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VOLUME VI

“Antigamente era assim...” Jogos Tradicionais do Concelho de São Vicente


São Vicente

Edição: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Coordenação: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Colaboração: Ilídio Santos | Jesse Barbosa | Sandra Caldeira | Alexandra Carvalho Estampas: Alexandre Stephen Fernandes Design e Paginação: ZeroVinteOito Impressão: ZeroVinteOito ISBN: 978-989-98489-0-0 Depósito Legal: 361297/13


VOLUME VI

“Antigamente era assim...” Jogos Tradicionais do Concelho de São Vicente

Com o apoio de:

Com a colaboração de:


Jogos Tradicionais do Concelho de São Vicente

Índice

Introdução

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Jogo do Farelo Jogo da Cadeirinha Jogo do Anel Jogo das Corridas de Sacas Jogo da Bagia Jogo do ‘Lá vai obra!’ Jogo do “Pula Pula” Jogo do Lencinho Jogo da “Cabra-cega” Jogo do Berlinde Jogo das Pedrinhas Jogo do Botão Jogo do Balamento Jogo do Pião Jogos de Corda Jogo do Lume Jogo da Berlinda Jogo da Milhada Jogo dos Namorados Jogo da Bilharda

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Bibliografia Agradecimentos

34 35

5 7 8 10 12 13 14 16 18 20 22 23 24 26 28 29 30 32 33


Jogos Tradicionais do Concelho de São Vicente

Introdução

Hoje em dia, vivemos na era da tecnologia e da informação, em que quase todos os jogos e passatempos são virtuais.

A emergência de novos costumes tanto em crianças, como jovens e adultos provocaram o quase esquecimento e interesse pelos jogos do antigamente, que outrora aliviavam os homens da terra, após um dia de trabalho laborioso e animavam os serões das famílias. Detendo um importante cunho social e cultural, os jogos tradicionais eram o reflexo da realidade económica de outros tempos cuja simplicidade de regras e modéstia de materiais e brinquedos utilizados eram suficientes para provocar felicidade, nem que momentânea, nas crianças, jovens, adultos e idosos que ousaram vivê-los.  De uma forma muito modesta e longe de conseguir transmitir a alegria e sentimento de companheirismo e pertença do povo de São Vicente ao celebrarem estes jogos, serão apresentados alguns dos divertimentos vividos antigamente, quer pelas crianças, quer pelos adultos.

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Jogo Farelo

O jogo do Farelo também conhecido como o jogo da Manhã nos lados da freguesia de Boaventura constituía-se essencialmente como um jogo de adivinha sendo jogado preferencialmente pelas crianças e jovens de outrora. Neste, uma criança, com as mãos atrás das costas pousava a sua cabeça na “abada”, por outras palavras no colo, de uma pessoa sentada, que depois era tapada com um lenço ou simplesmente um pedaço de tecido. As restantes crianças colocavam-se em “carreiro” para dar “umas quentes” nas mãos da criança que tinha a cabeça no “cocho”. Uma vez sem campo de visão, a criança tinha de adivinhar quem lhe tinha dado a palmada nas mãos. Caso não adivinhasse após três tentativas, voltava a colocar a cabeça no “cocho” e preparava-se para mais “uma quente”.

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Jogo da Cadeirinha

O jogo da Cadeirinha era um jogo de competição vivido pelas crianças e jovens de São Vicente. Com o objetivo de transportar o amigo o mais rapidamente possível, dois participantes entrelaçavam os braços formando uma “cadeirinha sem assento” e transportavam o passageiro por um percurso previamente definido trocando de funções de seguida. Obviamente que ganhava a equipa que conseguisse transportar o passageiro o mais velozmente possível e sem deixá-lo cair no chão.

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Jogo do Anel

O jogo do anel era um jogo de adivinha que contava com a participação de três ou mais crianças. Tal como designa, para jogá-lo era necessário um anel ou simplesmente um objeto que relembrasse tal preciosidade. Estas dispunham-se em círculo com as mãos para a frente e unidas pelas palmas. A menina ou menino do anel, igualmente com as mãos unidas, guardava o anel entre as suas mãos, como se de um tesouro se tratasse. Entretanto a criança passava as suas mãos pelas mãos das restantes crianças deixando discretamente o tesouro no cofre de outra criança da roda, ou seja, deixava o anel entre as mãos de outra criança. Depois de passar por todos perguntava: “quem tem o anel?” As crianças entusiasmadas tentavam descobrir com a intenção de serem elas a novas distribuidoras do anel. Contudo, os sorrisos a vaidade por terem sido os escolhidos denunciavam quase que imediatamente os novos guardiões do anel.

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Jogo das Corridas de Sacas

As corridas de sacas era outro dos momentos que animavam os dias reservados para a descasca do vime…e não só! Os participantes, eram eles crianças, jovens e adultos “vestiam” as sacas de serapilheira ou de plástico onde eram transportadas as “semillas”. Aproveitando a casca do vime, amarravam as sacas à cintura como se dum cinto se tratasse. No chão era marcado uma linha de partida e uma meta e, aquele que chegasse ao fim do percurso mais rapidamente era o grande vencedor.

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Jogo da Bagia

O jogo da Bagia era sobretudo uma atividade desenvolvida pelas crianças e rapazes que aliavam as suas habilidades manuais à destreza e velocidade. Utilizando um arco de arame com um cabo de madeira em forma de gancho, os rapazes percorriam as latadas, fazendo o arco rolar pelo chão, sem no entanto perder o controlo do mesmo. As regras da corrida eram definidas tendo em conta a habilidade e manuseamento da bagia pelos jovens, contudo geralmente ganhava aquele que chegava mais rapidamente à meta estabelecida sem deixar a bagia cair no chão.

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Jogo “Lá vai a obra!”

“Lá vai a obra” era sobretudo um jogo repetido pelos rapazes fazendo-lhes valer a sua força e equilíbrio. Este jogo, conhecido na freguesia de Ponta Delgada como “Pula Pula”, tinha como objetivo saltar para cima das costas dos adversários e lá permanecer sem tocar com os pés no chão. Para o efeito, eram constituídas duas equipas. Os rapazes de uma das equipas abraçavam-se à cintura uns dos outros em cadeia, formando uma ponte, enquanto um dos rapazes servia de cabeceira de modo a dar suporte “à obra”. Este tinha a função de árbitro que deliberava o sucesso ou insucesso da equipa. Por sua vez, os rapazes da equipa adversária corriam e saltavam para a ponte gritando “Lá vai a obra!!!”, tentando não cair. Os que caíam iam “solar”, ou seja, eram penalizados, pois, eram aqueles que se posicionavam no início do jogo, logo aqueles que iriam segurar o peso da “ponte”.

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Jogo do Pula-Pula

Este jogo era considerado, sobretudo em Ponta Delgada uma variante do jogo “Lá Vai a obra!”. Nesta variante os participantes dispunham-se lateralmente e em fila a uma distância aproximada de um a dois metros. Estes enrolavam-se sobre o seu próprio corpo formando assim uma corcunda. O “pula pula” saltava então por cima dos participantes, colocando as mãos nas suas corcundas e abrindo as pernas, até ao final da fila. Por sua vez, formava a sua corcunda enquanto o outro “pula pula” saltava todos os eixos até ao fim da fila.

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Jogo do Lencinho

No jogo do Lencinho participavam rapazes e raparigas dispostos numa roda podendo estar sentados ou de pé. Um dos elementos ficava fora da roda com um lenço na mão e cantarolava ao redor da roda: “O lencinho vai na mão Ele vai cair no chão Quem olhar para trás Leve um grande bofetão” Ninguém na roda podia olhar para trás, podendo apenas espreitar por entre as suas pernas quando o elemento passa com o lenço. Sem parar de rodar ele deixava cair o lenço atrás de um dos jogadores da roda. Caso o participante se apercebesse de que o lenço estava atrás de si, começava a correr atrás do outro elemento, tentando apanhá-lo antes que este conseguisse chegar ao seu lugar na roda. Quando o elemento que deixou cair o lenço era apanhado, era imediatamente atirado para o “choco”, ou seja, para o centro da roda sendo a “pata choca”. No “choco” a “pata choca” tinha de permanecer de cócoras.

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Por outro lado, se o jogador da roda não reparasse que o lencinho estava caído atrás de si, tornava-se este a “pata choca”, caso o jogador que largou o lenço, realizasse uma volta completa à roda e alcançasse o lenço no local onde o deixou cair. De modo a evitar “bilhardices”, aquele que avisasse ao outro que o lenço estava atrás de si ia igualmente para o “choco”. Um jogador só se livrava do “choco” quando um outro jogador para lá ia. Porém para a “pata choca” se livrar do “choco” deveria conseguir apanhar o lenço caído atrás de um jogador da roda. Apesar de pouco comum, o jogador que corria com o lenço na mão podia deixá-lo cair dentro da roda, atrás da “pata choca”. Assim, esta devia apanhar o lenço, como qualquer jogador da roda e perseguir o outro, saindo pela abertura por onde foi atirado o lencinho. Se a “pata choca” apanhasse o corredor, este passava automaticamente para o choco, caso contrário continuava o jogo com o lenço na mão e o corredor entrava na roda. Todavia se o corredor realizasse uma volta inteira antes da “pata choca” ter apanhado o lenço, esta passava a dupla “pata choca” devendo levantar um braço. Por sua vez, se passasse a tripla “pata choca”, deveria levantar os dois braços e se passasse a quádrupla “pata choca”, levantava os dois braços e uma perna.

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Jogo da “Cabra – Cega”.

“- Eu sou a cabra – cega.” “- Cabra – cega donde vens tu?” “- De Vizela.” “- Que trazes no saco?” “- Pão e canela.” “- Dás-me dela?” “- Não que é para minha e para a minha velha.” “- Zique tanela!” Este era um dos ditos deste jogo muito apreciado pelas crianças e jovens de então. Após o final deste diálogo os participantes que estavam inicialmente dispostos ao redor do jogador com os olhos vendados, ou seja, da “cabra-cega” davam-lhe um beliscão e corriam à sua volta. A “cabra-cega” com os braços estendidos tentava agarrar um jogador. Ao conseguir apanhá-lo tentava identificá-lo. Quando a “cabra-cega” identifica quem era o jogador, este passava para o lugar da “cabra-cega”, passando esta a ser fugitiva. Caso não descobrisse quem era o jogador, continuava a tentar agarrar outro fugitivo, até conseguir identificá-lo.

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Jogo do Berlinde

Servidos de simples pedrinhas de forma esférica ou, mais atualmente, de berlindes de vidro, os rapazes juntavam-se nos caminhos e terrenos mais planos para jogar ao berlinde. O jogo dispunha das mais inúmeras variantes que nasciam da imaginação dos jovens de então, contudo, o objetivo principal era “roubar” berlindes ao adversário aumentando assim o seu espólio pessoal. Para tal os jogadores tomavam como referência um determinado ponto que deveriam atingir para ganhar o jogo. Paralelamente e de forma a evitar que o jogador adversário ganhasse o jogo, os outros jogadores poderiam “caçar” os berlindes dos seus adversários se conseguissem atingi-los com o seu berlinde. Deste modo o berlinde caçado ficava “fora de jogo” sendo propriedade do jogador que o caçou. O jogo tinha início com um primeiro lançamento feito na posição vertical, enquanto todos os restantes eram efetuados ao nível do solo. Eram várias as estratégias utilizadas pelos jogadores para fazer rolar os berlindes, contudo a mais rudimentar e a mais utilizada consistia em colocar o polegar no chão e, fazendo deslizar o indicador, sobre o mesmo, atingiam o berlinde.

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Jogo das Pedrinhas

O jogo das pedrinhas era muito apreciado pelas meninas e raparigas “daquele tempo”. Sentadas languidamente em roda, as raparigas munidas de cinco pedrinhas exibiam a sua habilidade e destreza manual ora com a mão direita, ora com a mão esquerda. Bastava uma simples falha para que a rapariga fosse excluída daquela partida. Para iniciar o jogo uma das raparigas com as cinco pedras repartidas pelas duas mãos deixava-as cair, espalhando-as pelo chão. Com uma das pedrinhas na mão, a rapariga lança-a para o ar, apanhando imediatamente uma pedrinha do chão e assim sucessivamente até apanhar todas as pedrinhas. Em seguida, era repetida a mesma sequência mas com o processo inverso, ou seja, a rapariga voltava a colocar as pedrinhas no chão, uma a uma, atirando antes uma das pedrinhas para o ar evitando sempre que esta caísse no chão. As partidas eram constituídas por sequências certas de jogadas de dificuldade crescente. Então nas sequências seguintes, as jovens tinham de apanhar duas, três ou até mesmo as quatros pedrinhas de uma vez, repetindo o processo inverso de seguida, entre outras sequências de complexidade crescente.

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Jogo do Botão

O jogo do botão era um jogo dirigido sobretudo para os mais pequenos. Botões eram apenas os materiais necessários para disputar este jogo, podendo ser jogado por dois ou mais jogadores. Contra uma parede ou porta, um dos pequenos atirava o seu botão fazendo-o ressaltar. A distância de arremesso variava consoante a perícia e regras definidas pelos próprios jogadores. Contudo para ganhar, a segunda criança a atirar o botão teria de conseguir colocar o seu botão a menos de um palmo de distância do botão do jogador anterior. Quando tal situação acontecia, o perdedor era obrigado a entregar o seu botão ao adversário.

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Jogo do Balamento

Antes da Páscoa, portanto no período da Quaresma, jogava-se ao “Balamento”. Com os olhos bem gordos nas amêndoas ou rebuçados de cana-de-açúcar que iriam ganhar, após o período de jejum que era cumprido religiosamente os adversários procuravam passar despercebidos um ao outro durante o período em que vigorava o jogo. Normalmente as regras ditavam que o primeiro elemento a ver o outro, gritava “Balamento!” fosse no período da manhã ou da tarde em que o jogo era concretizado. Os elementos percorriam caminhos, veredas, atalhos, saltavam cercas, poios, atravessavam campos de vimes, olheiros, barrancas, escondiam-se em casas abandonadas, de vizinhos ou mesmos nos terraços, em que a altitude era superior e a vista alcançava tudo em seu redor, percorrendo mesmo todo o sítio, só para que não fossem vistos e aí surpreendessem o adversário com um “balamento”. Ora o desenrolar do jogo consistia em apanhar um dos elementos desprevenidos, pois só assim acumulavam pontos para a vitória final.

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Jogo do Pião

O jogo do pião era sobretudo praticado por crianças e rapazes. Para jogá-lo, para além do pião, os rapazes necessitavam de uma guita ou um pedaço de atilho. Era importante saber lançar o pião com o intuito de entrar em competição com os amigos. Só ganhava aquele que “nicava” os outros piões que estavam em andamento, podendo mesmo chegar a rachá-los, ou expulsavam os piões adversários para fora do recinto de jogo. Os mais habilidosos faziam acrobacias com os piões utilizando a guita ou até apanhavam o pião em movimento deixando-o rolar na palma da mão.

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Jogos de Corda

Os jogos com corda eram dos mais populares do antigamente. Fossem jogos de saltar ou de tração, eram efetivamente dos jogos que mais população chamava e reunia. Os jogos de saltar à corda eram sobretudo experienciados pelas crianças e raparigas. Os rapazes juntavam-se igualmente, mas com o intuito de fitar as pernas das raparigas que saltavam de saia ou quem sabe algo mais. Eram várias as lengalengas e cantorias que eram proferidas bem alto por todos. Por vezes faziam equipas para ver quem saltava durante mais tempo recorrendo a várias posições ou estratégias corporais. Por sua vez o jogo de tração à corda era muito apreciado por pequenos e graúdos. Este consistia fundamentalmente na utilização de força em grupo, em prol de um objetivo comum, ou seja, arrastar os adversários, de modo a estes ultrapassarem a marca previamente assinalada no chão.

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Jogo do Lume

O jogo do Lume ou “Dá-me lume!” como era também conhecido, é um jogo muito antigo. Segundo o que se dizia, neste jogo podiam participar vários jogadores, quantos mais melhor. Cada um deles deveria desenhar no chão terroso um círculo com a ajuda de um pau e permanecer dentro do mesmo, contudo um dos jogadores deveria ficar “sem casa” para dar início ao jogo. - “Ó vizinho dá-me lume!”, dizia o jogador “sem abrigo”. - “Vai àquela casinha que fumega”, respondia o inquirido apontando para um dos colegas. Neste sentido, o jogador “sem abrigo” dirigia-se ao jogador apontado e encostava o seu pau na “casa” deste. Aí, todos os outros jogadores trocavam de lugar a correr, para procurarem “lume noutra casa”. O jogador que ficava “sem casa” pedia lume a quem tinha repetindo assim o processo.

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Jogo do Berlinda

O jogo da Berlinda era normalmente jogado por um “magote” raparigas. Uma das raparigas distanciava-se grupo que entre si e de forma muito discreta “inventavam” injúrias ou qualidades sobre a rapariga que se encontrava na berlinda. Depois de recolhidas todas as “opiniões”, uma das raparigas do grupo proferia as sentenças ditadas por todas as restantes raparigas: - “Aqui se disse que estás na berlinda porque… …és tonta; …és feia; …tens as canelas tortas; …és bonita; …tens ranheira; …és piolhenta…” Por sua vez, a rapariga da berlinda escolhia uma das sentenças, a que mais a desagradava ou não. Aí a autora da sentença era denunciada, trocando de lugar com a rapariga da berlinda.

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Jogo da Milhada

O jogo da milhada era inicialmente jogado com milho em grão, moedas, e posteriormente, começaram a ser utilizadas pedrinhas pequenas. Não existe um número limite de moedas, milho em grão ou pedras, ficando ao critério dos jogadores. Era um jogo típico das tabernas e das vendas, onde os homens da terra de então retemperavam as forças e as emoções face ao quotidiano laboral, rotineiro e extremamente desgastante. Não havia um número máximo de jogadores, desde que todos tivessem a palavra de pagar o copito a todos os intervenientes, caso perdessem a rodada. Para iniciar o jogo todos os jogadores escondiam os grãos de milho, nas suas mãos, colocando-as atrás das costas, embora podiam optar também por não esconder qualquer granito. Havia um elemento que tinha a iniciativa e dava o palpite, de um número, que seria o total de todos os grãos, que os restantes jogadores tinham, incluindo ele próprio. Após todos os jogadores darem o seu palpite, era dado a conhecer o “número da sorte” através do somatório dos grãos colocados em aposta. O jogador com palpite certeiro saía da roda como vencedor e livre de pagar o vinho a todos. Entretanto o jogo de palpites continuava até serem determinados os dois finalistas. Nesta altura jogavam “à melhor de três” que deliberava o vencido que iria pagar a rodada que iria molhar a boca de todos os outros jogadores.

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Jogo dos Namorados

Este jogo era principalmente jogado pelos adolescentes locais, de onde nasceram vários “namoricos”, namoros e até mesmo casamentos. De acordo as vivências daquele tempo, neste jogo eram feitos dois “carreiros”: um de raparigas e outro de rapazes. Tendo em conta a posição das raparigas, os rapazes posicionavam-se em frente à rapariga de quem gostavam com a esperança de que o seu sentimento fosse correspondido. (Para tal os rapazes colocavam-se em frente à rapariga de quem estimavam.) Quando a moça correspondia, esta piscava-lhe o olho muito discretamente. Por outro lado, quando não correspondia ao agrado do rapaz, a rapariga virava-lhe as costas. Este jogo de poder era também conferido aos rapazes que também “tremeluzia” a sua dama ou “oferecia-lhe” as espáduas conforme a sua paixão.

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Jogo da Bilharda

O jogo da bilharda, segundo se sabe, é uma prática corrente em Miranda do Douro, mas trata-se também de um jogo que fez parte da adolescência e juventude, dos jovens do Concelho de São Vicente, num tempo mais remoto. Não sabemos a origem do jogo, apenas que é muito antigo, talvez seja oriundo da época medieval, devido a algumas expressões e características associadas a este. O jogo era composto por dois elementos, em que um é denominado “servo” e o outro “senhor”, embora, cá no Concelho, não tenhamos a certeza da utilização dessa terminologia. Para a execução deste jogo, eram necessários três paus de madeira, que no Concelho de São Vicente, eram de urze, por se tratar de uma madeira mais forte. Um dos paus, o mais pequeno, era a bilharda, com 20 centímetros aproximadamente, e ligeiramente aguçado nas extremidades do pau, o que dava um caráter perigoso ao jogo. Por sua vez, os outros dois paus, eram maiores, e cada jogador detinha um. Era desenhada uma circunferência no chão, pelo qual o piso deveria ser rasteiro. Dentro deste círculo, encontrava-se o primeiro jogador e a bilharda. Este dava um ligeiro toque numa das extremidades da bilharda, fazendo com que esta levantasse, e antes da mesma cair, o jogador munido do seu pau batia com toda a força que tivesse na bilharda. Após este lançamento, o jogador espetava dentro do círculo o pau que detinha, enquanto o adversário tentava apanhar a bilharda, com toda a rapidez e destreza, e atirá-la para a circunferência do outro jogador. Tal arremesso era efetuado com o objetivo de derrubar o pau do outro. Deste modo, se o segundo jogador conseguisse tal proeza, trocava de lugar com o seu adversário. Com efeito contrário permanecia na mesma condição até conseguir tal feito.

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Bibliografia

Bragada, J. (2004). Jogos Tradicionais. Lisboa: Instituto do Desporto de Portugal. Cabral, A. (1998). Jogos Populares infantis (2ªed.).Lisboa: Editorial Notícias Calado, J. Figueira J. (2006). Jogos Tradicionais Portugueses e Internacionais. Núcleo de Andebol de Redondo. Évora: Tipografia BFC. Hasse, M. Amado, J. (1992). Jogos e Brinquedos Tradicionais. Lisboa: Fundação C. Gulbenkian. Lagos, T. (2008). Brincadeira & Brinquedos na Idade Média - Breve estudo. Câmara Municipal de Lagos. Serra, M. (2004). Jogos Tradicionais ao serão e na taberna. Lisboa: Edições Colibri/Escola Superior de Educação da Guarda.

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Agradecimentos

Maria Fátima Pedra (São Vicente)

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