não existe nenhum conflito entre o coração e a mente de Shiva. Mente e coração estão em sintonia, alinhados e, entre eles, só existe espaço vazio, representado pela cor azul. Nikalantha é aquele que vê todo o mundo em si mesmo, e a si próprio em todo o mundo.

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A maneira em que o Veneno Mortal surgiu é aberta a interpretações. Por um lado, algumas versões do mito de Nilakantha afirmam que ele jorrou das profundezas do mar quando deuses e demônios começaram a bater as águas. Por outro, algumas versões sustentam que ele foi segregado por um imenso peixe que morava nas profundezas do Oceano, e que foi incomodado por Kurma quando este começou a bater as águas.

O desapego de Shiva perante a vida e a morte é absolutamente aterrador. Ao beber o veneno kalakata, ele salva o Universo. Ao absorver em seu próprio organismo o veneno do mundo, ele redime a Humanidade. Desta maneira, deuses e demônios puderam retomar a tarefa de desenterrar não apenas o Elixir da Imortalidade, mas igualmente a Deusa Lakshmi, que surge das águas numa cena idéntica à do nascimento de Afrodite na mitologia grega, e que acaba casando com Vishnu, bem como alguns valiosos tesouros, dentre os quais destaca-se o kausthubha, uma jóia que o Deus carrega até hoje no peito. Uma vez resgatados esses tesouros, os deuses deram uma rasteira nos demônios para ficarem com o Elixir da Imortalidade, o Amrita. Akaiê Sramana

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Grão-Mestre e Fundador Acharya da Sagrada Tradição Xamanismo Ancestral Fundador da ALDEIA DE SHIVA - Centro Espiritualista Xamânico Ancestral Grão-Mestre e Codificador do R'XA - REIKI XAMÂNICO ANCESTRAL

BUDISMO E DMT

80 O artigo traduzido a seguir trata de experiências com DMT, que costuma ser apontada como a substância alucinógena mais poderosa que existe. Também aborda a relação de seus efeitos


com o budismo. Foi publicado originalmente na edição nº 6 de 1996 (págs. 81 a 88) da revista americana Tricycle, que trata exclusivamente de budismo. O original pode ser lido neste link. O autor é Rick Strassman (imagem), psiquiatra famoso pelo livro DMT: The Spirit Molecule (imagem), obra fascinante, cujos comentários vou reservar para outro texto.

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DMT é uma molécula relativamente comum no cérebro e no corpo humano (além de diversos animais e plantas). Seu efeito é ativado somente em circunstâncias especiais. Não há efeito porque algumas enzimas quebram a molécula antes de ela interagir com o cérebro. O DMT é parte fundamental da ayahuasca, bebida sacramental de efeito enteógeno. Além disso, há no chá componentes inibidores da enzima que anula o DMT. Assim, eles “ativam” e prolongam o efeito do DMT, além de conterem seus próprios efeitos.

O artigo a seguir foi um dos estopins para irritar a comunidade budista que Strassman pertencia já há décadas. Essa comunidade chegou a ordenar que o pesquisador interrompesse seu trabalho e que membros não freqüentassem sua casa. Somado a outros fatores, a pesquisa acabou mesmo suspensa. O médico defende um troca aberta entre as comunidades budista e “psicodélica”. Pessoalmente, acho impossível e inviável que qualquer comunidade budista “oficial” integre componentes químicos psicodélicos em suas práticas. Já o contrário (budismo beneficiando grupos que usam enteógenos) é tão possível que já acontece há um certo tempo no Brasil (principalmente, entre grupos huasqueiros independentes). Nos EUA, isso vem desde a era hippie (vide A Experiência Psicodélica). Acompanhamento para sessões: Dharma & Pesquisa sobre DMT Rick J. Strassman, M.D. Rick Strassman, M.D,. é professor associado clínico de psiquiatria da universidade de British Columbia. Ele está trabalhando em um livro (DMT, The Spirit Molecule) descrevendo sua

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pesquisa sobre uma droga psicodélica. Janeiro de 1991, 23 minutos após eu injetar uma dose elevada de DMT (N,Ndimetiltriptamina) na veia do braço de Elena. Elena é uma psicoterapeuta de 42 anos, com experiência pessoal extensiva com drogas psicodélicas. O DMT é um psicodélico poderoso, de curta duração, que existe naturalmente nos fluídos do corpo humano. Também é encontrado em muitas plantas. Ela já leu textos budistas, mas pratica meditação taoísta.

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Ela repousa em uma cama no quinto andar do Centro de Pesquisa Clínica do hospital da Universidade do Novo México. O tubo de plástico claro que dá acesso a sua veia está pendurado na cama. O prendedor de um aparelho de medir pressão está preso com alguma folga em seu braço. Os tubos estão ligados a traseira de um monitor que pisca. 30 segundos após a injeção, ela perde consciência da sala onde estamos. Além de mim, o marido de Elena, que acabou de passar por uma sessão parecida, e nossa enfermeira de pesquisa estão sentados quietos ao seu lado. Conheço por relatos de voluntários anteriores que os efeitos de pico de DMT intravenal ocorrem entre dois e três minutos após a injeção e que ela não conseguirá se comunicar por pelo menos 15 minutos, quando a maioria dos efeitos terão se dissolvido. Com os olhos fechados, ela começa a soltar gargalhadas, às vezes de maneira gritante, e seu rosto fica vermelho. “Bem, encontrei um buda vivo! Oh, Deus! Estou permanecendo aqui. Não quero perder isso. Quero manter meus olhos fechados para que isso se imprima [na minha mente]. Apenas porque é possível!” Elena se sentiu ótima na semana seguinte. “A vida está bem diferente. Um buda agora está sempre na esquina da minha consciência”, diz Elena. “Tudo em que tenho trabalhado espiritualmente nos últimos anos virou uma certeza. Ganchos de esquerda do mundo cotidiano continuam a vir e me acertar. Mas a solidez da experiência me ancora, permite que eu lide com tudo isso. O tempo parou no pico da experiência; agora o tempo do dia-a-dia diminui a marcha. O terceiro estágio, aquele de voltar do pico foi o mais importante. Se tivesse aberto meus olhos muito cedo, não teria podido me integrar tanto à experiência”. Dois anos depois, ela raramente consome psicodélicos. Sua mais importante lembrança da sessão de DMT foi a “claridez e pureza desse remédio”. A mais negativa: “A absoluta falta de caráter sagrado no contexto”. Muitas das mudanças em sua vida, particularmente uma profunda mudança de “pensar” para “sentir”, foi “apoiada” pela sessão de DMT. Mas já estava a caminho antes disso e continuou depois.

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A experiência de Elena, repetida por 10% a 20% dos voluntários em nossos testes, representam os resultados mais gratificantes e intrigantes de nosso trabalho no Novo México. Meu próprio interesse no budismo e nos psicodélicos se encontraram da melhor maneira na “experiência de iluminação” induzida por DMT. O nosso foi o primeiro projeto em 20 anos a obter financiamento do governo dos EUA para


um estudo com drogas psicodélicas em humanos. Essa pesquisa científica foi o resultado de 18 anos de treinamento e experiência médica e psiquiátrica. Também tenho praticado o Zen budismo por mais de 20 anos. E foi na molécula de DMT que esses dois interesses finalmente se fundiram.

Há outras razões para se estudar drogas psicodélicas. Embora menos “médicas”, elas se relacionam com saúde e bem-estar. A principal entre elas é a semelhança entre estados psicodélicos e religiosos. Fiquei impressionado com as descrições “psicodélicas” de práticas de meditação intensiva em algumas tradições budistas. Devido ao fato que essas escrituras não mencionam drogas e que os estados parecem similares aos obtidos com uso de drogas psicodélicas, suspeitei que pode haver um molécula psicodélica natural no cérebro, ativada por meditação profunda. Fui levado à glândula pineal como uma possível fonte de componentes psicodélicos produzidos sob certos estados mentais e físicos anormais. Essas condições incluiriam limiar da morte, nascimento, febre elevada, meditação prolongada, jejum e privação sensorial. Esse minúsculo órgão — o “assento da alma” ou “terceiro olho” para os antigos — deve produzir DMT ou substâncias similares com simples alterações químicas em um bem conhecido hormônio pineal, a melatonina, ou em um importante componente químico cerebral, a serotonina. Talvez seja o DMT, liberado pela pineal, que abre o olho da mente para realidades espirituais ou não-físicas.

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Há motivos importantes para se estudar drogas psicodélicas em humanos. O uso de LSD (”ácido”) e “cogumelos mágicos” (que contém psilocibina) continuam a se elevar. Entender o que (e como) os psicodélicos fazem com as funções cerebrais vai ajudar a tratar reações negativas de curta ou longa duração. Devido ao fato que há alguma similaridade entre efeitos de drogas psicodélicas e a esquizofrenia, a pesquisa pode também podem jogar nova luz sobre essa devastadora doença mental.

A glândula pineal também exercia uma fascinação em mim porque ela se torna visível pela primeira vez no feto humano 49 dias depois da concepção [geração do embrião]. Essa também é a ocasião quando o sexo do feto se torna claramente distinguível. 49 dias, segundo diversos textos budistas, é quanto tempo leva para a força vital de alguém que morreu entrar na próxima encarnação. Talvez a força vital de um humano entre no feto após 49 dias através da pineal. E ela deve deixar o corpo, na morte, pela pineal. Essa ida e vinda deve ser acompanhada pela liberação de DMT pela pineal, mediando a consciência desses fenômenos incríveis. Junto com o quebra-cabeça científico apresentado por essas similaridades entre estados místicos e psicodélicos, havia questões de cura que também me atraíram para ambos. O sentimento de que há “algo maior” que resulta de grandes episódios psicodélicos me levou a pensar que psicodélicos podem ajudar pessoas com problemas psicológicos, físicos e espirituais. Me pareceu crucial evitar a limitação que, com freqüência, estraga argumentos

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sobre a utilidade ou perigo das drogas, mantendo um ponto de vista mais amplo. Meu ponto de vista global que começou a emergir era como um tripé de pernas biológicas (cérebro), psicanalíticas (psicologia individual) e de religiosidade oriental (consciência e espiritualidade). As primeiras duas foram importantes em minha decisão de cursar medicina. A terceira me levou profundamente ao budismo.

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Desapontado pela falta de espiritualidade do treinamento médico, me ausentei por anos da faculdade e explorei o Zen em uma série de retiros. A ênfase do Zen na experiência direta, seu método equilibrado para lidar com todos os fenômenos que surgem na meditação, e a importância da iluminação, todos combinavam comigo e com meu ideal de tradição religiosa. Durante os quatro anos de minha especialização psiquiátrica, ajudei a fundar e manter um grupo de meditação afiliado com minha duradoura comunidade Zen. Fui ordenado budista leigo no meio dos anos 80. Foi no mesmo ano que recebi treinamento em psicofarmacologia clínica, aprendendo a ministrar drogas psicoativas em voluntários humanos em estudos científicos controlados. A forma de nossa pesquisa no Novo México foi a biomédica tradicional, monitorando efeitos de diversas doses de DMT na pressão sanguínea, temperatura, tamanho da pupila e níveis no sangue de diversos componentes químicos que indicam atividade cerebral. Recrutamos usuários experientes com alucinógenos que eram adequados médica e psicologicamente. Isso porque eles poderiam reportar melhor sobre suas experiências e teriam menos probabilidade de entrar em pânico ou sofrer efeitos colaterais duradouros, em relação a usuários inexperientes. Os voluntários acreditavam na habilidade de psicodélicos ajudarem no “trabalho interior” e se ofereceram, pelo menos em parte, para usar o DMT em seu crescimento pessoal. Havia um aspecto espiritual na experiência com DMT? E, se sim, isso seria útil por ele mesmo? Essa era uma das minhas razões principais para nosso programa de pesquisa com DMT. A supervisão de sessões é chamada de “sitting”. Acredita-se que o termo vem da necessidade de uma “baby-sitter” para pessoas em estados, por vezes, altamente dependentes e vulneráveis. Mas, em nossas mentes, a prática budista foi uma fonte tão relevante quanto, para o termo. Nossa enfermeira e eu fizemos o máximo para praticar meditação na companhia dos voluntários: conscientes da respiração, em estado alerta, olhos abertos, prontos para agir, mantendo uma atitude “brilhante” e saindo do caminho das experiências dos voluntários.

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Esse método é muito similar ao que Freud chamou de “atenção suspensa uniforme”, executada por um psicanalista treinado que fornece suporte através de uma postura, na maior parte, silenciosa mas presente. Experimentei esse tipo de “escuta” e contemplação como algo similar à meditação Zen.


Outro exemplo de como os psicodélicos e a meditação budista convergem foi o desenvolvimento de um novo questionário para medir estados de consciência. Os questionários anteriores para medir efeitos psicodélicos não eram ideais por muitos motivos. Alguns assumiam que psicodélicos causam nada mais que psicose, enfatizando experiências desagradáveis. Outras escalas foram desenvolvidas para voluntários que não sabiam quais drogas estavam consumindo ou quais efeitos surgiriam.

Divulguei que estava interessado em falar com pessoas que já experimentaram DMT. Logo, o telefone estava tocando com pessoas querendo descrever suas experiências. A maioria das 19 pessoas eram do Novo México e da Costa Leste, e quase todos estavam envolvidos em alguma disciplina terapêutica ou religiosa. Todos tinham boa educação, articulação e estavam impressionados com a habilidade do DMT de abrir a porta para estados altamente incomuns e não-materiais, maior do que psicodélicos de longa duração como psilocibina ou LSD. Após completar essas entrevistas, decidi adicionar um sexto skanda ao questionário, chamado “intensidade”, que ajudou a quantificar a natureza da experiência.

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Sempre apreciei a visão budista de dividir a mente em cinco skandas (pilhas ou agregados) que, no todo, dão a impressão de um ego pessoal que experimenta. Esses são os familiares conceitos de “forma”, “sentimento”, “percepção”, “consciência” e “volição”. Pesquisei em diversos guias para a literatura do Abhidharma, o “cânone psicológico” budista, com mais de mil anos de uso no monitoramento do progresso da meditação. Pareceu que uma escala de avaliação baseada nos skandas poderia dar uma base excelente para uma descrição neutra e compreensiva de estados psicodélicos.

Demos e analisamos esse novo questionário, chamado de Escala de Avaliação Alucinógena (Hallucinogenic Rating Scale – HRS), quase 400 vezes para mais de 50 pessoas em quatro anos. É interessante notar que o grupo de questões do método skanda trouxeram resultados mais sensíveis no trabalho com DMT do que um grande número de dados biológicos, como pressão sanguínea, temperatura e níveis químicos no sangue. Além de determinar esse estilo de “acompanhamento” (sitting) e de medir reações, o budismo ajudou a tirar sentido das experiências que as pessoas tiveram em nosso ambiente relativamente esparso mas pronto para qualquer coisa que pudesse acontecer. Para muitos voluntários, mesmo aqueles com uso anterior de DMT, a primeira dose elevada de DMT intravenal foi como uma experiência de quase morte, que costuma ser fortemente relacionada com experiências místicas benéficas. Muitos se convenceram que estavam mortos ou morrendo. Muitos tiveram encontros com deidades, espíritos, anjos, criaturas inimagináveis e a fonte de toda a existência. Praticamente todos perderam contato com seus corpos em algum ponto. O caso de Elena é um bom exemplo de uma experiência de iluminação — soando idêntico aos relatos da tradição de meditação budista — proporcionada por uma dose alta de DMT.

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Por um lado, a perspectiva budista pode tratar todas essas experiências com equanimidade. O fato de que, no budismo, se experimenta mesmo reinos não-materiais fornece uma base firme para aceitar e trabalhar com essas experiências. Ele também elimina o julgamento de que reinos não materiais são melhores (ou piores) que os materiais — uma tendência de algumas religiões New Age. A experiência de ver e falar com criaturas do tipo deva no transe de DMT é apenas isso: ver e falar com outros seres. Nem melhor, nem pior e nem mais ou menos confiável, do que qualquer um ou qualquer outra coisa.

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Por outro lado, como tratar o voluntário que teve uma iluminação induzida por drogas? Certificá-lo(a) como iluminado? Explicar através da farmacologia o impacto meteórico da experiência? Foi confuso. Primeiro, pareceu que uma dose alta de DMT era, de fato, transformadora. Com o passar do tempo, contudo, checando nossos voluntários por meses e anos, minha perspectiva de fato mudou. Enquanto alguns, como Elena, tiveram benefícios profundos de sua participação, um pequeno número de voluntários tiveram reações negativas e assustadoras, que exigiram algum cuidado depois. Em outros, efeitos adversos mais sutis também se revelaram (como pode acontecer na prática budista) na forma de orgulho elevado — ou seja, uma divisão do mundo entre os que tem e os que não tem “entendimento”. Além disso, a “resolução” de problemas durante o estado alterado — particularmente comum com uma dose psicodélica alta — cuja solução não era colocada em prática, me pareceu pior do que nem tentar trabalhar determinada questão. Conclui que não há nada inerente em psicodélicos que possua um efeito benéfico. Também não são farmacologicamente perigosos por eles mesmos. A natureza e os resultados da experiência são determinados por uma complexa combinação da farmacologia da droga, o estado do voluntário no momento do consumo e a relação entre o indivíduo e o ambiente físico e psicológico: droga, condição e ambiente. Os voluntários que se beneficiaram mais das sessões de DMT foram os que provavelmente se beneficiariam mais de qualquer “viagem” — com ou sem drogas. Os que se beneficiaram menos foram aqueles que mais se sentiam invadidos pelo desconhecido, pelo unusual. As sessões mais difíceis aconteceram pela combinação de dois fatores. O primeiro foi a indisposição do voluntário para desistir do diálogo interno e consciência do corpo. A segunda, a incerteza ou relações confusas entre os voluntários e as pessoas presentes na sala. Assim, os efeitos “religiosos”, “adversos” ou “banais” dependeram mais da pessoa ou do que ela ou aqueles na sala trouxeram para a sessão, do que qualquer característica inerente da droga.

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Assim, o problema de depender de uma ou diversas experiências psicodélicas transformadoras como prática é que não há uma estrutura que lide adequadamente com a vida cotidiana no intervalo entre as sessões. A introdução no ocidente de igrejas baseadas em plantas alucinógenas amazônicas, com seu conjunto de códigos morais e rituais, podem


fornecer um novo modelo combinando práticas religiosas e psicodélicas.

Essa preocupação estava especificamente direcionada a dois aspectos de nossa pesquisa. Um deles era uma futura psicoterapia com psicodélicos para doentes terminais, pesquisa que demonstrou potencial impressionante nos anos 60. Ou seja, em pacientes com dificuldades no processo de morte, uma sessão com uma alta dose psicodélica poderia atenuar o sofrimento e desespero associado com sua doença terminal. A outra área de preocupação era o potencial para efeitos adversos, tanto os óbvios quanto os mais sutis, já previamente descritos. Foram dados argumentos empíricos e com base nas escrituras para essa reprovação, além das experiências dos próprios membros da comunidade. Contudo, me pareceu que a principal preocupação era que seria muito desfavorável para eles, como uma comunidade budista, ter associado de alguma maneira o budismo com o uso de drogas. Pareceu que os praticantes que tiveram experiências psicodélicas (e descobriram que elas estimularam seu interesse pela vida meditativa) tiveram que dar o aval àqueles que nunca tiveram.

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No último ano de meu trabalho, um novo componente comum pessoal entre budismo e psicodélicos apareceu. Isso envolveu o que pode ser descrito como uma briga entre minha comunidade Zen e eu. Por anos, recebi apoio — pelo menos, implícito — de diversos membros da comunidade Zen para seguir com minha pesquisas. Estes eram praticantes antigos com suas próprias experiências psicodélicas anteriores. No ano passado, descrevi meu trabalho para membros da comunidade, ingênuos em relação a psicodélicos, que o condenaram fortemente. Praticantes antes a favor pareceram estar sendo pressionados para retirar qualquer apoio.

O que experimentei como um atrito entre disciplinas não é incomum no mundo e, talvez, na comunidade budista em particular. A questão se resume a: é considerado “budista” dar, consumir ou se ocupar com psicodélicos como ferramentas espirituais? Vários projetos de pesquisa estão sendo planejados nos EUA, usando psicodélicos para tratar o vício em drogas — condição de alto índice de mortalidade, caso não seja tratada. Entendo os preceitos budistas que toleram o uso de “intoxicantes” por motivos médicos (por exemplo, cocaína para anestesia local, narcóticos para controle da dor). É importante notar se um budista sofre ou não tratamento igual por dar ou consumir um “intoxicante” psicodélico para o tratamento de uma condição médica. O complicador nesse caso é que efeitos psicológicos/espirituais de uma sessão adequadamente preparada e supervisionada podem revelar efeitos de cura. Em uma área comum final, acredito que há modos em que o budismo e a comunidade psicodélica podem se beneficiar de uma aberta e franca troca de idéias, práticas e éticas. Para a comunidade psicodélica, a ética, o estruturamento disciplinado da vida, a experiência e as

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relações fornecidas por anos de comunhão budista têm muito a oferecer. Essa bem desenvolvida tradição poderia injetar significado e consistência em experiências psicodélicas isoladas, fragmentadas, pobremente integradas, sem o amor e compaixão necessários e praticados diariamente. Sem isso, essas experiências acabariam “fritas” num excesso de narcisismo e auto-indulgência.

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Embora boas experiências sejam possíveis sem uma tradição de meditação budista, elas são menos prováveis sem a checagem e o balanceamento de uma comunidade dinâmica de praticantes. Além disso, praticantes budistas dedicados com pouco sucesso em suas meditações, mas bem desenvolvidos em aspectos morais e intelectuais, poderiam se beneficiar de uma sessão psicodélica cuidadosamente agendada, preparada e supervisionada, para acelerar sua prática. Psicodélicos fornecem uma visão que — para alguém inclinado — pode inspirar o trabalho duro necessário para fazer dessa visão uma realidade viva.

O CIPÓ DA ALMA DA AMAZÔNIA

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Deputado Moisés Diniz escreve sobre uso milenar do chá em ritos religiosos em vários países da América do Sul. E revela detalhes de um tradição que, pode ser reconhecida, em breve, patrimônio imaterial da Cultura brasileira. Leia.


(Publicado inicialmente no site da Deputada Perpétua Almeida no dia 06 de Agosto de 2008)

Ayahuasca é um termo de origem quéchua, que significa "vinho das almas" ou "cipó dos mortos", designa o chá feito pelo cozimento de duas plantas originárias da floresta amazônica: o cipó jagube ou mariri (Banisteriopsis Caapi) e as folhas da rainha ou chacrona (Psychotria Viridis).

A ayahuasca serviu como base para o estabelecimento de diferentes tradições espirituais por comunidades indígenas nos países amazônicos desde tempos imemoriais. Os povos indígenas utilizaram a ayahuasca como um elo imaterial com o divino que estava entre as árvores, os lagos silenciosos, os igarapés. É que, para eles, a natureza possuía alma e vontade própria. Povos indígenas do Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia e Equador, há quatro mil anos, utilizam a ayahuasca em seus rituais sagrados, como o padre usa o vinho sacramental na Eucaristia e os indígenas bebem o peyote nas cerimônias sincréticas da Igreja Nativa Americana. O uso ritualístico da ayahuasca é bem mais antigo que o consumo do saquê ou Ki, bebida sagrada do Xintoísmo, usada a partir de 300 a.C, feito do arroz e fermentado pela saliva feminina, sendo cuspida pelas jovens virgens em tachos.

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Aya quer dizer "pessoa morta, alma, espírito" e waska significa "corda, cipó ou vinho". Assim a tradução, para o português, seria algo como "corda dos mortos" ou "vinho dos mortos".

A mesma prática é realizada pelas índias da Amazônia, quando produzem a caiçuma da mandioca, bebida ritualística indígena fundamental na dança do mariri e no ´contato´ com os deuses da floresta assombrosa. As origens do uso da ayahuasca nos países amazônicos remontam à Pré-história. Há evidências arqueológicas através de potes e desenhos que nos levam a afirmar que o uso da ayahuasca ocorra desde 2.000 a.C. Somente os ´intelectuais de água salgada´, que lêem um tomo filosófico à tarde, bebem ´whisky´ à noite e pegam sol pela manhã, para levantar argumentações contra o uso espiritual da ayahuasca. Não conhecem a força e a beleza da espiritualidade amazônica e indígena. A utilização da ayahuasca pelo homem branco é uma acolhida da espiritualidade das florestas tropicais, um banho de rio milenar e sentimental do tempo em que os povos amazônicos viviam em fraternidade econômica e religiosa. Os ataques ao uso ritualístico-religioso da ayahuasca, como bebida sacramental, nos autoriza a afirmar que podem estar nascendo interesses menos inocentes e mais poderosos do que

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uma simples preocupação acadêmica com a utilização de substâncias psicoativas. Nunca é bom esquecer que a ayahuasca é uma substância natural exclusiva das florestas tropicais dos países amazônicos e pode alimentar interesses econômicos relacionados a patentes e elevar a cobiça sobre a nossa inestimável biodiversidade.

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A ayahuasca é uma combinação química simples e ao mesmo tempo complexa, que envolve um cipó e um arbusto endêmicos do imenso continente amazônico. Simples porque a sua primitiva química material da floresta é realizada por homens comuns, do pajé ao ayahuasqueiro dos templos amazônicos. Complexa porque envolve a elevação de indicadores psico-sociais de qualidade de vida e ajuda a atingir estados ampliados de consciência dos usuários. Isso por si só já alça a ayahuasca a um patamar superior no plano do controle científico dessas duas ervas milenares. Assim, a ayahuasca ganha contornos políticos por envolver recursos florísticos de inestimável valor psico-social e espiritual. Os seus usuários consideram o "vinho das almas" como um instrumento físico-espiritual que favorece a limpeza interior, a introspecção, o autoconhecimento e a meditação. Utilizar ayahuasca aqui na Amazônia é beber do próprio poço de nossa ancestralidade e da magia que representa a nossa milenar resistência. Aqui na floresta, protegidos pelos entes fortes de nossa religião animista e natural, nossos ancestrais não precisaram "miscigenar" sua fé. Não foi necessário fazer como os negros escravos que deram nomes de santos católicos aos seus deuses africanos. Nossos ancestrais indígenas não precisaram batizar Iemanjá de Nossa Senhora ou Oxossi de São Sebastião para se protegerem da fé unilateral do dono da terra. É que entre nós a terra era de todos e o único dono era o senhor da chuva, do orvalho e do sol. A beleza coletiva dos recursos naturais era compartilhada por toda a aldeia, do curumim ao sábio ancião. A ayahuasca era a essência espiritual dessa convivência material fraterna e universal entre as árvores carinhosas, os riachos irmãos, os pássaros cantores, os peixes, as larvas, os insetos, as flores. A Ayahuasca ancestral era o elo entre a terra e o espírito.

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Se não fosse uma erva espiritual e mágica, trazida pelas mãos milenares dos povos indígenas amazônicos, ela não teria resistido ao tempo. Por isso é natural que a ayahuasca atraia cada vez mais o homem branco, esmagado pelo destrutivo modo de vida urbano, elitista, ocidental, capitalista.


A ayahuasca não é um chá que se consome como se bebe um líquido ácido qualquer. O seu uso é espiritual e envolve aqueles que o utilizam na mais límpida tradição de amar o próximo e reencontrar os valores que perdemos na caminhada do planeta que se dividiu em castas, cores, fronteiras e etnias.

A milenar história amazônica não registra casos de morte ou de seqüelas à saúde dos povos indígena por terem utilizado a ayahuasca. Nenhum índio deu entrada no hospital dos brancos ou foi curado pelos pajés. Aliás, as mulheres indígenas, ´apesar´ de beberem a ayahuasca, não registram nenhum caso de câncer de mama. A ayahuasca não é "taliban", seus usuários não se constituem em nenhuma seita, eles não são fanáticos, não há um único caso de morte ou de castigo físico que tenha sido resultado do seu consumo ritualístico. O uso ritualístico da ayahuasca não provoca transes místicos ou de possessão. Ela não age no organismo como a antiga bebida hindu, denominada soma, que se divinizou por afastar o sofrimento, embriagando e elevando as forças vitais.

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Não entrarei no debate acadêmico sobre o uso de substâncias psicoativas por parte das religiões milenares, das eras pré-colombianas aos templos dos tempos atuais. Não tenho competência para debater os pontos de vista da medicina, da psicologia ou da etnofarmacologia. Ficarei apenas com os resultados do uso milenar da ayahuasca pelos povos indígenas.

Depois de 4.000 anos de uso sagrado e ritualístico da ayahuasca os estudiosos da civilização ocidental erguem argumentos anêmicos e endêmicos de uma sociedade que tem medo do ´contato´ aberto do homem com a natureza. É que eles têm medo da relação amorosa entre o indivíduo e a natureza com os seus elementos poderosos e coletivos. Os sábios e avançados incas utilizaram a ayahuasca para consolidar-se como povo, como nação e para ajudar no florescimento da cultura, da matemática, da agricultura e da astronomia. Não é qualquer planta ou cipó que faz um povo, uma história milenar, uma religião. Só não puderam utilizar a sagrada ayahuasca para produzir metálicos fuzis, pois se assim fosse, não teriam sido dizimados pelos invasores espanhóis. Pizarro não consumiu o "cipó dos mortos", por isso dizimou tantos guerreiros, mulheres índias, donzelas, pajés, curumins. A ayahuasca resistiu, venceu os invasores e as suas crenças unilaterais, atravessou os séculos, os milênios, unificou as milenares gerações indígenas e suavizou a dor ´civilizatória´ das eras pós-colombianas. Quando o Acre propôs, sob a iniciativa da deputada Perpétua Almeida, que o uso ritualístico

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da ayahuasca fosse considerado patrimônio cultural imaterial é porque ninguém mata uma alma, ninguém prende um sentimento, ninguém aniquila uma vontade, ninguém encarcera uma opinião, ninguém enclausura uma fé. A ayahuasca é diferente de outras religiões, que nascem de visões, contatos divinos, que têm origem na cosmologia do céu para a terra. A Ayahuasca é a religião da terra para o céu, da matéria eterna e natural para o infinito do sonho humano, a religião natural.

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Uma verdadeira e única religião do Brasil, aliás, uma colossal e genuína religião amazônica! Combatê-la é bizarro, síndrome de colonizador!

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

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A Amazônia Brasileira tem particularidades que só entende com mais precisão quem nela mora ou quem, como muitos, resolvem adotá-la em seu coração. Dizem os mais antigos que aqueles que entram na floresta, que se banham nos


igarapés ou ouvem o som dos pássaros da mata não se esquecem jamais. Nisso eu acredito.

O Conselho Nacional Anti-Drogas, publicou em novembro de 2006 um relatório produzido por um grupo interdisciplinar onde se fizeram presentes representantes das três linhas originárias: O Alto Santo - criado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e aqui não abro um parêntese, mas meu coração para registrar o profundo respeito e carinho pela Madrinha Peregrina; a Barquinha - pelo Mestre Daniel Pereira Mattos, através do qual manifesto também a grande consideração por Francisco Araújo; e o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal pelo Mestre José Gabriel da Costa, segmento com o qual tenho profundas ligações emocionais através dos meus padrinhos de batismo Sr. Gaim e dona Amaríades que pertencem a União do Vegetal, e, que foram fundamentais no meu processo de construção como ser humano ensinando-me através de seu exemplo a convivência pacífica, democrática e engrandecedora com outras religiões. Destas três linhas, a União do Vegetal se origina em Rondônia e as demais no Acre.

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Nessa vasta diversidade cultural, que é influenciada pelos costumes indígenas e pelas crenças trazidas pelos que chegaram para morar na Amazônia, nasce uma religião tipicamente brasileira. Falo do daime, ayahuasca, chá, vegetal. Dentre outras, são estes os nomes dados à união de duas plantas oriundas da floresta que num processo de infusão das folhas da Psychotria Viridis - rainha ou chacrona (um arbusto) e da Banisteriopsis Caapi - mariri ou jagube (um cipó) surge um chá que é usado em rituais culturais e religiosos. Temos ainda que considerar o uso milenar pelos indígenas nos seus rituais específicos, que vêm dos povos précolombianos da América do Sul. Mas é no contexto urbano, há cerca de 40 anos, que a expansão chegou a diversas cidades brasileiras e até no exterior.

O relatório, de um órgão ligado diretamente à Presidência da República, reitera a liberdade do uso religioso da ayahuasca, considerando a inviolabilidade de consciência e de crença, além da garantia de proteção do Estado às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, com base na Constituição Federal. Aponta ainda que a liberdade religiosa e o poder familiar devem servir à paz social, à qual se submete a autonomia individual. Há ainda os que confundem a bebida com droga, por conta das reações percebidas por cada pessoa. Pesquisas científicas nas modalidades da farmacologia, pscicologia, antropologia, direito, química, dentre outras áreas acadêmicas, apontam para a comprovação que o governo brasileiro já publicou: o chá não é droga. Os adeptos desse sincretismo religioso somam milhares e milhares de famílias. Ligados umbilicalmente à preservação da natureza, porque dela precisam para o plantio do cipó e da folha, esses cidadãos contribuem para a busca de uma sociedade mais justa e pacífica, com respeito à legislação nacional. Na Amazônia, com mais intensidade no sul do estado do Amazonas, nos estados do Acre e Rondônia o uso em rituais religiosos é comum e conhecido na sociedade. Faz parte da cultura, da vivência de homens e mulheres que convivem com a floresta.

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No início de 2007 fizemos uma primeira reunião com um grupo de pessoas, com a proposta de garantir que o uso religioso do chá fosse reconhecido como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

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Estudamos, pesquisamos, pedimos auxílio. Não tivemos pressa, mas também não esmorecemos. Preferimos não dar publicidade na mídia, porque essa não é uma bandeira política, é uma questão de reconhecimento e reflexão. Coloquei meu mandato à disposição e estamos chegando a um momento importante. Conseguimos excelentes contribuições de vários intelectuais, entre eles, Jair Facundes, Toinho Alves, Edson Lodi e do historiador Marcus Vinícius e toda a equipe da Fundação Garibaldi Brasil. A atual legislação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional prevê que o reconhecimento deve ser dado à uma prática, uma representação social, à conhecimentos e técnicas que as comunidades ou grupos reconhecem como parte integrante da cultura, que seja transmitido de geração em geração e tenha sua interação com a natureza. Chegamos a conclusões e começamos a dar os encaminhamentos. Estávamos marcando uma ida para Brasília, para fazermos no Ministério da Cultura, no IPHAN e no Congresso Nacional um grande ato. Mas os mistérios e as oportunidades se apresentam, como se orquestradas por um Grande Maestro. Nada mais importante e sublime que a simplicidade da nossa terra, dos nossos ares. Chegou a oportunidade. O ministro Giberto Gil vem no Acre amanhã. Além de cumprir uma importante agenda com o nosso governador Binho Marques, conseguimos um espaço pra que ele receba um documento assinado pelos representantes das três linhas originárias. Um documento simples, sem pretensões acadêmicas, mas que traz no seu seio algo sublime e bonito de se ver: que o governo brasileiro reconheça essa cultura, essa manifestação religiosa que tem na sua matriz a floresta amazônica. ◙ Perpétua Almeida (PC do B) é deputada pelo PC do B (Acre). Ela e entidades entregarão ao ministro Gilberto Gil, em solenidade no Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - Alto Santo, um documento que solicita o reconhecimento pelo governo brasileiro.

O DAIME, CAETANO E GIL

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O jornalista Carlos Marques, atualmente consultor da Unesco e residente em Paris, estava com 20 anos de idade quando a direção da revista Manchete decidiu destacá-lo, na companhia de um fotógrafo, para uma reportagem sobre a distante Rio Branco, capital do Acre, no ano de 1969.


Entre os vários entrevistados, Marques conversou com o bispo italiano Giocondo Maria Grotti, que dois anos depois (1971) morreria durante acidente aéreo no município de Sena Madureira. Ao ser perguntado sobre os problemas que enfrentava na região, o bispo reclamou da Doutrina do Santo Daime, fundada pelo negro maranhense Raimundo Irineu Serra. Marques decidiu conhecer o Mestre Irineu Serra, que trabalhava no roçado de sua propriedade quando o jornalista foi visitá-lo. - Aquele encontro foi a experiência mais marcante de minha vida. O mestre Raimundo disse que sabia que eu chegaria e estava me esperando. Disse o meu nome, que eu havia sido libertado recentemente da prisão e que eu tinha uma cicatriz na perna.

- Ele me disse que um dia eu voltaria ao Acre, mas jamais acreditei nessa possibilidade. Quando se despediu do Mestre Irineu Serra, inusitadamente o mesmo lhe ofereceu uma garrafa de Daime com a recomendação para ele tomar o seu conteúdo com amigos sensíveis. De volta ao Rio de Janeiro, Carlos Marques entrega a garrafa e o seu conteúdo ao compositor tropicalista Gilberto Gil, a descrevendo como “uma beberagem indígena sagrada que produzia visões deslumbrantes e estados de alma elevadíssimos”. Naquele mesmo dia Gilberto Gil tomou uma dose da bebida, e logo após foi para o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, pegar a ponte aérea para São Paulo.

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Marques contou, ainda, que passou três dias no Alto Santo e tomou Daime, mas não revela detalhes de sua experiência.

Já no saguão do Aeroporto de Congonhas, São Paulo, onde ocorria a inauguração de uma exposição militar, da FAB - Força Aérea Brasileira - o efeito do Daime começou a se manifestar, e Gil “captara conteúdos indescritíveis na presença dos militares”. Era época de Ditadura Militar e a classe artística e intelectual brasileira estava sendo duramente perseguida, os próprios artistas baianos Gil e Caetano seriam logo após presos e “convidados” a se retirarem do Brasil. Sob efeito do Daime Gilberto Gil sentiu glauberianamente “como se tivesse entendido o sentido último do momento de nosso sentido como povo, sob a opressão autoritária”.. . e mesmo sob o medo que então os militares provocavam.. . sentia que podia “amar, acima do temor e de suas convicções ou inclinações políticas, o mundo em suas manifestações todas, inclusive os militares opressores”. A mensagem crística chegava assim ao coração do artista, apesar de todas as perseguições e temores: “Amai a vossos inimigos”. Era o Daime operando… Depois dessa experiência solitária no vôo Rio-São Paulo, Gilberto Gil reúne um grupo de amigos no apartamento do compositor Caetano Veloso e propõe que todos fizessem uma

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“viagem” em conjunto. Seguindo a recomendação do Carlos Marques, Gil serve a cada um dos presentes pouco mais de meio copo. Conta Caetano: ” a beberagem espessa e amarelada tinha gosto de vômito, mas não me causou náuseas”. A partir daí, a verve inspirada do poeta baiano transmite um interessantíssimo depoimento das visões e percepções do que via e sentia, da vida que percebia nos objetos inanimados, “a história de cada pedaço de matéria” de um prosaico carpete de náilon do seu apartamento, por exemplo…

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Ao som do rock progressivo do Pink Floyd, no limite exíguo do vigésimo andar de um edifício paulistano, dá-se o experimento: “Sandra (mulher de Gil) entrava e saia do quarto do som com os olhos duros e o rosto sério. Ela estava assustada. Eu a achava parecida com um índio. Gil estava com lágrimas nos olhos e falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido, não sei. Dedé (mulher de Caetano) circulava pela sala dizendo que se via a si mesma em outro lugar. Eu fiquei muito feliz de observar que as pessoas eram tão nitidamente elas mesmas… Uns pontos de luz coloridos surgiram no espaço ilimitado da escuridão… Formas circulares eram compostas por lindos pontos luminosos dançantes. Aos poucos eu sabia quem era cada um desses pontos luminosos. E em breve eles de fato se mostravam como seres humanos. Eram muitos, de ambos os sexos, todos estavam nus e tinham aspecto de indianos. Essas pessoas dançavam em círculos de desenhos complicados, mas eu não só podia entender todas as sutilezas dessa complicação como tinha tranqüila capacidade de concentração para saber sobre cada uma das pessoas tanto quanto eu sei de mim mesmo ou de meus próximos mais amados”.

É dito que da(s) experiência(s) com o Daime, particularmente experiências pico como esta, de Gilberto Gil (”Gil… falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido”..) surgiram belíssimas canções do seu cancioneiro, tal como “Se eu quiser falar com Deus”.

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“Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós


Tenho que apagar a luz Tenho que calar a voz

Se eu quiser falar com Deus Tenho que aceitar a dor Tenho que comer o pão Que o diabo amassou Tenho que virar um cão Tenho que lamber o chão Dos palácios, dos castelos Suntuosos do meu sonho Tenho que me ver tristonho Tenho que me achar medonho E apesar de um mal tamanho Alegrar meu coração

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Tenho que encontrar a paz Tenho que folgar os nós Dos sapatos, da gravata Dos desejos, dos receios Tenho que esquecer a data Tenho que perder a conta Tenho que ter mãos vazias Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus Tenho que me aventurar Tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar Tenho que dizer adeus Dar as costas, caminhar Decidido, pela estrada Que ao findar vai dar em nada Nada , nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Do que eu pensava encontrar “ Em êxtase Caetano mirava os seus “anjos indianos” nessa “experiência celestial”. “Eu alternava - com abrir e fechar os olhos - observação do mundo exterior e vivência desse mundo de imagens que se tornava cada vez mais denso… aos poucos eu reconhecia que os seres vistos com os olhos fechados eram indubitavelmente mais reais do que meus amigos presentes no quarto do som ou as paredes desse quarto e os tapetes”

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Com a consciência expandida pela miração, Caetano conhece outra concepção de espaço, diferente da corriqueira e “precária convencionalidade” ; o “tempo era igualmente criticado por essa instância mais alta em minha consciência lúcida: com benevolência e sem nenhuma angústia, eu sabia que o fato de estar vivendo aquele momento era irrelevante diante da evidência de que eu já tinha - ou teria - nascido, vivido e morrido - e também jamais existido -, embora a percepção do meu eu naquela situação fosse uma ilusão inevitável” O artista santamarense continua inspiradamente a narrar a sua experiência - da qual recomendamos a leitura atenta, pois não é possível transcrevê-la toda aqui - e quem discursa é também o antigo estudante de filosofia da Universidade da Bahia: diante da representação da “idéia de Deus” diz não saber se teve “o súbito retraimento de quem aprendeu que a face do Criador não pode ser contemplada. ..” Surge então a dúvida no coração de quem vivenciava um extraordinário momento extático, e ao ser levado por Dedé para se olhar no espelho do banheiro, ver seu rosto “de sempre” após toda essa experiência… passou então a ter a certeza “de que estava louco”. Porém “esse eu que tinha tal certeza era como que indestrutível: esse não fica louco, não dorme, não morre, não se distrai”… Quão bela experiência.. . vemos que foi revelada a Luz do Daime a este sensível poeta e compositor baiano e o merecimento de se ver como espírito, a vislumbrar a sua essência que é Divina, como a de todos nós. Inebriado do divino e maravilhoso que é Deus, brincando com as dúvidas filosóficas a la Rogério Duarte, futuro devoto hare krishna: “Eu não creio em Deus, mas eu vi!” ou ‘É óbvio que Deus não existe, mas a inexistência de Deus é apenas um dos aspectos de sua existência”… parodiando Nietzsche Caetano vai bradar para todo o Brasil: “Deus está solto!” sob as vaias da apresentação festivalesca do seu “É proibido proibir”. Dessa vivência transcendental, Caetano reflete assim: “… por mais de um mês eu me senti vivendo como que um palmo acima de tudo o que existe. E por mais de um ano certos resquícios específicos se mantiveram. Na verdade, algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite”. “Quem é ateu e viu milagres como eu Sabe que os deuses sem Deus Não cessam de brotar, nem cansam de esperar E o coração que é soberano e que é senhor Não cabe na escravidão, não cabe no seu não Não cabe em si de tanto sim É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história

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Ojuobá ia lá e via Ojuobahia Xangô manda chamar Obatalá guia Mamãe Oxum chora lagrimalegria Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia Ojuobá ia lá e via


Ojuobahia Obá Quem é ateu…” (Milagres do Povo Caetano Veloso)

Marques reencontrou a Madrinha Peregrina Serra, viúva de Irineu Serra, a quem pediu desculpas pelo conteúdo ofensivo que sua reportagem ganhou na edição da revista Manchete, pois esta publicou então várias páginas com a reportagem, onde prevaleceu na edição a versão do bispo de que se tratava de uma seita diabólica. “Foi a primeira entre tantas a desagradar Irineu Serra e seus seguidores”. - Eu não podia revelar que havia encontrado Deus - disse Carlos Marques. Na noite de 30 de abril de 2008, na sede do CICLU Alto Santo, foi realizado um evento oficial no qual a Fundação Elias Mansour do Estado do Acre, Fundação Garibaldi Brasil do município de Rio Branco e representantes dos centros que integram os três troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras (Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal), que solicitaram ao ministro Gilberto Gil, da Cultura, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) instaure o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

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Voltando ao comecinho da nossa história… pois não é que o jornalista Carlos Marques retornou ao Acre após quase 40 anos? Ao final de uma audiência com o então governador Jorge Viana, este perguntou ao jornalista se ele já conhecia o Acre. Marques contou o que já narramos, e para sua surpresa o governador Jorge Viana mostrou ao jornalista o convite que recebera para participar dos festejos dos 50 anos de casamento do Mestre Raimundo Irineu Serra com a Madrinha Peregrina Gomes Serra, dignatária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal - CICLU Alto Santo, no dia seguinte, 15 de setembro de 2006. E convenceu o jornalista a permanecer mais um dia no Acre.

O evento foi prenhe de êxito e um marco histórico do universo ayahuasqueiro brasileiro. No discurso de encerramento desta função religiosa de 30 de abril de 2008, já sem a presença das autoridades constituídas (ministro, governador, secretários de estado e políticos em geral), o orador oficial do CICLU - Alto Santo lembrou da singela história do jornalista Carlos Marques, concluindo que (palavras minhas, registro de memória): o Mestre Irineu, sabedor do passado, presente e futuro do jornalista Carlos Marques, excepcionalmente presenteou o jornalista com uma garrafa de Daime para que este a fizesse chegar as mãos do cantor Gilberto Gil, que a tomasse e conhecesse, para que, passados quase 40 anos, viesse ao Alto Santo na condição de ministro de Estado interceder por tornar a ayahuasca patrimônio imaterial da cultura brasileira. As informações a seguir foram extraídas de MACHADO, Altino. 40 anos depois. Disponível em

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AYAHUASCA CONTRA DEPRESSÃO FOLHA ONLINE - 19/11/2008 USP testa "chá do Santo Daime" contra depressão

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O "chá do Santo Daime", originário da Amazônia e empregado em rituais religiosos, tornou-se a base de uma pesquisa inédita bem-sucedida da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto para tratar pacientes com depressão. O projeto-piloto foi feito com duas mulheres com problemas crônicos de depressão, que tomaram uma dose do chá e relataram melhora imediata. A idéia agora é estender o estudo para 60 pacientes, com dosagens repetidas. Os pesquisadores querem descobrir se a ayahuasca --espécie de chá com efeito alucinógeno feito a partir de um cipó e um arbusto originários da Amazônia-- pode substituir os antidepressivos. Depois de a Universidade Federal de Santa Catarina fazer pesquisas com camundongos, a USP testou o chá nas duas mulheres na faixa dos 50 anos que têm sintomas como perda de apetite, desânimo e choro. Elas tomaram 200 ml (um copo) da bebida e ficaram em observação por três dias. "No mesmo dia as pacientes já estavam melhores, e no segundo dia diziam que não estavam mais depressivas, que as cores da vida tinham voltado", disse Jaime Eduardo Hallak, professor do Departamento de Neurociência e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP. Após três dias, foi ministrado às pacientes antidepressivo comum, "porque ainda não há evidências do efeito permanente da ayahuasca". "Mas elas acharam a experiência positiva e disseram que gostariam de tomar mais." O médico agora aguarda nova autorização do Comitê de Ética do HC de Ribeirão para ministrar o chá a 60 pacientes em doses repetidas e em intervalos pequenos. Na opinião de Hallak, é possível que o chá amazônico venha a se tornar uma arma contra a depressão. "Eu acredito que é possível formular um medicamento com o chá. Se não diretamente com a estrutura da molécula presente no Santo Daime, algo muito próximo." A ayahuasca contém duas substâncias --harmina e dimetiltriptamina. A harmina é uma espécie de antidepressivo, mas o que causa o efeito imediato é a dimetiltriptanima, que gera o equivalente a um banho de serotonina no cérebro. O segredo do Santo Daime, diz Hallak, está na rapidez: o efeito é mais imediato, por exemplo, do que tomar um comprimido de antidepressivo.

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O GLOBO / SAÚDE - 16/11/2008 USP de Ribeirão Preto pesquisa uso do chá de Santo Daime contra a depressão Duas mulheres, com problemas crônicos de depressão e que não respondiam bem ao tratamento convencional, foram as primeiras pacientes voluntárias de um estudo que vai testar a eficácia da ayahuasca - uma poção feita com o cipó Jagube e com a folha do arbusto Rainha, utilizada pelos adeptos do Santo Daime. O estudo que acompanhará, inicialmente, outros seis pacientes, é coordenado pelo professor Jaime Eduardo Cecílio Hallak, do departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, segundo reportagem do jornal A Cidade.

O professor conta que as pacientes chegaram tristes, deprimidas, sem iniciativa, desanimadas, sem apetite e com insônia. - Demos a ayahuasca e elas ficaram em observação no hospital durante três dias, por questão de segurança. O pesquisador conta que depois de tomarem a ayahuasca, as pacientes tiveram visões semelhantes às relatadas pelos usuários do Santo Daime. E também sensações e pensamentos de bem-estar. Essas visões e sensações duraram de 40 minutos a uma hora. E logo depois veio a boa surpresa. - Aí fica o que chamo de efeito fabuloso: as pacientes não estavam mais tristes, nem deprimidas. De imediato, as duas senhoras, alegres, disseram que passaram a encarar a vida com novo ânimo.

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- Depois desse estudo com oito voluntários, vamos propor ao comitê de ética a ampliação até 60 pacientes. Os resultados com os dois primeiros casos foram fabulosos - garante Hallak.

Para Jaime Hallak, as sensações de alegria e bem-estar delas, que ocorreram rapidamente equivalem ao resultado normalmente obtido com o eletrochoque - procedimento utilizado quando os demais não funcionam - mas depois de 5 a 6 sessões de aplicação. - Nesse caso de uma dose única, cujo efeito perdura por quatro a cinco dias, é um dado importante. Como é um teste inicial, não demos as doses subseqüentes e elas voltaram ao tratamento convencional.

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"Banho" de serotonina O pesquisador afirma que a poção ayahuasca contém duas substâncias já conhecidas: uma delas é a dimetiltriptamina e a outra é a harmina. - A harmina, por si só, já é um antidepressivo potente, mas leva de 15 a 20 dias para funcionar. Então o bem-estar imediato não é provocado por ela, mas pela dimetiltriptamina, que causa essas sensações.

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Segundo o pesquisador, a substância "dá um banho" de neurotransmissor no cérebro - que é a serotonina - e o paciente tem aquelas visões e a sensação de bem estar. - Os antidepressivos disponíveis atualmente aumentam a disponibilidade do neurotransmissor serotonina. Mas a dimetiltriptamina 'inunda" o cérebro de serotonina e provoca de forma muito mais acentuada o mesmo efeito dos antidepressivos. Depois vem rápido o bem-estar: esse é o grande achado. O próximo passo é delicado: será preciso começar a ajustar a posologia, determinando a dose que deve ser dada, de modo a evitar muitas visões, mas garantindo a melhoria da depressão e mantendo sempre a sensação de bem-estar. É preciso controle médico A ayahuasca não tem contra-indicações, mas não deve ser usada fora do controle hospitalar e médico como antidepressivo. Pode ser contra-indicada se a pessoa já estiver tomando antidepressivos, por causa de efeitos colaterais. Além disso, a substância harmina é inibidora de uma enzima que temos no organismo a MAO - monoamina oxidase. É a mesma substância encontrada em alguns antidepressivos, que exigem do paciente uma dieta especial. Nesse caso, para consumir a ayahuasca, o paciente precisa fazer uma dieta sem banana, presunto, queijo curado, entre outros alimentos que podem interagir negativamente com a substância. Santo Daime Hallak, médico formado na Universidade Federal de Uberaba - mas com carreira de pesquisador feita na USP, com pós-doutorado na Inglaterra, disse que não é praticante do Santo Daime. Mas depois de manter contato com os freqüentadores da igreja de Ribeirão Preto, o Centro Fluente Luz Universal Pedro Nunes Costa, conheceu histórias de pessoas que foram dependentes de álcool e drogas e que abandonaram naturalmente o hábito. - Dependência de drogas ou álcool está ligada a quadros depressivos. Daí veio a idéia de pesquisar a ayahuasca como antidepressivo, embora já existam estudos com outros grupos mostrando o abandono dessa dependência depois de entrar no Daime - lembra o especialista.

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Paralelamente, o grupo de Ribeirão está fazendo parceria com um grupo do sul do país que estuda detalhes do mecanismo de atuação da ayahuasca em animais. Depois do término do estudo-piloto, com oito pacientes - todos voluntários- os resultados serão analisados. Para


completar o grupo de 60 voluntários, será preciso localizar pacientes depressivos que não estão sendo beneficiados pelo tratamento atual e querem ajuda. Alucinógeno O Santo Daime, enquadrado como alucinógeno, não causa dependência. Mas o consumo é liberado pelo Ministério da Saúde apenas para uso religioso. Já o Ministério da Cultura, ainda na gestão Gilberto Gil, transformou o Santo Daime em patrimônio histórico nacional. Jaime Cecílio Hallak observou que todas as pessoas que tomam ayahuasca - seja na igreja ou no laboratório - têm as mesmas visões simbólicas ligadas a questões da natureza, com imagens de espíritos e seres da floresta. - A pessoa não perde a consciência nem o controle e sabe que está tendo as visões.

Em 2020 a depressão será a segunda causa de incapacitação no mundo, segundo previsão da Organização Mundial da Saúde. Hoje é a quarta causa - lembra o psiquiatra Silvio Luiz Moraes, chefe da equipe da Enfermaria de Psiquiatria do HC de Ribeirão Preto. Ele admite que tem ocorrido mais casos da doença e que aumentou o número dos pacientes refratários aos tratamentos convencionais. Jaime Hallak acredita que os critérios em diagnóstico melhoraram muito. Mas também existem evidências de que está aumentando o número de casos de depressão, por questões psicológicas da sociedade moderna.

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Doença já é a quarta causa de incapacitação no mundo

E comemora que diminuiu o preconceito. - Só da gente conversar sobre depressão para um jornal, mostra que as pessoas não têm mais vergonha de falar que vão a um psiquiatra. Hoje até parece que é status: eu vou lá no meu psiquiatra. Um dia estava conversando com um rapaz e ele falou: "tenho meus dois médicos, meu psiquiatra e meu terapeuta". Múltiplas causas As causas das doenças psiquiátricas são consideradas multicausais. - A pessoa pode ter uma predisposição genética, mas não é suficiente para determinar que a pessoa ou o filho dela terá depressão. Mas aumenta a chance desse filho ter o problema em comparação com o filho de uma pessoa que não tem depressão. Mas só isso não é suficiente para explicar- disse. Segundo o pesquisador, é preciso a ocorrência de eventos na vida da pessoa "que propiciem essa carga genética de se expressar. E essa expressão dessa carga genética, significa que você tem um desequilíbrio bioquímico".

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Mas não é só ele: por isso, tratar depressão não é só dar remédio, diz o médico. "Acho imprescindível, além do tratamento medicamentoso ou biológico, fazer o acompanhamento psicoterápico." Doença crônica

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A depressão é uma doença crônica: antigamente se acreditava que ocorreriam apenas episódios.

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- Hoje em dia, pode ter gente que não concorda com essa visão, acredito que a depressão é recorrente. Quem teve um episódio, tem chance grande de ter um segundo episódio. Quem teve um segundo, quase certamente terá um terceiro; quem teve um terceiro, certamente terá um quarto episódio; cada episódio aumenta o risco: isso é biológico, não é psicológico. Por isso também não posso tratar depressão só com psicoterapia. Tem que tomar as medicações e fazer os tratamentos biológicos, afirmou o pesquisador Jaime Cecílio Hallak. XAMÃS URBANOS Os rituais com ayahuasca se multiplicam nas grandes cidades do Brasil. Em busca de uma nova experiência mística, muitas pessoas transformam o chá obtido com as plantas amazônicas na mais alucinante e controversa das terapias.

Minha mente num moedor de carne. Do outro lado do moedor, meus miolos escorrem em forma de enigmas: “Entender para explicar“, cai um. “Explicar para entender“, cai outro miolo. “Entender sem explicar, explicar sem entender“, prolonga-se um terceiro. “Nem explicar, nem entender“… E, enquanto meu cérebro é triturado, torcido, retorcido e reduzido a pedacinhos, todas as variações possíveis em cima desse embate psíquico me deixam com o coração palpitante, o estômago revolto e as mãos geladas.


Me levanto, abandono o círculo de pessoas naquele salão e tento me resolver sob o céu claro de lua nova. No instante em que observo as árvores em detalhes nunca antes captados, minha racionalidade se enrola em pares de opostos: e, pior, os paradoxos, em vez de me empurrarem a um beco sem saída, me conduzem a uma idéia totalizante sobre as coisas – como se todos os questionamentos sobre a existência fizessem algum sentido. Meu olhar vai e vem das árvores às estrelas e meu tronco se cola ao chão, e troco a confusão conceitual pela emoção simples – e extasiante – de pertencer profundamente ao planeta.

Mas eu não estava tendo um eureca filosófico na natureza. Não tinha alcançado uma epifania selvagem na floresta. Tampouco participava de um culto promovido por uma igreja amazônica. Estava no Alto da Boa Vista, plena Rio de Janeiro, investigando uma sessão xamânica guiada pelos efeitos de um poderoso psicoativo natural: a ayahuasca. O chá, conhecido há séculos por grupos indígenas isolados entre Alto Amazonas e cordilheira dos Andes, é hoje eixo de variadas práticas ritualísticas urbanas – e não me refiro a igrejas. Ou seja, as contradições – e o desapego a opiniões monolíticas – são essenciais para entender, ou explicar, como funciona esse tipo de experiência. Sob o impacto da ayahuasca, observo meu bloco de notas e procuro fazer meu trabalho: o que está acontecendo aqui? Quem são essas pessoas? Por que, como, quando, onde fazem isso? Primeiro fato: é impossível escrever com a ayahuasca correndo nas veias. Felizmente, o “moedor de carne” vegetal deixou intacta minha memória. Dispostas em círculo num aposento de 70 metros quadrados da casa, 30 pessoas de classes média e alta participam do ritual. Depois de breve apresentação, em que os presentes dizem por que procuraram o rito, o xamã, Fabiano Sales Txana Bane, discorre com calma sobre as regras. Pede concentração aos cantos, recomenda que ninguém faça movimentos bruscos, não fale com os companheiros, não dirija o olhar diretamente aos demais participantes e que cada um guarde seu espaço, sabendo que toda manifestação interfere na experiência alheia. Por fim, agradece a presença dos participantes, e a seguir, discursa em pano, a língua de sua tribo, os huni kuin. Um dos auxiliares (também chamados de guardiães) pega uma maraca e percute-a em ritmos binários e repetitivos.

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Assim, me tranquilizo.

Bane chama um a um e oferece, no mesmo copo, uma dose de ayahuasca. As pessoas voltam a seus colchonetes. Meia hora depois surgem as “mirações” – como os adeptos chamam as visões produzidas pelo efeito da substância.

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Enquanto Bane e seus assistentes alternam os cânticos, algumas pessoas passam mal. Às vezes um dos guardiães se acerca de um participante em apuros com murmúrios consoladores. O rito alterna ondas de euforia e reflexão, coros e silêncio – dinâmica ecoada ou estimulada pelos mantras, impressionantes expressões de música modal, rítmica, seca e modulada em microtons extremamente precisos. Quando um participante se afasta do círculo, Bane sugere “cantar para chamar o irmão que se perdeu”. Ao final de cada música, todos sussurram “hauss”, espécie de “amém” indígena. Por volta das 4 da manhã, Bane oferece uma segunda dose “a quem quiser se aprofundar na medicina”. Nessa altura, mais da metade dos participantes está mergulhada em pensamentos, que, dada a potência da substância, podem ser inumeráveis e imprevisíveis, indo do mais delicioso êxtase ao buraco negro mais angustiante. De repente – mesmo deixando a sensação de que se passaram dias dentro de uma realidade alternativa – , a cerimônia termina às 6 da manhã, quando Bane dispersa o rito, abraçando cada um. Na sessão presenciada por ALFA, a maioria dos participantes, depois do ritual, seguiu na mansão ou nos jardins circundantes até o meiodia; uns dormindo, outros, ainda impactados com a sessão, zanzam enrolados em cobertores; uns trocam lembranças, outros tocam instrumentos e cantam; uns provam rapé indígena, outros se sentem inquietos e retiram-se, silenciosos. Em muitos é nítida a sensação de bemestar. No café da manhã, recém-amigos se cumprimentam, agradecendo-se pelo compartilhamento da ayahuasca.

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O XAMÃ AMAZÔNICO

Nem sempre foi permitido aos huni kuin usar a “medicina” – a expressão favorita dos xamãs para a ayahuasca, reafirmando seu contexto terapêutico. Para que um representante deste povo pudesse se apresentar à juventude dourada carioca, muita água correu pelo Jordão. Os huni kuin, que emigraram aos milhares do Peru para o Brasil, não eram conhecidos dos “brancos” até o começo do século 20. Um dos remanescentes, conta Bane, seu avô, o pajé Sueiro Huni Kuin, apresentou o nixi pae ao lendário Raimundo Irineu Serra, maranhense que havia viajado ao Acre à procura de trabalho nos seringais. Em uma das visões após consumir a ayahuasca, Serra teria recebido uma missão de Nossa Senhora da Conceição: fundar um culto baseado nas plantas sagradas. A partir dali, Serra criou o Santo Daime – única religião originada no Brasil, que aplica princípios cristãos a práticas vegetalistas xamânicas, hoje representada por três grandes cultos, o Cefluris, a Barquinha e a União do Vegetal. Os cultos se disseminaram por Europa, EUA e Américas.

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Txana Bane é um acreano nascido na aldeia de Belo Monte, reserva kaxinawá na cidade de Jord��o. A baixa estatura, o sorriso constante e as feições indígenas de Fabiano tiram dez anos de seus 26. Durante a sessão, porém, Fabiano parece um ancião. Sua voz impõe-se clara, com autoridade, firme porém sem rudeza, e bastante lenta quando fala em português. Os trabalhos são quase sempre cantados na língua natal, o pano – a subetnia de Txana Bane é a huni kuin (que significa “povo de verdade”). Seu pai, Siã Osair Sales, é o cacique dos huni kuin que habitam o vale do rio Jordão. O pai de Siã, o pajé Suero, iniciou Fabiano e seu irmão Leopardo Yawa Bane nos mistérios da ayahuasca – que eles nomeiam nixi pae – aos cinco anos de idade. “Fiquei um dia inteiro dormindo na copa de uma árvore, em outro mundo“, me conta Bane.

Mas esta é outra história. O sol nascente evidenciava a beleza da propriedade que sediou a cerimônia, num amplo terreno arborizado de onde se alcança uma boa porção da Floresta da Tijuca – e também torres de celulares. Moldura inusitada para um índio com um ultracolorido cocar feito com penas de sete pássaros diferentes. Txana Bane conta que quando o pai era jovem, missionários evangélicos tomaram conta da área – e, alegando que a ayahuasca trazia “visões demoníacas“, tentaram proibir seu uso nas aldeias que catequizavam. Somente com a articulação política de Siã – vice-prefeito de Jordão e um dos líderes indígenas mais aguerridos na luta contra as madeireiras no alto Juruá –, os kaxinawá, 80% aculturados à “civilização“, passaram a retomar suas tradições atentando às histórias contadas oralmente pelos velhos pajés. Siã sempre propôs que os kaxinawá não se isolassem; por isso enviou ao sudeste, nos anos 90, os filhos Leopardo e Fabiano, para “trocar culturas” – enquanto estudavam português, informática e cinema, apresentavam a cerimônia nixi pae em círculos bastante estritos. Leopardo ficou em São Paulo, Fabiano preferiu o Rio de Janeiro. A sessão conduzida pelos kaxinawá aportou em vários países europeus – artistas holandeses, intelectuais finlandeses,

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empresários noruegueses e até xamãs de outras culturas convidaram a dupla. A família Sales Huni Kuin participou do documentário Power to Heal, do paulistano Jay Damiani, e o próprio Fabiano registra os costumes de sua tribo: levou a um festival da França o documentário Sabedoria Verdadeira de um Povo Vivo e atuou em uma peça de teatro na Espanha.

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No Rio, Bane leva vida de carioca. Curte praia e esportes ao ar livre, mas no momento curte mais ainda o recém-nascido filho com a psicóloga Silvia Rocha. Formada pela UERJ, com orientação junguiana, Silvia conheceu Fabiano em uma cerimônia e acabou incorporando o “caminho vermelho” – outro nome para a prática de xamanismo – às sessões de arteterapia. O consultório em Laranjeiras onde o casal atende é muitas vezes a porta de entrada para a descoberta da terapia com o nixi pae.

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Relaxando após a longa noite, Julia, uma bonita produtora de moda de 27 anos, me relata que buscava uma terapia alternativa à síndrome do pânico: “Em todas as vezes que visitei um psiquiatra, saía traumatizada com a quantidade de remédios que me prescreviam“, diz. “Dois meses usando tarja-preta, achei que fosse cair em depressão em vez de me curar dos surtos. Resolvi que não ia ficar mais saudável simplesmente tomando pílulas, que meu problema era um processo, e que pra voltar a me sentir bem teria de procurar outros caminhos.”

Julia fugiu da alopatia e da psiquiatria tradicionais mas manteve as sessões de psicanálise, e achou que fosse uma boa idéia buscar terapias corporais – massoterapia, acupuntura, reiki. Numa dessas consultas, soube do consultório de Silvia Rocha e se inscreveu em sessões de arte-terapia. Interessou-se pelas sessões xamânicas com o nixi pae – a ponto de, hoje, ser uma das “guardiãs” responsáveis pelo ritual, distribuindo as cinco páginas da entrevista de


anamnese indispensável a quem queira participar. (Ninguém entra na sessão se relatar, aos guardiães, usar remédios psicotrópicos, ou se aparentar desordem mental.)

Já o casal Antônio P. e Mariana L., ele veterinário, ela professora de inglês, estão ali como “enviados” de uma cerimônia análoga: ambos são ligados ao Daime. “Fardados” há três anos (os homens e mulheres daimistas usam roupas brancas próprias ao ritual), há seis meses pesquisam outros rituais baseados na ayahuasca. Passaram por experiências conduzidas pela União do Vegetal e pela Barquinha – igrejas que, inspiradas no Daime, usam o vegetalismo como sacramento – e, através de amigos, descobriram Txana Bane. Em um momento que o xamã Fabiano “abriu” a cerimônia para a participação de outras manifestações, Mariana sugeriu dois cânticos do hinário de Mestre Irineu. Qual a diferença entre o Daime e o nixi pae? “Bem, são muitas“, me diz Antônio. “Começa que aqui não existe separação entre o homem e a mulher, como no Daime. E são grupos muito menores. Eu já estive em sessões com 300 pessoas… Talvez a energia em um ritual como este aqui não seja tão intensa e poderosa. Por outro lado, não é tão dispersa: sinto que todas as pessoas estão no mesmo foco“, analisa. Graham P., um engenheiro australiano de 40 anos que vive há 10 no Brasil, não foi atrás do ritual do nixi pae por questões de saúde. Seu interesse vem de longe: desde que assistiu, na Sydney natal, a uma exibição de Emerald Green, de John Boorman , a história de um filho de engenheiro norte-americano que, sequestrado por indígenas, passa a viver na floresta amazônica. “Eu vivia num país árido, trabalhava numa fazenda criando ovelhas, sabe, e aquele verde todo me enfeitiçava pelo contraste com a minha vida“, conta. “Comecei a estudar a cultura amazônica e descobri a ayahuasca. Quando meu pai morreu, viajei ao Peru e conheci a planta em Pucallpa. Desde então venho documentando todos os meus encontros com a planta, em todas as manifestações que achei. Assim é que acabei descobrindo o nixi pae.”

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Julia participa das sessões há um ano, uma por mês. E o pânico? “Não vou dizer que nunca mais senti os efeitos da síndrome, pouco antes de ela se manifestar – taquicardia, boca seca. O que mudou é que eu encaro de frente quando está vindo, e consigo relaxar, e aí passa. É difícil explicar, mas posso afirmar que hoje me sinto mais atenta ao que acontece comigo. Isso me traz calma“, afirma.

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Após o ritual, no entanto, Graham parece um pouco confuso. “Não sei o que está me acontecendo, mas ultimamente está difícil entrar no yage“, me diz, usando o nome colombiano para ayahuasca fixado no livro Cartas do Yage, do escritor norte-americano William S. Burroughs, que relata suas visionárias experiências na América do Sul dos anos 50. “Tem algo a ver com meu momento atual, algumas opções na minha vida estão se fechando. Talvez precise fazer uma sessão concentrada, com menos gente ao redor.” Independentemente de que maneira seja abordada, a ayahuasca é sempre fruída em um contexto de cura. Seja numa cerimônia ortodoxa do Santo Daime, seja em ritual de tendência sincrética, o “vinho das almas” (seu significado em quéchua) nunca deixa de ser uma espécie de catalisador ético e estético para seus participantes, que buscam o contato com a planta com três objetivos: religioso, terapêutico ou como expansor da consciência. E este é só o primeiro dos nós do cipó.

EFEITOS, REAÇÕES, MIRAÇÕES

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A ayahuasca se enquadra na classificação de substâncias enteógenas – ou seja, a dos psicotrópicos naturais que suscitam estados alterados da consciência cuja sensação é espiritual, incorpórea (na mesma categoria estão cogumelos e cactos). O chá é obtido com o cipó jagube (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis). Macerados durante dias e fervidos em água quente, convertem-se numa beberagem espessa, densa, escura, de cheiro terroso e sabor acre. Embora uma medicina milenar, até hoje não há explicação plausível para entender como se descobriu a função psicoativa na união de plantas tão diferentes, que quase nunca estão na mesma área na floresta.


A chacrona contém o DMT ou triptamina, um dos mais potentes alcalóides naturais, mas de efeito volátil no organismo: antes de chegar ao cérebro, é destruída pela enzima MAO, monoamina oxidase. O que faz com que o efeito seja potencializado e mantido são a harmina e a harmalina contidas no cipó, substâncias que inibem o efeito da MAO, uma enzima destruidora de venenos e substâncias estranhas ao organismo, além de metabolizar a noradrenalina, a serotonina e a dopamina.

O alterador de consciência vicia? Pode perturbar o cérebro de forma permanente? “As substâncias que induzem a alucinações mentais, como o LSD, têm pouco poder de indução de dependência. São muito diferentes do crack, cocaína e heroína, por exemplo”, afirma Elisaldo de Araújo Carlini, professor da prós-graduação em psicofarmacologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid). Carlini, um dos mais respeitados especialistas em sua área no país, atua também como membro do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), que liberou em janeiro deste ano o uso da ayahuasca após vinte anos de pesquisas governamentais e embates na sociedade.

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Para potencializar o efeito, recomenda-se dieta de 12 horas antes e 12 horas após o uso da ayahuasca (alguns xamãs prescrevem 3 dias de resguardo). Entre as substâncias proibidas estão qualquer tipo de droga; entre as substâncias de que se sugere guardar distância estão a carne vermelha, o açúcar, a farinha branca e alimentos lácteos. Quase todos os cerimoniais pedem que a dieta seja prolongada para o aspecto sexual, “para conservar a energia“. Embora como xamã Txana Bane observe essa restrição, para os participantes da sessão ele não vê grandes problemas na prática sexual – “desde que não atrase o ritual“, brinca.

A decisão autoriza o uso em rituais religiosos porém proibe sua exploração comercial e a divulgação do consumo como atração turística – sendo liberados gastos apenas com as despesas como a extração dos vegetais da floresta e o preparo do chá –, ficando também interdita a utilização da substância como medicamento, enquanto não for comprovada a sua eficiência terapêutica. O IPHAN, Instituto de Patrimônio Histórico Nacional, estuda seu registro como patrimônio imaterial brasileiro (outros “bens imateriais” são o samba, o frevo e a capoeira). Apenas dois meses após a controversa liberação ocorrou o assassinato do cartunista Glauco Villas-Bôas e seu filho Raoni. Um dos mais importantes cartunistas do país, pai do personagem Geraldão, Glauco era um conhecido “padrinho”, como são chamados os condutores das sessões de Santo Daime, liderando há quase duas décadas o templo Céu de Maria, na zona oeste de São Paulo. Seu templo era frequentado por artistas e intelectuais, conforme relata o chefe de Glauco no jornal Folha de S.Paulo, o diretor de redação Otavio Frias Filho, em seu ensaio “Viagem ao Mapiá“, em Queda Livre (Companhia das Letras). O crime chocou o Brasil. Seu autor, um jovem desempregado de classe média alta, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, é suspeito de portar esquizofrenia. Cadu chegou a frequentar sessões no Céu de Maria, mas foi proibido por Glauco após o padrinho constatar

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sua desordem mental e comprovar que usava substâncias controladas em seu tratamento – o Santo Daime não aceita que seus participantes utilizem drogas de nenhuma ordem.

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Compreensivelmente, o crime reacendeu a polêmica em torno do uso da ayahuasca. Alguns pesquisadores alertam que as reações do princípio ativo da planta podem ser perigosas quando combinadas com o uso de outras drogas, sobretudo a cocaína, e têm potencial para agravar quadros preexistentes de doenças psiquiátricas como depressão, psicose e esquizofrenia. Carlini sustenta que a ayahuasca deveria ganhar mais estudos científicos – lamenta, porém, que os comitês de ética das universidades brasileiras sejam muito conservadores e lentos para aprovar os testes e assim liberar pesquisas. “Nos EUA, órgãos como a National Institute of Drug Abuse, Nida, desenvolvem regularmente pesquisas com substâncias controladas como a ayahuasca, o que os coloca muito à frente do Brasil neste campo“, diz o farmacólogo, indicando o trabalho de cientistas sérios como Charles Grob. O farmacologista da Unifesp diz que a comunidade científica deveria realizar essas pesquisas para efetivamente comprovar se a ayahuasca é prejudicial a portadores de transtornos mentais – ou se, por outro lado, é benéfica e terapêutica, conforme muitos usuários defendem. “Há adeptos que usam a planta justamente para amenizar alguns quadros de doenças psíquicas – como o achatamento afetivo, a falta de élan, a confusão cognitiva”, relata o especialista. O médico sublinha que a ayahuasca deve ser pesquisada não só pela biologia, mas também outras disciplinas – psicologia, filosofia, antropologia. “Meu mestre, Ribeiro do Vale, dizia: ‘Não devemos só estudar a maconha que o homem usa, e sim o homem que usa a maconha’”, prescreve. Ecoando este cuidado, mesmo os xamãs pedem cautela com o uso da ayahuasca. “Como Mestre Irineu dizia: ‘A ayahuasca é para todos, mas nem todos são para a ayahuasca’”, lembra Fabiano. “Nós, na nossa tribo, nunca tivemos esse tipo de problema, nem nada parecido, com o nixi pae. Por outro lado, na tribo também não temos uma série de problemas que vocês na cidade têm“, pondera o jovem pajé, sempre sorrindo. Ele e outros xamãs dizem barrar nas sessões qualquer pessoa que seja usuária de remédios psicotrópicos ou que aparentem desordem mental. Na prática, porém, esse controle é feito de maneira informal, à base de questionários e entrevistas feitos na hora pelas pessoas que desejam participar das sessões.

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E aí passamos para outro nó do cipó. Conforme o leitor deve ter percebido, a ayahuasca servida durante a cerimônia huni kuin não tem nada a ver com o chá de Santo Daime utilizado numa cerimônia daimista. Embora praticado em contexto igualmente ritualístico, o nixi pae não pertence a nenhuma das três grandes religiões organizadas daimistas. O ritual independente, portanto, reside numa espécie de limbo legal. Este motivo – aliado à repercussão negativa em relação ao uso da ayahuasca, após o assassinato de Glauco – fez com que os participantes de sessões xamânicas baseadas na planta se mostrassem cautelosos em relação a esta reportagem. Muitos pediram para que seus nomes não fossem publicados, vários xamãs se negaram a conversar com a revista. “O momento é de contenção e reflexão“, diz Fabiano.

NEOAYAHUASQUEIROS, TURISTAS ESPIRITUAIS E PSICONAUTAS O momento é também de consolidação dessa tendência: as práticas xamânicas realizadas fora do âmbito das grandes religiões ayahuasqueiras são hoje corriqueiras. Em um livro de 2004, A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos (Fapesp/Mercado das Letras), a antropóloga paulistana Beatriz Labate, mais importante estudiosa brasileira no tema, sugeria um fenômeno incipiente, a que deu o nome de “neo-ayahuasqueiros urbanos“. Eles estariam “situados entre os usos mais religiosos, tradicionais e ritualísticos e o consumo laico, moderno e não ritualístico [...], que têm uma ênfase maior na dimensão estética do consumo da ayahuasca, maior ou menor flexibilidade com relação às normas rituais e variação sobre a cosmologia usada, mais fluida ou mais definida“. Ou seja, são grupos urbanos que usam a substância em rituais que combinam apropriações de culturas antigas. Labate, hoje pesquisadora do instituto de psicologia na Universidade de Heiselberg,

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Alemanha, posto de onde monitora a tendência na Europa (a igreja de Santo Daime em Amsterdã, Holanda, congrega até 300 fiéis por sessão), sugere gradações no fenômeno.

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“Há desde curandeiros tradicionais que se modernizaram, os neonativos, que vêem a modernidade como algo positivo, que estão num eixo ‘do tradicional ao moderno’, até o outro eixo, ‘do moderno ao tradicional’, dos brancos que se tradicionalizaram e se dizem xamãs, neoxamãs e turistas xamânicos“, escreve Beatriz. A tendência de seis anos atrás cristaliza-se hoje sob um sem-número de correntes. Os “neoayahuasqueiros” são empresários, profissionais liberais, intelectuais e artistas que procuram uma espiritualidade mais primitiva. Seus adeptos buscam os rituais como autoconhecimento; para curar o vício em drogas como cigarro, álcool e cocaína; para medicar males psíquicos ou mesmo físicos; e até como fortalecimento de certa “cultura de tribo”. Conheci Txana Bane, este “neonativo“, na categorização de Labate, por indicação de Tiago Coutinho, antropólogo carioca de 30 anos. Em seu apartamento no Catete, atulhado por caixas fechadas – recém-chegara de uma temporada de estudos em Paris –, o jovem cientista, que já se debruçou sobre a procura do transe e do êxtase em rituais da classe média carioca, agora escreve tese de doutorado sobre as práticas xamânicas nos grandes centros, desvinculadas de contexto religioso. “É um fenômeno mundial“, me afirma Coutinho. “Em vários países da Europa há uma redescoberta de uma espiritualidade realizada em contexto tribal, adaptando saberes ancestrais, sempre em torno de plantas psicoativas“, diz. É difícil mensurar dados, pois não há estatísticas, mas pode-se inferir que as religiões vegetalistas estão entre as que mais crescem no planeta. “São religiosidades abertas, que dialogam com outras tradições presentes nas cidades, como tradições orientalistas, hinduístas, umbanda, neopagãs, terapias como meditação e yoga, até experiências estéticas, com teatro e música eletrônica”, descreve. Coutinho relata situações curiosas – como um grupo de descendentes de índios guaranis de Santa Catarina que realizam rituais baseados na cultura kaxinawá, milhares de quilômetros distante, tendo os surfistas “brancos” de Florianópolis como entusiastas assíduos. Estudiosos como Coutinho vêem reflexos da tendência no revival de clássicos xamânicos como A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda (em 34 edições, vendeu 104 mil exemplares no país), e até em produtos da indústria cultural de massa, a exemplo do filme Avatar – particularmente a sequência em que os na’vi se conectam ao grande espírito de uma árvore. Ayahuasca for dummies? Na rede, centenas de sites e fóruns discutem a conexão entre o filme e a substância enteógena (por essa, James Cameron não esperava). “O que posso afirmar é que o fenômeno detonou uma verdadeira explosão do turismo espiritual”, diz Coutinho. “Em São Paulo, há acampamentos xamânicos, em que, dependendo do pacote que você comprar, pode ser ‘diplomado’ como curumin, guerreiro ou mestre“, conta.

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Fato: a concepção sessentista da “viagem espiritual“, em que o sujeito abandonava emprego, mulher e família reinventando-se como saddhu na Índia, é hoje tratada de maneira mais pragmática – daí a concepção de “turismo“, mais imediatista, em que o sujeito vai ao outro mundo e volta em segurança. O site do Xamanismo Ancestral indica um acampamento


Em outra ponta, um sofisticado lodge no Peru, o Sacharuna Clinic Center, dispõe de xamãs treinados para ajudar o participante a realizar curas espirituais – e até físicas. “Baixamos nossos preços ao extremo! Na nossa semana de Jornada Xamânica você poderá participar de quatro autênticas sessões com um mestre xamã curandeiro da tribo Cocama. Recomendamos e usamos diferentes programas subliminares para tentar entender e monitorar a consciência humana sob os estados alterados da mente (no caso, induzidos por baixas doses de ayahuasca)”. “A questão da ‘autenticidade‘ é capital no fenômeno neoxamânico“, afirma Coutinho. O turista quer acessar aquela experiência “pura” e paga bem por isso. De outro lado, os indígenas – tanto do Brasil quanto do Peru, que é a meca mundial do turismo psiconauta – “se utilizam de sua esperteza cabocla, e vêem que isso pode ser um meio de capitalizar a sua aldeia. Um jeito de, por um lado, levar ao Ocidente sua cultura, e trazer para sua cultura o dinheiro do Ocidente“, me diz. A diferença é que agora são os índios quem oferecem aos “brancos” os espelhinhos em troca do ouro. A ayahuasca não é a única substância utilizada em rituais neoxamânicos. Segundo o antropólogo paulistano Anthony Henman, autoridade mundial em drogas psicoativas – formado em Cambridge, foi consultor da ONU e da Comissão Européia, além de professor na Unicamp –, existem diversos grupos na Califórnia, no Texas, na Espanha, no sul da França, no Peru e na Argentina usando o cacto San Pedro como condutor de sessões xamânicas nãotradicionais. Do cacto se extrai a mescalina, utilizada pelo escritor Aldous Huxley como inspiração ao clássico As Portas da Percepção.

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xamânico em São Paulo que oferece “mergulhos profundos no inconsciente, desbloqueando traumas através do contato com a natureza e arquéticos de poder, pedras e cristais, plantas e ervas, animais, bebidas sagradas de expansão da consciência, como ayahuasca, cacto san pedro, peyote, jurema e atividades xamanísticas, como tenda do suor, cerimônias indígenas, rituais de cura, cachimbo sagrado, rodas de tambor, aplicação de kambô, danças circulares, mantras, caminhadas, yoga, meditação, equilíbrio dos chakras e alinhamentos energéticos em nível de DNA, tudo com muita descontração e alegria indígena“.

O carismático Henman, um espigado sessentão de 1,90m que mora entre o País de Gales e Lima, no Peru, onde floresce seu “jardim mágico” de mais de cem cactos, conversou durante uma hora com ALFA enquanto dava suas colheradas no ypadu – um energético natural feito de folhas de coca moídas. “Esses grupos neoxamânicos não têm tanta visibilidade porque não existe uma tradição ‘pura’ do San Pedro, como ocorre com os grupos indígenas da Amazônia e a ayahuasca, nem surgiu uma nova religião ao redor do cacto – e isso encontro um ponto positivo: não gostaria ver um Santo Daime com o San Pedro“, me diz. Por quê? “Acho que existe muito autoritarismo nessas religiões, em especial na União do Vegetal“, critica. “No meu ponto de vista, a planta é a professora, e o homem deve interagir diretamente com ela, sem ser forçado a viver um único tipo de situação. Considero que o uso institucionalizado da ayahuasca restringe a riqueza e a profundidade da experiência“, afirma.

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O XAMÃ PAULISTANO

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Então, resolvo outra vez enfiar o meu cérebro num moedor de carne. Ou será que ele já estava sendo moído antes que eu pensasse em moê-lo? Incrível como, ao retornar à força – o nexo espaço-temporal em que opera a ayahuasca –, revisitava a mesma alucinação que havia me ocorrido em uma sessão ocorrida dois meses antes. Desta vez, mudei o foco de minha mirada interior (iMax, 3D, surround com hipermegasubwoofers) e passei a olhar para dentro dos meus próprios miolos, aquelas volutas barrocas que não paravam se multiplicar como minhocas, cuja terra fossem as minhocas mesmas, saindo de si próprias.

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Ao mesmo tempo, percebia precisamente quais regiões cerebrais estavam sendo iluminadas naquele instante pela planta que havia engolido (e cujos efeitos refletiam os minhocais em movimento que se regozijavam enterrados em minha caixa craniana). E da carne de miolo que escorria do moedor, puxei um pouco mais a mirada para cima, vendo a mão que jogava a carne no moedor, e então para o braço, e daí para o cara que trabalhava no açougue e estava ali somente cumprindo o desejo de um cliente por “um quilo de cérebro moído duas vezes por favor“. E o cliente era eu, e o açougueiro era eu. E eu pergunto para mim mesmo: – Entender ou explicar? A segunda vez que triturei meus miolos foi durante uma experiência em São Roque conduzida por Ichiro Takahashi. O fato de ficar a apenas 100 quilômetros de São Paulo e ter um grande número de propriedades isoladas em sua zona rural favorecem a multiplicação de templos daimistas e núcleos xamânicos. A sessão ocorre num imenso salão totalmente envidraçado, com capacidade para 200 pessoas, localizado em um sítio em um condomínio de alto padrão, de propriedade de um industrial milionário. Aos 39 anos, o paulistano Takahashi, filho de japoneses e morador a vida toda da Vila Madalena, simboliza o outro pólo segundo a categorização de Beatriz Labate: ele é o homem urbano que partiu em busca de outras experiências psíquicas e trouxe o seu saber de volta para a cidade.


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Takahashi entrou aos 20 anos no Daime, saindo pouco tempo depois por divergências com o comando da organização. Como tantos jovens no fim dos anos 80, conheceu a ayahuasca em Visconde de Mauá e foi pesquisar suas origens no Acre. Resolveu abandonar a faculdade de administração de empresas na PUC. Em 1993 Takahashi introduziu a ayahuasca no Japão, país em que ficou durante três anos estudando, com um antigo mestre do pai, a filosofia chinesa qi-gong, que combina artes marciais, meditação e terapia energética. Quando foi ao Peru, em um congresso espiritual em Tarapoto, descobriu as bases de sua sessão xamânica, em que combina medicinas como o rapé e o tabaco e trabalhos de cura com ervas, perfumes e outra planta psicoativa: a ayahuma, cujas flores estão sob a imagem clássica do Buda hinduísta. Após essa viagem, morou alguns anos na França, onde conheceu a psicomagia de Alejandro Jodorowski, foi ao Egito estudar a luta kempô, no México procurou os curandeiros que usam cogumelos mágicos… “Diria que sou um psiconauta clássico, um viajante da mente“, define-se, esquivando-se de ser rotulado como um guru. Todos esses saberes convergiram em sua sincrética sessão: cânticos peruanos (que são chamados de ícaros), hindus, daimistas, melodias indígenas tocadas com diversas flautas, harmonias minimalistas concebidas com um violão de 12 cordas, tambores africanos e um dramático gongo, usado para encerrar a sessão. Se uma sessão xamânica é, como todo ritual, sobretudo uma experiência estética, os dotes musicais e teatrais de Ichiro o colocam certamente como um artista. No entanto, o magro nissei de 1,60m, modos elegantes, quase sempre vestido em estilo casual clássico, não gosta de se intitular xamã. “Desenvolvo um trabalho de cura, uma proposta de desenvolvimento de consciência, e me considero ainda em treinamento. Partilho uma medicina que é de uma extrema generosidade – mas não é porque você usa ayahuasca que é xamã“, me diz. Takahashi não considera o

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xamanismo como religião. “Minha proposta é clara: não sou pai de ninguém. Proponho o desenvolvimento da consciência com liberdade e responsabilidade. A força é um espaço psíquico muito delicado“, analisa.

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O paulistano critica a prática sistemática da ayahuasca como terapia – e condena seu uso recreativo. “A prática é ritualizada porque contém a experiência da pessoa. Essas medicinas não são panacéias. Substâncias psicoativas não dão o passaporte para o céu. E há pessoas que não devem usar isso. Não é para todo mundo“, alerta. Usando linguagem cibernética, Takahashi considera a dinâmica de morte e renascimento durante a prática xamânica como “um processo de desmembramento e reconstrução: você reconfigura seu sistema. Mas nem todo mundo pode passar por essa desfragmentação. Essas práticas são borderline, se aproximam da morte, no sentido espiritual. É um trabalho cirúrgico no plano da alma em que às vezes é melhor não entrar. Eu uso todos os instrumentos disponíveis para fazer uma boa passagem, reorganizar a vida da pessoa. Mas, dependendo de como a pessoa se apresentar, não passa da entrevista“, me afirma, sério. Detalhe inescapável – e controverso – é o pagamento. Uma sessão com Takahashi não custa menos de R$ 200 – a de Txana Bane, R$ 150. Em média, os cultos daimistas pedem R$ 30 para participar de uma cerimônia, como forma de cobrir os custos. Não é complicado misturar religiosidade e dinheiro? “O investimento é necessário para dar um intuito profissional à sessão. Afinal, se trata de um trabalho“, afirma Takahashi. “Há outras questões, como os gastos para fazer e trazer a medicina. Minha ayahuasca vem do Peru. Além do mais, o dinheiro em si tem uma energia. O custo tem o peso de algo importante“, conta-me ele. Takahashi lembra que o dinheiro jamais pode ser uma idéia central da prática. “Dependendo da necessidade da pessoa em dispor daquela sessão terapêutica, se não dispuser de capital eu a convido, sem problema. O contexto essencial é o da cura”, diz. Mesmo assim, nota-se que o alto custo é um dos componentes tribais – e bem contemporâneos – dessa tendência, que não prescinde da idéia de exclusividade. O outro é o terroir, a “denominação de origem” da planta. Há diversas maneiras de obter a ayahuasca. Existem sites que vendem folhas de chacrona a R$ 24,90 – e há até ayahuasca já pronta, a domicílio. No sul de Minas Gerais e no norte de Florianópolis, há grandes áreas onde se planta o jagube e a chacrona nos mesmos termos como se pratica no Acre. Importa sobretudo a questão do feitio, que é o nome dado à maceração e cozimento das plantas. Conhece-se “chefs” ayahuasqueiros de renome. A ayahuasca de Takahashi vem do norte de Pucallpa, berço de uma das mais antigas civilizações. Ao fim da sessão, um dos participantes, que é fardado no Daime, me disse que jamais conheceu algo tão forte – afinal, a ayahuasca trazida pelo paulistano é fervida e fermentada dez vezes (no Daime, o processo ocorre apenas uma vez).

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Há quem diga que usa a sessão para curar uma tristeza advinda da perda de um parente; há quem busque o auto-conhecimento; há quem tenha vindo por curiosidade; há ayahuasqueiros experimentados, que tencionam canalizar a energia para uma questão emocional específica, como um nó afetivo familiar; há quem pretenda sentir-se conectado com a natureza; há até quem queira se curar de déficit de atenção… O xamã desliga as luzes, acende três velas, toca um sino, liga seu iPod num murmúrio de vento sussurrante, pede proteção aos espíritos, conta que o trabalho ali realizado começa por um “desmascaramento do ego” e, a seguir, chama um por um e começa a cantar…

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Hoje, estão presentes três mulheres e seis homens. Em círculo, estão dipostos colchonetes, edredons, cobertores – e baldes. Takahashi inicia o programa ministrando uma sessão de uma hora de auto-massagem. Em seguida, pede que cada um se apresente e conte “seu propósito“: o que veio procurar ali?

Em meia hora, os efeitos da ayahuasca surgem. Visualmente, são poliedros tridimensionais cujos contornos se equilibram num gradiente do amarelo-ouro ao lilás. O cenário dissolve-se em infinitos padrões geométricos que se movem tridimensionalmente e se multiplicam e uma luz intensa que parece vir detrás dos globos oculares. As melodias e percussões tocadas por Takahashi perdem-se numa câmera de incontáveis ecos, amortecidos por sussurros e vozes que falam frases incompreensíveis. Na primeira “onda“, o êxtase bate com força considerável, trazendo ao corpo uma estranha sensação orgástica – nada físico, apenas mental, mas partilhado por cada célula do organismo. E internamente… bem. Nesse ponto a objetividade jornalística colapsa: estamos num lugar em que as noções de antes, durante e depois, aqui, lá e acolá não fazem mais nenhum sentido. Estamos em plena força. Imagine um parque de diversões cujas atrações são as suas próprias histórias pessoais.

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Para seguir na metáfora, a dinâmica de montanha-russa da ayahuasca às vezes te joga para cima, às vezes te empurra para baixo.

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Me recordo que o xamã tocava há minutos – ou há horas – o seu atabaque. Durante toda a cerimônia, em que minha mente ia e voltava, sentia o quanto a perfomance musical de Takahashi era essencial para criar uma espécie de narrativa para a medicina: um fio condutor que cadenciava os remansos e os paroxismos das mirações como um pulsar de eletroencefalograma. Nas palavras dos ícaros, surgem imagens ancestrais, arquetípicas: serpentes, condores, jaguares, árvores, o vento, a terra – e sobretudo, a planta. As imagens dos cânticos povoam minhas próprias narrativas interiores. Histórias longas, em que revisitava parentes mortos e tinha longas conversas com amigos e amores, alguns deles vivos décadas depois daquela sessão – lembro-me particularmente de uma conversa que tive com meu filho de oito anos, com 40 anos na minha miração. Sentia em profundidade as histórias que passeavam por nosso círculo; captava as emanações emocionais de cada uma das pessoas ali no salão; sofria de perto com o sofrimento psíquico de um colega; sabia o que cada um sentia, e entendia o que cada um pensava. Uum dos nomes antigos da ayahuasca é justamente “telepatina”. Entenda, leitor: não é fácil explicar. Incontáveis jornadas depois – a sensação que tenho é que estou aqui há dias –, percebo que meus jogos mentais com as palavras são inviáveis para descrever o que acontece comigo neste instante. As figuras do observador e do observado se agridem e se combinam simultaneamente – e olho para meu bloco de notas com melancolia. De novo vejo ser impossível escrever. Ao mesmo tempo, tenho a consciência de que somente examino minha história pessoal com extrema lucidez, com uma lupa superpotente: não estou alucinando. Então fecho os olhos. Quando resolvo comer o prato oferecido pelo garçom (que sou eu mesmo, assim como o açougueiro, que moeu o cérebro usado pelo cozinheiro, que também sou eu mesmo), tão logo sinto que minha mente invade o meu corpo, tenho uma sensação repentina, porém indubitável, de que enfiei minha cabeça para dentro de um espaço muito escuro. Como se eu tivesse me atirado em uma piscina refrescante e acolhedora – mas, ao mesmo tempo, pantanosa. Eu havia fugido dessas regiões insondáveis, que aparecem a cada náusea, cada onda de levante da ayahuasca – agora, entretanto, nadando naquela piscina, não conseguia mais escapar. Tinha que encarar a escuridão. E era bom, ao mesmo tempo que terrível. Assim, mergulhei… E morri.

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A treva refrescante naquela piscina metafísica foi curta, mas não havia dúvida: eu me encontrava em pleno reino da morte. Do outro lado da piscina estava Ronaldo Bressane: o ser que eu era havia se despedido do ego. Porém, eu talvez ainda não estivesse preparado para ficar longe de mim. Daí, pulo da piscina, me inclino sobre o balde… e lanço um jorro curto, preciso e revigorante. Depois de um tempo zonzo, abro os olhos e aciono o GPS: estou de volta ao no salão envidraçado ao meu redor. É quando percebo que estou do lado de fora da


“força“, e, por extensão, da piscina mortal – meu estômago talvez tenha me salvado de um mergulho mais profundo.

Encerrando a “limpeza” – afinal, a sessão também é uma experiência purgativa –, Takahashi apanha seu gongo e o golpeia sem dó, “banhando” os participantes com altíssimos decibéis. O som atravessa cada uma das minhas células. Lágrimas escorrem dos olhos de muitos dos circunstantes. A sensação é de ouvir ao mesmo tempo cem orquestras sinfônicas combinadas a uma centena de shows do Sepultura (na fase boa). O gongo é puro white noise, a soma de todas as frequências sonoras, absurdamente altas. Quando o gongo para de vibrar, noto o salão inundado de luz. É o sol que nasce. Takahashi retorna a seu lugar ao centro do círculo, agradece ao “avô fogo”, a várias entidades, aos participantes da sessão. São seis da manhã. O xamã toca um sino: a cerimônia se encerra. Passei um par de horas observando o fulgir das estrelas, que ainda brilham de um lado do salão, enquanto que do outro o sol impõe-se. Sete de agosto de 2010, dia em que astrólogos do mundo todo advertiam para um inusual alinhamento de planetas, que ocorreria a cada 500 anos. Muitos eventos como este eram praticados ao redor do mundo. Pressentia – ou melhor, sabia – a inevitável conexão dos astros comigo e com as plantas do sítio. Qualquer outra expressão que use aqui infelizmente cairá dentro da prosódia hippie… então, se pudesse usar só uma imagem, optaria por bem-aventurança em pânico. Refletindo sobre a experiência, finalizava a sessão sem entender, nem saber como explicar. Nem melhor, nem pior. Somente pacificado, assistindo ao sol nascer com seu costumeiro desdém; o sol que me trazia, como sempre, mais perguntas que respostas.

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Enquanto me prostro extenuado sobre o colchonete, resgatando os últimos fiapos de memórias muito antigas, Takahashi procede à série de “sopladas” e me devolve a um estado tranquilo. Conforme o fazer dos xamãs andinos, a soplada usa o marpaccio, o tabaco quéchua, como princípio curativo: ele traga o fumo e o sopra sobre minha cabeça, meu peito, minhas mãos. Realiza o mesmo com ervas e perfumes, que trazem alívio imediato ao malestar. Sempre sem parar de cantar. A sensação que se tem é de consagração – estamos nos domínios do sagrado: não há a menor possibilidade de sentir essa experiência com uma conotação festiva. Aqui estamos fora do tempo.

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SALTO QUÂNTICO DE CONSCIÊNCIA

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A cada dia mais e mais pesquisadores ligados ao estudo da consciência, antropologia, psicologia e botânica se debruçam sobre uma possibilidade no mínimo intrigante e polêmica. É provável que as plantas psicoativas (que induzem a mente a funcionar em estados especiais) possam ter contribuído significativamente para o surgimento da autoconsciência, fator decisivo que proporcionou aos nossos ancestrais, num determinado ponto da evolução, as condições para sobreviver e gerar a incrível espécie a qual pertencemos: o Homo sapiens. Admitir tal hipótese é mexer num vespeiro. Muita gente se indagará: “Quer dizer que nós humanos só existimos porque um bando de macacos comeram umas plantinhas e ficaram doidões?” Imagino os mais religiosos: “Era só o que faltava! Deixa só Deus escutar isso!” Pois infelizmente para muita gente, e até para alguns deuses, essa hipótese vem sendo estudada com seriedade e encontra ressonância positiva no meio científico. Quem já passou por uma experiência com as tais “plantas sagradas”, como a Ayahuasca, o Peiote e a Jurema, sabe perfeitamente do imenso poder que elas guardam. E sabe também que elas não se prestam a um consumo recreativo, exatamente porque costumam tocar muito fundo em nosso interior, abalando nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos fazendo emergir da experiência profundamente transformados. Xamãs e pajés do mundo inteiro as utilizam há milhares de anos em contextos religiosos e terapêuticos. Atualmente médicos e pesquisadores de vários países estão unindo medicina acadêmica com antiquíssimas práticas xamânicas que envolvem o uso de plantas psicoativas e, com essa curiosa união, vêm obtendo resultados animadores na cura de muitas doenças como a dependência química. Atualmente no Brasil proliferam-se seitas e dissidências de seitas que em seus rituais utilizam chás à base dessas plantas, chamando a atenção de estudiosos para o emergente fenômeno. Toma-se o chá para entrar num estado de consciência não ordinário, onde é possível viver experiências sensoriais e cognitivas as mais diversas. Há quem encontre pessoas vivas ou mortas, santos, entidades animais ou espíritos de plantas. Há os que experimentam capacidades psíquicas incomuns ou vivenciam uma intensa sensação de união com a Natureza e tudo que existe. Há quem passe por profundas experiências de auto-investigação psicológica como também de autocura ou seja tocado por revelações importantes que podem mudar toda uma vida. Pode não acontecer nada mas também pode ser prazeroso ou doloroso. Pode ser infernal ou divino mas será sempre construtivo. Depende de cada um e de seu momento. Os religiosos radicais, sempre obcecados, diriam que é coisa do demônio. Alguns psicólogos talvez usassem o termo “terapia de choque”. Talvez nada mais seja que um providencial reencontro consigo mesmo e com sua verdade mais íntima.

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Por que a crescente procura atual pelas plantas de poder dos xamãs? Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo? Minha impressão é que isso tudo talvez signifique, em última instância, uma forma de religação à Natureza. Religação sim, porque, na


verdade, nós também fazemos parte da Natureza. O que houve é que, infelizmente, passamos a nos ver separados dela e com isso nos distanciamos demais da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo cada vez mais caótico e insano, buscamos com avidez crenças e experiências que nos reconectem ao sentido maior da vida e às nossas verdades mais profundas. Entendo isso como um anseio natural e legítimo de uma espécie adoecida: o anseio de cura, liberdade, totalidade e harmonia com a Mãe Terra.

Por minha própria experiência, sei que plantas psicoativas podem ser bastante úteis porque nos fazem olhar para dentro, nos reconectam às leis naturais e ao sagrado de nossas vidas, nos lembram de nosso potencial para a autocura e ajudam a nos libertarmos de medos, culpas e bloqueios. Não há como não se transformar após um profundo encontro consigo mesmo. É por isso que quem passa por tais experiências xamânicas engrossa a legião dos que entendem o mais importante: somente a profunda mudança interior de cada um é que fará finalmente com que o mundo mude para melhor. Este talvez seja o convite que as plantas sagradas fazem neste momento à nossa espécie: quanto mais pessoas se religarem à sua verdade mais íntima, mais próxima a humanidade estará de seu ponto de equilíbrio. Por outro lado, sei também que a espécie humana está doente e que, na busca angustiada pela cura, é capaz de exagerar no remédio. Por isso, nessa urgente busca por valores espirituais, é preciso, acima de tudo, priorizar a liberdade e atentar para o risco sempre presente de cairmos escravos exatamente daquilo que um dia elegemos como libertador. As plantas sagradas não ficam de fora desse perigo. Tenho amigos que fazem parte de seitas que utilizam tais plantas e certamente discordarão. Respeito o que eles pensam e admiro sua busca pessoal. Porém, como tudo o mais que existe, as plantas sagradas também possuem dois lados. Se um lado liberta, o outro está lá prontinho para escravizar caso você não se mantenha atento, equilibrado e sem apegos excessivos.

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O que liberta também escraviza.

Religiões, seitas e gurus funcionam muito bem para os que necessitam de regras ou se sentem mais seguros pertencendo a um certo grupo. Eles estão em seu caminho e isso deve ser respeitado. Mas há pessoas que conseguem beber em todos os ensinamentos e usufruir do melhor que eles lhes oferecem sem ter de se enquadrar em nenhum específico. É um caminho mais solitário, evidente, e exige um contínuo “estar aberto” - mas que exatamente por isso recompensa quem o trilha com a liberdade que nenhum outro caminho pode oferecer. As regras da seita ou as palavras do guru podem até iluminar durante um tempo, sim, mas até mesmo essa luz pode cegar para os horizontes seguintes da jornada. O principal ensinamento das plantas de poder (assim como deveria ser o de todo guru) é este: devemos abandonar todas as muletas e aprender a caminhar por nós mesmos. O atual processo coletivo de reconectar-se aos valores da Natureza através das plantas psicoativas não significa uma espécie de retrocesso evolutivo e que devemos voltar a saltar pelas árvores. Nada disso. Uma vez ultrapassados, os marcos da evolução da consciência sempre nos impulsionam para o novo, jamais para trás. Acontece que a verdadeira evolução avança em forma de espiral e é por isso que quando o caminho parece retornar a um

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determinado ponto, na verdade ele está sim passando novamente por lá - porém num novo nível, mais acima, numa nova dimensão.

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Talvez essas poderosas plantas, que acompanham nossa espécie desde seu nascimento numa impressionante relação simbiótica, estejam agora nos oferecendo a preciosa oportunidade de mais um salto quântico da consciência, uma intensa transformação da mente e de sua interpretação da realidade - como fizeram nossos peludos antepassados em algum ponto de sua jornada. Agora, porém, diferente deles, possuímos razão e discernimento. Possuímos milênios e milênios de experiência sedimentados no inconsciente comum da espécie e temos nossos próprios erros para nos guiar.

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Retornaremos à Mãe Terra e ao sagrado, sim, porque não há outro caminho se quisermos de fato sobreviver como espécie. Mas o faremos num novo nível porque agora estamos mais capacitados para enfrentar o grande mistério da vida, esse mistério que nos maravilha e assombra cada vez que olhamos para o sem-fim do mundo lá fora ou para o infinito interior de nós mesmos.

Fernando Guedes


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