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VOLUME II

“Antigamente era assim...” Roteiro Artesanal do Concelho de São Vicente


São Vicente

Edição: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Coordenação: Associação de Solidariedade Social Crescer Sem Risco Colaboração: Ilídio Santos | Jesse Barbosa | Sandra Caldeira | Alexandra Carvalho Fotografias: ARM | Museu Etnográfico da Madeira Design e Paginação: ZeroVinteOito Impressão: ZeroVinteOito ISBN: 978-989-98489-0-0 Depósito Legal: 361297/13


VOLUME II

“Antigamente era assim...” Patrimómio Artesanal do Concelho de São Vicente

Com o apoio de:

Com a colaboração de:


Património Artesanal do Concelho de São Vicente

Índice

Introdução

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O Bordado Madeira O Tear A Pichelaria As Rendas O Ferreiro As obras em vimes A Tanoaria A Olaria O Sapateiro Os Enfeites de Arraial Artes esquecidas…

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Bibliografia Agradecimentos

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6 9 12 13 14 18 20 21 24 26

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Património Artesanal do Concelho de São Vicente

Introdução

A ilha da Madeira, bem como todo o território nacional, está fortemente ligado ao artesanato.

Nas páginas que se seguem, apresentaremos algumas particularidades artesanais de cada freguesia que compõe o Concelho de São Vicente. Algumas artes são comuns em cada freguesia, como é previsível que assim seja, todavia, existem diferenças, nomeadamente, na forma de produção e dedicação a cada arte. Será dada relevância a cada arte pertencente ao passado e à cultura das freguesias de São Vicente, Ponta Delgada e Boaventura, em forma de relato ou história, pois são as vivências de cada ser humano que fazem as coisas mais pequenas factos da nossa história comum.

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O Bordado Madeira

O Bordado da Madeira é uma arte muito antiga, remontando ao tempo dos primeiros colonizadores da Ilha da Madeira. Esta arte veio juntamente com as mulheres, conhecimento importado das suas terras de origem. Talvez por isso, esta seja uma arte com várias influências, embora ao longo do tempo tenha ganho características próprias, nomeadamente, no desenho, aplicação e execução. Em 1850, foi introduzido o bordado inglês, tendo esta sido a última influência no bordado da Madeira. Esta atividade artesanal tem um caráter familiar muito vincado, é um saber que passa de geração em geração. Diz-se que no bordado da Madeira, não há idades e muitas vezes nem sexos. Daí que antigamente era frequente ver as crianças a bordar. Este bordado é frequentemente visionado em produtos como panos de mesa, jogos de cama, toalhas de mesa, algumas peças de vestuário feminino, tais como blusas, lenços e vestidos, e também nas camisas tradicionais que os homens vestiam. São vários os nomes e técnicas dos pontos e as formas de composição, conhecê-los a todos é como descobrir a história da Ilha da Madeira.

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De cariz muito complexo o Bordado Madeira é composto por várias fases desde o desenho, a picotagem, a estampagem e finalmente o bordar. Fernanda Neves, de 73 anos, residente na Freguesia de Ponta Delgada, refere que o artesanato com maior importância na freguesia era mesmo o Bordado Madeira. “Muitas mulheres se dedicavam a isso, foi uma das maiores fontes de subsistência para as mulheres da terra”. A “casa do bordado” era no Funchal, que ficava longe, então as agentes do bordado, responsabilizavam-se por ir buscar mais bordados e distribuir as peças pelas bordadeiras do seu sítio. Contudo devido à falta de agentes, nessa época, vinham mulheres da Fajã da Areia, Boaventura e Arco de São Jorge buscar bordados à Ponta Delgada. Quando não havia em Ponta Delgada as bordadeiras iam a pé a São Vicente, buscar mais bordados para fazer. Depois de entregue o bordado passava por uma “verificadora”, com o intuito de avaliar o trabalho tendo em conta a perfeição dos pontos. Caso existisse alguma imperfeição, o bordado voltava para trás a fim de resolver essa situação, para no fim poder chegar ao cliente um trabalho extremamente bem feito. Esta é uma arte conhecida pela sublime habilidade manual e perfeição, tendo já percorrido o mundo, devido à grande aceitação deste tipo de atividade artesanal tão bem elaborada e minuciosa.

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O Tear

Muita gente, em tempos longínquos, detinham do seu tear. Ainda hoje, podemos encontrar em algumas casas os velhos teares, pertença dos antigos familiares, àquela época muito utilizados. O tão afamado linho da terra, material usado para fazer certas peças de vestuário, lençóis, toalhas e outras peças mais simples, saía destes teares. Há algumas décadas atrás, era prática recorrente as mulheres, à data do casamento, levarem no enxoval, uma teia de linho, que deveria ter pelo menos 30 metros. Este comportamento associado ao casamento significava que a mulher levava com ela, tecido que havia sido cultivado, fiado e tecido pela própria família, algo que possuía maior ou menor valor e riqueza consoante a forma como era feito. De maior valor era considerado o pano de linho sedado, feito apenas com as fibras que passavam no sedeiro e por isso mesmo muito finas. Com este linho era possível fazer as mais maravilhosas e belas toalhas de altar, batismo e de rosto, que geralmente eram bordadas com fios de algodão branco ou azul. Claro está que se fazia outro tipo de tecelagem na Ilha da Madeira, nomeadamente com linho e lã, produzindo assim a serguilha que era utilizada em peças de vestuário como por exemplo, calças, camisolas, barretes e coletes. Com mais elegância ou mais simplicidade, estes artefactos faziam parte do nosso trajar tradicional. Na nossa era atual, a indústria de confeção de vestuário de forma mecânica, substituiu na totalidade os antigos trajares tão conhecidos da Região. Hoje, encontrado-se ainda uma réstia desse tempo nos grupos de folclore ou nas típicas viloas, que se apresentam em eventos.

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Prevalece com alguma incidência a produção de tapetes com retalhos, geralmente muito coloridos, pois trata-se de uma junção de vários tecidos que deixaram de ter utilidade. As senhoras que ainda fazem este tipo de arte, têm orgulho do saber que os seus familiares lhes passaram, e tentam, agora, passar o mesmo saber para os seus descendentes. O certo é que a tecelagem da ilha da Madeira tem qualidade superior aos produtos industriais que hoje tão facilmente temos acesso. Maria Conceição Caldeira de 95 anos conta que “semeava-se o linho a meados de janeiro ou fevereiro. Quando já estava grandinho mondava-se a erva que estava entre o linho”. Seis meses depois o linho era arrancado da terra sendo posteriormente ripado com o “ripanço”, um artigo moldado em madeira que se fazia antigamente, de forma a soltar as sementes para plantio do próximo ano. Conta esta senhora que era praxe “levar depois o linho para os lagos da ribeira onde ficava a “demolhar” durante oito dias.” Após este período o linho era colocado em cima das pedras da ribeira para secar. Posteriormente o linho era levado para casa e malhado com um pau. Depois de um processo de cozedura, o linho era passado pelas gramadeiras para separar a estopa grossa da estopa fina. Depois da estopa fina, ou seja, o linho estar separado ia para o sedeiro para ser enfiado na roca com saliva formando-se uma “massaroca” no fuso. Esta “massaroca” ia para o serilho para se tear e arduar para serem feitas as meadas de linho e passar para a devadoura. “Já feitas as meadas de linho, estas iam a cozer com cinza, malva de barrelo (uma erva) e bosta de vaca para alvejar. Depois de cozido, o linho ia para um centro de vimes para escorrer e depois de lavado no poço, ficava dias a corar nas pedras para ficar alvinho.”

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A Pichelaria

A pichelaria ou a arte de fazer pichéis é um dos ofícios do antigamente que tem caído em desuso e em esquecimento, muito devido à massificação e industrialização de vasilhas e vasilhames que facilmente são adquiridos nos mais variados espaços comerciais, do concelho de São Vicente e ilha da Madeira. No concelho de São Vicente esta arte ainda resiste nas mãos de José Faria Freitas, de 73 anos, residente no Sítio do Passo, na freguesia de São Vicente. Era ainda muito jovem quando dedicou-se a tipo de artesanato, influenciado pelo Sr. Jorge e a sua oficina de então. Para aprender como se faziam as panelas e restantes utensílios, José Freitas chegava a faltar à escola, tal era o seu entusiamo.

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Aos 17 anos, já trabalhava na oficina do seu mentor e, quando este, mais velho e cansado, não era capaz de continuar os seus trabalhos de pichelaria, José Freitas decidiu então comprar-lhe o material para ele próprio dar continuidade a este trabalho manual. Contudo, já naqueles tempos, as encomendas não abundavam e como pai de doze filhos, tinha de dedicar-se à fazenda juntamente com sua esposa para sustentar a família. Na sua arte utiliza a bigorna, uma peça de ferro que se malham e amoldam metais, que serve para fazer as dobras e vergas, com o intuito de ficar mais resistente. Paralelamente serve também para fazer as costuras para os fundos e guarnecer as peças. Conta o picheleiro que “antigamente o material era aquecido a carvão e só depois passou a ser utilizado uma manivela e petróleo”. Atualmente, os trabalhos que ainda realiza, utiliza o maçarico que lhe poupa tempo, pois aquece e solda ao mesmo tempo.

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José Freitas costumava fazer alambiques onde se fervia a aguardente, e lampiões para “alumiar as regas noturnas ou as idas às lapas”. As leiteiras ou bilhas para transportar o leite; as banheiras para o banho ou para outro uso doméstico; as pudineiras; as formas; para bolos de mel e as latas para os guardar depois de confecionados; os foles que eram utilizados para pulverizar o enxofre na vinha, ou simplesmente para soprar o lume quando este se estava a apagar; eram alguns dos utensílios artesanalmente fabricados por este picheleiro. José fazia ainda cuscuzeiros para se cozinhar o cuscuz e coxos para pesar alimentos nas mercearias. Para além do fabrico, José Freitas também consertava alguns instrumentos. As máquinas de sulfatar e os fundos das panelas eram os mais encaminhados para conserto. Atualmente, já não produz com a mesma frequência, contudo a procura pela qualidade oferecida ainda existe.

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As Rendas

O trabalho em rendas, não é tão vulgar e conhecido como o Bordado Madeira ou a tecelagem, contudo, no Concelho de São Vicente, encontramos algumas pessoas que se dedicaram a este tipo de artesanato. Segundo a população local havia algumas bordadeiras que eram solicitadas muitas vezes para fazer alguns trabalhos com rendas, nomeadamente renda filé que era usada nas barras de toalhas de linho da terra, a renda frioleira geralmente utilizada para lenços, cintos e golas de vestido. Em lençóis faziam o ponto alinhavo de Nisa. Faziam também toalhas com pontos abertos, cobertas com estopa, bordado matiz e claro, pontos fantasia como o ponto cruz, para além de croché. Contudo o bordado Madeira era efetivamente a arte mais predominante, feito por encomenda. Não se sabe o motivo pelo qual a região não se dedicou a esta arte. Visto se dizer que terra onde tem pescadores tem igualmente rendas. Tal ditado é fundamentado dizendo que as mulheres passavam para os tecidos a imagem das ondas do mar, local onde se encontravam os seus maridos e familiares. Uma vez que ficavam longas horas à espera de os ver aparecer lá longe, dedicavam-se a imitar em linha o que viam. Apesar disso, este trabalho manual não atraiu a população madeirense, especialmente ao público feminino, provavelmente, porque o bordado madeira era uma arte muito mais rentável e já muito vincada. No século XVII, com a presença marcante inglesa, era normal que trouxesse alguma influência, pois estes já faziam várias variantes de renda, mas nem isso cativou o povo da região. Todavia, é importante realçar, que apesar de pouco difundido, existiam por toda a ilha mulheres que faziam rendas e com tanto primor e rigor como as que faziam bordado madeira.

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O Ferreiro

Nos dias de hoje, é uma arte quase inexistente no lado norte da Ilha da Madeira, mas o Ferreiro foi antigamente uma profissão indispensável para o povo madeirense. O trabalho do ferreiro era geralmente solicitado por lenhadores, carpinteiros e agricultores. Pediam utensílios como enxadas, machados e outras ferramentas próprias para cada trabalho. Com a nova era industrial em que tudo é produzido em grande escala, esta atividade artesanal perdeu território. As oficinas mudaram com o tempo a sua imagem, tentando, sempre manteremse fiéis ao antigo cenário, proveniente, dos tempos antigos. Sabemos que no Concelho de São Vicente, existiram, noutros tempos vários ferreiros. Atualmente, os artesãos que ainda existem dedicam-se a fazer algumas foices, facas para uso doméstico e alguns utensílios para trabalhar o vime. Como as restantes artes manuais, esta é mais uma que prima pela habilidade extrema e qualidade exímia.

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As obras em vime

O trabalho em vime é ainda hoje uma das atividades artesanais com maior expressão na Madeira. Nos anos cinquenta do século XIX eram Boaventura e São Vicente juntamente com a Camacha os principais centros de produção de obras com ramos do vimeiro. Conta Teresa Caldeira, residente na freguesia de Boaventura que esta “árvore devia ser plantada em terra húmida, sendo necessário regar frequentemente para que os vimes crescessem mais e ficassem mais grossos”. Em abril, “podavam-se os vimes que eram dispostos em maúças ou molhos grandes”, e posteriormente transportados para o local onde eram escolhidos e cozidos. A poda do vime constituía-se um dia de festa. Geralmente, os vimes eram colocados num lugar aplanado, encostados a uma parede, pondo as maúças maiores por baixo e as mais pequenas por cima. As maúças eram arrumadas em grandes quantidades, onde posteriormente eram levadas para o caldeiro, local onde eram cozidos os vimes. “Para cozer os vimes era necessário encher metade do caldeiro de folha de Flandres, com água.” Depois de fervida a água, deitavam-se então os vimes, sempre bem arrumados com o lume bem forte. Posteriormente, “os vimes são abafados com sacas ou panos velhos, apertando com paus de madeira”, de forma a não libertar o calor e evaporar a água. O processo de cozedura demorava sensivelmente três horas. Depois de cozidos, os vimes eram retirados do caldeiro, deitando água fria por cima, para não “apertar a casca”. Em seguida, os troços dos vimes são malhados com um malho e levados para as mulheres que os esperavam para os descascar. Depois de descascados os vimes amarrados em maúças pequenas, eram postas a secar durante uns dias. Quando secos, eram arrumados em maúças maiores, tendo em conta o seu tamanho e encaminhados para os artesãos locais ou para outras freguesias da ilha. João Luís António de 88 anos é um dos artesãos que trabalhava o vime na freguesia de Boaventura. Tendo iniciado esta atividade com apenas oito anos, impulsionado por familiares e amigos, conta que nem sempre foi produtivo a confeção da obra em vime, apesar do seu trabalho ser muito conhecido e reconhecido. Durante 79 anos, João António confecionou “cestos vindimos para o transporte

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de semilhas, batata-doce, uvas e cestos de almoço para transportar a comida das pessoas que trabalhavam nas fazendas”. Os balaios eram também muito populares sobretudo na altura do Espírito Santo, para a decoração das casas, bem como, para transporte das flores que as saloias utilizavam para deitar nas casas dos católicos. Mesas em vime, cadeiras e bancos, eram outros dos instrumentos criados por este artesão que para o efeito contava com “podões, furadores, cunhas, navalhas e apertadores” como ferramentas de trabalho.

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A Tanoaria

A tanoaria é mais uma das várias atividades artesanais que o Concelho de São Vicente teve. É certo que a existência do vinho trouxe mais realce aos produtos de tanoaria, no entanto, muito antes do vinho, estes artefactos já detinham grande importância, pois, já eram utilizados para o transporte e armazenamento de água, sal e também para conservação de alimentos. O vinho foi sem dúvida o grande impulsionador da tanoaria, devido à exportação do vinho de roda (transportado em pipas até aos países quentes, como Índia, Brasil ou Antilhas). São vários os artefactos produzidos através desta arte e que foram utilizados ao longo dos tempos na produção de vinho. Trata-se de um saber antigo, passado de geração em geração. Apesar de ser uma atividade artesanal existente em toda a Ilha da Madeira, consegue-se encontrar algumas singularidades divergentes em várias freguesias no fabrico da tanoaria. É exemplo disso, a capacidade dos barris, que em algumas freguesias é superior e noutras, inferior. No Funchal e em Câmara de Lobos tinha a capacidade de 45 litros, já em Ponta Delgada e na Calheta detinha a capacidade de 50 litros, e no Porto Moniz e Seixal, 56 litros.

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É interessante o método de cálculo, que o tanoeiro utilizava para chegar à capacidade dos tonéis. Esta era tirada a partir da medida interior do cumprimento, do diâmetro do fundo e do diâmetro do bojo (capacidade). Posteriormente eram feitos alguns cálculos, mais especificamente, três: multiplicava-se o diâmetro do bojo pelo diâmetro do fundo e a esse resultado, multiplicava-se o cumprimento, depois dessa conta, multiplicava-se tudo por oito. O porquê dessa multiplicação por oito é desconhecido, sendo um saber que vai passando dos mestres, nunca sendo questionado a razão desse número em específico e não outro. Na Região Autónoma da Madeira, a tanoaria produzia vários artefactos, tais como, as conhecidas pipas e os conhecidos tonéis, mas também canecos (medida feita de uma só peça), baldes de mãos e de asas, barrileiros, canecos de aduelas (corpo de uma pipa ou vasilha semelhante) e funis de encher. Como é previsível, todos estes artefactos eram feitos com uma extrema habilidade e perfeição. A freguesia de Ponta Delgada teve no passado vários tanoeiros, e alguns que apenas faziam remendos nos artefactos já produzidos. Atualmente, ninguém trabalha essa arte.

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A Olaria

Nos princípios do século XIX, José de Oliveira Jardim Júnior, natural do Arco de São Jorge criou uma olaria no sítio de São Cristóvão, aproveitando uma fonte de barro vermelho que ali existia. A olaria possuía um forno para cozer as peças fabricadas e um outro industrial em mira para fabricar louça para uso doméstico. Depois do barro amassado faziam alguidares, púcaras, infusas, bilhas e manilhas para a canalização e também telhas. Esta indústria não foi rentável, muito devido à falta de pessoal especializado e às estratégias de marketing, não atingindo assim os fins previstos. O material desta olaria acabou por ser aproveitado noutra olaria, no Caniço, pertença do filho de José Júnior, tendo este contratado mão de obra do continente.

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O Sapateiro

A arte de produzir calçado é já muito antiga. Sabe-se que num tempo não muito remoto, fazia-se no Funchal, aos sábados, uma espécie de feira onde eram expostas e vendidas as conhecidas botas feitas pelos sapateiros. O modelo das botas que ainda hoje são feitas remonta ao ano 1600. A típica bota, também apelidada como bota grossa era feita com pele de boi e de cabra, com o cano até ao joelho e com uma dobra de fita vermelha. A bota chã, que é parte fundamental do trajar tradicional madeirense, é feita com pele de cabra no cano da bota e pele de boi na sola. Em 1856, os homens usavam a bota de cano alto (bota grossa) e as mulheres e crianças calçavam a bota chã. O que nos leva a crer que o calçado também sofreu uma evolução ao longo dos tempos, à semelhança do vestuário tradicional madeirense. Denota-se uma maior criatividade por parte dos artesãos, na forma como posteriormente começaram a fazer as botas. No calçado feminino encontramos a dobra do cano com algumas particularidades novas, mais larga e decorada. No calçado masculino também encontramos diferenças: tem na mesma a dobra mais larga mas com uma decoração mais discreta. O calçado madeirense é conhecido pela maleabilidade, conforto, e atrativa imagem. Trata-se de uma atividade artesanal que muito prestigia a Ilha da Madeira, estando novamente, a voltar para a ribalta. O Concelho de São Vicente também viu nas suas freguesias vários sapateiros, embora, com o tempo, tenham desaparecido. Hoje em dia, apenas são relembrados pelos seus descendentes e antigos clientes. Contam aqueles que ainda se recordam, que houve ao longo do tempo muitos sapateiros, pois as pessoas não tinham como comprar sapatos no Funchal, pois para além de ser longe, eram mais caros. Só as famílias ricas tinham os seus bons sapatos, que usavam no dia da missa. Até há poucos anos, ainda havia um sapateiro na freguesia de Ponta Delgada, que dedicou-se ao fabrico de calçado a partir dos 20 anos e esteve nesta arte durante aproximadamente 40 anos.

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Os Enfeites de Arraial

As festas locais, geralmente associadas à religião, há muito que são embelezadas com os típicos enfeites, tanto dentro dos recintos religiosos, com flores naturais, como nas redondezas com as flores de papel ou plástico. Há uma certa necessidade de enfeitar os espaços, como se isso fosse trazer mais notoriedade à festa que irá acontecer. A freguesia de Ponta Delgada, no Concelho de São Vicente, foi pioneira neste tipo de enfeite. Sob a alçada do Padre Cardoso, foram os próprios residentes os criadores das flores a expor nos vários sítios. Eram vários os tipos de ornamentação, flores de todo o tipo e tamanhos, arcos com verdura e flores. Atualmente esta é uma prática abrangente a todo o território madeirense e a todas as festas populares. “As flores eram feitas na casa de alguém do sítio, de forma mais secreta possível, para que os outros sítios não soubessem que flores estavam a fazer. Inicialmente os materiais usados eram papel, arame e moca para os corações.” O ambiente à volta dos enfeites era sempre muito animado, cantavam, havia quem tocasse acordeão, e no fim davam uma volta pela freguesia quando já estavam feitas as flores.

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Anos mais tarde, começaram a utilizar papel crepe pois dava para moldar melhor. Posteriormente, começaram a fazer as flores em plástico que ofereciam maior resistência caso chovesse. Fernanda Neves refere que “dias antes de enfeitar, iam buscar o louro para enfeitar a vara, murta para enfeitar os travessões, e as Veras que eram utilizadas com as flores.” Na freguesia de Ponta Delgada, ainda se mantém a tradição de fazer as flores para cada sítio, sendo necessário contratar empresas para enfeitar, apenas no sítio envolvente à Igreja do Bom Jesus, de resto, as pessoas responsabilizam-se pelos seus sítios. Apesar de que, atualmente as flores são de plástico, não há necessidade de serem feitas flores todos os anos, sendo apenas substituídas as que se vão deteriorando com o passar do tempo. É de realçar a habilidade manual das pessoas que se dedicam a fazer este tipo de ornamentação, pois fazem com extremo primor e beleza. Ainda hoje, se mantém essa tradição, embora muito mais ténue. E de ano para ano, cada vez mais, há menos gente a querer ajudar nos enfeites dos cantões. Os jovens não têm muito interesse em seguir a tradição que os pais e avós lhes incutiram.

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Artes esquecidas…

O Concelho de São Vicente que viveu artes que devido à morte daqueles que lhes davam vida, acabaram também por desaparecer. Contam populares que havia quem soubesse fazer pastores para o presépio, com âmago de figueira e de milho. Era uma arte que dependia das fases lunares uma vez que era necessário saber qual a lua certa para tirar o âmago da figueira. O âmago da figueira era utilizado para fazer a cara, os braços e as pernas, enquanto o âmago do milheiro era utilizado para construir o corpo. As vestimentas eram de papel às cores, e colado com goma. Estes pastores eram vendidos, sob pedido, mas quem fazia também ficava com eles, para ter em casa. Estes bonecos eram muito frágeis, contudo se bem acondicionados durariam bons anos. Havia igualmente quem soubesse fazer ramos com flor de laranjeira com cera que eram usados para casamentos. Segundo os antigos era uma senhora de nome Raquelinha quem os fazia, contudo com o seu desaparecimento, esta arte também abalou.

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Bibliografia

Dionísio, F. (2002, Jan. - Jun.). Lágrimas correndo o mundo: o bordado madeirense como dor e como arte. Islenha. Nº 30, 107-109. Eça, M. (1986). Roteiro artesão português. (Vol. 11). Porto. Lima, F. (1968-1975). A arte popular em Portugal: Ilhas Adjacentes e Ultramar. (Vol.1). Lisboa: Verbo. Lima, R. (1998). Artesanato tradicional português. (Vol.4). Amadora: Autor. Nóbrega. M. (2000). Tradições Madeirenses. Adereços. (Vol.II). Camacha: Autor. Pereira, J. (1986). Os vimes na Ilha da Madeira. In: Atlântico- Revista de Temas Culturais. Nº 5, 52-64. Ribeiro, A. (2005). S. Vicente – Subsídios para a História do Concelho. São Vicente. Silva, A. (1982). Bordados e tapeçarias da Madeira: estrutura, evolução económica e problemas do sector. Soares, M., QUINTAL, R. (1981). Bordado da Madeira. Vieira, Alberto (2006). Bordado da Madeira. (1ª ed). Funchal.

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Agradecimentos

Maria Conceição Caldeira (Boaventura) Fernanda Neves (Ponta Delgada) José Faria Freitas (São Vicente) Graça Carvalho (Ponta Delgada) Teresa Caldeira (Boaventura) João Luís António (Boaventura) Gabriel Agostinho Caldeira (Boaventura) Fátima Freitas (Ponta Delgada)

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