Page 1


2


O LIVRO DE THOTH UM CURTO ENSAIO SOBRE O TARÔ DOS EGÍPCIOS

SENDO

THE EQUINOX, VOLUME III, NÚMERO V

PELO

M ESTRE THERION (ALEISTER CROWLEY)

PINTURA

DAS CARTAS:

AN IXVIII SOL 21

IN

DE MARÇO DE

FRIEDA HARRIS

O° O’ O” ARIES

1944

3

E.V.

5:29

P.M.


4


RODA E ‒ WHOA!

A Grande Roda de Samsara. A Roda da Lei (Dhamma). A Roda do Tarô. A Roda dos Céus. A Roda da Vida. Todas estas Rodas são uma; porém, de todas elas, apenas a Roda do tarô é de teu proveito consciente. Medita longa e larga e profundamente, oh homem, sobre esta Roda, revolvendo-a em tua mente! Seja esta tua tarefa: ver como cada carta brota necessariamente de outra carta, na devida ordem, do Louco ao Dez de Ouros. Então, quando tu conheceres a Roda do Destino por completo, tu talvez percebas AQUELA Vontade que a moveu primeiramente. [Não há primeiro ou último.] E eis tu passaste pelo Abismo.

O Livro das Mentiras ΚΕΦ. ΟΗ.

5


6


7


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE: A TEORIA DO TARÔ I ‒ O Conteúdo do Tarô

13

II ‒ O Tarô e a Santa Qabalah

23

III ‒ O Tarô e o Universo

33

SEGUNDA PARTE: OS ATUS (CHAVES OU TRUNFOS) 0 ‒ O Louco

55

I ‒ O Prestidigitador

69

II ‒ A Alta Sacerdotisa

73

III ‒ A Imperatriz

76

IV ‒ O Imperador

78

V ‒ O Hierofante

80

VI ‒ Os Amantes (ou Os Irmãos)

82

VII ‒ A Carruagem

86

VIII ‒ O Ajustamento

88

IX ‒ O Eremita

91

X ‒ Fortuna

93

XI ‒ Volúpia

95

XII ‒ O Pendurado

99

XIII ‒ Morte

103

XIV ‒ Arte

106

XV ‒ Diabo

109

XVI ‒ A Torre (ou Guerra)

112

XVII ‒ A Estrela

114

XVIII ‒ A Lua

117

XIX ‒ O Sol

119

XX ‒ O Æon

121

XXI ‒ O Universo

123

Apêndice

127

8


TERCEIRA PARTE: AS CARTAS DA CORTE Observações Gerais

149

Características Gerais dos Quatro Dignitários

149

Descrição Sumária das Dezesseis Cartas da Corte

151

Cavaleiro de Bastões

153

Rainha de Bastões

155

Príncipe de Bastões

157

Princesa de Bastões

159

Cavaleiro de Copas

161

Rainha de Copas

163

Príncipe de Copas

165

Princesa de Copas

167

Cavaleiro de Espadas

169

Rainha de Espadas

171

Príncipe de Espadas

173

Princesa de Espadas

175

Cavaleiro de Discos

177

Rainha de Discos

179

Príncipe de Discos

181

Princesa de Discos

184

QUARTA PARTE: AS CARTAS MENORES Os Quatro Ases

188

Os Quatro Dois

188

Os Quatro Três

189

Os Quatro Quatros

190

Os Quatro Cincos

190

Os Quatro Seis

191

Os Quatro Setes

192

Os Quatro Oitos

193

Os Quatro Noves

195

Os Quatro Dez

196

A Raiz dos Poderes de Fogo ‒ Ás de Bastões

198

9


Domínio ‒ Dois de Bastões

199

Virtude ‒ Três de Bastões

201

Conclusão ‒ Quatro de Bastões

202

Disputa ‒ Cinco de Bastões

203

Vitória ‒ Seis de Bastões

205

Valor ‒ Sete de Bastões

206

Rapidez ‒ Oito de Bastões

207

Força ‒ Nove de Bastões

208

Opressão ‒ Dez de Bastões

209

A Raiz dos Poderes da Água ‒ Ás de Copas

210

Amor ‒ Dois de Copas

211

Abundância ‒ Três de Copas

213

Luxúria ‒ Quatro de Copas

214

Desapontamento ‒ Cinco de Copas

216

Prazer ‒ Seis de Copas

217

Deboche ‒ Sete de Copas

219

Indolência ‒ Oito de Copas

220

Felicidade ‒ Nove de Copas

221

Saciedade ‒ Dez de Copas

223

Ás de Espadas

224

Paz ‒ Dois de Espadas

226

Dor ‒ Três de Espadas

227

Trégua ‒ Quatro de Espadas

228

Derrota ‒ Cinco de Espadas

229

Ciência ‒ Seis de Espadas

231

Futilidade ‒ Sete de Espadas

232

Interferência ‒ Oito de Espadas

233

Crueldade ‒ Nove de Espadas

234

Ruína ‒ Dez de Espadas

235

Ás de Discos

237

Mudança ‒ Dois de Discos

240

Trabalho ‒ Três de Discos

241

Poder ‒ Quatro de Discos

242

Preocupação ‒ Cinco de Discos

244

Sucesso ‒ Seis de Discos

245 10


Fracasso ‒ Sete de Discos

246

Prudência ‒ Oito de Discos

247

Ganho ‒ Nove de Discos

249

Riqueza ‒ Dez de Discos

250

Invocação

252

Os ATUS: Mnemônica

253

APÊNDICE A O Comportamento do Tarô: seu uso na Arte da Adivinhação

255

APÊNDICE B Diagramas e Correspondências

267

11


12


PRIMEIRA PARTE A TEORIA DO TARÔ

13


14


I O CONTEÚDO DO TARÔ

O Tarô é um baralho de setenta e oito cartas. Há quatro naipes, tal como nos baralhos atuais, que dele são derivadas. Porém, as cartas da corte são em número de quatro, ao invés de três. Adicionalmente, existem vinte e duas cartas chamadas de trunfos, das quais cada qual é uma figura simbólica com um título próprio. À primeira vista, pode-se supor que a sua disposição seja arbitrária, mas não é. Ela é ligada, como se revelará mais tarde, à estrutura do universo e do Sistema Solar em particular, tal como simbolizado pela Santa Qabalah, o que será explicado no momento oportuno.

A ORIGEM DO TARÔ

A origem desse baralho é muito obscura. Algumas autoridades procuram fazê-la recuar aos antigos Mistérios Egípcios, outras tentam fazê-la avançar a uma época tão recente quanto o século XV, ou mesmo o XVI. Porém, o Tarô certamente existia desde o século XIV, sob o que pode ser denominado sua forma clássica, visto que baralhos dessa data ainda existem, e sua forma não alterou em nenhum aspecto considerável desde aquela época. Na Idade Média, essas cartas eram bastante empregadas na adivinhação e cartomancia, especialmente pelos ciganos, de modo que era costume referir-se ao Tarô dos Boêmios ou Egípcios. Quando foi descoberto que os ciganos, a despeito da etimologia da palavra, eram de origem asiática, algumas pessoas tentaram encontrar a fonte do Tarô na arte e literatura indianas. Não há necessidade, aqui, de adentrarmos qualquer discussão acerca desses pontos controvertidos. 1

1

Alguns eruditos supõem que a R.O.T.A. (Rota, roda) consultada no Collegium ad Spiritum Sanctum (ver o manifesto Fama Fraternitatis dos irmãos da Rosy Cross) era o Tarô.

15


A TEORIA DAS CORRESPONDÊNCIAS DO TARÔ

Para o nosso propósito, tradição e autoridade carecem de importância. A Teoria da Relatividade de Einstein não se apoia no fato de ter sido confirmada quando foi submetida à prova. A única teoria de fundamental interesse a respeito do Tarô é que ele é um admirável retrato simbólico do universo, baseado nos dados da Santa Qabalah. Será conveniente, no desenrolar deste ensaio, descrever a Santa Qabalah, até certo ponto completamente, e discutir sobre os seus detalhes relevantes. A parte dela que aqui nos importa chama-se Gematria, uma ciência na qual o valor numérico de uma palavra hebraica ‒ sendo cada letra também um número ‒ liga tal palavra a outras de valor idêntico, ou um múltiplo seu. Por exemplo, AChD, unidade (1 + 8 + 4 = 13), e AHBH, amor (1 + 5 + 2 + 5 = 13). Isto indicaria que a natureza da unidade é o amor. Daí, IHVH, Jehovah (10 + 5 + 6 + 5 = 26 = 2 × 13). Portanto Jehovah é unidade manifestada na dualidade, e assim por diante. Uma importante interpretação do Tarô é que ele é um Notariqon da Torah hebraica, a Lei, e também de ThROA, o portal. Ora, pelas atribuições yetziráticas (ver tabela no final), pode-se ler nessa palavra “O Universo”, o sol recém nascido, zero. Esta é a verdadeira doutrina mágica de Thelema: o zero é igual a dois. Do mesmo modo, pela Gematria, o valor numérico de ThROA é 671 = 61 × 11. Ora, 61 é AIN, nada ou zero, e 11 é o número da expansão mágica; desta maneira, também, consequentemente, ThROA anuncia aquele mesmo dogma, a única explicação filosófica satisfatória do cosmos, sua origem, modo e objeto. Um completo mistério circunda a questão da origem deste sistema; qualquer teoria que satisfaça os fatos exige hipóteses que são inteiramente absurdas. Para explicálo cabalmente é preciso apresentar como postulado, no pretérito obscuro, uma fantástica assembleia de doutos rabinos que solenemente calcularam todos os tipos de combinações de letras e números e criaram a língua hebraica com base nessa série de manipulações. Tal teoria é francamente contrária não apenas ao senso comum como também aos fatos históricos e a tudo que conhecemos acerca da formação da língua. E, não obstante, há uma evidência igualmente forte de que existe algo, não um pouco de algo, mas muito de algo, um algo que exclui todas as teorias de coincidência plausíveis, na correspondência entre palavras e números. Constitui fato inegável que qualquer número não é meramente um a mais que o número anterior e um a menos que o número subsequente, mas sim uma ideia individual independente, uma coisa em si, uma substância espiritual, moral e intelectual, não apenas equiparável a qualquer ser humano, mas muito superior. Suas relações meramente matemáticas são realmente as leis de seu ser, mas não constituem o número, tanto quanto as leis químicas e físicas da reação na anatomia humana não proporcionam um retrato completo de um homem.

16


EVIDÊNCIA DE UMA TRADIÇÃO DE INICIADOS DO TARÔ

1. Éliphas Lévi e o Tarô

Embora as origens do Tarô sejam perfeitamente obscuras, há uma porção bastante interessante da história absolutamente moderna, bem enquadrada na memória do homem vivo, que é extremamente significativa e em relação à qual se constatará, à medida em que a tese é desenvolvida, que sustenta o Tarô de uma forma notabilíssima. Em meados do século XIX, surgiu um grande cabalista e estudioso, que ainda incomoda as pessoas obtusas devido ao seu hábito de divertir-se às suas custas, fazendoas de tolas postumamente. Seu nome era Alphonse Louis Constant e era um abade da Igreja romana. Para obter seu nom-de-guerre, traduziu seu nome de batismo para o hebraico: Éliphas Lévi Zahed, sendo conhecido mais comumente por Éliphas Lévi. Lévi era um filósofo e um artista, além de ser um supremo estilista em literatura e um gracejador prático da variedade denominada Pince sans rire; e, sendo artista e profundo simbolista, era imensamente atraído pelo Tarô. Quando se achava na Inglaterra, propôs a Kenneth Mackenzie, famoso estudioso do oculto e maçom de alto grau, a reconstituição e edição de um baralho concebido cientificamente. Nas suas obras, ele apresenta novas representações dos trunfos chamados A Carruagem e O Diabo. Parece ter entendido que o Tarô era realmente uma forma pictórica da Árvore da Vida qabalística, que é a base de toda a Qabalah, a tal ponto que compôs suas obras apoiando-se sobre essa base. Quis escrever um tratado completo de magia. Dividiu seu assunto em duas partes: teoria e prática, as quais denominou, respectivamente, Dogma e Ritual. Cada parte possui vinte e dois capítulos, um para cada qual dos vinte e dois trunfos; cada capítulo trata do assunto representado pela figura exibida pelo trunfo. A importância da precisão da correspondência será mostrada no devido tempo. Neste ponto, aportamos para uma ligeira complicação. Os capítulos apresentam correspondência, mas o fazem erroneamente, o que só pode ser explicado pelo fato de Lévi sentir-se preso pelo seu juramento original de segredo à Ordem dos Iniciados que lhe concedera os segredos do Tarô.

2. O Tarô nos manuscritos cifrados

Na época da Revolução Francesa, a partir dos meados do século XVIII, ocorreu um movimento similar na Inglaterra, cujo interesse se centrava nas religiões antigas, 17


suas tradições de iniciação e taumaturgia. Sociedades de estudiosos, algumas secretas ou semi-secretas, foram fundadas ou restabelecidas. Entre os membros de um desses grupos (a Loja maçônica Quatuor Coronati), havia três homens: o Dr. Wynn Westcott, um médico legista de Londres, o Dr. Woodford e o Dr. Woodman. Há certa controvérsia quanto a qual desses homens se dirigiu a Farrington Road, ou se foi a Farrington Road que se dirigiram. Qualquer que seja o caso, não há dúvida de que, lá, um deles comprou um livro antigo, de um obscuro livreiro ou o encontrou numa biblioteca. Isso aconteceu em torno de 1884 ou 1885, e é indiscutível que nesse livro se encontravam alguns documentos avulsos, cifrados. Esses manuscritos cifrados continham o material para a fundação de uma sociedade secreta, a qual pretendia conferir a iniciação por meio de rituais. Entre aqueles manuscritos, havia uma correspondência dos trunfos do Tarô às letras do alfabeto hebraico. Quando isto é examinado, fica absolutamente claro que a atribuição errada de Lévi relativamente às letras foi deliberada, pois ele conhecia a correspondência correta e considerava seu dever ocultá-la (tendo-lhe sido grandemente problemático camuflar seus capítulos!). Supõe-se que os manuscritos cifrados datavam dos primeiros anos do século XIX. Há uma nota numa das páginas que parece ser na letra de Éliphas Lévi. Parece extremamente provável que ele tenha tido acesso a esse manuscrito quando visitou Bulwer-Lytton na Inglaterra. De uma forma ou de outra, como já foi observado, Lévi mostra constantemente que conhecia as correspondências corretas (com a exceção, é claro, de Tzaddi; ‒ por quê? ‒ veremos na sequência) e tentou usá-las sem desvelar indevidamente quaisquer dos segredos que havia jurado guardar. Tão logo se esteja de posse das correspondências ou atribuições verdadeiras, o Tarô salta para a vida. Sua justeza causa perplexidade intelectual. Todas as dificuldades produzidas pelas atribuições tradicionais, tal como entendidas pelos estudiosos comuns, desaparecem num átimo. Por esta razão, tende-se a dar crédito à pretensão dos promulgadores do manuscrito cifrado, de que eram guardiões de uma tradição da verdade.

3. O Tarô e a Ordem Hermética da Golden Dawn

Deve-se agora discorrer a respeito da história da Ordem Hermética da Golden Dawn, a sociedade reconstituída pelo Dr. Westcott e seus colegas, a fim de exibir provas adicionais da autenticidade da pretensão dos promulgadores do manuscrito cifrado. Em meio a esses documentos, além da atribuição do Tarô, havia certos esboços de rituais, que pretendiam conter os segredos da iniciação; o nome (com um endereço na Alemanha) de uma certa Fraülein Sprengel era mencionado como se fosse o da autoridade emissora. O Dr. Westcott escreveu-lhe e, mediante a permissão dela, a Ordem da Golden Dawn foi fundada em 1886. 18


(A G.D. é apenas um nome da Ordem Externa ou Preliminar da R.R. et A.C.,2 que é, por sua vez, uma manifestação externa da A...A...,3 que é a verdadeira Ordem dos Mestres 4 (ver Magick). O gênio que tornou isso possível foi um homem chamado Samuel Liddell Mathers. Depois de certo tempo, Fraülein Sprengel morreu. Uma carta a ela dirigida, solicitando conhecimento mais avançado, ensejou uma resposta de um de seus colegas. Esta carta informava ao Dr. Westcott sobre a morte dela e acrescia que o autor da missiva e seus colegas jamais haviam aprovado a ação de Fr. Sprengel, no sentido de autorizar qualquer forma de trabalho de grupo, mas que, devido à grande reverência e estima que tinham por ela, preferiram deixar de adotar uma oposição aberta. Prosseguia dizendo que “essa correspondência tinha que cessar agora”, mas que, se eles desejassem mais conhecimento avançado, poderiam perfeitamente obtê-lo utilizando de maneira apropriada o próprio conhecimento que já detinham. Em outras palavras, deviam empregar seus poderes mágicos para fazer contato com os Chefes Secretos da Ordem (o que é, a propósito, um procedimento bastante normal e tradicional). Pouco depois, Mathers, que fizera manobras que o levaram à chefia da Ordem, anunciava que havia realizado esse vínculo e que os Chefes Secretos o tinham autorizado a continuar o trabalho da Ordem, sob sua exclusiva orientação. Entretanto, nada há, neste caso, que evidencie que seu testemunho correspondesse à verdade, pois nenhum conhecimento novo particularmente importante chegou à Ordem, a ponto de realmente parecer comprovado existir não mais do que aquilo que Mathers poderia ter adquirido por meios normais, de fontes bastante acessíveis, como o Museu Britânico. Estas circunstâncias, somadas a muita intriga trivial, conduziram a uma séria insatisfação entre os membros da Ordem. Nesse caso, a ideia defendida por Fr. Sprengel, de que o trabalho de grupo numa Ordem deste tipo é possível, revelou-se equivocada. Em 1900, a Ordem, sob a forma então existente, estava destruída. O motivo desses dados é simplesmente mostrar que, naquela época, a preocupação principal de todos os membros sérios da Ordem era entrar em contato com os próprios Chefes Secretos. Em 1904, o sucesso foi obtido por um dos mais jovens membros da Ordem, Frater Perdurabo. Os detalhes completos deste acontecimento são dados em The Equinox of the Gods (O Equinócio dos Deuses). 5 Não seria útil, nesta oportunidade, discutir-se sobre a prova que estabelece a verdade dessa pretensão. Mas cumpre observar que se trata de evidência interna. Ela 2

Rosae Rubeae et Aureae Crucis (NT).

3

Astrum Argenteum (NT).

4

Uma impudente fraude sem substância e de crescimento meteórico intitulando a si mesma Order of Hidden Masters apareceu recentemente... e desapareceu. 5

A mensagem dos Chefes Secretos é dada em O Livro da Lei, que foi editado privadamente para iniciados e publicado em O Equinócio, vol. I, números 7 e 10; também em O Equinócio dos Deuses. Em Português, O Livro da Lei encontra-se no volume “Θελημα ‒ Os Livros Sagrados de Thelema” (Equinócio III.9), co-publicado pelas editoras Anúbis e Madras.

19


existe no próprio manuscrito. Não faria diferença se a afirmação de quaisquer das pessoas envolvidas viesse a se mostrar falsa.

4. A natureza da evidência

Esta digressão histórica foi necessária para a compreensão das condições desta investigação. Convém considerar agora a numeração peculiar dos trunfos. Parece natural a um matemático iniciar a série de números naturais com o zero, mas isto incomoda bastante a mente não treinada matematicamente. Nos ensaios e livros tradicionais sobre o Tarô, supõe-se que a carta com o número 0 fica entre as cartas XX e XXI. O segredo da interpretação dos iniciados, o qual torna luminoso o significado integral dos trunfos, consiste simplesmente em colocar essa carta marcada com o “0” em seu lugar natural, onde qualquer matemático a colocaria, ou seja, à frente do número “Um”. Mas ainda há uma peculiaridade, um transtorno na sequência natural, a saber: as cartas VIII e XI têm que ser intercambiadas, a fim de preservar a atribuição correta. A carta XI se chama Força e nela aparece um leão, sendo bastante óbvia sua referência ao signo zodiacal do Leão, enquanto que a carta VIII se chama Justiça, representando a figura simbólica convencional, entronada e munida de espada e balança, evidentemente se referindo ao signo zodiacal de Libra, a Balança. Frater Perdurabo realizara um estudo muito profundo do Tarô desde sua iniciação à Ordem, em 18 de novembro de 1898; três meses depois, atingira o grau de Practicus e, como tal, teve o direito de conhecer a atribuição secreta. Manteve-se estudando tal atribuição e os manuscritos explicativos correlatos. Averiguou todos esses atributos dos números em relação às formas da natureza e nada descobriu que fosse incongruente. Mas, em 8 de abril de 1904 E.V., enquanto escrevia O Livro da Lei a partir do ditado do mensageiro dos Chefes Secretos, parece ter formulado mentalmente uma questão, sugerida pelas palavras do capítulo I, versículo 57: “a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus” (a “Casa de Deus” é um nome do trunfo do Tarô de número XVI). A questão era neste sentido: ‒ “Captei estas atribuições corretamente?” E surgiu uma resposta intercalada: “Todas estas velhas letras do meu Livro são corretas; mas c não é a Estrela. Isto também é secreto: meu profeta o revelará ao sábio”. Isso era demasiado irritante. Se Tzaddi não era “a Estrela”, o que era? E o que era Tzaddi? Durante anos, ele tentou permutar essa carta, A Estrela, de número XVII, com alguma outra. Não teve êxito. A solução somente lhe veio muitos anos depois. Tzaddi é O Imperador e, portanto, as posições das cartas XVII e IV têm que ser trocadas. Esta atribuição é bastante satisfatória. Sim, mas é algo bem mais do que satisfatório; é, para o pensamento lúcido, a evidência mais convincente possível de que O Livro da Lei é uma mensagem genuína dos Chefes Secretos, já que A Estrela se refere a Aquário no zodíaco e O Imperador, a 20


Áries. Ora, Áries e Aquário estão a cada lado de Peixes, tal como Leão e Libra estão a cada lado de Virgem, ou seja, a correção contida em O Livro da Lei produz uma simetria perfeita na atribuição zodiacal, como se fosse um laço formado numa extremidade da elipse, correspondendo exatamente ao laço existente na outra extremidade. Estas matérias soam um tanto técnicas e, de fato, o são. Mas, quanto mais se estuda o Tarô, mais se percebe a admirável simetria e perfeição do simbolismo. Todavia, mesmo para o leigo, deve ser evidente que o equilíbrio e o Ajustamento são essenciais para qualquer perfeição, e a elucidação desses dois embaraços nos últimos cento e cinquenta anos representa, indubitavelmente, um fenômeno bastante notável.

RESUMO DAS QUESTÕES ATÉ AQUI DISCUTIDAS

1. A origem do Tarô é totalmente irrelevante, mesmo se for certa. Como um sistema, ele tem que se sustentar ou cair em função de seus próprios méritos. 2. O Tarô é, sem qualquer dúvida, uma tentativa deliberada de representar, sob forma pictórica, as doutrinas da Qabalah. 3. A evidência para isso é muito semelhante à evidência apresentada por uma pessoa que está fazendo palavras cruzadas. Ela sabe, pelas pistas da horizontal, que sua palavra é “ESMAG ‒ espaço vazio ‒ R”; portanto, é certo, sem possibilidade de erro, que o espaço vazio seja um “A”. 4. Estas atribuições são, num certo sentido, um mapa simbólico convencional, o qual poderia ser inventado por alguma pessoa ou algumas pessoas de grande imaginação artística e engenhosidade, combinadas a uma erudição e clareza filosófica de envergadura quase impensável. 5. Tais pessoas, porém, por mais eminentes que suponhamos que tenham sido, não seriam absolutamente capazes de produzir um sistema tão complexo sem a assistência de superiores, cujos processos mentais pertenciam, ou pertencem, a uma dimensão mais elevada.

21


Hexagrama Unicursal

Os Dias da Semana

Declarou-se sempre ser impossível traçar um hexagrama unicursal, mas isto foi agora realizado. As linhas, entretanto, são estritamente euclidianas... Não possuem largura.

Leia em torno do hexágono a Ordem (mágica) dos Sete Planetas Sagrados. Leia ao longo do hexagrama a ordem dos dias da semana (acredita-se que esta hábil descoberta se deva ao falecido G.H. Frater D.D.C.F.)

Diagrama do lupe duplo no zodíaco

22


Poder-se-ia, à guisa de analogia, tomar o jogo de xadrez. Este jogo evoluiu a partir de uma origem bem simples. Tratava-se de uma batalha mímica para guerreiros cansados, mas as sutilezas do jogo moderno ‒ que atualmente foram, graças a Richard Réti, bem além do cálculo, para adentrar o domínio da criação estética ‒ estavam latentes no esquema original. Os criadores do jogo estavam “construindo melhor do que o sabiam”. É possível, é claro, argumentar que essas sutilezas surgiram no decorrer do desenvolvimento do jogo, e efetivamente está bem claro, historicamente, que os primeiros jogadores, cujos jogos estão registrados, não detinham a concepção consciente de nada além de uma variedade de estratagemas bastante imperfeitos e elementares. É inteiramente possível argumentar que o jogo de xadrez é meramente um dos muitos jogos que se desenvolveram, enquanto diversos outros jogos se extinguiram devido a algum acidente. Pode-se, também, argumentar que o xadrez moderno esteve latente no jogo original por mero acaso. A teoria da inspiração é realmente muito mais simples e dá conta dos fatos sem violar a lei da parcimônia.

II O TARÔ E A SANTA QABALAH O assunto a seguir é a Santa Qabalah. É uma matéria muito simples e não apresenta dificuldades à mente inteligente ordinária. Há dez números no sistema decimal, havendo uma razão autêntica para que devam ser dez números, e somente dez, num sistema numérico que não é meramente matemático, mas filosófico. É necessário neste ponto apresentar o Arranjo de Nápoles. Porém, antes de mais nada, é preciso compreender a representação pictórica do universo dada pela Santa Qabalah (ver diagrama). Essa figura representa a Árvore da Vida, a qual é um mapa do universo. Deve-se começar, como o faria um matemático, com a ideia do zero, zero absoluto, que examinado se mostra significativo de qualquer quantidade que se possa escolher, mas não, como em princípio poderia supor o leigo, do nada no sentido vulgar da palavra, de ausência de alguma coisa (Ver Berashith, Paris, 1902).

23


“O ARRANJO DE NÁPOLES” Os qabalistas expandiram essa ideia do nada e obtiveram uma segunda espécie de nada, a que chamaram de Ain Sof ‒ “Sem Limite” (ideia aparentemente não dessemelhante daquela de espaço). Decidiram, então, que, para interpretar essa mera ausência de qualquer modo de definição, seria necessário postular o Ain Sof Aur ‒ “Luz Ilimitada”. Assim, parece que eles queriam dizer exatamente o que os homens de ciência do período vitoriano queriam dizer, ou pensavam que queriam dizer, pela expressão “Éter Luminífero” (o continuum espaço-tempo?). Tudo isso é evidentemente sem forma e vazio; são condições abstratas e não ideias positivas. O passo seguinte tem que ser a ideia de posição. É preciso formular esta tese: se há alguma coisa exceto o nada, tem que existir dentro dessa luz ilimitada; dentro desse espaço; dentro desse Nada inconcebível, que não pode existir como nada, mas tem que ser concebido como um nada criado da aniquilação de dois opostos imaginários. Assim aparece o ponto, que não tem “nem partes nem magnitude, mas somente posição”. Contudo, posição não significa coisa alguma, a não ser que haja alguma coisa a mais, alguma outra posição com a qual ela possa ser comparada. Tem-se que descrevêla, e o único modo de fazê-lo é possuir outro ponto, o que significa que é preciso inventar o número dois, tornando possível a linha. Mas essa linha não significa realmente muito, porque não existe ainda medida de comprimento. O limite do conhecimento neste estágio é que há duas coisas, de modo que se pode falar sobre elas, mas não se pode dizer que estão uma próxima da outra ou que estão muito apartadas; é-se apenas capaz de dizer que estão distantes. Para efetivamente discernir-se entre elas, é necessário que haja uma terceira coisa. Precisamos ter outro ponto. Tem-se que inventar a superfície; tem-se que inventar o triângulo. Ao fazer isto, a propósito, a totalidade da geometria plana surge. É-se capaz de dizer agora: ‒ “A está mais próximo de B do que A está de C”. Mas, até agora, não há nenhuma substância em quaisquer dessas ideias. Na verdade, não há quaisquer ideias, salvo a de distância e talvez a de intermediariedade e a de medição angular, de sorte que a geometria plana, que agora existe em teoria, é, afinal de contas, completamente dispersiva e incoerente. Não houve nenhuma aproximação da concepção de uma coisa realmente existente. Tudo que se realizou foi a fabricação de definições, e tudo num mundo puramente ideal e imaginário. Agora, então, vem o abismo. Não se pode avançar mais no ideal. O próximo passo tem que ser o real; ao menos, uma abordagem do real. Há três pontos, mas nenhuma ideia de onde qualquer um deles está. Um quarto ponto é essencial, e este formula a ideia de matéria. O ponto, a linha, o plano. O quarto ponto, contanto que não esteja no plano, produz o sólido. Caso se queira saber a posição de qualquer ponto, tem-se que defini-lo 24


pelo emprego de três eixos coordenados: ‒“São tantos metros da parede norte, e tantos metros da parede leste, e tantos pés do piso.” Assim, desenvolveu-se do nada um algo do qual se pode dizer que existe. Chegou-se à ideia de matéria. Mas esta existência é excessivamente tênue, pois a única propriedade de qualquer ponto é sua posição em relação a certos outros pontos; nenhuma mudança é possível; nada é capaz de acontecer. Portanto, ao se analisar a realidade conhecida, deve-se postular uma quinta ideia positiva, que é aquela do movimento. A ideia de movimento implica na de tempo, pois somente através do movimento, e dentro do tempo, pode qualquer evento ocorrer. Sem essa mudança e sequência, nada é capaz de ser o objeto dos sentidos (cumpre observar que este número 5 é o número da letra Hé no alfabeto hebraico; esta é a letra tradicionalmente consagrada à Grande Mãe; é o útero no qual o Grande Pai ‒ que é representado pela letra Yod, a qual é a representação pictórica de um ponto último ‒ se move e gera a existência ativa). É possível, agora, ter-se uma ideia concreta do ponto; e, finalmente, esse é um ponto capaz de ser autoconsciente, porque pode ter passado, presente e futuro. É capaz de definir a si mesmo em termos das ideias anteriores. Eis aqui o número seis, o centro do sistema: autoconsciente, capaz de experiência. Neste estágio, convém afastarmo-nos por um momento do simbolismo estritamente qabalístico. A doutrina dos próximos três números (para algumas mentes, ao menos) não é expressa com muita clareza. É mister olhar para o sistema Vedanta, rumo a uma interpretação mais lúcida dos números 7, 8 e 9, embora tal interpretação corresponda muito estreitamente às ideias qabalísticas. Na análise hindu da existência, os rishis (sábios) postulam três qualidades: Sat, a essência do próprio ser; Chit, o pensamento ou intelecção; e Ananda (usualmente traduzido por bem-aventurança, êxtase), o prazer experimentado pelo ser no desenrolar dos eventos. Esse êxtase é evidentemente a causa estimulante da mobilidade da pura existência. Explica a hipótese da imperfeição por parte da Perfeição. O Absoluto seria nada, permaneceria na condição de nada; portanto, a fim de ser consciente de suas possibilidades e gozá-las, precisa explorar essas possibilidades. Pode-se inserir aqui um enunciado paralelo dessa doutrina, encontrada no documento chamado O Livro do Grande Auk para capacitar o estudante a considerar a posição do ponto de vista de duas mentes diferentes. “Todos os elementos devem, numa ocasião, ter estado separados ‒ nesse caso, haveria intenso calor. Quando os átomos atingem o sol, obtemos aquele calor imenso, extremo, e todos os elementos são eles mesmos, novamente. Imagine que cada átomo de cada elemento possua a memória de todas as suas aventuras. A propósito, esse átomo, fortalecido com a memória, não seria o mesmo átomo; e, no entanto, ele o é, porque nada ganhou de qualquer lugar, exceto essa memória. Consequentemente, pelo lapso do tempo e em virtude da memória, uma coisa seria capaz de se tornar alguma coisa a mais do que ela mesma, tornando-se, assim, possível um desenvolvimento real. Vê-se, então, uma razão para qualquer elemento decidir passar por essa série de encarnações,

25


porque assim, e somente assim, pode ele prosseguir; e sofre o lapso da memória que tem durante essas encarnações porque sabe que passará inalterado. “Portanto, você pode ter um número infinito de deuses, individuais e iguais, embora diversos, cada um supremo e inteiramente indestrutível. Esta é, também, a única explicação de como um ser poderia criar um mundo no qual a guerra, o mal, etc. existem. O mal é apenas uma aparência, porque (como o bem) não é capaz de afetar a própria substância, mas somente multiplicar suas combinações. Isto é algo idêntico ao monoteísmo místico, mas a objeção a essa teoria é que Deus tem que criar coisas que são todas partes d’Ele mesmo, de maneira que a interação delas é falsa. Se pressupomos muitos elementos, sua interação é natural.” Essas ideias de ser, pensamento e êxtase constituem as qualidades mínimas possíveis que um ponto precisa possuir para ter uma experiência sensível e real de si mesmo. Correspondem aos números 9, 8 e 7. A primeira ideia de realidade, tal como conhecida pela mente, é, portanto, conceber o ponto como se constituído por aqueles nove desenvolvimentos sucessivos, anteriores ao zero. Aqui, então, finalmente está o número dez. Em outras palavras, para descrever a realidade sob forma de conhecimento é preciso postular essas dez ideias sucessivas. Na Qabalah são chamadas de Sephiroth, o que significa Números. Como se poderá ver na sequência, cada número possui um significado própria; cada um corresponde a todos os fenômenos, de uma maneira tal que sua disposição na Árvore da Vida (v. diagrama) é um mapa do universo. Esses dez números são representados no Tarô pelas quarenta cartas menores.

O TARÔ E A FÓRMULA DO TETRAGRAMMATON

O que são, então, as cartas da corte? Esta questão envolve outro aspecto do sistema de desenvolvimento. Qual foi o primeiro processo mental? Na obrigação de descrever o nada, o único modo de fazê-lo sem destruir sua integridade foi representá-lo como a união de um mais alguma coisa com um menos alguma coisa equivalente. Pode-se chamar estas duas ideias de o ativo e o passivo, o Pai e a Mãe. Mas a despeito de o Pai e a Mãe serem capazes de realizar uma perfeita união, retornando assim ao zero ‒ o que é um retrocesso ‒ são eles capazes também de avançar para a matéria, de modo que sua união produza um Filho e uma Filha. Na prática, a ideia funciona como um método de descrever como a união de duas coisas quaisquer produz uma terceira coisa que não é nenhuma delas. A mais simples ilustração disso se encontra na química. Se tomamos os gases hidrogênio e cloro e passamos uma faísca elétrica através deles, ocorre uma explosão, produzindo-se ácido hidroclórico. Temos aqui uma substância positiva, que nos é possível chamar de o Filho do casamento desses elementos, sendo um avanço para a matéria. Mas, também, no êxtase da união, liberam-se luz e calor, fenômenos que não

26


são materiais no mesmo sentido em que o ácido hidroclórico é material; esse produto da união é, portanto, de uma natureza espiritual, correspondendo à Filha. Na linguagem dos alquimistas, por uma questão de conveniência, tais fenômenos foram classificados sob a figura de quatro elementos. O fogo, o mais puro e mais ativo, corresponde ao Pai; a água, ainda pura, porém passiva, é a Mãe; da união de ambos resulta um elemento que participa das duas naturezas, sendo distinto, entretanto, tanto de uma quanto da outra, elemento ao qual deram o nome de Ar. É preciso lembrar constantemente que os termos empregados pelos filósofos antigos e medievais não significavam em absoluto o que significam atualmente. Água não significa para eles o composto químico H2O; trata-se de uma ideia extremamente abstrata e existe em toda parte. A ductibilidade do ferro é uma qualidade aquosa.6 A palavra elemento não quer dizer elemento químico. Significa um conjunto de ideias, resumindo certas qualidades e propriedades. Parece dificilmente possível definir esses termos, de modo que os seus significados se tornem claros para o estudante. Este deve descobrir por si mesmo, pela prática constante, o que eles significam para ele. Nem sequer se conclui daí que ele atingirá as mesmas ideias, o que não quer dizer que uma mente esteja certa e a outra errada, porque cada um de nós possui seu próprio universo para si mesmo, que não é idêntico ao universo de outra pessoa. A lua vista por A não é a lua que B, de pé ao seu lado, vê. Neste caso, a diferença é tão infinitesimal que não existe na prática; e, todavia, há uma diferença. Mas se A e B olharem para um quadro numa galeria, não será mesmo o mesmo quadro para os dois, porque a mente de A foi treinada para observá-lo em função de sua experiência de milhares de outros quadros; B provavelmente viu um conjunto inteiramente diferente de quadros. A experiência deles somente coincidirá no que diz respeito a alguns quadros famosos. Além disso, suas mentes são essencialmente diferentes de diversas outras maneiras. Assim, se A não gosta de Van Gogh, B tem pena dele; se C admira Bougereau, D dá-lhe os ombros. Não há certo ou errado acerca seja lá de que assunto for. Isto é verdade, até mesmo, em matérias da ciência mais estrita. A descrição científica de um objeto é universalmente verdadeira e, contudo, não é completamente verdadeira para qualquer observador isolado. O fenômeno chamado de Filha é ambíguo. Foi explicado anteriormente como o ingrediente espiritual no resultado do casamento do Pai e a Mãe, mas isto não passa de uma interpretação.

6

Sua virtude magnética (similarmente) é ígnea; sua condutividade, aérea; e seu peso e dureza, terrestres. Contudo, o peso é apenas uma função da curvatura do continuum espaço-tempo: “A terra é o trono do espírito”.

27


O TARÔ E OS ELEMENTOS Os antigos concebiam o fogo, a água e o ar como elementos puros. Estavam vinculados às três qualidades de ser, conhecimento e alegria (êxtase), mencionadas anteriormente. Correspondem, inclusive, ao que os hindus chamam de três Gunas ‒ Sattvas, Rajas e Tamas, que se pode traduzir a grosso modo como calma, atividade e escuridão indolente. Os alquimistas tinham três princípios similares de energia, dos quais são compostos todos os fenômenos existentes: enxofre, mercúrio e sal. Este enxofre é atividade, energia, desejo; mercúrio é fluidez, inteligência, o poder da transmissão; o sal é o veículo destas duas formas de energia, mas ele próprio possui qualidades que reagem a elas. O estudante deve ter em mente todas essas classificações tripartidas. Em alguns casos, um conjunto será mais útil que os outros. De momento, convém concentrar-se na série fogo, água, ar. Estes elementos são representados no alfabeto hebraico pelas letras Shin, Mem e Aleph. Os qabalistas as chamam de Três letras-mãe. Neste grupo particular, os três elementos envolvidos são formas completamente espirituais de energia pura; somente podem se manifestar na experiência sensível afetando os sentidos cristalizando-se num quarto elemento que eles chamam de terra, representado pela última letra do alfabeto, Tau. Esta, então, é outra interpretação totalmente diferente da ideia da Filha, que é aqui considerada um apêndice do triângulo. É o número dez suspenso do 7, 8, 9 no diagrama. Estas duas interpretações precisam ser mantidas na mente ao mesmo tempo. Os qabalistas, planejando o Tarô, produziram figuras dessas ideias extremamente abstratas do Pai, Mãe, Filho e Filha, e as denominaram Rei, Rainha, Príncipe e Princesa. É confuso, mas também foram chamadas de Cavaleiro, Rainha, Rei e Princesa. Às vezes, ainda, o Príncipe e a Princesa são denominados Imperador e Imperatriz. O motivo dessa confusão está relacionado com a doutrina de O Louco do Tarô, o lendário viandante que ganha a filha do Rei, uma lenda que está ligada ao antigo e extremamente sábio plano de selecionar o sucessor de um rei por sua habilidade para conquistar a Princesa entre todos os competidores (O Ramo Dourado, de Frazer, constitui a autoridade sobre este assunto). Achamos melhor, para o baralho que aqui apresentamos, que adotássemos os termos Cavaleiro, Rainha, Príncipe e Princesa para representar a série Pai, Mãe, Filho, Filha, porque assim exige a doutrina envolvida, extraordinariamente complexa e difícil. O Pai é Cavaleiro, porque é representado montando um cavalo. Pode-se proporcionar mais clareza em relação a isto descrevendo-se os dois sistemas principais, o hebraico e o pagão, como se fossem (e tivessem sempre sido) concretos e separados. O sistema hebraico é direto e irreversível. Postula Pai e Mãe, de cuja união surgem o Filho e a Filha. E ponto final. É apenas a especulação filosófica posterior que deriva a díade Pai-Mãe de uma Unidade manifesta, e a mais posterior ainda que busca a

28


fonte dessa Unidade no nada. Este é um esquema concreto e limitado, tosco, com seu início sem causa e seu fim estéril. O sistema pagão é circular, autogerado, auto nutrido, auto renovado. É uma roda sobre cujo aro estão Pai ‒ Mãe ‒ Filho ‒ Filha; eles se movem em torno do eixo imóvel do Zero; eles se unem à vontade; eles se transformam entre si; não há início nem fim para a órbita; nenhum é superior ou inferior ao outro. A equação “nada = muitos = dois = um = tudo = nada” está implícita em todo modo do ser do sistema. Por mais difícil que isso seja, ao menos um resultado bastante desejável foi atingido: explicar o por que do Tarô ter quatro cartas da corte, e não três. Também explica o porquê de haver quatro naipes. Os quatro naipes são nomeados como se segue: bastões, atribuídos ao fogo; Copas, à água; Espadas, ao ar; e Discos (Discos ou pantáculos), à terra. O estudante perceberá esta interação e permuta do número 4. É igualmente importante para ele observar que mesmo no arranjo décuplo, o número 4 desempenha seu papel. A Árvore da Vida pode ser dividida em quatro planos: o número 1 corresponde ao fogo; os números 2 e 3, à água; os números 4 a 9, ao ar; e o número 10 à terra. Esta divisão corresponde à análise do homem. O número 1 é sua essência espiritual, sem qualidade ou quantidade; os números 2 e 3 representam seus poderes criativos e transmissivos, sua virilidade e sua inteligência; os números 4 a 9 descrevem suas qualidades mentais e morais tal como estão concentradas em sua personalidade humana; o número 6, por assim dizer, é uma elaboração concreta do número 1; e o número 10 corresponde à terra, que é o veículo físico dos nove números anteriores. Os nomes destas partes da alma são: 1, Jechidah; 2 e 3, Chiah e Neschamah; 4 a 9, Ruach; e, por último, 10, Nephesch. Estes quatro planos correspondem, mais uma vez, aos chamados Quatro Mundos, cujas naturezas podem ser compreendidas por referência, com todas as devidas reservas, ao sistema platônico. O número 1 é Atziluth, o Mundo Arquetípico, mas o número 2, sendo o aspecto dinâmico do número 1, é a sua atribuição prática. O número 3 é Briah, o Mundo Criativo, no qual a Vontade do Pai toma forma através da Concepção da Mãe, exatamente como o espermatozoide ao fertilizar o óvulo torna possível a produção de uma imagem de seus pais. Os números 4 a 9 compreendem Yetzirah, o Mundo Formativo, no qual uma imagem intelectual, uma forma apreciável da ideia, é produzida; e essa imagem mental se torna real e sensível no número 10, Assiah, o Mundo Material. É caminhando por todas essas atribuições confusas (e às vezes aparentemente contraditórias), com infatigável paciência e persistência, que se chega, por fim, a uma lúcida compreensão, a uma compreensão que é infinitamente mais clara do que qualquer interpretação intelectual poderia ser. É um exercício fundamental no caminho da iniciação. Caso se seja um racionalista superficial, será fácil captar furos em todas essas atribuições e hipóteses ou quase-hipóteses semi-filosóficas, mas é também absolutamente simples provar matematicamente ser impossível golpear uma bola de golfe.

29


Até aqui, o principal tema deste ensaio foi a Árvore da Vida em sua essência: as Sephiroth. Convém considerar agora as relações das Sephiroth entre si (ver diagrama). Perceber-se-á que vinte e duas linhas são empregadas para completar a estrutura da Árvore da Vida. No devido tempo, será explicado como tais linhas correspondem às letras do alfabeto hebraico. Nota-se que, em alguns aspectos, a maneira como são unidas parece arbitrária. É de se notar que existe um triângulo equilátero ‒ que se pode encarar como uma base natural para as operações de filosofia ‒ que consiste dos números 1, 4 e 5. Mas não há linhas unindo 1 e 4, ou 1 e 5. Isto não é acidental. Em lugar algum da figura há um triângulo equilátero ereto, embora haja três triângulos equiláteros com o ápice para baixo. Isso ocorre por causa da fórmula original “Pai, Mãe, Filho”, que se repete por três vezes numa escala descendente de simplicidade e espiritualidade. O número 1 está acima desses triângulos, porque é uma integração do zero e depende do tríplice véu do Negativo. Por outro lado, as Sephiroth, que são emanações do número 1, como já foi mostrado, são coisas em si, quase no sentido kantiano. As linhas que as unem são forças da natureza, de um tipo muito menos completo; são menos abstrusas, menos abstratas.

AS VINTE E DUAS CHAVES, ATU, OU TRUNFOS DO TARÔ Eis um excelente exemplo da doutrina do equilíbrio que a tudo permeia. Lê-se sempre a equação ax2 + bx + x = 0. Se não for igual a zero, não é uma equação. E assim, sempre que qualquer símbolo perde importância em um lugar na Qabalah, ele a ganha em outro. As cartas da corte e as cartas menores formam o esqueleto do Tarô em sua principal função, como mapa do universo. Mas, no que diz respeito ao significado especial do baralho como chave para fórmulas mágicas, os vinte e dois trunfos adquirem importância peculiar. A que símbolos são atribuídos? Não podem ser identificados com nenhuma das ideias essenciais, porque este lugar está tomado pelas cartas de 1 a 10. Não podem representar primordialmente o complexo Pai, Mãe, Filho, Filha em sua plenitude, porque as cartas da corte já assumiram essa posição. Sua atribuição é a seguinte: as três letras-mãe do alfabeto hebraico, Shin, Mem e Aleph, representam os três elementos ativos; as sete chamadas letras duplas, Beth, Gimel, Daleth, Kaph, Pé, Resh e Tau representam os sete planetas sagrados. As doze letras restantes, Hé, Vau, Zain, Cheth, Teth, Yod, Lamed, Nun, Samekh, Ayin, Tzaddi e Koph representam os signos do zodíaco. Há um ligeiro emparamento ou sobreposição nesse arranjo. A letra Shin tem que servir tanto para o fogo quanto para o espírito, da mesma maneira que o número 2 participa da natureza do número 1; e a letra Tau representa tanto Saturno, quanto o elemento terra. Nessas dificuldades reside uma doutrina. 30


Mas não se pode dispensar essas vinte e duas letras assim casualmente. A pedra que os construtores rejeitaram torna-se a parte mais importante do canto. Essas vinte e duas cartas adquirem uma personalidade própria: uma personalidade muito curiosa. Seria inteiramente errado afirmar que elas representam um universo completo. Parecem representar fases bastante curiosas do universo. Não parecem fatores essenciais na estrutura do universo. Mudam de tempos em tempos em sua relação com os eventos correntes. Um olhar no elenco de seus títulos parece não mostrar mais o espírito estritamente filosófico e científico de austera classificação encontrado nas outras cartas. A linguagem do artista salta sobre nós. Os títulos são: O Louco, O Prestidigitador (NT: O Mago), A Alta Sacerdotisa, A Imperatriz, O Imperador, O Hierofante, Os Amantes, A Carruagem, Volúpia, A Roda da Fortuna (NT: Fortuna), Ajustamento, O Pendurado, Morte, Arte, O Diabo, A Casa de Deus (NT: A Torre), A Estrela, A Lua, O Sol, O Æon, O Universo. É óbvio que não são representações simbólicas francas, diretas dos signos, elementos e planetas envolvidos. São mais hieróglifos de mistérios peculiares vinculados a cada um. Pode-se começar a suspeitar que o Tarô não é uma mera representação direta do universo ao modo impessoal do sistema do Yi King. O Tarô começa a se parecer com propaganda. É como se os Chefes Secretos da Grande Ordem, que é a guardiã dos destinos da espécie humana, tivessem desejado apresentar certos aspectos particulares do universo, estabelecer certas doutrinas especiais, declarar certas modalidades de trabalho apropriados às situações políticas existentes. Diferem tal como uma composição literária difere de um dicionário. Foi bastante lamentável, embora absolutamente inevitável, ser obrigado a ir tão longe na argumentação, e que esta argumentação tenha envolvido tantas digressões a título de notas preliminares sobre a descrição direta do baralho. Talvez tudo se torne mais simples procedendo-se à sumarização das afirmações acima. Eis uma afirmação simples sobre o plano da Árvore da Vida. Os números, ou coisas-em-si, são dez emanações sucessivas provenientes do tríplice véu do Negativo. As cartas menores, numeradas de 1 a 10 correspondem às Sephiroth. Essas cartas são exibidas sob forma quádrupla, porque não são os puros números abstratos, mas símbolos particulares desses números no universo da manifestação, que é, por questão de conveniência, classificado sob a figura de quatro elementos. As cartas da corte representam os próprios elementos, cada elemento dividido em quatro sub-elementos. Por comodidade, segue abaixo uma lista dessas cartas:

Cavaleiro de Bastões

Fogo do Fogo

Rainha de Bastões

Água do Fogo

Príncipe de Bastões

Ar do Fogo

Princesa de Bastões

Terra do Fogo

Cavaleiro de Copas

Fogo da Água 31


Rainha de Copas

Água da Água

Príncipe de Copas

Ar da Água

Princesa de Copas

Terra da Água

Cavaleiro de Espadas

Fogo do Ar

Rainha de Espadas

Água do Ar

Príncipe de Espadas

Ar do Ar

Princesa de Espadas

Terra do Ar

Cavaleiro de Discos

Fogo da Terra

Rainha de Discos

Água da Terra

Príncipe de Discos

Ar da Terra

Princesa de Discos

Terra da Terra

Os trunfos do Tarô são vinte e dois e representam os elementos entre as Sephiroth ou coisas-em-si, de sorte que a posição deles na Árvore da Vida é bastante significativa. Eis dois exemplos: a carta chamada Os Amantes, cujo título secreto é Os Filhos da Voz, o Oráculo dos Poderosos Deuses, conduz do número 3 ao número 6. O número 6 é a personalidade humana de um homem; o número 3, sua intuição espiritual. Portanto, é natural e significativo que a influência do 3 sobre o 6 seja aquela da voz da intuição ou da inspiração. É a iluminação da mente e do coração pela Grande Mãe. Considere novamente a carta que une o número 1 ao número 6. Seu nome é A Alta Sacerdotisa e é atribuída à lua. A carta representa a Ísis Celestial, sendo um símbolo de completa pureza espiritual e iniciação em sua forma mais secreta e íntima, descendo sobre a consciência humana a partir da suprema consciência divina. Contemplada de baixo, é a aspiração pura e inabalável do homem à divindade, sua fonte. Será adequado tratar mais detalhadamente dessas matérias quando estivermos com as cartas separadamente. Do exposto até aqui, transparece que o Tarô ilustra, primeiramente, a Árvore da Vida em seu aspecto universal e, em segundo lugar, o comentário particular que ilustra a fase da Árvore da Vida que interessa particularmente as pessoas encarregadas da guarda da espécie humana no momento específico da produção autorizada de dado baralho. É, consequentemente, correto para aqueles guardiões alterar o aspecto do baralho quando lhe parecer bom fazê-lo. O próprio baralho tradicional foi submetido a numerosas modificações, adotadas de acordo com a conveniência. Por exemplo, O Imperador e A Imperatriz nos baralhos medievais se referiam de maneira absolutamente definida ao Santo Imperador Romano e sua consorte. A carta originalmente denominada O Hierofante, representando Osíris (como é mostrado pelo formato da tiara) tornou-se, no 32


período renascentista, O Papa. A Alta Sacerdotisa passou a ser chamada de Papisa Joana, representando certa lenda simbólica que circulava entre os iniciados e se tornou vulgarizada na fábula de uma papisa. Ainda mais importante, O Anjo, ou O Juízo Final, representava a destruição do mundo pelo fogo. Seu hieróglifo é, de certa forma, profético, pois quando o mundo era destruído pelo fogo em 21 de março de 1904,7 a atenção de alguém era inevitavelmente atraída para a semelhança dessa carta com a Estela da Revelação. Sendo este o início do novo Æon, pareceu mais adequado exibir o início do Æon, pois tudo que se sabe do próximo Æon, vigente por 2.000 anos, é que seu símbolo é aquela de cetro duplo.8 Mas o novo Æon produziu alterações tão fantásticas na ordem estabelecida das coisas, que seria evidentemente absurdo tentar proceder às tradições desgastadas, pois “os rituais de outrora são negros.” Por conseguinte, o esforço deste escriba tem sido no sentido de preservar aquelas características essenciais do Tarô, que são independentes das alterações periódicas do Æon, ao mesmo tempo modernizando os aspectos dogmáticos e artísticos do baralho que acabaram por se tornar ininteligíveis. A arte do progresso consiste em manter incólume o eterno e, contudo, adotar uma posição de vanguarda, talvez em alguns casos quase revolucionária, com respeito aos acidentes que estão sujeitos ao império do tempo.

III O TARÔ E O UNIVERSO

O Tarô é uma representação pictórica das forças da natureza, concebida pelos antigos segundo certo simbolismo convencional. O Sol é uma estrela. Ao redor dele giram diversos corpos chamados planetas, inclusive a Lua, um satélite da Terra. Esses corpos giram numa única direção apenas. O sistema solar não é uma esfera, mas sim uma roda. Os planetas não permanecem em alinhamento exato, oscilando por certa extensão (relativamente pequena) de um lado do plano para o outro. Suas órbitas são elípticas. Os antigos imaginaram essa roda com clareza maior do que as mentes modernas estão habituadas a fazer. Prestaram particular atenção no aro imaginário. Dentro dos limites desse aro, perceberam que as estrelas fixas à distância se achavam, de um modo 7

Ver O Equinócio dos Deuses.

8

Ver O Livro da Lei, III, 34. A referência é a Maat, Têmis, Senhora do equilíbrio.

33


especial, ligadas ao movimento aparente do Sol. Deram o nome de zodíaco a esse aro ou cinturão da roda. As constelações fora desse cinturão não pareciam ter muita importância para a humanidade, porque não se encontravam na linha direta da grande força giratória da roda (T.A.R.O. = R.O.T.A. = roda).

TEORIA DOS ANTIGOS 1. Na antiguidade, supunha-se que a Terra era o centro do universo. Como o céu estava acima da Terra ‒ eles não o compreendiam como estando igualmente abaixo dela ‒ era o mesmo tido como sendo de natureza divina. E, como reconheciam imperfeições e irregularidade nos assuntos mundanos, acharam que os movimentos dos corpos celestes, que observados por eles pareciam regulares, deviam ser perfeitos. Principiaram, então, algum pensamento “a priorístico”. Seus matemáticos tiveram a ideia de que um círculo era uma figura perfeita. Consequentemente, (afirmaram com característico raciocínio teológico que) todos os corpos celestes tem que se mover em círculos. 9 Essa hipótese religiosa causou enorme transtorno para os astrônomos. À medida que suas medições se tornaram mais amplas e precisas, descobriram ser cada vez mais difícil reconciliar a observação com a teoria, ou ao menos fazê-lo sem colocar a si mesmos num tremendo incômodo em seus cálculos. E assim inventaram ciclos e epiciclos para explicar os movimentos observados. Por fim, esse aborrecimento incitou Copérnico a sugerir que seria realmente bem mais conveniente (se apenas a ideia não fosse tão perversa) imaginar que o Sol, e não a Terra, fosse o centro do sistema. Em matemática não há fatos fixos. Bertrand Russel diz que nessa matéria “ninguém sabe do que está falando e não interessa a ninguém se ele está certo ou errado”. Por exemplo, comece supondo que a Lua é o centro imóvel do universo. Ninguém é capaz de contradizê-lo; simplesmente se alteram os cálculos para o Ajustamento. A objeção prática que se faz é que isso não facilitaria o trabalho dos navegadores. É importante ter essa ideia em mente, pois, caso contrário, não se conseguirá compreender o espírito inteiro da moderna ciência-filosofia. Ele não visa a verdade, não concebe a verdade (em qualquer sentido ordinário da palavra) como possível; visa, sim, à conveniência máxima.

9

Eles não compreendiam que o círculo constitui apenas um caso da elipse: aquele no qual os focos coincidem.

34


2. Voltando à figura do sistema solar, o Sol é o cubo da roda, o planeta mais afastado está no seu aro. E além, mas lateralmente dentro deste aro, se encontram as doze constelações do zodíaco. Por que doze? A grosso modo, a primeira divisão do círculo é em quatro, em conformidade com as estações observadas. Essa escolha pode também ter sido influenciada pela divisão dos elementos em quatro: fogo, ar, água e terra (estes não significando os objetos atualmente entendidos por estas palavras, como explicado anteriormente). Talvez porque eles julgassem necessário introduzir um número tão sagrado como o três em tudo que fosse celeste, ou, ademais, porque aconteceu que as constelações observadas eram naturalmente divididas em doze grupos, daí dividiram o zodíaco em doze signos, três para cada estação. Observou-se que a influência do Sol sobre a Terra mudava na medida em que ele passava pelos signos. Assim, aconteciam coisas absolutamente simples, tais como a medida do tempo entre o nascer e o pôr do sol. Quando se afirma que o Sol entra no signo de Áries, quer-se dizer que se uma linha reta fosse traçada da Terra ao Sol e prolongada até as estrelas, essa linha passaria através do início daquela constelação. Suponha, por exemplo, que alguém observa a lua cheia no primeiro dia da primavera e será capaz de ver, atrás dela, as estrelas do início de Libra, o signo oposto a Áries. Observou-se que a Lua levava aproximadamente vinte e oito dias para passar de cheia a cheia, e a cada dia foi atribuído aquilo a que se deu o nome de casa. Supôs-se que a misteriosa influência da Lua se alterava em cada casa. Esta teoria não diz respeito diretamente ao Tarô, mas deve ser mencionada para ajudar a esclarecer certa confusão que está na iminência de complicar a questão.

3. Astrônomos antigos calcularam que o sol levava trezentos e sessenta dias para fazer a volta do zodíaco. Este era um segredo dos sábios rigorosamente guardado, de sorte que o ocultaram sob o nome divino Mithras, que soma de acordo com a convenção grega (M ‒ 40, I ‒ 10, Th ‒ 9, R ‒ 100, A ‒ 1, S ‒ 200) 360. Uma melhor observação demonstrou que 365 dias eram mais precisos, de modo que decidiram chamá-lo de Abraxas (A ‒ 1, B ‒ 2, R ‒ 100, A ‒ 1, X ‒ 60, A ‒ 1, S ‒ 200). Quando os outros descobriram isto, se corrigiram alterando a ortografia para Meithras, que soma, como Abraxas, 365. Nisto ainda persistiu um erro de não menos de seis horas, de modo que no decorrer dos séculos o calendário se manteve incerto. Só assumiu sua forma presente no tempo do Papa Gregório. O ponto a ser destacado em tudo isso, na divisão que fizeram do círculo do zodíaco em 360 graus, é que se trata de uma base conveniente para o cálculo. Deu-se o nome de decanato a cada medida angular de 10 graus; destas há, assim, trinta e seis, dividindo cada signo do zodíaco em três seções. Supôs-se que a influência 35


do signo era muito rápida e impetuosa no primeiro decanato, poderosa e equilibrada no segundo, espiritualizada e cadiva no terceiro. Uma curta digressão. Uma das mais importantes doutrinas dos antigos foi aquela do macrocosmo e microcosmo. O ser humano é ele mesmo um pequeno universo; é uma cópia minúscula do grande universo. Esse argumento foi, é claro, empregado em sentido contrário, de modo que as características das qualidades dos três decanatos no signo, dadas acima, se deram provavelmente graças a uma analogia com o curso de uma vida humana.

4. As observações que acabamos de fazer dão uma ideia razoavelmente completa da apresentação arbitrária, ou majoritariamente arbitrária, do cosmos, feita pelos antigos, a começar pela divisão em quatro elementos. Estes elementos permeiam tudo. Eles argumentariam algo semelhante a respeito do Sol. Diriam que ele era principalmente fogo por razões óbvias; mas teria também em si a qualidade aérea da mobilidade. A porção aquosa se mostraria por seu poder de criar imagens e a porção terrestre por sua imensa estabilidade. De maneira análoga, em relação a uma serpente, considerariam seu poder de morte, ígneo; sua rapidez, aérea; seu movimento ondulante, aquoso; e seu hábito de vida, terrestre. Essas descrições são, evidentemente, bem inadequadas. Têm que ser completadas pela atribuição de qualidades planetárias e zodiacais a todos os objetos. Assim, o Touro, no zodíaco, é um signo da terra, e este é o signo central dos três através dos quais o Sol passa durante a primavera, no hemisfério Norte (outono, no Hemisfério Sul). Mas a natureza bovina é também gentil e, partindo daí, eles afirmaram que Vênus rege o signo de Touro. A vaca, ademais, é o principal animal produtor de leite, de sorte que fizeram dela a Grande Deusa Mãe, identificando-a, assim, com a Lua, a Mãe do céu, tal como o Sol é o Pai. Representavam essa ideia ao dizer que a Lua é exaltada em Touro, ou seja, que ela exerce o aspecto mais benéfico de sua influência quando está nesse signo.

5. É inicialmente confuso, mas muitíssimo instrutivo e esclarecedor quando o princípio é inteiramente assimilado, observar como todos esses elementos se subdividiam e se juntavam. Somente se pode alcançar a compreensão de qualquer um desses símbolos quando se produz um quadro composto dele e de todos os outros em proporção variável. Assim cada um dos planetas oferece certa porção de sua influência a qualquer objeto. Este hábito de pensamento conduz a um entendimento da unidade da natureza (com sua exaltação adequada e espiritual) que dificilmente pode ser atingido de qualquer outro modo; produz uma harmonia interna que finda numa aceitação da vida e da natureza. Agora, é quase tempo de se analisar e definir as características tradicionais desses símbolos, mas talvez seja melhor, primeiramente, construir sobre uma base segura pela consideração do número dois, o qual até aqui não foi levado em conta. 36


Há somente duas operações possíveis no universo: análise e síntese, dividir e unir. Solve et coagula, diziam os alquimistas. Se alguma coisa deve ser mudada, ou se divide um objeto em duas partes, ou se soma outra unidade a ele. Este princípio repousa na base de todo o pensamento e trabalho científicos. O primeiro pensamento do homem de ciência é classificação, medição. Ele diz: “Esta folha de carvalho é semelhante àquela folha de carvalho; esta folha de carvalho é diferente daquela folha de faia”. Enquanto não se apreender este fato, não se começa a compreender o método científico. Os antigos estavam plenamente cientes dessa ideia. Os chineses, particularmente, baseavam toda a sua filosofia nessa divisão primária do nada original. Era preciso começar com o nada; caso contrário, surgiria a seguinte questão: ‒ “de onde veio este algo que se postula?” E assim eles escreveram a equação: zero é igual a mais um mais menos um, 0 = (+ 1) + (‒ 1). O mais um chamaram de Yang, ou princípio masculino; o menos um chamaram de Yin, ou princípio feminino. Estes então se combinam em proporção variável, dando a ideia de Céu e Terra em perfeito equilíbrio, o Sol e a Lua em equilíbrio imperfeito, e os elementos sob forma desequilibrada (ver o diagrama o cosmos chinês). Este arranjo chinês é, assim, décuplo, e se revela admiravelmente equivalente ao sistema que foi anteriormente examinado.

6. O antigo esquema dos elementos, planetas e signos zodiacais foi resumido pelos qabalistas em sua Árvore da Vida. Tal identidade entre os dois sistemas foi mascarada até muito recentemente 10 pelo fato dos chineses prosseguirem com seu sistema de duplicação, transformando assim seus oito trigramas em sessenta e quatro hexagramas, enquanto os sábios da Ásia ocidental juntaram seus dez números na Árvore da Vida por meio de vinte e dois caminhos. Os chineses, deste modo, têm sessenta e quatro símbolos principais em comparação com os trinta e dois da Árvore, mas os qabalistas dispõem de uma concatenação de símbolos capaz de interpretação e manipulação muito sutis, que também é mais apropriada para descrever as relações internas de seus elementos. Ademais, cada um pode ser multiplicado ou subdividido à vontade, como convier.

10

Este autor descobriu este fato no desenrolar de seu estudo ‒ incompleto ainda ‒ do Yi King.

37


A ÁRVORE DA VIDA 1. Esta figura deve ser estudada muito cuidadosamente, visto ser a base de todo o sistema sobre o qual o Tarô se funda. É absolutamente impossível dar uma explicação completa dessa figura, porque ela é absolutamente universal, não podendo, portanto, significar o mesmo para esta e aquela pessoa. O universo de A não é o universo de B. Se A e B estiverem sentados um frente ao outro à mesa, A verá o lado direito da lagosta, e B, o esquerdo. Se ficarem lado a lado e olharem para uma estrela, o ângulo será diferente; embora esta diferença seja infinitesimal, ela existe. Mas o Tarô é o mesmo para todos, do mesmo modo que qualquer fato ou fórmula científica são os mesmos para todos. É de importante lembrar-se de que os fatos da ciência, embora universalmente verdadeiros em abstrato, não são, entretanto, precisamente verdadeiros para todos os observadores individualmente considerados, porque, mesmo se a observação de um objeto comum for feita por duas pessoas de reações sensoriais idênticas e a partir do mesmo ponto, ela não poderá ser feita pelos dois ao mesmo tempo, e mesmo a mais ínfima fração de um segundo é suficiente para mover tanto o objeto quanto o observador no espaço. É preciso frisar este fato, porque não se deve tomar a Árvore da Vida como uma fórmula fixa e morta. Ela é, num certo sentido, um eterno padrão do universo, exatamente por ser infinitamente elástica, e deve ser empregada como um instrumento em nossas pesquisas sobre a natureza e suas forças. Não se deve produzir aqui uma desculpa para o dogmatismo. O Tarô deveria ser aprendido na vida o mais cedo possível, sendo um fulcro para a memória e um esquema para a mente. Deve ser estudado continuamente, como um exercício diário, pois é universalmente elástico e cresce proporcionalmente ao uso inteligente que dele se faz, tornando-se um método extremamente engenhoso e excelente para a apreciação da totalidade da existência.

2. É provável que os qabalistas que inventaram a Árvore da Vida tenham sido inspirados por Pitágoras, ou que tanto este quanto aqueles tenham extraído o seu conhecimento de uma fonte comum na antiguidade mais remota. Seja qual for o caso, ambas as escolas concordam no que diz respeito a um postulado fundamental, a saber: a realidade última é melhor descrita pelos números e sua interação. É interessante notar que a moderna física matemática também chegou a certa suposição similar. Ademais, a tentativa de descrever a realidade por um único termo definido foi abandonada. O pensamento moderno concebe a realidade sob a imagem de um anel de dez ideias, tais como potencial, matéria e assim por diante. Cada ideia carece de significado em si mesma, só podendo ser compreendida nos termos das outras. Esta é exatamente a conclusão que aparece anteriormente neste ensaio com respeito à maneira pela qual os planetas, elementos e signos seriam todos dependentes e compostos uns dos outros.

38


Mas a tentativa posterior para atingir a realidade fez com que os qabalistas somassem as qualidades dessas ideias, um tanto vagas e literárias, atribuindo-as aos números da escala decimal. São os números, então, o acesso mais próximo à realidade que se mostra nesse sistema. O número 4, por exemplo, não é tão somente o resultado da soma de um ao três, ou o quadrado de dois, ou a metade de oito. Ele é uma coisa-em-si, com todos os tipos de qualidades morais, sensíveis e intelectuais. Simboliza ideias como lei, restrição, poder, proteção e estabilidade. No sistema qabalístico, a ideia original é o zero, 11 que aparece sob três formas, seja como na filosofia chinesa ‒ o Tao se torna manifestado pouco a pouco através do Teh ‒ seja como no melhor dos sistemas indianos ‒ o deus da destruição e do aniquilamento, Shiva, se torna manifestado através da energia infinita, Sakti. O sistema começa, portanto, com Ain, o nada; Ain Sof, o ilimitado e Ain Sof Aur, a luz ilimitada. Pode-se, agora, passar a imaginar qualquer ponto nessa luz, a fim de selecioná-lo para observação; o fato de fazê-lo o torna positivo. Isto produz o número 1, que é chamado de Kether, a Coroa. Os outros números surgem em razão da necessidade do pensamento, tal como explicado na tabela a seguir:

O ARRANJO DE NÁPOLES 12

61 = 0. 61 + 146 = 0 como (espaço) indefinido. 61 + 146 + 207 = 0 como base de vibração possível. 1. O ponto: positivo, contudo indefinível. 2. O ponto: distinguível de 1 outro. 3. O ponto: definido por relação a 2 outros. O abismo ‒ entre o ideal e o real. 4. O ponto: definido por 3 coordenadas: matéria. 5. Movimento (tempo) ‒ Hé, o útero, pois somente através do movimento e no tempo podem os eventos ocorrer. 6. O ponto: agora autoconsciente, porque capaz de definir a si mesmo nos termos acima indicados. 7. A ideia do ponto de êxtase (Ananda). 8. A ideia do ponto de pensamento (Chit). 11

A repetição aqui, em outra linguagem, das ideias já explicadas neste ensaio é intencional.

12

Assim chamado porque primeiramente elaborado naquela cidade.

39


9. A ideia do ponto de ser (Sat). 10. A ideia do ponto de si mesmo, preenchido em seu complemento, como determinado por 7, 8 e 9. Poder-se-á perceber, a partir do exposto acima, que por meio desses dez números positivos, mas não por qualquer número menor, é-se capaz de atingir uma descrição positiva de qualquer objeto ou ideia dados. Até este ponto, o argumento foi construído sobre uma base rígida, matemática, contando apenas com o mais leve colorido filosófico para dar-lhe forma. Mas é neste ponto que, visando a descrever os objetos do pensamento e dos sentidos, devemos unir nossos esforços aos dos astrólogos. Agora o problema é: atribuir ao número puro as ideias morais que o acompanham. Isto é, em parte, uma questão de experiência, em parte, de tradição derivada de experiência mais antiga. Seria tolo descartar-se a tradição movido por total desprezo, porque todo o pensar está limitado pelas leis da própria mente, e a mente tem sido formada através de milhares de anos de evolução em cada homem pelos pensamentos de seus ancestrais. As células de todos os cérebros vivos são exatamente tanto a prole dos grandes pensadores do passado como o desenvolvimento dos órgãos e membros. Há pouquíssimas pessoas hoje em dia que ouviram falar de Platão e Aristóteles. Nem uma em mil, talvez em dez mil, dessas poucas pessoas jamais leu um ou outro, mesmo traduções. Mas há também pouquíssimas pessoas cujo pensamento não tenha sido condicionado pelas ideias desses dois homens. Na Árvore da Vida, portanto, é encontrada a primeira tentativa de conectar o ideal com o real. Os qabalistas dizem, por exemplo, que o número 7 contém a ideia de Vênus, e o número 8, a de Mercúrio; que o caminho de ligação entre 1 e 6 se refere à Lua, e aquele entre o 3 e o 6, ao signo de Gêmeos. E então qual é o verdadeiro significado, na categoria do real, desses planetas e signos? Novamente nos defrontamos com a impossibilidade de uma definição exata, porque as possibilidades de pesquisa são infinitas; ademais, a qualquer momento, em qualquer pesquisa, uma ideia se funde com outra e obscurece a definição exata das imagens. Mas esse, é claro, é o objetivo. São todos estes passos cegos no caminho para a Grande Luz: quando o universo é percebido como uno, contudo com todas as suas partes, cada uma necessária, e cada uma distinta das demais. O início deste trabalho é, entretanto, suficientemente fácil. Tudo que se requer é conhecimento clássico elementar. Falando a grosso modo, para começar, as naturezas dos planetas são descritas por meio de deuses de acordo com os quais os corpos celestes foram nomeados, conforme as antigas ideias astrológicas da influência deles em assuntos humanos. O mesmo vale, em menor medida, no que diz respeito aos signos do zodíaco. Não há tanta informação disponível sobre as suas naturezas, mas é útil observar que planeta rege que signo, e em que signo quais planetas são exaltados. As estrelas fixas individuais não entram no sistema do Tarô.

40


O TARÔ E A ÁRVORE DA VIDA O Tarô, baseado nessas atribuições teóricas, foi concebido como um instrumento prático de cálculos qabalísticos e de adivinhação. Nele há pouco espaço para ideias abstratas. O assunto do livro ‒ o Tarô é chamado de O Livro de Thoth ou Tahuti ‒ é a influência dos dez números e das vinte e duas letras sobre o ser humano, e seus melhores métodos de manipulação das forças desses números e letras. Não há, portanto, menção dos Três Véus do Negativo, o que foi discutido na descrição da Árvore da Vida. A descrição começa com as cartas menores, numeradas de 1 a 10, que são divididas em quatro naipes, de acordo com os quatro elementos. Assim o Ás de Bastões é chamado de Raiz das Forças do Fogo. Pertence a Kether e pretende representar a primeira manifestação positiva da ideia do fogo. O 2 pertence a Chokmah, mas aqui já não se encontra mais a simplicidade da ideia do fogo. Uma ideia em ação ou em manifestação não é mais a pura ideia. Essa carta é atribuída ao primeiro decanato do signo ígneo de Áries, que é regido por Marte, dando a este, então, a ideia de uma força violenta e agressiva. A carta é chamada, por conseguinte, de Senhor do Domínio. Esta progressiva degradação da ideia do fogo prossegue crescendo através do naipe. Cada carta que se sucede torna-se menos ideal e mais real, de modo crescente, até que, com o número 6, o qual corresponde ao Sol, o centro de todo o sistema, a ideia ígnea ressurge, equilibrada e consequentemente pura, embora complexa. Além daí, a força começa a despender a si mesma, ou espiritualizar-se nas cartas do decanato de Sagitário. Mas a melhor fixação da força ígnea é encontrada no 9, número que é a fundação da estrutura da Árvore da Vida, sendo, assim, esta carta chamada de Senhor da Força. O fogo foi purificado, eterizado e equilibrado, mas no 10, exibindo completa materialização e redundância, o efeito do fogo é impulsionado ao seu limite extremo. Sua morte é iminente, mas ele reage contra isso o melhor que pode, aparecendo como Senhor da Opressão, superficialmente formidável, mas com as sementes do declínio já germinando. O resumo acima pode ser facilmente aplicado pelo estudante aos outros naipes. As cartas da corte são em número de dezesseis, quatro para cada naipe. Há, assim, uma subdivisão de cada elemento dentro de seu próprio sistema. Os cavaleiros representam o elemento do fogo, de maneira que o Ás de Bastões representa a parte ígnea do fogo; o Cavaleiro de Copas, a parte ígnea da água. De modo análogo, as princesas ou imperatrizes representam a terra, de modo que a Imperatriz de Discos representa a parte terrestre da terra. Essas cartas têm muitas manifestações nos fenômenos naturais. Assim, o Cavaleiro de Bastões tem a atribuição de Áries e representa rápida violência de ataque, o relâmpago. Mas a parte aérea do fogo é simpática a Leão, a força estável da energia, o Sol. Finalmente, na parte aquosa do fogo, a harmonia é com Sagitário, que mostra o reflexo ou translucência efêmeros, espiritualizados, da imagem do fogo, e isto sugere o arco-íris (ver tabela das triplicidades do zodíaco). 41


OS ATU DE TAHUTI

13

Ou: as vinte e duas casas da sabedoria, Ou: os vinte e dois trunfos do Tarô.

Vinte e dois é o número das letras do alfabeto hebraico. É o número dos caminhos do Sepher Yetzirah. Esses são os caminhos que unem os dez números na figura chamada Árvore da Vida. Por que há vinte e dois deles? Porque este é o número das letras do alfabeto hebraico, cabendo uma letra a cada caminho. Por que deveria ser assim? Por que estes caminhos devem ser dispostos na Árvore da maneira mostrada pelo diagrama? Por que não deveria haver caminhos ligando os números 2 e 5, e os números 3 e 4? Não se pode responder a qualquer uma destas perguntas. Quem sabe “Como A conseguiu permissão para um boi ser, não o camelo”, dizem os judeus, “que é G”?14 Sabe-se somente que esta foi a disposição convencional adotada por quem quer que seja que inventou o Tarô. E, o que é pior, parece muito confuso, muito irritante. Abala a nossa fé nesses grandes sábios. Mas, ao menos, não há dúvida que assim é que é. As letras do alfabeto hebraico são vinte e duas. Há três letras-mãe para os elementos, sete letras duplas para os planetas e doze letras simples para os signos do zodíaco. Mas existem quatro elementos e não três. Ou, incluindo o elemento espírito (um assunto importante para os iniciados), existem cinco. Há, consequentemente, duas letras do alfabeto que precisam trabalhar em dobro. O elemento fogo é muito estreitamente aparentado à ideia de espírito, de maneira que a letra Shin, pertencente ao fogo, pode ser tomada para significar espírito, também. Há uma razão especial para que assim seja, embora só se aplique em épocas posteriores, a partir da introdução do dogma segundo o qual o espírito rege os quatro elementos e da formação do Pentagrama da Salvação ligado à palavra hebraica IHShVH, Yeheshuah. No que concerne à terra, considerou-se adequado fazer a letra Tau, pertencente a Saturno, corresponder também à terra.

13

Atu, casa ou chave em egípcio antigo. Tahuti, deus egípcio da sabedoria, magia, ciência e também ilusão; em copta, Thoth, em grego, Hermes, em latim, Mercúrio. Os deuses hindu e escandinavo correspondentes são formas corrompidas. 14

A é Aleph ()), a primeira letra do alfabeto hebraico, e quer dizer boi; G é Gimel (g), a terceira e quer dizer camelo (NT).

42


Tais acréscimos são uma clara evidência que o Tarô deu passos definidos, porém arbitrários, para afirmar a redescoberta em magia por volta de dois mil anos atrás, pois não há sistema mais rígido que o hebraico, e o sistema do Sepher Yetzirah é o mais profundamente enraizado de todos os elementos do sistema hebraico, o mais dogmático de todos. O Tarô não é justificado por fé, mas por obras. Os pontos de partida da Qabalah original, completamente seca, têm sido justificados pela experiência. Percebe-se que o ponto (levantado acima) sobre a maneira na qual os caminhos são selecionados para unir certos números, e não outros, expressa importantes doutrinas ligadas aos fatos da iniciação. É preciso ter-se sempre em mente que o Tarô não é apenas um atlas para registro de fatos, mas sim um livro-guia, que mostra como viajar por esses países previamente desconhecidos. Viajantes na China ficam a princípio desnorteados quando lhes dizem que são 100 li de Yung Chang a Pu Peng, mas somente 40 li de Pu Peng a Yung Chang. A resposta é que li é uma medida de tempo de marcha e não de distância. A diferença numérica de cálculo é explicada às pessoas pelo fato do caminho para Pu Peng ser um longo aclive. Coisa idêntica sucede com o Tarô. O Seis de Bastões se refere a Júpiter em Leão e é chamado de Senhor da Vitória. Isto não indica apenas com o que a vitória se assemelha, mas também as condições a serem preenchidas a fim de obter a vitória. Há necessidade da energia ígnea do naipe de Bastões, do equilíbrio do número 6, da coragem obstinada de Leão e também da influência de Júpiter, o bocadinho de sorte que faz a balança se inclinar. Estas considerações são particularmente importantes ao se lidar com os Atu ou trunfos. Os planetas já estão representados nos números ou Sephiroth da Árvore da Vida, mas também são atribuídos a certos caminhos. Alguns etimologistas ociosos tentaram derivar a palavra francesa atout do ATU que significa casa. Talvez seja mais simples sugerir que atout seja uma abreviação de bon à tout, que significa bom para tudo, visto que o trunfo toma qualquer carta de qualquer naipe. Os Atus de Tahuti, que é o Senhor da Sabedoria, são também chamados de chaves. São guias, condutores. Dão a você o mapa do reino do céu e também o melhor caminho para tomá-lo à força. Uma completa compreensão de qualquer problema mágico é necessária antes de se poder solucioná-lo. São sempre abortivos o estudo e a ação realizados do exterior. A compreensão desse caráter extremamente especializado dos trunfos é de suma importância. Dizer que o trunfo de número III, chamado de A Imperatriz, representa Vênus significa muito menos e também muito mais do que parecerá se Vênus for estudada de um ponto de vista estritamente astrológico. Abandona-se a contemplação do todo para se tirar vantagem prática de uma parte, tal como a tática difere da estratégia. Um grande general não pensa a guerra no abstrato, mas sim limita sua atenção a uma minúscula parte de seu talvez vasto conhecimento do 43


assunto, considerando a disposição de suas forças num dado lugar e tempo, e o melhor modo de empregá-las contra seu adversário. Isto se revela verdadeiro, é claro, não apenas em relação aos trunfos, mas em relação a todas as outras cartas, tendo que ser verdadeiro no que se refere a quaisquer estudos especializados. Se alguém entra numa loja e pede um mapa de certo país não é possível que consiga um mapa completo, porque tal mapa se fundiria necessariamente ao universo, à medida que se aproximasse da completitude, pois o caráter de um país é modificado pelos países adjacentes, e assim por diante para sempre. Nem mesmo seria completo um mapa útil e prático mais vulgar sem levar à confusão. O vendedor da loja desejaria saber se o cliente deseja um mapa geológico, um mapa orográfico, um mapa comercial, um mapa indicativo da distribuição da população, ou um mapa estratégico, e assim por diante para sempre. O estudante do Tarô não deve, portanto, esperar encontrar nada além de uma seleção cuidadosa dos fatos a respeito de qualquer carta dada, uma seleção feita para um propósito mágico bem definido. E, contudo, o Tarô tenta resumir num símbolo pictórico único o máximo possível de aspectos úteis da ideia. Ao estudar qualquer carta, não se deve negligenciar qualquer das atribuições, porque cada classe de atribuição realmente modifica a forma e a cor da carta e o uso desta. Neste ensaio se fará um esforço, na seção descritiva de cada carta, no sentido de incluir o máximo possível de correspondências.

OS NÚMEROS ROMANOS DOS TRUNFOS

15

Os trunfos são numerados mediante algarismos romanos, para evitar a confusão com os algarismos arábicos das Sephiroth. Foi desconcertante para os escritores tradicionais que se ocuparam do Tarô, admitirem que esses números devessem ir de 0 a XXI. Parecem ter pensado que seria adequado supor que o “0” era O Louco porque era uma nulidade, um imprestável. Fizeram esta suposição simplesmente porque desconheciam a doutrina secreta do zero qabalístico. Desconheciam matemática elementar. Não sabiam que os matemáticos começam a escala decimal pelo zero. Para deixar absolutamente claro, aos iniciados, que não compreendiam o significado da carta chamada O Louco, eles o colocaram entre as cartas XX e XXI, por um motivo cuja concepção só pode aturdir a imaginação humana. Atribuíram então a carta número I, O Prestidigitador, à letra Aleph. Desta maneira simples, porém habilidosa, obtiveram a atribuição errada de todas as cartas, exceto a de O Universo, XXI. 15

Em alguns parágrafos desta seção, serão repetidas, em frases ligeiramente diferentes, afirmações já feitas nas páginas anteriores. É proposital.

44


Enquanto isso, a verdadeira atribuição foi bem guardada no Santuário e somente se tornou pública quando o texto secreto da lição emitida para os membros do grau de Practicus da Ordem Hermética da Aurora Dourada foi publicado como resultado da catástrofe que atingiu o ramo inglês da Ordem, em 1899 e 1900 E.V., e da reconstrução de toda a Ordem em março e abril de 1904 E.V. Colocando-se a carta “0” em seu lugar correto, onde qualquer matemático a teria colocado, as atribuições caem numa ordenação natural, que é confirmada por toda investigação. Havia, entretanto, um enroscamento na corda. A carta de nome Ajustamento é marcada com o número VIII; a carta de nome Volúpia é marcada com o número XI. Para manter a sequência natural, Volúpia deve ser atribuída a Libra, e Ajustamento a Leão. 16 Isto está evidentemente errado, porque a carta chamada Ajustamento mostra realmente uma mulher com espada e balança, enquanto que a carta chamada Volúpia mostra uma mulher e um leão. Foi inteiramente impossível compreender o motivo por que da ocorrência dessa inversão até os eventos de março e abril de 1904, que são narrados detalhadamente em O Equinócio dos Deuses. Basta uma citação aqui: “Todas estas velhas letras do meu Livro são corretas; mas x não é a Estrela.” (AL I, 57). Isto tornava a escuridão mais profunda. Estava claro que a atribuição de A Estrela à letra Tzaddi era insatisfatória, mas se levantava a questão de como descobrir outra carta que ocupasse seu lugar. A respeito disto, uma quantidade incrível de trabalho foi realizada... Em vão. Passados quase vinte anos surgiu a solução. A Estrela representa Nuit, os céus estrelados, “... Eu sou o Infinito Espaço e as Infinitas Estrelas de lá...” (AL I, 22). Ela é representada com duas ânforas, uma vertendo água, símbolo da luz, sobre si mesma e a outra sobre a terra. Trata-se de um glifo da economia do universo. Ele verte continuamente energia e continuamente a reabsorve. É a realização do movimento perpétuo, que jamais é verdadeiro quanto a qualquer parte, mas necessariamente verdadeiro quanto ao todo, pois se assim não fosse, haveria algo desaparecendo no nada, o que é matematicamente absurdo. O princípio de Carnot (a segunda lei da termodinâmica) é somente verdadeiro em equações finitas. A carta que deve ser permutada com A Estrela é O Imperador, o qual tem o número IV, que significa poder, autoridade, lei e é atribuída ao signo de Áries. Isto se mostra muito satisfatório. Mas se tornou infinitamente mais satisfatório logo que se percebeu que essa substituição esclarecia o outro mistério acerca de Força e Justiça, pois Leão e Libra são, devido a essa troca, mostrados em rotação em torno de Virgem, o sexto signo do zodíaco, o que equilibra a revolução de Áries e Aquário em torno de Peixes, o décimo segundo signo. Esta é uma referência a um segredo peculiar dos antigos que foi estudado com muita profundidade por Godfrey Higgins e outros de sua escola. Seria inútil aprofundar-se nesta matéria aqui. Mas a posição fica suficientemente clara mediante o diagrama de que dispomos. Poder-se-á perceber, de relance, que agora pela primeira vez existe uma perfeita simetria estabelecida no Tarô. 16

Os títulos antigos destas cartas eram respectivamente Força e Justiça, inadequados ou enganosos.

45


A justeza da troca revela-se evidente quando se considera a etimologia. É natural que a Grande Mãe deva ser atribuída a Hé, que é a sua letra no Tetragrammaton, enquanto que a letra Tzaddi é a letra natural de O Imperador no sistema fonético original, como é indicado nas palavras Tsar, Czar, Kaiser, Caesar, Senior, Seigneur, Señor, Signor, Sir.

O TARÔ E A MAGIA A magia é a ciência e arte de fazer com que ocorra mudança em conformidade com a vontade. Em outras palavras, a magia é ciência, pura e aplicada. Esta tese foi desenvolvida extensivamente pelo Dr. Sir J.G. Frazer. Mas na linguagem corrente, a palavra magia tem sido usada com o significado do tipo de ciência que as pessoas comuns não compreendem. É neste sentido restrito, na maioria das partes, que essa palavra será empregada neste ensaio. O negócio da ciência é explorar a natureza. Suas primeiras perguntas são: O que é isto? Como se constituiu? Quais são suas relações com outros objetos? O conhecimento adquirido pode então ser usado na ciência aplicada, que indaga: Como podemos empregar da melhor forma esta ou aquela coisa ou ideia para o propósito que nos parece adequado? Um exemplo pode esclarecer isto. Os gregos da antiguidade estavam cientes de que pelo friccionamento de âmbar (que eles denominavam electron) na seda aquele adquiria o capacidade de atrair para si objetos leves como pedacinhos de papel. Mas eles pararam por aí. Sua ciência teve seus olhos vendados por teorias teológicas e filosóficas do tipo a priori. Foram precisos bem mais de 2.000 anos para que esse fenômeno fosse correlacionado com outros fenômenos elétricos. A ideia de medição era mal conhecida por quem quer que seja salvo por matemáticos como Arquimedes e astrônomos. Os fundamentos da ciência, como é entendida hoje, foram efetivamente formulados há não mais que duzentos anos. Havia uma imensa quantidade de conhecimento, mas era quase todo ele qualitativo. A classificação dos fenômenos dependia principalmente de analogias poéticas. As doutrinas das correspondências e assinaturas eram baseadas em semelhanças fantásticas. Cornélio Agrippa escreveu sobre a antipatia entre um golfinho e um remoinho de água. Se uma meretriz se sentava sob uma oliveira, esta não daria mais frutos. Se alguma coisa parecia com alguma outra coisa, passava a participar de alguma forma misteriosa de suas qualidades. Hoje em dia, isso soa como mera ignorância supersticiosa e absurdo, mas não se trata disto em absoluto. O antigo sistema de classificação era às vezes bom, às vezes ruim, dentro de seus limites. Mas em caso algum ele ia realmente muito longe. A engenhosidade natural de seus filósofos naturais, de fato, compensava largamente a debilidade de suas teorias, e acabou finalmente por levá-los (especialmente através da 46


alquimia, onde eram forçados pela natureza do trabalho a acrescer o real às suas observações ideais) a introduzir a ideia de medida. A ciência moderna, intoxicada pelo sucesso prático atingido por essa inovação, tem simplesmente fechado a porta para qualquer coisa que não pode ser medida. A velha guarda recusa-se a discuti-lo. Mas a perda é imensa. A obsessão com qualidades estritamente físicas tem bloqueado todos os valores humanos reais. A ciência do Tarô é inteiramente baseada nesse sistema mais antigo. Os cálculos envolvidos são muito precisos, mas nunca perdem de vista o incomensurável e o imponderável. A teoria do animismo estava sempre presente nas mentes dos mestres medievais. Qualquer objeto natural detinha não apenas suas características materiais, como era também uma manifestação de uma ideia mais ou menos tangível da qual ele dependia. A lagoa era uma lagoa... Tudo bem, mas também havia uma ninfa cujo lar era a lagoa. E, por sua vez, a ninfa era dependente de um tipo superior de ninfa, a qual era bem menos intimamente ligada a qualquer lagoa em particular, porém mais às lagoas em geral, e assim por diante, até a suprema Senhora da Água, que exercia uma supervisão geral sobre a totalidade de seu domínio. Ela, é claro, estava subordinada ao Regente Geral de todos os quatro elementos. É exatamente a mesma ideia no caso do oficial de polícia, que tem seu sargento, inspetor, superintendente, comissário, sempre se tornando mais nebuloso e remoto até se alcançar o indistinto Ministro da Justiça, que é, ele próprio, o servo de um fantasma completamente intangível e incalculável chamado de a vontade do povo. Pode-se duvidar até que ponto a personificação dessas entidades era concebida como real pelos antigos, mas a teoria era que, enquanto alguém com um par de olhos conseguisse ver a lagoa, não conseguiria ver a ninfa, salvo por algum acidente. Mas achavam que um tipo superior de pessoa, por meio de pesquisa, estudo e experimento poderia obter esse poder geral. Uma pessoa ainda mais avançada nessa ciência podia entrar em contato real com as superiores ‒ porque mais sutis ‒ formas de vida. Podia, talvez, fazê-las manifestar-se sob forma material. Muito disso repousa no idealismo platônico, no qual se sustentava que qualquer objeto material era uma cópia impura e imperfeita de alguma perfeição ideal. Assim, os homens que desejavam avançar na ciência e filosofia espirituais empenhavam-se sempre em formular para si mesmos a ideia pura. Tentavam proceder do particular ao geral, princípio que serviu muitíssimo à ciência ordinária. A matemática de 6 + 5 = 11 e 12 + 3 = 15 se achava toda aos pedaços. O avanço só chegou quando escreveram suas equações em termos gerais. X2 ‒ Y2 = (X + Y) (X ‒ Y) cobre todos os casos possíveis de subtração do quadrado de um número do quadrado de outro. E, assim, o sem sentido e abstrato, quando compreendido, possui muito mais sentido do que o inteligível e concreto. Tais considerações se aplicam às cartas tomadas do Tarô. Qual é o significado do Cinco de Bastões? Esta carta está sujeita ao Senhor do Fogo porque é um bastão e à Sephirah Geburah porque é um cinco. Está sujeita também ao signo do Leão e ao 47


planeta Saturno porque este planeta e signo determinam a natureza da carta. Isto não é mais do que dizer que um martini seco tem em si algum junípero e algum álcool e algum vinho branco e ervas e um bocado de casca de limão e algum gelo. É uma composição harmoniosa de vários elementos que, uma vez misturados, formam um composto único do qual seria muito difícil separar os ingredientes; e, todavia, cada elemento é necessário à composição. O Cinco de Bastões é, portanto, uma personalidade, cuja natureza é resumida no Tarô, chamando-o de Disputa. Isto significa que, se usado passivamente na adivinhação, diz-se, quando trazido à tona, “vai haver uma luta”. Se usado ativamente, significa que o curso apropriado de conduta é a contenda. Mas há outro ponto sobre esta carta, a saber, ela é governada do mundo angélico por dois seres, um durante as horas de luz, o outro durante as horas de escuridão. Consequentemente, a fim de utilizar as propriedades dessa carta, uma das maneiras é entrar em comunicação com a Inteligência envolvida e induzi-la a desempenhar sua função. Há, assim, setenta e dois anjos assentados sobre as trinta e seis cartas menores; estes são derivados do Grande Nome de Deus de vinte e duas letras, chamado Shemhamphorasch.

O SHEMHAMPHORASCH E O TARÔ

Esta palavra significa o Nome Dividido. O Nome é Tetragrammaton: I.H.V.H., chamado comumente Jehovah. Ele é o Supremo Senhor dos Quatro Elementos que compõem fundamentalmente o universo inteiro. Há três versículos no Êxodo (xiv, 19, 20, 21), cada um contendo setenta e duas letras. Escrevendo-se o primeiro destes e, abaixo dele, o seguinte versículo de trás para frente, e, embaixo deste, o último versículo para frente, são obtidas setenta e duas colunas de três letras cada. Estas são lidas de cima para baixo e as terminações AL ou AH, se masculinas ou femininas, respectivamente, são juntadas. Há também uma atribuição dessas Inteligências, uma para cada um dos quinários ou segmentos de cinco graus do zodíaco; há, ademais, outros inumeráveis anjos, demônios, imagens mágicas, senhores de triplicidades, anjos assistentes menores e assim por diante, com demônios correspondentes. É inteiramente inútil estudar todas essas atribuições. Poderiam ser necessitadas somente no caso de se desejar entrar em efetiva comunicação com uma dessas Inteligências, com algum propósito especial. Essas matérias são mencionadas aqui por uma questão de completitude, mas o Tarô perderá toda sua vitalidade para quem se deixar ser desviado por seu pedantismo.

48


O TARÔ E A MAGIA CERIMONIAL O Tarô está assim intimamente vinculado às artes puramente mágicas da invocação e evocação. Entende-se por invocação a aspiração à mais elevada, à mais pura parte de si mesmo, que se deseja por em ação. A evocação é muito mais objetiva. Não implica em perfeita simpatia. A atitude em relação ao ser evocado pode inclusive ser, ao menos superficialmente, hostil. Então, é claro que, quanto mais avançado se estiver na iniciação, menos a ideia de hostilidade penetrará a mente. Tout comprendre, c’est tout pardonner.17 Assim, para compreender qualquer carta, é preciso identificar-se com ela completamente naquele momento, e uma maneira de fazê-lo é induzir ou forçar a Inteligência que rege a carta a se manifestar aos sentidos, pois, como explicado anteriormente, a antiga teoria do universo incluía a tese segundo a qual todo objeto na natureza possui um guardião espiritual. Falando a grosso modo, isto não se aplicava tanto a objetos fabricados, embora haja exceções, como no caso dos deuses do lar, da padieira e similares, ou no caso de anjos ou espíritos que se supõe estarem interessados na espada ou lança. Uma arma particularmente poderosa provavelmente conquistaria a reputação de não ter sido fabricada em absoluto por mãos humanas, mas sim ter sido forjada em vulcões ou na terra das fadas, e imbuída assim de poderes sobrenaturais. Algumas espadas famosas tinham nomes e eram consideradas seres vivos; eram passíveis de voar pela janela se seu dono brincasse com elas demasiadamente, em lugar de matar as pessoas, como apropriado.

O TARÔ E O ANIMISMO É apenas natural, portanto, que, numa época na qual representações pictóricas ou escritas de ideias estavam além do entendimento da grande maioria das pessoas, na qual a própria escrita era tida como mágica e a imprensa (como ela é) uma invenção do diabo, as pessoas encarassem os hieróglifos (escritos ou desenhados) como coisas vivas que detinham poder em si mesmas. Pode ser que mesmo hoje em dia haja casas no ponto mais sombrio de Shropshire onde alguém que coloque outro livro sobre a Bíblia da família seja comunicado a não aparecer mais como visita. Ação automática é atribuída em todo lugar a objetos inanimados, por exemplo, ferraduras nas portas. Há toda uma classe de tais superstições. O problema de como uma dada superstição surgiu nem sempre foi satisfatoriamente resolvido. Pode-se (ignorantemente) ver a origem do absurdo dos treze sentados à mesa na lenda da Última Ceia (a propósito, dificilmente deve ter sido a primeira vez em que aqueles treze se sentaram à mesa).

17

Em francês no original, tudo compreender é tudo perdoar (NT).

49


Contudo, as superstições realmente primitivas não podem ser explicadas com tal simplicidade. Parece mais provável que tenham se originado do hábito não-científico (extremamente comum entre os homens de ciência) de generalizar a partir de fatos em quantidade demasiadamente pequena. Poderia acontecer, por acaso, que, em meia dúzia de ocasiões dentro de um curto período, um caçador, caminhando sob lua cheia, fosse morto. A velha falácia do post hoc propter hoc viria à tona, e o povoado diria: ‒ “Traz desgraça ir caçar na lua cheia”. Isto ganharia força ao ser repetido através das gerações em função da preguiça mental e não sofreria qualquer transtorno porque o tabu tornaria improvável a recorrência da coincidência original. Se, entretanto, algo similar ocorresse na lua nova haveria uma nova superstição, e logo haveria um completo nexo do tabu em relação à lua. Um caso recente. O falecido Sr. S.L. Mathers publicou em 1898/1899 a tradução de um manuscrito intitulado The Sacred Magic of Abramelin the Mage 18 numa pequena edição privada. Algumas centenas de pessoas o compraram. Um grupo de compradores em especial, sob a observação pessoal de Mathers, foi todo, ou quase todo, atingido pela desgraça. Dentro de um ano as pessoas diziam que era terrivelmente perigoso ter o tal livro na prateleira da estante. Resistiria esta teoria ao exame estatístico? Quem poderia dizê-lo? Mas, suficientemente curioso, em 1938 E.V., um exemplar descurado foi retirado de seu esconderijo numa prateleira obscura. Imediatamente, ocorreram desastres à maioria das pessoas envolvidas, e àquelas com as quais estas estavam em relação estreita. Post hoc propter hoc. Mas quem pode ter certeza?

AS CARTAS DO TARÔ COMO SERES VIVOS A ciência vitoriana, inflamada com sua vitória sobre o sobrenaturalismo, estava absolutamente certa ao declarar o incomensurável “fora dos limites”. Tinha o direito de fazê-lo no campo técnico e constituiu uma necessidade estratégica de sua ofensiva, mas ela tolheu a si mesma limitando seu alcance. Fez-se vulnerável aos ataques mais letais da filosofia. Então, especialmente a partir do ângulo da física matemática, suas próprias generalidades traíram seu dogmatismo. A essência da ciência atualmente é bem mais misteriosa do que as mais nebulosas especulações de Leibnitz, Spinoza ou Hegel; a moderna definição de matéria lembra as pessoas irresistivelmente da definição de espírito dada por místicos como Ruysbroek, Boehme e Molinos. A ideia do universo na mente de um matemático moderno é uma singular reminiscência dos desvarios de William Blake.

18

O título completo é The Book of the Sacred Magic of Abramelin the Mage, (O Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago) publicado no Brasil por esta editora (NT).

50


Mas os místicos estavam todos errados quando eram piedosos e sustentavam que seus mistérios eram demasiado sagrados para serem analisados. Deviam ter sondado a ideia de medida. Isto é exatamente o que foi feito pelos magos e qabalistas. A dificuldade foi que as unidades de medida foram elas mesmas um tanto elásticas, tendendo, inclusive, a ser literárias. Suas definições eram tão circulares quanto, mas não mais fugazes do que, as definições dos físicos de hoje. Seus métodos eram empíricos a despeito de seu esforço para os tornarem precisos, pois a falta de medidas exatas e aparelhos padrões não o permitia, porque eles não haviam formulado ainda qualquer teoria científica verdadeira. Mas seus êxitos foram numerosos. Tudo dependia de habilidade individual. Preferir-se-ia, em caso de doença, confiar-se ao médico nato do que aos especialistas de laboratório de Battle Creek. Uma das grandes diferenças entre a antiga e a moderna química é a ideia dos alquimistas de que a substância em seu estado natural é, de um modo ou outro, uma coisa viva. A moderna tendência é insistir no comensurável. Pode-se entrar num museu e ver fileiras de esferas e frascos de vidro que contêm as substâncias químicas que se combinam para constituir o corpo humano, mas esta coleção está bem longe de ser um homem. E ainda é incapaz de explicar a diferença entre Lord Tomnoddy e Bill Sykes. Os químicos do século XIX realizaram um grande esforço para analisar o ópio e isolar seus alcaloides, mais ou menos como uma criança desmontando um relógio para ver o que o faz funcionar. Eles tiveram êxito, porém os resultados não foram completamente saudáveis. A morfina tem efeito hipnótico muito mais direto que o ópio; sua ação é mais rápida e mais violenta, mas é também uma droga muito perigosa e seus efeitos são amiúde desastrosos. A ação da morfina é sensivelmente modificada pelos outros vinte alcaloides indefinidos que existem no ópio. O efeito intoxicante do álcool varia, dependendo se sua absorção é através de Richebourg ‟29 ou gim sintético. Um exemplo ainda mais espantoso vem da Venezuela, onde mensageiros-corredores mascam folhas de coca, cobrem sua centena de milhas por dia e dormem até estarem descansados. Não experimentam reação adversa e não adquirem o hábito. Com a cocaína, a história é diferente. Os adeptos do Tarô diriam simplesmente: ‒ “Nós e a planta estamos vivos, de maneira que podemos ser amigos. Se você matar a planta primeiro, estará procurando encrenca.” Tudo isso é aqui escrito em defesa do sistema dos criadores e usuários do Tarô, de seus métodos de lidar com a natureza, de executar experimentos sem a atenção indevida ao desejo de ter as coisas feitas rapidamente. Eles exporiam uma mistura aos raios do sol ou da lua durante semanas ou meses, achando que tudo se estragaria se a fervessem violentamente. “Os processos da natureza”, diriam, “são lentos e brandos: vamos imitálos!” Deve ter havido boas razões para essas opiniões. A experiência conduz a essa conclusão. O acima exposto serviu de introdução a uma tese bastante necessária para a compreensão do Tarô. Cada carta é, num certo sentido, um ser vivo, e suas relações com 51


seus vizinhos poderiam ser qualificadas de diplomรกticas. Compete ao estudante construir com estas pedras animadas o seu templo vivo.

52


SEGUNDA PARTE O S A TUS (C HAVES OU T RUNFOS )

53


54


0 ‒ O LOUCO

19

Esta carta é atribuída à letra Aleph, que significa boi, embora por sua forma a letra hebraica (assim é dito) represente uma relha de arado, de modo que a significação é primordialmente fálica. É a primeira das letras-mãe, Aleph, Mem e Shin que correspondem, de várias maneiras entrelaçadas, a todas as tríades que ocorrem nestas cartas, notadamente fogo, água e ar; Pai, Mãe e Filho; enxofre, sal e mercúrio; Rajas, Sattvas e Tamas. O traço realmente importante dessa carta é que seu número deve ser 0. Representa, portanto, o negativo acima da Árvore da Vida, a fonte de todas as coisas. É o zero qabalístico. É a equação do universo, o equilíbrio inicial e final dos opostos; o ar, nessa carta, por conseguinte, significa quintessencialmente o vácuo. No baralho medieval, o título da carta é Le Mat, adaptação do italiano Matto, que significa louco ou tolo; a propriedade desse título será considerada na sequência deste ensaio. Mas há outra, ou melhor (poder-se-ia dizer), uma teoria complementar. Se supusermos que o Tarô é de origem egípcia, será possível conjeturar que Mat (esta carta 19

Note-se que o inglês Fool deriva de follis, saco de vento, de sorte que até a etimologia concede a atribuição ao ar. Além disso, inflar as bochechas é um gesto que sugere estar pronto para criar, na linguagem de sinais de Nápoles. Pior, alguns guardiões ingleses da democracia imputam loucura aos outros pelo Razzberry.

55


sendo a carta-chave do baralho inteiro) representa Maut, a deusa-abutre, que é uma modificação mais antiga e mais sublime da ideia de Nuit do que Ísis. Há duas lendas ligadas ao abutre. Supõe-se que ele possua um pescoço em espiral, o que possivelmente se refere à teoria (recentemente ressuscitada por Einstein, mas mencionada por Zoroastro em seus Oráculos) de que a forma do universo, a forma daquela energia que é chamada de universo, é espiral. Na outra lenda supõe-se que o abutre reproduza sua espécie mediante a intervenção do vento; em outras palavras, o elemento ar é considerado como o pai de toda a existência manifestada. Existe um paralelo disso na filosofia grega, na escola de Anaxímenes. Essa carta é, portanto, tanto o pai, quanto a mãe, sob a forma mais abstrata destas ideias. Não se trata de uma confusão, mas sim de uma identificação deliberada do macho e da fêmea, o que é justificado pela biologia. O óvulo fertilizado é sexualmente neutro. É apenas um elemento determinante que no curso do desenvolvimento que define o sexo. É necessário se aclimatar com isso, que é, à primeira vista, uma estranha ideia. Logo que se tenha decidido a considerar o aspecto feminino das coisas, o elemento masculino deve surgir imediatamente, no mesmo lampejo de pensamento, para contrabalançá-lo. Esta identificação é completa em si, filosoficamente falando. Será somente mais tarde que se considerará a questão do resultado da formulação do zero como mais 1 mais menos 1. O resultado de fazer-se deste modo faz surgir a ideia do Tetragrammaton.

A FÓRMULA DO TETRAGRAMMATON

Foi explicado neste ensaio que todo o Tarô é baseado na Árvore da Vida e que a Árvore da Vida é sempre cognata ao Tetragrammaton. Pode-se sintetizar a doutrina inteira muito resumidamente como se segue. A união do Pai e da Mãe produz gêmeos, o filho avançando para a filha, a filha devolvendo a energia ao pai. Através deste ciclo de mudança são asseguradas a estabilidade e a eternidade do universo. A fim de compreender o Tarô, faz-se mister voltar na história até a era matriarcal (e exogâmica), na qual a sucessão não se dava através do filho primogênito do rei, mas sim através de sua filha. O rei não era, portanto, rei por herança, mas por direito de conquista. Nas dinastias mais estáveis, o novo rei era sempre um estranho, um estrangeiro; e mais, ele tinha que matar o velho rei e casar com a filha deste rei. Este sistema garantiu a virilidade e capacidade de todo rei. O estranho precisava conquistar sua noiva numa competição aberta. Nos antigos contos de fadas, este motivo é continuamente reiterado. O ambicioso estranho é geralmente um troubadour, quase sempre disfarçado, com frequência sob forma repulsiva. A Bela e a Fera é um 56


conto típico. Há, usualmente, uma camuflagem correspondente por parte da filha do rei, como no caso de Cinderela e da Princesa Encantada. A narrativa de Aladim proporciona o todo desta fábula sob uma forma muito elaborada, acondicionada com contos técnicos de magia. Eis aqui o fundamento da lenda do Príncipe Errante ‒ e, note bem, ele é sempre “o louco da família”. A conexão entre loucura e santidade é tradicional. Não se trata de zombaria quando se decide que o parvo da família vá para a igreja. No Oriente, acredita-se que o louco seja possuído, um homem santo ou profeta. Esta identidade é tão profunda que está realmente embutida na linguagem. Silly 20 significa vazio ‒ o vácuo do ar ‒ zero, “os baldes vazios no convés”. E a palavra deriva do alemão selig, santo, abençoado. É a inocência do Louco o que o caracteriza mais intensamente. Verse-á na sequência quão importante é este aspecto da história. Para assegurar a sucessão, concebia-se, portanto: primeiro, que o sangue real devesse ser efetivamente o sangue real, e segundo, que este procedimento fosse fortalecido pela introdução do estranho conquistador, em lugar de ser atenuado pela procriação consanguínea. Em certos casos, exagerava-se com esta teoria. Havia provavelmente muita tramoia a respeito desse príncipe sob disfarce. É possível que o rei, seu pai, lhe fornecesse cartas de apresentação bastante secretas; em suma, que o velho jogo político já fosse velho até naquelas épocas remotas. Tal costume, assim, evoluiu para a condição bem investigada por Frazer em A Rama Dourada (esta rama sendo, sem dúvida, um símbolo da própria filha do rei). “A filha do rei é toda gloriosa interiormente; seu traje é de ouro lavrado.” Como teria ocorrido tal evolução? Pode ter havido uma reação contra o jogo político. Pode ter havido uma glorificação, antes de tudo do “fidalgo-assaltante”, finalmente do mero chefe de quadrilha, mais ou menos como temos visto, no nosso próprio tempo, na reação contra o vitorianismo. As credenciais do “príncipe errante” foram meticulosamente examinadas; a não ser que fosse um criminoso fugitivo, não podia ser escolhido para a competição; tampouco era suficiente para ele conquistar a filha do rei numa competição aberta, viver no regaço do luxo até que o velho rei morresse e sucedê-lo pacificamente. Era forçado a assassinar o velho rei com suas próprias mãos. À primeira vista, pareceria que a fórmula é a união do extremamente masculino, a grande fera loura, com o extremamente feminino, a princesa que não conseguia dormir se houvesse uma ervilha sob seus sete leitos de penas. Mas todo este simbolismo derrota a si mesmo. O macio se torna o duro, o áspero se torna o liso. Quanto mais se sonda a fórmula, mais a identificação dos opostos se torna estreita. A pomba é a ave de Vênus, mas também é um símbolo do Espírito Santo, ou seja, do falo, sob sua forma mais sublimada. Não há, portanto, qualquer razão para surpreender-se com a identificação do pai com a mãe.

20

Tolo, estúpido, ingênuo, em Inglês ‒ NT.

57


Naturalmente, quando ideias tão sublimes se tornam vulgarizadas, deixam de exibir o símbolo com lucidez. O grande hierofante, frente a um símbolo inteiramente ambíguo, é obrigado, exatamente devido ao seu cargo de hierofante, ou seja, daquele que manifesta o mistério, a “rebaixar a mensagem para o cão”. Tem que fazer isto exibindo um símbolo da segunda ordem, um símbolo que se ajuste à inteligência da segunda ordem de iniciados. Este símbolo, em lugar de ser universal, ultrapassando assim a expressão ordinária, precisa ser adaptado à capacidade intelectual de um conjunto particular de pessoas, as quais ao hierofante compete iniciar. Tal verdade, consequentemente, aparece para o vulgo como fábula, parábola, lenda e mesmo credo. No caso deste símbolo muito abrangente de O Louco, há no âmbito do conhecimento real, diversas tradições, completamente distintas, de grande clareza e, historicamente, de grande importância. Essas tradições devem ser examinadas em separado, de maneira que se possa compreender a doutrina única da qual todas brotaram.

O “HOMEM VERDE” DO FESTIVAL DA PRIMAVERA. “O BOBO DE PRIMEIRO DE ABRIL.” O ESPÍRITO SANTO.

Esta tradição representa a ideia original adaptada à compreensão do camponês médio. O Homem Verde é uma personificação da influência misteriosa que produz os fenômenos da primavera. É difícil dizer por que tem de ser assim, mas é assim: há uma conexão com as ideias de irresponsabilidade, de desregramento, de idealização, de romance, de devaneio radiante. O Louco se agita dentro de todos nós no retorno da primavera; e, por estarmos um tanto desnorteados, um tanto constrangidos, pensou-se ser salutar o costume de se exteriorizar o impulso subconsciente mediante recursos cerimoniais. Era uma forma de facilitar a confissão. Relativamente a todos esses festivais, pode-se dizer que são representações sob a forma mais simples, sem introspecção, de um fenômeno perfeitamente natural. Deve-se observar, em particular, o costume do ovo de páscoa e do poisson d’avril [O Peixe do Salvador é abordado em outra parte deste ensaio. A precessão dos equinócios fez a primavera começar com a entrada do Sol em Áries (O Carneiro) em lugar de Pisces (Peixes), como foi o caso nas épocas mais primitivas].

O “GRANDE LOUCO” DOS CELTAS (DALUA)

Constata-se aqui um considerável avanço em relação aos fenômenos puramente naturais descritos logo acima. No Grande Louco existe uma doutrina definida. O mundo está sempre procurando um salvador, e a doutrina em pauta é filosoficamente mais do que uma doutrina: é um simples fato. A salvação, seja lá o que possa isto significar, não 58


é para ser obtida mediante quaisquer termos razoáveis. Razão é um impasse, razão é danação; só a loucura, loucura divina, oferece uma saída. A lei do Ministro da Justiça não servirá; o legislador pode ser um condutor epilético de camelos como Maomé, um filho da fortuna provinciano e megalomaníaco como Napoleão, ou mesmo um exilado, três partes sábio, uma parte maluco, um morador de sótão em Soho, como Karl Marx. Há somente uma coisa em comum entre essas pessoas: são todas loucas, quer dizer, inspiradas. Quase todos os povos primitivos possuem essa tradição, ao menos sob forma diluída. Respeitam o lunático errante, pois pode ser que ele seja o mensageiro do Altíssimo. “Este estrangeiro esquisito? Vamos tratá-lo bondosamente. Talvez estejamos lidando com um anjo sem o saber”. Estreitamente vinculada a essa ideia, está a questão da paternidade. Necessita-se de um salvador. O que se requer com certeza nas suas qualificações? Que não seja um homem comum (nos Evangelhos, as pessoas sofismavam em torno da afirmação de que Jesus era o Messias porque vinha de Nazaré, uma cidade perfeitamente conhecida, porque conheciam sua mãe e sua família; em síntese, argumentavam que ele não possuía qualificações para candidato a salvador). O salvador tem que ser uma pessoa peculiarmente sagrada; dificilmente se acredita que ele seja efetivamente um ser humano. No mínimo, sua mãe precisa ser uma virgem e, para se combinar a esta maravilha, seu pai não pode ser um homem ordinário; portanto, seu pai tem que ser um deus. Mas, como um deus é um vertebrado gasoso, urge que ele seja alguma materialização de um deus. Ótimo! Que ele seja o deus Marte, sob a forma de um lobo; ou Júpiter, como um touro, ou uma chuva de ouro, ou um cisne; ou Jeová, sob a forma de uma pomba; ou alguma outra criatura fantástica, de preferência disfarçado sob alguma forma animal. Há inúmeras formas dessa tradição, mas todas concordam em um ponto: o salvador só pode aparecer como o resultado de algum acidente extraordinário, absolutamente contrário a tudo que seja normal. A mais ínfima sugestão de alguma coisa razoável nesta matéria destruiria o argumento todo. Mas como é preciso contar com alguma figura concreta, a solução geral é representar o salvador como o Louco (tentativas no sentido de atingir esta condição aparecem na Bíblia; observe-se a “capa multicolorida” de José e de Jesus; é o bufão 21 que livra seu povo da escravidão). Na sequência se verá como esta ideia está ligada àquela do mistério da paternidade, e também da iridescência do mercúrio alquímico em um dos estágios da Grande Obra.

21

Chame-o de Arlequim e um Tetragrammaton evidentemente bufoneando a Sagrada Família salta à vista: Pantaleão, o idoso “antique-antic”; palhaço e arlequim, dois aspectos do Louco, e Columbina, a virgem. Mas, ao ser burlesca, a tradição se torna confusa e o significado profundo é perdido, tal como ocorreu com a peça de mistério medieval de Pôncio e Judas, que se tornou uma farsa, com variantes tópicas oportunistas, Polichinelo e Judy.

59


O “RICO PESCADOR”: PERCIVAL

A lenda de Percival, que integra o mistério do Deus-Peixe Salvador e do Sangraal, ou Cálice Sagrado, tem origem controvertida. Aparece, certamente, em primeiro lugar, na Bretanha, a terra mais amada da magia, a terra de Merlin, dos druidas, da floresta de Broceliande. Alguns eruditos supõem que a forma galesa desta tradição, que empresta muito de sua importância e sua beleza ao ciclo do rei Artur, é ainda mais antiga. Isto não tem relevância aqui, mas é vital compreender-se que a lenda, como aquela de O Louco, é puramente pagã originalmente e chega a nós através de recensões latino-cristãs: não há nenhum traço de quaisquer de tais matérias nas mitologias nórdicas (Percival e Galahad eram “inocentes”: esta é uma condição da guarda do Cálice). Note-se, ademais, que Monsalvat, montanha da salvação, lar do Graal (Cálice), a fortaleza dos cavaleiros guardiões, fica nos Pirineus. Convém, aqui, introduzir a figura de Parsifal, porque ele representa a forma ocidental da tradição do Louco e porque sua lenda foi altamente elaborada por iniciados eruditos (a encenação dramática do Parsifal, de Wagner, foi arranjada pelo então chefe da O.T.O.). Parsifal, em sua primeira fase é Der reine Tor, O Louco Puro. Seu primeiro ato é atirar no cisne sagrado. É o desregramento da inocência. No segundo ato, é a mesma qualidade que o capacita a resistir aos agrados das damas no jardim de Kundry. Klingsor, o mago mau, que pensava em preencher as condições da vida pela automutilação, vendo seu império ameaçado, arremessa a lança sagrada (que havia furtado da Montanha da Salvação) em Parsifal, mas esta se mantém suspensa sobre a cabeça do menino. Parsifal a agarra; em outras palavras, atinge a puberdade (esta transformação será vista nas outras fábulas simbólicas na sequência). No terceiro ato, a inocência de Parsifal amadureceu em santificação; ele é o sacerdote iniciado cuja função é criar. É Sexta-Feira Santa, o dia das trevas e da morte. Onde buscará ele sua salvação? Onde é Monsalvat, a montanha da salvação, que ele buscou por tanto tempo em vão? Ele venera a lança: imediatamente, o caminho, há tanto tempo fechado para ele, está aberto; o cenário muda rapidamente, não havendo necessidade para que ele se mova. Ele chegou ao Templo do Graal. Toda religião cerimonial verdadeira deve ser solar e fálica em caráter. É o ferimento de Amfortas que removeu a virtude do templo (Amfortas é o símbolo do deus que morre). Consequentemente, a fim de redimir toda a situação, destruir a morte, reconsagrar o templo, basta-lhe mergulhar a lança no Cálice Sagrado. Ele redime não só Kundry, mas a si mesmo (esta era, então, uma doutrina somente apreciável em sua plenitude pelos membros do Santuário Soberano da Gnosis do Nono Grau da O.T.O.).

60


O CROCODILO (MAKO, FILHO DE SET, OU SEBEK)

A mesma doutrina de máxima inocência evoluindo para máxima fertilidade é encontrada no antigo Egito no simbolismo do deus-crocodilo, Sebek. A tradição diz que o crocodilo era desprovido do meio de perpetuar sua espécie (comparar com o que foi mencionado anteriormente sobre o abutre Maut). Não a despeito disto, mas devido a isto, ele era o símbolo da energia criativa máxima (Freud, como se verá mais tarde, explica esta aparente antítese). Mais uma vez, o reino animal é invocado para desempenhar a função de gerar o redentor. Às margens do Eufrates os homens veneravam Oannes, ou Dagon, o deuspeixe. O peixe na qualidade de símbolo de paternidade, de maternidade, de perpetuação da vida geralmente, se reitera constantemente. A letra Nun (correspondente ao N e que em hebraico significa peixe) é um dos hieróglifos originais que representa essa ideia, aparentemente por causa das reações mentais estimuladas na mente pela contínua repetição dessa letra. Há, assim, diversos deuses, deusas e heróis epônimos cujas lendas são funções da letra N (com referência a esta letra, ver o Atu XIII). Está ligada ao norte e, assim, com os céus estrelados em torno da Estrela Polar; também com o vento do norte, e a referência é com os signos da água. Daí estar presente a letra Nun (N) nas lendas do dilúvio e dos deuses-peixes. Na mitologia hebraica, o herói pertinente é Noé. Note-se, inclusive, que o símbolo do peixe foi escolhido para representar o redentor ou falo, o deus cuja virtude faz o homem atravessar as águas da morte. O nome vulgar deste deus ao sul da Itália atualmente, e alhures, é pesce. E assim, também, sua contraparte feminina, kteis, é representada pela Vesica Piscis, a bexiga do peixe, e sua forma é continuamente exibida em muitas janelas de igrejas e no anel episcopal. 22

O ANEL E O LIVRO

A palavra é um Notariqon de Iesous Christos Theou Huios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). Na mitologia de Yucutan eram os “antigos cobertos de penas que emergiam do mar”. Alguns viram nesta tradição uma referência ao fato de o homem ser um animal marinho; nosso aparelho respiratório ainda possui guelras atrofiadas.

22

“ICQUS, que significa peixe e, muito adequadamente, simboliza Cristo.”

61


HOOR-PA-KRAAT 23

Ao atingir-se a teogonia altamente sofisticada, aparecerá um símbolo perfeitamente claro e concreto desta doutrina. Harpócrates é o deus do Silêncio, e este silêncio possui um significado muito especial (ver ensaio anexo, apêndice). O primeiro é Kether, o ser puro, inventado como um aspecto do nada puro. Em sua manifestação, ele não é um, mas dois; ele só é apenas um porque é 0. Ele existe; EHEIEH, seu nome divino, que significa Eu sou ou Eu serei, é meramente outra maneira de dizer que ele Não É, porque o um não conduz a lugar algum, que é de onde ele veio. Assim a única manifestação possível é em dois, e esta manifestação tem que ser em silêncio, porque o número 3, o número de Binah, Compreensão, não foi ainda formulado. Em outras palavras, não há Mãe. Tudo que se tem é o impulso dessa manifestação e este tem que ocorrer em silêncio, quer dizer, há, até agora, não mais que o impulso, que é não formulado; é somente quando ele é interpretado que se torna a Palavra, o Logos (ver Atu I). Agora, que se considere a forma tradicional de Harpócrates. Ele é um bebê, isto é, inocente, e ainda sem atingir a puberdade; uma forma mais simples de Parsifal, ele é representado na cor rosa-cravo (rosa clara). É a aurora, a insinuação da luz prestes a chegar, mas de modo algum esta luz; ele tem uma mecha de cabelos negros encaracolados pela sua orelha, e esta é a influência do Altíssimo descendo sobre o chakra Brahmarandra. O ouvido é o veículo de Akasha, o Espírito. Este é o único símbolo que sobressai, é a única indicação de que ele não é meramente o bebê calvo, porque é a única cor na bolha de rosa-cravo. Mas na outra mão, seu dedo polegar está, ou contra seu lábio inferior, ou em sua boca, o que é não se pode dizer. Há aqui uma disputa entre duas escolas; se ele está pressionando seu lábio inferior, enfatiza o silêncio como silêncio, se seu polegar está na boca, enfatiza a doutrina de EHEIEH: Eu serei. De qualquer modo, no fim estas doutrinas são idênticas. Este bebê está num ovo azul, que é evidentemente o símbolo da Mãe. Esta criança, de certa maneira, não nasceu; o azul é o azul do espaço; o ovo está assentado sobre um lótus, e este lótus cresce no Nilo, sendo outro símbolo da Mãe, e o Nilo é também um símbolo do Pai fertilizando o Egito, Yoni (mas, também, o Nilo é o lar de Sebek, o crocodilo, o qual ameaça Harpócrates). Todavia, Harpócrates nem sempre é representado assim. Ele é mostrado por algumas escolas em pé; acha-se em pé sobre os crocodilos do Nilo (referência ao crocodilo de que se falou logo anteriormente, o símbolo de duas coisas exatamente opostas). Há, aqui, uma analogia. Um lembra Hércules ‒ o Hércules menino ‒ que fiava na roca da Casa das Mulheres, o outro lembra Hércules já homem forte, que era inocente, que foi, por fim, um louco que destruiu sua esposa e os filhos. É um símbolo cognato. 23

O Louco é, também, obviamente, um aspecto de Pã, mas esta ideia é mostrada em seu desenvolvimento mais pleno pelo Atu XV, cuja letra é a semivogal Ayin ((), cognata de Aleph ()).

62


Harpócrates é (num certo sentido) o símbolo da aurora no Nilo e do fenômeno fisiológico que acompanha o ato do despertar. Percebe-se na outra extremidade da oitava do pensamento a conexão desse símbolo com a sucessão ao poder real descrito anteriormente. O símbolo de Harpócrates ele mesmo tende a ser puramente filosófico. Harpócrates é também a absorção mística da obra da criação, a Hé final do Tetragrammaton. Harpócrates é, na verdade, o lado passivo de seu gêmeo, Hórus. E contudo, ao mesmo tempo, é um símbolo “de emplumamento completo para voar” dessa ideia, que é o vento, que é o ar, a impregnação da Deusa-Mãe. É imune a todo ataque devido a sua inocência, pois nesta inocência está o silêncio perfeito, o qual é a essência da virilidade. O ovo não é tão-somente Akasha,24 mas também o ovo original no sentido biológico. Este ovo brota do lótus, que é símbolo do yoni. Há um símbolo asiático cognato de Harpócrates e embora não se refira diretamente a esta carta, precisa ser considerado em conexão com ela. Trata-se do Buddha-Rupa. Ele é representado com mais frequência sentado sobre um lótus, e geralmente há atrás dele desdobrado o capelo da serpente. A forma deste capelo é, mais uma vez, o yoni (note-se os usuais ornamentos deste capelo, fálico e frutiforme). O crocodilo do Nilo é chamado de Sebek ou Mako, o Devorador. Nos rituais oficiais, a ideia é geralmente aquela do pescador, que deseja proteção dos assaltos de seu animal-totem. Há, contudo, uma identidade entre o criador e o destruidor. Na mitologia indiana, Shiva desempenha as duas funções. Na mitologia grega, dirige-se ao deus Pã como Pamphage, Pangenetor, o devorador de tudo, o gerador de tudo (note-se que o valor numérico da palavra Pan é 131, como o é o de Samael, o anjo destruidor hebraico). Além disso, no simbolismo dos iniciados, o ato de devorar é o equivalente à iniciação, como o místico diria “Minha alma é tragada em Deus” (compare com o simbolismo de Noé e a Arca, Jonas 25 e a baleia, e outros). É preciso ter sempre em mente a bivalência de todo símbolo. Insistir em uma ou outra das atribuições contraditórias inerentes a um símbolo é simplesmente uma marca de incapacidade espiritual e isto acontece ininterruptamente devido ao preconceito. Constitui o mais simples teste de iniciação que todo símbolo seja compreendido instintivamente como contendo esse significado contraditório em si mesmo. Marque bem a passagem seguinte em The Vision and the Voice, 26 pág. 136): “É mostrado a mim que este coração é o coração que se regozija, e a serpente é a serpente de Da‟ath, pois aqui todos os símbolos são intercambiáveis, pois cada um contém em si mesmo seu próprio oposto. E este é o grande Mistério dos Superiores que 24

O ovo negro do elemento espírito em algumas escolas hindus. Dele procedem os outros elementos, ar, água, terra e fogo (nesta ordem). 25

Note-se o N de Jonas e o significado do nome: pomba.

26

A Visão e a Voz (NT).

63


estão além do Abismo, pois abaixo do Abismo contradição é divisão, mas acima do Abismo, contradição é Unidade. E não poderia haver nada verdadeiro exceto por virtude da contradição que está contida em si mesma.”

Constitui característica de toda visão espiritual elevada a formulação de qualquer ideia ser imediatamente destruída ou cancelada pelo surgimento da contraditória. Hegel e Nietzsche tiveram lampejos desta ideia, mas ela é descrita de maneira completa e simples em The Book of Wisdom or Folly 27 (ver citação na sequência, apêndice). Esse ponto em torno do crocodilo é de grande importância porque muitas das formas tradicionais de O Louco do Tarô mostram decididamente o crocodilo. Na interpretação ordinária da carta, os escoliastas dizem que a figura é a de um jovem alegre, descuidado com um saco cheio de loucuras e ilusões, dançando à beira de um precipício, insciente de que o tigre e o crocodilo mostrados na carta estão na iminência de atacá-lo. É a visão da Igrejinha Protestante. Mas para os iniciados esse crocodilo ajuda a determinar o significado espiritual da carta como retorno ao zero qabalístico original; é o processo da “Hé final” na fórmula mágica de Tetragrammaton. Por um movimento rápido do pulso, ela pode ser transmudada para reaparecer como o Yod original e repetir o processo todo a partir do início. A fórmula inocência-virilidade é novamente sugerida pela introdução do crocodilo visto ser esta uma das superstições biológicas na qual fundaram sua teogonia ‒ que o crocodilo, como o abutre, contava com um método misterioso de se reproduzir.

ZEUS ARRHENOTHELUS

Ao se lidar com Zeus, é-se colocado imediatamente frente esta deliberada confusão do masculino e o feminino. Nas tradições grega e latina acontece a mesma coisa. Dianus e Diana são gêmeos e amantes; tão logo um profere a feminino isto leva à identificação com o masculino, e vice-versa, tendo que ser o caso em vista dos fatos biológicos da natureza. É somente no Zeus Arrhenothelus que se obtém a verdadeira natureza hermafrodita do símbolo sob forma unificada. Este é um fato de grande monta, especialmente para o presente propósito, porque imagens desse deus aparecem e reaparecem na alquimia. É quase impossível descrever isto claramente; a ideia diz respeito a uma faculdade da mente que está “acima do Abismo”, mas todas as águias bicéfalas com símbolos aglomerando-se em torno delas constituem indicações dessa ideia. O sentido último parece ser o de que o deus original é tanto macho quanto fêmea, o que é, está claro, a doutrina essencial da Qabalah; e a coisa mais difícil de entender a respeito da tradição posterior adulterada do Velho Testamento 28 é que ele representa o 27

O Livro de Sabedoria ou Loucura (NT).

28

Era uma necessidade tribal dos nômades selvagens ter um demiurgo incivilizado e simples como deus; as complexidades e refinamentos das nações estabelecidas eram para eles mera debilidade. Observe-se que no momento em que eles conseguiram uma Terra Prometida e um Templo, sob Salomão, ele andou

64


Tetragrammaton como masculino a despeito dos dois componentes femininos. Zeus se tornou demasiado popular e, consequentemente, demasiadas lendas se agruparam em torno dele, mas o fato importante relativamente ao propósito em pauta é que Zeus era de maneira peculiar o Senhor do Ar. 29 Homens que buscaram a origem da natureza nos tempos mais primitivos tentaram descobrir essa origem em um dos elementos (a história da filosofia descreve a controvérsia entre Anaximandro e Zenócrates, depois Empédocles). Pode ser que os autores originais do Tarô estivessem tentando promulgar a doutrina segundo a qual a origem de tudo era o ar. Entretanto, se assim fosse, transtornaria todo o Tarô tal como nós o conhecemos, já que a ordem de origem faz do fogo o primeiro pai. É o ar como zero que reconcilia a antinomia. Dianus e Diana, é verdade, eram símbolos do ar e os Vedas em sânscrito afirmam que os deuses da tempestade eram os deuses originais. Contudo, se os deuses da tempestade realmente presidiram a formação do universo como nós o conhecemos, eles eram certamente tempestades de fogo, com o que os astrônomos concordam. Mas esta teoria seguramente implica numa identificação do ar e o fogo, e parece como se eles fossem pensados como anteriores à luz, ou seja, ao Sol; anteriores à energia criativa, isto é, o falo, e esta ideia continuamente sugere, ela mesma, que existe aqui alguma doutrina contrária à nossa própria doutrina mais razoável: aquela na qual a confusão original dos elementos, o Tohu-Bohu, deve ser proposta como a causa da ordem, em lugar de como uma massa plástica na qual a ordem impõe a si mesma. Nenhum sistema verdadeiramente qabalístico faz do ar no sentido convencional o elemento original, embora Akasha seja o ovo do espírito, o ovo negro ou azul escuro. Isto sugere uma forma de Harpócrates. Neste caso, por “ar” entende-se realmente “espírito”. E embora assim possa ser, o símbolo real é perfeitamente claro e deveria ser aplicado ao seu devido lugar.

DIONÍSIO ZAGREUS. BACO DIPHUES.

Convém tratar os dois deuses como um. Zagreus só tem importância com referência ao presente propósito porque possui chifres e porque (nos Mistérios de Elêusis) se dizia que ele foi despedaçado pelos titãs. Mas Atena salvou seu coração e o levou a seu pai, Zeus. Sua mãe era Deméter, sendo ele assim o fruto do casamento do Céu e da Terra, o que o identifica como o Vau do Tetragrammaton, mas as lendas de sua “morte” se referem à iniciação, o que está de acordo com a doutrina do Devorador. Nesta carta, entretanto, a forma tradicional é muito mais claramente expressiva de Baco Diphues, que representa uma forma mais superficial de veneração; o êxtase “se prostituindo atrás de mulheres estranhas” e deuses. Isto enfureceu os profetas de linha dura, levando em poucos anos à ruptura entre Judá e Israel, e desde então a toda uma sequência de desastres. 29

Os relatos mais primitivos relacionam a distribuição dos três elementos ativos fazendo corresponder Dis (Plutão) ao fogo, Zeus (Júpiter) ao ar e Poseidon (Netuno) à água.

65


característico do deus é mais mágico do que místico. Este último requer o nome Iacchus, enquanto que Baco teve Sêmele por mãe, a qual foi visitada por Zeus sob a forma de um relâmpago que a destruiu. Mas ela já tinha sido engravidada por ele e Zeus salvou a criança. Até a puberdade, ele foi escondido na “coxa” (isto é, no falo) de Zeus. Hera, a título de vingança contra a infidelidade do marido com Sêmele, enlouqueceu o menino. Aqui reside a conexão direta com a carta. A lenda de Baco diz, antes de mais nada, que ele era Diphues, de dupla natureza, o que parece significar mais bissexual do que hermafrodita. A loucura dele é também uma fase de sua intoxicação, pois ele é preeminentemente o deus da vinha. Ele dança através da Ásia, circundado por vários companheiros, totalmente insano com entusiasmo; eles portam cajados encimados por pinhas e entrelaçados de hera; eles também percutem pratos e em algumas lendas estão munidos de Espadas, ou envolvidos por serpentes. Todos os semideuses da floresta são os companheiros masculinos das bacantes. Em suas ilustrações seu rosto ébrio e o estado lânguido de seu lingam o vinculam à lenda já mencionada sobre o crocodilo. Seu assistente constante é o tigre, e em todos os melhores exemplos existentes da carta, o tigre ou pantera é representado saltando sobre ele por trás, enquanto que o crocodilo está pronto para devorá-lo pela frente. Na lenda de sua jornada através da Ásia, dizia-se que ele montara um asno, o que o liga a Príapo, que, dizem, tinha sido seu filho com Afrodite. Isto também lembra da entrada triunfal em Jerusalém no Domingo de Palma. É curioso, ainda, que segundo a fábula do nascimento de Jesus, a Virgem-Mãe é representada estando entre um boi e um asno e lembramos que a letra Aleph significa boi. No culto de Baco havia um representante do deus, o qual era escolhido por sua qualidade de homem jovem e viril, mas efeminado. No desenrolar dos séculos, o culto naturalmente degradou-se. Outras ideias se somaram à forma original, e em parte devido ao caráter orgíaco do ritual, a ideia do Louco assumiu forma definida. Daí, ele passou a ser representado com um chapéu de Bobo, evidentemente fálico e trajado de bufão, o que novamente lembra a capa multicolorida envergada por Jesus e por José. Este simbolismo não é apenas mercurial, mas também zodiacal. José e Jesus, com doze irmãos, ou doze discípulos, igualmente representam o sol no meio dos doze signos. Foi só muito posteriormente que alguma significação alquímica foi atribuída a isso, e isto numa época na qual os sábios da Renascença conseguiram marcar algum ponto descobrindo alguma coisa séria e importante em símbolos que eram, na realidade, completamente frívolos.

BAPHOMET

É indubitável que esta misteriosa figura é uma imagem mágica dessa mesma ideia, desenvolvida em muitos símbolos. Sua correspondência pictórica é mais facilmente percebida nas figuras do Zeus Arrhenothelus e Babalon, e nas representações extraordinariamente obscenas da Virgem-Mãe encontradas entre os restos da iconologia 66


cristã primitiva. Este assunto é tratado com certos detalhes em Payne Knight, onde a origem do símbolo e o significado do nome são investigados. Von Hammer-Purgstall estava seguramente certo ao supor Baphomet uma forma do deus-touro, ou melhor, o deus matador de Discos, Mithras, pois Baphomet deveria ser escrito com um “r” no final, sendo assim claramente uma corruptela que significa Pai Mithras. Há aqui também uma conexão com o asno, pois foi como um deus de cabeça de asno que se tornou um objeto de veneração por parte dos Templários. Os cristãos primitivos também foram acusados de venerar um asno ou deus de cabeça de asno, e isto, mais uma vez, está relacionado ao asno selvagem do deserto, o deus Set, identificado com Saturno e Satã (ver Atu XV). Ele é o sul, como Nuit é o norte: os egípcios possuíam um deserto e um oceano nesses quadrantes.

RESUMO

Pareceu conveniente abordar separadamente tais formas principais da ideia do Louco, mas nenhuma tentativa foi feita, ou deveria ser feita, no sentido de impedir a justaposição e fusão das lendas. As variações da expressão, mesmo quando contraditórias na aparência, devem conduzir a uma apreensão intuitiva do símbolo por meio de uma sublimação e transcendência do intelectual. Todos estes símbolos dos trunfos em última análise existem numa região além da razão e acima dela. O estudo destas cartas tem como objetivo mais importante o treinamento da mente de modo a pensar com clareza e coerência dessa maneira exaltada. Isto sempre foi característico dos métodos de iniciação tais como entendidos pelos hierofantes. No período confuso, dogmático do materialismo vitoriano, foi necessário à ciência desacreditar todas as tentativas de transcender o modo racionalista de abordagem da realidade; e, não obstante, foi o progresso da própria ciência que reintegrou esses diferenciais. A partir do próprio começo deste século, a ciência prática do mecânico e do engenheiro foi constrangida mais e mais a descobrir sua justificativa teórica na física matemática. A matemática tem sido sempre a mais severa, abstrata e lógica das ciências. Contudo, mesmo na matemática relativamente precoce do garoto de escola, o conhecimento tem que ser extraído do irreal e do irracional. Os números irracionais e as séries infinitas são as próprias formas radicais do pensamento matemático avançado. A apoteose da física matemática é agora a admissão do malogro em descobrir a realidade em qualquer ideia inteligível isolada. A moderna resposta à questão O que é alguma coisa? é que é relativamente a uma cadeia de dez ideias, qualquer uma delas que possa ser interpretada em termos das restantes. Os gnósticos teriam, sem dúvida, chamado isso de “uma cadeia de dez Æons”. Essas dez ideias não devem de modo algum ser consideradas como aspectos de alguma realidade ao fundo. Da mesma maneira que a 67


suposta linha reta que era a estrutura do cálculo se mostrou ser uma curva, o ponto que fora sempre tomado como o tipo de existência tornou-se o anel. É impossível duvidar que ocorre aqui uma aproximação continuamente mais estreita da ciência profana do mundo exterior da sabedoria sagrada do iniciado.

*

*

*

*

*

O desenho da carta em questão resume as principais ideias do que foi exposto anteriormente. O Louco pertence ao ouro do ar. Possui os chifres de Dionísio Zagreus e entre eles se acha o cone fálico de luz branca representando a influência proveniente da Coroa 30 atuando sobre ele. Ele é mostrado contra o fundo do ar, rompendo como aurora do espaço e sua atitude é daquele que explode inesperadamente sobre o mundo. Está trajado de verde, conforme a tradição da primavera, mas seus calçados têm o ouro fálico do sol. Em sua mão direita ele segura o bastão, encimado por uma pirâmide de branco, do Todo Pai. Na mão esquerda ele segura a pinha flamejante, de significado similar, porém indicando mais decididamente o crescimento vegetal; e de seu ombro esquerdo pende um cacho de uvas cor de púrpura. Uvas representam fertilidade, doçura e a base do êxtase. Este êxtase é mostrado pelo pedúnculo do cacho desdobrando-se em espirais dos matizes do arco-íris. A forma do universo. Isto sugere o Tríplice Véu do Negativo manifestando pela intervenção dele em luz dividida. Sobre esse verticilo existem outras atribuições da divindade: o abutre de Maut, a pomba de Vênus (Ísis ou Maria) e a hera sagrada para os seus devotos. Estão presentes também a borboleta de ar multicolorido e o globo alado com suas serpentes gêmeas, símbolo que tem eco e é fortalecido pelos infantes gêmeos que se abraçam na espiral mediana. Acima destes está suspensa a bênção das três flores em uma. O tigre faz festas para ele e sob seus pés no Nilo com suas hastes do lótus rasteja o crocodilo. Resumindo todas as suas muitas formas e muitas imagens multicoloridas no centro da figura, o foco do microcosmo é o sol radiante. A figura toda é um glifo da luz criativa.

30

Kether: ver a posição do Caminho de Aleph na Árvore da Vida.

68


I ‒ O PRESTIDIGITADOR

31

Esta carta se refere à letra Beth, que significa casa, e é atribuída ao planeta Mercúrio. As ideias ligadas a este símbolo são tão complexas e tão multifárias que parece melhor vincular a esta descrição geral certos documentos que sustentam diferentes aspectos desta carta. O todo formará então uma base adequada para a interpretação plena da carta mediante estudo, meditação e uso. O título francês desta carta no baralho medieval é Le Bateleur, o portador do bâton. 32 Mercúrio é preeminentemente o portador do bastão: energia emitida. Esta carta representa, portanto, a Sabedoria, a Vontade, a Palavra, o Logos pelos quais os mundos foram criados (ver o Evangelho segundo São João, capítulo I). Representa a Vontade. Em suma, ele é o Filho, a manifestação em ato da ideia do Pai. Ele é o correlativo masculino de A Alta Sacerdotisa. Que não haja confusão aqui por conta da doutrina fundamental do Sol e a Lua como a Segunda Harmonia para o lingam e o yoni, pois

31

Ainda neste mesmo ensaio e na própria carta por ele mesmo concebida, Crowley optará pelo título “O Mago”, em lugar de “O Prestidigitador” (NT). 32

Variante: Le Pagad, de origem desconhecida. Sugestões de possíveis origens: (1) PChD, terror (esp. pânico), um título de Geburah; também coxa, isto é, membro viril; por analogia com o árabe, PAChD, causador de terror: valor 93!! (2) Pagode, um memorial fálico: similar e igualmente apropriado.

69


como se perceberá na citação de The Paris Working, 33 (ver apêndice) o criativo Mercúrio tem a natureza do Sol. Entretanto, Mercúrio é o caminho conduzindo de Kether a Binah, a Compreensão e assim ele é o mensageiro dos deuses, representando precisamente esse lingam, a Palavra de criação cujo discurso é silêncio. Mercúrio, contudo, representa ação em todas as formas e fases. Ele é a base fluídica de toda transmissão de atividade e na teoria dinâmica do universo é, ele mesmo, a substância do universo. Ele é, na linguagem da moderna física, aquela carga elétrica que é a primeira manifestação do anel de dez ideias indefiníveis, como explicado anteriormente. Ele é assim criação contínua. Logicamente também, sendo a Palavra, ele é a lei da razão ou da necessidade ou acaso, que é o significado secreto da Palavra, que é a essência da Palavra e a condição de seu pronunciamento. Sendo assim, e especialmente porque ele é dualidade, ele representa tanto verdade quanto falsidade, tanto sabedoria quanto loucura. Sendo o inesperado, ele desestabelece qualquer ideia estabelecida e, portanto, é enganador. Ele não tem consciência, sendo criativo. Se não consegue atingir seus fins através de meios limpos, ele usa meios sujos. As lendas do jovem Mercúrio são, portanto, lendas da astúcia. Ele não pode ser compreendido porque ele é a Vontade Inconsciente. Sua posição na Árvore da Vida mostra a terceira Sephirah, Binah (Compreensão) como ainda por ser formulada; ainda menos a falsa Sephirah, Da‟ath, conhecimento. Do exposto acima parecerá que esta carta é a segunda emanação da Coroa, e, portanto, num certo sentido, a forma adulta da primeira emanação, O Louco, cuja letra é Aleph, a unidade. Estas ideias são tão sutis e tão tênues nestes planos exaltados do pensamento que a definição é impossível. Na verdade, não é sequer desejável, porque é da natureza dessas ideias fluírem uma para a outra. Tudo que se pode fazer é dizer que qualquer dado hieróglifo representa uma ligeira insistência sobre alguma forma particular de uma ideia pantomorfa. Nesta carta, a ênfase é sobre o caráter criativo e dualístico do caminho de Beth. Na carta tradicional, o disfarce é o de um prestidigitador. Esta representação do Prestidigitador é uma das mais grosseiras e menos satisfatórias do baralho medieval. Ele é usualmente representado com uma cobertura de cabeça de forma semelhante ao sinal do infinito em matemática (mostrado minuciosamente na carta chamada dois de Discos). Segura um bastão com uma saliência arredondada em cada extremidade, o que se ligava provavelmente à polaridade dupla da eletricidade; mas é também o bastão oco de Prometeu que traz fogo do céu. Sobre uma mesa ou altar, atrás do qual ele está de pé, estão as três outras armas elementares. “Com a baqueta, Ele cria. Com a Taça, Ele preserva.

33

A Operação de Paris (NT).

70


Com a Adaga, Ele destrói. Com a Moeda, Ele redime. Liber Magi vv. 7‒10.” A carta que apresentamos aqui foi desenhada principalmente com base na tradição greco-egípcia, pois a compreensão dessa ideia foi certamente mais avançada quando essas filosofias modificaram-se reciprocamente do que em outra parte em qualquer época. A concepção hindu de Mercúrio, Hanuman, o deus-macaco, é abominavelmente degradada. Nenhum dos aspectos mais elevados do símbolo é encontrado em seu culto. A meta de seus adeptos parece principalmente ter sido a produção de uma encarnação temporária do deus enviando as mulheres da tribo todo ano ao interior da selva. Tampouco localizamos qualquer lenda de alguma profundidade ou espiritualidade. Hanuman é seguramente pouco mais que o macaco de Thoth. A principal característica de Tahuti ou Thoth, o Mercúrio egípcio, é em primeiro lugar ter a cabeça da íbis. A íbis é o símbolo da concentração porque se supunha que esta ave permanecia continuamente sobre uma perna, imóvel. Trata-se muito evidentemente de um símbolo do espírito meditativo. Pode ter havido também alguma referência ao mistério central do Æon de Osíris, o segredo guardado tão cuidadosamente do profano, que a intervenção do macho era necessária para a produção de filhos. Nesta forma de Thoth, ele é visto portando o bastão da fênix, simbolizando ressurreição mediante o processo generativo. Em sua mão esquerda está Ankh, que representa uma correia de sandália, ou seja, o meio de progresso através dos mundos, que é a marca distintiva da divindade. Mas, por sua forma, este Ankh (crux ansata) é realmente outra forma da Rosacruz, não sendo este fato talvez tal acidente como modernos egiptólogos, preocupados com sua tentada refutação da escola fálica de arqueologia, nos fariam supor. A outra forma de Thoth o representa primariamente como Sabedoria e Palavra. Ele segura na mão direita o estilo, na esquerda o papiro. Ele é o mensageiro dos deuses; transmite a vontade deles por meio de hieróglifos inteligíveis ao iniciado e registra os atos deles. Mas foi notado desde tempos remotos que o uso do discurso, ou escrita significou a introdução da ambiguidade na melhor das hipóteses e da falsidade na pior; representaram, portanto, Thoth seguido por um macaco, o cinocéfalo, cuja função era distorcer a Palavra do deus, arremedar, simular e ludibriar. Na linguagem filosófica, pode-se dizer: a manifestação implica na ilusão. Esta doutrina é encontrada na filosofia hindu, onde o aspecto do Tahuti de que estamos falando é chamado de Maya. Esta doutrina também é encontrada na imagem central e típica da escola Mahayana do budismo (realmente idêntica à doutrina de Shiva e Shakti). Uma visão dessa imagem será achada no documento intitulado O Senhor da Ilusão (ver Apêndice). A presente carta se empenha em representar todas as concepções acima expostas. E, contudo, nenhuma imagem verdadeira é possível de modo algum, pois primeiro, todas as imagens são necessariamente falsas como tais, e segundo, sendo o movimento 71


perpétuo e sua taxa aquela do limite, c, o grau de velocidade de luz, qualquer êxtase contradiz a ideia da carta: esta figura é, portanto, dificilmente mais do que apontamentos mnemônicos. Muitas das ideias expressas no desenho estão bem expostas nos extratos de The Paris Working (ver Apêndice).

72


II ‒ A ALTA SACERDOTISA

Esta carta se refere à letra Gimel, que significa camelo (o simbolismo do camelo é elucidado na sequência). A referência da carta é à Lua. A Lua (sendo o símbolo feminino geral, o símbolo da segunda ordem correspondendo ao Sol como o yoni corresponde ao lingam) é universal e vai do mais alto ao mais baixo. Trata-se de um símbolo que reaparecerá frequentemente nestes hieróglifos. Mas nos primeiros trunfos a concorrência é com a natureza abaixo do Abismo; A Alta Sacerdotisa é a primeira carta que liga a Tríade Superior com a Héxade, e seu caminho, como é mostrado no diagrama, produz uma conexão direta entre o Pai em seu aspecto mais elevado e o Filho em sua manifestação mais perfeita. Este caminho está em equilíbrio exato no Pilar do Meio. Há aqui, portanto, a mais pura e mais exaltada concepção da Lua (no outro extremo da escala está o Atu XVIII, q.v.). A carta representa a forma mais espiritual de Ísis, a virgem eterna, a Ártemis dos gregos. Ela está trajada tão-somente do véu brilhante de luz. É importante para a alta iniciação considerar a Luz não como a perfeita manifestação do Espírito Eterno, mas, preferivelmente, como o véu que oculta este Espírito. Ela assim o faz sumamente

73


efetiva devido ao seu brilho incomparavelmente deslumbrante. 34 Assim ela é luz e o corpo de luz. Ela é a verdade atrás do véu de luz. Ela é a alma de luz. Sobre os joelhos dela está o arco de Ártemis, que é também um instrumento musical, pois ela é caçadora e caça por encantamento. Agora que se considere esta ideia como a partir de detrás do Véu de Luz, o terceiro Véu do nada original. Esta luz é o mênstruo da manifestação, a deusa Nuit, a possibilidade da Forma. Esta manifestação primeira e maximamente espiritual do feminino toma para si um correlativo masculino ao formular em si mesma qualquer ponto geométrico a partir do qual se contempla a possibilidade. Esta deusa virginal é então potencialmente a deusa da fertilidade. Ela é a ideia por trás de toda a forma; logo que a influência da tríade desce abaixo do Abismo ocorre a conclusão da ideia concreta. Os capítulos seguintes, de The Book of Lies (falsely so-called), estudante a compreender essa doutrina por meio de meditação:

35

pode auxiliar o

DIABOS DE PÓ

No Vento da mente, nasce a turbulência chamada Eu. Ele rompe; inunda os pensamentos estéreis. Toda vida é sufocada. Este deserto é o Abismo onde está o Universo. As Estrelas são apenas cardos nesta aridez. Contudo, este deserto é apenas um lugar amaldiçoado num mundo de glória. Agora e novamente, Viajantes cruzam o deserto; eles vêm do Grande Mar, e para o Grande Mar eles vão. Enquanto caminham, eles derramam água; um dia eles irrigarão o deserto, até que floresça. Vê, cinco pegadas de um Camelo! V.V.V.V.V. No fundo da carta, há figuras nascentes, cristais, sementes, simbolizando o início da vida. No meio, está o Camelo que é mencionado no capítulo cotado acima. Nesta carta, está a ligação entre os mundos arquetípico e criativo. Considerou-se este caminho, até aqui, pelo fato de ele descer direto da Coroa; mas para o Aspirante, ou melhor, para o Adepto que já está em Tiphareth, tendo alcançado o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, este é o caminho que leva para cima; e esta carta, em um sistema chamado de “A Princesa da Estrela Prateada”, 34

A tradição das melhores escolas do misticismo hindu possui um paralelismo preciso. O obstáculo final à Iluminação plena é exatamente esta Visão de Efulgência Amorfa. 35

O Livro das Mentiras (falsamente assim chamado) (NT).

74


simboliza o pensamento (melhor: a radiância inteligível) do Anjo. Em resumo, este é um símbolo da mais alta iniciação. Mas é uma condição da iniciação que suas chaves sejam comunicadas, por aqueles que as possuem, para todos os verdadeiros aspirantes. Esta carta é, portanto, um glifo muito peculiar do trabalho da A...A... Uma ideia dessa fórmula é dada neste outro capítulo do Livro das Mentiras:

A OSTRA Os Irmãos da A...A... são um com a Mãe da Criança. Os Muitos são adoráveis ao Um, como o Um o é para os Muitos. Este é o Amor Destes; criação-parto é a Glória do Um; coito-dissolução é a Glória de Muitos. O Todo, assim combinado com Estes, é Glória. Nada está além da Glória. O Homem delicia-se ao unir-se com a Mulher; a Mulher em parir uma Criança. Os Irmãos da A...A... são Mulheres: os Aspirantes à A...A... são Homens. É importante refletir que esta carta é inteiramente feminina, inteiramente virginal, pois representa a influência e o meio de manifestação (ou, de baixo, de obtenção) em si mesma. Representa possibilidade em seu segundo estágio sem qualquer começo de consumação. Cumpre observar, em particular, que as três letras consecutivas, Gimel, Daleth e Hé (Atu II, III, XVII) exibem o símbolo feminino (Yin) sob três formas compondo a Deusa Tri-una. Esta trindade é imediatamente seguida pelos três Pais correspondentes e complementares, Vau, Tzaddi, Yod (Atu IV, V, IX). Os trunfos 0 e I são hermafroditas. Os catorze trunfos restantes representam estas Quintessências Primordiais do Ser em conjunção, função ou manifestação.

75


III ‒ A IMPERATRIZ

Esta carta é atribuída à letra Daleth, que significa porta e se refere ao planeta Vênus. A carta é, a julgar pela aparência, o complemento de O Imperador, mas suas atribuições são muito mais universais. Na Árvore da Vida, Daleth é o caminho que conduz de Chokmah a Binah, unindo o Pai à Mãe. Daleth é um dos três caminhos que estão completamente acima do Abismo. Há, ademais, o símbolo alquímico de Vênus, o único dos símbolos planetários que abrange todas as Sephiroth da Árvore da Vida. A doutrina implícita é que a fórmula fundamental do universo é o Amor (o círculo toca as Sephiroth 1, 2, 4, 6, 5, 3; a cruz é formada por 6, 9, 10 e 7, 8). É impossível resumir os significados do símbolo da mulher por esta razão mesma, a saber, ela continuamente reaparece sob forma infinitamente variada. “A de muitos tronos, muitas disposições, muitas manhas, filha de Zeus.” Nesta carta, ela é mostrada em sua manifestação mais geral. Combina as qualidades espirituais mais elevadas com as materiais mais baixas. Por esta razão, ela está apta a representar uma das três formas alquímicas da energia, o Sal. O Sal é o princípio inativo da natureza, é matéria que precisa ser energizada pelo Enxofre para preservar o equilíbrio rotativo do universo. Os braços e o tronco da figura, por conseguinte, sugerem a forma do símbolo alquímico do Sal. Ela representa uma mulher com coroa e trajes imperiais sentada a um trono, cujas colunas de apoio sugerem 76


chamas azuis torcidas, simbolizadoras de seu nascimento da água, o feminino, elemento fluido. Em sua mão direita ela segura o lótus de Ísis, o lótus representando o feminino ou poder passivo; suas raízes estão na terra sob a água, ou na própria água, mas ele abre suas pétalas para o Sol cuja imagem é o bojo do cálice. É, portanto, uma forma viva do Cálice Sagrado (O Santo Graal) santificada pelo sangue do Sol. Empoleirados nas colunas de apoio em forma de chama de seu trono estão duas de suas aves mais sagradas, o pardal e a pomba. O ponto essencial deste simbolismo precisa ser buscado nos poemas de Catulo e Marcial. Há abelhas sobre seu manto e também dominós, circundados por linhas espirais contínuas. A significação é similar em toda parte. Em torno dela, como um cinto, se acha o zodíaco. Sob o trono há um piso coberto de tapeçaria bordada com flores-de-lis e peixes, os quais parecem estar adorando a rosa secreta, que é mostrada à base do trono. A significação destes símbolos já foi explicada. Nesta carta todos os símbolos são cognatos devido à simplicidade e pureza do emblema. Não há aqui nenhuma contradição; a oposição que parece existir é apenas a oposição necessária ao equilíbrio, o que é indicado pelas luas giratórias. A heráldica da Imperatriz é dupla: de um lado o pelicano da tradição alimentando seus filhotes do sangue de seu próprio coração, do outro, a águia branca do alquimista. Com referência ao pelicano, seu simbolismo total só estava disponível para iniciados do quinto grau da O.T.O. Em termos gerais, pode-se sugerir o significado identificando-se o próprio pelicano fêmea com a Grande Mãe e sua prole, com a Filha na fórmula do Tetragrammaton. É porque a filha é a filha de sua mãe que ela pode ser guindada ao seu trono. Em outras palavras, há uma continuidade da vida, uma herança de sangue, que junta todas as formas da natureza. Não há ruptura entre luz e trevas. Natura non facit saltum.36 Se estas considerações fossem inteiramente entendidas, possibilitaria a reconciliação da teoria quântica com as equações eletromagnéticas. A águia branca neste trunfo corresponde à águia vermelha da carta-consorte, O Imperador. Aqui é preciso trabalhar em sentido inverso, pois nestas cartas mais elevadas se acham os símbolos da perfeição; tanto a perfeição inicial da natureza quanto a perfeição final da arte; não apenas Ísis, mas também Néftis. Consequentemente, as minúcias do trabalho pertencem a cartas subsequentes, especialmente Atu VI e Atu XIV. Ao fundo da carta está o arco ou porta, que é a interpretação da letra Daleth. Esta carta, em síntese, pode ser denominada Porta do Céu. Contudo, devido à beleza do símbolo, devido à sua apresentação omniforme, o estudante que está deslumbrado por qualquer dada manifestação pode extraviar-se. Em nenhuma outra carta é tão necessário desconsiderar as partes para se concentrar no todo.

36

Em latim no original, A natureza não dá saltos (NT).

77


IV ‒ O IMPERADOR

Esta carta é atribuída à letra Tzaddi e se refere ao signo de Áries no zodíaco. Este signo é regido por Marte e aí o Sol é exaltado. Este signo é assim uma combinação de energia em sua forma mais material com a ideia de autoridade. O sinal TZ ou TS sugere isso na forma original, onomatopaica da linguagem. É derivado de raízes do sânscrito significando cabeça e idade e é encontrado hoje em palavras como Caesar, Tsar, Sirdar, Senate, Senior, Signor, Señor, Seigneur. A carta representa uma figura masculina coroada, de vestes e insígnias da dignidade imperial. Está sentado no trono cujos remates de coluna são as cabeças do carneiro selvagem do Himalaia, já que Áries significa carneiro. Aos seus pés, deitado com a cabeça levantada está o cordeiro com o estandarte para confirmar essa atribuição no plano inferior, pois o carneiro, por natureza, é um animal selvagem e corajoso se solitário em sítios solitários, enquanto que quando domesticado e forçado a repousar em pastos verdes, é reduzido a um animal dócil, covarde, gregário e suculento. Esta é a teoria do governo. O Imperador é também uma das mais importantes cartas alquímicas, constituindo com o Atu II e III a tríade: Enxofre, Mercúrio, Sal. Seus braços e cabeça formam um triângulo ereto; abaixo, as pernas cruzadas representam a cruz. Esta figura é o símbolo alquímico do Enxofre (ver Atu X). O Enxofre é a energia ígnea masculina do universo, 78


o Rajas da filosofia hindu. Esta é a energia criativa ágil, a iniciativa de todo o Ser. O poder do Imperador é uma generalização do poder paterno, daí tais símbolos como a abelha e a flor-de-lis, exibidos nesta carta. Com referência à qualidade desse poder, é forçoso notar que ele representa atividade súbita, violenta, porém não pertinente. Se persistir tempo demais, queima e destrói. Trata-se de energia distinta da energia criativa de Aleph e Beth: esta carta está abaixo do Abismo. O Imperador porta um cetro (encimado pela cabeça de um carneiro pelas razões já expostas) e uma esfera encimada por uma cruz de Malta, que significa que sua energia atingiu uma emissão bem sucedida, que seu governo foi estabelecido. Há ainda outro símbolo importante. Seu escudo representa a águia bicéfala coroada por um disco carmesim. Isto representa a tintura vermelha do alquimista, da natureza do ouro, como a águia branca mostrada no Atu III pertence à sua consorte, a Imperatriz, e é lunar, de prata. Deve-se finalmente observar que a luz branca que desce sobre ele indica a posição desta carta na Árvore da Vida. A autoridade do Imperador provém de Chokmah, a sabedoria criativa, a Palavra, e é exercida sobre Tiphareth, o homem organizado.

79


V ‒ O HIEROFANTE

Esta carta se refere à letra Vau, que significa prego, sendo que nove pregos aparecem no alto da carta, os quais servem para fixar o oriel atrás da principal figura da carta. A carta é referida a Touro, de sorte que o trono do Hierofante é circundando por elefantes, que participam da natureza de Touro, estando o Hierofante realmente sentado sobre um touro. Ao redor dele estão as quatro bestas ou Kerubs, uma em cada canto da carta, visto que estes são os guardiões de todo santuário. Mas a principal referência é ao arcano particular que constitui o negócio maior, o essencial, de todo trabalho mágico: a união do microcosmo ao macrocosmo. Consequentemente, o oriel é diáfano. Diante do manifestador do Mistério há um hexagrama representando o macrocosmo e no centro deste um pentagrama, contendo e representando uma criança do sexo masculino dançando. Isto simboliza a lei do novo Æon da criança Hórus, o qual suplantou o Æon do deus que morre, que governou o mundo por dois mil anos. Também diante do Hierofante está a mulher com a espada à cintura, que representa a Mulher Escarlate na hierarquia do novo Æon. Este simbolismo é adicionalmente efetivado no oriel, onde, por trás da cobertura fálica de cabeça, a rosa de cinco pétalas desabrocha. O simbolismo da serpente e da pomba faz alusão a este versículo de O Livro da Lei (cap. I, v. 57): “... pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente.” 80


Este símbolo reaparece no trunfo de número XVI. O fundo da carta toda é o azul escuro da noite estrelada de Nuit, de cujo útero nascem todos os fenômenos. Touro, o signo do zodíaco representado por esta carta, é ele mesmo o KerubTouro, ou seja, a Terra sob sua forma mais forte e mais equilibrada. O regente desse signo é Vênus, que é representado pela mulher em pé diante do hierofante. No capítulo III de O Livro da Lei, versículo xi, se lê: “Que a mulher seja cingida com uma espada diante de mim”. Esta mulher representa Vênus como ela agora está neste novo Æon, não mais o mero veículo de seu correlativo masculino, mas armada e militante. Neste signo a Lua é “exaltada”; sua influência é representada não só pela mulher como também pelos nove pregos. É impossível na atualidade explicar esta carta na sua inteireza pois somente o curso dos eventos poderá mostrar como a nova corrente de iniciação funcionará. É o Æon de Hórus, da criança. Embora o rosto do Hierofante pareça benigno e sorridente e a própria criança pareça alegre com desregrada inocência, é difícil negar que na expressão do iniciador há algo misterioso, mesmo sinistro. Ele parece estar gozando uma piada muito secreta às custas de alguém. Há um aspecto distintamente sádico nesta carta, e naturalmente, considerando-se que ela provém da lenda de Pasiphae, o protótipo de todas as lendas dos deuses-touro. Estas ainda persistem em religiões como o saivismo e (depois de múltiplas degradações) no próprio cristianismo. O simbolismo do bastão é peculiar; os três anéis entrelaçados que o encimam podem ser tomados como representativos dos três Æons de Ísis, Osíris e Hórus com suas fórmulas mágicas que se entrosam. O anel superior está marcado de escarlate para Hórus, os dois inferiores de verde para Ísis e amarelo pálido para Osíris, respectivamente. Todos estes estão baseados no azul escuro, a cor de Saturno, O Senhor do Tempo, pois o ritmo do Hierofante é tal, que ele se move apenas a intervalos de 2.000 anos.

81


VI ‒ OS AMANTES (OU OS IRMÃOS)

Esta carta e sua gêmea, XIV (Arte), são os mais obscuros e difíceis dos Atu. Cada um destes símbolos é em si mesmo duplo, de modo que os significados formam uma série divergente e a integração da carta só pode ser reconquistada mediante casamentos e identificações reiterados, e alguma forma de hermafroditismo. E, no entanto, a atribuição é a essência da simplicidade. O Atu VI se refere a Gêmeos, regido por Mercúrio. A letra hebraica correspondente é Zain, que significa espada, e a estrutura da carta é, portanto, o arco de Espadas abaixo do qual o casamento real acontece. A espada é primeiramente um engenho de divisão. No mundo intelectual ‒ que é o mundo do naipe de Espadas ‒ ela representa análise. Esta carta e o Atu XIV juntos compõem a máxima alquímica abrangente: Solve et coagula. Esta carta é, por conseguinte, uma das mais fundamentais do Tarô. É a primeira carta na qual mais de uma figura aparece (o macaco de Thoth no Atu I é apenas uma sombra). Em sua forma original, foi a história da Criação. Acrescemos aqui, em função de seu interesse histórico, a descrição desta carta em sua forma primitiva, o que é extraído de Liber 418.

82


“Há uma lenda assíria de uma mulher com um peixe e há também uma lenda de Eva e a Serpente, pois Caim era o filho de Eva e a Serpente, e não de Eva e Adão; e, portanto, quando ele assassinara seu irmão, que foi o primeiro assassino por ter sacrificado coisas vivas ao seu demônio, Caim recebeu a marca em sua fronte, que é a marca da Besta referida no Apocalipse e o sinal da iniciação. “O derramamento de sangue é necessário, pois Deus não ouviu os filhos de Eva até que o sangue fosse derramado. E isto é religião externa; mas Caim não falou a Deus nem recebeu a marca de iniciação sobre sua fronte, de sorte que fosse evitado por todos os homens, até que tivesse derramado sangue. E este sangue foi o sangue de seu irmão. Este é um mistério da sexta chave do Tarô, que não deve ser chamada de Os Amantes, mas sim Os Irmãos. “No meio da carta posta-se Caim; em sua mão direita está o martelo de Thor com o qual ele assassinara seu irmão, e está todo tinto de seu sangue. Sua mão esquerda ele mantém aberta como um sinal de inocência. Sobre sua mão direita está sua mãe Eva, ao redor da qual a serpente se enrosca com seu capelo desdobrado atrás da cabeça dela, e sobre sua mão esquerda encontra-se uma figura um tanto semelhante a Kali indiana, mas muito mais sedutora. Todavia, eu sei que é Lilith. E acima dele está o Grande Sigillum da Seta, voltado para baixo, atingindo o coração da criança. Esta criança é também Abel. E o significado desta parte da carta é obscuro, mas este é o desenho correto da carta do Tarô; e esta é a fábula mágica correta da qual os escribas hebreus, que não eram iniciados completos, furtaram sua lenda da Queda e os eventos subsequentes.” É bastante significativo que quase toda sentença deste trecho parece inverter o significado da anterior. Isto é porque a reação é sempre igual e oposta à ação. Esta equação é, ou deveria ser, simultânea no mundo intelectual, onde não existe grande retardamento de tempo; a formulação de qualquer ideia cria sua contraditória quase no mesmo momento. A contraditória de qualquer proposição está implícita nela mesma. Isto é necessário para preservar o equilíbrio do universo. A teoria foi explicada na exposição sobre o Atu I, O Prestidigitador, mas faz-se mister que seja agora enfatizada a fim de se interpretar esta carta. A chave é que a carta representa a Criação do Mundo. Os hierarcas mantinham este segredo como de transcendente importância. Consequentemente, os iniciados que publicaram o Tarô para uso durante o Æon de Osíris substituíram a carta original acima descrita em The Vision and the Voice. Estavam interessados em criar um novo universo próprio; eles eram os pais da Ciência. Seus métodos de trabalho, agrupados sob o termo genérico de alquimia, jamais foram tornados públicos. O ponto interessante é que todos os desenvolvimentos da ciência moderna nos últimos cinquenta anos têm proporcionado às pessoas inteligentes e instruídas a oportunidade de refletir que toda a tendência da ciência tem sido retornar aos objetivos e mutatis mutandis aos métodos alquímicos. O segredo observado pelos alquimistas tornou-se necessário devido ao poder de perseguição de Igrejas. Tão amargamente quanto os beatos intolerantes lutavam entre si, eles estavam igualmente preocupados em destruir a ciência infante, a qual, como 83


reconheciam instintivamente, colocaria um fim na ignorância e na fé das quais dependiam o poder e a riqueza deles. O assunto desta carta é a análise, seguida pela síntese. A primeira pergunta feita pela ciência é: “Do que são compostas as coisas?” Respondida esta pergunta, a seguinte pergunta é: “Como iremos recombiná-las para o nosso máximo proveito?” Isto resume toda a política do Tarô. A figura encapuzada que ocupa o centro da carta é outra forma de O Eremita, o qual é elucidado na sequência no Atu IX. Ele próprio é uma forma do deus Mercúrio descrito no Atu I; ele está rigorosamente encoberto, como para significar que a razão última das coisas está num domínio além da manifestação e do intelecto (como explicado alhures, apenas duas operações são, no final das contas, possíveis: análise e síntese). Ele está de pé no sinal do entrante, como se projetando as forças misteriosas da criação. Ao redor de seus braços se acha um rolo de pergaminho, indicativo da Palavra que é semelhante à essência e mensagem dele. Mas o sinal do entrante é também o sinal da bênção e da consagração, de maneira que sua ação nesta carta é a celebração do casamento hermético. Atrás dele estão as figuras de Eva, Lilith e Cupido. Este simbolismo foi incorporado para preservar em alguma medida a forma original da carta e mostrar sua origem, sua herança e sua continuidade com o passado. Na aljava de Cupido está inscrita a palavra Thelema que é a Palavra da Lei (ver Liber AL, cap. I, versículo 39). Suas setas são quanta de Vontade. É assim indicado que esta fórmula fundamental de operação mágica, análise e síntese persiste através dos Æons. Podemos passar agora a considerar o próprio casamento hermético. Esta parte da carta é uma simplificação de o Casamento Químico de Christian Rosenkreutz, uma obra prima excessivamente extensa e prolixa para ser citada proveitosamente aqui. Mas a essência da análise é a gangorra contínua de ideias contraditórias. É um glifo da dualidade. As pessoas da realeza envolvidas são o rei negro ou mouro com uma coroa de ouro e a rainha branca com uma coroa de prata. Ele está acompanhado do leão vermelho, e ela da águia branca. Estes são símbolos dos princípios masculino e feminino na natureza; são, portanto, igualmente, em vários estágios da manifestação Sol e Lua, Fogo e Água, Ar e Terra. Em química eles se apresentam como ácido e álcali, ou (mais profundamente) metais e não-metais, tomando-se estas palavras em seu mais lato sentido filosófico a fim de incluir o hidrogênio por um lado e o oxigênio, por outro. Neste aspecto, a figura encapuzada representa o elemento proteico do carbono, a semente de toda a vida orgânica. O simbolismo do masculino e o feminino é continuado ainda pelas armas do rei e da rainha. Ele porta a Lança Sagrada e ela, o Cálice Sagrado; as outras mãos deles estão unidas, como que consentindo com o casamento. Suas armas são apoiadas por crianças gêmeas, cujas posições estão trocadas, pois a criança branca não só oferece apoio ao cálice como também carrega rosas, enquanto que a criança negra, segurando a lança de seu pai, carrega também o porrete, um símbolo equivalente. Na base do conjunto está o resultado do casamento sob forma primitiva e pantomórfica: o ovo órfico alado. Este ovo representa a essência de toda essa vida sujeita a esta fórmula do 84


masculino e feminino. Prossegue o simbolismo das serpentes com as quais o manto do rei está ornamentado, e das abelhas que adornam o manto da rainha. O ovo é cinza, misturando branco e preto, de modo a significar a cooperação das três Superiores da Árvore da Vida. A cor da serpente é púrpura, Mercúrio na escala da rainha. É a influência desse deus manifestada na natureza, enquanto que as asas têm cor carmesim, a cor (na escala do rei) de Binah, a Grande Mãe. Neste símbolo existe, portanto, um glifo completo do equilíbrio necessário ao começo da Grande Obra. Mas no que concerne ao mistério final, isto é deixado sem solução. Perfeito é o plano para produzir a vida, porém a natureza desta vida é ocultada. É capaz de assumir qualquer forma possível, mas qual forma? Isto depende das influências presentes na gestação. A figura no ar apresenta certa dificuldade. A interpretação tradicional diz que se trata de Cupido, e não fica claro, a princípio, o que Cupido tem a ver com Gêmeos. Nenhuma luz é lançada sobre este ponto ao considerar-se a posição do caminho na Árvore da Vida, pois Gêmeos conduz de Binah a Tiphareth. E aí, consequentemente, se levanta toda a questão de Cupido. Os deuses romanos geralmente representam um aspecto mais material dos deuses gregos dos quais são derivados, neste caso, Eros. Eros é o filho de Afrodite e a tradição diverge quanto a seu pai ser Ares, Zeus ou Hermes, quer dizer, Marte, Júpiter ou Mercúrio. Sua aparência nesta carta sugere que Hermes seja o verdadeiro progenitor e este parecer é confirmado pelo fato de não ser em absoluto fácil distingui-lo da criança Mercúrio, pois eles têm em comum o desregramento, a irresponsabilidade e o gosto por pregar peças. Mas nesta imagem existem características peculiares. Ele carrega um arco e flechas numa aljava dourada (é representado, por vezes, com uma tocha); tem asas douradas e está vendado. Daí pode parecer que ele representa a vontade inteligente (e, ao mesmo tempo, inconsciente) da alma de unir a si mesma com tudo e todos, como foi explicado na fórmula geral relativa à agonia da separação. Não se atribui importância muito especial em figuras alquímicas ao Cupido. Contudo, num certo sentido, ele é a fonte de toda a ação, a libido para expressar zero como dois. De outro ponto de vista, é possível considerá-lo como o aspecto intelectual da influência de Binah sobre Tiphareth, pois (em uma tradição) o título da carta é “Os Crianças da Voz, o Oráculo dos Deuses Poderosos”. Deste ponto de vista, ele é um símbolo da inspiração, descendo sobre a figura encapuzada, que é, neste caso, um profeta que opera a união do rei e a rainha. Sua flecha representa a inteligência espiritual necessária nas operações alquímicas, mais do que a mera fome de executá-las. Por outro lado, a flecha é peculiarmente um símbolo de direção, e é, portanto, apropriado colocar a palavra Thelema em letras gregas sobre a aljava. Deve-se também observar que a carta contraposta, Sagitário, 37 significa Aquele que porta a Flecha, ou o Arqueiro, uma figura que não aparece sob forma alguma no Atu XIV. Estas duas cartas são tão complementares que não podem ser estudadas isoladamente para completa interpretação.

37

Isto é, Arte (Atu XIV) (NT).

85


VII ‒ A CARRUAGEM

O Atu VII se refere ao signo zodiacal Câncer, o signo para dentro do qual o Sol se move no solstício de verão. 38 Câncer é o signo cardeal do elemento água,39 e representa a primeira investida incisiva desse elemento. Câncer também representa o caminho que conduz da grande Mãe Binah a Geburah, sendo assim a influência das Superiores através do Véu da Água (que é sangue) sobre a energia do homem, assim inspirando-a. Corresponde, desta maneira, a O Hierofante, que do outro lado da Árvore da Vida, traz para baixo o fogo de Chokmah (ver diagrama). O desenho da carta aqui apresentada foi muito influenciado pelo trunfo retratado por Éliphas Lévi. O dossel da Carruagem é o azul de céu noturno de Binah. As colunas são as quatro colunas do universo, o regímen de Tetragrammaton. As rodas escarlates representam a energia original de Geburah produtora do movimento giratório.

38

Note-se que Cheth ‒ Cheth 8 ‒ Yod 10 ‒ Tau 400 totalizam o valor 418. Este é um dos númeroschaves mais importantes de Liber AL. É o número da palavra do Æon, ABRAHADABRA, a chave da Grande Obra (ver The Equinox of the Gods, pág. 138 e também The Temple of Solomon the King). Um volume completo poderia, e deveria, ser escrito tão-só acerca desta palavra. 39

Daí o dia de São João Batista e os vários cerimoniais ligados à água.

86


Essa carruagem é puxada por quatro esfinges compostas dos quatro Kerubs, o touro, o leão, a águia e o homem. Em cada esfinge estes elementos estão permutados, de maneira que o todo representa os dezesseis sub-elementos. O auriga está trajado com a armadura cor de âmbar apropriada ao signo. Está mais entronizado na carruagem do que o conduzindo porque todo o sistema de progressão é perfeitamente equilibrado. Sua única função é portar o Cálice Sagrado. Acima de sua armadura está dez Estrelas de Assiah, a herança de rocio celestial de sua mãe. Como cimeira do elmo ele tem o caranguejo apropriado ao signo. A viseira de seu elmo está abaixada, pois nenhum homem pode olhar seu rosto e viver. Por razão idêntica, nenhuma parte de seu corpo está exposta. Câncer é a casa da Lua. Há assim certas analogias entre esta carta e a da Alta Sacerdotisa. Mas, também, Júpiter é exaltado em Câncer e neste caso lembra-se da carta chamada Fortuna (Atu X) atribuída a Júpiter. O traço central e mais importante da carta é seu centro ‒ o Cálice Sagrado. É de ametista pura da cor de Júpiter, mas sua forma sugere a lua cheia e o Grande Mar de Binah. No centro do Cálice Sagrado está o sangue radiante, de que se infere a vida espiritual; luz nas trevas. Estes raios, ademais, giram, enfatizando o elemento jupiteriano no símbolo.

87


VIII ‒ O AJUSTAMENTO

Esta carta no baralho antigo era chamada de Justiça. Esta palavra detém somente um sentido puramente humano e, consequentemente, relativo, de modo a não ser considerada um dos fatos da natureza. A natureza não é justa de acordo com qualquer ideia teológica ou ética, mas sim exata. Esta carta representa o signo de Libra, regido por Vênus e onde Saturno é exaltado. O equilíbrio de todas as coisas é aqui simbolizado. É o Ajustamento final na fórmula de Tetragrammaton, quando a filha, redimida por seu casamento com o filho, é por isso instalada no trono da mãe; assim, finalmente, ela “desperta a Longevidade do Todo-Pai.” No maior simbolismo de todos, entretanto, o simbolismo além de todas as considerações planetárias e zodiacais, esta carta é o complemento feminino de O Louco, pois as letras Aleph, Lamed constituem a chave secreta de O Livro da Lei, e isto é a base de um sistema qabalístico completo de profundidade e sublimidade maiores que qualquer outro. As minúcias deste sistema ainda não foram reveladas. Foi julgado correto, entretanto, dar a entender sua existência mediante o equacionamento dessas duas cartas. Não apenas em consequência, porque Libra é um signo de Vênus, mas

88


também porque ela é a parceira do Louco, a deusa é representada dançando, sugerindo Arlequim. A figura é a de uma mulher jovem e esbelta equilibrada com exatidão sobre as pontas dos dedões. Ela está coroada com as plumas de avestruz de Maat, a deusa egípcia da Justiça e sobre sua fronte está a serpente Uræus, o Senhor da Vida e da Morte. Ela está mascarada e sua expressão demonstra sua secreta e íntima satisfação pelo domínio sobre todo elemento de desequilíbrio no universo. Esta condição é simbolizada pela espada mágica que ela segura nas duas mãos e os pratos de balança ou esferas nos quais ela pesa o universo, Alfa, o Primeiro equilibrado exatamente com Ômega, o Último. Estes são os Judex e Testes do Juízo Final; os Testes, em particular, simbolizam o andamento secreto do julgamento por meio do qual toda experiência corrente é absorvida, transmudada e finalmente passada à frente, em virtude da operação da espada, à outra manifestação. Tudo isto ocorre dentro do losango formado pela figura que é a Vesica Piscis através da qual essa experiência sublimada e ajustada passa à sua manifestação seguinte. Ela se equilibra ante um trono composto de esferas e pirâmides (em número de quatro, significando lei e limitação), as quais, elas mesmas, mantêm a mesma equidade que ela própria manifesta, embora num plano completamente impessoal, na estrutura dentro da qual todas as operações têm lugar. Fora, mais uma vez, no canto da carta, são indicadas esferas equilibradas de luz e trevas, e raios constantemente equilibrados a partir destas esferas formam uma cortina, a interação de todas essas forças que ela resume e adjudica. É preciso aprofundar-se mais filosoficamente: este trunfo representa A Mulher Satisfeita. O equilíbrio permanece apartado de quaisquer preconceitos individuais, e, portanto, o título na França deveria ser preferivelmente Justesse. Neste sentido, a natureza é escrupulosamente justa. É impossível deixar cair um alfinete sem desencadear uma reação correspondente em toda Estrela. A ação perturbou o equilíbrio do universo. Esta deusa-mulher é Arlequim. Ela é a parceira e o cumprimento de O Louco. Ela é a ilusão última que é manifestação; ela é a dança, de muitas cores, de muitas manhas, da própria vida. Em rodopio constante, todas as possibilidades são desfrutadas sob o espetáculo-fantasma do espaço e do tempo: todas as coisas são reais, a alma é a superfície precisamente porque elas são instantaneamente compensadas por este Ajustamento. Todas as coisas são harmonia e beleza; todas as coisas são verdade porque se compensam. Ela é a deusa Maat e tem sobre sua nêmis as penas de avestruz da verdade dupla. Desta coroa, tão delicada que o mais débil alento do pensar tem que agitá-la, dependem pelas cadeias da causa os pratos em que Alfa, o primeiro é posto em perfeito equilíbrio com Ômega, o último. Os pratos da balança são as duas testemunhas nas quais toda palavra será estabelecida. Ela deve ser entendida, portanto, avaliando a virtude de todo ato e exigindo satisfação exata e precisa. 89


Mais do que isso, ela é a completa fórmula da díade. A palavra AL é o título de O Livro da Lei, cujo número é 31, a mais secreta das chaves numéricas daquele Livro. Ela representa manifestação que é possível sempre se compensar pelo equilíbrio dos opostos. Ela está envolvida numa capa de mistério, e mais misteriosa porque diáfana; ela é a esfinge sem segredo porque é puramente uma matéria de cálculo. Na filosofia oriental ela é Karma. Suas atribuições desenvolvem esta tese. Vênus rege o signo da Balança 40 e isto é mostrar a fórmula: “Amor é a lei, amor sob a vontade”. Mas Saturno representa, acima de tudo, o elemento tempo, sem o qual o Ajustamento não pode ocorrer, pois toda ação e reação ocorrem no tempo, e, portanto, o tempo sendo ele mesmo meramente uma condição dos fenômenos, todos os fenômenos são inválidos porque não compensados. A Mulher Satisfeita. Da capa do desregramento vívido de suas asas dançantes brotam suas mãos; estas seguram o punho da espada fálica do mago. Ela segura a lâmina entre suas coxas. Mais uma vez um hieróglifo de “Amor é a lei, amor sob a vontade”. Toda forma de energia tem que ser dirigida, tem que ser aplicada com integridade para a satisfação plena de seu destino.

40

Libra (NT).

90


IX ‒ O EREMITA

Esta carta é atribuída à letra Yod, que significa mão. Por isso, a mão, que é a ferramenta ou instrumento por excelência, está no centro da ilustração. A letra Yod é o fundamento de todas as outras letras do alfabeto hebraico, que são meramente combinações dela em maneiras variadas. A letra Yod é a primeira letra do nome Tetragrammaton e este simboliza o Pai, que é sabedoria; ele é a forma mais elevada de Mercúrio, e o Logos, o Criador de todos os mundos. Consequentemente, seu representante na vida física é o espermatozoide e esta é a razão da carta ser chamada O Eremita. A figura do próprio Eremita lembra a forma da letra Yod e a cor de sua capa é a cor de Binah, na qual ele gesta. Em sua mão ele segura uma lâmpada cujo centro é o Sol, retratada à semelhança do sigillum do grande rei do fogo (Yod é o fogo secreto). Parece que ele está contemplando – num certo sentido, adorando ‒ o ovo órfico (de cor esverdeada) porque este é contérmino do universo, enquanto que a serpente que o envolve é multicolorida significando a iridescência de Mercúrio, pois ele não é só criativo, mas também é a essência fluídica da luz, que é a vida do universo. O mais elevado simbolismo nesta carta é, portanto, fertilidade no seu sentido mais exaltado e isto é refletido na atribuição da carta ao signo de Virgem, que é um outro 91


aspecto da mesma qualidade. Virgem é um signo da terra e se refere especialmente ao cereal, de maneira que o fundo da carta é um campo de trigo. Virgem representa a forma mais inferior, mais receptiva, mais feminina da terra e forma a crosta sobre o Hades. E além de Virgem ser regido por Mercúrio, Mercúrio é exaltado em Virgem. Confrontar com o dez de Discos e com a doutrina geral segundo a qual o clímax da descida à matéria é o sinal para a reintegração pelo espírito. É a fórmula da Princesa, o modo de realização da Grande Obra. Esta carta lembra a lenda de Perséfone e aqui há um dogma. Ocultada no interior de Mercúrio há uma luz que penetra todas as partes do universo igualmente; um dos títulos dele é Psicopompo, o condutor da alma pelas regiões inferiores. Estes símbolos são indicados por seu bastão-serpente, que está realmente brotando do Abismo, e é o espermatozoide desenvolvido como um veneno e manifestando o feto. Cérbero, o cão tricéfalo do inferno, o qual ele domou, o segue. Neste trunfo é mostrado o inteiro mistério da vida nas suas operações mais secretas. Yod ≡ Falo ≡ Espermatozoide ≡ Mão ≡ Logos ≡ Virgem. Há uma perfeita identidade, não meramente equivalência dos extremos, a manifestação e o método.

92


X ‒ FORTUNA

Esta carta é atribuída ao planeta Júpiter, o grande benéfico na astrologia. Corresponde à letra Kaph,41 palma da mão, em cujas linhas, de acordo com outra tradição, pode-se ler a fortuna. Seria tacanhez pensar em Júpiter como boa fortuna; ele representa o elemento sorte, o fator incalculável. Esta carta representa assim o universo em seu aspecto de contínua mudança de estado. Acima, o firmamento de estrelas, as quais aparecem sob forma distorcida embora estejam equilibradas, algumas brilhantes e algumas escuras. Delas, através do firmamento, brotam raios que o agitam transformando-o numa massa de penachos de cores azul e violeta. No meio de tudo isso está suspensa uma roda de dez raios, de acordo com o número das Sephiroth e da esfera de Malkuth, indicando o governo dos assuntos físicos. Sobre essa roda estão três figuras: a esfinge com a espada, Hermanúbis e Tífon. Eles simbolizam as três formas de energia que governam o movimento fenomênico. A natureza dessas qualidades requer uma descrição cuidadosa. No sistema hindu há três Gunas ‒ Sattvas, Rajas e Tamas. A palavra Gunas é intraduzível. Não é bem um elemento, uma qualidade, uma forma de energia, uma fase ou um potencial: todas estas 41

Kaph 20, Pé 80 = 100, Qoph, Peixes. As iniciais K Ph são as de

93

(kteis) e ϕ

(fallos).


ideias entram nela. Todas as qualidades que podem ser predicadas de alguma coisa podem ser atribuídas a um ou mais dessas Gunas. Tamas é trevas, inércia, indolência, ignorância, morte e similares; Rajas é energia, excitação, fogo, brilho, agitação; Sattvas é calma, inteligência, lucidez e equilíbrio. Correspondem às três principais castas hindus. Um dos mais importantes aforismos da filosofia hindu é: “as Gunas giram”. Isto significa que de acordo com a doutrina da mudança contínua nada é capaz de permanecer em qualquer fase em que uma dessas Gunas é predominante; não importa quão densa e inerte essa coisa possa ser, um tempo virá no qual começará a agitar-se. O fim e a recompensa do esforço é um estado de lúcida quietude, o qual, entretanto, tende por fim a se afundar na inércia original. As Gunas são representadas na filosofia europeia pelas três qualidades, enxofre, mercúrio e sal, já retratadas nos Atus I, III e IV. Mas nesta carta a atribuição é um tanto diferente. A esfinge é composta dos quatro Kerubs exibidos no Atu V, o touro, o leão, a águia e o homem. Estes correspondem, adicionalmente, às quatro virtudes mágicas: saber, querer, ousar e manter silêncio. 42 Esta esfinge representa o elemento enxofre e é exaltada, temporariamente, sobre o cimo da roda. Está armada de uma espada curta de tipo romano, segura ereta entre as patas do leão. Subindo o lado esquerdo da roda vê-se Hermanúbis, que representa o mercúrio alquímico. Ele é um deus composto, mas o elemento símio predomina nele. Do lado direito, precipitando-se para baixo, vê-se Tífon, que representa o elemento sal. Contudo, nestas figuras há também certo grau de complexidade, pois Tífon era um monstro do mundo primitivo que personificava o poder destrutivo e a fúria de vulcões e tufões. Na lenda, ele tentou lograr suprema autoridade tanto sobre deuses quanto seres humanos, mas Zeus o destruiu mediante um raio. Dizia-se ser ele o pai dos ventos tempestuosos, quentes e venenosos, e também das harpias. Mas esta carta, como o Atu XVI pode também ser interpretada como uma unidade de suprema realização e deleite. Os raios que destroem, também geram; e a roda pode ser considerada como o olho de Shiva, cuja abertura aniquila o universo, ou como uma roda sobre o Carro de Jaganath, cujos devotos atingem a perfeição no momento em que ela os esmaga. Uma descrição desta carta tal como aparece em The Vision and the Voice, com certos significados interiores, é dada em um Apêndice.

42

Estes são os quatro elementos, somados a um quinto, espírito, para formar o pentagrama, e a virtude mágica correspondente é Ire, ir. “Ir” é o sinal da divindade, como explicado em referência à correia de sandália ou Ankh, a crux ansata, que por sua vez, é idêntica ao símbolo astrológico de Vênus, compreendendo as dez Sephiroth (ver diagrama).

94


XI ‒ VOLÚPIA

Este trunfo era chamado anteriormente de Força. Mas ele implica em muitíssimo mais do que força no sentido ordinário da palavra. Uma análise técnica mostra que o caminho que corresponde a esta carta não é a força de Geburah, mas a influência proveniente de Chesed sobre Geburah, o caminho equilibrado tanto vertical quanto horizontalmente na Árvore da Vida (ver diagrama). Por esta razão, julgou-se melhor mudar o título tradicional. Volúpia sugere não apenas força, mas inclusive a alegria da força exercida. Trata-se de vigor e do arrebatamento do vigor. “Saí, oh crianças, sob as estrelas, & tomai vossa fartura de amor! Eu estou acima de vós e em vós. Meu êxtase está no vosso. Minha alegria é ver vossa alegria.” “Beleza e força, gargalhada e langor delicioso, força e fogo são de nós.” “Eu sou a Serpente que dá Conhecimento & Deleite e glória brilhante, e agita o coração dos homens com embriaguez. Para me adorar, tomai vinho e drogas estranhas das quais Eu direi ao meu profeta, & embebedai-vos deles. Eles não vos ferirão em nada. Isto é uma mentira, esta tolice contra o ser. A exposição de inocência é uma mentira. Sê forte, oh homem! deseja, aproveita todas as coisas de sentido e êxtase: não temas que Deus algum te negue por isto.” “Vede, estes são graves mistérios; pois há também amigos meus que são eremitas. Agora, não penseis em encontrá-los na floresta ou na montanha; mas em camas de 95


púrpura, acariciados por magníficas bestas de mulheres com extensos membros, e fogo e luz em seus olhos, e massas de cabelos em chamas em volta delas: lá vós os encontrareis. Vós os vereis no governo, em exércitos vitoriosos, em toda a alegria; e neles haverá uma alegria um milhão de vezes maior do que esta. Cuidado, para que um não force ao outro, Rei contra Rei! Amai-vos uns aos outros, com corações ardentes; nos homens baixos, pisai no violento ardor de vosso orgulho, no dia da vossa ira.” “Há uma luz diante de teus olhos, ó profeta, uma luz indesejada, muito desejável. Eu estou erguido em teu coração; e o beijo das estrelas chove forte sobre teu corpo. Tu estás exausto na voluptuosa plenitude da inspiração; a expiração é mais doce que a morte, mais rápida e risonha que uma carícia do próprio verme do Inferno!“ Este trunfo é atribuído ao signo do Leão no zodíaco. É o Kerub do fogo e é regido pelo Sol. É a mais poderosa das doze cartas zodiacais e representa a mais crítica de todas as operações mágicas e alquímicas. Representa o ato do casamento original como ocorre na natureza, em oposição à forma mais artificial ilustrada na Atu VI; não há nesta carta nenhuma tentativa de dirigir o curso da operação. O assunto principal da carta se refere a mais antiga coletânea de lendas ou fábulas. Aqui se faz necessário entrar um pouco na doutrina mágica da sucessão dos Æons, a qual está ligada à progressão do zodíaco. Assim, o último Æon, o de Osíris, se refere a Áries e Libra, como o anterior a este, o de Ísis, estava especialmente relacionado aos signos de Peixes e Virgem, enquanto que o presente Æons, o de Hórus, está vinculado a Aquário e Leão. O mistério central nesse Æon passado foi o da encarnação; todas as lendas de homens-deuses se fundaram em alguma história simbólica desse tipo. O essencial em todas essas histórias consistia em negar a paternidade humana do herói ou homem-deus. Na maioria dos casos, afirma-se ser o pai um deus sob alguma forma animal, o animal sendo escolhido conforme as qualidades que os criadores do culto desejavam ver reproduzidas na criança. Assim, Rômulo e Remo foram gêmeos gerados numa virgem pelo deus Marte e foram amamentados por uma loba. Toda a fórmula mágica da cidade de Roma foi fundada sobre isso. Neste ensaio já foram feitas referências às lendas de Hermes e Dionísio. Dizia-se que o pai de Gautama Buda era um elefante de seis presas, o qual apareceu a sua mãe num sonho. Há também a lenda do Espírito Santo sob a forma de uma pomba impregnando a Virgem Maria. Há aqui uma referência à pomba da arca de Noé trazendo boas novas sobre a salvação do mundo das águas (os moradores da arca são o feto, as águas, o fluido amniótico). Fábulas similares devem ser encontradas em toda religião do Æon de Osíris: é a fórmula típica do deus que morre. Nesta carta, portanto, surge a lenda da mulher e o leão, ou melhor, serpente-leão (esta carta é atribuída à letra Teth, que significa serpente). 96


Os videntes dos primeiros tempos do Æon de Osíris previram a manifestação deste Æon vindouro no qual vivemos agora, e eles o encararam com intenso horror e medo, não compreendendo a precessão dos Æons, e considerando toda mudança como catástrofe. Eis a interpretação real e a razão para as invectivas contra a Besta e a Mulher Escarlate nos capítulos XIII, XVII e XVIII do Apocalipse. Mas na Árvore da Vida o caminho de Gimel, a Lua, descendo do mais alto, corta o caminho de Teth, Leão, a casa do Sol, de modo que a mulher na carta pode ser considerada como um forma da Lua, sumamente iluminada pelo Sol, e intimamente unida a ele de tal maneira que produz encarnados sob forma humana o representante ou representantes do Senhor do Æon. Ela monta a Besta de maneira escarranchada; na mão esquerda segura as rédeas, que representam paixão que os une. Na mão direita segura nas alturas a taça, o Cálice Sagrado inflamado de amor e morte. Nesta taça estão misturados os elementos do sacramento do Æon. O Livro das Mentiras devota um capítulo a este símbolo.

A FLOR DE WARATAH

Sete são os véus da dançarina do harém d‟ELE. Sete são os nomes, e sete são as lâmpadas ao lado da cama Dela. Sete eunucos A guardam com espadas desembainhadas; Nenhum Homem aproxima-se Dela. Em seu copo de vinho estão as sete torrentes de sangue dos Sete Espíritos de Deus. Sete são as cabeças d‟A BESTA na qual Ela Cavalga. A cabeça de um Anjo: a cabeça de um Santo; a cabeça de um Poeta: a cabeça de Uma Mulher Adúltera: a cabeça de um Homem Valoroso; a cabeça de um Sátiro; e a cabeça de um Leão-Serpente. Sete letras tem Seu mais sagrado nome, que é:

U Este é o Selo sobre o Anel que está no Indicador d‟ELE: e este é o Selo sobre as Tumbas daqueles a quem Ela assassinou.

97


Aqui está sabedoria. Que aquele que tem Compreensão conte o Número de Nossa Senhora; pois que ele é o Número de uma Mulher; e Seu Número é: Cento e Cinquenta e Seis. Há outra descrição em The Vision and the Voice (ver Apêndice). Há nesta carta uma embriaguez ou êxtase divinos. A mulher é mostrada mais do que um pouco ébria, e mais do que um pouco insana; e o leão está também inflamado de volúpia. Isto significa que o tipo de energia descrito é de ordem criadora primitiva, completamente independente da crítica da razão. Esta carta retrata a vontade do Æon. Ao fundo veem-se as imagens lívidas dos santos, sobre as quais esta imagem viaja, pois a vida inteira deles foi absorvida no Cálice Sagrado. “Agora vós sabereis que o sacerdote & apóstolo escolhido do espaço infinito é o sacerdote-príncipe, a Besta; e em sua mulher, chamada a Mulher Escarlate, está todo o poder dado. Eles reunirão minhas crianças em seu cercado: eles levarão a glória das estrelas para os corações dos homens. Pois ele é sempre um sol, e ela uma lua. Mas para ele é a chama alada secreta, e para ela a descendente luz estelar.” Este sacramento é a fórmula físico-mágica para atingir a iniciação, para a realização da Grande Obra. Na alquimia é o processo de destilação operado pelo fermento interno, e a influência do Sol e da Lua. Atrás das figuras da Besta e sua Noiva existem dez círculos refulgentes; são as Sephiroth latentes e ainda não ordenadas pois todo novo Æon exige um novo sistema de classificação do universo. No alto da carta é mostrado um emblema da nova luz com dez chifres da Besta, que são serpentes, enviadas em todas as direções para destruir e recriar o mundo. Maior estudo desta carta pode ser feito pelo exame rigoroso de Liber XV (v. Magick).

98


XII ‒ O PENDURADO

Esta carta, atribuída à letra Mem, representa o elemento água. Seria talvez melhor dizer que representa a função espiritual da água na economia da iniciação; é um batismo que é também uma morte. No Æon de Osíris, esta carta representava a suprema fórmula de adeptado, pois a figura do afogado ou pendurado possui seu próprio significado especial. As pernas estão cruzadas de maneira que a perna direita forma um ângulo reto com a perna esquerda e os braços estão esticados a um ângulo de 60 graus, de sorte a formar um triângulo equilátero, o que produz o símbolo do triângulo encimado pela cruz, que representa a descida da luz ao interior das trevas para redimi-la. Por esta razão há Discos verdes ‒ verde, a cor de Vênus, significa graça ‒ nas terminações dos membros e da cabeça. O ar acima da superfície da água também é verde infiltrado pelos raios da luz branca de Kether. A figura toda está suspensa do Ankh, outro modo de figurar a fórmula da Rosacruz, enquanto que em torno do pé esquerdo está a serpente, criadora e destruidora, que opera toda a transformação (o que será visto na carta que se segue a esta). Pode-se notar que há um aparente aumento de escuridão e solidez à proporção que o elemento redentor se manifesta, mas a cor verde é a cor de Vênus, da esperança que reside no amor. Isto depende da formulação da Rosacruz, do aniquilamento do eu no amado, a condição de progresso. Nesta escuridão inferior de morte, a serpente da nova vida começa a se agitar.

99


No Æon anterior, o de Osíris, o elemento ar, que é a natureza deste Æon, não antipatiza com a água ou o fogo; acordo era a marca desse período. Mas agora, sob um Senhor Ígneo do Æon, o elemento aquoso, na medida em que a água está abaixo do Abismo, é definitivamente hostil, a menos que a oposição seja a oposição correta implícita no casamento. Mas nesta carta a única questão é da “redenção” do elemento submerso e, portanto, tudo está invertido. Esta ideia do sacrifício é, em última análise, uma ideia errônea. “Eu dou inimagináveis alegrias sobre a terra: certeza, não fé, enquanto em vida, sobre a morte; paz indescritível, descanso, êxtase; e Eu não peço algo em sacrifício.” “Todo homem e toda mulher é uma estrela.” A ideia inteira do sacrifício é uma concepção equívoca da natureza e estes textos de O Livro da Lei são a resposta a isso. A água é o elemento da ilusão; é possível encarar este símbolo como um legado mau do velho Æon. Para usar uma analogia anatômica: é um apêndice vermiforme espiritual. Foi a água e os moradores da água que assassinaram Osíris; são os crocodilos que ameaçam Hoor-Pa-Kraat. Esta carta é bela de uma maneira estranha, imemorial, moribunda. É a carta do deus que morre; sua importância no presente baralho é simplesmente aquela do cenotáfio. Ela diz: “Se acontecer das coisas se tornarem más daquele jeito novamente, na nova Idade das Trevas que parece ameaçar, este é o modo de acertar as coisas.” Mas se as coisas têm que ser acertadas, isto indica que estão muito erradas. A principal meta dos sábios deveria ser livrar a espécie humana da insolência do auto-sacrifício, da calamidade da castidade; a fé tem que ser morta pela certeza e a castidade pelo êxtase. Está escrito em O Livro da Lei: “Não te apiedes dos caídos! Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo: Eu odeio o consolado & o consolador.” Redenção é uma palavra ruim; implica numa dívida. Pois toda estrela possui riqueza ilimitada; o único meio adequado de lidar com os ignorantes é conduzi-los ao conhecimento de sua herança de estrela. Para fazê-lo é necessário comportar-se como deve ser feito a fim de entrar em acordo com os animais e as crianças: tratá-los com absoluto respeito, mesmo, num certo sentido, com veneração.

*

*

*

*

*

Note-se na Precessão dos Æons. “O Pendurado” é uma invenção dos Adeptos da fórmula do I.N.R.I. ‒ J.A.O. No Æon anterior ao osiríaco, o de Ísis (água), ele é “O Afogado”. As duas colunas de suporte da forca mostrada nos baralhos medievais eram, no sistema partenogenético de explicação e regência da natureza, o fundo do mar e a quilha da arca. Neste Æon todo nascimento era considerado uma emanação, sem 100


intervenção masculina, da Deusa-Mãe ou Deusa-Estrela, Nuit. Toda a morte é um retorno a Ela. Isto explica a atribuição original do Atu à água e o som M o retorno ao silêncio eterno, como na palavra A U M . Esta carta é, portanto, especialmente sagrada ao místico, sendo a atitude da figura uma postura ritual na prática denominada “O Sono de Shiloam”.

*

*

*

*

*

A importância alquímica desta carta é tão estranha a todas as implicações dogmáticas que se afigurou melhor tratá-la completamente em separado. Suas qualidades técnicas são independentes de qualquer maneira de todas as outras doutrinas. Temos aqui uma matéria de significado estritamente científico. O estudante será prudente ao ler em conexão com estas observações o capítulo XII de Magick. O Atu representa o sacrifício de “uma criança do sexo masculino de perfeita inocência e elevada inteligência” ‒ estas palavras foram escolhidas com o mais extremo cuidado. O significado de sua atitude já foi descrito, e do fato de ser dependurado de um Ankh, um equivalente da Rosacruz. Em algumas cartas antigas a forca é um pilone, ou o galho de uma árvore, cuja forma sugere a letra Daleth (d), Vênus, Amor. Ao fundo do Pendurado há uma grade imensa de pequenos quadrados. São as plaquetas elementares que exibem os nomes e sigilla de todas as energias da natureza. Através de seu trabalho uma criança é gerada, como é mostrado pela serpente se agitando na escuridão do Abismo abaixo dele. Contudo, a carta em si é essencialmente um glifo da água. Mem é uma das três grandes letras-mãe, e seu valor é 40, o poder de Tetragrammaton plenamente desenvolvido por Malkuth, o símbolo do universo sob o demiurgo. Outrossim, a água é de maneira peculiar a letra-mãe pois tanto Shin quanto Aleph (as outras duas) representam ideias masculinas; e na natureza, o Homo sapiens é um mamífero marinho e nossa existência intrauterina é passada no fluido amniótico. A lenda de Noé, da arca e do dilúvio não passa de uma apresentação hierática dos fatos da vida. É então a água que os Adeptos sempre contemplaram para a continuação (num sentido ou outro) e o prolongamento, e talvez a renovação da vida. A lenda dos Evangelhos, abordando os Mistérios Maiores da Lança e da Taça (aqueles do deus Iacchus = Iao) como superiores aos Mistérios Menores (aqueles do deus Íon = Noé, e os deuses-N em geral), nos quais a espada mata o deus de modo que sua cabeça possa ser oferecida num prato, ou disco, diz: E um soldado com uma lança perfurou seu flanco, tendo saído sangue e água. Este vinho, colhido pelo Discípulo Amado e a Virgem Mãe, que esperavam sob a cruz ou árvore com essa finalidade, numa taça ou cálice, este é o Cálice Sagrado ou Santo Graal (Sangraal) de Monsalvat, a Montanha da Salvação. [Graal (gréal) significa realmente recipiente em forma de prato, xícara: francês antigo graal, greal, grasal, provavelmente uma corruptela do 101


latim gradale, este uma corruptela de crater, tigela, vaso grande de boca larga, copo grande]. Este sacramento é exaltado no zênite em Câncer. Ver Atu VII. É de extrema importância para o estudante percorrer circularmente de modo contínuo esta roda de simbolismo até que as figuras se fundam imperceptivelmente umas nas outras numa dança intoxicante de êxtase; enquanto não atingir isto não será capaz de partilhar do sacramento e executar para si mesmo ‒ e para todos os homens! ‒ a Grande Obra. Mas que ele se lembre também do segredo prático enclausurado em todos estes corredores de música varridos pelo vento, o real preparo da Pedra dos Sábios, a Medicina dos Metais e o Elixir da Vida!

102


XIII ‒ MORTE

Esta carta é atribuída à letra Nun, que significa peixe, o símbolo da vida sob as águas, a vida se movendo através das águas. Refere-se ao signo zodiacal do Escorpião, que é regido por Marte, o planeta de energia ígnea sob sua forma mais baixa, que é, portanto, necessária para produzir o impulso. Na alquimia, esta carta explica a ideia da putrefação, o nome técnico dado por seus adeptos à série de alterações químicas que desenvolve a forma final da vida a partir da semente latente original no ovo órfico. Este signo é um dos dois mais poderosos do zodíaco, mas não possui a simplicidade e intensidade de Leão. É formalmente dividido em três partes: a mais baixa é simbolizada pelo escorpião, que supunham os antigos observadores da natureza, comete suicídio ao se encontrar cercado por um anel de fogo, ou, de outra maneira, numa situação desesperada. Isto representa putrefação sob sua forma mais baixa. A tensão do ambiente tornou-se intolerável e o elemento atacado voluntariamente se sujeita à alteração; assim, o potássio arrojado à água se torna inflamado e aceita o abraço do radical hidroxilo. A interpretação mediana deste signo é dada pela serpente, a qual é, ademais, o tema principal do signo. 43 A serpente é sagrada, Senhora da Vida e da Morte, e seu 43

Os qabalistas incorporaram ao Livro do Gênesis, caps. I e II, esta doutrina da regeneração. NChSh, a Serpente do Éden tem o valor 358, bem como MShICh, Messias. Ele é, consequentemente, na doutrina

103


método o de progressão sugere a ondulação rítmica daquelas fases gêmeas da vida que chamamos respectivamente de vida e morte. A serpente é também, como já previamente explicado, o principal símbolo da energia masculina. A partir disto se perceberá que esta carta é, num sentido rigorosíssimo, o complemento da carta chamada Volúpia, Atu XI e o Atu XII representa a solução ou dissolução que as une. O aspecto mais elevado da carta é a águia, que representa exaltação acima da matéria sólida. Os antigos químicos entenderam que em certos experimentos os elementos mais puros (isto é, os mais tênues) presentes eram desprendidos como gás ou vapor. São assim representados nesta carta os três tipos essenciais de putrefação. A própria carta representa a dança da morte. A figura é um esqueleto manipulando uma foice, sendo tanto o esqueleto quanto a foice importantes símbolos saturninos. Isto parece estranho, visto que Saturno não tem nenhuma conexão clara com Escorpião; todavia, Saturno representa a estrutura essencial das coisas existentes. Ele é aquela natureza elementar das coisas que não é destruída pelas alterações ordinárias que ocorrem nas operações da natureza. Além disso, o esqueleto está coroado com a coroa de Osíris, representando Osíris nas águas de Amenti. E, ainda, ele é o deus criativo original, secreto e masculino: ver Atu XV, “Redeunt Saturnia regna.” Foi somente a corrupção da tradição, a confusão com Set, e o culto do deus que morre, incompreendido, deformado e distorcido pela Loja Negra, que o transformaram num símbolo senil e monstruoso. Pela varredura de sua foice o esqueleto cria bolhas nas quais começam se configurar as novas formas que ele cria em sua dança, sendo que estas formas também dançam. Nesta carta o símbolo do peixe é soberano. O peixe (IL PESCE, como o chamam em Nápoles e muitos outros lugares) e a serpente são os dois principais objetos de veneração em cultos que ensinaram as doutrinas da ressurreição ou reencarnação. Assim temos Oannes e Dagon, deuses-peixes, na Ásia ocidental. Em muitas outras partes do mundo existem cultos similares. Mesmo no cristianismo, Cristo era representado como um peixe. Supunha-se que a palavra grega ICQUS, “que significa peixe e muito adequadamente representa Cristo”, como Browning lembra, fosse um notariqon, as iniciais de uma sentença que significa “Jesus Cristo Filho de Deus, Salvador”. Também não é por acidente que São Pedro fosse um pescador. Os Evangelhos, inclusive, estão cheios de milagres envolvendo peixes e o peixe é sagrado para Mercúrio devido ao seu sangue frio, sua celeridade e seu brilho. Há, ademais, o simbolismo sexual. Isto lembra novamente a função de Mercúrio como guia dos mortos e como o contínuo elemento elástico na natureza.

secreta, o Redentor. Esta tese pode ser desenvolvida de maneira extensiva e detalhada. Na lenda, mais tarde, a doutrina reaparece num simbolismo ligeiramente diferente como a história do dilúvio, explicada alhures neste ensaio. Certamente, o peixe é idêntico em essência à serpente, pois Peixe = NVN = Escorpião = Serpente. Além disso, Teth, a letra de Leão, significa serpente. Mas Peixe é também Vesica ou útero e Cristo, e assim por diante. Este símbolo resume a Doutrina Secreta inteira.

104


Esta carta, portanto, deve ser considerada de uma maior importância e catolicidade do que se poderia esperar da simples atribuição zodiacal. Chega a ser um compêndio de energia universal na sua forma mais secreta.

105


XIV ‒ ARTE

Esta carta é o complemento e o cumprimento do Atu VI, Gêmeos. Pertence a Sagitário, o oposto de Gêmeos no zodíaco e, portanto, “segundo outra maneira” um com ele. Sagitário significa o arqueiro e a carta é (sob sua forma mais simples e mais primitiva) um retrato de Diana, a Caçadora. Diana é, em primeiro lugar, uma das deusas lunares, embora os romanos tenham produzido certa degradação da deusa a partir da “Artemis virgem” grega, que é também a Grande Mãe da Fertilidade, Diana dos efésios, a de muitos seios (uma forma de Ísis ‒ ver Atu II e III). A conexão entre a Lua e a caçadora é indicada pelo formato do arco, e a significação oculta de Sagitário é a seta perfurando o arco-íris; os últimos três caminhos da Árvore da Vida compõem a palavra Qesheth, arco-íris e Sagitário porta a flecha que perfura o arco-íris, pois seu caminho conduz da Lua de Yesod ao Sol de Tiphareth (esta explicação é altamente técnica, o que se justifica porque a carta representa uma importante fórmula científica, que não pode ser expressa em linguagem apropriada à compreensão comum). Esta carta representa a consumação do casamento real que ocorreu no Atu VI. Os personagens negro e branco estão agora unidos numa única figura andrógina. Mesmo as abelhas e as serpentes em seus mantos fizeram uma aliança. O leão vermelho tornou-se branco e cresceu em tamanho e importância, enquanto que a águia branca, semelhantemente expandida, tornou-se vermelha. Ele trocou seu sangue vermelho pelo

106


glúten branco dela (só é possível explicar estes termos a estudantes avançados de alquimia). O equilíbrio e a permuta são efetuados completamente na própria figura: a mulher branca possui agora uma cabeça negra, o rei negro, uma branca. Ela usa a coroa de ouro com uma faixa de prata, ele, a coroa de prata com uma fita de ouro, mas a cabeça branca à direita é prolongada na ação por um braço branco à esquerda que segura a taça do glúten branco, enquanto que a cabeça negra à esquerda tem o braço negro à direita segurando a lança que se tornou uma tocha e verte seu sangue ardente. O fogo queima a água, a água extingue o fogo. O manto da figura é verde, o que simboliza crescimento vegetal: aqui reside uma alegoria alquímica. No simbolismo dos pais da ciência, todos os objetos “reais” eram considerados como mortos; a dificuldade de transmutar os metais era que os metais, como ocorrem na natureza, tinham a natureza de excrementos porque não cresciam. O primeiro problema da alquimia era elevar o mineral à vida vegetal. Os Adeptos acharam que o modo correto de fazer isso era imitar os processos da natureza. Destilação, por exemplo, não era uma operação a ser executada aquecendo-se alguma coisa numa retorta sobre uma chama; tinha que ocorrer naturalmente, mesmo se meses fossem exigidos para consumar a obra (naquele período da civilização meses estavam à disposição das mentes inquiridoras). Muito do que as pessoas consideram hoje ignorância, sendo estas ignorantes do que os homens de outrora pensavam, procede desse mal-entendido. Na base desta carta, por exemplo, são vistos o fogo e a água misturados harmoniosamente. Mas isto é apenas um símbolo rudimentar da ideia espiritual, que é a satisfação do desejo do elemento incompleto de um tipo em satisfazer sua fórmula por assimilação de seu igual e contrário. Este estado da Grande Obra, portanto, consistia na mistura dos elementos contraditórios num caldeirão. Este é aqui representado como dourado ou solar, porque o Sol é o Pai de toda a Vida e (particularmente) preside a destilação. A fertilidade da Terra é mantida pela chuva e o sol. A chuva é formada por um processo lento e suave e é tornada efetiva pela cooperação do ar, que é ele mesmo alquimicamente o resultado do casamento do fogo e a água. Assim, também a fórmula do prolongamento da vida é morte, ou putrefação. Aqui é simbolizado pelo caput mortuum sobre o caldeirão, um corvo pousado sobre uma caveira. Em termos de agricultura, isto é a terra inculta. Há uma interpretação particular desta carta que é apenas para ser compreendida pelos iniciados do Nono Grau da O.T.O., visto que contém uma fórmula mágica prática de tal importância que torna impossível sua comunicação aberta. Elevando-se do caldeirão, como resultado da operação aí realizada, vê-se um jorro de luz que se transforma em dois arco-íris que formam a capa da figura andrógina. No centro uma seta aponta para cima. Isto se liga ao simbolismo geral previamente explicado, a espiritualização do resultado da Grande Obra.

107


O arco-íris simboliza, além disso, outro estágio no processo alquímico. Num certo período, como resultado da putrefação, observa-se um fenômeno de luzes multicoloridas (a “capa de muitas cores” que se dizia ter sido usada por José e Jesus, nas antigas lendas, se refere a isso. Ver também Atu 0, o traje de bufão do Homem Verde, redentor-sonhador). Em síntese, o conjunto desta carta representa o teor oculto do ovo descrito no Atu VI. É a mesma fórmula, mas num estágio mais avançado. A dualidade original foi completamente compensada; mas depois do nascimento vem o crescimento; depois do crescimento, a puberdade, e depois da puberdade, purificação. O estágio final da Grande Obra é, portanto, prenunciado nesta carta. Atrás da figura, estando suas bordas coloridas com o arco-íris que agora emergiu dos arco-íris gêmeos formadores da capa da figura, há uma auréola encerrando a inscrição VISITA INTERIORA TERRAE RECTIFICANDO INVENIES OCCULTUM LAPIDEM (“Visita as partes interiores da terra: pela retificação tu descobrirás a pedra oculta.”). Suas iniciais formam a palavra V . I . T . R . I . O . L ., o solvente universal, do qual se tratará na sequência (seu valor é 726 = 6 × 11 = 33 × 22). Essa “pedra oculta” é chamada também de medicina universal. Por vezes é descrita como uma pedra, por vezes como um pó, às vezes como uma tintura. Divide-se novamente em duas formas, o ouro e a prata, o vermelho e o branco, mas sua essência é sempre a mesma e sua natureza só pode ser compreendida pela experiência. É porque os alquimistas lidavam com substâncias na fronteira da “matéria” que compreendê-los é tão difícil. O tema da química e da física modernas é o que eles teriam chamado de estudo das coisas mortas, pois a diferença real entre coisas vivas e mortas é, numa primeira instância, o comportamento delas. As iniciais da divisa alquímica dada acima formam a palavra Vitriol. Isto não tem nada a ver com os sulfatos seja do hidrogênio, do ferro ou do cobre, como poderia ser supor a partir do uso moderno. Representa uma combinação equilibrada dos três princípios alquímicos, enxofre, mercúrio e sal. Estes nomes não têm nenhuma conexão com as substâncias assim denominadas pelo vulgo. Já foram descritos nos Atu I, III e IV. O conselho para “visitar o interior da terra” é uma recapitulação (num plano mais alto) da primeira fórmula da Obra que tem sido o tema tão constante das exposições deste ensaio. A palavra importante na prescrição é a central RECTIFICANDO, que sugere a condução certa da nova substância viva na senda da Vontade Verdadeira. A pedra filosofal, a medicina universal deve ser um talismã de uso em qualquer evento, um veículo completamente elástico e completamente rigoroso da Vontade Verdadeira dos alquimistas. Trata-se de fertilizar e trazer à Vida manifesta o ovo órfico. A seta, tanto nesta carta como no Atu VI, é de suma importância. A seta é, na verdade, o glifo mais simples e mais puro de Mercúrio, sendo o símbolo da Vontade dirigida. Convém enfatizar este fato mediante uma citação do Quarto Æthyr, LIT, em The Vision and the Voice (ver Apêndice). 108


XV ‒ DIABO

Esta carta é atribuída à letra Ayin, que significa olho, e se refere a Capricórnio no zodíaco. Na Idade das Trevas do cristianismo, foi completamente incompreendida. Éliphas Lévi a estudou muito profundamente devido à sua conexão com a magia cerimonial ‒ seu assunto favorito ‒ e a redesenhou, identificando-a com Baphomet, o ídolo de cabeça de asno dos Cavaleiros do Templo. 44 Mas, naquela época, a pesquisa arqueológica não tinha ido muito longe, a natureza de Baphomet não sendo totalmente compreendida (ver Atu 0 nas páginas anteriores). Mas, ao menos, ele conseguiu identificar o bode, retratado na carta, com Pã. Na Árvore da Vida, os Atu XIII e XV estão simetricamente dispostos. Conduzem de Tiphareth, a consciência humana, às esferas nas quais Pensamento (por um lado) e Êxtase (por outro) são desenvolvidos. Entre eles o Atu XIV conduz, de modo semelhante, à esfera que formula a Existência (ver nota acerca do Atu X e arranjo). Estas três cartas podem, consequentemente, ser sintetizadas como um hieróglifo dos processos pelos quais a ideia se manifesta como forma.

44

Os cristãos primitivos também foram acusados de adorar um asno, ou deus de cabeça de asno. Ver Browning, The Ring and the Book (O Papa).

109


Essa carta representa a energia criativa, sob a sua forma mais material. No zodíaco, Capricórnio ocupa o zênite. É o mais exaltado dos signos; é o bode saltando com volúpia sobre os cumes da terra. Este signo é regido por Saturno, que tende para o egoísmo e a perpetuidade. Neste signo, Marte é exaltado, mostrando em sua melhor forma a ígnea energia material da criação. A carta representa Pan Pangenetor, o gerador de tudo. É a Árvore da Vida vista contra um fundo das mais primorosamente tênues, complexas e fantásticas formas de loucura, a loucura divina da primavera, já prevista na loucura meditativa do inverno, pois o Sol se volta para o norte ao entrar neste signo. As raízes da Árvore são tornadas transparentes, a fim de exibir os inumeráveis saltos da seiva; diante dela, posta-se o bode do Himalaia, com um olho no centro de sua testa, representando o deus Pã na superfície das mais elevadas e mais secretas montanhas da Terra. Sua energia criativa está velada no símbolo do bastão do Adepto Maior, coroado com o globo alado e as serpentes-gêmeas de Hórus e Osíris. “Ouve-me, Senhor das Estrelas, Pois a ti tenho venerado sempre Com máculas, pesares e cicatrizes, Com jubiloso, jubiloso Esforço. Ouve-me, oh bode alvo como o lírio Viçoso como uma moita de espinhos Com um colar de ouro para tua garganta, Um arco escarlate para teus cornos.”

O signo do Capricórnio é rude, severo, sombrio, mesmo cego; o impulso para criar não leva em conta a razão, o costume ou a precaução. É divinamente inescrupuloso, sublimemente negligente do resultado. “... tu não tens direito senão fazer tua vontade. Faze isso, e nenhum outro dirá não. Pois vontade pura, desaliviada de propósito, livre da sede de resultado, é toda senda perfeita.” (AL I, 42-44) Cumpre observar, ademais, que o tronco da Árvore perfura os céus; em torno dele está indicado o anel do corpo de Nuit. Analogamente, o eixo do bastão desce indefinidamente para o centro da terra. “Se eu levanto minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se eu abaixo minha cabeça, e lanço veneno, então há êxtase da terra, e eu e a terra somos um.” (AL II, 26) A fórmula desta carta é então a completa apreciação de todas as coisas existentes. Ele se regozija no áspero e no estéril não menos do que no suave e no fértil. Todas as coisas o exaltam igualmente. Ele representa a descoberta do êxtase em todo fenômeno, não importa quão naturalmente repugnante; ele transcende todas as limitações; ele é Pã; ele é Tudo. É importante observar algumas outras correspondências. As três consoantesvogais do alfabeto hebraico, Aleph, Yod, Ayin, estas três letras formam o nome sagrado de Deus, I.A.O. Estes três Atu, IX, 0 e XV oferecem assim uma explicação tripla da 110


energia criadora masculina, porém esta carta especialmente representa a energia masculina no máximo da masculinidade. Saturno, o regente, é Set, o deus de cabeça de asno dos desertos egípcios; ele é o deus do sul. O nome se refere a todos os deuses contendo essas consoantes, como Shaitan ou Satã (ver Magick, págs. 336-7). As cercanias são essenciais ao simbolismo ‒ sítios estéreis, especialmente lugares elevados. O culto da montanha é um paralelo exato. O Velho Testamento está repleto de ataques a reis que celebravam o culto em “lugares elevados”; isto muito embora Sião fosse uma montanha! Este sentimento persistiu, mesmo até os dias do sabá das feiticeiras, realizado, se possível, num cume desolado, mas (caso não se dispusesse de nenhum) ao menos num local selvagem, não contaminado pela artificialidade dos homens. Note-se que Shabbathai, a “esfera de Saturno”, é o sabá. Historicamente, o ânimo contra as feiticeiras diz respeito ao medo dos judeus, cujos ritos, suplantados pelas formas cristãs de magia, haviam se tornado misteriosos e terríveis. O pânico sugeria que crianças cristãs eram furtadas, sacrificadas e devoradas. A crença perdura até os dias de hoje. Em todo símbolo desta carta existe a alusão às coisas mais elevadas e mais remotas. Mesmo os cornos do bode são espirais para representar o movimento da energia que tudo permeia. Zoroastro define Deus como “possuindo uma força espiral”. Comparar aos mais recentes, se menos profundos, escritos de Einstein. 45

45

Compare Saturno, num extremo dos Sete Viandantes Sagrados, com a Lua no outro: o ancião e a jovem ‒ ver “A Fórmula de Tetragrammaton”. São ligados como nenhuma outra dupla de planetas já que 3 ao quadrado = 9 e cada um contém em si mesmo os extremos de sua própria ideia.

111


XVI ‒ A TORRE (OU GUERRA)

Esta carta é atribuída à letra Pé, que significa boca. Refere-se ao planeta Marte. Segundo sua interpretação mais simples concerne à manifestação da energia cósmica sob sua forma mais grosseira. A ilustração mostra a destruição do material existente pelo fogo. Pode ser tomada como o prefácio ao Atu XX, O Juízo Final, isto é, a Vinda de um Novo Æon. Sendo assim, parece indicar a qualidade quintessencial do Senhor do Æon. 46 Na parte inferior da carta, portanto, é mostrada a destruição do velho Æon outrora estabelecido pelo raio, chamas, engenhos de guerra. No canto direito veem-se as mandíbulas de Dis vomitando flamas na raiz da estrutura. Figuras quebradas da guarnição caem da torre. Pode-se notar que perderam sua forma humana, convertendose em meras expressões geométricas. Isto sugere outra (e totalmente diversa) interpretação da carta. A fim de compreendê-la, é necessário voltar-se para as doutrinas da yoga, especialmente aquelas mais largamente difundidas e correntes no sul da Índia, onde o culto a Shiva, o Destruidor, é soberano. Shiva é representado dançando sobre os corpos de seus devotos. A compreensão disto não é fácil para a maioria das mentes ocidentais. Em termos 46

Ver Liber AL III, 3-9; 11-13; 17-18; 23-29; 46; 49-60; 70-72.

112


sumários, a doutrina é que a realidade última (que é perfeição) é Nada. Por consequência, todas as manifestações, não importa quão gloriosas, quão prazerosas sejam, são máculas. Para atingir a perfeição, todas as coisas existentes têm que ser aniquiladas. Pode-se, portanto, entender pela destruição da guarnição sua emancipação da prisão da vida organizada, que os confinava. Prender-se a ela era a insensatez dos membros da guarnição. O acima exposto deveria deixar claro que símbolos mágicos têm que ser sempre compreendidos num sentido duplo, um contraditório do outro. Estas ideias se combinam naturalmente com a significação mais elevada e mais profunda da carta. Há uma referência direta a esta carta em O Livro da Lei. No capítulo I, versículo 57, a deusa Nuit fala: “Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob a vontade. Que os tolos não confundam o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus.” 47 A figura que se destaca nesta carta é o olho de Hórus. Este é também o olho de Shiva, na abertura do qual, conforme a lenda deste culto, o universo é destruído. Além disso, há um especial significado técnico mágico, o qual é explicado abertamente apenas aos iniciados do décimo primeiro grau da O.T.O., um estágio tão secreto que não é nem elencado nos documentos oficiais. Não é mesmo para ser compreendido pelo estudo do olho no Atu XV. Talvez seja lícito mencionar que os sábios árabes e os poetas persas escreveram, nem sempre com reservas, sobre o assunto. Banhadas na efulgência desse olho (que agora assume até um terceiro sentido, o indicado no Atu XV) veem-se a pomba carregando um ramo de oliveira e a serpente, como na citação acima. A serpente é retratada como a serpente-leão Xnoubis ou Abraxas. Estas representam as duas formas de desejo, o que Schopenhauer teria chamado de vontade de viver e vontade de morrer. Representam os impulsos feminino e masculino; a nobreza deste último é possivelmente baseada no reconhecimento da futilidade do primeiro. Esta é talvez a razão porque a renúncia do amor em todos os sentidos ordinários da palavra tem sido tão constantemente anunciada como o primeiro passo rumo à iniciação. Esta é uma opinião de inflexibilidade desnecessária. Este trunfo não é a única carta no baralho e nem são a “vontade de viver” e a “vontade de morrer” incompatíveis. Isto se torna claro tão logo vida e morte são compreendidas (ver Atu XIII) como fases de uma única manifestação de energia.

47

Por esta razão o antigo título, hoje não muito inteligível, foi retido. Caso contrário, poderia ter sido chamada Guerra.

113


XVII ‒ A ESTRELA

Esta carta é atribuída à letra Hé, como foi explicado em outra parte. Refere-se ao signo zodíaco do Aquário, o aguadeiro. A ilustração representa Nuit, nossa Senhora das Estrelas. Para a compreensão do significado pleno desta sentença é necessário compreender o primeiro capítulo de O Livro da Lei. A figura da deusa é mostrada em manifestação, quer dizer, não como o espaço circundante do céu mostrado no Atu XX, onde ela é a pura ideia filosófica contínua e omniforme. Nesta carta ela é definitivamente personificada como uma figura de aparência humana. É representada segurando duas taças, uma delas dourada, sustentada bem acima de sua cabeça, da qual ela verte água (estas taças se assemelham a seios, como está escrito: “o leite das estrelas de suas tetas; sim, o leite das estrelas de suas tetas”). O universo é aqui decomposto em seus elementos últimos (é-se tentado a citar da Visão do Lago Pasquaney, “O Nada com cintilações... mas que cintilações!”) Atrás da figura da deusa está o globo celeste. Salientando-se em meio aos seus componentes vêse a Estrela de sete pontas de Vênus, como se declarando que a principal característica de sua natureza é o Amor (ver novamente a descrição no capítulo I, de O Livro da Lei). Da taça dourada ela verte essa água etérea, que é também leite e azeite e sangue, sobre

114


sua própria cabeça, indicando a eterna renovação das categorias, as possibilidades inesgotáveis da existência. A mão esquerda, abaixada, segura uma taça prateada, da qual ela também verte a bebida imortal de sua vida (esta bebida é a Amrita dos filósofos indianos, o nepenthe e ambrósia dos gregos, o alkahest e a medicina universal dos alquimistas, o sangue do Graal; ou melhor, o néctar que é a mãe deste sangue. Ela o despeja na junção de terra e água. Esta água é a água do grande Mar de Binah; na manifestação de Nuit num plano inferior ela é a Grande Mãe, pois o Grande Mar está sobre a praia da terra fértil, como representado pelas rosas no canto direito da ilustração. Mas entre mar e terra está o “Abismo” e este é ocultado pelas nuvens que rodopiam como um desenvolvimento do cabelo dela: “... meu cabelo, as árvores da Eternidade”. (AL I, 59)) No canto esquerdo da ilustração está a estrela de Babalon, o Sigillum da Fraternidade da A... A..., pois Babalon é ainda outra materialização da ideia original de Nuit; ela é a Mulher Escarlate, a Prostituta sagrada que é a senhora do Atu XI. Desta estrela, atrás da própria esfera celeste brotam os raios encaracolados de luz espiritual. O próprio céu nada mais é que um véu ante a face da deusa imortal. Percebe-se que toda forma de energia nesta ilustração é espiral. Zoroastro diz: “Deus é ele, tendo a cabeça de um falcão, tendo uma força espiral”. É interessante notar que este oráculo parece antecipar o presente Æon, o do Senhor de cabeça de falcão, e também da concepção matemática da forma do universo tal como calculada por Einstein e sua escola. É somente na taça inferior que as formas de energia emitidas exibem características retilíneas. Nisto é possível descobrir a doutrina que afirma que a cegueira da humanidade à toda a beleza e maravilha do universo é devida a esta ilusão de retidão. É significativo que Riemann, Bolyai e Lobatchewsky pareçam ter sido os profetas matemáticos da Nova Revelação, pois a geometria euclidiana depende da concepção de linhas retas, e foi somente porque descobriu-se que o postulado paralelo era incapaz de prova que os matemáticos começaram a conceber que a linha reta não tinha verdadeira correspondência com a realidade. 48 No primeiro capítulo de O Livro da Lei, a conclusão tem importância prática. Concede a fórmula decisiva para a obtenção da verdade. “Eu dou inimagináveis alegrias sobre a terra: certeza, não fé, enquanto em vida, sobre a morte; paz indescritível, descanso, êxtase; e Eu não peço algo em sacrifício.” “Mas amar-me é melhor que todas as coisas: se sob as estrelas noturnas no deserto tu presentemente queimas meu incenso diante de mim, invocando-me com um coração puro, e a chama da serpente ali, tu virás um pouco a deitar em meu seio. Por um beijo, tu então estarás querendo dar tudo; mas quem quer que dê uma partícula de pó perderá tudo nessa hora. Vós reunireis bens e provisões de mulheres e especiarias; vós vestireis ricas joias; vós excedereis as nações da terra em esplendor e orgulho; mas sempre no 48

A linha reta não é nada mais do que o limite de qualquer curva. Por exemplo, é uma elipse cujos focos estão uma distância “infinita”, separados. Aliás, tal uso do cálculo é o único modo certo de assegurar a “retidão”.

115


amor de mim, e então vós vireis à minha alegria. Eu vos ordeno seriamente a vir diante de mim num robe único e cobertos com um rico adorno na cabeça. Eu vos amo! Eu anseio por vós! Pálido ou purpúreo, velado ou voluptuoso, Eu, que sou todo prazer e púrpura, e embriaguez no sentido mais íntimo, vos desejo. Colocai as asas e elevai o esplendor enroscado dentro de vós: vinde a mim! Em todos os meus encontros convosco dirá a sacerdotisa ‒ e seus olhos queimarão com desejo, enquanto ela se mantém nua e regozijante em meu templo secreto ‒ A mim! A mim! Estimulando a chama dos corações de todos em seu canto de amor. Cantai a extasiante canção de amor a mim! Queimai perfumes a mim! Vesti joias a mim! Bebei a mim, pois eu vos amo! Eu vos amo! Eu sou a filha de pálpebras azuis do Pôr do Sol; eu sou o brilho nu do voluptuoso céu noturno. A mim! A mim! A manifestação de Nuit está por um fim.”

116


XVIII ‒ A LUA

O décimo oitavo trunfo é atribuído à letra Qoph, que representa Peixes no zodíaco. Chama-se A Lua. Peixes é o último dos signos. Representa o último estágio do inverno. Poderia ser denominado a Porta da Ressurreição (a letra Qoph significa nuca e está vinculada às potências do cerebelo). No sistema do velho Æon, a ressurreição do Sol não era somente a partir do inverno, mas também a partir da noite. E esta carta representa a meia-noite. “Há um amanhã em botão na meia-noite”, escreveu Keats. Por esta razão aparece na base da carta, abaixo da água que está colorida de gráficos de abominação, o escaravelho sagrado, o Kephra egípcio, prendendo em suas mandíbulas o disco solar. É este escaravelho que transporta o Sol em seu silêncio através da escuridão da noite e da severidade do inverno. Acima da superfície da água há uma paisagem sinistra e ameaçadora. Vemos uma senda ou corrente tingida de sangue que flui de uma brecha entre duas montanhas áridas; nove gotas de sangue impuro, no formato de Yods, caem sobre ela provenientes da Lua. A Lua, participando como participa do mais alto e do mais baixo e preenchendo todo o espaço intermediário, é o mais universal dos planetas. Em seu aspecto mais elevado, ocupa o lugar do vínculo entre o humano e o divino, como é exibido no Atu II. 117


Neste trunfo, seu avatar mais baixo, ela se une à esfera terrestre de Netzach com Malkuth, a culminação na matéria de todas as formas superiores. Trata-se da lua minguante, a lua da feitiçaria e dos feitos abomináveis. Ela é a escuridão envenenada que é a condição do renascimento da luz. Esta senda é guardada pelo tabu. Ela é impureza e bruxaria. Acima das colinas estão as torres negras do mistério inominado, do horror e do medo. Todo o preconceito, toda a superstição, a tradição morta e a aversão ancestral, tudo se combina para obscurecer seu rosto perante os olhos dos homens. É necessária uma coragem insuperável para começar a trilhar esta senda. Aqui reside a vida fatídica, enganosa. O sentido do fogo se frustra. A lua não tem ar. O cavaleiro empenhado nesta busca tem que contar com os três sentidos inferiores: tato, paladar e olfato. 49 A luz que possa aqui existir é mais fatal que as trevas e o silêncio é ferido pelo uivo de bestas selvagens. A que deus nos dirigiremos à procura de ajuda? É Anúbis, o vigilante do crepúsculo, o deus que se posta no limiar, o deus-chacal de Khem, que permanece sob forma dupla entre os caminhos. Aos seus pés, à espreita, aguardam os próprios chacais, para devorar as carcaças daqueles que não O viram, ou que ignoravam seu nome. Este é o limiar da vida; este é o limiar da morte. Tudo é dúbio, tudo é misterioso, tudo é intoxicante. Não a intoxicação benigna, solar de Dionísio, mas sim a horrível insanidade de drogas perniciosas; trata-se da embriaguez dos sentidos após a mente ter sido abolida pelo veneno desta Lua. Isto é o que é escrito de Abraão em O Livro do Princípio: “Um horror de trevas imensas abateu-se sobre ele.” É-se lembrado do eco mental de compreensão subconsciente daquela suprema iniquidade que os místicos constantemente celebraram em seus relatos da noite sombria da alma. Mas os melhores homens, os homens verdadeiros não consideram o assunto em tais termos de modo algum. Sejam quais forem os horrores que possam afligir a alma, as abominações que possam excitar a aversão do coração, os terrores que possam assaltar a mente, a resposta será a mesma em todo estágio: “Quão esplêndida é a aventura!”

49

Ver O Livro das Mentiras, cap. pb, Bortsch.

118


XIX ‒ O SOL

Em linguagem heráldica esta carta representa “o Sol com a divisa de uma rosa sobre um monte verde.” 50 Esta é uma das cartas mais simples. Representa Heru-ra-ha, o Senhor do Novo Æon em sua manifestação à raça dos homens como o Sol espiritual, moral e físico. Ele é o Senhor da Luz, Vida, Liberdade e Amor. Este Æon tem como sua finalidade a completa emancipação da espécie humana. A rosa representa o florescimento da influência solar. Ao redor da totalidade da figura vemos os signos do zodíaco em suas posições normais, Áries surgindo no oriente e assim por diante. Liberdade traz sanidade. O zodíaco é um tipo de representação infantil do corpo de Nuit, uma diferenciação e classificação, um cinturão selecionado, um cinto de Nossa Senhora do espaço infinito. A conveniência da descrição escusa o engenho. O monte verde representa a terra fértil, sua forma, por assim dizer, aspirando aos céus. Mas em torno do topo do monte há uma muralha, o que indica que a aspiração do novo Æon não significa ausência de controle. Todavia, fora desta muralha estão as crianças gêmeas que (de uma forma ou outra) têm reaparecido tão frequentemente em 50

Cf. o brasão da família do autor deste livro.

119


todo este simbolismo. Representam o macho e a fêmea, eternamente jovens, despudorados e inocentes. Dançam na luz e, contudo, habitam sobre a terra. Representam o próximo estágio a ser atingido pela espécie humana, em que a liberdade total é semelhante à causa e o resultado do novo acesso de energia solar sobre a terra. A restrição de ideias tais como pecado e morte em seu velho sentido foi abolida. Aos seus pés encontram-se os mais sagrados sinais do velho Æon, a combinação da Rosa e a Cruz da qual eles surgem, formando ainda seu suporte. A própria carta simboliza esta ampliação da ideia da Rosacruz. A cruz expandiuse agora para o Sol, do qual, é claro, ela se originou. Seus raios são doze ‒ não apenas o número dos signos do zodíaco, como também do mais sagrado título dos Antigos mais santos, os quais são Hua (a palavra HUA, “ele”, tem o valor numérico 12). A limitação da lei mundana, que está sempre associada ao número Quatro, desapareceu. Desaparecidos estão os quatro braços de uma cruz limitada pela lei; a energia criadora da cruz se expande livremente; seus raios perfuram em toda direção o corpo de Nossa Senhora das Estrelas. Com referência à muralha, convém observar que circunda completamente o topo do monte, o que é para frisar que a fórmula da Rosacruz é ainda válida em matérias terrenas. Mas há agora, como não foi o caso anteriormente, uma aliança estreita e definida com o celeste. É também sumamente importante observar que a fórmula da Rosacruz (indicada pelo monte cintado pela muralha) completou a mudança ígnea para “algo rico e estranho”, pois o monte é verde, quando se esperaria que fosse vermelho, e a muralha é vermelha onde se esperaria que fosse verde ou azul. A indicação deste simbolismo é que deve ser um dos grandes avanços no Ajustamento do novo Æon para resolver de maneira simples e sem preconceito os formidáveis problemas que foram criados pelo crescimento da civilização. O homem tem avançado até aqui a partir do sistema social, embora não fosse um sistema, do troglodita, a partir da concepção primitiva de propriedade do corpo carnal humano. O homem tem avançado até aqui a partir da classificação anatômica rudimentar da alma de qualquer dado ser humano; consequentemente aterrissou a si mesmo no mais horrível lodo de psicopatologia e psicanálise. Os preconceitos das pessoas que datam moralmente de cerca de 25.000 A.C. são enfadonhos e espinhosos. Largamente devido à sua própria intransigência, essas pessoas nasceram sob uma lei espiritual diferente; acham-se não apenas perseguidas por seus ancestrais, como também desnorteadas por sua própria incerteza de um ponto de apoio. Tem que constituir a tarefa dos pioneiros do novo Æon acertar isso.

120


XX ‒ O ÆON

Nesta carta foi necessário partir completamente da tradição das cartas para prosseguir esta tradição. A velha carta era chamada de O Anjo, ou O Juízo Final. Representava um anjo ou mensageiro soprando uma trombeta, à qual estava presa uma bandeira portando o símbolo do Æon de Osíris. Abaixo dele abriam-se os túmulos e os mortos se levantavam. Eles eram três. O do centro tinha suas mãos erguidas em ângulo reto com os cotovelos e ombros, de maneira a formar a letra Shin, que se refere ao fogo. A carta representava, portanto, a destruição do mundo pelo fogo. Isto foi levado a cabo no ano 1904 da era vulgar quando o deus do fogo Hórus assumiu o lugar do deus do ar Osíris no Oriente como Hierofante (ver Atu V). No início, então, deste novo Æon, é adequado exibir a mensagem daquele anjo que trouxe a notícia do novo Æon à Terra. A nova carta é assim, necessariamente, uma adaptação da Estela da Revelação. Circundando o alto da carta está o corpo de Nuit, a deusa-estrela, a qual é a categoria da possibilidade ilimitada; seu companheiro é Hadit, o ponto de vista onipresente, a única concepção filosoficamente sustentável da realidade. Ele é representado por um globo de fogo, tipificando a energia eterna; é alado para mostrar seu poder de Ir. Como resultado do casamento destes dois, nasce a criança Hórus. Ele é, entretanto, conhecido por seu nome especial, Heru-ra-ha. É um deus duplo; sua forma 121


extrovertida é Ra-hoor-khuit e a passiva ou introvertida é Hoor-pa-kraat (ver nas páginas anteriores a Fórmula de Tetragrammaton). Ele é também de caráter solar, sendo mostrado, por conseguinte, brotando em luz dourada. Todo este simbolismo é inteiramente elucidado em O Livro da Lei. Convém notar, a propósito, que o nome Heru é idêntico a Hru, que é o grande Anjo constituído como regente do Tarô. Este novo Tarô pode, portanto, ser considerado como uma série de ilustrações para O Livro da Lei, cuja doutrina está implícita em toda parte. Na parte inferior da carta vemos a própria letra Shin sob a forma sugestiva de uma flor; os três Yods são ocupados por três figuras humanas que surgem para participar da essência do novo Æon. Atrás desta letra há uma representação do signo de Libra, prenunciando o Æon que deve suceder o presente Æon, presumivelmente em cerca de 2.000 anos ‒ “a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis erguer-se-á, e aquele da dupla baqueta assumirá meu trono e lugar.” O presente Æon é jovem demais para proporcionar uma representação mais definida deste evento futuro. Mas em relação a isto, deve-se atentar para a figura de Ra-hoor-khuit: “Eu sou o Senhor da Dupla Baqueta de Poder; a baqueta da Força de Coph Nia ‒, mas minha mão esquerda está vazia, pois eu esmaguei um Universo; & nada permanece.” Há muitos outros detalhes relativamente ao Senhor do Æon que deveriam ser estudados em O Livro da Lei. É também importante estudar integralmente e meditar sobre este Livro a fim de apreciar os eventos espirituais, morais e materiais que têm marcado a transição catastrófica do Æon de Osíris. O tempo para o nascimento de um Æon parece ser indicado por grande concentração de poder político acompanhada de melhorias nos meios de viagem e comunicação, com um avanço geral da filosofia e a ciência, com uma necessidade geral de consolidação do pensamento religioso. É bastante instrutivo comparar os acontecimentos dos quinhentos anos que precedem e sucedem a crise de aproximadamente 2.000 atrás, com aqueles de períodos similares, centrados em 1904, da velha era. Constitui um pensamento nada confortador para a presente geração que 500 anos de Idade das Trevas estão provavelmente sobre nossas costas. Mas se a analogia for boa, este é o caso. Felizmente, hoje dispomos de tochas que iluminam mais e de mais portadores de tochas.

122


XXI ‒ O UNIVERSO

A primeira e mais óbvia característica desta carta é que ela se coloca ao fim de todos os trunfos, sendo, portanto, o complemento de O Louco. É atribuída à letra Tau. Estas duas cartas juntas, consequentemente, indicam a palavra Ath, que significa essência. Toda a realidade está, por conseguinte, comprometida dentro da série da qual essas duas letras formam o início e o fim. Este início era o Nada, de modo que o fim tem que ser também o Nada, mas Nada em sua completa expansão, como foi previamente explicado. O número 4, preferivelmente ao número 2, foi escolhido como a base dessa expansão, em parte, sem dúvida, por uma questão de conveniência, para ampliar o “universo do discurso”, em parte para enfatizar a ideia de limitação. A letra Tau significa o sinal da cruz, ou seja, da extensão e esta extensão é simbolizada como quádrupla devido à conveniência de construir o símbolo revolvente do Tetragrammaton. No caso do número 2, a única saída é o retorno à unidade ou ao negativo. Nenhum processo contínuo pode ser convenientemente simbolizado; mas o número 4 se presta não apenas a essa extensão rigorosa, os duros fatos da natureza, como também à transcendência do espaço e do tempo por uma mudança continuamente auto-compensadora. A letra Tau é atribuída a Saturno, o mais remoto e lento dos sete planetas sagrados; em função destas qualidades de inércia e peso, o elemento terra foi imposto ao 123


símbolo. Os três elementos originais, fogo, ar e água eram suficientes para o pensamento primitivo. Terra e espírito representam um acréscimo posterior. Tampouco são encontrados nos vinte e dois caminhos originais do Sepher Yetzirah. O mundo de Assiah, o mundo material, não aparece senão como um pendente da Árvore da Vida. Identicamente, o elemento espírito é atribuído à letra Shin como um ornamento adicional, de certo modo da mesma maneira que se dizia ser Kether simbolizada pelo ponto mais elevado do Yod de Tetragrammaton. É constantemente indispensável distinguir entre os símbolos da teoria filosófica e aqueles símbolos mais elaborados baseados neles que são necessários ao trabalho prático. Saturno e Terra têm algumas qualidades em comum: pesadume, frieza, secura, imobilidade, lentidão e similares. Todavia, Saturno aparece em Binah devido ao seu negrume na escala da Rainha, que é a escala da natureza observada, mas sempre, tão logo o fim de um processo é atingido, ele retorna automaticamente ao início. Na química, são os elementos mais pesados que são incapazes sob condições terrestres de suportar a solicitação e o esforço de suas estruturas internas; consequentemente, irradiam partículas do caráter mais sutil e da mais alta atividade. Num ensaio escrito em Cefalù, Sicília, a respeito da segunda lei da termodinâmica, foi sugerido que no zero absoluto do termômetro de ar, poderia existir um elemento mais pesado que o urânio, de tal natureza que seria capaz de reconstituir a série inteira dos elementos. Era uma interpretação química da equação 0 = 2. Torna-se, portanto, plausível argumentar a partir da analogia que visto que o fim tem que gerar o início, o simbolismo acompanha tal coisa; consequentemente, o negrume também é atribuído ao sol, de acordo com certa tradição oculta há muito tempo. Um dos choques para candidatos aos “Mistérios” era a revelação: “Osíris é um deus negro”. Saturno é, assim, masculino. Ele é o antigo deus, o deus da fertilidade, o sol no sul, mas igualmente o Grande Mar, a grande Mãe. E a letra Tau na Árvore da Vida aparece como uma emanação da lua de Yesod, o fundamento da Árvore e representativa do processo reprodutivo e do equilíbrio entre mudança e estabilidade, ou melhor, sua identificação. A influência do caminho desce sobre a Terra, Malkuth, a filha. Aqui novamente aparece a doutrina da “colocação da filha no trono da Mãe”. Na própria carta, por conseguinte, há um glifo da conclusão da Grande Obra em seu sentido mais elevado, exatamente como o Atu do Louco simboliza seu início. O Louco é o fluxo negativo para a manifestação, o universo é esta manifestação, seu propósito cumprido, pronto para retornar. As vinte cartas que se acham entre estas duas exibem a Grande Obra e seus agentes em vários estágios. A imagem do universo neste sentido é, consequentemente, aquela de uma donzela, a letra final de Tetragrammaton. Na presente carta ela é representada como uma figura dançante. Em suas mãos manipula a irradiante força espiral, a ativa e a passiva, cada uma detentora de sua polaridade dupla. O parceiro de dança dela é mostrado como Heru-ra-ha do Atu XIX. “O Sol, Força & Visão, Luz; estes são para os servos da Estrela & a Serpente.” Esta 124


forma final da imagem da fórmula mágica do deus combina e transforma tantos símbolos que a descrição é difícil e seria inútil. O método adequado de estudo desta carta ‒ na verdade, de todas, mas especialmente desta ‒ é meditação contínua e longa. O universo, assim se enuncia o tema, é a celebração da Grande Obra cumprida. Nos cantos da carta estão os quatro Kerubim mostrando o universo estabelecido. Ao redor da donzela há uma elipse composta de setenta e dois círculos para os quinários do zodíaco, o Shemhamphorasch. No centro da parte inferior da carta está representado o plano estrutural da construção da casa da matéria. Mostra os noventa e dois elementos químicos conhecidos, dispostos conforme sua posição na hierarquia (este desenho se deve ao gênio do falecido J. W. N. Sullivan: ver The Bases of Modern Science). Ao centro, uma roda de luz inicia a forma da Árvore da Vida, exibindo os dez principais corpos do sistema solar. Mas esta Árvore somente é visível àqueles de coração inteiramente puro. 1. O primum mobile, representado por Plutão (comparar com a doutrina das partículas alfa de rádio). 2. A esfera do zodíaco ou estrelas fixas, representada por Netuno. 3. Saturno. O Abismo. Este é representado por Herschel, o planeta da desintegração e explosão. 4. Júpiter. 5. Marte. 6. O Sol. 7. Vênus 8. Mercúrio. 9. A Lua. 10. A Terra (os quatro elementos). Todos estes símbolos nadam e dançam numa ambiência complexa, mas contínua de lupes e espirais. A cor geral da carta tradicional é fulvo; representa a confusão e escuridão do mundo material. Mas o novo Æon trouxe plenitude de luz; no Minutum Mundum 51 a Terra não é mais negra ou de cores mescladas, mas é de puro verde claro. Do mesmo modo, o azul escuro de Saturno é derivado do veludo azul do céu da meianoite e a donzela da dança representa o resultado disto, ainda através disto, para o Eterno. Esta carta é hoje tão brilhante e ardente quanto qualquer outra do baralho.

51

Em latim no original, Pequeno Mundo (Pequeno Universo) (NT).

125


126


APÊNDICE

Seguem-se alguns ensaios a respeito de matérias pertinentes a este ensaio geral. A leitura atenta de tais ensaios pode ajudar para a plena apreciação deste.

O LOUCO 1. SILÊNCIO 52

Entre todas as virtudes mágicas e místicas, entre todas as graças da alma, entre todas as conquistas do espírito nada tem sido mais mal compreendido, mesmo quando receado de qualquer modo, do que o silêncio. Não seria possível enumerar os erros comuns; não, pode-se dizer que simplesmente pensá-lo é em si um erro, pois sua natureza é puro ser, ou seja, nada, de maneira que ele está além de toda intelecção ou intuição. Assim, então, o máximo em nosso ensaio pode ser somente certa guarda, como se fosse um Enladrilhamento da Loja 53 onde o Mistério do Silêncio pode ser consumado. Para essa postura há uma íntegra autoridade tradicional. Harpócrates, deus do Silêncio, é chamado de “O Senhor da Defesa e Proteção”. Mas a natureza deste deus não é em absoluto aquele silêncio negativo e passivo que é a conotação usual da palavra, pois ele é o Espírito Todo-Viandante, o Puro e Perfeito Cavaleiro Errante, que responde a todos os enigmas e abre o Portal fechado da Filha do Rei. Mas silêncio no sentido vulgar não é a resposta ao enigma da Esfinge, é aquilo que é criado por esta resposta, pois o silêncio é o equilíbrio da perfeição, de modo que Harpócrates é a chave omniforme, universal para todo mistério. A esfinge é a “Puzzel ou Pucelle,” 54 a ideia feminina para a qual só existe um complemento, sempre diferente na forma e sempre idêntico na essência. Esta é a significação da figura do deus que é mostrada com maior clareza sob sua forma adulta como o Louco do Tarô e como Baco Diphues, e sem ambiguidade quando ele aparece como Baphomet. Quando sondamos com mais rigor seu simbolismo, a primeira qualidade que prende nossa atenção é, sem dúvida, sua inocência. Não é sem profunda sabedoria que 52

De Little Essays toward Truth.

53

Linguagem maçônica: proteção contra o ingresso de não iniciados por meio da pessoa do guardião da porta da loja [em inglês, tyler (tiler), literalmente enladrilhador, entelhador, azulejista] (NT). 54

Do francês antigo Pulcelle, donzela, virgem. Note o leitor que o substantivo puzzle significa quebracabeças, enigma e o verbo to puzzle, entre outras coisas, colocar uma questão, propor um problema (NT).

127


ele é chamado de gêmeo de Hórus: e este é o Æon de Hórus: é ele que enviou Aiwass, seu Ministro para proclamar o advento deste Æon. O quarto poder da Esfinge é silêncio; para nós, então, que aspiramos a este poder como a coroa de nossa Obra será de sumo valor atingir sua inocência em toda sua plenitude. Precisamos entender, em primeiro lugar, que a raiz da responsabilidade moral, pela qual o homem estupidamente se orgulha em distinguir-se dos outros animais, é restrição, que é a palavra do pecado. De fato, há verdade na fábula hebraica segundo a qual o conhecimento do bem e do mal traz morte. Reconquistar a inocência é reconquistar o Éden. Precisamos aprender a viver sem a consciência assassina de que cada alento que aspiramos infla as velas que transportam nossas frágeis embarcações ao porto das tumbas. Precisamos banir o medo a favor do amor, percebendo que cada ato é um orgasmo, seu resultado total não podendo ser senão nascimento. Ademais, o amor é a lei e, assim, cada ato tem que ser retidão e verdade. Por certas meditações isto pode ser entendido e estabelecido, e isto necessita ser realizado de maneira tão radical a ponto de nos tornarmos inconscientes de nossa santificação, pois somente então é a inocência tornada perfeita. Este estado é, com efeito, uma condição necessária a qualquer contemplação adequada do que estamos acostumados a considerar a primeira tarefa do aspirante, a solução da questão “O que é minha Vontade Verdadeira?” Pois até que nos tornemos inocentes estamos seguros em tentar julgar nossa Vontade a partir do externo, enquanto que a Vontade Verdadeira deveria brotar, fonte de luz, do interior, e fluir sem empecilho, fervendo com amor para o oceano da vida. Esta é a verdadeira ideia do silêncio; é nossa Vontade que escoa, perfeitamente elástica, sublimemente proteica, para preencher todo interstício do universo da manifestação que ela encontra em seu curso. Não há nenhum golfo largo demais para sua incomensurável força, nenhum estreito íngreme demais para sua imperturbável sutileza. Ela se ajusta com perfeita precisão a toda necessidade; sua fluidez é a garantia de sua fidelidade. Sua forma é sempre alterada por aquela da imperfeição particular que ela encontra: sua essência é idêntica em todo evento. O efeito de sua ação é sempre Perfeição, isto é, Silêncio e esta Perfeição é sempre a mesma, sendo perfeita e, contudo, sempre diferente porque cada caso apresenta sua própria quantidade e qualidade peculiares. É impossível para a própria inspiração soar um ditirambo do silêncio, pois cada novo aspecto de Harpócrates é digno da música do universo através da eternidade. Eu fui simplesmente conduzido por meu amor leal dessa estranha raça na qual me acho encarnado a compor essa precária estância do épico infinito de Harpócrates como sendo a faceta de seu brilho fecundo que refratou a mais necessária luz sobre minha própria entrada sombria ao seu santuário de fulminante, de inefável divindade. Eu louvo o luxuriante arrebatamento de inocência, o êxtase viril e pantomórfico da Toda-Realização; eu louvo a Criança Coroada e Conquistadora cujo nome é força e fogo, cuja sutileza e vigor asseguram serenidade, cuja energia e resistência realizam o atingimento da virgem do Absoluto; quem sendo manifestado, é o solista da flauta sétupla, o Grande Deus Pã, e sendo retirado para a perfeição que ele teve vontade, é Silêncio. 128


2. DE SAPIENTIA ET STULTITIA 55

Oh, meu Filho, neste colofão de minha Epístola revocarei o Título e o Sobrescrito dela, ou seja, o Livro da Sabedoria ou Loucura. Eu proclamo Bênção e Veneração a Nuith, nossa Senhora e seu Senhor, Hadith, pelo Milagre da Anatomia da Criança RaHoor-Khuit como é exibido no desenho Minutum Mundum, a Árvore da Vida. Pois embora a Sabedoria seja a Segunda Emanação de Sua Essência, há um caminho para separá-los e uni-los, a referência disto sendo Aleph, que é Um, efetivamente, mas também Cento e Onze em sua Ortografia total, para significar a Mais Santa Trindade. E por metátese é Escuridão Espessa e Morte Súbita. Este é também o Número de AUM, que é AMOUN, e o som-raiz de OMNE ou, em grego, PAN; e é um Número do Sol. Ainda é o Atu de Thoth, que corresponde ao marcado com ZERO, e seu Nome é MAT, do qual falei antes, e sua Imagem é O Louco. Oh, meu Filho, junta todos estes Membros em um Corpo e respira sobre ele com teu Espírito, para que ele viva; então abraça-o com a Volúpia de tua Masculinidade e penetra-o, e conhece-o; assim vós sereis Uma Carne. Agora, finalmente, no Reforço e Êxtase desta Consumação tu saberás por qual Inspiração realmente escolheste teu Nome na Gnosis, quero dizer PARZIFAL, “der reine Thor”, 56 o Verdadeiro Cavaleiro que conquistou o Reino em Monsalvat e curou a Ferida de Amfortas, e ordenou a Kundry o Serviço Correto, e reconquistou a Lança, e reviveu o Milagre do Sangraal; sim, também sobre si mesmo com efeito executou sua Palavra no fim: “Höchsten Heiles Wunder! Erlösung dem Erlöser! 57 “Esta é a última Palavra da Canção que teu Tio Richard Wagner compôs para a Veneração deste Mistério. Entende isto, oh, meu Filho, no momento em que digo adeus a ti nesta Epístola, que a Culminância da Sabedoria é a Abertura da Senda que conduz à Coroa e Essência de tudo, à Alma da Criança Hórus, o Senhor do Æon. Este é o Caminho do Puro Louco.

DE ORACULO SUMMO

E quem é esse Puro Louco? Repara nas Sagas de Outrora, a Lenda do Escaldo, do Bardo, do Druida, não vem ele de Verde como a Primavera? Oh tu Grande Louco, tu Água que és Ar, em quem todo complexo é dissolvido! Sim, tu de Vestes andrajosas, com o Cajado de Príapo e o Odre de Vinho! Tu te postas sobre o Crocodilo, como Hoor-pa-Kraat; e o Grande Gato salta sobre Ti! Sim, e também tenho sabido quem Tu és, Baco Diphues, nenhum e dois, em teu nome IAO! Agora ao Final de tudo venho ao Ser de Ti, além do Por-vir, e brado alto minha Palavra, como se tivesse sido

55

De Liber Aleph: The Book of Wisdom or Folly (O Livro da Sabedoria ou Loucura).

56

Ou melhor, der reine Tor (o puro Louco) (NT).

57

Supremo milagre de salvação! Redenção do Redentor! (NT).

129


dada ao Homem por teu Tio Alcofribas Nasier, o oráculo do Frasco de Palavra é TRINC.

BACBUC.

E esta

3. DE HERBA SANCTISSIMA ARABICA

Relembra, oh meu filho a Fábula dos Hebreus, que eles trouxeram da Cidade de Babilônia, como Nabucodonozor, o Grande Rei, estando de Espírito aflito, apartou-se do convívio dos Homens pelo período de Sete Anos, comendo Grama como faz um Boi. Agora este Boi é a letra Aleph e é aquele Atu de Thoth cujo número é Zero e cujo Nome é Maat, Verdade; ou Maut, o Abutre, o Todo-Mãe, sendo uma Imagem de Nossa Senhora Nuith, mas que também é chamado de O Louco, que é Percival, “der reine Thor”,58 referindo-se assim àquele que caminha na Senda do Tao. E também é ele Harpócrates, a Criança Hórus caminhando (como diz Daood, o Badawi que se tornou Rei, em sua Salmodia) sobre o Leão e o Dragão; quer dizer, ele está em Unidade com sua própria Natureza Secreta, como mostrei a ti em minha Palavra concernente à Esfinge. Oh meu Filho, na Vigília de ontem veio a mim o Espírito que eu também devesse comer o Pasto dos Árabes, e por Virtude de seu Encantamento contemplasse aquilo que poderia ser apontado para a Iluminação de meus Olhos. Mas disto não tenho permissão de falar, vendo que envolve o Mistério da Transcendência do Tempo, de sorte que em Uma Hora de nosso Padrão Terrestre realmente colho a Safra de um Æon, e em Dez Vidas não poderia declará-lo.

DE QUIBUSDAM MYSTERIIS, QUAE VIDI

Todavia, mesmo como um Homem pode erigir um Memorial ou Símbolo para importar Dez Mil Vezes Dez Mil, posso eu empenhar-me para informar tua Compreensão pelo Hieróglifo. E aqui tua própria experiência nos servirá, pois um Indício de Lembrança basta para aquele que esta familiarizado com uma Matéria, o que para aquele que não a conhece não pode ser feito manifesto, não, nem em um Ano de Instrução. Aqui primeiramente então uma entre as Maravilhas Incontáveis daquela Visão: sobre um Campo mais negro e mais rico que o Veludo estava o Sol de todo Ser, sozinho. Então em torno Dele haviam pequenas Cruzes, gregas, infestando o Céu. Estas mudavam de Forma para Forma geométricas, Maravilha devorando Maravilha, Mil Vezes Mil em seu Curso e Seqencia, até que por seu Movimento foi o Universo liquidificado à Quintessência da Luz. Ademais, em outra Ocasião contemplei todas as coisas como Bullae, iridescentes e luminosas, auto-reluzentes em toda Cor e toda Combinação de Cor, Miríade perseguindo Miríade até que por sua Beleza perpétua exauriram a Virtude de minha Mente para recebê-las e a oprimiram, de sorte que eu fui obrigado a furtar-me do Fardo daquele Brilho. E, contudo, oh meu Filho, a Soma de 58

Der reine Tor (O puro Louco) (NT).

130


tudo isso não chega ao Mérito de um Vislumbre-Aurora de Nossa Verdadeira Visão da Santidade.

DE QUODAM MODO MEDITATIONIS

Agora quanto ao Principal daquilo que a mim foi concedido, foi a Apreensão daquelas Mudanças ou Transmutações desejadas da Mente que conduzem à Verdade, sendo como Escadas para o Céu, ou assim as chamei naquele Tempo, buscando uma frase para advertir o Escriba que atendia às minhas Palavras para gravar um Balaústre sobre a Estela de minha Operação. Mas despendo esforço em vão, ó meu Filho, para registrar esta Matéria minuciosamente, pois constitui a qualidade desta Grama agilizar a Operação do Pensamento de modo que possa ser de Mil Vezes, e, ademais, ilustrar cada Passo em Imagens complexas e dominantes em Beleza, de maneira que não se disponha de Tempo no qual conceber, e muito menos proferir qualquer Palavra por um Nome de qualquer um deles. Além disso, tal era a multiplicidade dessas Escadas, e sua Equivalência, que a Memória não retém mais nenhuma delas, mas apenas certa Compreensão do Método, sem palavras por Razão de sua Sutileza. Agora, portanto, preciso fazer por minha Vontade uma Concentração poderosa e terrível de meu Pensamento, de maneira que eu possa gerar a Expressão deste Mistério. Pois este Método é de Virtude e Proveito; por ele podes tu chegar facilmente e com Prazer à Perfeição da Verdade, não Importa a partir de que Pensamento tu concretizas o primeiro Salto em tua Meditação, de modo que possas saber como toda Estrada finda em Monsalvat e no Templo do Sangraal.

SEQUITUR DE HAC RE

Eu acredito geralmente, com Base tanto na Teoria quanto na Experiência, tão poucas como delas disponho, que um Homem precisa primeiramente ser Iniciado, e estabelecido em Nossa Lei antes de poder usar este Método, pois nele há uma Implicação de nossa Iluminação Secreta, concernente ao Universo, como sua Natureza é integralmente Perfeição. E cada Pensamento é uma Separação e a Medicina disto é casar Cada um com sua Contradição, como demonstrei antes em muitos Escritos. E tu colidirás um contra o outro com Veemência de Espírito, tão célere como a própria Luz, de modo que o Êxtase seja Espontâneo. E assim, por conseguinte, é conveniente que tu tenhas já trilhado este Caminho da Antítese, sabendo perfeitamente a Resposta para cada Glifo ou Problema e tua Mente com isto pronta. Pois pela Propriedade dessa Grama tudo passa com Velocidade incalculável para a Inteligência e uma Hesitação deve confundir-te, derrubando tua Escada e lançando tua Mente de volta para receber Impressão do Ambiente, como em teu primeiro Início. Veramente, a Natureza deste Método é Solução, e a Destruição de toda Complexidade por Explosão de Êxtase, à

131


medida que todo Elemento seu é preenchido por seu Correlativo, e é aniquilado (visto que perde a Existência separada) no Orgasmo que é consumado no Leito de tua Mente.

SEQUITUR DE HAC RE

Tu sabes muito bem, oh meu Filho, como um Pensamento é imperfeito em duas Dimensões estando separado de sua Contradição, mas também confinado em seu Alcance porque por essa Contradição nós não (comumente) completamos o Universo, salvo apenas aquele de seu Discurso. Assim se contrastamos Saúde com Enfermidade, incluímos em sua Esfera de União não mais do que uma Qualidade que pode ser prevista de todas as Coisas. Ademais, é para a maior Parte difícil descobrir ou formular a verdadeira Contradição de qualquer Pensamento como uma Ideia positiva, mas apenas como uma Negação Formal em Termos vagos, de maneira que a pronta Resposta é tão-somente Antítese. Assim, ao “Branco”, não se coloca a Frase “Tudo o que não é Branco”, pois isto é vazio, amorfo; não é tampouco claro, simples, nem positivo na Concepção; mas responde-se “Preto”, pois isto detém uma Imagem de sua Significação. Assim então a Coesão dos Antitéticos os destrói apenas Parcialmente e se fica instantaneamente consciente do Resíduo que está insatisfeito ou desequilibrado, cujo Eidolon salta em tua Mente com Esplendor e Júbilo inefáveis. Não permite que isto te ludibrie, pois sua Existência prova sua Imperfeição e tu precisas fazer surgir seu Companheiro, e destruí-los pelo Amor, como com o primeiro. Este método é contínuo e procede sempre do Grosso para o Fino, e do Particular para o Geral, dissolvendo todas as Coisas na Substância Única da Luz.

CONCLUSIO DE HOC MODO SANCTITATIS

Aprende agora que as Impressões dos Sentidos têm Opostos prontamente concebidos, como o longo para o curto, ou o claro para o escuro; e assim com as Emoções e Percepções, como o Amor para o Ódio, ou o Falso para o Verdadeiro; mas quanto mais Violento o Antagonismo, mais está ele limitado na Ilusão, determinada pela Relação. Assim a Palavra “Longo” é destituída de Sentido a não ser que se refira a um Padrão; o Amor, contudo, não é obscuro assim porque o Ódio é seu gêmeo, participando com fartura de uma Natureza Comum com isso. E agora, ouve isto: foi concedido a mim em minha Visão dos Æthyrs, quando eu estava no Deserto do Saara, próximo de Tolga, à Beira do Grande Erg Oriental, que acima do Abismo, Contradição é Unidade, e que nada podia ser verdadeiro salvo em Virtude da Contradição que está contida em si mesma. Vê, portanto, que neste Método tu chegarás logo a Ideias desta Ordem que incluem em si mesmas sua própria Contradição e não têm Antítese. Eis aqui então tua Alavanca de Antinomia quebrada em tua Mão; e, contudo, estando em verdadeiro Equilíbrio, tu podes voar alto, apaixonado e ansioso, de Céu a Céu, pela Expansão de tua Ideia, e sua Exaltação, ou pela Concentração como tu entendes, por 132


Virtude de teus Estudos de O Livro da Lei, a Palavra deste relativa a Nossa Senhora Nuith, e Hadith que é o Cerne de toda Estrela. E este último Indo sobre tua Escada é fácil, se és verdadeiramente Iniciado, pois o Momentum de tua Força na Antítese Transcendental serve para propelir-te, e a Emancipação dos Grilhões do Pensamento que conquistaste naquela Praxis de Arte faz o Remoinho e Gravitação da Verdade de Competência te atraírem para si mesma.

DE VIA SOLA SOLIS

Este é o Proveito de minha Intoxicação desta Erva santa, A Grama dos Árabes, que me revelou este Mistério (acompanhado de muitos outros), não como uma Nova Luz, pois eu dispunha disto antes, mas por sua rápida Síntese e Manifestação de uma longa Sequência de Eventos num Momento. Eu possuía Perspicácia para analisar este Método e descobrir sua Lei Essencial, que antes havia se furtado ao Foco da Lente de meu Entendimento. Sim, meu Filho, não há nenhuma Senda Verdadeira de Luz exceto aquela que eu anteriormente evidenciei; todavia, em toda Senda há proveito se fores sagaz para percebê-lo e agarrá-lo. Pois nós conquistamos a Verdade frequentemente por Reflexão, ou pela Composição e Seleção de um Artista em sua Apresentação dela, quando para o mais estávamos cegos, faltando seu Modo de Luz. Entretanto, seria aquela Arte de nenhum proveito a não ser que já tivéssemos a Raiz daquela Verdade em nossa Natureza, e um Botão pronto para desabrochar sob a Convocação daquele Sol. Em Testemunho, nem um Menino nem uma Pedra possui Conhecimento das Seções de um Cone e de suas Propriedades, mas podes ensinar estas coisas ao Menino pela correta Apresentação porque ele tem em sua Natureza essas Leis da Mente que são consoantes com nossa Arte Matemática e Necessita apenas Emplumar-se (posso dizê-lo) de modo a aplicá-las conscientemente ao Trabalho, quando, estando tudo em Verdade, ou seja, nas necessárias Relações que regem nossa Ilusão, ele vem em Curso para a Apreensão.

O MAGO 1. DE MERCÚRIO 59

Segue-se uma descrição bastante completa da natureza de Mercúrio em diversos aspectos, particularmente sua relação com Júpiter e o Sol: “No Princípio era a Palavra, o Logos, que é Mercúrio, sendo, portanto, para ser identificado com Cristo. Ambos são mensageiros, os mistérios de seus nascimentos são 59

De Paris Working (Operação de Paris).

133


similares, as travessuras de suas infâncias são similares. Na Visão do Mercúrio Universal, Hermes é visto descendo sobre o mar, que se refere à Maria. 60 A crucificação representa o caduceu, os dois ladrões, as duas serpentes; o penhasco na visão do Mercúrio Universal é o Gólgota; Maria é simplesmente Maia com o R solar em seu útero. A controvérsia em torno de Cristo entre os sinópticos e João era realmente uma contenda entre os sacerdotes de Baco, Sol, e Osíris; também, talvez, os de Adonis e Atis por um lado, e os de Hermes, por outro, naquele período no qual os iniciados em todo o mundo julgavam necessário, devido ao crescimento do Império Romano e a abertura dos meios de comunicação, substituir politeísmos conflitantes por uma fé sintética.” Continuando a identificação compare-se a descida de Cristo ao inferno com a função de Hermes de guia dos mortos. E também Hermes conduzindo Eurídice para cima e Cristo devolvendo a vida à irmã de Jairo. Diz-se que Cristo ressuscitou no terceiro dia porque são necessários três dias para o planeta Mercúrio tornar-se visível após apartar-se da órbita do Sol (que se note, inclusive, que Mercúrio e Vênus são os planetas entre nós e o Sol, como se a Mãe e o Filho fossem mediadores entre nós e o Pai). Observe-se Cristo como Aquele que cura e igualmente sua própria expressão: “O Filho do Homem vem como um ladrão à noite.” E ainda esta passagem (Mateus xxiv, 24-27): “Pois como o relâmpago irrompe do Leste e brilha mesmo no Oeste, assim também será a vinda do Filho do Homem.” Cumpre, ademais, notar as relações de Cristo com os cambistas, suas frequentes parábolas e o fato do seu primeiro discípulo ter sido um publicano, isto é, coletor de impostos. Note-se ainda Mercúrio como o libertador de Prometeu. Uma metade do símbolo do peixe é igualmente comum a Cristo e Mercúrio; os peixes são sagrados a Mercúrio (devido presumivelmente à sua qualidade cinética e sangue frio). Muitos dos discípulos de Cristo eram pescadores e ele se mantinha fazendo milagres ligados aos peixes. Que se atente, além disso, em Cristo como mediador: “Nenhum homem irá ao Pai exceto por mim” e Mercúrio como Chokmah “através de quem somente podemos ter acesso a Kether.” “O caduceu contém um símbolo completo da gnosis. O sol ou falo alado representa a alegria da vida e todos os planos do mais baixo ao mais alto. As serpentes (além de serem o ativo e o passivo, Hórus e Osíris e todas as outras suas conhecidas atribuições) são aquelas qualidades da águia e do leão, respectivamente, das quais estamos cientes, mas de que não falamos. É o símbolo que une o microcosmo e o

60

O caminho de Beth na Árvore da Vida o mostra descendo de Kether, a Coroa, sobre Binah, o Grande Mar (ver diagrama).

134


macrocosmo, o símbolo da operação mágica que executa isso. O caduceu é a própria vida, sendo de aplicação universal. É o solvente universal. “Eu o vejo todo agora; a força viril de Marte está bem abaixo dele. Todos os outros deuses são meramente aspectos de Júpiter formulados por Hermes. Ele é o primeiro dos Æons.” “O senso de humor deste deus é muito intenso. Ele não é sentimental com respeito à sua principal função; encara o universo como uma excelente piada prática. No entanto, reconhece a seriedade de Júpiter e a seriedade do universo, a despeito de rir deles por serem sérios. Seu único negócio é transmitir a força proveniente de Júpiter e não está interessado em nada mais. A mensagem é vida, mas em Júpiter a vida é latente.” “Relativamente à reencarnação, a teoria heliocêntrica está certa. À medida que conquistamos as condições de um planeta, encarnamos no próximo planeta indo no sentido do planeta mais exterior para o mais interior, até retornarmos ao Pai de Tudo, quando nossas experiências, somadas, se tornam inteligíveis, e as estrelas discursam entre si. A Terra é o último planeta onde os corpos são feitos de terra; em Vênus são fluídicos; em Mercúrio, aéreos, enquanto que no Sol são feitos de fogo puro”. 61 “Eu agora vejo a estrela óctupla de Mercúrio repentinamente fulgurante; é composta de quatro flores-de-lis de raios semelhantes a anteras, formas de junco entre elas. O núcleo central tem o monograma do Grão-Mestre, mas não o que você conhece. Sobre a cruz se acham a pomba, o falcão, a serpente e o leão. E também um símbolo ainda mais secreto. Agora eu contemplo Espadas ígneas de luz. Tudo isso está sobre uma escala cósmica. Todas as distâncias são astronômicas. Quando eu digo “Espada” tenho uma consciência definida de uma arma de muitos milhões de milhas de comprimento.

2. O SENHOR DA ILUSÃO 62

É a figura do Mago do Tarô. Em seu braço direito a tocha de flamas fulgurantes ascendentes; no esquerdo, a taça de veneno, uma catarata para o inferno. E em cima de sua cabeça o talismã do mal, blasfêmia e blasfêmia e blasfêmia, sob a forma de um círculo. Esta é a maior blasfêmia de todas (quer dizer, que o círculo seja assim profanado; este círculo do mal é de três anéis concêntricos). Sobre os pés do Mago há foices, Espadas e foicinhas, adagas, facas, todo instrumento afiado ‒ um milhão e todos em um. E diante dele esta a mesa que é uma mesa de perversidade, a mesa das quarenta e duas vezes. Esta mesa está conectada aos quarenta e dois assessores dos mortos, pois eles são os acusadores que a alma deve iludir; e com o nome de Deus de quarenta e duas vezes, pois este é o Mistério da Inquidade, segundo o qual houve sempre um 61

“Nos Sóis nós lembramos, nos Planetas esquecemos.” Éliphas Lévi.

62

Extrato de Liber CDXVIII, The Vision and the Voice: terceiro Æthyr (Ed. Princ., pg. 144.)

135


princípio, de qualquer modo. E este Mago gera, pelo poder de suas quatro armas véu após véu; mil cores brilhantes, rasgando e dilacerando o Æthyr, de sorte que é como serras cheias de mossas, ou como dentes quebrados à face de uma menina, ou como ruptura, ou loucura. Há um som horrível de trituramento, enlouquecedor. Este é o moinho no qual a substância universal, que é o éter, foi moída e reduzida à matéria. Uma voz diz: “Contempla o brilho do Senhor, cujos pés estão colocados sobre aquele que perdoa a transgressão. Contempla a Estrela sêxtupla que flameja na Abóbada, o selo do casamento do grande Rei Branco com sua escrava negra.” Assim eu olhei para a Pedra e vi a Estrela sêxtupla: o Æthyr inteiro se assemelha a nuvens fulvas, como a chama de uma fornalha. E há uma poderosa hoste de Anjos, azuis e dourados, que a invadem, e eles gritam: Santo, Santo, Santo, és tu que não és sacudido nos terremotos, e nos trovões! O fim das coisas é vindo sobre nós; o dia do Esteja-conosco está à mão! Pois ele criou o Universo e o destruiu, de modo que pudesse tirar seu prazer disso. E agora, no meio do Æthyr, eu contemplo aquele deus. Ele possui mil braços e em cada mão há uma arma de força terrível. Seu rosto é mais terrível que a tempestade, e de seus olhos lampejam relâmpagos de brilho intolerável. De sua boca fluem mares de sangue. Sobre sua cabeça há uma coroa de toda coisa morta. Sobre sua fronte está o ereto Tau, e em cada lado dele existem signos de blasfêmia. E em torno dele se prende uma menina, como para a filha do Rei que apareceu no nono Æthyr. Mas ela se tornou rósea devido à força dele, e a pureza dela tingiu seu negro com azul. Eles estão agarrados num abraço furioso, de sorte que ela está dilacerada pelo terror do deus; e, contudo, agarra-se ela tão firmemente a ele que ele está estrangulado. Ela forçou a cabeça dele para trás e sua garganta está lívida sob a pressão dos dedos dela. O grito conjunto deles é uma angústia intolerável, e, todavia, é o grito de seu arrebatamento, de modo que todo sofrimento e toda maldição e toda privação, e toda morte de tudo no universo todo não passa de uma pequena lufada de vento naquele grito-tempestade de êxtase. 63 E um Anjo fala; “Vê, esta visão está inteiramente além de tua compreensão. Contudo, tu te esforçarás para unir-te ao formidável leito nupcial.” E assim estou despedaçado, nervo por nervo e veia por veia, e mais intimamente ‒ célula por célula, molécula por molécula e átomo por átomo, e ao mesmo tempo todo esmagado em conjunto (escreve que o despedaçamento é um esmagamento em conjunto). Todos os fenômenos duplos são apenas duas maneiras de olhar para um único fenômeno, e o fenômeno único é paz. Não há sentido em minhas palavras ou em meus pensamentos. “Surgiram faces semi-formadas.” Este é o significado daquela passagem; são tentativas de interpretar o caos. Mas o caos é paz. O cosmos é a guerra

63

Esta imagem deve ser encontrada pintada (usualmente sobre seda e repetida em variadas formas, com frequência representando os planetas em torno de sua auréola central) sobre os estandartes sagrados que adornam os santuários do Tibete.

136


da Rosa e da Cruz. Esta foi uma “face semi-formada” que eu disse então. Todas as imagens são inúteis. Sim, como num espelho, assim em tua mente, que é apoiada com o falso metal da mentira, é todo símbolo lido ao avesso. Repara, tudo em que confiaste deve confundir-te e aquilo de que tu realmente fugiste era teu salvador. Assim, por conseguinte, gritaste, com efeito, estrepitosamente no sabá negro quando beijaste as nádegas peludas do bode, quando o deus áspero te despedaçou, quando a catarata gelada da morte te varreu. Grita, portanto, grita alto; mistura o urro do leão chifrado e o gemido do touro despedaçado, e o berro do homem que foi dilacerado pelas garras da águia e o guincho da águia que é estrangulada pelas mãos do homem. Mistura todos estes no grito de morte da esfinge, pois o homem cego profanou o mistério dela. Quem é este, Édipo, Tirésias, Erinies? Quem é este, que é cego e um vidente, um tolo acima da sabedoria? Quem os cães do céu seguem e os crocodilos do inferno aguardam? Aleph, Vau, Yod, Ayin, Resh, Tau é seu nome. 64 Debaixo de seus pés está o Reino, e sobre sua cabeça a Coroa. Ele é espírito e matéria; ele é paz e poder; nele está Caos e Noite e Pã; e em BABALON, sua concubina, que o embriagou do sangue dos santos que ela colheu em sua taça dourada, gerou ele a virgem que agora ele realmente deflora. E isto é o que está escrito: Malkuth será guindada e colocada no trono de Binah. E esta é a pedra filosofal que é posta como um selo sobre o Túmulo de Tetragrammaton, e o elixir da vida que é destilado do sangue dos santos e o pó vermelho que é o trituramento dos ossos de Choronzon. Terrível e maravilhoso é o mistério disso, oh tu Titã que subiste ao leito de Juno! Certamente estás preso e rompido sobre a roda; e, contudo, descobriste a nudez da Santa, e a Rainha do Céu está em trabalho de parto de uma criança e seu nome será Vir, e Vis, e Virus, e Virtus, e Viridis, em um nome que é todos estes, e acima de todos estes. 65

*

*

*

*

*

O excerto a seguir proveniente de Liber Aleph, o Livro da Sabedoria ou Loucura, pode também auxiliar a elucidação do significado desta carta. “Tahuti, ou Thoth, confirmou a Palavra de Dionísio continuando-a, pois mostrou como pela Mente era possível dirigir as Operações da Vontade. Pela Crítica e pela Memória registrada o Homem evita o Erro e a Repetição do Erro. Mas a verdadeira Palavra de Tahuti era AMOUN, por meio da qual Ele fez os Homens entenderem sua Natureza secreta, ou seja, sua unidade com seus Eus Verdadeiros, ou, como eles diziam então, com Deus. E ele descobriu junto a eles a Senda dessa Obtenção, e a relação dela 64

Estes são os caminhos formando uma corrente 1 ‒ 2 ‒ 6 ‒ 8 ‒ 9 na Árvore da Vida.

65

Vi Veri Vniversum Vivus Vici, o mote de Mestre Therion como um 8° = 3□.

137


com a Fórmula de INRI. E também por seu Mistério do Número ele evidenciou o Caminho para Seu Sucessor para declarar a Natureza do Universo inteiro em sua Forma e em sua Estrutura, como se fosse uma Análise dele, fazendo para a Matéria o que foi decretado que o Buda fizesse para a Mente.”

FORTUNA R.O.T.A. ‒ A RODA 66

“Entra um pavão na pedra, preenchendo todo o Ar. É como a visão chamada de o Pavão Universal, ou melhor, como uma representação dessa visão. E agora há nuvens incontáveis de anjos brancos preenchendo o Ar à medida que o pavão dissolve. “Atrás dos anjos há arcanjos com trombetas. Estes fazem todas as coisas aparecerem imediatamente, de maneira que há uma tremenda confusão de imagens. E agora percebo que todas estas coisas são apenas véus da roda, pois todos eles se reúnem em uma roda que gira com velocidade incrível. Ela possui muitas cores, mas todas vibram com luz branca, de sorte que são transparentes e luminosas. Esta única roda são quarenta e nove rodas, dispostas a diferentes ângulos, de maneira a comporem uma esfera; cada roda tem quarenta e nove raios e quarenta e nove aros concêntricos equidistantes do centro, e onde quer que seja que se encontrem os raios de duas rodas quaisquer, há um lampejo ofuscante de glória. Deve-se compreender que embora tantos detalhes sejam visíveis na roda, a impressão, entretanto, ao mesmo tempo, é que se trata de um único, simples objeto. “Parece que esta roda está sendo girada por uma mão. Embora a roda preencha todo o Ar, ainda assim a mão é muito maior que a roda. E embora esta visão seja tão grandiosa e esplêndida, ainda assim não há nenhuma seriedade com ela, ou solenidade. Parece que a mão está girando a roda meramente por prazer ‒ seria melhor dizer divertimento. “Uma voz é ouvida: Pois ele é um deus divertido e rubicundo e seu riso é a vibração de tudo que existe, e os terremotos da alma. “Um está consciente do zumbido da roda vibrando um, como uma descarga elétrica atravessando um. “Agora eu vejo as figuras na roda, que foram interpretadas como a Esfinge com a espada, Hermanúbis e Tífon. E isto está errado. O aro da roda é uma vívida serpente esmeralda; no centro da roda há um coração escarlate, e impossível de ser explicado como o é, o escarlate do coração e o verde da serpente são ainda mais vivazes do que o brilho branco ofuscante da roda. 66

The Vision and the Voice (quarto Æthyr).

138


“As figuras na roda são mais escuras do que a própria roda; aliás, são manchas sobre a pureza da roda, e por esta razão, e devido ao giro da roda, não consigo vê-las. Mas no alto parece ser o Cordeiro e o Estandarte, como se vê em algumas medalhas cristãs, e uma das coisas inferiores é um lobo, e a outra, um corvo. O símbolo do Cordeiro e o Estandarte é muito mais brilhante do que os outros dois. Ele se mantém crescendo em brilho até que agora está mais brilhante que a própria roda e ocupa mais espaço do que ela ocupava. “Ele fala: sou o maior dos enganadores, pois minha pureza e inocência seduzirá o puro e o inocente que apenas através de mim deverão vir ao centro da roda. O lobo trai somente o ganancioso e o traiçoeiro; o corvo trai somente o melancólico e o desonesto. Mas eu sou aquele de quem está escrito: Ele enganará os próprios eleitos. “Pois no princípio o Pai de Tudo convocou espíritos da mentira para que pudessem peneirar as criaturas da Terra em três peneiras, de acordo com as três almas impuras. E ele escolheu o lobo para a luxúria da carne e o corvo para a luxúria da mente, mas a mim ele escolheu acima de tudo para simular a presteza pura da alma. Aqueles que caíram presas do lobo e do corvo eu não feri, mas aqueles que me rejeitaram eu entreguei à ira do corvo e do lobo. E as mandíbulas de um os despedaçaram, e o bico do outro devorou os cadáveres. E portanto é meu estandarte branco, pois não deixei nada sobre a Terra vivo. Banqueteei-me do sangue dos Santos, mas os homens não suspeitam que seja eu inimigo deles pois meu tosão é alvo e cálido e meus dentes não são os dentes daquele que rasga carne; e meus olhos são suaves e eles não me conhecem como o chefe dos espíritos da mentira que o Pai de Tudo enviou de ante sua face no princípio. (“Sua atribuição é o sal; o lobo, mercúrio e o corvo, enxofre). “E agora o Cordeiro diminui de tamanho novamente, não há novamente nada exceto a roda, e a mão que a gira. “E eu disse: “Pela palavra do poder, dupla na voz do Mestre; pela palavra que é sete, e um em sete; e pela grandiosa e terrível palavra 210, eu te peço, oh meu Senhor, que me conceda a visão de tua Glória.” E todos os raios da roda afluem para mim e eu sou colhido e cego pela luz. Eu sou pego dentro da roda. Eu sou um com a roda. Eu sou maior que a roda. Em meio a uma miríade de relâmpagos eu permaneço, e contemplo a face dele (sou lançado violentamente de volta à terra a cada segundo, de modo que não consigo absolutamente me concentrar). “Tudo que se consegue é uma chama líquida de um dourado pálido. Mas sua força radiante se mantém me arremessando para trás. “E eu digo: Pela palavra e a vontade, pela penitência e a oração, deixa-me contemplar teu rosto (não consigo explicar isto, há confusão de personalidades). Eu que falo a você, vejo o que digo a você; mas eu, que o vejo, não consigo comunicá-lo a mim, quem fala a você. “Se se fosse capaz de olhar fixamente para o sol ao meio-dia, isto poderia assemelhar-se à substância dele. Mas a luz é sem calor. É a visão de Ut nos Upanishads. 139


E desta visão procederam todas as lendas de Baco e Krishna e Adônis. Pois a impressão é de um jovem dançando e compondo música. Mas você deve entender que ele não está fazendo isso, pois ele está imóvel. Mesmo a mão que gira a roda não é sua mão, mas apenas uma mão energizada por ele. “E agora é a dança de Shiva. Eu deito abaixo de seus pés, seu santo, sua vítima. Minha forma é a forma do deus Phtah, em minha essência, mas a forma do deus Seb é minha forma. E esta é a razão da existência, que nesta dança que é deleite, tem que haver tanto o deus quanto o adepto. Ademais, a própria terra é uma santa, e o sol e a lua bailam sobre ela, torturando-a deliciosamente.”

VOLÚPIA BABALON 67

No Atu VII o auriga porta o Graal da Grande Mãe. Eis a visão: “O auriga fala numa voz baixa, solene, inspiradora de reverência, com um sino muito grande e muito distante: Que ele considere a taça cujo sangue ali está mesclado, pois o vinho da taça é o sangue dos santos. Glória à Mulher Escarlate, Babilônia, a Mãe das Abominações, a qual cavalga a Besta, pois ela derramou o sangue deles em todo canto da Terra, e repara! ela o misturou na taça de sua prostituição. “Com o alento de seus beijos ela o fermentou e ele se converteu no vinho do Sacramento, o vinho do Sabá, e na Assembleia Santa ela o verteu para seus adoradores e eles se embriagaram com isso, de sorte que face à face contemplaram meu Pai. Deste modo foram eles feito dignos de se tornarem participantes do Mistério deste cálice sagrado, pois o sangue é a vida. Assim tem ela assento de idade à idade, e os justos jamais se cansam de seus beijos, e por seus assassinatos e fornicações seduz ela o mundo. Aí é manifestada a glória de meu Pai, quem é Verdade. [“Este vinho é tal que sua virtude irradia através da taça, e eu cambaleio sob a intoxicação dele. E todo pensamento é destruído por ele. Ele reside sozinho e seu nome é Compaixão. Entendo por „Compaixão‟ o sacramento do sofrimento, partilhado pelos verdadeiros veneradores do Altíssimo. E é um êxtase no qual não há traço de dor. Sua passividade (= paixão) é como a rendição do eu ao amado]. “A voz continua: Este é o Mistério de Babilônia, a Mãe das Abominações, e este é o mistério de seus adultérios, 68 pois ela se entregou a tudo que vive, e se tornou uma

67

De The Vision and the Voice.

68

A doutrina aqui formulada é idêntica àquela de todo o mistério da perfeição entendendo a si mesmo mediante a experiência de toda a imperfeição possível, como explicado alhures neste ensaio.

140


participante nesse mistério. E pelo fato de ter feito de si a serva de cada um, tornou-se ela, por conseguinte, a amante de todos. Não até então podes tu compreender sua glória. “Bela és tu, ó Babilônia, e desejável, pois te entregaste a tudo que vive, e tua fraqueza subjugou sua força. Pois nessa união tu, com efeito, entendeste. Por isso és tu chamada Entendimento, oh Babilônia, Senhora da Noite! “Isto é o que está escrito: Oh meu Deus, num último arrebatamento deixa-me atingir a união com os muitos! Pois ela é Amor, e seu amor é um; e ela dividiu o amor uno em amores infinitos e cada amor é um, e igual com o Um e, por isso, passou ela da assembleia e da lei e da iluminação à anarquia da solidão e da escuridão. Pois sempre assim necessita ela velar o brilho de Seu eu. “Oh Babilônia, Babilônia, tu Mãe poderosa, que montas a besta coroada, deixame embriagar-me no vinho de tuas fornicações; deixa que teus beijos me desregrem rumo à morte, que mesmo eu, teu portador da taça, possa entender. “Agora, através do rubor da taça, posso perceber bem acima, e infinitamente grandiosa, a visão de Babilônia. E a Besta que ela monta é o Senhor da Cidade das Pirâmides, que eu contemplei no décimo quarto Æthyr. “Agora aquilo se foi no rubor da taça, e o Anjo diz: Até agora não podes tu entender o mistério da Besta, pois ele não pertence ao mistério deste Ar, e poucos que são recém-nascidos do Entendimento são dele capazes. “A taça incandesce sempre mais resplandecente e mais ígnea. Todo meu sentido está instável, inflamado no êxtase. “E o Anjo diz: Abençoados sejam os santos, que seu sangue seja misturado na taça, e não possa ser separado mais. Pois Babilônia, a Bela, a Mãe das abominações, jurou por sua santa kteis, de que cada ponto é uma dor aguda e repentina, que não descansará de seus adultérios até que o sangue de tudo que vive seja aí juntado e o vinho dele armazenado e maturado e consagrado, e digno de alegrar o coração de meu Pai. Pois meu Pai está exausto com o esforço antigo e não visita o leito dela. Todavia, será este vinho perfeito a quintessência, e o elixir e bebendo-o ele renovará sua juventude; e assim será eternamente, à medida que com o desenrolar das idades os mundos dissolverão e mudarão, e o Universo revela a si mesmo como uma Rosa e se fecha como a Cruz que está inclinada dentro do Cubo. E esta é a comédia de Pã, a qual é representada à noite na floresta espessa. E este é o mistério de Dionísio Zagreus, o qual é celebrado sobre a montanha santa de Kithairon. E este é o segredo dos Irmãos da Rosy Cross; e este é o coração do ritual que é realizado na Abóbada dos Adeptos que está ocultada na Montanha das Cavernas, mesmo a Montanha Santa Abiegnus. “E este é o significado da Ceia da Páscoa, o derramamento do sangue do Cordeiro sendo um ritual dos Irmãos Negros, pois eles selaram o Pilone com sangue, para que o Anjo da Morte aí não entre. Assim se desligaram eles da companhia dos santos. Assim

141


se guardam eles da compaixão e do entendimento. Amaldiçoados são eles, pois prenderam seu sangue em seus corações. “Eles se guardam dos beijos de minha Mãe, Babilônia, e em suas fortalezas solitárias oram à falsa lua. E se obrigam juntos a um juramento, e a uma grande maldição. E em sua malignidade conspiram juntos, e eles têm poder, e domínio, e em seus caldeirões fervem o vinho azedo da ilusão, misturado ao veneno de seu egoísmo. “Assim eles fazem guerra ao Santo, enviando sua ilusão aos homens e a tudo que vive. De maneira que sua falsa compaixão é chamada compaixão e seu falso entendimento é chamado entendimento, pois este é seu feitiço mais potente. “Contudo, de seu próprio veneno perecem e em suas fortalezas solitárias serão devorados pelo Tempo que os enganou para servi-lo, e pelo poderoso demônio Choronzon, seu mestre, cujo nome é a Segunda Morte, pois o sangue que eles borrifaram em seu Pilone, que é uma barreira contra o Anjo da Morte, é a chave pela qual ele entra.”

“ARTE” A SETA

69

Agora, então, vê como a cabeça do dragão é apenas a cauda do Æthyr! Muitos são aqueles que lutando abriram seu caminho de mansão a mansão da Casa Eterna, e contemplando-me, finalmente, retornaram, declarando “Medonho é o aspecto do Poderoso e Terrível”. Afortunados são aqueles que me conheceram por quem sou. E que seja glorificado aquele que fez de minha garganta uma passagem para sua seta de verdade, e a lua para sua pureza. A lua mingua. A lua mingua. A lua mingua. Pois nessa seta está a Luz da Verdade que sobrepuja a luz do sol, por meio da qual ela brilha. A seta está emplumada com as penas de Maat que são as setas de Amoun, e a haste é o falo de Amoun, o Oculto. E sua ponta é a estrela que tu viste no sítio onde não havia Nenhum Deus. E entre aqueles que guardavam a estrela não foi encontrado nenhum digno de manejar a Seta. E entre aqueles que veneravam não foi encontrado nenhum digno de contemplar a Seta. Todavia, a estrela que viste era somente a ponta da Seta e não tiveste a perspicácia para pegar a haste, ou a pureza para divinizar as plumas. E, portanto, abençoado é aquele que nasceu sob o signo da Seta, e abençoado é aquele que possui o sigillum da cabeça do leão coroado e o corpo da Serpente e a Seta também. E, contudo, deves distinguir entre as Setas ascendente e descendente, pois a Seta ascendente é limitada em seu voo e é disparada por uma mão firme, pois Jesod é Jod 69

De The Vision and the Voice, quinto Æthyr.

142


Tetragrammaton, e Jod é uma mão, mas a seta descendente é disparada pelo ponto mais alto do Jod, e este Jod é o Eremita, e é o ponto diminuto que não é estendido, que está próximo do coração de Hadit. E agora é a ti ordenado que te furtes da Visão, e no amanhã, na hora indicada, será ela concedida mais a ti, à medida que percorres tua senda, meditando este mistério. E convocarás o Escriba, e aquilo que deverá ser escrito, será escrito. E, portanto, me detenho, como sou ordenado. O Deserto entre Benshrur e Tolga. 12 de dezembro de 1909. 7‒8. 12 meia-noite. Agora então te aproximaste de um Arcanum augusto; em verdade chegaste à antiga Maravilha, a lua alada, as Fontes do Fogo, o Mistério da Cunha. Mas não sou eu que posso revelá-lo, porque nunca me foi permitido contemplá-lo, que sou apenas o vigilante no limiar do Æthyr. Minha mensagem está dita, e minha missão está cumprida. E eu me detenho, cobrindo meu rosto com minhas asas, ante a presença do Anjo do Æthyr. Assim o Anjo partiu com a cabeça inclinada, cruzando suas asas. E há uma pequena criança numa névoa de luz azul; ela possui cabelos dourados, uma massa de caracóis e olhos de azul profundo. Sim, ela é toda dourada, de um ouro vivo, vívido. E em cada mão ela tem uma serpente, na direita, uma vermelha, na esquerda, uma azul. E ela tem sandálias vermelhas, mas nenhuma outra veste. E ela diz: Não é a vida uma longa iniciação ao pesar? E não é Ísis a Senhora do Pesar? E ela é minha mãe. Natureza é o seu nome, e ela tem uma irmã gêmea, Néftis, cujo nome é Perfeição. E Ísis deve ser conhecida de todos, mas de quão poucos é Néftis conhecida! Porque ela é escura, e, portanto, ela é temida. Mas tu que a adoraste sem medo, que fizeste de tua vida uma iniciação ao Mistério dela, tu que não tens nem mãe nem pai, nem irmã, nem irmão, nem esposa nem filho, que te fizeste solitário como o caranguejo-ermitão que está nas águas do Grande Mar, vê, quando os sistros são sacudidos e as trombetas proclamam alto a glória de Ísis, ao fim, portanto, há silêncio, e tu comungarás com Néftis. E tendo conhecido estas, há as asas de Maut, o Abutre. Tu podes distender ao máximo o arco de tua vontade mágica; podes liberar a flecha e perfurá-la no coração. Eu sou Eros. Toma então o arco e a aljava dos meus ombros e mata-me, pois a menos que me mates não desvelarás o Mistério do Æthyr. E assim eu fiz como ele ordenou; na aljava havia duas setas, uma branca, uma negra. Eu não consigo ajustar uma seta ao arco. E soou uma voz: Ela deve necessitar-me. E eu disse: Nenhum homem é capaz de fazer isto. E a voz respondeu, como se fora um eco: Nemo hoc facere potest.

143


Então o entendimento me atingiu, e eu tomei as Setas. A seta branca não tinha ponta, mas a seta negra era pontiaguda como uma floresta de anzóis; era toda orlada de metal e havia sido embebida em veneno mortal. E então Ajustamento a seta branca à corda do arco e disparei contra o coração de Eros, e embora tenha disparado com toda minha força, ela caiu inócua do seu lado. Mas naquele momento a seta negra era enterrada em meu próprio coração. Estou repleto de terrível agonia. E a criança sorri e diz: Embora tua flecha não tenha me trespassado, embora a ponta envenenada tenha te atravessado, ainda assim estou morto e tu vives e triunfas, pois eu sou tu e tu és eu. Com isso ele desaparece e o Æthyr se fragmenta com um estrondo como de dez mil trovões. E olha, A Seta! As penas de Maat são sua coroa, dispostas em torno do disco. É a coroa Ateph de Thoth, e há o feixe de luz ardente, e abaixo há uma cunha de prata. Eu me arrepio e estremeço diante da visão, pois a toda sua volta há espirais e torrentes de fogo tempestuoso. As estrelas do céu são apanhadas nas cinzas da chama. E elas são todas escuras. Aquilo que era um sol fulgurante é como uma pequena mancha de cinza. E no meio a Seta arde! Vejo que a coroa da Seta é o Pai de toda a Luz, e a haste da Seta é o Pai de toda a Vida, e a ponta da Seta é o Pai de todo o Amor. Pois aquela cunha de prata é como uma flor de lótus, e o Olho no interior da Coroa Ateph brada: eu vigio. E a Haste brada: eu trabalho. E a Ponta brada: eu espero. E a voz do Æthyr ecoa: Ela irradia. Ela arde. Ela floresce. E agora surge um pensamento estranho; esta Seta é a fonte de todo o movimento; é movimento infinito, ainda que ela se mova, de sorte que não há nenhum movimento. E, por isso, não há nenhuma matéria. Esta Seta é o olhar rápido do Olho de Shiva. Mas por não se mover, o universo não é destruído. O universo é tornado manifesto e tragado no tremor das plumas de Maat, que são as plumas da Seta; mas estas plumas não tremem. E soa uma voz: Aquilo que está acima não é como o que está abaixo. E outra voz lhe responde: Aquilo que está abaixo não é como o que está acima. E uma terceira voz responde a essas duas: O que está acima e o que está abaixo? Pois há a divisão que não divide e a multiplicação que não multiplica. E o Um é o Muitos. Vê, este Mistério ultrapassa o entendimento, pois o globo alado é a coroa e a haste é a sabedoria, e a ponta é o entendimento. E a Seta é um, e tu estás perdido no Mistério, tu que não és senão como um bebê que é carregado no útero de sua mãe, que não estás ainda pronto para a luz. E a visão me domina. Meus sentidos estão atordoados: murcha está minha visão, embotada está minha audição. E soa uma voz: Tu buscaste realmente o remédio do pesar; por isso todo o pesar é tua porção. Isto é o que está escrito: “Deus sobre ele depositou a iniquidade de todos 144


nós.” Pois como teu sangue está misturado na taça de BABALON, assim é teu coração o coração universal. E, não obstante, está ele envolvido pela Serpente Verde, a Serpente do Deleite. É-me mostrado que esse coração é o coração que regozija, e a serpente é a serpente de Daäth, pois aqui todos os símbolos são intercambiáveis, pois cada um contém em si seu próprio oposto. E este é o grande Mistério das Superiores que estão além do Abismo. Pois abaixo do Abismo, contradição é divisão, mas acima do Abismo, contradição é Unidade. E não poderia haver nada verdadeiro exceto em virtude da contradição que está contida em si mesma. Tu não podes acreditar quão maravilhosa é esta visão da Seta. E não poderia jamais ser excluída, a não ser que os Senhores da Visão turvassem as águas do lago, a mente do Vidente. Mas eles enviam um vento que é uma nuvem de Anjos, e eles golpeiam a água com seus pés, e pequenas ondas se movem para cima ‒ são memórias. Pois o vidente não tem cabeça; esta está expandida no universo, um vasto e silente mar, coroado com as estrelas noturnas. E, no entanto, no seu próprio meio está a seta. Pequenas imagens de coisas que foram, são a espuma sobre as ondas. E há uma disputa entre a Visão e as memórias. Eu orava aos Senhores da Visão, dizendo: Oh meus Senhores, não afastai esta maravilha de minha vista. E eles disseram: É preciso que as necessidades sejam. Rejubila, pois, se lhe foi permitido contemplar, mesmo que por um momento, esta Seta, a austera, a augusta. Mas a visão está consumada, e enviamos um grande vento contra ti. Pois não podes penetrar pela força quem a recusou; nem pela autoridade, pois tu a esmagaste sob o pé. Tu estás despojado de tudo exceto do entendimento, oh tu que não és mais do que um montículo de pó! E as imagens se erguem contra mim e me constrangem, de maneira que o Æthyr é fechado para mim. Somente as coisas da mente e do corpo estão abertas para mim. A pedra da revelação está baça, pois o que vejo aí não passa de uma memória.

O UNIVERSO O UNIVERSO VIRGEM 70

“Chegamos a um palácio do qual cada pedra é uma joia separada, engastada com milhões de luas. “E este palácio não é senão o corpo de uma mulher, orgulhoso e delicado, e que ultrapassa a imaginação em beleza. Ela é como uma criança de doze anos. Ela possui pálpebras muito profundas e cílios longos. Seus olhos estão fechados, ou quase 70

De The Vision and the Voice, nono Æthyr.

145


fechados. É impossível dizer qualquer coisa acerca dela. Está nua; seu corpo inteiro é coberto de finos pelos de ouro, os quais são as flamas elétricas que são as lanças de poderosos e terríveis Anjos, cujos peitos de armas são as escamas da pele dela. E os cabelos de sua cabeça, os quais flutuam até seus pés, são a própria luz do próprio Deus. De todas as glórias contempladas pelo Vidente nos Æthyrs não há sequer uma digna de ser comparada à unha do menor dos dedos dela. Pois embora ele não possa participar do Æthyr sem as preparações cerimoniais, mesmo a contemplação desse Æthyr é de longe como a participação de todos os Æthyrs anteriores. “O Vidente está perdido no espanto, que é Paz. “E o anel do horizonte acima dela é uma companhia de gloriosos Arcanjos de mãos dadas, que se levanta e canta: Esta é a filha de BABALON, a Bela, que ela gerou para o Pai de Tudo. E para todos ela a gerou. “Esta é a Filha do Rei. Esta é a Virgem da Eternidade. Esta é aquela que o Santo arrancou do Tempo Gigante e o prêmio daqueles que superaram o Espaço. Esta é aquela que é colocada no Trono do Entendimento. Santo, Santo, Santo é o nome dela, não para ser falado entre os homens. Pois de Koré eles a chamaram, e de Malkah, e de Betulah, e de Perséfone. “E os poetas simularam canções a respeito dela, e os profetas discursaram coisas vãs, e os jovens sonharam sonhos vãos: mas esta é ela, essa imaculada, o nome de cujo nome não se permite enunciar. O pensamento não é capaz de penetrar a glória que a preserva e nos mais antigos livros de magia não há nem palavras para conjurá-la nem adorações para louvá-la. A vontade se dobra como um junco nas tempestades que varrem as fronteiras de seu reino, e a imaginação não é capaz de figurar mais do que uma pétala dos lírios nos quais ela se coloca no lago de cristal, no mar de vidro. “Esta é aquela que ornou seu cabelo com sete estrelas, os sete alentos de Deus que movem e vibram sua excelência. E ela cansou seu cabelo com sete pentes, onde estão escritos os sete nomes secretos de Deus que não são conhecidos mesmo dos Anjos, ou dos Arcanjos, ou do Condutor dos exércitos do Senhor. “Santo, Santo, Santo és tu, e abençoado seja teu nome para sempre, para quem os Æons são tão-só pulsações de teu sangue.”

146


TERCEIRA PARTE A S C ARTAS DA C ORTE

147


148


OBSERVAÇÕES GERAIS Estas cartas constituem uma análise pictórica dos poderes das quatro letras do nome 71 e dos quatro elementos. Referem-se também ao zodíaco, mas em lugar de atribuir os três decanatos de cada signo a uma carta, a influência principia com o último decanato de um signo e continua com o segundo decanato do seguinte. Existe outra dificuldade. Poder-se-ia muito bem esperar que a atribuição do elemento se harmonizasse com a atribuição zodiacal, mas não é assim. Por exemplo, seria de se esperar que a parte ígnea do fogo se referisse ao mais ativo dos signos do fogo, a saber, Áries. Pelo contrário, ela representa o último decanato de Escorpião e os dois primeiros de Sagitário, que é a parte aquosa do fogo no zodíaco, e a de influência mais suave. A razão disso é que no domínio dos elementos todas as coisas estão mescladas e confundidas; ou, como o apologista poderia dizer, contra-checadas e contrabalançadas. A conveniência desses arranjos é que essas cartas são adequadas ao serem descritivas, de uma maneira aproximada e empírica, de tipos diversos de homens e mulheres. Podese dizer resumidamente que qualquer dessas cartas constitui um retrato da pessoa cujo sol, ou cujo signo ascendente em sua natividade, caia dentro da atribuição zodiacal da carta. Assim, uma pessoa nascida a 12 de outubro poderia possuir muitas das qualidades da rainha de Espadas, enquanto que se tivesse nascido logo antes da meia-noite, ela teria acrescentadas muitas das características do príncipe de Bastões.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS QUATRO DIGNITÁRIOS Os cavaleiros representam os poderes da letra Yod no nome. Constituem a parte mais sublime, original e ativa da energia do elemento, motivo pelo qual são representados montados à cavalo e envergando armadura completa. A ação deles é célere e violenta, mas passageira. No elemento fogo, por exemplo, o cavaleiro corresponde ao relâmpago, no elemento água à chuva e às fontes, no elemento ar ao vento, e no elemento terra às montanhas. É muito importante a título de exercício mental desenvolver para si essas correspondências entre o símbolo e as forças naturais que representa, sendo essencial para o trabalho mágico prático ter assimilado esse conhecimento. As rainhas representam a letra Hé do nome. São os complementos dos cavaleiros. Recebem, fermentam e transmitem a energia original de seu cavaleiro. Ligeiras na recepção dessa energia, as rainhas estão também qualificadas para durar pelo período de sua função. Mas elas não são o produto final. Representam o segundo estágio no processo de criação do qual o quarto e último estado é a realização material. São

71

O Tetragrammaton, ou seja, YHVH (yhwh) (NT).

149


representadas sentadas sobre tronos. Isto enfatiza o fato de serem indicadas para exercer funções definidas. Os príncipes representam as forças da letra Vau no nome. O príncipe é o filho da rainha (a filha do antigo rei) pelo cavaleiro que a conquistou, sendo, por isso, representado numa biga, avançando para levar a cabo a energia combinada de seus pais. Ele é o produto ativo da união deles e sua manifestação. É a imagem intelectual de sua união. Sua ação é consequentemente mais duradoura do que a de seus ascendentes. Num aspecto, de fato, o príncipe adquire uma relativa permanência porque é o registro público do que foi feito em segredo. Além disso, ele é o deus que morre redimindo sua noiva na hora e em virtude de seu assassinato. As princesas representam a Hé final do nome. Representam o produto final da energia original em seu complemento, sua cristalização, sua materialização. Representam, ademais, o contrabalanceamento, a reabsorção da energia. Representam o silêncio para o qual todas as coisas retornam. São, assim, ao mesmo tempo permanentes e não-existentes. Um exame da equação 0 = 2. As princesas não possuem atribuição zodiacal. Contudo, evidentemente representam quatro tipos de ser humano. São aquelas numerosas pessoas “elementares” que reconhecemos por sua falta de todo senso de responsabilidade, cujas qualidades morais parecem “não causar forte impressão.” São subdivididas de acordo com a predominância planetária. Tais tipos têm sido reiteradamente descritos na ficção. Como Éliphas Lévi escreveu: “O amor do Mago por essas criaturas é insensato e pode destruílo”. As relações entre esses quatro elementos do nome são extraordinariamente complexas, e sua discussão está inteiramente além dos limites de qualquer tratado ordinário; mudam a cada aplicação do pensamento ao seu significado. Por exemplo, mal fez a princesa sua aparição e o príncipe a conquista em casamento e ela é colocada no trono de sua Mãe. Ela assim desperta a longevidade do velho rei original, o qual logo após se converte num jovem cavaleiro, e deste modo renova o ciclo. A princesa não se limita a ser a perfeita donzela, mas devido à morte do príncipe, também a é viúva desconsolada que lamenta. Tudo isto ocorre nas lendas características do Æon de Osíris. É decididamente quase impossível desenredar essas complicações, mas para o estudante será suficiente que se satisfaça em trabalhar com uma lenda por vez. É natural que o Æon de Osíris, o regímen do ar, do conflito, do intelecto deva assim ser confuso, que seus símbolos e fórmulas devam se sobrepor, devam se contradizer entre si. É impossível harmonizar as numerosas fábulas ou parábolas, porque cada uma foi inventada para frisar alguma fórmula considerada imperativa para atender a alguma finalidade local ou temporal.

150


DESCRIÇÃO SUMÁRIA DAS DEZESSEIS CARTAS DA CORTE

151


152


CAVALEIRO DE BASTÕES

O cavaleiro de Bastões representa a parte ígnea do fogo. Rege do vigésimo primeiro grau de Escorpião ao vigésimo grau de Sagitário. Ele é um guerreiro em armadura completa. Como cimeira do seu elmo ele usa um cavalo negro. Em sua mão porta uma tocha flamejante e uma chama também em seu manto. Ele cavalga as chamas. Seu cavalo é um corcel negro que empina. As qualidades morais próprias a esta figura são atividade, generosidade, ardor, impetuosidade, orgulho, impulsividade, celeridade em ações imprevisíveis. Se energizado erroneamente, ele é malvado, cruel, intolerante e brutal. Ele é num caso ou outro mal qualificado para dar seguimento à sua ação; não dispõe de recursos para modificá-la conforme as circunstâncias. Se falha em seu primeiro esforço, não tem a que recorrer. No Yi King, a parte ígnea do fogo é representada pelo quinquagésimo primeiro hexagrama, Kan. A significação aí dada é inteiramente concordante com a doutrina do Tarô, mas grande ênfase é depositada no caráter surpreendente, perigoso e revolucionário dos eventos cognatos. O inquiridor é aconselhado a ser perspicaz e, todavia, tranquilo, resoluto e enérgico: acautelar-se com ações inoportunas, mas ir à frente com firme confiança em sua própria habilidade.

153


Todas essas correspondências do Yi King devem ser estudadas naquele livro (S.B.E., vol. XVI) e aqui é feita referência ao texto quando trechos importantes são longos demais para serem convenientemente citados.

154


RAINHA DE BASTÕES

A rainha de Bastões representa a parte aquosa do fogo, sua fluidez e cor. Além disso, ela rege no zodíaco do vigésimo primeiro grau de Peixes ao vigésimo grau de Áries. Sua coroa é encimada com o globo alado e raios de chama. Seu longo cabelo vermelho dourado desliza sobre sua armadura de cota de malha em escamas. Está sentada num trono de chama, disposto em luz geométrica pelo poder material dela. Abaixo do trono as chamas ondulantes são estáveis. Ela segura um bastão na mão esquerda, o qual é, entretanto, encimado por um cone sugestivo dos mistérios de Baco. É servida por um leopardo agachado de cabeça erguida sobre cuja cabeça ela pousa a mão. O rosto dela expressa o êxtase de alguém cuja mente está bem introspectivamente seduzida pelo mistério alimentado sob seu peito. As características da rainha são adaptabilidade, energia persistente, autoridade tranquila que ela sabe como usar para aumentar sua atração. Ela é amável e generosa, mas a oposição a impacienta. Tem imensa capacidade para a amizade e o amor, mas sempre mediante sua própria iniciativa. Há tanto orgulho nesta carta quanto no cavaleiro, mas falta-lhe a nobreza espontânea que escusa aquele erro. Não se trata de orgulho genuíno, mas sim de vaidade autocomplacente e mesmo esnobismo.

155


O outro lado de seu caráter é que ela pode ter uma tendência para cismar, chegar a uma decisão errada a partir daí e reagir com grande selvageria. Ela é facilmente enganável e então é provável que se mostre estúpida, obstinada, tirânica. Pode não tardar a ofender-se e abrigar desejo de vingança sem boa causa. Poderia voltar-se e ser ríspida com seus melhores amigos sem uma justificativa inteligível. Ademais, quando ela erra a mordida, quebra a mandíbula! No Yi King a parte aquosa do fogo é representada pelo décimo sétimo hexagrama, Sui. Indica reflexão sobre o impulso e o consequente fluxo uniforme da ação. Há uma grande capacidade para a concepção lúcida e o firme prosseguimento do trabalho, mas isto é somente sob o comando e a orientação de alguma mente criativa. Há uma tendência a ser volúvel, mesmo desleal; as ideias que ela acata não produzem impressão profunda ou permanente. Ela se “apegará ao garoto e deixará escapar o homem maduro e experiente” ou o contrário (linhas 2 e 3) sem compreender o que está fazendo. É passível de acessos de melancolia que ela procura curar com rodadas de bebida ou explosões apavoradas de fúria imponderada.

156


PRÍNCIPE DE BASTÕES

O príncipe de Bastões representa a parte aérea do fogo, com sua faculdade de expansão e volatilização. Rege do vigésimo primeiro grau de Câncer ao vigésimo grau de Leão. Ele é um guerreiro de armadura completa de cota de malha escamada, mas seus braços são nus devido ao seu vigor e atividade.72 Usa uma coroa de raios encimada por uma cabeça de leão alada, e dessa coroa pende uma cortina de chamas. No seu peito está o sigillum de To Mega Therion. Em sua mão esquerda ele porta o bastão da fênix do Segundo Adepto (no ritual de 5° = 6□ da R. R. et A. C.), o bastão do poder e energia, enquanto que com seu outro braço ele segura as rédeas do leão que tira sua biga,73 a biga que é fortalecida por uma roda que irradia chamas. Ele conduz a biga sobre um mar de flamas, tanto onduladas quanto salientes. As qualidades morais próprias a esta figura são vivacidade e força. Mas ele se inclina, por vezes, para a ação sob impulso; por vezes facilmente guiado por influências externas; às vezes, especialmente tratando de insignificâncias, ele é presa da indecisão. É frequentemente violento, particularmente ao expressar uma opinião, mas não mantém 72

Isto na versão original do Tarô de Thoth. Em todas as posteriores o príncipe de Bastões não enverga armadura (NT). 73

Na versão original do baralho. Em todas as posteriores o bastão é empunhado pela mão direita e o braço esquerdo segura as rédeas (NT).

157


necessariamente a opinião que defende tão enfaticamente. Enuncia uma proposição vigorosa pelo simples motivo de enunciá-la. Na verdade, ele é muito lento para decidirse inteiramente sobre qualquer assunto, mas sempre enxerga ambos os lados de toda questão. É essencialmente justo, mas sente sempre que a justiça não é para ser atingida no mundo intelectual. Possui caráter intensamente nobre e generoso. Pode ser um extravagante fanfarrão, enquanto que às escondidas ri tanto do objeto de sua jactância quanto de si mesmo por jactar-se daquilo. É romântico, especialmente em assuntos referentes à história e a tradição, até as raias da loucura e pode engendrar “truques” e pregar elaboradas peças. É possível que escolha algum joão-ninguém inofensivo e o persiga durante anos munido de todas as armas de ridicularização, tal como Swift atormentava o infeliz Partridge, tudo sem o menor ânimo, pronto para abrir mão da camisa que usa se sua vítima a estar necessitando. Seu senso de humor é onívoro e pode fazer dele uma figura misteriosa, temida sem razão por pessoas que efetivamente nada sabem a respeito dele salvo seu nome ‒ como um símbolo de terror. Isto se deve à influência do último decanato de Câncer sobre esta carta. Uma de suas maiores faltas é o orgulho. Alimenta um desprezo infinito por mesquinhez e pequenez de qualquer espécie. Sua coragem é fanaticamente forte e sua tolerância, incansável. Está sempre lutando contra probabilidades, e sempre vence a longo ‒ longuíssimo ‒ prazo, o que se deve principalmente à sua enorme capacidade de trabalho, o qual ele exerce pelo próprio trabalho, “sem ânsia de resultado”; talvez seu altivo desprezo pelo mundo como um todo ‒ que, contudo, coexiste com profundo e extático respeito pelo “todo homem e toda mulher” como “uma estrela” ‒ seja responsável por isso. Quando esta carta é mal dignificada o caráter degenera. Cada uma das qualidades mencionadas anteriormente é flagrada em sua antítese. Há grande crueldade nele, em parte sádica e em parte devida à insensibilidade que nasce da indiferença, e ‒ num certo sentido ‒ preguiça! Assim, ele pode ser também intolerante, preconceituoso e ocioso, principalmente porque isto lhe poupa problemas. Além disso, ele pode ser um fanfarrão vazio e um grande covarde. No Yi King, a parte aérea do fogo é representada pelo quadragésimo segundo hexagrama, Yi, que significa adição, aumento. Repleto de virtude e confiante disto ele contempla o labor de alcance estupendo, frequentemente com a ideia expressa na linha 5: “com coração sincero buscando beneficiar tubo abaixo”. Nisto pode atingir enorme sucesso. Mas este curso é desmedidamente perigoso. “Vemos um para cujo aumento nenhum contribuirá, enquanto muitos tentarão assaltá-lo. Ele não acata nenhuma regra regular na disposição de seu coração” (linha 6). Evitado esse período, surgem “partidos que acrescentam ao suprimento de seu assunto dez pares de carapaças de tartaruga cujos oráculos não podem ser opostos ‒ que o rei as empregue apresentando suas oferendas a Deus...” (linha 2).

158


PRINCESA DE BASTÕES

A princesa de Bastões representa a parte terrestre do fogo; poder-se-ia dizer que ela é o combustível do fogo. Esta expressão sugere a atração química irresistível da substância combustível. Ela rege os céus em um quadrante da porção em torno do polo norte. A princesa é, portanto, mostrada com as plumas da justiça fluindo como chamas de sua fronte; e ela está despida, indicando que a ação química só pode ocorrer quando o elemento está perfeitamente livre para combinar-se com seu parceiro. Ela porta um bastão coroado com o disco do Sol e salta numa chama ondulante que lembra, pela sua forma, a letra Yod. Pode-se dizer que esta carta representa a dança da sacerdotisa virgem dos Senhores do Fogo, pois ela está a serviço do altar dourado ornamentado de cabeças de carneiros, simbolizando os fogos da primavera. O caráter da princesa é extremamente individual. Ela é brilhante e arrojada. Cria sua própria beleza por seu vigor e energia essenciais. A força de seu caráter impõe a impressão de beleza sobre quem contempla. No ódio ou no amor ela é brusca, violenta e implacável. Consome tudo que adentra sua esfera. É ambiciosa e repleta de aspiração, cheia de entusiasmo amiúde irracional. Jamais esquece uma ofensa e a única qualidade de paciência a ser encontrada nela é a paciência com a qual fica de emboscada para se vingar. 159


Tal mulher, mal dignificada, exibe os defeitos dessas qualidades. Ela é superficial e teatral, completamente sem profundidade e falsa, e, no entanto, sem suspeitar que seja qualquer coisa do tipo, pois ela acredita inteiramente em si mesma, mesmo quando é aparente ao observador mais comum que ela está meramente no espasmo do humor. Ela é cruel, inconfiável, pérfida e tirânica. No Yi King a parte terrestre do fogo é descrita pelo vigésimo sétimo hexagrama, î. Este mostra uma pessoa onívora em matéria de paixão de qualquer espécie, completamente indiferente quanto aos meios a serem empregados para obter satisfação, e insaciável. O comentário Yi é composto pela alternância da advertência e do encorajamento.

160


CAVALEIRO DE COPAS

O cavaleiro de Copas representa a parte ígnea da água, o ligeiro ataque apaixonado da chuva e das fontes; mais intimamente, o poder de solução da água. Ele rege os céus do vigésimo primeiro grau de Aquário ao vigésimo grau de Peixes. Está trajado de armadura negra munida de asas claras que, somadas à postura do salto de seu cavalo de batalha indica que ele representa o aspecto mais ativo da água. Na mão direita segura uma taça da qual emerge um caranguejo, o signo cardeal da água, simbolizando agressividade. Seu totem é o pavão, pois uma das marcas da água sob sua forma mais ativa é o brilho. Há aqui também alguma referência aos fenômenos da fluorescência. As características da pessoa por esta carta significada são, no entanto, majoritariamente passivas, de acordo com a atribuição zodiacal. Ele é gracioso, diletante, com as qualidades de Vênus, ou de um Júpiter débil. É afável de uma maneira passiva. É ágil para reagir à atração, tornando-se facilmente entusiasta sob tal estímulo, mas não é muito persistente. É sumamente sensível à influência externa, mas seu caráter carece de profundidade material. Quando a carta é mal dignificada, ele é sensual, ocioso e mentiroso. E, no entanto, a despeito de tudo isso, possui uma inocência e pureza que constituem a essência de sua natureza. Porém ele é, no conjunto, tão superficial que é difícil alcançar essa profundidade. “Seu nome é escrito na água”.

161


No Yi King a parte ígnea da água é representada pelo quinquagésimo quarto hexagrama, Kwei Mei. O comentário é singularmente obscuro e um tanto sinistro. Trata das dificuldades de combinar corretamente opostos tais como fogo e água (compare com a rainha de Bastões, embora neste caso a água seja a influência tranquilizadora e moduladora, enquanto que aqui é o fogo que cria problema). Vivacidade e violência se ajustam mal num caráter naturalmente plácido; é, de fato, raro encontrar uma pessoa que conseguiu harmonizar esses elementos conflitantes. Ele tende a descontrolar todos os seus negócios, e a menos que a pura sorte o atinja, sua carreira inteira será um registro contínuo de fracassos e desastres. Com frequência sua “guerra civil” mental termina em esquizofrenia ou insanidade melancólica. O abuso de estimulantes e narcóticos pode antecipar a catástrofe.

162


RAINHA DE COPAS

A rainha de Copas representa a parte aquosa da água, o poder desta de recepção e reflexão. No zodíaco a regência é do vigésimo primeiro grau de Gêmeos ao vigésimo grau de Câncer. A imagem dela é de extrema pureza e beleza, com sutileza infinita; ver sua verdade é dificilmente possível, pois ela reflete a natureza do observador com grande perfeição. É representada entronizada sobre água tranquila. Em sua mão segura uma taça semelhante a uma concha, da qual emerge uma pequena lagosta, e ela segura também o lótus de Ísis, da Grande Mãe. Ela tem como manto e véu curvas sem fim de luz, e o mar sobre o qual está entronizada transmite as imagens quase contínuas da imagem que ela representa. As características associadas a esta carta são principalmente sonho, ilusão e tranquilidade. Ela é a perfeita agente e paciente, capaz de receber e transmitir tudo sem que ela mesma seja afetada por isso. Se mal dignificada, todas estas qualidades se degradam. Tudo que passar por ela será refratado e distorcido. Mas, de modo geral, suas características dependem mormente das influências que a afetam. No Yi King, a parte aquosa da água é representada pelo quinquagésimo oitavo hexagrama, Tui. O comentário é tão descolorido quanto a carta; consiste de suaves exortações a respeito do assunto prazer. Pode-se realmente dizer que normalmente 163


pessoas desse tipo não possuem nenhum caráter próprio, a não ser que se possa chamar de característica estar à disposição de todo impacto ou impressão. Há, entretanto, uma sugestão (linha 6) de que o prazer principal de pessoas desse tipo é conduzir e atrair os outros, sendo tais pessoas, consequentemente (com suficiente frequência) demasiadamente populares.

164


PRÍNCIPE DE COPAS

O príncipe de Copas representa a parte aérea da água. De um lado, elasticidade, volatilidade, equilíbrio hidrostático; do outro, a faculdade catalítica e a energia do vapor d‟água. Sua regência é do vigésimo primeiro grau de Libra ao vigésimo grau de Escorpião. Ele é um guerreiro parcialmente trajado de armadura, a qual parece, contudo, mais um desenvolvimento do que um revestimento. Seu elmo é encimado por uma águia, e sua biga, semelhante a uma concha, também é tirada por uma águia. Suas asas são tênues, quase de gás. Trata-se aqui de uma referência ao seu poder de volatilização entendido no sentido espiritual. Na mão direita ele tem uma flor de lótus, sagrada ao elemento água, e na mão esquerda ele segura uma taça da qual sai uma serpente. O terceiro totem, o escorpião, não é exibido na figura, visto que a putrefação que representa constitui um processo extremamente secreto. Abaixo da biga vê-se a água tranquila e estagnante de um lago sobre o qual a chuva se precipita pesadamente. O simbolismo todo desta carta é sumamente complicado porque Escorpião é o mais misterioso dos signos e a porção manifestada dele simbolizada pela águia é, na realidade, a parte menos importante de sua natureza.

165


As características morais da pessoa retratada nesta carta são sutileza, violência reservada e destreza. O príncipe de Copas é intensamente reservado, um artista em todos os seus meios. À superfície ele parece calmo e imperturbável, mas se trata de uma máscara da mais intensa paixão. Superficialmente ele é suscetível a influências externas, mas as aceita somente para transmutá-las em proveito de seus projetos secretos. É, assim, completamente destituído de consciência no sentido ordinário da palavra, sendo, portanto, geralmente alvo de desconfiança por parte de seus vizinhos. Eles sentem que não o entendem e não poderão jamais fazê-lo. De modo que ele inspira um medo irracional. E ele é, de fato, insensível. Importa-se intensamente com o poder, a sabedoria e suas próprias metas. Não sente responsabilidade em relação aos outros, e embora suas habilidades sejam tão imensas, não se pode contar com ele para trabalhar sob a rotina de alguém. No Yi King a parte aérea da água é representada pelo sexagésimo primeiro hexagrama, Kung Fu. Esta é uma das mais importantes figuras no Yi: ele “move mesmo porcos e peixes e conduz à grande boa fortuna”. Suas dignidade e correspondências são múltiplas e grandiosas porque ele é igualmente um “grande Li”, o trigrama do Sol formado pela duplicação das linhas. Julgando pelo formato, ele sugere um barco, mas também a figura geomântica de um cárcere, Saturno em Capricórnio. Esta carta é, portanto, uma daquelas de grande poder; Libra passando para Escorpião é de uma energia e peso tremendos, ativos e críticos. Para tais pessoas boa vontade, sinceridade e combinação correta são os elementos essenciais do sucesso; seu perigo é a ambição jactanciosa.

166


PRINCESA DE COPAS

A princesa de Copas representa a parte terrestre da água, em particular, a faculdade de cristalização. Representa o poder da água de dar substância à ideia, sustentar a vida e formar a base da combinação química. É representada como uma figura que dança, trajada com uma veste flutuante sobre cujas orlas veem-se cristais se formando. Sua cabeça é encimada por um cisne de asas abertas. O simbolismo deste cisne lembra aquele do cisne da filosofia oriental, que é a palavra AU M ou A UM GN , que é símbolo de todo o processo da criação. 74 Ela segura uma taça coberta da qual emerge uma tartaruga. Trata-se mais uma vez da tartaruga que na filosofia hindu sustenta o elefante sobre cujas costas está o universo. Ela dança sobre um mar espumante no qual se entretém um dourado, o peixe real, que simboliza o poder da criação. O caráter da princesa é infinitamente gracioso. Residem em seu caráter toda a doçura, toda a voluptuosidade, gentileza, amabilidade e ternura. Ela habita o mundo do romance, no sonho perpétuo do arrebatamento. Sob um exame superficial poder-se-ia

74

Consultar Magick, onde há uma análise e explicação completas desta palavra.

167


julgá-la egoísta e indolente, mas seria uma impressão completamente falsa, pois de maneira silenciosa e fácil ela executa seu trabalho. No Yi King, a parte terrestre da água é representada pelo quadragésimo primeiro hexagrama, Sun. Isto significa diminuição, a dissolução de toda a solidez. As pessoas descritas por esta carta são muito dependentes de outras, mas ao mesmo tempo úteis a estas. Raramente, no máximo, têm importância individualmente. Como auxiliadoras, são insuperáveis.

168


CAVALEIRO DE ESPADAS

O cavaleiro de Espadas representa a parte ígnea do ar; ele é o vento, a tempestade. Representa o poder violento do movimento aplicado a um elemento aparentemente controlável. Rege do vigésimo primeiro grau de Touro ao vigésimo grau de Gêmeos. Ele é um guerreiro com elmo e como cimeira deste ostenta uma asa revolvente. Montado num cavalo enlouquecido, ele se precipita pelos céus, o espírito da tempestade. Numa das mãos, uma espada, na outra, um punhal. Ele representa a ideia do ataque. As qualidades morais de uma pessoa assim indicada são atividade e habilidade, sutileza e perícia. Ele é impetuoso, delicado e corajoso, mas completamente a presa de sua ideia, que a ele acode como uma inspiração sem reflexão. Se mal dignificado, ausente o vigor de todas essas qualidades, ele é incapaz de decisão ou propósito. Qualquer ação que toma é facilmente eliminada do caminho pela oposição. Violência inadequada significa futilidade. “Chimaera bombinans in vacuo”. No Yi King a parte ígnea do ar é representada pelo trigésimo segundo hexagrama, Hang. É a primeira oportunidade em que se revela simples demonstrar o estreito paralelismo técnico que identifica o pensamento e experiência chineses com aqueles do Ocidente. Pois o significado é longa continuação: “perseverança no bem-fazer, ou continuamente atuando a lei do próprio ser”, como Legge coloca em sua nota ao hexagrama, o que parece incongruente em relação à ideia qabalística da energia violenta 169


aplicada ao menos estável dos elementos. Mas o trigrama do ar também indica madeira, e o hexagrama pode ter sugerido o jorro irresistível da seiva e seu efeito no fortalecimento da árvore. Esta conjectura é apoiada pela advertência da linha 6: “A linha mais superior, dividida, mostra seu tópico excitando a si mesmo à longa continuação. Haverá mal.” Assim entendido, a imagem da “chama ampliada da mente”, como Zoroastro a denomina, pode muito bem ser acrescida à descrição anterior. É a Vontade Verdadeira explodindo espontaneamente a mente. A influência de Touro impele para a estabilidade, e a do primeiro decanato de Gêmeos para a inspiração. Assim retratemo-lo integer vitae scelerisque purus, um feixe de luz do ideal absorvendo a vida toda em aspiração concentrada, passando do terrestre Touro ao exaltado Gêmeos. Aqui também é mostrado (como no Yi) o perigo ao assunto deste símbolo, pois o primeiro decanato é a carta chamada interferência, ou no baralho antigo, força abreviada.

170


RAINHA DE ESPADAS

A rainha de Espadas representa a parte aquosa do ar, a elasticidade deste elemento, e seu poder de transmissão. Rege do vigésimo primeiro grau de Virgem ao vigésimo grau de Libra. Está entronizada nas nuvens. A parte superior de seu corpo está nua, mas ela veste um cinto radiante e um sarão. Seu elmo é encimado pela cabeça de uma criança e dela fluem nítidos raios luminosos, os quais iluminam seu império de rocio celestial. À mão direita ela tem uma espada, à esquerda a cabeça recém-cortada de um homem barbudo. Ela é a percepção clara, consciente da ideia, a libertadora da mente. A pessoa simbolizada por esta carta deve ser intensamente perceptiva, um arguto observador, um intérprete perspicaz, um individualista intenso, ágil e preciso para registrar ideias; na ação, confiante; no espírito, benevolente e justo. Os movimentos dessa pessoa serão graciosos e sua capacidade para dançar e se equilibrar, excepcional. Se mal dignificada, todas essas qualidades serão dirigidas para propósitos indignos. Ela será perversa, dissimulada, velhaca e inconfiável, e desta maneira muito perigosa devido à beleza e encanto superficiais que a distinguem. No Yi King, a parte aquosa do ar é representada pelo vigésimo oitavo hexagrama, Ta Kwo. A forma sugere uma trave frágil.

171


O caráter, em si excelente, não é capaz de sofrer interferência. Previdência e prudência, cuidado no preparo da ação constituem uma proteção (linha 1). Deve-se ganhar proveito, ademais, confiando-se na ajuda de camaradas aparentemente inconvenientes (linhas 2 e 5). Esta força estranha com frequência proporciona a derrota da fraqueza inerente, podendo, inclusive, criar superioridade definida diante da circunstância (linha 4). Neste caso, pode haver a tentação de empreender aventuras estouvadas, pré-condenadas ao malogro. Mas mesmo assim, não se incorre em culpa (linha 6); as condições da Vontade Verdadeira foram satisfeitas, e o resultado é compensado pelo sentimento de que o procedimento correto (embora infeliz) foi adotado. Tais pessoas extraem amor e devoção intensos dos pontos mais inesperados.

172


PRÍNCIPE DE ESPADAS

Esta carta representa a parte aérea do ar. Pela sua interpretação particular, é intelectual, é um retrato da mente como tal. Rege do vigésimo primeiro grau de Capricórnio ao vigésimo grau de Aquário. A figura deste príncipe está trajada com armadura de textura estreita adornada com padrão definido, e a biga que o transporta sugere (ainda mais estritamente) ideias de geometricidade. A biga é tirada por crianças aladas, as quais olham e saltam irresponsavelmente em qualquer direção que motive sua fantasia; não estão submetidas às rédeas, mas sim perfeitamente guiadas por seu capricho. A biga, consequentemente, se move com suficiente facilidade, mas é totalmente incapaz de avançar em qualquer direção definida, a não ser acidentalmente. Eis um retrato perfeito da mente. Sobre a cabeça desse príncipe, entretanto, há uma cabeça de criança radiante, pois existe uma coroa secreta na natureza desta carta; se concentrada, é exatamente Tiphareth. A operação de seus processos lógicos mentais reduziu o ar, que é seu elemento, a muitos desenhos geométricos diversificados, mas nestes não há nenhum plano real; eles são demonstrações dos poderes da mente sem propósito definido. Em sua mão direita há uma espada erguida, recurso de criação, mas na esquerda há uma foicinha, de modo que o que ele cria, ele instantaneamente destrói. 173


Uma pessoa assim simbolizada é puramente intelectual. É cheia de ideias e projetos que se atropelam entre si. É uma massa de excelentes ideais desvinculados de esforço prático. Possui todo o aparato do pensamento no mais alto grau, é sobejamente inteligente, admiravelmente racional, mas instável quanto aos propósitos, e na realidade indiferente às suas próprias ideias, ciente de que qualquer uma delas é tão boa como qualquer outra. Reduz tudo à irrealidade pela remoção de sua substância e transmutando-a para um mundo ideal de raciocínio que é puramente formal e estranho à relação com quaisquer fatos, mesmo aqueles sobre os quais é baseado. No Yi King a parte aérea do ar é representada pelo quinquagésimo sétimo hexagrama, Sun. É uma das mais difíceis figuras do livro devido à sua ambivalência: significa tanto flexibilidade quanto penetração. Imensamente poderosas por causa de sua plena liberdade de princípios estabelecidos, capazes de manter e formular qualquer argumento conceptível, não suscetíveis de arrependimento ou remorso, loquazes para “citar as Escrituras” de maneira apropriada e sagazes para sustentar qualquer tese, indiferentes com relação ao destino de um argumento contrário apresentado dois minutos antes, impossíveis de serem derrotadas porque qualquer posição é tão boa quanto qualquer outra, prontas para entrar em combinação com o elemento mais próximo disponível, essas pessoas ardilosas e elásticas são valiosas somente quando firmemente dominadas por vontade criativa fortalecida por uma inteligência superior a delas. Na prática, isto é raramente possível: não há como conquistá-las, nem mesmo compactuando com seus apetites. E elas podem ser, entretanto, violentas, até incontroláveis. Excêntricos, aficionados da bebida, das drogas, do humanitarismo, da música ou da religião se enquadram frequentemente nessa classe; mas mesmo quando é este o caso, não há ainda estabilidade. Perambulam de um culto ou vício para o outro, sempre defendendo brilhantemente com o fanatismo de uma convicção arraigada o que realmente não passa de um capricho do momento. É fácil ser enganado por tais pessoas, pois sua manifestação em si é enormemente potente: é como se um imbecil oferecesse a alguém os diálogos de Platão. Podem, deste modo, adquirir uma grande reputação tanto de profundidade quanto de largueza mentais.

174


PRINCESA DE ESPADAS

A princesa de Espadas representa a parte terrestre do ar, a fixação do volátil. Ela realiza a materialização da ideia. Representa a influência do céu sobre a terra. Partilha das características de Minerva e de Ártemis, e há alguma sugestão da Valquíria. Ela tipifica numa certa medida a ira dos deuses, e aparece com elmo, cuja cimeira é a Medusa de cabelos de serpentes. Está de pé ante um altar improdutivo como se para vingar a profanação deste e desfere golpes descendentes com sua espada. O céu e as nuvens, que são sua casa, parecem irados. O caráter da princesa é duro e vingativo. Sua lógica é destrutiva. Ela é rígida e agressiva, senhora de grande sabedoria prática e perspicácia no que diz respeito às coisas materiais. Demonstra grande habilidade e destreza na administração de negócios práticos, especialmente onde são de natureza controvertida. Ela é muito hábil no estabelecimento de controvérsias. Se mal dignificada, todas estas qualidades se dispersam; ela se torna incoerente e todos os seus dons tendem a se combinar para formar uma espécie de velhacaria cujo fim não é digno do meio. No Yi King a parte terrestre do ar é representada pelo décimo oitavo hexagrama, Ku. Este significa “problemas”; é, no que concerne a todos os assuntos práticos e

175


materiais, o símbolo mais desafortunado do livro. Todas as boas qualidades do ar se prostram pelo peso, são suprimidas, sufocadas. As pessoas assim caracterizadas são mentalmente lentas, presas de constante ansiedade, esmagadas por qualquer tipo de responsabilidade, mas especialmente nos assuntos familiares. Um dos pais ou ambos serão geralmente encontrados na etiologia. É difícil compreender a linha 6, que “nos mostra alguém que não serve nem a rei nem a senhor feudal, mas num espírito altaneiro prefere seguir sua própria inclinação”. A explicação é que uma princesa assim, sendo “o trono do espírito”, pode sempre ter a opção de jogar tudo pela janela, “soprando tudo céu acima”. Tal ação seria explicável pelas características indicadas anteriormente no que diz respeito à carta quando bem dignificada. Tais pessoas são extremamente raras, e é suficientemente natural que surjam geralmente como “Filhos do infortúnio”. Entretanto, fazem a escolha certa e no devido tempo obtêm sua recompensa.

176


CAVALEIRO DE DISCOS

O cavaleiro de Discos representa a parte ígnea da terra e se refere particularmente aos fenômenos das montanhas, terremotos e gravitação, representando, contudo, também a atividade da terra considerada como produtora de vida. Rege do vigésimo primeiro grau de Leão ao vigésimo grau de Virgem, dizendo respeito, deste modo, muito à agricultura. Este guerreiro é baixo e robusto. Veste uma armadura de placas de grande solidez, mas seu elmo, encimado pela cabeça de um veado, está inclinado para trás, pois no momento sua função se limita inteiramente à produção de alimento, razão pela qual ele está armado com um mangual. O disco que ele porta, ademais, é bem maciço e representa a nutrição. Estas características são corroboradas pelo seu cavalo, um cavalo de tiro solidamente apoiado sobre todas as quatro patas, diferentemente do que ocorre com os demais cavaleiros. Ele cavalga pela terra fértil; mesmo as colinas distantes são campos cultivados. As pessoas simbolizadas pelo cavaleiro de Discos tendem a ser morosas, pesadas e preocupadas com coisas materiais. São laboriosas e pacientes, mas dispõem de pouca compreensão intelectual mesmo dos assuntos que lhes dizem respeito muito intimamente. O sucesso que alcançam neste domínio se deve ao instinto, à imitação da natureza. Falta-lhes iniciativa; seu fogo é o fogo de combustão lenta sem chama do processo de cultivo. 177


Se mal dignificadas, essas pessoas são irremediavelmente estúpidas, servis, absolutamente incapazes de presciência mesmo em seus próprios negócios, ou de assumir um interesse inteligente em qualquer coisa exterior a elas. São rudes, rabugentas e ciumentas (de uma maneira obtusa) daquilo que compreendem instintivamente ser o estado superior dos outros, mas não dispõem da coragem ou inteligência para se aprimorarem. Contudo, se mantêm intrometendo-se de modo irritante em assuntos insignificantes; interferem e inevitavelmente estragam seja lá o que for que passe pelo caminho delas. No Yi King, a parte ígnea da terra é representada pelo sexagésimo segundo hexagrama, Hsiao Kwo. Este é tão importante quanto seu complemento, Kung Fu (ver príncipe de Copas); é um “grande Khan”, o trigrama da Lua com cada linha dobrada. Mas também é sugestivo da figura geomântica Conjunctio, Mercúrio em Virgem, correspondendo muito de perto realmente à atribuição de fogo da terra no sistema qabalístico. Para os sábios chineses, além disso, a forma da figura dá a ideia de uma ave. O significado é, consequentemente, modificado pela influência humana do tipo mais frívolo e irresponsável, a “insignificante prostituição atrevida” de Shakespeare, o Souvent femme varie 75 do cínico francês e o populacho volúvel de Coriolano; realmente, da própria história. Mas Mercúrio em Virgem simboliza a inteligência (e mesmo a ideia criativa) aplicada à agricultura e isto (mais uma vez!) harmoniza perfeitamente com o dez de Discos, que é regido por esse planeta e esse signo. Isso se soma à massa superabundante de evidência de que esse sistema inteiro de simbolismo é baseado nas realidades da natureza, como entendido pela escola materialista de ciência ‒ se esta escola sobreviver em alguma universidade obscura e obsolescente! Tal coerência, tal esfoliação introvertida não pode ser o paralelismo acidental dos sonhos de filosofias nebulosas. O caráter descrito por esta carta é, portanto, sumamente complexo, e, no entanto, admiravelmente bem entretecido; mas os perigos da carta são indicados pelos símbolos da Lua e a ave. Nos casos mais felizes, as qualidades assim indicadas serão o romance e a imaginação; mas a ambição jactanciosa, a busca do ignis fatuus,76 a superstição e o pendor para perder tempo no devaneio ocioso são riscos encontrados com demasiada frequência junto a esses filhos do solo. Thomas Hardy pintou muitos retratos admiráveis desse tipo. De má estrela realmente e enegrecidos com fel são aqueles que profanaram o fogo sagrado, não acendendo a terra para a vida nova, mais copiosa, mais variada, mas perscrutando no luar falacioso, virando seus rostos para sua mãe-terra.

75

Com frequência a mulher se altera (NT).

76

Fogo-fátuo (NT).

178


RAINHA DE DISCOS

A rainha de Discos representa a parte aquosa da terra, a função deste elemento como mãe. Ela rege do vigésimo primeiro grau de Sagitário ao vigésimo grau de Capricórnio. Representa passividade, usualmente no seu aspecto mais elevado. A rainha de Discos está entronizada sobre a vida da vegetação. Contempla o fundo, onde um rio tranquilo flui sinuosamente por um deserto arenoso para trazer a este fertilidade. Oásis começam a se mostrar em meio à aridez. Diante dela se posta um bode sobre uma esfera. Há aqui uma referência ao dogma de que a Grande Obra é fertilidade. A armadura dela é composta de pequenas escamas ou moedas e seu elmo é adornado com os grandes chifres espiralados do markhor. 77 Em sua mão direita ela segura um cetro encimado por um cubo, no interior do qual há um hexagrama tridimensional, e no braço esquerdo se encaixa seu próprio disco, uma esfera de lupes e círculos entrelaçados. Ela representa, assim, a ambição da matéria de participar da grande obra da criação. As pessoas enquadradas na significação desta carta possuem o melhor das qualidades mais serenas. São ambiciosas, mas somente nas direções proveitosas. Possuem imensas reservas de afeto, amabilidade e grandeza de coração. Não são intelectuais e não especialmente inteligentes, porém instinto e intuição são mais do que 77

Capra megaceros, grande bode da região norte da Índia; o markhor é chamado também de devorador de serpentes (NT).

179


adequados para suas necessidades. Estas pessoas são calmas, mourejadoras, práticas, sensatas, mansas, amiúde (de um modo reticente e despretensioso) lascivas e mesmo debochadas. São inclinadas ao abuso do álcool e das drogas. É como se só pudessem concretizar sua felicidade essencial saindo de si mesmas. Se mal dignificadas, são obtusas, servis, tolas; são mais burros de carga do que trabalhadores. A vida para elas é puramente mecânica e não conseguem se erguer, ou sequer procurar se erguer, acima do quinhão que lhes foi apontado. No Yi King, a parte aquosa da terra é representada pelo trigésimo primeiro hexagrama, Hsien, cujo significado é influência. O comentário descreve o efeito de mover várias partes do corpo, dos dedos do pé aos maxilares e a língua. Isto é mais um incremento do que foi dito anteriormente do que uma exata correspondência, embora ainda assim não haja discordância. O conselho geral é ir à frente sossegadamente sem ataque aberto às situações existentes.

180


PRÍNCIPE DE DISCOS

O príncipe de Discos representa a parte aérea da terra, indicando a florescência e a frutificação deste elemento. Rege do vigésimo primeiro grau de Áries ao vigésimo grau de Touro. A figura desse príncipe é meditativa. Ele é o elemento terra tornado inteligível. Trajado de armadura leve, seu elmo é coroado pela cabeça de um touro e sua biga é tirada por um boi, este animal sendo peculiarmente sagrado ao elemento terra. Em sua mão esquerda ele segura seu disco, que é uma esfera semelhante a um globo, marcada com símbolos matemáticos como querendo sugerir o planejamento envolvido na agricultura. Na mão direita ele segura um cetro de topo esférico encimado por uma cruz, um símbolo da Grande Obra realizada, pois é sua função produzir a partir do material do elemento aquela vegetação que é o alimento do próprio espírito. O caráter indicado por essa carta é o da grande energia trazida para sustentar o mais denso dos assuntos práticos. O príncipe de Discos é energético e resistente, um administrador capaz, um trabalhador constante e perseverante. É competente, engenhoso, ponderado, cauteloso, confiável, imperturbável; está constantemente procurando novos usos para coisas comuns e adapta suas circunstâncias aos seus propósitos num plano lento, estável e bem concebido.

181


Quanto à emoção, esta lhe falta quase que inteiramente. Ele é um tanto insensível e pode parecer obtuso, mas não é; aparenta isto porque não faz nenhum esforço para compreender ideias que estejam além de seu alcance. Frequentemente parece estúpido e tende a ser rancoroso com os tipos mais espirituais. Custa para zangar-se, mas se impulsionado à raiva, torna-se implacável. Não é muito praticável distinguir entre dignidade boas e más nesta carta; pode-se apenas dizer que em caso do príncipe de Discos ser mal dignificado, tanto a qualidade quanto a quantidade de suas características são um pouco degradadas. A reação dos outros em relação a ele dependerão quase que inteiramente de seus próprios temperamentos. No Yi King, a parte aérea da terra é representada pelo quinquagésimo terceiro hexagrama, Kien. O comentário concerne ao voo de gansos selvagens “gradativamente se aproximando da praia”, em seguida “as grandes rochas”, em seguida “avançadas para as planícies áridas ‒ as árvores ‒ o monte elevado”; finalmente às “grandes alturas”. Assim simboliza a emancipação vagarosa e persistente de condições repressivas. A descrição é ainda mais feliz do que aquela dada pela Qabalah, embora completamente congruente com esta. Considerações práticas nunca estão ausentes no pensamento chinês mesmo no que este tem de mais abstruso e metafísico. A heresia fundamental da Loja Negra é o desprezo pelo “mundo, a carne e o diabo”, todos estes essenciais ao plano do universo; é primordial para a Grande Obra que o Adepto, desse modo, ordene os negócios de sorte que “mesmo os germes maus da matéria se tornem igualmente úteis e bons”. O erro dos místicos cristãos nesse ponto foi responsável por mais crueldade, miséria e insanidade coletiva do que todos os outros erros juntos; seu veneno pode ser localizado até nos ensinamentos de Freud, que supôs que o inconsciente era “o diabo”, enquanto que, na verdade, é o instinto que expressa, sob um véu, o ponto-de-vista inerente de cada um e, corretamente compreendido, é a chave da iniciação, e uma sugestão de qual semente pode florescer e frutificar como o “Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião”, pois “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Mas indubitavelmente o julgamento dos Adeptos Isentos (pois são eles que determinam, sob a orientação dos Mestres do Templo, todos esses detalhes da doutrina) com respeito e essa carta foi influenciado pela transição desta de Áries a Touro. Esquece-se com demasiada frequência que Touro é a casa de Vênus e que a Lua é aí exaltada. A nova doutrina formulada no presente ensaio torna a cor primária da Terra não a negra, mas a verde; insiste que todo disco é um símbolo vivo e revolvente. A tese central de O Livro da Lei afirma a perfeição do universo. Em sua concepção panteística todas as possibilidades são iguais em valor; cada e todo ponto-evento é “um jogo de Nuit”, como está escrito em The Book of Wisdom or Folly. 78 “... Nada ateis! Que não haja diferença feita em vosso meio entre uma coisa & qualquer outra coisa; pois daí vem dor. Mas quem quer que prospere nisto, que ele seja o chefe de todos!“ Liber 78

O Livro da Sabedoria ou Loucura (NT).

182


AL I, 22-23. Ou, ainda de maneira mais abrangente e simples: “Todo número é infinito; não há diferença. “ Liber AL I, 4.

183


PRINCESA DE DISCOS

A princesa de Discos, a última das cartas da corte, representa a parte terrestre da terra. Ela está consequentemente à beira da transfiguração. É forte e bela, exibindo uma expressão de meditar intenso, como se na iminência de tornar-se ciente de um prodígio secreto. Ela usa no topo da cabeça como uma cimeira a cabeça de um carneiro e seu cetro desce para dentro da terra, onde sua extremidade superior se converte num diamante, a pedra preciosa de Kether, simbolizando assim o nascimento da mais elevada e pura luz no mais profundo e escuro dos elementos. Ela está no interior de um bosque de árvores sagradas perante um altar que sugere um feixe de trigo, já que ela é uma sacerdotisa de Deméter. Dentro de seu corpo ela transporta o segredo do futuro. Sua sublimidade é enfatizada ainda pelo disco que porta, pois no centro dele está o ideograma chinês que indica a dupla força espiral da criação em equilíbrio perfeito, do que nasce a rosa de Ísis, a grande Mãe fértil. As características de um indivíduo significado por essa carta são excessivamente variadas para serem enumeradas. Pode-se resumi-las dizendo que ela é feminilidade na sua projeção última. Possui todas as características da mulher, dependendo inteiramente das influências às quais ela está submetida à manifestação de uma ou outra dessas características. Porém, em todos os casos seus atributos serão puros em si mesmos, e não necessariamente ligados a quaisquer outros atributos que de maneira normal 184


considera-se como simbólico. Num certo sentido, então, sua reputação geral será de inconsistência desnorteadora. É mais ou menos como um aparelho de extração de loteria do qual a extração de qualquer número não prediz ou influencia o resultado de qualquer operação subsequente. O fruto da filosofia de Thelema é saboreado, raro, maduro, nutrindo e vitalizando de sua maneira mais elevada e mais plena nessa meditação; pois para o adepto todo giro do aparelho é igualmente provável e igualmente um prêmio, visto que todo evento é “um jogo de Nuit”. No Yi King a parte terrestre da terra é representada pelo quinquagésimo segundo hexagrama, Kan. O significado é “montanha”. Quão sublime é a significação desta doutrina chinesa do equilíbrio e quão intimamente conforme aquela da Santa Qabalah ela é! A montanha é o mais sagrado dos símbolos terrestres, inflexível, forte e irremovível em sua aspiração ao Mais Alto, impelida como o é pela energia titânica do fogo oculto. Não é menos um hieróglifo da divindade mais íntima do que o próprio falo, mesmo à medida que Capricórnio, o signo do ano novo, é exaltado no zodíaco, sua divindade autóctone não menos que o próprio Antigo Mais Santo. É essencial para o estudante traçar essa doutrina para si mesmo em todos os símbolos: o ar, o elemento elástico e flexível, e, não obstante, que tudo penetra e o elemento da combustão; a água, fluída, mas incomprimível, o mais neutro e composto de todos os componentes da matéria viva, e, contudo, destrutiva até mesmo das rochas mais duras pelo ataque físico, e irresistível no seu poder ardente de solução; e o fogo, tão aparentado ao espírito que não é em absoluto uma substância, mas sim um fenômeno, tão integrado à matéria, todavia, que constitui o próprio núcleo e essência de todas as coisas. A característica de Khan no Yi King é repouso. Cada linha do comentário descreve o repouso nas partes do corpo alternadamente, e seus efeitos: os dedos do pé, as barrigas da perna, os quadris, a espinha e os maxilares. Este capítulo guarda, no que diz respeito a isso, um estreito paralelismo, linha por linha, com o trigésimo primeiro hexagrama, Hsien, o qual inicia a segunda seção do Yi. A doutrina rosicruciana do Tetragrammaton dificilmente poderia ser mais adequadamente expressa ‒ a todo ouvido que está sintonizado com a harmonia celestial. “Não há um planeta no firmamento Que em seu movimento não cante como um anjo, Inda cantando em coro ao querubim de olhos juvenis; Mas enquanto esta lamacenta veste de declínio Nos envolve, nossa natureza é incapaz de ouvi-lo.”

Que todo estudante deste ensaio, e deste livro de Tahuti, este Livro vivo que guia o homem através de todo o tempo, e o conduz à eternidade a cada página, retenha firmemente esta doutrina de suma simplicidade e sumo alcance em seu coração e mente, 185


inflamando o mais íntimo de seu ser, que ele, também, tendo explorado cada recesso do universo, possa aí encontrar a luz da verdade, assim chegado ao Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião, e realizar a Grande Obra, atingir o Summum Bonum, sabedoria verdadeira e felicidade perfeita!

186


QUARTA PARTE A S C ARTAS M ENORES

187


OS QUATRO ASES Os ases representam as raízes dos quatro elementos. Estão inteiramente acima e distintos das outras cartas menores do mesmo modo que se diz de Kether que é simbolizada apenas pelo ponto mais alto do Yod do Tetragrammaton. Nestas cartas não há manifestação real do elemento sob sua forma material. Elas formam um vínculo entre as cartas menores e as princesas, as quais regem os céus em torno do polo norte. O meridiano é a Grande Pirâmide, e os elementos regem, indo rumo ao leste, na ordem do Tetragrammaton, fogo, água, ar e terra. Assim, a grosso modo, ases-princesas, Bastões cobrem a Ásia, Copas o oceano Pacífico, Espadas as Américas, Discos Europa e África. Para tornar esta relação clara, pode-se observar um pouco o símbolo do pentagrama, ou escudo de Davi. Ele representa o espírito regendo os quatro elementos, sendo assim um símbolo do triunfo do homem. É muito difícil captar a ideia do elemento espírito. A letra Shin, que é a letra do fogo, tem que trabalhar duplamente representando também o espírito. Em termos gerais, as atribuições do espírito não são claras e simples como as dos outros elementos. É particularmente notável que o tablete do espírito no sistema enoquiano seja a chave para todo o dano, como no sistema hindu o akasha seja o ovo das trevas. Por outro lado, o espírito representa Kether. Talvez jamais estivesse na mente do Adepto Isento ou Adeptos Isentos que inventaram o Tarô irem tão longe nesta matéria. O ponto a ser retido é que tanto em sua aparência quanto em seu significado os ases não são os próprios elementos, mas sim as sementes destes elementos.

OS QUATRO DOIS Estas cartas se referem à Chokmah. Do ponto de vista da pessoa comum, Chokmah é realmente o número 1 e não o número 2 porque é a primeira manifestação. Kether está completamente ocultada, de maneira que ninguém conhece coisa alguma a respeito dela. Consequentemente, apenas ao atingir os duques um elemento aparece realmente como o próprio elemento. Chokmah é descontaminado de qualquer influência e por isso os elementos aqui aparecem em sua condição harmoniosa original. O dois de Bastões é chamado de Senhor do Domínio e representa a energia do fogo, o fogo sob sua forma melhor e mais elevada. O dois de Copas é o Senhor do Amor, desempenhando função similar para a água. O dois de Espadas foi anteriormente chamado de Senhor da Paz Restaurada, mas esta palavra restaurada está incorreta porque não houve nenhum distúrbio. Assim, Senhor da Paz é um título melhor, mas é preciso um pensar profundo e árduo para resolver isso já que a espada é tão intensamente ativa. Pode ser útil o estudo do ensaio 188


sobre o silêncio (pág. 120) para obter-se um paralelo: a forma negativa da ideia positiva. Consultar também o ensaio sobre castidade (Little Essays toward Truth, págs. 70-74.) que conclui: “Senhores Cavaleiros, sede vigilantes: vigiai por vossas armas e renovai vosso juramento, pois esse dia é de augúrio sinistro e letalmente carregado de perigo que vós não acumulareis até o trasbordamento com prazenteiras façanhas e audazes de dominadora, de viril castidade.” Ver também o testemunho de Catulo: domi maneas paresque nobis Novem continuas futationes. Tampouco deixe ele de compreender o gesto de Harpócrates; silêncio e castidade são isômeros. É tudo um caso da proposição geral de que a soma da energia infinita do universo é zero. O dois de Discos era chamado outrora de Senhor da Mudança Harmoniosa. Agora, simplesmente Mudança, e aqui a doutrina tem que ser expressa com um pouco mais de clareza. Sendo este naipe da terra, há uma ligação com as princesas e, portanto, com a Hé final do Tetragrammaton. A terra é o trono do espírito; tendo atingido a base, surge-se imediatamente de novo no topo. Daí, a carta manifesta o simbolismo da serpente dos anéis infinitos.

OS QUATRO TRÊS Estas cartas se referem à Binah; em cada uma delas é expresso o simbolismo da compreensão. A ideia se tornou fertilizada; o triângulo foi formulado. Em cada caso a ideia é de certa estabilidade que jamais pode ser transtornada, mas da qual uma criança pode resultar. O três de Bastões é, consequentemente, o Senhor da Virtude. A ideia de vontade e domínio foi interpretada no caráter. O três de Copas é chamado de Senhor da Abundância. A ideia de amor atingiu a fruição, mas isto é agora suficientemente abaixo da Árvore para introduzir uma diferenciação bastante definida entre os naipes, que não foi previamente possível. A ideia de divisão, de mutabilidade, a ideia da qualidade aérea das coisas se manifesta no três de Espadas, o Senhor da Dor. Aqui se lembra da escuridão de Binah, do luto de Ísis, mas não se trata de qualquer tristeza vulgar dependente de qualquer desapontamento ou descontentamento individuais. É Weltschmerz, a dor universal; é a qualidade da melancolia. O três de Discos, de modo semelhante, exibe o resultado da ideia da terra, da cristalização das forças, sendo assim chamado de Senhor do Trabalho. Alguma coisa foi definitivamente feita. 189


OS QUATRO QUATROS Estas cartas são atribuídas a Chesed. A conexão entre o número quatro e o número três é extremamente complexa. A característica importante é que o Quatro está “abaixo do Abismo”; por isso, na prática, significa solidificação, materialização. As coisas se tornaram manifestas. O ponto essencial é que ele expressa o governo da lei. No naipe de Bastões a carta é chamada de Conclusão. A manifestação prometida por Binah ocorreu agora. Este número tem que ser bastante íntegro porque é a influência dominante real sobre todas as cartas seguintes. Chesed, Júpiter-Amon, o Pai, o primeiro abaixo do Abismo, é a ideia mais elevada que pode ser compreendida de uma maneira intelectual, e é por isso que a Sephirah é atribuída a Júpiter, que é o demiurgo. O quatro de Copas é chamado de Luxúria. A natureza masculina do fogo permite que o quatro de Bastões apareça como uma concepção muito positiva e clara. A debilidade presente no elemento água ameaça sua pureza; não é suficientemente forte para controlar-se devidamente, de modo que o Senhor do Prazer é um pouco instável. A pureza foi de alguma maneira perdida no processo de satisfação. O quatro de Espadas é chamado de Trégua. Parece mais na linha do “homem forte armado que mantém sua casa em paz”. A natureza masculina do ar o torna dominante. A carta é quase um retrato da formação do sistema militar de clãs da sociedade. Quanto aos Discos, o peso do símbolo excede em peso quaisquer considerações de sua fraqueza. A carta se chama Poder. É o poder que domina e estabiliza tudo, mas administra seus negócios mais por negociação, por métodos pacíficos do que por qualquer afirmação de si mesmo. É a lei, a constituição sem o elemento agressivo.

OS QUATRO CINCOS No Arranjo de Nápoles, a introdução do número cinco mostra a ideia de movimento vindo em ajuda daquela da matéria. Eis uma concepção completamente revolucionária cujo resultado é um total transtorno do sistema estaticamente estabilizado. Surgem agora tormenta e tensão. Isto não deve ser encarado como algo “maligno”. O sentimento natural em relação a isso é efetivamente pouco mais do que relutância das pessoas em se levantarem da mesa do almoço para voltarem ao trabalho. Na doutrina budista da dor essa ideia está implícita, a saber, que inércia e insensibilidade têm que caracterizar a paz. O clima da Índia é talvez em parte responsável por essa noção. Os adeptos da Escola Branca, da 190


qual o Tarô é o livro sagrado, não conseguem concordar com tal simplificação da existência. Todo fenômeno é um sacramento. Por tudo isso, um distúrbio é um distúrbio. O cinco de Bastões é chamado de Disputa. Por outro lado, o cinco de Copas é chamado de Desapontamento, o que é apenas natural, porque o fogo se delicia em energia superabundante, enquanto que a água do Prazer é naturalmente plácida, e qualquer distúrbio da tranquilidade só pode ser considerado como infortúnio. O cinco de Espadas é analogamente problemático. A carta é chamada de Derrota. Houve poder insuficiente para sustentar a paz armada dos quatro. A disputa realmente irrompeu. Isto tem que significar derrota, pois a ideia original da espada foi uma manifestação do resultado do amor entre o bastão e a copa. É porque o nascimento tinha que se expressar na dualidade da espada e do ouro que a natureza de cada um parece ser tão imperfeita. O cinco de Discos encontra-se num caso igualmente ruim. A suave quietude dos quatro foi completamente arruinada. Esta carta se chama Preocupação (ver Skeat, Dicionário Etimológico. A ideia é de estrangulamento, como os cães preocupam as ovelhas. Note-se a identidade com a esfinge). O sistema econômico ruiu; não há mais equilíbrio entre as ordens sociais. Discos sendo como é, estólido e obstinado, se comparado com as demais armas, pois a revolução delas serve para estabilizá-las, não há qualquer ação, ao menos não em seu próprio âmbito, que possa afetar o resultado.

OS QUATRO SEIS Estas cartas são atribuídas a Tiphareth. Esta Sephirah é, em certos aspectos, a mais importante de todas. É o centro de todo o sistema; é a única Sephirah abaixo do Abismo que se comunica diretamente com Kether. É alimentada diretamente de Chokmah e Binah, e também de Chesed e Geburah. Está assim admiravelmente apta a dominar as Sephiroth inferiores; é equilibrada tanto vertical quanto horizontalmente. No sistema planetário representa o Sol; no sistema do Tetragrammaton representa o Filho. O complexo geométrico inteiro do Ruach pode ser considerado como uma expansão de Tiphareth. Representa consciência em sua forma mais harmonizada e equilibrada, definitivamente em forma, não apenas ideia, como no caso do número dois. Em outras palavras, o Filho é uma interpretação do Pai nos termos da mente. Os quatro seis são assim representativos de seus respectivos elementos no que eles têm de melhor prático. O seis de Bastões é chamado de Vitória. A explosão de energia no cinco de Bastões, que foi tão súbita e violenta que até produziu a ideia de conflito, conquistou agora o sucesso por completo. O governo, ou domínio, no naipe de Bastões não é de modo algum tão estável como poderia ter sido se tivesse havido menor exposição de 191


energia. Assim, deste ponto, logo que a corrente deixa o pilar do meio, a fraqueza inerente ao elemento fogo (que é não ser completamente equilibrado para toda sua pureza) leva a desenvolvimentos bastante indesejáveis. O seis de Copas é chamado de Prazer. Este prazer é de um tipo completamente harmonizado. O signo do zodíaco que governa a carta sendo Escorpião, o prazer é aqui enraizado no seu solo mais conveniente. Esta é preeminentemente uma carta fértil, uma das melhores no baralho. O seis de Espadas é chamado de Ciência. Seu regente é Mercúrio, de maneira que o elemento de sucesso rejeita a ideia de divisão e disputa; é a inteligência que conquistou a meta. O seis de Discos é chamado de Sucesso. O regente é a Lua. Esta é uma carta de acomodamento; é muito densa, totalmente falta de imaginação, e, contudo, um tanto sonhadora. A mudança logo cairá sobre ela. O peso da terra em última instância arrastará a corrente descendentemente para um mero acontecer de coisas materiais. Todavia, a Lua estando em Touro, o signo de sua exaltação, o melhor das qualidades lunares está inerente. Ademais, sendo um seis, a energia solar a fertilizou, criando um sistema equilibrado por enquanto. A carta é digna do nome Sucesso. Lembre-se apenas que todo sucesso é temporário; quão breve parada sobre o caminho do labor!

OS QUATRO SETES Estas cartas são atribuídas a Netzach. A posição é duplamente desequilibrada; fora do pilar do meio e muito baixo na Árvore. Corre-se um enorme risco de descer até a ilusão e, antes de mais nada, fazê-lo por um esforço desvairado. Netzach pertence à Vênus; Netzach pertence à Terra e a maior catástrofe que pode sobrevir a Vênus é perder sua origem celeste. Os quatro setes não são capazes de trazer qualquer conforto; cada um representa a degeneração do elemento. Sua fraqueza maior fica exposta em todos os casos. O sete de Bastões é chamado de Valor. A energia se sente ela mesma na iminência de morrer; luta desesperadamente e pode ser vencida. Esta carta traz à tona o defeito inerente à ideia de Marte. Patriotismo, por assim dizer, não é o suficiente. O sete de Copas é chamado de Deboche. Esta é uma das piores ideias que se poder ter; seu método é veneno, sua meta, insanidade. Representa a ilusão do delirium tremens e do vício das drogas; representa o afundamento no lodo do prazer falso. Há algo quase suicida nesta carta. Ela é particularmente má porque não há nada, seja lá o que for, para equilibrá-la ‒ nenhum planeta forte para sustentá-la. Vênus vai atrás de Vênus e a terra é agitada dentro do paul de escorpiões.

192


O sete de Espadas é chamado de Futilidade. Trata-se de uma carta ainda mais fraca do que o sete de Bastões. Possui um signo passivo em lugar de um ativo, um planeta passivo em lugar de um ativo. É como um boxeador reumático tentando “voltar” depois de ter estado fora do ringue durante anos. Seu regente é a Lua. A pouca energia que ela possui não passa de devaneio; é absolutamente incapaz do labor sustentado que por si só, exceto milagres, pode conduzir qualquer esforço à fruição. A comparação com o sete de Bastões é sumamente instrutiva. O sete de Discos é chamado de Fracasso. Este naipe proporciona a passividade extrema; não há virtude positiva nele abaixo do Abismo. Esta carta é regida por Saturno. Compare-a com os outros três setes. Inexiste esforço aqui, e não há sequer sonho; o dinheiro apostado foi jogado fora e está perdido. Isto é tudo. O próprio trabalho é abandonado; tudo afunda na preguiça.

OS QUATRO OITOS Os quatro oitos são atribuídos a Hod. Estando no mesmo plano dos setes na Árvore da Vida, embora no outro lado, os mesmos defeitos inerentes que foram encontrados nos setes também se aplicam aqui. Contudo, talvez se possa realçar um alívio, a saber, que os oitos chegam (num certo sentido) como um remédio para o erro dos setes. O dano foi produzido e agora há uma reação contra ele. Pode-se, portanto, esperar constatar que, se não há possibilidade de perfeição nas cartas deste número, elas estão livres daqueles erros essenciais e originais do caso de maior rebaixamento. O oito de Bastões é chamado de Presteza, como se poderia esperar de sua atribuição a Mercúrio e Sagitário. Trata-se de uma eterização da ideia do fogo. Todos os elementos grosseiros desapareceram. (Que se permita uma curta digressão sobre os signos do zodíaco. No caso de cada elemento, o signo cardeal representa a investida célere, impulsiva da ideia. No signo querúbico o elemento atingiu seu pleno equilíbrio de poder, e nos outros signos a força está esmorecendo. Assim, Áries representa a arremetida do fogo, o relâmpago; Leão, seu poder, o Sol; e Sagitário, o arco-íris, sua sublimação. Considerações similares se aplicam aos outros elementos. Ver a seção de Atribuições: as triplicidades do zodíaco). No oito de Bastões o fogo não está mais associado às ideias de combustão e destruição. Representa energia no seu sentido mais exaltado e mais tênue, o que sugere dela formas tais como a corrente elétrica; poder-se-ia quase dizer luz pura no sentido material dessa palavra. O oito de Copas é chamado de Indolência. Esta carta é o próprio ápice do dissabor. É regida pelo planeta Saturno; o tempo e a dor se precipitaram sobre o prazer e 193


inexiste força no elemento água que possa reagir contra eles. Esta carta não é exatamente “a manhã que sucede a noite anterior”, mas está muito próxima disto. A diferença é que a “noite anterior”, não aconteceu! Esta carta representa a festa para a qual todos os preparativos foram feitos, mas o anfitrião esqueceu-se de convidar os convivas, ou os fornecedores não entregaram as iguarias e bebidas. Há esta diferença, ainda que se trate de uma maneira ou outra da própria falha do anfitrião. A festa que ele planejava estava apenas um pouquinho acima de sua capacidade; talvez ele tenha perdido o entusiasmo no último momento. O oito de Espadas é chamado de Interferência. À primeira vista pareceria fácil confundi-lo com o oito de Copas, mas a ideia, na realidade, é completamente diferente. A carta é atribuída a Júpiter e Gêmeos. Consequentemente, não há prostração da vontade devido à tensão interna ou externa. Trata-se apenas do erro de ser benévolo quando a benevolência é desastrosa. Gêmeos é um signo do ar, um signo intelectual; Júpiter é amabilidade e otimismo. Isto não funcionará no mundo de Espadas. Se alguém precisa agredir, um golpe violento é o melhor. Mas há outro elemento nesta carta, a saber, aquele da interferência (os oitos, sendo substancialmente mercurianos, são sempre isto) inesperada, pura má sorte imprevista. Incidentes triviais têm alterado amiúde o destino de impérios, reduzido a nada “os mais bem formulados planos de ratos e homens”. O oito de Discos é chamado de Prudência. Esta carta é bem melhor do que as duas últimas porque, em assuntos puramente materiais, especialmente aqueles relacionados ao dinheiro real, há uma espécie de força em não fazer coisa alguma. O problema de todo financista é, em primeiro lugar, ganhar tempo; se seus recursos são suficientes, ele sempre ganha na bolsa. Esta é a carta do “economizar alguma coisa para um dia de chuva”. Sua atribuição é Sol em Virgem; é a carta do agricultor; ele pode fazer pouco mais do que plantar a semente, sentar-se e aguardar a colheita. Não há nada nobre sobre este aspecto da carta; como todos os oitos, ela representa um elemento de cálculo e o jogo é seguramente lucrativo caso se tenha ajustado adequadamente a cagnotte. 79 Há ainda outro ponto que complica esta carta. O oito de Discos representa a figura geomântica Populus, que é uma figura despreocupada, e ao mesmo tempo, estável. Pensa-se no tempo da Rainha Vitória, em um homem que é “alguma coisa na cidade”, bamboleando-se para a cidade com Alberto, o Bom chamando atenção para si por sua corrente de relógio e sua sobrecasaca; na superfície ele é muito afável, mas não é o bobo de ninguém.

79

Em francês no original, cofrinho ou mealheiro, ou ainda conteúdo do mesmo (NT).

194


OS QUATRO NOVES Estas cartas são atribuídas a Yesod. Após a excursão dupla ao infortúnio, a corrente volta ao pilar do meio. Esta Sephirah é a sede da grande cristalização da energia. Mas esta ocorre bem embaixo na Árvore, no ápice do terceiro triângulo descendente, e um triângulo achatado neste caso. Há pouco apoio de esferas baixas, desequilibradas como Netzach e Hod. O que salva Yesod é o raio direto de Tiphareth; esta Sephirah está na linha direta de sucessão. Cada uma destas cartas produz o impacto pleno da força elementar, mas no seu sentido mais material, ou seja, da ideia da força, pois Yesod está ainda em Yetzirah, o mundo da formação. Zoroastro diz: “O número Nove é sagrado e atinge o auge da perfeição.” Egito e Roma, também, possuíam nove divindades maiores. O nove de Bastões é chamado de Força. É regido pela Lua e Yesod. Em The Vision and the Voice, o décimo primeiro Æthyr apresenta um relato clássico da resolução desta antinomia de mudança e estabilidade. O estudante deveria consultar também os trabalhos de qualquer um dos melhores físicos matemáticos. Dentre todas as importantes doutrinas sobre equilíbrio, esta é a de mais fácil compreensão, a saber, que mudança é estabilidade, que a estabilidade é garantida pela mudança, que se alguma coisa cessasse de mudar por uma fração de um segundo dividido se desintegraria. É a intensa energia dos elementos primordiais da natureza, que se os chame de elétrons, átomos, qualquer coisa que se queira, não faz diferença. A mudança garante a ordem da natureza. É por isso que ao aprender andar de bicicleta cai-se de uma maneira extremamente desajeitada e ridícula. O equilíbrio é tornado difícil por não se ir suficientemente rápido. Assim, do mesmo modo, não é possível traçar uma linha reta se a mão treme. Esta carta é uma espécie de parábola elementar que ilustra o significado deste aforismo: “Mudança é Estabilidade.” Aqui a Lua, o mais débil dos planetas, está em Sagitário, o mais ilusório dos signos; ainda assim, ela ousa chamar-se Força. A defesa, para ser eficiente, tem que ser móvel. O nove de Copas é chamado de Felicidade. Esta é uma carta peculiarmente boa porque felicidade, como sugere a palavra, é em grande parte matéria de sorte: a carta é regida por Júpiter e Júpiter é fortuna. Em todas essas cartas da água, há certo elemento de ilusão; elas começam pelo Amor e o amor é a maior e mais mortal das ilusões. O signo de Peixes é o refinamento, o esmorecimento desse instinto, o qual, principiado com espantosa fome e levado à frente com paixão, tornou-se agora “um sonho dentro de um sonho”. A carta é regida por Júpiter. Júpiter em Peixes é efetivamente boa fortuna, mas somente no sentido de saciedade total. A satisfação mais plena é meramente a matriz de uma putrefação posterior; não existe esta coisa chamada repouso absoluto. Uma cabana no campo com as rosas a toda sua volta? Não, não há nada permanente nisto;

195


não há repouso no universo. Mudança garante estabilidade. Estabilidade garante mudança. O nove de Espadas é chamado de Crueldade. Aqui a ruptura original inerente a Espadas é aumentada ao seu poder máximo. A carta é regida por Marte em Gêmeos. É a agonia da mente. Ruach consome a si mesmo nesta carta; o pensamento atravessou todo estágio possível e a conclusão é desespero. Esta carta foi delineada muito adequadamente por Thomson em The City of Dreadful Night. É sempre uma catedral ‒ uma catedral dos danados. Está presente a mancha cáustica da análise. A atividade é inerente à mente, mas ainda assim há sempre a consciência instintiva de que nada pode conduzir a lugar algum. O nove de Discos é denominado Ganho. O naipe de Discos é insípido demais para se preocupar; ele soma seus ganhos; não preocupa sua cabeça quanto a se alguma coisa é ganha quando tudo é ganho. Esta carta é regida por Vênus. Ronrona com satisfação por ter colhido o que semeou; esfrega as mãos e se senta tranquilamente. Como será compreendido ao se considerar os dez, não há reação contra a satisfação como há nos outros três naipes. Fica-se cada vez mais estólido e se sente que “tudo é para o melhor no melhor dos mundos possíveis”.

OS QUATRO DEZ Estas cartas são atribuídas a Malkuth. Aqui é o fim de toda a energia. Está completamente distante do “mundo da formação”, onde as coisas são elásticas. Não há agora qualquer atribuição planetária a ser considerada. No que diz respeito à Sephirah, está bem baixo no mundo de Assiah. Pelo simples fato de ter concebido quatro elementos, a corrente se separou da perfeição original. Os dez são uma advertência; veja para onde conduz ‒ para dar o primeiro passo errado! O dez de Bastões é denominado Opressão. Isto é o que acontece quando se emprega força, força e nada mais a não ser força todo o tempo. Aqui assoma o moroso e pesado planeta Saturno abatendo o lado ígneo, etéreo de Sagitário; ele traz à tona o pior em Sagitário. Veja o arqueiro em lugar de estar emitindo raios benignos a tratar com a chuva cáustica da morte! O bastão dominou; executou seu trabalho; executou seu trabalho demasiado bem; não soube quando parar. O governo se tornou tirania. Pensa-se na hidra quando se reflete que o rei Charles foi decapitado em Whitehall! O dez de Copas se chama Saciedade. Sua atribuição é Marte em Peixes. O signo da água mergulhou num sonho de estagnação, mas nele se forma e se desenvolve a violenta qualidade de Marte para levá-lo à putrefação. É como está escrito: “Até um dardo atravessar seu fígado.” A busca do prazer foi coroada de perfeito sucesso, e constantemente é descoberto que, tendo conseguido tudo que se desejou, não se o desejou afinal de contas; e agora é preciso pagar. 196


O dez de Espadas é chamado de Ruína. Ensina a lição que os estadistas deviam ter aprendido e não aprenderam, ou seja, que se prossegue lutando o tempo suficiente, tudo termina em destruição. Contudo, esta carta não é inteiramente destituída de esperança. A influência solar domina; a ruína nunca pode ser completa porque o desastre é uma doença estênica. No momento em que as coisas estão suficientemente ruins, começa-se a construir novamente. Quando todos os governos se esmagaram entre si, resta ainda o camponês. Ao fim das desventuras de Cândido, ele podia ainda cultivar seu jardim. O dez de Discos é chamado de Riqueza. Aqui está registrada novamente esta doutrina que sempre reaparece, a saber, que logo que se atinge o fundo encontra-se a si mesmo no alto. E a Riqueza é dada a Mercúrio em Virgem. Quando a riqueza é acumulada além de certo ponto, tem que se tornar completamente inerte e cessar de ser riqueza ou convocar a ajuda da inteligência para que seja empregada corretamente. Isto deve ocorrer necessariamente em esferas que não têm nada em absoluto a ver com posses materiais como tais. Deste modo, Carnegie funda uma biblioteca, Rockefeller faz doações para a pesquisa simplesmente porque nada há mais a ser feito. Mas toda essa doutrina se acha por trás da carta: é seu significado interior. Há ainda outro ponto a ser considerado, a saber, que esta é a última de todas as cartas e, portanto, representa a soma total de todo o trabalho que foi realizado desde o início. Assim, nela está desenhada a própria figura da Árvore da Vida. Esta carta, em relação às demais trinta e cinco cartas menores, é o que o vigésimo primeiro trunfo, O Universo, é para o resto dos trunfos.

197


A RAIZ DOS PODERES DE FOGO ‒ ÁS DE BASTÕES

Esta carta representa a essência do elemento fogo em seu começo. É uma explosão solar-fálica de chamas da qual brotam raios em todas as direções. Essas chamas são Yods dispostos na forma da Árvore da Vida (quanto a Yod, ver Atu IX supra). É a energia primordial do divino se manifestando na matéria, e num estágio tão primitivo que não está ainda definitivamente formulada como vontade. É importante observar que embora essas “cartas menores” sejam simpáticas com suas origens sefiróticas, não são idênticas e nem são pessoas divinas. São (bem como as cartas da corte) primordialmente sub-elementos, partes das forças cegas sob o demiurgo, Tetragrammaton. Seus regentes são as Inteligências no mundo Yetzirático, que procedem para formar a Schemhamphorasch. Nem é até mesmo este Nome, Senhor do Universo, verdadeiramente divino como são os Senhores do Atu no elemento espírito. Cada Atu possui seu próprio universo privado, pessoal, particular com demiurgos (e todo o resto) completos, tal como todo homem e toda mulher possuem. Por exemplo, o três de Discos do II ou do VI poderia representar o estabelecimento de um oráculo como o de Delfos, ou o do VIII poderia ser a primeira fórmula de um Código tal como Manu deu à Índia; o do V, uma catedral, o do XVI, um exército efetivo, e assim por diante. O ponto importante é que todas as forças elementares, embora sublimes, poderosas ou inteligentes, são forças cegas e nada mais. 198


DOMÍNIO ‒ DOIS DE BASTÕES

Esta carta, pertencente à Chokmah no naipe do fogo, representa a vontade sob sua mais exaltada forma. Trata-se de uma vontade ideal, independente de qualquer objeto dado. “Pois vontade pura, desaliviada de propósito, livre da sede de resultado, é toda senda perfeita.” AL I, 44. O fundo desta carta mostra o poder do planeta Marte em seu próprio signo, Áries, o primeiro dos signos. Aí representa ele a energia desencadeando uma corrente de força. A representação pictórica é de dois dorjes cruzados. O dorje é o símbolo tibetano do raio, o emblema do poder celeste, porém mais sob sua forma destrutiva do que sob a criativa; mais, a saber, em sua forma anterior do que na posterior, pois a destruição pode ser considerada como o primeiro passo do processo criativo. O óvulo virgem precisa ser rompido para ser fertilizado. Medo e repulsa são, portanto, a reação primordial ao assalto. E então, com compreensão do plano completo, o ceder voluntário se regozija em cooperar. Seis chamas saem do centro, o que indica a influência do Sol, que é exaltado em Áries. Esta é a vontade criativa. 199


Marte em Áries é a atribuição da figura geomântica Puer. p O significado destas figuras deve ser estudado no manual dessa ciência: O Equinócio, vol. I, no 2. Lembrar que as Inteligências geomânticas (ver Liber 777, cols. XLIX e CLXXVIII) são todas primariamente gnomos.

200


VIRTUDE ‒ TRÊS DE BASTÕES

Esta carta se refere à Binah no naipe do fogo e assim representa o estabelecimento da energia primeva. A vontade foi transmitida à Mãe, quem concebe, prepara e dá nascimento à sua manifestação. Refere-se ao Sol em Áries, o signo em que o Sol é exaltado. O significado é harmonioso, pois se trata do início da primavera, e por isso vê-se o bastão assumir a forma do lótus em flor. O Sol inflamou a Grande Mãe. No Yi King o Sol em Áries é representado pelo décimo primeiro hexagrama, Thai; seu significado é idêntico à descrição acima.

201


CONCLUSÃO ‒ QUATRO DE BASTÕES

Esta carta se refere à Chesed no naipe do fogo. Estando abaixo do Abismo, é o Senhor de todo poder ativo manifestado. A vontade original do dois foi transmitida através do três e está agora constituída num sistema sólido: ordem, lei, governo. Também se refere a Vênus em Áries, o que indica que não se pode estabelecer um trabalho sem tato e gentileza. Os bastões têm em uma das extremidades a cabeça do carneiro, sagrado a Chesed, o deus-Pai Amoun-Ra e também a Áries; mas na outra extremidade dos bastões estão as pombas de Vênus. No símbolo, as extremidades dos bastões tocam um círculo, mostrando a conclusão e limitação do trabalho original. É no interior deste círculo que as chamas (dupla de quatro, como se para afirmar o equilíbrio) da energia são vistas a brincar, não havendo, inclusive, intenção de aumentar o alcance da vontade original. Mas esta limitação traz em si mesma as sementes da desordem.

202


DISPUTA ‒ CINCO DE BASTÕES

Esta carta se refere à Geburah no naipe do fogo. Sendo a própria Geburah ígnea, trata-se de uma força puramente ativa. É regida também por Saturno e Leão. Leão mostra o elemento fogo no máximo de força e equilíbrio. Saturno tende a prostrá-lo e afligi-lo. Não há limite para o alcance desta energia vulcânica. O símbolo representa o bastão do Adepto-Chefe mostrando que a autoridade procede dos superiores; não fosse assim esta carta seria inteiramente desastrosa. Além disso, há também dois bastões do Segundo, ou Adepto Maior. Possuem a cabeça da fênix, que indica a ideia de destruição (ou melhor, purgação) através do fogo e a ressurreição da energia a partir de suas cinzas. Há ainda um par de bastões do Terceiro, ou Adepto Menor, que são filhas, por assim dizer, dos bastões no três de Bastões. Nesta carta está presente a influência atenuadora da Mãe. Uma das mais difíceis doutrinas com relação a Geburah é que embora ela represente toda essa energia e distúrbio irracionais e indomáveis, ainda assim provém da influência benigna e gentil do feminino. Os egípcios entendiam essa doutrina perfeitamente. Sua deusa-leoa Pasht, era saudada como “saeva” e “ferox”, sendo mesmo chamada de “vermelha no dente e na garra” por aqueles devotos fanáticos que a queriam identificar com a natureza. A ideia de crueldade sexual está frequentemente inerente na suprema natureza divina. Compare203


se com Bhavani e Kali no sistema indiano e observe-se o coito Shiva ‒ Shakti retratado em muitos estandartes tibetanos. Ver também Liber 418, quarto, terceiro e segundo Æthyrs, e a descrição anteriormente apresentada do Atu XI.

204


VITÓRIA ‒ SEIS DE BASTÕES

Esta carta representa Tiphareth no naipe do fogo. Indica a energia em manifestação completamente equilibrada. O cinco rompeu as forças cerradas do quatro com ardor revolucionário, mas um casamento ocorreu entre eles e o resultado é o Filho e o Sol. A referência é também a Júpiter e Leão, o que parece encerrar uma bênção à harmonia e beleza deste arranjo. Perceber-se-á que os três bastões dos três Adeptos estão agora dispostos em ordem, e as próprias chamas, em lugar de se projetarem em todas as direções, ardem de maneira estável como se fosse em lâmpadas. São nove, em referência a Yesod e a Lua. Isto mostra a estabilização da energia e sua recepção e reflexão pelo feminino. Não há círculo para encerrar o sistema. Ele, como o Sol, sustenta a si mesmo.

205


VALOR ‒ SETE DE BASTÕES

Esta carta deriva de Netzach (vitória) no naipe do fogo. Mas o sete é um número débil, terrestre, feminino no que se refere à Árvore da Vida e representa um afastamento do equilíbrio tão baixo na Árvore que isso implica numa perda de confiança. Felizmente, a carta é também atribuída a Marte em Leão. Leão continua sendo o Sol em sua plena força, mas as marcas de decadência já podem ser vistas. É como se o fogo oscilante convocasse a energia brutal de Marte em seu apoio. Mas isto não é suficiente para neutralizar completamente a degeneração da energia inicial e o afastamento do equilíbrio. O exército foi lançado na desordem; se a vitória for para ser conquistada, será graças ao valor individual ‒ uma batalha de “soldados”. A representação pictórica mostra os bastões fixos e equilibrados da última carta relegados ao fundo, diminuídos e convertidos em lugar comum. Em primeiro plano, há um grande pau tosco, a primeira arma à mão, mas evidentemente insatisfatória num combate ordenado. As chamas estão dispersas e parecem atacar em todas as direções sem um propósito sistemático. 206


RAPIDEZ ‒ OITO DE BASTÕES

As três cartas restantes do naipe pertencem a Sagitário, que representa a sutilização da energia do fogo. Mercúrio rege a carta, trazendo assim para baixo de Chokmah a mensagem da vontade original. A carta também se refere à Hod, esplendor, no naipe do fogo, consequentemente dizendo respeito aos fenômenos do discurso, da luz e da eletricidade. A representação pictórica da carta mostra os bastões de luz convertidos em raios elétricos que sustêm, ou mesmo constituem matéria graças à sua energia vibratória. Acima deste universo restaurado brilha o arco-íris, a divisão de luz pura, que lida com máximos, dentro das sete cores do espectro, que exibem interação e correlação. Esta carta, portanto, representa energia de alta velocidade, de modo que fornece a chave-mestra para a moderna física matemática. Notar-se-á que não há chamas; foram todas absorvidas nos bastões para transformá-los em raios. Por outro lado, a energia elétrica criou forma geométrica inteligível.

207


FORÇA ‒ NOVE DE BASTÕES

Esta carta se refere à Yesod, fundamento. Reconduz a energia ao equilíbrio. O nove representa sempre o mais pleno desenvolvimento da força em sua relação com as forças acima dela. Pode-se considerar o nove como o melhor que se é capaz de obter a partir do tipo envolvido, encarado sob um ponto de vista prático e material. Esta carta é também governada pela Lua em Sagitário e assim há aqui uma influência dupla da Lua na Árvore da Vida. E daí o aforismo: “Mudança é estabilidade”. Os bastões se transformaram agora em setas. Ao fundo há oito delas e no primeiro plano, diante das oito, uma seta-mestra. Esta tem como ponta a Lua e o Sol como força propulsora acima dela, pois o caminho de Sagitário na Árvore da Vida une o Sol e a Lua. As chamas da carta são décuplas, sugerindo que a energia é dirigida para baixo.

208


OPRESSÃO ‒ DEZ DE BASTÕES

O número dez se refere à Malkuth, que depende das nove outras Sephiroth, mas não está em direta comunicação com elas. Mostra a força destacada de suas fontes espirituais. Tornou-se uma força cega e, assim, a forma mais violenta daquela energia particular, sem quaisquer influências modificadoras. As chamas ao fundo da carta entraram em fúria. É o fogo no seu aspecto mais destrutivo. A carta também se refere à influência de Saturno em Sagitário. Eis a maior das antipatias. Sagitário é espiritual, célere, leve, ilusório e luminoso; Saturno é material, lento, pesado, obstinado e obscuro. Os oito bastões estão ainda cruzados, mostrando o enorme poder das energias completadas do fogo; mas eles perderam suas patentes de nobreza. Suas extremidades parecem mais com garras; falta-lhes a autoridade e inteligência exibidas nas cartas anteriores, e em primeiro plano estão os dois formidáveis dorjes do dois de Bastões, mas alongados com a extensão de barras. O todo da figura sugere opressão e repressão. É uma crueldade estúpida e obstinada da qual não há fuga. É uma vontade que nada compreendeu além de seu propósito lânguido, sua “ânsia de resultado”, e devorará a si mesma nas conflagrações que evocou. 209


A RAIZ DOS PODERES DA ÁGUA ‒ ÁS DE COPAS

Esta carta representa o elemento água sob sua forma mais secreta e original. É o complemento feminino do ás de Bastões, e é derivada do yoni e da Lua exatamente como o ás de Bastões é derivado do lingam e do Sol. A terceira na hierarquia. Consequentemente, este ás representa a forma essencial do Cálice Sagrado. Sobre o mar escuro de Binah, a Grande Mãe, veem-se lótus, dois em um, que enchem a taça com o fluido da vida, representado simbolicamente seja como água, sangue ou vinho, em conformidade com a finalidade selecionada do simbolismo. Sendo esta uma carta primordial, o líquido é mostrado como água; ela pode ser transformada em vinho ou sangue de acordo com a necessidade. Acima da taça, descendo sobre ela, encontra-se a pomba do Espírito Santo, consagrando assim o elemento. Na base da taça está a Lua, visto que constitui virtude desta carta conceber e produzir a segunda forma de sua natureza.

210


AMOR ‒ DOIS DE COPAS

O dois representa sempre a Palavra e a Vontade. É a primeira manifestação. Assim, no naipe da água é forçoso que se refira ao amor, o qual recupera a unidade a partir da divisão por mútuo aniquilamento. A carta se refere também a Vênus em Câncer. Câncer é, mais do que qualquer outro, o signo receptivo; é a casa da Lua e nesse signo Júpiter é exaltado. Estes são, de maneira superficial, os três mais amigáveis dos planetas. O hieróglifo da carta representa duas taças no primeiro plano, transbordando sobre um mar tranquilo. São alimentadas de água luzente que provém de um lótus que flutua sobre o mar, lótus do qual nasce outro lótus em torno de cujo pedúnculo se entrelaçam dourados gêmeos. O simbolismo do dourado 80 é muito complicado e deve ser estudado em livros de referência. Mas a ideia geral é a da “Arte Real”. O dourado é sagrado de uma forma peculiar para a alquimia. O número dois se referindo à vontade, esta carta poderia ser rebatizada de Senhor do Amor sob Vontade, pois este é o seu significado pleno e verdadeiro. Mostra a harmonia do macho e a fêmea, interpretados no sentido mais lato. Trata-se de harmonia perfeita e plácida, irradiando uma intensidade de alegria e êxtase. 80

Cumpre observar que o inglês dolphin também significa delfim, golfinho, boto (NT).

211


Necessariamente, a realização da ideia no quatro (como é desenvolvido pelo naipe) reduzirá gradativamente a pureza de sua perfeição.

212


ABUNDÂNCIA ‒ TRÊS DE COPAS

Esta carta se refere à Binah no naipe da água. É a carta de Deméter ou Perséfone. As taças são romãs: estão enchidas copiosamente até o transbordamento a partir de um único lótus que surge do mar escuro e calmo característico de Binah. Acontece aqui a realização da vontade de amor em abundância de júbilo. É a base espiritual da fertilidade. A carta se refere à influência de Mercúrio em Câncer, o que leva à frente a tese acima. Mercúrio é a vontade ou palavra do Todo-Pai; aqui sua influência desce sobre o mais receptivo dos signos. Ao mesmo tempo, a combinação dessas formas de energia apresenta a possibilidade de ideias um tanto misteriosas. Binah, o Grande Mar, é a Lua num aspecto, mas Saturno num outro; e Mercúrio, além de ser a Palavra ou Vontade do Todo, é o condutor das almas dos mortos. Esta carta requer grande perspicácia na interpretação. A romã foi a fruta que Perséfone comeu nos domínios de Plutão, o que o capacitou a retê-la no mundo inferior, mesmo depois da mais poderosa influência ter sido exercida. A lição parece ser que as boas coisas da vida, a despeito de desfrutadas, deveriam ser objeto de suspeita.

213


LUXÚRIA ‒ QUATRO DE COPAS

Esta carta se refere a Chesed na esfera da água. Aqui, abaixo do Abismo, a energia desse elemento, embora ordenada, equilibrada e (de momento) estabilizada, perdeu a pureza original da concepção. A carta se refere à Lua em Câncer, que é sua própria casa, mas o próprio Câncer está posicionado de tal maneira que isso implica numa certa fraqueza, uma renúncia ao desejo. Isto tende a introduzir as sementes da decadência no fruto do prazer. O mar continua sendo mostrado, mas sua superfície está ligeiramente agitada e as quatro taças que se postam sobre ele não são mais tão estáveis. O lótus do qual a água brota possui um pedúnculo múltiplo, como se para indicar que a influência da díade concentrou força. Pois embora o número quatro seja a manifestação e consolidação da díade, está também secretamente preparando catástrofe ao enfatizar a individualidade. Há certo paralelismo entre esta carta e as figuras geomânticas Via e Populus, as quais são atribuídas à Lua em seu minguante e crescente respectivamente. O vínculo é principalmente a equação Mudança = Estabilidade, já familiar aos leitores deste ensaio. O quatro é um número “de difícil manejo”; sozinho entre os números naturais, é impossível construir um “quadrado mágico” de quatro células. Mesmo no Arranjo de Nápoles o quatro é um ponto morto, um beco sem saída. Uma ideia de uma ordem totalmente diferente é necessária para prosseguir a série. Note-se também o 214


redesdobramento sobre si mesmo sugerido pelo “número mágico” de quatro 1 + 2 + 3 + 4, que é dez . Quatro é o número da maldição da limitação, da restrição. É a cruz cega e estéril de braços iguais, Tetragrammaton em seu aspecto fatal de finalidade, como os qabalistas o conheceram antes da descoberta da fórmula revolvente pela qual a Filha, sentada no trono da Mãe, “desperta a longevidade do Todo-Pai”. Para os significados de Via e Populus, consultar o Manual de Geomancia (O Equinócio, vol. I, no 2).

215


DESAPONTAMENTO ‒ CINCO DE COPAS

Esta carta é regida por Geburah no naipe da água. Geburah sendo ígnea, há uma natural antipatia. Consequentemente surge a ideia de distúrbio, justo quando menos esperado, num tempo de tranquilidade. A atribuição é também para Marte em Escorpião, que é sua própria casa; e Marte é a manifestação no plano mais baixo de Geburah, enquanto que Escorpião, no seu pior aspecto, sugere o poder de putrefação da água. Mas ainda assim as poderosas influências masculinas não demonstram dissolução efetiva, apenas o começo da destruição. O efeito é a frustração do prazer antecipado. Os lótus têm suas pétalas despedaçadas por ventos ígneos; o mar é árido e estagnado, um mar morto como um “chott” na África do Norte. Nenhuma água flui para dentro das taças. Além disso, essas taças estão dispostas na forma de um pentagrama invertido, simbolizando o triunfo da matéria sobre o espírito. Marte em Escorpião, ademais, é a atribuição da figura geomântica Rubeus |. Esta constitui um presságio tão maligno que certas escolas de geomancia destroem o mapa e adiam a questão por duas horas ou mais, quando Rubeus aparece no ascendente. Seu significado deve ser estudado no Manual de Geomancia (O Equinócio, vol. I, no 2).

216


PRAZER ‒ SEIS DE COPAS

Esta carta mostra a influência do número seis, Tiphareth, no naipe da água. Esta influência é reforçada pela do Sol, que representa também o seis. A imagem total é aquela da influência do Sol na água. Seu poder impetuoso, mas equilibrado, opera aquele tipo de putrefação ‒ ele está no signo de Escorpião ‒ que é a base de toda a fertilidade, toda a vida. Os pedúnculos dos lótus estão agrupados num elaborado movimento dançante. De suas flores a água jorra para as taças, mas estas não estão ainda cheias até o transbordamento, como estão na carta correspondente abaixo, o nove. Prazer, no título desta carta, deve ser entendido no sentido mais elevado: implica em bem-estar, harmonia de forças naturais sem esforço e tensão, tranquilidade, satisfação. A satisfação de desejos naturais ou artificiais é estranha à ideia da carta, embora ela represente realmente de modo enfático a realização da vontade sexual, como é mostrado pela Sephirah, planeta, elemento e signo regentes. No Yi King, o Sol em Escorpião é representado pelo vigésimo hexagrama, Kwan, 3 0

que é também “Grande Terra”, sendo o trigrama da terra

1

com linhas dobradas.

Kwan significa “manifestante”, mas também “contemplante”. O Thwan se refere diretamente a um Sumo Sacerdote, cerimonialmente purificado, na iminência de 217


apresentar suas oferendas. A ideia de prazer/putrefação como um sacramento está, portanto, implícita neste hexagrama como nesta carta, enquanto que os comentários nas linhas em separado da autoria do Duque de Chau indicam o valor analítico dessa eucaristia. É uma das chaves-mestras ao Portal da Iniciação. Para realizar e gozar isso plenamente, já foi necessário conhecer, compreender e experimentar o segredo do nono grau da O.T.O.

218


DEBOCHE ‒ SETE DE COPAS

Esta carta se refere ao sete, Netzach, no naipe da água. Aqui reaparece a debilidade invariável que nasce da falta de equilíbrio; além disso, a carta é governada por Vênus em Escorpião. Sua dignidade não é boa neste signo; é-se lembrado que Vênus é o planeta do cobre, “esplendor exterior e corrupção interior”. Os lótus se tornaram venenosos, assemelhando-se a lírios, e em lugar de água, um lodo verde emerge deles e transborda, fazendo do mar um pântano de febre palustre. Vênus redobra a influência do número sete. As taças são iridescentes, concretizando a mesma ideia. Estão dispostas como dois triângulos descendentes entrelaçados acima da taça inferior, a qual é muito maior que as demais. Esta carta é quase a imagem “maligna e adversa” do seis; constitui um lembrete salutar do conforto fatal com o qual um sacramento pode ser profanado e prostituído. Perca o direto contato com Kether, a Suprema; desvie sempre muito do equilíbrio delicado do pilar do meio; imediatamente os mais santos mistérios da natureza se convertem nos segredos obscenos e vergonhosos de uma consciência culpada.

219


INDOLÊNCIA ‒ OITO DE COPAS

O oito, Hod, no naipe da água, governa esta carta. Mostra a influência de Mercúrio, mas esta é sobrepujada pela referência da carta a Saturno em Peixes. Peixes é água tranquila, porém estagnante e Saturno a mata completamente. A água não aparece mais como o mar, mas simplesmente como poças e não existe florescência nesta carta como havia na última. Os lótus se curvam por falta de sol e chuva e o solo é veneno para eles; apenas dois pedúnculos exibem flores. As taças são rasas, velhas e quebradas. Estão dispostas em três fileiras, estando as taças da fileira superior completamente vazias. A água escoa parcamente das duas flores para dentro das duas taças centrais, e estas gotejam para duas taças inferiores, sem enchê-las. O plano de fundo da carta mostra poças ou lagoas num campo bastante extenso, mas onde o cultivo não é possível. Somente a doença e o veneno miasmático são capazes de florescer nessas vastas terras más. A água é escura e lamacenta. No horizonte desponta uma luz pálida, amarelada, abatida por nuvens plúmbeas de um azul escuro. Convém que se compare com a última carta. Esta representa o erro oposto e complementar. Uma é o Jardim de Kundry, a outra o Palácio de Klingsor. Na psicopatologia do Caminho, esta carta é o sarampo alemão do misticismo cristão. 220


FELICIDADE ‒ NOVE DE COPAS

O número nove, Yesod, no naipe da água, restaura a estabilidade perdida pelas excursões de Netzach e Hod a partir do pilar do meio. É também o número da Lua, fortalecendo assim a ideia da água. Nesta carta se encontra o cortejo suntuoso para clímax e perfeição da força original da água. O regente é Júpiter em Peixes. Esta influência é mais do que simpática; é uma decisiva bênção, pois Júpiter é o planeta de Chesed que representa a água em sua manifestação material mais elevada, e Peixes traz à tona as qualidades plácidas da água. No símbolo veem-se nove taças perfeitamente dispostas num retângulo; todas estão cheias e trasbordantes de água. Trata-se do mais completo e mais benfazejo aspecto da força da água. A figura geomântica Laetitia y é regida por Júpiter em Peixes. Para seu significado consultar o Manual de Geomancia (O Equinócio, vol. I, no 2). Laetitia, júbilo, contentamento, é uma das melhores e mais poderosas das dezesseis figuras, pois os símbolos solares, lunares e mercuriais são, no máximo, ambíguos e traiçoeiramente ambivalentes; os de Vênus prognosticam mais alívio do que beneficência positiva; Saturno e Marte são considerados no que eles têm de pior, e mesmo o companheiro 221


estável de Laetitia, Acquisitio, tem seus aspectos desagradáveis, e até seus perigos. Mas a consonância de Laetitia com esta carta chega a pouco menos que uma identidade. O vinho é servido pelo próprio Ganimedes, vindima abundante do verdadeiro néctar dos deuses, copioso e transbordante, um banquete de deleite que foi pedido, sabedoria verdadeira, auto-realizada em perfeita felicidade.

222


SACIEDADE ‒ DEZ DE COPAS

Esta carta representa o elemento de conflito. Por um lado, recebe a influência do dez, Malkah, a Virgem. A disposição das taças é aquela da Árvore da Vida. Mas, por outro lado, as taças estão instáveis. Estão inclinadas. Derramam água, a partir do grande lótus que paira sobre o sistema todo, de uma para outra. O trabalho próprio da água está completo: e o distúrbio é dívida, o que se origina da influência de Marte em Peixes. Marte é a força rude, violenta de ruptura que inevitavelmente ataca toda suposta perfeição. Sua energia exibe o maior contraste possível com a de Peixes, que é tanto pacífica quanto espiritualizada.

223


ÁS DE ESPADAS

81

O ás de Espadas é a energia primordial do ar, a essência do Vau do Tetragrammaton, a integração do Ruach. O ar é o resultado da conjunção do fogo e da água, de sorte que lhe falta a pureza de seus superiores na hierarquia masculina, fogo, Sol e o falo. Mas por esta mesma razão é a primeira carta diretamente a ser apreendida pela consciência normal da espécie humana. Os erros de cartas tais como o sete e o dez de Copas são ainda de uma ordem absolutamente superior ao aparentemente muito mais suave quatro de Espadas. O estudo da degradação sutil e gradual dos planos é excessivamente difícil. Na natureza, o símbolo óbvio do ar é o vento “que sopra onde quer que queira”. Falta-lhe a vontade concentrada do fogo para se unir à água: o ar não possui uma paixão correspondente por seu elemento-gêmeo, a terra. Há realmente uma notável passividade em sua natureza. É evidente que não possui nenhum impulso autogerado. Mas, posto em movimento por seu Pai e Mãe, seu poder se mostra manifestamente formidável. Visivelmente ataca seu objetivo de uma maneira que eles, sendo de caráter mais sutil e mais tênue, jamais podem fazer. Suas qualidades “todo-abrangentes, todo-errantes, todo-penetrantes, todo-consumidoras” têm sido descritas por muitos escritores

81

É presumível aqui a omissão de A RAIZ DOS PODERES DO AR (NT).

224


admiráveis, e suas analogias são, na sua maior parte, patentes a observadores absolutamente ordinários. Mas, perguntar-se-á de imediato: qual a posição deste elemento à luz de outras atribuições? No mundo Yetzirático não é o ar o primeiro elemento a seguir o espírito? Não é Vayu a primeira emergência do fenomenal proveniente da arcana obscuridade do Akasha? Como é possível reconciliar a doutrina da mente com o fato de Ruh, ou Ruach significar o próprio espírito? Achath Ruach Elohim Chiim (777) significa: “Um é o Espírito (não ar) dos deuses dos vivos?” E não é o ar o elemento atribuído a Mercúrio, e também mais propriamente o sopro da vida, a palavra, o próprio Logos? O estudante terá que consultar algum tratado menos rudimentar, apressado, elementar e superficial que o presente zumbidor de olhos de morcego, asas de pinguim e cérebro de varejeira azul. Entretanto, embora o ar não seja em sistema algum o mais inferior, de modo que não é capaz de reivindicar o benefício do clero da doutrina de que Malkuth se dissolve automaticamente em Kether, a referência que se segue não parece inteiramente destituída de poder de persuasão ou pertinência. O Ruach está centrado na Sephirah aérea Tiphareth, que é o Filho, o primogênito do Pai, e o Sol, a primeira emanação do Falo criativo. Deriva diretamente de sua mãe Binah através do caminho de Zain, o sentido intuitivo sublime, de modo que participa absolutamente da natureza de Neschamah. A partir de seu pai, Chokmah, é informado através do caminho de Hé, a Grande Mãe, a Estrela, nossa Senhora Nuit, 82 de sorte que o impulso criativo é comunicado a ele por quaisquer que sejam as possibilidades. Finalmente, de Kether, a Suprema, desce diretamente sobre ele através do caminho de Gimel, a Alta Sacerdotisa, a luz trina da Iniciação. A três-em-um, a Mãe Secreta em sua plenitude polimórfica; estas, estas somente o saúdam como três vezes abençoado das Superiores! A carta representa a Espada do Mago (ver Livro 4, Segunda Parte) coroada com o diadema de vinte e dois raios de pura Luz. O número se refere aos Atu; e também 22 = 2 × 11, a manifestação mágica de Chokmah, sabedoria, o Logos. Sobre a lâmina, consequentemente, está inscrita a Palavra da Lei, Θελημα. Esta palavra emite um fulgor de luz, dispersando as nuvens escuras da mente.

82

Quão espantosamente este fato confirma a permuta de IV e XVII, que expomos anteriormente por inteiro: como um vínculo entre Chokmah e Tiphareth, O Imperador teria pouca importância e esta apurada doutrina das Três Mães seria perdida.

225


PAZ ‒ DOIS DE ESPADAS

Esta carta é regida por Chokmah no elemento ar. Este naipe, governando todas as manifestações intelectuais, é sempre complicado e desordenado. É mais sujeito a variações do que qualquer outro naipe. Representa uma agitação geral resultante do conflito do fogo com a água em seu casamento, e procede, com o aparecimento da terra, para a cristalização. Mas a pureza e exaltação de Chokmah são tais que esta carta manifesta a própria melhor ideia possível para o naipe. A energia subsiste acima do ataque violento de ruptura. Esta calma relativa é frisada pela atribuição celeste: a Lua em Libra. A Lua é mudança, mas a natureza é pacífica; além disso, Libra representa equilíbrio. Entre si, elas regulam a energia das Espadas. Na carta aparecem duas Espadas cruzadas. Estas são unidas por uma rosa azul de cinco pétalas. Esta rosa representa a influência da Mãe, influência harmonizadora que ajusta o antagonismo latente que é natural ao naipe. A rosa emite raios brancos, produzindo um desenho geométrico que reforça o equilíbrio do símbolo.

226


DOR ‒ TRÊS DE ESPADAS

Binah, a Grande Mãe, rege aqui o domínio do ar. Este fato envolve uma doutrina extremamente difícil que é mister estudar extensiva e minuciosamente em The Vision and the Voice, Æthyr 14. Binah não é aqui a Mãe benéfica que completa a trindade com Kether e Chokmah. Ela representa a escuridão do Grande Mar, o que é acentuado pelo domínio celestial de Saturno em Libra. Esta carta é escura e pesada; é, por assim dizer, o útero do caos. Há uma intensa paixão à espreita para criar, mas seus filhos são monstros. Isto pode significar a suprema transcendência da ordem natural. Há segredo aqui, e perversão. O símbolo representa a grande espada do mago, ponta para cima; ela intercepta a união de duas pequenas Espadas curvas. O impacto destruiu a rosa. Ao fundo, a tempestade se prepara sob uma noite implacável.

227


TRÉGUA ‒ QUATRO DE ESPADAS

O número quatro, Chesed, é aqui manifestado no domínio do intelecto. Chesed se refere a Júpiter que rege em Libra neste decanato. A soma destes símbolos não apresenta, portanto, oposição, e daí a carta proclama a ideia de autoridade no mundo intelectual. É o estabelecimento do dogma e a lei que a ele diz respeito. Representa um refúgio do caos mental, escolhido de uma maneira arbitrária. Sustenta a convenção. Os punhos das quatro Espadas estão nos cantos de uma cruz de Santo André. A forma deles sugere fixação e rigidez. Suas pontas estão embainhadas numa rosa razoavelmente grande de quarenta e nove pétalas que representam a harmonia social. Aqui, também, há acordo. As mentes demasiado indolentes ou demasiado covardes para resolverem seus próprios problemas saúdam jubilosamente esta política de conciliação. Como sempre, o quatro é o termo; como neste caso não há justificativa para repouso, o seu distúrbio produzido pelo cinco não assegura promessa de avanço; seus simulacros estáticos entram confusamente no cadinho; o resultado é mera balbúrdia, amiúde sinalizada por odor fétido. Mas tem que ser feito!

228


DERROTA ‒ CINCO DE ESPADAS

Geburah, como sempre, produz ruptura, mas como Vênus aqui rege Aquário, debilidade mais do que força excessiva parece ser a causa do desastre. O intelecto foi debilitado pelo sentimento. A derrota se deve ao pacifismo. Pode ser que haja insinuação de traição, também. Os punhos das Espadas formam o pentagrama invertido, sempre um símbolo de tendência um tanto sinistra. E aqui a coisa está, ainda, pior. Os punhos não se assemelham e suas lâminas estão arqueadas ou quebradas. Dão a impressão de desalento. Apenas a mais inferior das Espadas aponta para cima e esta é a menos funcional das armas. A rosa da carta anterior foi inteiramente desintegrada. O historiador fica feliz em observar duas perfeitas ilustrações do modo desta carta e a última no nascimento do Æon de (1) Osíris, (2) Hórus. Notará o declínio da virtude que caracterizou Esparta e Roma, terminando no estabelecimento da Pax Romana. À medida que a virtude declinava, a corrupção desintegrava o Império de dentro para fora. Cultos epicenos, como os de Dionísio (sob sua forma degradada), de Átis, de Adônis, de Cibele, a falsa Deméter e a Ísis prostituída, substituíram os ritos mais rigorosos dos verdadeiros deuses fálico-solares, até que finalmente (tendo os mestres perdido o respeito e, daí, o controle da plebe local e estrangeira) o mais abjeto de todos os cultos de escravos, disfarçado nas fábulas das mais vis raças parasitas, varreu o mundo 229


conhecido e o encharcou de trevas viciadas por quinhentos anos. O historiador se deleitará em traçar estreitos paralelos com os fenômenos cognatos exibidos antes da presente geração.

230


CIÊNCIA ‒ SEIS DE ESPADAS

Tiphareth mostra o pleno estabelecimento e equilíbrio da ideia do naipe. Este é particularmente o caso com esta carta, na medida em que o próprio intelecto se refere também ao número seis. Mercúrio, em Aquário, representa a energia celestial influenciando o kerub do homem, indicando assim inteligência e humanidade. Mas há muito mais do que isso no símbolo. O perfeito equilíbrio de todas as faculdades mentais e morais, arduamente conquistadas, e quase impossíveis de serem retidas num mundo em contínua mudança, declara a ideia da Ciência em sua mais completa interpretação. Os punhos das Espadas, os quais são bastante ornamentais, são na forma do hexagrama. As pontas das Espadas tocam as pétalas externas de uma rosa vermelha sobre uma cruz dourada de seis quadrados, indicando deste modo a Cruz com a Rosa (Rosacruz) como o segredo central da verdade científica.

231


FUTILIDADE ‒ SETE DE ESPADAS

Netzach, no naipe de Espadas, não representa tal catástrofe como nos outros naipes, pois Netzach, a Sephirah de Vênus, significa vitória. Há, portanto, uma influência modificadora e esta é acentuada pela regência celestial da Lua em Aquário. O naufrágio intelectual da carta não é assim tão veemente como no cinco. Há vacilação, um desejo de acordo, certa tolerância. Mas, em determinadas circunstâncias, os resultados podem ser mais desastrosos do que nunca. Isto depende naturalmente do sucesso da política. Haverá sempre dúvida nisto enquanto houver violentas forças discordantes que a tomem como presa natural. Esta carta, como o quatro, sugere a política da conciliação. O símbolo mostra seis Espadas com seus punhos em formação de crescente. As pontas das Espadas se reúnem abaixo do centro da carta, encontrando-se com uma lâmina de uma espada muito maior que se impulsiona para cima, como se houvesse um torneio entre as muitas fracas e a única forte. A luta é em vão.

232


INTERFERÊNCIA ‒ OITO DE ESPADAS

O número oito, Hod, significa aqui falta de persistência em assuntos do intelecto e de discussão. A boa fortuna, entretanto, dá assistência mesmo a estes esforços debilitados graças à influência de Júpiter em Gêmeos, regendo o decanato. Todavia, a vontade é constantemente contrariada pela interferência acidental. O centro da carta é ocupado por duas longas Espadas com as pontas para baixo. Estas Espadas são cruzadas por seis Espadas pequenas, três de cada lado. Elas lembram alguma arma peculiar a algum país ou culto. Vemos a kriss, a kukri, a scramasax, a adaga, a machete e a yataghan.

233


CRUELDADE ‒ NOVE DE ESPADAS

O número nove, Yesod, traz de volta a energia ao pilar central da Árvore da Vida. A desordem anterior é agora corrigida. Mas a ideia geral do naipe esteve em contínua degeneração. As Espadas não representam mais o intelecto puro tanto quanto a agitação automática de paixões cruéis. A consciência se precipitou num domínio privado da luz da razão. Trata-se do mundo dos instintos inconscientes primitivos, do psicopata, do fanático. O regente celestial é Marte em Gêmeos, fúria grosseira de apetites atuando sem freio. Embora sua forma seja intelectual, é a disposição mental do inquisidor. O símbolo mostra nove Espadas de comprimentos variáveis, todas se dirigindo com suas pontas para baixo. Estão repletas de mossas e enferrujadas. Veneno e sangue gotejam de suas lâminas. Há, entretanto, uma maneira de lidar com esta carta: a maneira da resistência passiva, resignação, a aceitação do martírio. A fórmula da vingança impiedosa não é tampouco contrária.

234


RUÍNA ‒ DEZ DE ESPADAS

O número dez, Malkuth, como sempre, representa a culminação da energia rematada da ideia. Mostra a razão se enlouquecendo, tumulto periclitante de um mecanismo sem alma; representa a lógica dos lunáticos e (majoritariamente) dos filósofos. É a razão divorciada da realidade. A carta também é regida pelo Sol em Gêmeos, mas a qualidade aérea mercuriana do signo serve para dispersar seus raios. Esta carta indica a ruptura e desordem da energia harmoniosa e estável. Os punhos das Espadas ocupam as posições das Sephiroth, mas as pontas um a cinco e sete a nove tocam e despedaçam a espada central (seis) que representa o Sol, o Coração, a criança de Chokmah e Binah. A décima espada também está aos pedaços. É a ruína do intelecto e inclusive de todas as qualidades mentais e morais. No Yi King, Sol em Gêmeos é a virtude do quadragésimo terceiro hexagrama, Kwai, a modificação aquosa do falo; ademais, pela interpretação paralela, a harmonia desses dois mesmos trigramas. A significação concorda perfeitamente com a do dez de Espadas. Representa o amortecimento do impulso criativo, debilidade, corrupção, ou miragem afetando esse próprio princípio. Porém, encarando o hexagrama como uma arma ou método de 235


procedimento, ele aconselha o governante a expurgar o Estado dos funcionários públicos indignos. Curiosamente, a invenção de caracteres de escrita com o fito de substituir os cordéis ligados com nós é atribuída entre os eruditos chineses ao uso desse hexagrama pelos sábios. Gêmeos é regido por Thoth; 10 é a chave do Arranjo de Nápoles e Apolo (Sol) é o patrono da literatura e das artes: assim esta sugestão poderia parecer, ao menos, não menos adequada às correspondências qabalísticas do que à sua ênfase redobrada à água e ao Sol. Independentemente disso, entretanto, o paralelismo é completo.

236


ÁS DE DISCOS

83

O ás de Discos retrata o ingresso daquele tipo de energia que é chamada de terra. É apropriado aqui insistir com certa ênfase em uma das teses teóricas essenciais que estimularam a elaboração do presente baralho de cartas do Tarô, pois este aspecto é significativo e o distingue dos numerosos esforços incipientes de não-iniciados para se apresentarem a si mesmos como Adeptos. O grotesco barbeiro Alliette, o obscuramente perverso Wirth, o mistificador afetado Péladan, até a ignorância verbosa de charlatões tipo Autólico como Raffalovitch e Ouspensky. Nenhum destes ou seus aparentados fizeram mais do que “bancar o macaco aplicado” em relação aos desenhos convencionais medievais (a sorte deles estava ausente: o Tarô é uma navalha!) Éliphas Lévi era um sábio e conhecia as verdadeiras atribuições, mas seu grau na Grande Fraternidade Branca era apenas 6° = 5□ (Adeptus Major), e ele não dispunha da previsão instruída do Novo Æon. Ele realmente esperava encontrar um Messias em Napoleão III, porém da completa sublevação espiritual que acompanha a proclamação de uma nova fórmula mágica ele nada vislumbrava ‒ não, nem tendo Maistre Alcofribas Nasier para guiá-lo! 84 83

Presumível a omissão de A RAIZ DOS PODERES DA TERRA (NT).

84

Ver Grands Annales ou Croniques Tresveritables des filz. Roy des Dipsodes, 1542, Livro I, Cap. LVIII, onde é dada não apenas uma notável descrição das condições sociais do século XX E.V., como

237


O Dr. Gérard Encausse, Papus, seguidor de Éliphas Lévi, sentiu-se ainda mais rigidamente preso ao seu voto de segredo, de maneira que suas abordagens do Tarô são destituídas de valor, isto embora fosse ele Grão-Mestreda O.T.O. na França e Grande Hierofante 97° do Rito de Mênfis por ocasião da morte de John Yarker. Tais dados históricos são necessários para explicar porque todos os baralhos anteriores têm pouco mais do que interesse arqueológico, pois o novo Æon exigiu um novo sistema de simbolismo. Assim, particularmente, a velha concepção da terra como um elemento passivo, imóvel, mesmo morto e “maligno”, teve que deixar de existir. Foi imperativo restaurar a atribuição das cores da Escala do Rei para aquela do Æon de Ísis, verde-esmeralda, como era entendido pelos hierofantes egípcios. Este verde não é, entretanto, o verde vegetal original de Ísis, mas o novo verde da primavera que se segue à ressurreição de Osíris como Hórus. Tampouco devem os Discos (Discos) serem considerados mais como moedas; o disco é um emblema revolvente, o que é bastante natural visto que já se sabe agora que cada estrela, todo planeta verdadeiro é uma esfera revolvente. O átomo, ademais, não é mais a partícula sólida, não dúctil e inerte de Dalton, mas sim um sistema de forças giratórias comparável à própria hierarquia solar. Essa tese se enquadra perfeitamente à nova doutrina do Tetragrammaton, onde o componente terrestre, Hé final, a Filha é colocada no trono da Mãe para despertar a longevidade do Todo-Pai. O próprio NOME, consequentemente, não é mais um símbolo fixo, emblema de extensão e limite, mas uma esfera continuamente revolvente; nas palavras de Zoroastro: “repercutindo, rodopiando, bradando”. Tem sido o costume de editores ou desenhistas dos baralhos colocar seu selo pessoal no ás de Discos por motivos de caráter gramatical não ligados a talvez diferenciação arbitrária na língua latina entre os pronomes meum e tuum. Não dizia o bardo? “Não furta este Livro por receio do pudor! O Ás de Discos ‒ o nome do Autor. O Ás de Espadas ‒ teu cadáver parecerá Como o de Agag pareceu no livro de Samuel. O Ás de Copas ‒ bebe tu não menos Do que Brinvilliers, a Marquesa! O Ás de Bastões ‒ tua morte sê avaliada Como aquela do bom Rei Eduardo Segundo!”

também, na última linha do Enigma Profético uma clara indicação do mote mágico do Adepto eleito pelos Mestres para anunciar essa fórmula ‒ esta palavra, abertamente concedida em nome da própria Abadia. Mas, como tão frequentemente é o caso, era demasiado simples e direto para ser visto!

238


O símbolo central do ás de Discos é consequentemente o hieróglifo pessoal de “o sacerdote & apóstolo escolhido do espaço infinito...” “o sacerdote-príncipe, a Besta”. (Liber AL I, 15) Isso deve ser comparado ao Sigillum Sanctum da Ordem da A...A... Ao centro de tudo há ainda outra forma do Tetragrammaton, o Falo, mostrando Sol e Lua, com o número 666 devidamente inscrito, como se para equilibrar, ajustar-se a Vesica, com os sete setes somando 156 (BABALON 2 + 1 + 2 + 1 + 30 + 70 + 50 = (7 + 7) ÷ 7 + 77 + 77 = 156) como o quadrado mágico de 6 adiciona a 666 (... 1 ‒ 62 = 300 + 70 + 40 = 5 + 3 + 1 + 9 + 8 + 100 + 10 + 70 + 50 = zwyrt 400 + 200 + 10 + 6 + 50). Caso se opte por interpretar a linha vertical acima de 666 como 1, e somá-la, o número da Mulher Escarlate, 667, aparece (667 = = 8 + 20 + 70 + 20 + 20 + 10 + 50 + 8 + 3 + 400 + 50 + 8). Esta cifra está encerrada num heptagrama, de necessidade manifesta; e esse número, ademais, em pentágonos entrelaçados cujos lados são prolongados de modo a formar uma roda de dez raios cujo limite é um decágono, o qual, ainda, está, por sua vez, no interior de um círculo, sobre o qual está inscrito por completo o nome de 12 (6 × 2) letras. Em torno desse disco revolvente estão suas seis asas. O símbolo inteiro não é somente um glifo da terra tal como entendida neste novo Æon de Hórus, como também do número 6, o número do Sol. Esta carta é assim uma afirmação da identidade do Sol e da Terra ‒ e isto será melhor entendido por aqueles que têm praticado pontualmente Liber Resh durante o número necessário de anos, preferivelmente em tais eremitérios como o deserto do Saara, onde o Sol e a Terra podem logo ser instintivamente reconhecidos como seres vivos, companheiros constantes de alguém num universo de puro júbilo.

239


MUDANÇA ‒ DOIS DE DISCOS

O número dois, Chokmah, aqui rege no naipe que diz respeito à terra. Mostra o tipo de energia apropriada ao dois sob sua forma mais fixa. Em conformidade com a doutrina segundo a qual a mudança é o suporte da estabilidade, a carta é chamada de Mudança. Seus regentes celestiais são Júpiter e Capricórnio e estes símbolos são bastante desarmoniosos, de maneira que em assuntos práticos a boa fortuna de Júpiter é muito limitada. Sua influência na carta não é grande. E, todavia, sendo o próprio Júpiter A Roda (Atu X), ele enfatiza essa ideia. A carta mostra dois pantáculos, um acima do outro; eles são os símbolos chineses do yang e yin duplicados como no Hsiang. Uma roda é dextrógira e a outra sinistrógira. Representam assim a interação harmoniosa dos quatro elementos em movimento constante. Pode-se, na verdade, considerar a carta como o retrato do completo universo manifesto relativamente à sua dinâmica. Em torno dos pantáculos vê-se entrelaçada uma serpente verde (ver Liber 65, capítulo III, versículos 17‒20). Sua cauda encontra-se em sua boca. Forma o número oito, o símbolo do infinito, a equação 0 = 2.

240


TRABALHO ‒ TRÊS DE DISCOS

A influência de Binah na esfera da terra mostra o estabelecimento material da ideia do universo, a determinação de sua forma básica. Esta carta é regida por Marte em Capricórnio. Marte é exaltado neste signo e, portanto, no que tem de melhor. Sua energia é construtiva, como a do construtor ou engenheiro. A carta apresenta uma pirâmide vista de cima do ápice. A base é formada por três rodas: mercúrio, enxofre e sal; Sattvas, Rajas e Tamas no sistema hindu; Aleph, Shin e Mem ‒ ar, fogo e água ‒ as três letras-mãe do alfabeto hebraico. Essa pirâmide está situada no grande Mar de Binah na Noite do Tempo, mas o mar está solidificado, de maneira que as cores do fundo são marcadas por manchas de diversos matizes, um cinza escuro inexpressivo e esmaiado acompanhado de um padrão de azul escuro e verde. As faces da pirâmide têm um forte tom avermelhado, indicando a influência de Marte.

241


PODER ‒ QUATRO DE DISCOS

O quatro, Chesed, mostra o estabelecimento do universo em três dimensões, ou seja, abaixo do Abismo. A ideia geradora é exibida em seu sentido material pleno. A carta é regida pelo Sol em Capricórnio, o signo no qual ele renasce. Os Discos são muito grandes e sólidos; a carta sugere uma fortaleza. Esta representa lei e ordem mantidas por autoridade e vigilância constantes. Os próprios Discos são quadrados. A revolução é bastante contrária a esta carta. Os Discos contêm os sinais dos quatro elementos. Por tudo isto, eles giram; a defesa é válida apenas quando violentamente ativa. Na medida em que se afigura estacionária, é o “ponto morto” do engenheiro; e Capricórnio é o ponto no qual o Sol “vira novamente para o norte”. O fundo é azul celeste profundo, amarelo mosqueado sugerindo um fosso; mas, além disto, há um desenho verde e azul escuro representando os campos guardados cuja segurança é garantida pela fortaleza. No Yi King, o Sol em Capricórnio é representado pelo segundo hexagrama, Khwan, que é o princípio feminino. Compare com a palavra inglesa queen, o anglosaxão Cwen, o merciano antigo Kwoen. Cognatos são o islandês Kvan, o gótico Kwens, mulher. O tipo indo-germânico é g(w)eni e a raiz sânscrita GwEN. Note-se também Cwm, coombe e palavras agnatas, que significam vale fechado, usualmente com água que dele flui. Womb ‒ possivelmente uma forma suavizada? 242


Compare também com as inúmeras palavras derivadas da raiz Cas, que sugerem um espaço fechado e fortificado: case, castle, chest, cyst, chaste, incest, 85 etc. A raiz rudimentar em toda essa classe de palavras é a gutural. Observe-se as atribuições hebraicas: Gimel, a lua; Cheth, Câncer, a casa da lua; Kaph, a roda; Qoph, A Lua (o Atu XVIII), Guttur, a garganta. Estes sons sugerem assim a outra garganta; uma é o canal da respiração e da nutrição, a outra da reprodução e da eliminação.

85

Inglês, alguns significados respectivamente: caixa (estojo, invólucro), castelo, tórax (baú, cofre), cisto (vesícula, bolsa), casto, incesto (NT).

243


PREOCUPAÇÃO ‒ CINCO DE DISCOS

O número cinco, Geburah, no naipe da terra mostra a ruptura dos elementos exatamente como nos outros naipes. Isto é reforçado pela regência de Mercúrio em Touro, tipos de energia que se opõem. É preciso um Mercúrio poderosíssimo para perturbar Touro, de modo que o significado natural é inteligência aplicada ao trabalho. O símbolo retrata cinco Discos na forma do pentagrama invertido, instabilidade nos próprios fundamentos da matéria. O efeito é aquele de um terremoto. Eles são, contudo, representativos dos cinco Tattwas e mantêm íntegro num plano muito baixo um organismo que, se assim não fosse, se desintegraria totalmente. O fundo é um vermelho ameaçador e feio com marcas amarelas. O efeito geral é o de uma tensão intensa, a despeito do símbolo implicar em inação prolongada.

244


SUCESSO ‒ SEIS DE DISCOS

O número seis, Tiphareth, como antes, representa o pleno estabelecimento harmonioso da energia do elemento. A Lua em Touro rege a carta, e isto, ao mesmo tempo em que aumenta a aproximação da perfeição (pois a Lua é exaltada em Touro e, portanto, em sua forma mais elevada), marca a transitoriedade da condição. Os Discos estão dispostos na forma do hexagrama, que é mostrado esboçadamente. Ao centro enrubesce e arde o leve matiz de garança da alvorada e externamente há três círculos concêntricos, amarelo-ouro, rosa-salmão e âmbar. Estas cores mostram Tiphareth plenamente realizada na terra; é reafirmado na forma o que foi matematicamente formulado na descrição do ás. Os planetas estão dispostos de acordo com sua usual atribuição, mas são mostrados apenas como Discos irradiados pelo Sol no centro deles. O Sol é idolatrado como a Rosacruz; a rosa possui quarenta e nove pétalas, a interação do sete com o sete.

245


FRACASSO ‒ SETE DE DISCOS

O número sete, Netzach, possui seu costumeiro efeito debilitante, o que aqui se agrava devido à influência de Saturno em Touro. Os Discos estão dispostos na forma da figura geomântica Rubeus, a mais disforme e ameaçadora das dezesseis (ver o cinco de Copas). A atmosfera da carta é a da ferrugem. Ao fundo, que representa vegetação e cultivo, tudo está estragado. As quatro cores de Netzach aparecem, mas estão manchadas de azul escuro ameaçador e laranja avermelhado. Os próprios Discos são os Discos plúmbeos de Saturno. Eles sugerem dinheiro ruim.

246


PRUDÊNCIA ‒ OITO DE DISCOS

O número oito, Hod, é muito proveitoso nesta carta porque representa Mercúrio em seu aspecto mais espiritual e tanto rege quanto é exaltado no signo de Virgem, que pertence ao decanato e é governado pelo Sol. Significa inteligência aplicada com amor aos assuntos materiais, especialmente aqueles do agricultor, do artífice e do engenheiro. Poder-se-ia sugerir que esta carta marca a mudança da maré. O sete de Discos é num certo sentido o mais completo estabelecimento possível da matéria ‒ compare com o Atu XV ‒ o caído mais baixo e, portanto, o exaltado mais alto. Estas três últimas cartas parecem preparar a explosão que renovará todo o ciclo. Note-se que Virgem é Yod, a semente secreta da vida, e também a terra virgem aguardando o arado fálico. O interesse desta carta é o interesse das pessoas comuns. A regência do Sol em Virgem sugere também nascimento. Os Discos estão dispostos sob a forma da figura geomântica Populus. Estes Discos podem ser representados como as flores ou frutos de uma grande árvore, suas sólidas raízes em terra fértil. No Yi King, Sol em Virgem é representado pelo trigésimo terceiro hexagrama, Thun,

7 1

“Grande Ar”. Significa “retraimento” e o comentário indica como fazer o

247


melhor uso de tal manobra, o que está suficientemente de acordo com a essência de Virgem, a retirada secreta de energia para o interior da terra inculta. Populus, ademais, é a Lua retraindo-se da manifestação de sua conjunção com o Sol.

248


GANHO ‒ NOVE DE DISCOS

O número nove, Yesod, inevitavelmente traz de volta o equilíbrio da força em realização. A carta é regida por Vênus em Virgem. Indica boa sorte no que se refere a assuntos materiais, benefício e popularidade. Os Discos estão dispostos como um triângulo equilátero de três, ápice para cima, estreitamente juntos, e cercados a certa distância por um anel, seis Discos maiores sob a forma de um hexágono. Isto significa a multiplicação da Palavra estabelecida original ‒ mediante a combinação de “boa sorte e boa administração”. Os três Discos centrais pertencem ao padrão mágico como no caso das cartas anteriores, mas os outros, já que a descida à matéria implica no esgotamento gradual da energia revolvente original, assumem agora a forma de moedas. Estas podem ser marcadas com as imagens mágicas dos planetas apropriados. A título de observação geral, pode-se afirmar que a multiplicação de um símbolo de energia sempre tende a degradar seu significado essencial, bem como complicá-lo.

249


RIQUEZA ‒ DEZ DE DISCOS

O número dez, Malkuth, como sempre, representa a emissão final da energia. Tem-se aqui a grande e última solidificação. A força é completamente despendida e resulta em morte. Mercúrio rege esta carta em Virgem, o que pode sugerir que a riqueza adquirida, sendo inerte, será dissipada a menos que seja empregada de uma maneira em que se devote seu poder a objetos, e não à mera acumulação. Os Discos, ou (como se transformaram agora) moedas, estão dispostos na Árvore da Vida, mas a décima moeda é muito maior que as demais. A imagem indica a futilidade do ganho material. Esses Discos estão inscritos com vários símbolos de caráter mercuriano, salvo a moeda no lugar de Hod (Mercúrio) na Árvore, que está marcada com o símbolo do Sol, o que indica a única possibilidade de saída do impasse produzido pelo esgotamento de todas as forças elementares. Ao fim da matéria teria que haver total estagnação, se não fosse por nela estar sempre inerente a Vontade do Pai, o Grande Arquiteto, o Grande Aritmético, o Grande Geômetra. Neste caso, então, Mercúrio representará o Logos, a Palavra, a Vontade, a Sabedoria, o Filho Eterno e Virgem, a Virgem, em toda implicação desse símbolo. Esta carta é, na verdade, um hieróglifo do ciclo de regeneração.

250


Entre as figuras geomânticas, Mercúrio em Virgem é Conjunctio w. O significado, conjunção, é mostrado claramente pela atração do triângulo descendente (feminino), a cifra do yoni, para o triângulo ascendente (masculino), a do lingam. Completada esta união, eles aparecem entrelaçados, formando x, a figura de Capricórnio, o signo no qual o Sol encontra seu renascimento. É o santo hexagrama, o símbolo da união do macrocosmo com o microcosmo, a realização da Grande Obra, o Summum Bonum, sabedoria verdadeira e felicidade perfeita. Sic sit vobis!

251


INVOCAÇÃO (Um juramento escrito durante a meditação da aurora)

Aiwaz! Confirma minha fidelidade Contigo minha vontade inspira Com secreto sêmen de fogo sutil, livre, criador! Molda minha própria carne como Tua, meu nascimento renova Na infância feliz como divina, terra encantada! Dissolve meu arrebatamento em Teu próprio, uma matança sagrada Por meio da qual se capta e reconcilia a alma da água! Preenche minha mente com pensamento vislumbrante, intenso e raro Para alguém refinado, arremessado ao nada, a palavra do ar! Máximo, salto de noiva, minha forma quintessencial assim libertando-se Do eu, sê encontrado uma individualidade mesclada no Ser-Espírito.

252


OS ATUS: MNEMÔNICA

)

Verdade, riso, volúpia: Louco Sagrado do Vinho! Véu dilacerado, Loucura lasciva é iluminação sublime.

b

A Palavra da Sabedoria tece a teia de mentiras, une Infinidades irredutíveis.

g

Mãe, donzela da lua, companheira de folguedos, noiva de Pã; Ministro-Anjo de Deus para todo homem.

d

Beleza, exibe teu Império! A verdade acima do Alcance do Pensamento: a totalidade do mundo é Amor.

c

Genitor e iniciante, Imperador e Rei de todas as coisas mortais, salve o senhor da Primavera!

w

Sabedoria a cada um proporcional à sua necessidade por modalidades de Luz, derrama, grande Hierofante!

z

A cada um sua Compreensão realmente descobre sem palavras: seu modo, Gêmeos e Amantes imortais!

x

Contempla, a Carruagem! Através da água jorra o Santo Graal, vida e êxtase, do Vinho e do Sangue!

+

A Serpente-Leão gera Deuses! Teu trono a exuberante Besta, nossa Senhora Babalon!

y

Sumamente secreta semente de todo o plano-serpente da Vida, Virgem, o Eremita vai, mudo Guardião.

k

Acelerada por suas energias trinas, a Roda da Fortuna gira: seu Eixo, imóvel.

l

Ajustamento! O ritmo se retorce através de cada ato. Selvagem é a dança; seu equilíbrio é exato.

m

Nas Profundezas de Mãe do Oceano o Homem-Deus Pende, Lâmpada do Abismo Æoniano.

n

Águia, e Serpente, e Escorpião! A Dança da Morte turbilhona Vida de Transe a Transe a Transe.

s

Solve, coagula! Por V.I.T.R.I.O.L. mostrado, a Tintura, o Elixir, e a Pedra.

(

Io

! Sobre os cumes o bode-Deus salta em luxúria selvagem de êxtase livre.

253


p

Bellona, grita! Desencapuza os Falcões! O estrondo de Universos esmagando-se na Guerra!

h

Nuit, nossa Senhora das Estrelas! Evento é todo Teu jogo, sublime Experimento!

q

Lua-feiticeira, sob teu aceno de sangue livre o admirável Barco profético do Escaravelho da Meia-noite!

r

O Sol, nosso Pai! Alma de Vida e Luz, ama e brinca livremente, sagrado em Tua visão!

#

Nuit, Hadit, Ra-Hoor-Khuit! O Æon da Criança Gêmea! Exulta, oh Empíreo!

t

O Nada se torna Tudo para realizar a extensão do nada, oh Universo perfeito de Pã.

254


APÊNDICE A

O C OMPORTAMENTO DO T ARÔ : SEU USO NA

A RTE DA A DIVINHAÇÃO

255


256


O COMPORTAMENTO DO TARÔ

Tendo sido estabelecido à conclusão deste ensaio que as cartas do Tarô são indivíduos vivos, convém considerar as relações que são obtidas entre elas e o estudante. Façamos uma analogia com uma debutante no seu baile de apresentação à sociedade. Ela é apresentada a setenta e oito pessoas adultas. Supondo-se que se trate de uma garota particularmente inteligente, de educação social bastante elevada, ela poderá saber tudo a respeito da posição e características gerais dessas pessoas. Isto, entretanto, não implicará em conhecimento real de qualquer uma delas; ela não disporá de meios de afirmar como uma ou outra pessoa reagirá em relação a ela. No máximo, será capaz de conhecer apenas uns poucos fatos dos quais deduções podem ser feitas. É improvável, por exemplo, que V.C. vá se esconder num porão se alguém acha que há um gatuno na casa. É improvável que o bispo vá se abandonar aos tipos mais espalhafatosos de blasfêmia. A posição do estudante do Tarô é bastante semelhante. Neste ensaio e nestes desenhos é feita uma análise do caráter geral de cada carta; mas o estudante não poderá alcançar qualquer apreciação verdadeira das cartas sem observar o comportamento delas durante um longo período. Só poderá atingir uma compreensão do Tarô mediante a experiência. Não lhe será suficiente intensificar o estudo das cartas como coisas objetivas ‒ terá que empregá-las; terá que viver com elas, e elas, também, têm que viver com ele. Uma carta não está isolada de suas companheiras. As reações das cartas, sua interação mútua, precisam ser embutidas na própria vida do estudante. Então como deve ele usá-las? Como deve ele misturar a vida delas à sua? A maneira ideal é a contemplação, mas esta envolve iniciação de um grau tão elevado que é impossível descrever o método aqui, não sendo este, tampouco, nem atraente nem adequado à maioria das pessoas. A maneira prática e ordinária é a adivinhação. O método técnico tradicional de adivinhação pelo Tarô se segue, tendo sido extraído de O Equinócio, vol. I, no 8, e sua publicação é autorizada por Frater O.M. Adeptus Exemptus.

1. A S IG N I F IC A D O R A Escolha uma carta para representar o consulente, fazendo uso do teu conhecimento ou tua avaliação mais de seu caráter do que se apoiando em suas características físicas. 2. Tome as cartas em tua mão esquerda. Na mão direita empunhe o bastão sobre elas e diga: Invoco a ti, IAO para que envies HRU, o grande Anjo que preside às operações desta Sabedoria Secreta para que ele pouse sua mão invisivelmente sobre 257


estas consagradas cartas da arte, que por meio disso possamos obter conhecimento verdadeiro de coisas ocultas, para a glória de teu Nome inefável. Amém. 3. Entregue as cartas ao consulente e convide-o a pensar na indagação atentamente e fazer o corte. 4. Pegue as cartas tal como cortadas e as retenha para o procedimento subsequente.

PRIMEIRA OPERAÇÃO

Esta mostra a situação do consulente na ocasião na qual ele o está consultando. 1. As cartas estando à tua frente, faça um corte colocando a metade do alto à esquerda. 2. Faça dois novos cortes, um para cada pilha de cartas, da direita para esquerda. 3. Estas quatro pilhas de cartas representam IHV H, da direita para a esquerda. 4. Encontre a carta significadora. Se ela estiver no maço do Yod, a indagação se refere a trabalho, negócios, etc.; se estiver no maço da Hé, refere-se a amor, casamento ou prazer; se estiver no maço do Vau, a indagação se refere a problemas, perda, escândalo, brigas, etc.; se estiver no maço do Hé final, a indagação se refere a dinheiro, bens e assuntos puramente materiais. 5. Pergunte ao consulente o objeto de sua indagação: se errado, abandone a adivinhação. 6. Se certo, espalhe o maço que contém a significadora, com a face para cima. Compute as cartas a partir do consulente na direção em que ele as observa. O cômputo deve incluir a carta a partir da qual você o iniciou. No caso de Cavaleiros, Rainhas e Príncipes, conte 4. No caso de Princesas, conte 7. No caso de Ases, conte 11. No caso de cartas menores, compute de acordo com o número. No caso de trunfos, conte 3 quando se tratar de trunfos dos elementos; 9 quando se tratar de trunfos planetários; 12 quando se tratar de trunfos zodiacais. Componha uma “história” destas cartas. Esta história é aquela do início da questão. 7. Emparelhe as cartas de cada lado da significadora, em seguida as externas e assim por diante. Componha outra “história”, que deve suprir os detalhes omitidos na primeira.

258


8. Se tal história não for absolutamente precisa, não desanime. Talvez o próprio consulente não saiba de tudo. Mas as linhas principais devem ser formuladas com firmeza, com retidão, ou a adivinhação deve ser abandonada.

SEGUNDA OPERAÇÃO

DESENVOLVIMENTO DA QUESTÃO

1. Embaralhe as cartas, faça a invocação adequadamente, e deixe que o consulente faça o corte como antes. 2. Distribua as cartas em doze pilhas, para as doze casas astrológicas do céu. 3. Decida-se quanto à pilha em que deverá ser encontrada a significadora, por exemplo, na sétima casa se a questão disser respeito a casamento, e assim por diante. 4. Examine a pilha escolhida. Se a significadora não estiver aí, tente uma casa cognata. Em caso de não encontrar novamente a significadora, abandone a adivinhação. 5. Faça a leitura da pilha, computando e emparelhando as cartas como antes.

TERCEIRA OPERAÇÃO

MAIS UM DESENVOLVIMENTO DA QUESTÃO

1. Embaralhe, etc., como antes. 2. Distribua as cartas em doze pilhas para os doze signos do zodíaco. 3. Faça a adivinhação das pilhas apropriadas e proceda como antes.

QUARTA OPERAÇÃO

PENÚLTIMOS ASPECTOS DA QUESTÃO

1. Embaralhe, etc., como antes.

259


2. Encontre a significadora. Coloque-a sobre a mesa. Faça com que as trinta e seis cartas seguintes formem um círculo em torno dela. 3. Compute e emparelhe as cartas como antes. (Note que a natureza de cada decanato é mostrada pela carta menor atribuída a ele e pelos símbolos dados em Liber DCCLXXVII, cols. 149-151).

QUINTA OPERAÇÃO

RESULTADO FINAL

1. Embaralhe, etc., como antes. 2. Distribua as cartas em dez pilhas na forma da Árvore da Vida. 3. Decida-se quanto à pilha em que deva estar a significadora, tal como antes, mas o insucesso neste caso não implica necessariamente na perda da adivinhação. 4. Compute e emparelhe as cartas como antes. (Note que não se é capaz de dizer em que parte da adivinhação ocorre o tempo presente. Geralmente Op. I parece indicar a história passada da questão, mas nem sempre. A experiência ensinará. Às vezes uma nova corrente de grande ajuda pode mostrar o momento da consulta. Devo acrescentar que em assuntos materiais este método se revela extremamente valioso. Tenho sido capaz de resolver os problemas mais complexos nos mínimos detalhes. O.M.) É absolutamente impossível obter resultados satisfatórios deste ou de qualquer outro sistema de adivinhação sem a necessária e perfeita presença da Arte. Trata-se do mais sensível, difícil e perigoso ramo da magia. As condições necessárias, acompanhadas de um amplo exame comparativo de todos os importantes métodos em uso, são descritas e discutidas em detalhe em Magick, capítulo XVII. O abuso da adivinhação tem sido responsável, mais do que qualquer outra causa, pelo descrédito de que toda a matéria da magia se tornou alvo, quando Mestre Therion empreendeu a tarefa de sua reabilitação. Aqueles que não dão importância a suas advertências e profanam o Santuário da Alta Magia não terão senão a si mesmos para se culpar pelos desastres formidáveis e irremediáveis que os destruirão infalivelmente. Próspero é a resposta de Shakespeare ao Dr. Fausto.

260


CARACTERÍSTICAS DOS TRUNFOS QUANDO SÃO USADOS CONHECE O NADA! TODOS OS CAMINHOS SÃO LÍCITOS À INOCÊNCIA. A LOUCURA PURA É A CHAVE DA INICIAÇÃO. O SILÊNCIO ROMPE O ARREBATAMENTO. NÃO SÊ HOMEM OU MULHER, MAS AMBOS EM UM. SÊ SILENTE, BEBÊ NO OVO AZUL, QUE TU POSSAS CRESCER PARA PORTAR A LANÇA E O GRAAL! PERAMBULA SÓ, E CANTA! NO PALÁCIO DO REI SUA FILHA ESPERA POR TI. Em assuntos espirituais, O Louco significa ideia, pensamento, espiritualidade, aquilo que se empenha para transcender a terra. Nos assuntos materiais ele pode, se mal dignificado, significar loucura, excentricidade ou mesmo mania. Mas esta carta essencialmente representa um impulso ou impacto original, sutil, súbito que provém de uma região completamente estranha. Todos esses impulsos são corretos, se corretamente recebidos e a boa ou má interpretação da carta depende inteiramente da atitude correta do consulente.

I O Verdadeiro Eu é o significado da Vontade Verdadeira: conhece a Ti mesmo mediante Teu Caminho. Calcula bem a Fórmula de Teu Caminho. Cria livremente; absorve jubilosamente; divide intencionalmente; consolida completamente. Trabalha, Onipotente, Onisciente, Onipresente, na e para a Eternidade.

Perícia, sabedoria, habilidade, elasticidade, artifício, astúcia, engano, furto. Por vezes sabedoria ou poder ocultos, por vezes um rápido impulso, “uma onda cerebral”. Pode implicar em mensagens, transações de negócios, a interferência do saber ou a inteligência no assunto à mão. 261


II Pureza é viver somente para o Supremo; e o Supremo é Tudo; sê tu como Ártemis para Pã. Lê no Livro da Lei, e atravessa o véu da Virgem.

Pura, exaltada e graciosa influência penetra a matéria. Por consequência, mudança, alternância, aumento e diminuição, flutuação. Há, entretanto, uma suscetibilidade de ser levado pelo entusiasmo; pode-se ficar “lunático” a não ser que se mantenha cuidadoso equilíbrio.

III Esta é a Harmonia do Universo, que o Amor una a Vontade para criar com a Compreensão daquela Criação: compreende tua própria Vontade. Ama e deixa amar. Regozija em toda forma do amor, e obtém teu êxtase e teu alimento dela.

Amor, beleza, felicidade, prazer, sucesso, realização, boa fortuna, cortesia, elegância, volúpia, ociosidade, dissipação, deboche, amizade, gentileza, deleite.

IV Verte água sobre ti mesmo: assim serás uma Fonte para o Universo. Descobre tu mesmo em toda Estrela. Conquista toda possibilidade.

Guerra, conquista, vitória, conflito, ambição, originalidade, confiança jactanciosa e megalomania, inclinação à disputa, energia, vigor, teimosia, impraticabilidade, precipitação, mal humor.

262


V Oferece a ti mesmo Virgem ao Conhecimento e Conversação de teu Santo Anjo Guardião. Tudo o mais é uma cilada. Sê atleta com os oito membros da Yoga: pois sem estes não estás disciplinado para nenhuma luta.

Força obstinada, labuta, resistência, placidez, manifestação, explicação, ensino, bondade, ajuda dos superiores, paciência, organização, paz.

VI O Oráculo dos Deuses é a Voz de Criança do Amor em Tua própria Alma; ouve-o. Não dá atenção à Voz-Sereia do Sentido, ou à VozFantasma da Razão: repousa na Simplicidade e escuta o Silêncio.

Abertura à inspiração, intuição, inteligência, segunda visão, infantilidade, frivolidade, pensamento divorciado das considerações práticas, indecisão, autocontradição, união em grau superficial com os outros, instabilidade, contradição, trivialidade, o “sabichão”.

VII A Questão do Abutre, Dois-em-Um, comunicada; esta é a Carruagem do Poder. TRINC: o último oráculo.

Triunfo, vitória, esperança, memória, digestão, violência na manutenção de ideias tradicionais, o “duro de matar”, desumanidade, desejo de destruição, obediência, fidelidade, autoridade sob autoridade.

263


VIII Equilibra em relação a cada pensamento seu exato oposto. Pois o Casamento destes é o Aniquilamento da Ilusão.

Justiça, ou melhor, justesse, o ato do Ajustamento, suspensão de toda ação aguardando decisão; em assuntos materiais pode se referir a ações judiciais ou processos. Socialmente, casamento ou contratos de casamento; politicamente, tratados.

IX Perambula só; portando a Luz e teu Cajado. E seja a Luz tão resplandecente que nenhum homem te veja. Não se comove com o que quer que seja externa ou internamente: mantém o Silêncio em todos os caminhos.

Iluminação proveniente do interior, impulso secreto do interior; planos práticos derivados em conformidade com isso. Afastamento da participação nos acontecimentos correntes.

X Segue tua Fortuna, despreocupado para onde ela te leva. O eixo não se move: atinge isso.

Mudança de fortuna (o que geralmente significa boa fortuna porque o fato da consulta implica em ansiedade ou descontentamento).

XI Abranda a Energia com Amor; mas deixa o Amor devorar todas as coisas. Venera o nome ______, quadrado, místico, maravilhoso, e o nome de Sua Casa 418.

264


Coragem, força, energia e ação, une grande passion; refúgio da magia, o uso de poder mágico.

XII Não permite que as águas em que viajas te banhem. E, tendo chegado à praia, planta a Vinha e regozija sem pudor.

Sacrifício imposto, castigo, perda fatal ou voluntária, sofrimento, derrota, fracasso, morte.

XIII O Universo é Mudança; toda Mudança é o efeito de um Ato de Amor; todos os Atos de Amor contêm Alegria Pura. Morre diariamente. A morte é o ápice de uma curva da Vida-serpente: contempla todos os opostos como complementos necessários, e regozija.

Transformação, mudança, voluntária ou involuntária, num caso ou outro desenvolvimento lógico das condições existentes, ainda que talvez súbito e inesperado. Morte ou destruição aparente, embora esta interpretação seja ilusão.

XIV Verte o teu todo livremente do Vaso em tua mão direita e não perde gota alguma. Não tem a tua mão esquerda um vaso? Transmuta tudo integralmente na Imagem de tua Vontade, trazendo cada um ao seu verdadeiro símbolo de Perfeição. Dissolve a Pérola na taça de vinho; bebe e torna manifesta a Virtude dessa Pérola.

265


Combinação de forças, realização, ação baseada em cálculo preciso; o caminho da fuga, sucesso depois de manobras elaboradas.

XV Com teu Olho direito cria tudo para ti mesmo, e com o esquerdo aceita tudo que seja criado de outra maneira.

Impulso cego, irresistivelmente forte e inescrupuloso, ambição, tentação, obsessão, plano secreto prestes a ser executado; trabalho duro, obstinação, rigidez, descontentamento doloroso, resistência.

XVI Derruba a fortaleza de teu Eu Individual de modo que tua Verdade possa brotar livre das ruínas.

Disputa, combate, perigo, ruína, destruição de planos, morte súbita, fuga da prisão.

XVII Usa toda tua energia para governar teu pensamento: queima teu pensamento como a Fênix.

Esperança, ajuda inesperada, clareza de visão, realização de possibilidades, discernimento espiritual com maus aspectos, erro de julgamento, devaneio, desapontamento.

XVIII Deixa a Ilusão do Mundo passar por ti, despercebida, à medida que caminhas da Meia-noite para a Manhã.

266


Ilusão, engano, confusão, histeria, mesmo insanidade, devaneio, falsidade, erro, crise, “a hora mais negra antes da aurora”, a iminência de mudança importante.

XIX Emite tua luz a todos sem dúvida; as nuvens e sombras não importam para ti. Faz do Discurso e do Silêncio, da Energia e da Quietude formas gêmeas do teu jogo.

Glória, ganho, riquezas, triunfo, prazer, franqueza, verdade, despudor, arrogância, vaidade, manifestação, recuperação da doença, mas por vezes morte súbita.

XX Seja todo Ato um Ato de Amor e de Veneração. Seja todo Ato o Fiat de um Deus. Seja todo Ato uma Fonte de irradiante Glória.

Decisão final com respeito ao passado, corrente nova com respeito ao futuro; representa sempre a tomada de um passo definido.

XXI Trata o tempo e todas as condições do Evento como Servos de tua Vontade, designados para apresentar o Universo a ti sob a forma de teu Plano. E : bênção e adoração ao profeta da graciosa Estrela.

O assunto da própria questão, síntese, o desfecho da matéria; pode significar demora, oposição, obstinação, inércia, paciência, perseverança, teimosia persistente na dificuldade. A cristalização de toda a matéria envolvida.

267


268


APÊNDICE B

D IAGRAMAS E CORRESPONDÊNCIAS

269


CORRESPONDÊNCIAS

A Santa Qabalah é um sistema de classificação dos seres, by-comings, pensamentos, mônadas, átomos, ondas, pacotes de energia, ideias, ou seja, lá o que for que se escolha para chamá-los; e de memorizar, discutir e manipular as relações entre eles. As unidades desse sistema são números, querendo-se dizer, geralmente, “números naturais”, mas não há razão para excluir outros termos matemáticos tais como √ , #, ), e assim por diante. Cada unidade é uma ideia ou pessoa vivas, a cada uma estando relacionada na natureza todas as outras ideias de uma maneira ou outra. Assim, o 93 está relacionado ao 31, sendo um múltiplo dele; o 13 está relacionado ao 1, visto que AChD, a palavra hebraica para unidade significa um. A genciana está relacionada ao céu porque ambos parecem azuis; e o azul está relacionado a Júpiter, Vênus e a Lua, e assim aos números sagrados a esses planetas, 4, 7 e 9 porque o azul é a cor de todos os três planetas numa escala ou outra. Todas as palavras são, portanto, de algum modo conotações de toda outra palavra ou número; trata-se meramente da questão de descobrir a categoria certa para estabelecer as relações entre elas. Correspondências tais como HVD (Esplendor), Elohim, Gibor, Kokab, Mercúrio, Samael, púrpura-violeta, Anúbis, Tahuti, Thoth, laranja, ruivo, branco mosqueado de marrom amarelado, Odin, Loki, Hermes, Hanuman, Hermafrodita, Chacal, Monokeros de Astris, móli, Anhalonium Lewinii, opala, o Espírito Santo, estoraque, os nomes e versículos empregados em ritual, veracidade, o octágono, Palatium Serenitatis, Aarão, Raqie, Svaddistthana, Sakkya-ditti, enganadores, Jarmat al Firdaus e inúmeras outras ideias pertencem todas ao número 8. Essas “correspondências” não são arbitrárias. Em alguns casos há uma conexão racional, direta ou indireta, em outros a relação resulta da observação direta. Todas as ideias possíveis sendo em última instância integrantes entre si, é evidentemente impossível constituir uma Qabalah completa. O mesmo se aplica às séries infinitas, às séries divergentes, às diferenciações, ao “universo em expansão” de alguma teoria física moderna. As tabelas aqui impressas e empregadas como base da forma e cor das setenta e oito cartas são convenções bem experimentadas e comprovadas; a harmonia do resultado é testemunha da exatidão do método e uma defesa do sistema da Santa Qabalah.

270


DIAGRAMA 1. A ESCALA-CHAVE

Este diagrama ilustra a teoria convencional da estrutura do universo adotada por conveniência para as finalidades de cálculo no Livro chamado de Tarô. A elipse, a parábola e a hipérbole mostram os três véus do negativo; os dez círculos se referem aos dez números da escala decimal e sua significação geral espiritual e moral é dada nos aros. A necessidade e propriedade desse sistema são demonstradas no Arranjo de Nápoles, discutido pormenorizadamente na primeira parte deste ensaio. As linhas que unem esses círculos representam os vinte e dois números 86 do alfabeto hebraico com os 86

Ou melhor, letras (NT).

271


significados efetivos de seus nomes e seu valor numérico, o que é também abordado de maneira ampla e minuciosa neste ensaio. Este diagrama deve ser estudado de maneira tão profunda e contínua a ponto de se tornar automático para a mente aceitá-lo como a base de todo pensar do tema do Tarô, exatamente como as letras do alfabeto e sua ordem arbitrária são aceitas como a base de todo nosso pensar a respeito das palavras e sua pronúncia. Enquanto esta tarefa não for executada com tal domínio, os detalhes referentes ao Tarô poderão se revelar uma fonte de contínuo aborrecimento. Cada símbolo do livro precisa se tornar tão familiar a ponto de ter mergulhado completamente nas camadas inconscientes do pensamento. O conhecimento intelectual tem que ser lavrado na substância da mente de tal forma que se converta em instinto.

DIAGRAMA 2. ATRIBUIÇÃO GERAL DO TARÔ

Desde que o Diagrama 1 tenha sido dominado como deve sê-lo, esta figura não apresentará qualquer dificuldade. Os dez números evidentemente se referem às cartas menores do baralho, os ases ao número 1, os duques ao número 2 e assim por diante. As cartas da corte se referem aos números 2, 3, 6 e 10 em sua capacidade de representar a ideia do Pai, Mãe, Filho e Filha. Os vinte e dois trunfos se referem aos vinte e dois caminhos. As mesmas observações gerais feitas na descrição do Diagrama 1 se aplicam aqui também, mas este diagrama tem que ser estudado em separado. Não convém que seja utilizado como uma tabela que se deve consultar em caso de dúvida; convém, sim, que seja encerrado na memória antes que se proceda ao estudo minucioso do baralho.

DIAGRAMA 3. O COSMOS CHINÊS

Este diagrama foi introduzido como uma elucidação da interação do sistema décuplo das Sephiroth com o sistema quádruplo de Tetragrammaton porque o sistema chinês, embora baseado exclusivamente no princípio da simples adição e subtração, se mostra em perfeita harmonia com nossa Qabalah. A origem do cosmos é explicada da maneira que se segue. O Tao é exatamente equivalente ao Ain ou Nada de nossa Qabalah visto que igualmente tem que ser compreendido como necessariamente possuidor de uma fase de manifestação. A concepção se torna mais objetiva à medida que é desenvolvida, de maneira que tanto o Tao quanto o seu correlativo oculto, o Teh são formulados de um modo inteiramente positivo como Yang e Yin, que correspondem precisamente ao Lingam e Yoni, os quais revestidos se tornam os símbolos populares do Pai e a Mãe.

272


No macrocosmo correspondem ao Sol e a Lua, e pela complementar descida à matéria são, do lado masculino, fogo e ar, e do lado feminino, água e terra.

O conceito original do Tao tal como desenvolvido pelo Teh está resumido no nome Thai Ki. O Yang e o Yin são chamados de I ou Yao. Quando estes são combinados dois de uma vez, obtêm-se quatro figuras chamadas de Hsiang, o qual pode ser comparado ao Tetragrammaton, e este estágio de desenvolvimento é tão secreto na ideia chinesa que praticamente nada é dito acerca dessas formas. Elas só vêm à luz quando as combinações do Yang e do Yin são tomadas três de uma vez como é mostrado na parte inferior deste diagrama. Pode-se notar que há oito dessas formas; são chamadas de Kwa. Duas destas são completamente equilibradas em pureza, Khien e Khwan com três Yangs e três Yins 273


respectivamente. Em seguida surge o primeiro fracasso do equilíbrio perfeito; há Li, o Sol e Khan, a Lua. Um contém dois Yangs com um Yin entre eles e o outro dois Yins com um Yang entre eles. Os quatro trigramas remanescentes são completamente desequilibrados em si mesmos, mas cada um é equilibrado pela contraparte. O equilibrado e o quase equilibrado são, portanto, encontrados na coluna mediana equilibrada; os outros, representando os quatro elementos, na coluna lateral. Khien, céu, é encontrado no lugar de Daäth, o que retoma os poderes da tríade superior. Note que ela não tem nenhum lugar verdadeiro na Árvore, como que indicando que a ilusão material começa agora.

274


No lugar de Chesed, que é água em nossa Qabalah, encontramos Tui, que é água no sistema chinês. Em Geburah, nosso fogo, está Kan, fogo no sistema chinês. No lugar de Netzach, que é terra na Qabalah está Kan, que é terra no plano chinês. Finalmente, para a Sephirah Hod, que no nosso sistema é aérea e mercuriana, encontramos Sun, o trigrama chinês do ar. O sistema chinês é, portanto, em todos os pontos, equivalente à nossa própria Qabalah e é sumamente interessante observar que eles igualmente atingem a ideia de nossos próprios sistemas de iniciação sem invocar nenhuma outra fórmula a não ser a da díade.

275


UMA BREVE EXPLICAÇÃO DAS ATRIBUIÇÕES AQUI INDICADAS MEDIANTE NOVE DIAGRAMAS ILUSTRATIVOS

LISTA DOS DIAGRAMAS 1. A Árvore da Vida com a atribuição das Sephiroth e os caminhos.* 87

5. Os números dos planetas.

2. O Tarô na Árvore da Vida.*

7. As armas dos elementos

3. O Yi King na Árvore da Vida.*

8. A Esfinge

4. O caduceu de Hermes.

9. As dignidades essenciais dos planetas.

6. Os elementos e seus símbolos.

DIAGRAMA 4. O CADUCEU

Este diagrama ilustra a Árvore da Vida, o Cosmos como o bastão ou força criativa de Mercúrio, que é a da energia equilibrada que criou a ilusão da existência. É de se notar que a forma do símbolo mostra as três letras-mãe do alfabeto hebraico, Shin, Aleph e Mem em suas três seções.

87

(*) Trata-se dos diagramas cujas explicações foram apresentadas nas páginas imediatamente anteriores (NT).

276


A importância deste símbolo reside principalmente no fato do Tarô ser primordialmente o Livro de Thoth ou Tahuti, o Mercúrio egípcio. Para a compreensão desse livro é necessário aprender transmutar instintiva e automaticamente todo símbolo simples em todo símbolo complexo e retornando novamente, pois somente assim é possível compreender a unidade e diversidade que é a solução do problema cósmico.

DIAGRAMA 5. OS NÚMEROS DOS PLANETAS

Este diagrama ilustra o sistema solar na Árvore da Vida. Saturno está na posição da Sephirah inexistente, Daäth, mas resume as características das três Sephiroth acima do Abismo. O ponto de doutrina é que não existindo este na Árvore em natureza, compete ao buscador da verdade penetrar na obscuridade de Saturno e descobrir aí a Tríade Superior sob uma forma ligada à sua própria mente por sua posição no sistema solar. A décima Sephirah, que se refere à Terra, não é mostrada nesta figura, pois este número representa Nephesch, a alma animal do homem, a cristalização da mente, e a Filha ou Hé final de Tetragrammaton. Neste livro pouquíssima atenção foi dada ao imenso, vasto dogma obscurecedor da era cristã. Este foi variavelmente representado como a doutrina do pecado original, da queda, da expiação. Parte desta doutrina é apresentada nas lendas acerca da palavra perdida, a Viúva e o Filho da Viúva, a filha decaída, solitária e lamentadora, e assim por diante. Estas doutrinas foram todas baseadas na ignorância da época, que supunha que o sol era destruído toda noite e tinha que renascer toda manhã mediante maquinações sacerdotais. A “fórmula do deus que morre”, como é geralmente denominada, realmente existe, mas representa um estágio no desenvolvimento humano que agora é passado no que diz respeito à teologia externa. Possui uma espécie de validade sombria na psicologia; por exemplo, ao assumir uma nova tarefa de alguma importância, começa-se muito agradavelmente, o período de Ísis; a tarefa se torna tediosa e desconcertante e se começa a desesperar, o período de Apófis; então, subitamente, o assunto é dominado e se chega a uma conclusão triunfante, o período de Osíris. Mas o conjunto dessa fórmula se apoia na ignorância das leis da natureza. Não há, na verdade, nenhuma catástrofe. Natura non facit saltum. Toda mutação procede com ordem, tranquilidade e harmonia perfeitas. Constitui a grande incumbência colocada diante da espécie humana no presente momento compreender, e, portanto, ajustar os recursos da ação aos fatos do caso, evitando assim a ilusão da catástrofe ao eliminar o elemento surpresa. É também, está claro, de suma importância eliminar aquele desejo preconceituoso que é o veneno da vontade, “Pois vontade pura, desaliviada de propósito, livre da sede de resultado, é toda senda perfeita.”

277


Os Números dos Planetas

Os Elementos e seus Símbolos

As Armas dos Elementos

A Esfinge

Só torna as coisas piores desejar-se que não houvesse dez de Espadas no baralho, ou que o cinco de Bastões não seguisse e transtornasse o quatro.

DIAGRAMA 6. OS ELEMENTOS E SEUS SÍMBOLOS

Este diagrama é, à primeira vista, bastante perturbador, pois não pode ser atribuído de nenhuma maneira direta à Árvore da Vida. 278


Será melhor expor os problemas ab ovo. 88 Os elementos são em número de quatro. Embora eles sejam harmonizados e equilibrados e feitos para revolver, há uma irreconciliável dificuldade em sua perfeição. É impossível dispor quatro números num “quadrado mágico”, de maneira que todos os lados e todas as diagonais totalizem o mesmo número. O dois é o único número em relação ao qual isto é verdadeiro. Tal é a fórmula matemática para expressar a doutrina do que foi chamado de a Díade Amaldiçoada. O problema do Adepto era, portanto, atacar essa dualidade irreconciliável, cujo limite é reforçado e entrincheirado elevando-se ao quadrado. Como, portanto, a dualidade original do fogo e da água foi superada pela introdução de um terceiro elemento que partilha igualmente de ambas as naturezas, o ar, um quinto elemento foi introduzido e o pentagrama instituído como um símbolo de salvação. Na Qabalah cristã, isso é simbolizado pela introdução da letra Shin no meio do Tetragrammaton para representar o elemento espírito harmonizando e governando os quatro elementos rígidos e opostos. O nome Jehovah IHVH, se torna, assim, IHShVH, Yeheshuah, Jesus. Este é o método qabalístico de expressar a doutrina de Jesus como o Redentor. O método foi explicado detalhadamente por uma fórmula na qual INRI, a inscrição sobre a cruz, se torna Yod Nun Resh Yod, que são nos céus Virgem, a Virgem-Mãe; Ísis, Escorpião, Apófis o Dragão, o Destruidor; Sol, Osíris, o Morto e Ressuscitado. As iniciais desses três seres divinos formam assim o mais antigo nome de Jehovah, IAO. Deste modo os iniciados de outrora exprimiam seu entendimento do fato de que o universo era, afinal, perfeito, mesmo se necessitando um pouco de manipulação. Mas, como explicado previamente, esta doutrina é para os irmãos mais débeis, para aqueles que sofrem da ilusão da imperfeição; ela os capacita a abrir seu caminho para a Luz ilimitável.

DIAGRAMA 7. AS ARMAS DOS ELEMENTOS.

Este diagrama mostra a atribuição dos quatro naipes do baralho aos quatro elementos. O quinto elemento, espírito, é representado por uma lâmpada, a qual no Tarô se refere aos vinte e dois trunfos. A interação dos símbolos deve ser notada, pois o conjunto dos símbolos planetários, zodiacais e dos elementos estão, eles mesmos, todos contidos nos raios da lâmpada. Observe-se que este e os diagramas seguintes representam novas descobertas do Mestre Therion: complemento da Tradição.

DIAGRAMA 8. A ESFINGE

Este diagrama mostra os quatro Kerubs que estão ao redor do trono do TodoPoderoso; indicam os signos zodiacais centrais dos quatro elementos: Leão, Escorpião, 88

A partir do ovo, a partir do início (NT).

279


Aquário e Touro. O signo querúbico em qualquer elemento exibe a forma mais poderosa e equilibrada desse elemento. Junto aos Kerubs estão os nomes das quatro virtudes do Adepto, aquelas que o capacitam a sobrepujar a resistência dos elementos, e que são: querer, ousar, saber e silenciar. Através do exercício harmonioso destas virtudes, o quinto elemento, espírito, é formulado no ser do Adepto. É o deus interior, o sol, que é o centro do universo do ponto de vista humano, com sua própria virtude particular, que é ir. A característica essencial da divindade é esta faculdade de ir; os movimentos livres do espaço e tempo e todas as outras condições possíveis. No sistema hieroglífico egípcio, essa faculdade de ir era representada por uma correia de sandália, a qual indica, por sua forma hieroglífica, a crux ansata, a rosa e a cruz, que, por sua vez, produz a fórmula do Amor sob Vontade, o segredo da realização.

DIAGRAMA 9. AS DIGNIDADES ESSENCIAIS DOS PLANETAS

Este diagrama mostra a verdadeira realização simétrica do sistema solar-sideral. As descobertas astronômicas de Herschel (Urano), Netuno e Plutão completaram o esquema décuplo das Sephiroth e permitiram a Mestre Therion estabelecer a astrologia na sua relação com a magia cerimonial numa base perfeitamente equilibrada. Constitui uma notória testemunha do triunfo da magia o fato de todas as nações combativas terem adotado, dignamente ou não, símbolos e gestos mágicos. Grã-Bretanha e Estados Unidos: “Polegares para cima!” ‒ o sinal de Khem: falo; o sinal V ‒ o signo de Apófis e de Tífon. U.R.S.S.: O martelo e a foice ‒ Júpiter e Saturno; o pentagrama. O Terceiro Reich: a Suástica. Itália: o fascis‒fascinum. 89 Japão: o sol nascente. França: abandonando a flor-de-lis (falo) e profanando o pentagrama da Légion d‟Honneur, _____ ? 90

89

Latim fascis ou fasces, embrulho, feixe, fardo e também machadinha atada com um feixe de varetas de bétula ou olmo que se carregava à frente dos primeiros magistrados romanos, simbolizando sua grande autoridade, especialmente seu poder de condenar à morte. Fascinum (latim), sortilégio, malefício e também falo (NT). 90

Francês, Legião de Honra (NT).

280


Escala Chave

Números e Títulos

Letras

das Cartas do Tarô

Hebraicas

Nomes das Letras Hebraicas

Valor Numérico

Atribuição

Português

Boi (Arado)

11

O ‒ O Louco

)

Aleph

1

D

12

I ‒ O Mago

b

Bet

2

#

Casa

13

II ‒ A Alta Sacerdotisa

g

Gimel

3

=

Camelo

14

III ‒ A Imperatriz

d

Daleth

4

$

Porta

15

IV ‒ O Imperador

cC

Tzaddi

90, 900

k

Anzol

16

V ‒ O Hierofante

w

Vau

6

b

Prego

17

VI ‒ Os Amantes

z

Zayin

7

c

Espada

18

VII ‒ A Carruagem

x

Cheth

8

d

Cerca

19

VIII ‒ Ajustamento

l

Lamed

30

g

Aguilhão de boi

20

IX ‒ O Eremita

y

Yod

10

f

Mão

21

X ‒ Fortuna

kK

Kaph

20, 500

&

Punho

22

XI ‒ Volúpia

+

Teth

9

e

Cobra

23

XII ‒ O Pendurado

mM

Mem

40, 600

C

Água

24

XIII ‒ Morte

nN

Nun

50, 700

h

Peixe

25

XIV ‒ Arte

s

Samekh

60

i

Suporte

26

XV ‒ O Diabo

(

Ayin

70

j

Olho

27

XVI ‒ A Torre

pP

80, 800

%

Boca

28

XVII ‒ A Estrela

h

5

a

Janela

29

XVIII ‒ A Lua

q

Qoph

100

l

Nuca

30

XIX ‒ O Sol

r

Resh

200

!

Cabeça

31

XX ‒ O Æon

#

Shin

300

B

Dente

32

XXI ‒ O Universo

t

Tau

400

'

Cruz (Tau Egípcia)

32 bis

t

Tau

400

E

31 bis

#

Shin

300

A

281


O Cavalheiro

A Rainha

O Príncipe

A Princesa

11.

Amarelo claro brilhante

Azul celeste

Verde esmeralda

Esmeralda salpicado de dourado

12.

Amarelo

Púrpura

Azulado

Violeta rajado de azul claro

13.

Azul

Prata

Cinza

Azul celeste rajado de prata

14.

Verde esmeralda

Azul celeste

Azul claro frio

Amarelo pálido rajado de rosa cereja brilhante

15.

Escarlate

Vermelho

Verde início primavera

Vermelho brilhante

16.

Laranja avermelhado

Azul celeste profundo

Chama brilhante

Marrom profundo

17.

Laranja

Roxo pálido

Verde oliva quente

Cinza avermelhado tendendo para roxo

18.

Âmbar

Marrom

Amarelo novo

Marrom escuro esverdeado

19.

Amarelo esverdeado

Púrpura profundo

Ruivo profundo

Âmbar avermelhado

20.

Verde amarelado

Cinza ardósia

Cinza

Cor da ameixa

21.

Violeta

Azul

Cinza esverdeado

Amarelo rajado de azul brilhante

22.

Verde esmeralda

Azul

Púrpura profundo

Verde pálido

23.

Azul profundo

Verde mar

Verde profundo azulado

Branco salpicado de púrpura como madrepérola

282


O Cavalheiro

A Rainha

O Príncipe

A Princesa

24.

Azul esverdeado

Marrom opaco

Marrom muito escuro

Marrom azulado opaco (como um besouro)

25.

Azul

Amarelo

Verde

Azul escuro vivo

26.

Azul profundo

Preto

Preto azulado

Cinza escuro opaco quase preto

27.

Escarlate

Vermelho

Vermelho veneziano

Azul ou esmeralda rajado de vermelho brilhante

28.

Violeta

Azul celeste

Roxo azulado

Púrpura manchado de branco

29.

Carmesim ultravioleta

Amarelo claro salpicado de branco prata

Marrom rosado de levemente translúcido

Cor de pedra

30.

Laranja

Amarelo dourado

Âmbar profundo

Vermelho rajado de âmbar

31.

Laranja escarlate brilhante

Rubro escarlate

Escarlate salpicado de dourado

Rubro escarlate salpicado de carmesim e esmeralda

32.

Azul escuro

Preto

Preto azulado

Preto rajado de azul

31+.

Preto avermelhado, esverdeado, citrino

Âmbar

Marrom escuro

Preto e amarelo

32+.

Branco, misturado com cinza

Púrpura profundo (quase preto)

7 cores prismáticas, externamente violeta

Branco, vermelho, amarelo, preto azulado (externamente)

O Cavalheiro

A Rainha

O Príncipe

A Princesa

1.

Brilho

Brilho branco

Brilho branco

Branco salpicado de dourado

2.

Azul claro

Cinza

Madre pérola azulado

Branco salpicado de vermelho, azul, amarelo

3.

Carmesim

Preto

Marrom escuro

Cinza salpicado de rosa

4.

Violeta profundo

Azul

Púrpura profundo

Azul profundo salpicado de amarelo

5.

Laranja

Vermelho escarlate

Escarlate brilhante

Vermelho salpicado de preto

6.

Rosa claro

Amarelo (ouro)

Salmão profundo

Âmbar dourado

7.

Âmbar (marrom avermelhado)

Esmeralda

Amarelo esverdeado brilhante

Verde oliva salpicado de dourado

8.

Violeta púrpura

Laranja

Ruivo avermelhado

Marrom amarelado salpicado de branco

9.

Anil

Violeta

Púrpura muito escuro

Citrino salpicado de azul celeste

Amarelo

Citrino, oliva, ruivo, preto

Ouro salpicado com quatro cores

Amarelo rajado de preto

10.

283


As Cartas da Corte do Tarô, com as Esferas de seus Domínios Celestiais ‒ BASTÕES

As Cartas da Corte do Tarô, com as Esferas de seus Domínios Celestiais ‒ TAÇAS

O Príncipe da Carruagem de Fogo. Rege 20° de d até 20° de f, incluindo a maioria de Leão Menor.

O Príncipe da Carruagem das Águas. 20° de g até 20° de h.

A Rainha dos Tronos de Chamas. 20° de l

A Rainha dos Tronos das Águas. 20° de c

até 20° de a, incluindo parte de Andrômeda.

até 20° de d.

O Senhor das Chamadas e Relâmpagos. O Rei dos Espíritos do Fogo. Rege 20° de h até 20° de i, incluindo parte de Hércules.

O Senhor das Ondas e das Águas. O Rei das Hostes do Mar. 20° de k até 20° de l, incluindo a maioria de Pégaso.

A Princesa da Flama Brilhante. A Rosa do

A Princesa das Águas. A Rosa do Palácio dos

Palácio do Fogo. Rege um Quadrante dos Céus em torno do Polo Norte.

Dilúvios. Rege outro Quadrante.

A Raiz dos Poderes de Fogo (Ás)

A Raiz dos Poderes da Água.

As Cartas da Corte do Tarô, com as Esferas de seus Domínios Celestiais ‒ ESPADAS

As Cartas da Corte do Tarô, com as Esferas de seus Domínios Celestiais ‒ DISCOS

O Príncipe da Carruagem do Ar. 20° de j até 20° de k.

O Príncipe da Carruagem da Terra. 20° de a até 20° de b.

A Rainha dos Tronos do Ar. 20° de f até 20° de g.

A Rainha dos Tronos da Terra. 20° de i até 20° de j.

O Senhor dos Ventos e das Brisas. O Rei dos Espíritos do Ar. 20° de b até 20° de c.

O Senhor da Terra Ampla e Fértil. O Rei dos Espíritos da Terra. 20° de e até 20° de f.

Palácio do Ar. Rege a 3.º quadrante.

A Princesa dos Vales Ecoantes. O Lótus do Palácio da Terra. Rege a 4.º Os quadrantes dos Céus por volta de Kether.

A Raiz dos Poderes do Ar.

A Raiz dos Poderes da Terra.

A Princesa dos Ventos Furiosos. O Lótus do

284


Títulos e Atribuições do

Títulos e Atribuições do Naipe

Naipe Baqueta [Paus]

Taça ou Cálice [Copas] ...

A Raiz dos Poderes do Fogo

A Raiz dos Poderes da Água

% em a

Dominação

$ em d

Amor

! em a

Virtude

# em d

Abundância

$ em a

Conclusão

; em d

Luxúria

' em e

Conflito

% em h

Desapontamento

& em e

Vitória

! em h

Prazer

% em e

Bravura

$ em h

Deboche

# em i

Rapidez

' em l

Indolência

; em i

Força

& em l

Felicidade

' em i

Opressão

% em l

Saciedade

Títulos e Atribuições do Naipe

Títulos e Atribuições do Naipe Moeda,

Espada [Espadas]

Disco ou Pantáculo [Ouros] ...

A Raiz dos Poderes do Ar

A Raiz dos Poderes da Terra

; em g

Paz

& em j

Mudança

' em g

Sofrimento

% em j

Obras

& em g

Trégua

! em j

Poder

$ em k

Derrota

# em b

Preocupação

# em k

Ciência

; em b

Sucesso

; em k

Futilidade

' em b

Falha

& em c

Interferência

! em f

Prudência

% em c

Crueldade

$ em f

Ganho

! em c

Ruína

# em f

Riqueza

285


AS DIGNIDADES ESSENCIAIS DOS PLANETAS

AS DIGNIDADES ESSENCIAIS DOS PLANETAS A Exaltação dos Planetas

Planetas Regentes

Signos do Zodíaco

!

19°

%

a

28

=

$

b

16

<

#

c

17

&

15°

=

d

18

'

21°

$

g

22

#

15°

#

f

20

*

19°

!

e

19

+

14°

%

h

24

>

&

i

25

%

28°

'

j

26

)

19°

'

k

15

$

27°

&

l

29

286


A TRINDADE TRIPLA DOS PLANETAS ) ! =

O Espiritual

* ' %

O Espiritual

& # $

O Espiritual

) ! =

O Espiritual

* & $

O Criativo

' % #

O Intuitivo

91

O Humano (Intelectual) 91 O Sensório (Corpóreo)

O Humano (Intelectual) O Sensório (Corpóreo)

O Humano (Intelectual) O Sensório (Corpóreo)

O Humano O Automático

O Paterno O Apaixonado

O Volitivo O Intelectual

}

O Self (Ego).

#

}

A Vontade do Self.

F

}

A Relação com o não-ego.

G

}

Consciência

}

Modo de ação sobre o não-ego

}

Modo de auto expressão.

Por “intelectual” pode-se dizer “consciente”.

287


AS TRIPLICIDADES DO ZODÍACO

Fogo

Água

Ar

Terra

{ { { {

Fogo do Fogo.

O Relâmpago ‒ a violência rápida do princípio.

Ar do Fogo.

O Sol ‒ a força constante de energia.

Água do Fogo.

O Arco-Íris ‒ o reflexo transparente espiritualizado da Imagem.

Fogo da Água.

A Chuva, as Nascentes, etc. ‒ o ataque apaixonado rápido.

Ar da Água.

O Mar ‒ a força fixa de putrefação.

Água da Água.

O Lago ‒ reflexão estagnada espiritualizada das Imagens.

Fogo do Ar.

O Vento ‒ o princípio rápido (a ideia de equilíbrio como nos ventos tropicais).

Ar do Ar.

As Nuvens ‒ os condutores fixos de água.

Água do Ar.

As Vibrações ‒ massa imóvel, espiritualizada para refletir o Ruach (a mente).

Fogo da Terra.

As Montanhas ‒ a pressão violenta (devido a gravidade).

Ar da Terra.

As Planícies ‒ o comportamento constante da vida.

Água da Terra.

Os Campos ‒ a tranquilidade, espiritualizada para sustentar a vida vegetal e animal.

Em cada caso o signo Cardeal representa o Nascimento do Elemento, o signo Querúbico a sua Vida, e o signo Mutável sua passagem na direção da forma ideal que lhe é própria, isto é, o Espírito. Assim também as Princesas no Tarô são os Tronos do Espírito.

288


AS TRÍADES VITAIS

Os Três Deuses I A O

As Três Deusas

Os Três Demiurgos

{ { {

As Crianças Hórus e Hoor-Pa-Kraat

{

A Yoni Gaudens Yoni

{

(A Mulher justificada)

Os Deuses Assassinados

O Lingam. A Yoni. A Estela (Sacerdote, Sacerdotisa Cerimônia) O Pantáculo do Todo

{ {

0. O Espírito Santo. I. O Mensageiro. IX. A Semente Secreta.

II. A Virgem. III. A Esposa. XVII. A Mãe.

X. O Pai de Tudo 3 em 1. IV. O Regente V. O Filho (Sacerdote). VI. Os Gêmeos Emergentes. XIX. O Sol (a Brincadeira). XVI. A Criança Coroada e Conquistadora emergindo do Útero em A L P. VII. O Graal; a Carruagem da Vida. XIV. O Útero Grávido preservando a vida. VIII. O Sexualmente unido.

XI. 156 e 666. XII. O Redentor nas águas. XIII. O Ventre Redentor que mata XV.

XV. Ereto e Satisfeito. XVIII. A Bruxa: a Yoni estagnada e esperando. XX. Deus e Homem como gêmeos de Nuit e Hadit. XXI. O Sistema.

289


290

Aleister crowley o livro de thoth  
Aleister crowley o livro de thoth  
Advertisement