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VOLUME III

“Antigamente era assim...” Tradição Oral do Concelho de São Vicente


São Vicente

Edição: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Coordenação: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Colaboração: Ilídio Santos | Jesse Barbosa | Sandra Caldeira | Alexandra Carvalho Fotografias: ARM Design e Paginação: ZeroVinteOito Impressão: ZeroVinteOito ISBN: 978-989-98489-0-0 Depósito Legal: 361297/13


VOLUME III

“Antigamente era assim...” Tradição Oral do Concelho de São Vicente

Com o apoio de:

Com a colaboração de:


Tradição Oral do Concelho de São Vicente

Índice

Introdução

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A Freguesia de S. Vicente Marcha de São Vicente A Freguesia da Ponta Delgada Senhor Bom Jesus A Freguesia de Boaventura Hino de Boaventura Relatos Guarda-chuva da fazenda Enfeites do Arraiais Casamento Diferente Carta de um emigrante Carta de um soldado Madrinha de Guerra Cantares e Versos de Antigamente O Rei do Feijão Cantiga do Trigo Ponta Delgada Casamento Galos Lavrador da Arada

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Bibliografia Agradecimentos

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Tradição Oral do Concelho de São Vicente

Introdução

Quando falamos de tradição oral, é quase instantânea a associação com palavras e tradição, algo que supera a barreira do tempo e é transportado para o presente e futuro. A verdade é que tradição oral é muito mais do que simples palavras e expressões, é toda uma panóplia de histórias do passado, reais ou ilusórias, que as gentes de cada localidade trazem na mente e no coração. Este roteiro denominado, Tradição Oral, encontra-se dividido em três partes. Numa primeira parte será feita uma breve referência à história das três freguesias do concelho de São Vicente, seguindo-se alguns relatos das vivências de um passado que ainda permanecem nas lembranças dos seus habitantes. Por fim, textos, poesia e cantigas, resultado do levantamento realizado junto da população.

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Freguesia de S達o Vicente


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A Freguesia de São Vicente

Não existem registos concretos sobre a criação da freguesia de São Vicente, embora existam alguns relatos de que terá sido no Século XV. Segundo registos a primeira igreja construída teve lugar no lugar do Poiso num sítio denominado Serrado e não na Terra Chã embora conste de alguns relatos. O crescimento demográfico, neste lugar do Norte, foi uma realidade que podemos constatar com a análise de registos de antigamente, ou seja, se em 1598 existiam 397 pessoas a habitar em São Vicente, já em 1811 estavam referenciadas 3080 pessoas. Sabe-se que ao contrário de outras freguesias da jurisdição, as terras em São Vicente eram bem distintas. Pelo é possível verificar qualquer pessoa poderia dispor das terras e utilizá-la para diversos fins. Sabe-se que São Vicente pertencia à capitania de Tristão Vaz Teixeira, comarca e jurisdição de Machico e que a sua administração era dificultada pela distância pelo que existia um certo alheamento às questões que ali surgiam. Segundo os registos a única obra marcante realizada no concelho aquando desta administração foi a ponte de pedra que deu nome a um lugar da freguesia. A vila de São Vicente foi ganhando características distintas ao longo dos tempos. Em 1771 um regato atravessava a vila e desaguava na ribeira principal através de um arco da ponte. A entrada da Vila ou Rua como é referido em vários registos era demarcada por uma pedra de cantaria. Relativamente às atividades económicas existentes de São Vicente, sabe-se que existiam mercearias e lojas de fazenda, quanto às profissões da época existem registos de que seriam maioritariamente carpinteiros, costureiras, ferreiros, te-

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cedeiras e gramadeiras. Sabe-se também que existia trabalho sazonal associado à agricultura e que muitos trabalhadores deslocavam-se para freguesias vizinhas para trabalhar nas colheitas. São várias as versões sobre a atribuição do nome São Vicente à freguesia. Várias são as lendas que ainda hoje perduram e que são, segundo a sabedoria popular, a explicação para que a freguesia tenha este nome. Conta uma das lendas que o santo São Vicente terá aparecido na foz da ribeira na cova de um rochedo. Outra lenda conta que aquando da chegada dos primeiros povoadores ao norte, ao descerem a Encumeada depararam-se com um bando de corvos que sobrevoavam o vale e de imediato lembraram-se do mártir espanhol de nome São Vicente que foi morto pelos romanos e cujos restos mortais foram devorados por corvos. Ainda outra lenda conta que a imagem de São Vicente terá sido retirada da capelinha. Pouco tempo depois, o mar ficou bravio chegando a água à capela. Nessa altura, dados esses acontecimentos, voltaram a trazer a imagem do santo para a sua ermida, com o fim de acalmar a enchente. O certo é que depois de retornada à origem, o mar não tardou a voltar à normalidade. Nas palavras do historiador João Adriano Ribeiro “nos finais do século XVII, uma enchente lavou o lugar onde está hoje a Vila. Entrando na igreja, arrastou alguns paramentos para a caudalosa ribeira, entre os quais estava uma imagem do próprio santo. Quase por milagre, foram dar com essa imagem depositada na base daquele rochedo depois de as águas se acalmarem. O povo logo quis erguer ali uma ermida de invocação ao santo”. (João Adriano Ribeiro, 2000)

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Marcha de São Vicente

São Vicente linda terra Aqui sentimos amor Sentimos a natureza Vinda do criador Quem passa por São Vicente Não passa sem cá voltar Fica fascinado e contente E diz é singular És maravilhosa És encantadora És de Portugal e sedutora Para mim não há És uma varina Que está sempre em festa São Vicente ó São Vicente Capelinha à beira mar Tens uma graça excelente Uma graça original São Vicente ó São Vicente Cantinho de Portugal És para mim a mais linda Como no mundo não há.

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Freguesia de Ponta Delgada


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A Freguesia da Ponta Delgada

Talvez pouca gente saiba, mas nos primórdios da freguesia que hoje se apelida de Ponta Delgada, outrora foi conhecida como Senhor Jesus isto, devido ao santo de que aquela terra era devota. Apenas a meados do século XVI, o nome Ponta Delgada começou a ser mais sonante. Não é sabida a origem desta denominação, mas há relatos que informam que provavelmente deriva do nome da esposa do Capitão António Gonçalves de Castro, Antónia Delgada, falecida a 8 de outubro de 1606. Todavia, Ponta Delgada é mencionada em vários alvarás régios daquele tempo, sendo o mais antigo de 1552. Já Gaspar Frutuoso defende, que “era assim chamada por ser ali hum passo muito perigoso que se passa por cima de dous páos, que atravessam de uma rocha a outro e em tanta altura fica o mar por baixo que se perde a vista dos olhos”. Segundo alguns registos o nome da freguesia deve-se ao facto de quando avistado de lugares vizinhos, aquele local onde a terra encontra o mar afigurar uma ponta delgada. A dúvida da origem do nome da freguesia permanece no ar, ninguém sabe ao certo, mas a verdade, é que esse nome não deixa de ser parte integrante da identidade das gentes daquela terra. As questões relacionadas com a terra eram muito importantes e destinavam os casamentos e as linhagens. Segundo vários registos grande parte das terras de

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Ponta Delgada e outra parte de Boaventura eram detidas por uma família, a de Pedro Ribeiro Esmeraldo. Os restantes moradores eram os caseiros, os colonos e meeiros e dependiam do senhorio. Este sistema quase feudal deu lugar à existência de diferentes classes sociais. A nível demográfico Ponta Delgada foi uma freguesia em franco crescimento, desde o inicio da colonização. Em 1598 viviam na freguesia 110 pessoas e cerca de 240 anos depois em 1811 a população da freguesia era de 2.936 pessoas. É importante referir que neste número estavam contabilizadas também as pessoas de Boaventura, uma vez que esta era considerada uma extensão da freguesia de Ponta Delgada. Tal como referido anteriormente os casamentos da classe mais rica de Ponta Delgada tinham também por finalidade a manutenção ou crescimento das propriedades. Um bom casamento permitia o aumento da propriedade mesmo que tal implicasse consanguinidade. A freguesia de Ponta Delgada dependia administrativamente da comarca de Machico, mas tal como se sucedia com a freguesia de São Vicente as relações com Ponta Delgada eram muito escassas. A nível económico existiam algumas mercearias e relativamente às profissões da época destacavam-se os ferreiros, lavradores, parteiras, pedreiro, pescadores, sapateiros, tanoeiros, tecedeiras e gramadeiras.

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Senhor Bom Jesus

I Meu Senhor Bom Jesus Com amor e bondade Este ano eu venho aqui Para o ano mando-lhe saudades

VI Nossa Senhora do Monte Madrinha de João Eu também sou afilhada Da Virgem da Conceição.

II Eu fui ao Senhor Bom Jesus Pela beirinha do mar Eu peço ao Senhor Bom Jesus Para o ano hei de cá voltar.

VII Meu Deus quem compra o céu Tão barato se vende Quem neste mundo faz bem No outro não se arrepende.

III O Senhor Bom Jesus é rei Para todo este campo Repartindo com agente todos A glória do Espírito Santo.

VIII A feiticeira quando nasce Nasce com as mãos á cabeça Nossa Senhora me valha E Nosso Senhor me apareça.

IV Meu menino Jesus Bonitinho a valer Venho pedir ao Menino O céu quando morrer.

IX Quando eu cheguei aqui O Senhor já estava No meio desta sala O Senhor passeava.

V Nossa Senhora do Monte Tem um filho serrador Para serrar madeira Para a capela do senhor.

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Freguesia de Boaventura


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A Freguesia de Boaventura

Boaventura encontra-se situada nos arredores de Ponta Delgada, terra esta, conhecida pela fertilidade das suas terras e abundância de madeiras e legumes. Boaventura era considerada uma extensão de Ponta Delgada. As suas terras pertenciam a alguns senhorios, sendo estes, na maioria das vezes, os mesmos da freguesia vizinha. Os moradores de Boaventura desde sempre desejaram a autonomia de Ponta Delgada, a primeira solicitação para a autonomia desta freguesia foi em 1804. Boaventura era conhecida pelos seus difíceis acessos, em especial pela difícil ligação à cidade do Funchal que esta feita pelas Torrinhas. Sabe-se que era imposto a cada cabeça de casal o trabalho de cinco dias nas obras em benefício público e enquanto vigorava esta obrigação os caminhos estavam desembaraçados. No entanto, quando abolido este tributo, os principais caminhos ficaram interrompidos, em 1863, devido às quebradas, muito frequentes na zona. Sabe-se que o caminho mais afetado era no sítio da Quada, percurso que ligava Boaventura à cidade do Funchal. Eram poucos os moradores que arriscavam a por lá passar, não querendo colocar em risco as suas vidas.

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As profissões mais frequentemente encontradas em Boaventura eram: carpinteiro, costureira, ferreiro, gramadeira, lavrador, marceneiro, parteira, pedreiro, sapateiro, comerciantes ou taberneiros e tecedeira. Existiam também bordadeiras e segundo relatos Boaventura era a única freguesia do concelho onde existia esta profissão. Perguntamo-nos ainda, ocasionalmente, como se escreve o nome desta freguesia, Boa Ventura ou Boaventura. A verdade é que encontra-se facilmente as duas formas escritas em vários documentos. Boaventura é a forma que encontramos mais vezes escrita, denotando, preferência por essa forma em particular de escrever o nome da freguesia, bem como da Paróquia, que anteriormente fazia parte da Paróquia de Ponta Delgada. Não existe uma fonte fidedigna que ateste a origem do nome, existindo apenas especulações. Sabe-se, no entanto, que não existe nenhum local ou povoação com esse nome no continente, logo não terá sido trazido de lá pelos povoadores e colonizadores, à semelhança de outras zonas da Madeira.

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Hino de Boaventura

Boaventura não envelhece Antes parece mais bela ainda Não há terra como esta Sempre modesta sempre tão linda Há lá pelos campos flores Multicolores lendas cantigas E no ar a passarada Cantar desgarrada com as raparigas Logo de manhã com todo o fã Lá vão ranchos a cantar Ninguém mais descansa E já sem tardança Todos vão a trabalhar Oh terra de sonhos De cantos risonhos Das canções e do luar Em noites de estrelas Há pelas levadas Uma magia sem por

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O mar te banha os pés Por isso és moura encantada E de noite a sorrir vens repetir Triste balada Em dias de romaria Tens alegria tens devoção O teu povo prazenteiro É hospitaleiro tem bom coração Logo de manhã com todo o fã Lá vão ranchos a cantar Ninguém mais descansa E já sem tardança Todos vão a trabalhar Oh terra de sonhos De cantos risonhos Das canções e do luar Em noites de estrelas Há pelas levadas Uma magia sem por.

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Guarda-chuva da fazenda Relatos

Memórias e vivências do dia a dia, que perduram para além do tempo e que descrevem momentos do passado, que passam de geração em geração na forma oral.

Deolinda, residente na freguesia de Boaventura, diz que antigamente, os guardachuvas eram feitos de folhas maiores do inhame, em que cortavam o calo e colocavam na cabeça. Esta espécie de guarda-chuva era usada por pessoas que iam para a fazenda trabalhar nos seus terrenos. Deolinda refere também, que a maioria das pessoas não tinha possibilidades financeiras para ter um “verdadeiro” guarda-chuva, e quem tinha, guardava, usando apenas em ocasiões especiais, como por exemplo, ir à missa.

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Enfeites de Arraiais Relatos

São várias as histórias que fazem parte da cultura de qualquer localidade, algumas despertam os nossos sentidos e fazem-nos rir, como é o caso de um episódio que aconteceu na freguesia de Ponta Delgada, há muitos anos atrás, numa altura, em que a freguesia dava os primeiros passos no ramo dos enfeites com flores no arraial do Bom Jesus. Fernanda Neves, residente em Ponta Delgada, conta a rir, que no primeiro ano que usaram flores em papel crepe choveu bastante, e a certa altura, veem passar um homem de fato branco, bem arranjado, com o casaco todo cor-de-rosa, pois o papel como era tingido e quando choveu, acabou por lhe tingir o casaco. Quem viu riu muito, conta a senhora.

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Casamento Diferente Relatos

Falaremos concretamente sobre a história que levou ao casamento de Fátima e Manuel. Manuel inicialmente vendia lenha, e a mãe de Fátima costumava comprar-lhe, algo que Manuel estimava pelo facto de gostar da sua filha, sendo esta uma forma de ver a amada. Anos mais tarde, Manuel emigrou para a África do Sul, e a partir daí a única forma de comunicação com Fátima era por carta. Nessa altura, pediu-lhe em casamento. Escreveram cartas um ao outro, entre maio e novembro de 1964, todavia, talvez pela distância, Fátima decidiu deixar de escrever, indo nessa época para a Venezuela, onde viveu durante 2 anos e 2 meses. Como acaso do destino, Manuel acabou por reencontrar a sua antiga amada. Fátima durante a sua estadia na Venezuela fora a um casamento, no qual, outro emigrante português na África do Sul também fora, tendo este levado fotos desse evento, e nelas, figurava Fátima. Manuel ficou então a saber por onde andava a dama dos seus olhos e decidiu reencontrá-la. Ao encontrar uma irmã de Fátima que também vivia na África do Sul, pediu a morada de Fátima, voltando o casal a trocar cartas de amizade e amor. O certo, é que Fátima estava reticente e só lhe respondeu depois da terceira carta. Logo após esse primeiro contacto, depois de tanto tempo, lá decidiram que Fátima tinha de ir viver para a África do Sul, tendo Manuel pago a passagem. Fátima foi para a casa da irmã, lugar onde Manuel ia vê-la todos os dias até o casamento.

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O primeiro beijo aconteceu no dia em que Fátima chegou à África do Sul, no dia 16 de setembro de 1971. No dia 31 de outubro às 11 horas, deu-se então o tão aguardado casamento, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Benoni. Devido ao trabalho não pôde haver lua de mel, e a noite de núpcias não foi assim tão agradável. Manuel bebeu muito e na hora de honrar o novo título de marido, nada aconteceu. Pela manhã, no pequeno-almoço, Fátima e Manuel deliciaram-se como bacon, ovos, feijões, ketchup com pão e café. O casal viveu e trabalhou durante 27 anos na África do Sul, tendo regressado à sua terra Natal só após esse período de tempo. Viveram muito felizes até 1999, aquando da morte de Manuel.

Antigamente era assim... Era muito comum os homens da terra emigrarem, uns para tentarem a sua sorte além-fronteiras e outros chamados a prestar serviço à Nação, muitas vezes sem saber o que o destino reservava-lhes. Deixavam para trás as suas famílias, esposas e filhos que aguardavam com ansiedade o dia que voltariam a encontrar-se. Numa época que a única forma de contacto que estas famílias tinham com o seu parente era a carta, era habitual estes contactos apresentarem-se em forma de poesia, na qual o emigrante descrevia a sua jornada fora do seu país.

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Carta de um Emigrante

“Eu caminhei da Madeira Foi num domingo à tarde Não penses que me esqueci Para ti minha amizade

Ao sairmos da prisão O Dr. Delegado nos disse Que arranjássemos os papéis E que não nos fugíssemos.

Saímos da rua das Pretas Com parte da nossa família Passamos dentro da cidade Viemos direitos para a Pontinha.

Mas no ano seguinte A gente se pôs ao pio E lá no dia 22 Foram 9 os que fugiram.

Lá estivemos a conversar Até a hora da despedida Foi o que me custou mais A nossa separação em vida.

Ao chegar a África do Sul Ora aqui, Ora acolá O que tinha de melhor A passaria não era má.

Fui para dentro do navio Fui direito ao camarote Com destino a Lourenço Marques À procura da minha sorte

Até que viam com o patrão A onde eu estou trabalhando Até que seja pouco Já ele me está pagando.

Na viagem eu adoeci Pouco antes de saltar Mas quando cheguei a terra Tratei logo de caminhar.

Cheguei a África do Sul Consegui o meu desejo Agora quando será Meu amor quando te vejo

Foi no 1º de maio Um dia muito bem lembrado Em vez de ir para África do Sul Fui para a prisão engarrafado

Agora vou terminar Não te quero maçar mais Recebe abraços e beijos Deste coração que ficou aos ais.”

Quando chegou ao dia 13 Dia da nossa senhora Às 8 horas da manhã Eles nos mandaram embora

Carta escrita por: Manuel Pestana (São Vicente)

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Carta de um Soldado

Certo soldado porém Da Índia escreveu à mãe Na carta dizia assim Lá por estar longe dos meus Eu estou bem graças a Deus Mãezinha não chore por mim Não é o que se dizia Mãezinha tenha alegria Não se entregue à paixão Pois deve sentir um brilho Muito orgulho em ter um filho Ao serviço da Nação Diga à minha namorada Para estar bem descansada Não se entregue ao sofrimento Pois quando isto terminar E quando eu aí chegar Tratarei do casamento Por agora mais nada A carta vai ser fechada Com muitas saudades a leia Um abraço para si mãe P’ra minha noiva também Para todos aí na aldeia Cedido por: Fátima (Boaventura)

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Madrinha de guerra

Antigamente, no tempo da guerra nas colónias, era comum existirem as madrinhas de guerra. Eram mulheres que voluntariamente trocavam correspondência com os soldados durante o tempo de serviço à nação e que servia, segundo relatos, para manter o ânimo e a ligação à sua terra natal. Em Boaventura também existiram madrinhas que correspondiam com jovens de outros lugares da ilha. O pedido era feito por aerograma (um papel de cor amarela ou rosa velho, escrito e dobrado para dentro e colado como envelope) porque não havia envelopes. Quando voltavam da guerra conheciam a madrinha, e por vezes destes contatos, resultavam namoros e até casamentos. Relatado por: Fátima (Boaventura)

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O Rei do Feijão Cantares e Versos de Antigamente

O Rei do Feijão andava lavrando Ouviu a notícia, pôs-se logo andado Vestiu o casaco de algibeiras roídas Meteu-se no brinco mais as raparigas. Bis O Feijão é tão bom, cozido com maçarocas Vejam como ele está, vestidinho até às botas O Rei do Feijão já tem meio cento Mas que nunca teve tão grande tormento Com a capa seca que teve de usar Nestes seus ouvidos sempre a ramalhar. Tirados das montras, foram seus sapatos Todos descosidos, roídos dos ratos O Rei do Feijão tem muita alegria Por chegar à festa deste grande dia. Um dia de noite, foi roubar cebolas Apanhou um susto, perdeu as ceroulas Chegando a casa teve de mentir Prá sua mulher a porta lhe abrir. Quando chega ao tempo da festa das uvas O Rei do Feijão, de pernas compridas Muito bem-disposto põe-se a bailar Com a sua Maria que vai por seu par.

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Cantiga do Trigo (Bendito) Cantares e Versos de Antigamente

Côro: Bendito e louvado seja Bendito e louvado seja E o Santíssimo Sacramento E o Santíssimo Sacramento Os anjos todos os anjos Os anjos todos os anjos Refrão Louvam a Deus Para sempre amem

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Ponta Delgada Cantares e Versos de Antigamente

I Este ano vou ao Monte Para o ano à Ponta Delgada Pelo gosto que eu tenho De passar na Encumeada. II Na freguesia de Ponta Delgada Tenho quem me queira bem Queria-me o Senhor Bom Jesus Não me queira mais ninguém. III A nossa Ponta Delgada É uma grande categoria Tem o Senhor Bom Jesus No fim da Freguesia. IV Se a minha mãe não me quiser Ponha-me a mala na estrada Que eu tenho quem me quer No bailinho da Ponta Delgada.

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Casamento Cantares e Versos de Antigamente

I Minha mãe para me casar Prometeu-me tudo quanto tinha Depois de estar casada Deu-me agulha sem linha.

VI Eu hei de casar com um giba Vão-se fartar de rir Vou fazer a cama alta Para o giba não subir.

II Minha mãe para me casar Prometeu-me uma panela Depois de eu estar casada Deu-me nas costas com ela.

VII Quando eu era solteirinha Usava fitas e laços Agora que sou casada Tenho os filhinhos nos braços.

III Minha mãe para me casar Prometeu-me tudo quanto tinha Depois de eu estar casada Deu-me um pano de cozinha. IV Casei-me para descansar Tomei dobrada caseira Melhor eu estivesse Em casa de meu pai solteira. V No dia do casamento Deitei o meu lençol para trás Casadinha para toda a vida Solteirinha nunca mais.

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Galos Cantares e Versos de Antigamente

O galo mais a galinha Foram ambos à Camacha O galo disse à galinha Isto aqui ninguém se agacha O galo mais a galinha Foram ambos à Fajã A galinha disse ao galo Canta agora que é manhã Donde vieste agora Ó meu galinho palheiro Tu tens as barbas pequenas Para vir ao meu palheiro O galo deu ordem à galinha para pôr A galinha disse ao galo põe tu meu amor Serra d’Água é um buraco O sol que dá é pouco Vizinha amarra a galinha Que o meu galo anda solto Quando o galo canta o tempo levanta. Autores: Isabel, Mercês, Albertina e Artur (Ponta Delgada)

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Lavrador da Arada Cantares e Versos de Antigamente

O lavrador da arada Encontrou um pobrezinho O pobrezinho lhe disse Leva-me no teu carrinho Deu a mão o lavrador No seu carrinho o metia Levou-o para sua casa Para melhor sala que tinha Mandou-lhe fazer ceia Do melhor manjar que havia Sentou-o na sua mesa Mas o pobre não comia Mandou-lhe fazer a cama Da melhor seda que havia Por cima damasco roxo Por baixo cambraia fina

Pela noite diante O pobrezinho gemia Levantou-se o lavrador A ver o que o pobre tinha Achou-o crucificado Numa cruz de prata fina Meu Deus se eu soubera O que em minha casa tinha Mandava fazer preparos Do melhor que encontraria Cala-te ai lavrador não fales com fantasia No céu te tenho guardado A cadeira de prata fina Tua mulher a teu lado Que também o merecia José Ivo (Boaventura)

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Bibliografia

Lima, F. (1968-1975). A arte popular em Portugal: Ilhas Adjacentes e Ultramar. (Vol.1). Lisboa: Verbo. Ribeiro, A. (2005). S. Vicente – Subsídios para a História do Concelho. São Vicente. Moutinho, J. (2011). Lendas das ilhas da Madeira e do Porto Santo. Madeira: Nova Delphi. Sarmento, A. (1953). Freguesias da Madeira. Madeira: Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Vieira, J. (2011). Memórias e Narrativas de Boaventura. Madeira: Edições Colibri. Silva, F., Meneses, C. (1863-1949). Elucidário Madeirense. (4ªed.). (Vol. I-III). Funchal: Secretaria Regional da Educação e Cultura.

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Agradecimentos

Grupo Folclore de São Vicente Casa do Povo Boaventura Isabel, Mercês, Albertina e Artur (Ponta Delgada) José Ivo (Boaventura) Manuel Pestana (São Vicente) Fátima (Boaventura) Helena Nunes (Boaventura) Maria de Fátima Pedra (São Vicente) Deolinda (Boaventura)

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11143 volume iii tradição oral (print) 130731  
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