Cada um na sua casa

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Copyright © 2007 Adam Rex Copyright © 2015 Editora Gutenberg Título original: The True Meaning of Smekday Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja cópia xerográfica, sem autorização prévia da Editora.

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Felipe Castilho Carol Christo

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ESTAGIÁRIA

Andresa Vidal Branco

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Rex, Adam Cada um na sua casa / Adam Rex ; tradução Silvia Rezende (Ab Aeterno). -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2015. Título original: The True Meaning of Smekday ISBN 978-85-8235-229-8 1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Título. 14-12895

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I, 23º andar, Conj. 2301 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 Televendas: 0800 283 13 22 www.editoragutenberg.com.br

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Escreva uma redação com o título

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DIA DO SMEK Qual é o verdadeiro significado do Dia do Smek? Quais foram as mudanças que ocorreram ao longo do ano desde a partida dos alienígenas? Você pode utilizar suas experiências pessoais sobre a invasão alienígena para desenvolver o tema. Sinta-se livre para incluir desenhos ou fotografias. Todas as redações serão enviadas para o Comitê Nacional da Cápsula do Tempo, em Washington D.C. O Comitê escolherá a melhor redação, que será enterrada com a Cápsula do Tempo. Esta, por sua vez, será aberta daqui a cem anos. Os textos devem ter, no mínimo, cinco páginas.

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Gratuity Tucci

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8 ano o

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DIA DO SMEK

Era o Dia da Mudança. Será que eu deveria escrever com letra maiúscula? Eu nunca tinha escrito com letra maiúscula antes, mas agora o Dia da Mudança era um feriado nacional, por isso acho que deveria ser escrito assim. Com letra maiúscula. Bom, continuando... Era o Dia da Mudança, e todos estavam malucos. Vocês devem se lembrar, estava a maior confusão. As pessoas corriam de um lado para o outro, carregando as louças de família e os álbuns de fotografias, levando comida e água, carregando seus cachorros e filhos, porque elas tinham se esquecido de que os cachorros e as crianças podiam muito bem andar sozinhos. Loucura. Lembrei-me de uma senhora com um espelho e pensei: “Por que salvar um espelho?”. Então, eu a vi descendo a rua, carregando o espelho com as duas mãos, e com os braços esticados como se estivesse caçando vampiros. Vi um grupo de caras .9.


brancos vestidos de indianos, queimando saquinhos de chá e jogando no bueiro. Havia um homem segurando um tabuleiro de xadrez acima da cabeça, como se fosse um garçom, olhando ao redor e gritando sempre a mesma coisa: – Alguém viu um bispo preto? Lembro que João Apocalipse estava na esquina, perto da loja de roupas. João era um religioso do nosso bairro, que trabalhava na peixaria ao lado da loja de roupas. Ele costumava andar com uma daquelas placas que cobrem a parte da frente e de trás do corpo com passagens da Bíblia, gritando enfurecido para quem passava: – O fim do mundo está próximo! Ou então: – Peixe fresco a $5,99 o quilo! Agora, a única coisa que estava escrito na sua placa era EU AVISEI, e ele parecia mais ansioso do que bravo. – Eu estava certo – disse ele, quando passei. – Sobre o peixe ou o fim do mundo? – perguntei, enquanto ele me acompanhava. – Os dois. Isso deve valer alguma coisa, não acha? Que eu estava certo? – Não sei. – Nunca imaginei que seriam alienígenas – resmungou ele. – Pensei que seriam anjos com espadas flamejantes, alguma coisa do tipo. Ei! Talvez eles sejam anjos! No Livro Sagrado há algumas descrições muito esquisitas sobre eles. Tem um anjo no Apocalipse com três cabeças e rodas. – Acho que eles não passam de alienígenas mesmo, João – falei. – Sinto muito. João Apocalipse parou, mas continuei andando. Segundos depois, ele me chamou. – Ei! Menina! Você precisa de ajuda para carregar suas coisas? Onde está sua linda mãe? – Estou indo me encontrar com ela! – gritei sem olhar para trás. – Faz tempo que não a vejo! . 10 .


João Apocalipse (antes da invasão)

– Ela está bem! Estou indo me encontrar com ela! – falei, o que era mentira. Eu estava sozinha, porque minha mãe já tinha recebido um chamado das naves espaciais, por meio de sinais enviados para uma verruga na sua nuca. Éramos apenas eu e o meu gato, e confesso que eu não estava nada feliz com ele. Tentei carregá-lo, mas ele se contorceu igual a um saco cheio de peixes, por isso o coloquei no chão. Quando continuei andando, ele me seguiu e parava todas as vezes que passava alguém ou que um carro buzinava, o que estava acontecendo o tempo todo. Era um tal de anda, para, anda, para, que parecia que estávamos dançando uma conga. Num determinado momento, olhei para trás, depois ao redor, e percebi que ele havia desaparecido. . 11 .


– Tudo bem – disse. – Tchau, Porquinho! E isso foi tudo. O nome do meu gato é Porquinho. Eu deveria ter dito isso antes. A coisa mais esquisita de se escrever para pessoas do futuro é que não dá para saber o quanto é necessário explicar. As pessoas ainda têm animaizinhos de estimação no futuro? Vocês ainda têm gatos? Não estou perguntando se os gatos ainda existem; atualmente, temos tantos gatos que nem sabemos o que fazer com eles. Mas não estou escrevendo isso para pessoas do presente. Quer dizer, se alguém além da minha professora chegar a ler estas palavras, foi porque venci o concurso e esta redação foi enterrada na Cápsula do Tempo com as fotografias e os jornais, e porque a Cápsula foi desenterrada cem anos depois, e agora você está lendo, sentado em uma cadeira de cinco pernas enquanto toma um lanche em um planeta calorento, ou sei lá o quê. Provavelmente, você deve saber um montão de coisas sobre a minha época. Mas, pensando bem, acho que sei muito pouco sobre 1913, então talvez seja melhor explicar algumas coisas mais detalhadamente. Esta história começa em junho de 2013, por volta de seis meses após a chegada dos alienígenas Booves. O que significa também que são seis meses depois que os alienígenas assumiram tudo completamente, e uma semana depois de terem decidido que toda a raça humana iria ser mais feliz se mudasse para um lugar distante, onde não iria se meter em confusão. Na época, eu morava na Pensilvânia. A Pensilvânia ficava na região leste dos Estados Unidos. Os Estados Unidos eram um país grande no qual todo mundo usava camisetas engraçadas, e as pessoas comiam demais. Desde a partida de minha mãe, eu estava morando sozinha. Eu não queria que ninguém soubesse disso. Dei um jeito de dirigir nosso carro, prendendo latas de milho embaixo dos meus sapatos sociais para poder alcançar os pedais. No começo, fiz um monte de bobagens, e se alguém estava andando na calçada na esquina da rua 49 com a rua Pine, à noitinha, no dia 3 de março, peço desculpas. . 12 .


Mas logo acabei pegando o jeito. Fiquei tão boa quanto um piloto da Nascar. Por isso, enquanto a maioria das pessoas estava utilizando os Boovejatos para se mudar para a Flórida, imaginei que pudesse ir dirigindo sozinha, sem a ajuda de ninguém. Peguei as orientações pela internet, o que já não era mais tão fácil quanto costumava ser, pois os Booves tinham começado a bloquear tudo. E o caminho parecia ser difícil. O site dizia que levaria três dias, mas a maioria dos motoristas não era tão boa quanto eu, assim como não comia comida congelada para conseguir viajar sem fazer paradas. Abri caminho em meio a uma multidão de pessoas, passei por uma mulher que estava segurando um bebê e um vaso de cristal, um homem carregando caixas velhas e deixando um rastro de figurinhas de beisebol pelas ruas e, finalmente, cheguei até as quadras públicas de tênis, onde eu tinha deixado meu carro estacionado. Era um carro esportivo do tamanho e da cor de uma geladeira e só um pouquinho mais veloz. Mas ele consumia pouco combustível, e eu não tinha muito dinheiro. Raspei a nossa conta bancária e descobri que o dinheiro para emergências que a minha mãe escondia no fundo da sua gaveta de meias, dentro de uma embalagem de meia-calça em formato de ovo, identificada com uma etiqueta escrita “aranhas mortas”, tinha bem menos do que eu esperava. Ela achava que eu não sabia o que tinha lá. Como se eu não tivesse tido a curiosidade de dar uma olhadinha nas “aranhas mortas”. Joguei a bolsa da máquina fotográfica e minha mochila no banco de trás e, de repente, senti um aperto no estômago por conta da solidão e de toda aquela confusão. Virei a cabeça de um lado para o outro, olhando para as pessoas que passavam apavoradas. Vi então um homem com luvas de pegar panelas, segurando uma caçarola, putz grila! (desculpe pelo palavreado). Não sei o que ou quem eu estava procurando, mas com certeza não era o meu gato, e mesmo assim chamei por ele. – Porquinho?! – gritei. – PORQUIIIIIINHOOOO?! Gritar “Porquinho” aos quatro ventos costuma chamar a atenção, mas naquele dia ninguém nem olhou para mim. Na . 13 .


verdade, na terceira vez em que chamei “Porquinho”, um rapaz desviou, mas ainda não sei ao certo do quê. Enfim, quando eu estava me virando para entrar no carro, um gato gordo e cinza veio andando pelo meio-fio e pulou no painel. Ele se virou e ofereceu a bochecha para ganhar um carinho. – Ah! – exclamei. – Pelo jeito você resolveu aparecer. Mas vai ter de fazer suas necessidades somente quando pararmos para descansar, certo? Porquinho ronronou. Àquela altura do campeonato, eu estava achando que seria legal ter alguma companhia, já que eu não esperava cruzar com ninguém por uns dois dias. Imaginei que as estradas estariam desertas, já que quase todo mundo estaria pegando os Boovejatos. Eu estava certa, e estava errada também. Você sabia que os gatos não gostam de andar de carro? Pelo menos o meu não gosta. Antes de sairmos, zerei o odômetro. Por isso sei, sem sombra de dúvida, que Porquinho passou os primeiros cinco quilômetros olhando pelo vidro de trás do carro e bufando. Ele fincou as garras no encosto de cabeça do banco do passageiro e ficou ali, com o corpo arqueado e os pelos eriçados, parecendo uma decoração do dia das bruxas. – Fica frio! – gritei, enquanto desviava dos carros abandonados na estrada. – Sou uma ótima motorista! Ele parou de bufar e começou a meio que roncar. Sabe, quando os gatos roncam, parecem pombos que fumam muito. – Traidor, eu poderia ter deixado você em casa. Você poderia ter ido morar com seus queridos Booves. Eu conseguia perfeitamente olhar para o gato e dirigir ao mesmo tempo, mas, por algum motivo, o carro deu um solavanco ao passar por cima de um pedaço de pneu solto na estrada, e Porquinho gritou quando foi arremessado de cabeça a partir do encosto, caiu e rolou algumas vezes no banco de trás, passou voando por cima do câmbio e, finalmente, se encolheu como uma bolinha embaixo do pedal do freio. . 14 .


Porquinho

– Ah não! – resmunguei. Apertei o pedal devagar, tentando tirá-lo de lá. Ele bufou e deu uma batidinha na lata de milho presa ao meu pé. Olhei para a estrada à frente, desviei de uma motocicleta sem motorista e, em seguida, olhei de novo para os meus pés. – Calminha, Porquinho – disse tranquilizando-o (enquanto desviava de uma minivan). – Fica frio... (passei por um caminhão de combustível) já vou lhe dar um lanchinho! (ultrapassei um carro esporte... Por que todos tinham simplesmente abandonado seus carros?) – Mrrr? – disse Porquinho. – Eu sei! Você quer comer uma coisinha? Uma coisinha? Uma coisinha? – cantarolei igual a um passarinho. Porquinho ainda não tinha saído do lugar, mas a estrada estava livre. Eu estava de olho em um enorme caminhão à esquerda, lá longe, quando vi uma coisa se movendo. O treco pairava sobre a carroceria, balançando lentamente para cima e para baixo. Era um aglomerado de bolhas. Bolhas de sabão, talvez. Algumas eram do tamanho de uma bola de tênis; outras pareciam bolas de basquete, e elas estavam grudadas e . 15 .


entrelaçadas, formando uma estrela do tamanho de uma máquina de lavar roupas. Assim:

A coisa não saía do lugar com a brisa, só subia e descia um pouquinho, como se estivesse presa ao cano do escapamento do caminhão por fios invisíveis. E quando meus olhos desceram pelo escapamento, vi mais alguma coisa. Ou alguém, parado na estrada. – Aquilo é um cara... ou uma coisa... – falei mais para mim mesma do que para Porquinho. O cara, ou mulher, ou seja lá o que fosse, vestia um colete de segurança laranja fosforescente, fácil de ser visualizado, e um tipo de capacete de plástico transparente que me fez perguntar para mim mesma em pensamento: “Será que é uma roupa para proteger de radiação?”. Então cheguei perto o suficiente para ver que era um deles. “É um Boov”, pensei. – Tudo bem... tudo bem – sussurrei, e joguei o carro o máximo que consegui para a direita, sem bater na mureta de proteção. O Boov percebeu que eu me aproximava e virou aquele corpo esquisito para olhar para mim. A luz do sol refletia-se no seu capacete, por isso acho que ele ergueu o braço com a mão espalmada de um jeito que deve ser reconhecido em qualquer lugar da galáxia como o sinal de pare. Mas era difícil saber ao certo, pois os Booves tinham braços muito curtinhos. . 16 .


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