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Sobre a Série:

Lançamento

Em Breve


Envio: Soryu Tradução: Sandrinha Revisão Inicial:

Liani

Revisão Final:

Márcia S.

Formatação, layout e leitura final: Gaby

B.


“A tradução em tela foi efetivada pelo Grupo Pégasus Lançamentos, de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição integral da obra literária física ou em formato e-book. O grupo tem como meta a seleção, tradução e disponibilização apenas de livros sem previsão de publicação no Brasil, ausentes qualquer forma de obtenção —Aquele momento estranho, quando amas um homem que não de lucro, direto ou indireto.

sabeosque és uma mulher.— No intuito de preservar direitos autorais e contratuais de autores e Callie Picket, a garota gorda porta julgar ao lado tinhapoderá um grande editoras, o grupo, sem prévio avisoda e quando necessário cancelar acesso e retirarque o link download dosguardado livros cuja do seu segredo. Bem,oum segredo elademuito bem for veiculada editoras vizinho sexy publicação do apartamento ao por lado, Chrisbrasileiras. Walker. No primeiro O leitor/usuário ciente de quecom o download da presente se nada encontro deles, elefica a confundiu um sujeito gordoobra e ela destina tão somente ao usopara pessoal e privado. Deverá abster-se da fez corrigi-lo. postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social e bem Depois Chris começou a incentivá-la a ir a academia para como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho de tradução do perder pesogrupo, e assim que os quilos começaram a desaparecer, Chris sem a prévia e expressa autorização do mesmo. começou a ver estas alterações...tal como Callie começou a parecer O leitor/usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderá comindividualmente uma garota,pela e uma vez que ele é um perfeito playboy e um correta e lícita utilização da mesma, eximindo o amante das mulheres, começaparceria, a sentir-se atraído por ela grupo citado no começo de qualquer coautoria ou enquanto pensaem queeventual ela ainda —ele—. eleoupensa coparticipação delitoécometido por Basicamente, aquele que, por ato omissão, tentar ouque concretamente utilizar da um presente está se tornando gay.obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do Alguma vez Callie vai lhe dizer a verdade enquanto a sua código penal e lei 9.610/1998.” mentira começa a se intrometer entre eles enquanto ela e o muito confuso Chris começam a aproximar-se? Ou será ele o primeiro a ver finalmente quem ela realmente é? Uma Grande Mentirosa.

Equipe Pégasus Lançamentos


“Aquele momento estranho, quando amas um homem que não

sabe que és uma mulher.” Callie Picket, a garota gorda da porta ao lado tinha um grande segredo. Pelo menos, um segredo que ela guardou muito bem do seu vizinho sexy do apartamento ao lado, Chris Walker. No primeiro encontro deles, ele a confundiu com um sujeito gordo e ela nada fez para corrigi-lo. Depois Chris começou a incentivá-la a ir à academia para perder peso e assim que os quilos começaram a desaparecer, Chris começou a ver essas alterações...tal como Callie começou a parecer com uma garota, e uma vez que ele é um perfeito playboy e um amante das mulheres, começa a sentir-se atraído por ela enquanto pensa que ela ainda é “ele” Basicamente, ele pensa que está se tornando gay. Alguma vez Callie vai lhe dizer a verdade quando a sua mentira começa a se intrometer entre eles, enquanto ela e o muito confuso Chris começam a aproximar-se? Ou será ele o primeiro a ver finalmente quem ela realmente é? Uma Grande Mentirosa.


— Callie, querida, quando você virá nos visitar? Já passou tanto tempo! Callie Picket deu uma dentada no seu donut coberto de glacé de morango e olhou para a secretária eletrônica onde a sua mãe, Annie Picket, continuava a dizer dramaticamente como ela negligenciava a família. — É sobre Greg? Querida, todos nós sabíamos que ele não servia para ti. Não leve muito a sério. Callie fez uma careta. Greg? Eles ainda pensavam que ela ainda estava pensando em Greg? Pelo amor de Deus! Greg não tinha sido a razão pela qual ela se mudara da cidade. Ok...talvez tivesse sido em parte, mas foi principalmente a sua própria família, que a afastou com toda a sua censura sobre ela acerca...de tudo! O seu aspecto, o seu peso, o seu emprego. TUDO. As coisas não dando certo com Greg foi apenas o catalisador que precisava para tomar a decisão de sair

da

cidade

antes

que

alguém

a

impedisse.


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— Callie,— continuou a voz da sua mãe, — Greg era demais para uma garota tão doce como você lidar. O que significa que a sua mãe pensou que Greg era muito bom para ela. —Ele era muito ambicioso... Que significa que ela não tinha a capacidade e recursos para ajudá-lo a ir a lugares. A sua mãe, se esqueceu que Greg andava atrás da sua fortuna. Tinha a certeza, que ele planejava usá-la para os seus “planos” ambiciosos. — ...e ele era muito atraente. E tu sabes que homens atraentes como ele, são bons destruídores de coração. Tradução: Ele foi um desperdício. Aquela garota gorda, que todos chamavam de Callie, a Vaca na escola. Até mesmo alguns membros da sua família lhe chamavam disso. — Callie, vem para casa. Não havia necessidade de mudar da cidade. Já se passaram três meses. Estamos com saudades. Callie bufou e apontou um dedo acusador cheio de açúcar, para o atendedor de chamadas. — Quer dizer que tem saudades de quando eu era tua escrava. Toda a vida dela, até onde conseguia lembrar, a sua mãe e a suas duas irmãs socialites sempre se aproveitaram dela.


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Faz isto, faz aquilo! Cinderela pensou que tinha sofrido? AHAH! Dois minutos sozinha com a mãe e as irmãs de Callie e a Cinderela teria despejado gasolina em si mesma e ateado fogo. Callie pensou em todas as vezes que tinha sido destratada

pelos

seus

parentes,

não

fisicamente

mas

emocionalmente. A sua mãe e irmãs iriam fazer sempre comentários sarcásticos acerca do seu aspecto e peso, como se pensassem que a pele dela era suficientemente grossa para bloquear todas aquelas palavras. Claro que elas estavam erradas. Todas aquelas críticas cortavam como se fosse uma faca. Callie engoliu o que restava do donut e lavou as mãos na pia da cozinha. Ela olhou para a água corrente, sentindo os seus olhos picarem por causa das lágrimas amargas. Toda a doçura daquele donut não conseguiu afastar a dor amarga que a sua família lhe dava. Para eles, ela não era suficientemente bonita ou magra como as suas irmãs. Loura e imagem perfeita, Sarah tinha o seu corpo tipo modelo e rosto bonito. Apesar de atrás daquele rosto bonito estar o coração de uma traidora. Callie devia saber. E depois havia Hannah, pequena e engraçada como um


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botão com o seu cabelo loiro cacheado. Ela não era tão malvada

quanto

Sarah,

mas

também

sabia

ser

tão

convincente e manipuladora quando queria. A mãe delas cuidou disso. Apenas Callie, a mais nova, era uma desilusão. Ela não era bonita nem magra. Callie sempre havia sido cheia...agora era apenas gorda. Para agradar à sua mãe, ela tentara várias dietas e quase que foi bem-sucedida, mas quanto mais a sua mãe e irmão a pressionavam, mais ela comia até ter ficado com 45 quilos de peso a mais. Fungando, Callie limpou as suas lágrimas com as costas da sua mão gorducha e fechou a torneira. Silenciosamente, ela secou as mãos no pano de pratos que estava pendurado na geladeira e foi para o quarto. Fechando a porta, ela encarou o grande espelho que estava colado atrás da porta e se observou. A garota do espelho olhou-a de volta, rosto gorducho, olhos castanhos tristes. Cabelo escuro e curto que emoldurava o seu rosto gorducho e pálido, um rosto que nunca ia passar de engraçado. Aqueles tristes olhos castanhos baixaram, observando aquele corpo grande e inchado sob uma camiseta extra grande e calças cinzentas extra grandes. Tudo o que este


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corpo podia usar era extra extra grande, porque não iria servir nenhum tamanho menor. Na verdade, a sua melhor imagem eram os olhos. Olhos castanhos que não eram muito escuros, e ao invés, eram olhos cor de chocolate com um toque de dourado. Antes do pai dela morrer, quando tinha doze anos, ele costumava dizer-lhe que ela era a sua coelhinha de olhos chocolate engraçados. Com o seu pai falecido todos estes anos, ela não era a coelhinha de ninguém...apenas uma irmã e filha gorda. Callie pensou no seu pretensioso padrasto Richard, o bastardo que a tinha apresentado a Greg, o ex-noivo dela. Quando eles se conheceram, quase há um ano atrás, Greg era tão doce, tão atencioso. Parecia não notar naquilo que todos viam. Para ele, ela não era aquela irmã gorda, não...ela era a sua princesa. Isto foi até ela descobrir o que ele realmente queria. A sua herança. As suas irmãs e mãe sempre a invejaram por ela ter recebido dinheiro e propriedades por parte da sua avó, a mãe do seu pai. Quando ela morreu, deixou para Callie uma pequena fortuna e propriedades por todo o mundo. Tudo pertenceria a Callie no seu 21º aniversário. Quando o padrasto dela descobriu, colocou os seus planos em ação, encabeçando Greg para a seduzir para que quando casassem, ele tivesse metade da riqueza dela. O que eles planejaram


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fazer com a fortuna dela, ela não sabia. Tudo o que sabia era que Greg tinha mentido. Usado-a. E ele não se sentia arrependido sobre isso. Ela soube da traição dele através da sua irmã Sarah, que os tinha ouvido falar no escritório do padrasto delas. Sarah foi tão presunçosa quando revelou as mentiras, não se incomodando em esconder a alegria porque ela estava de olho em Greg e sempre se perguntara o que ele vira na sua irmã gorda. Agora sabiam. Callie abanou a cabeça, afastando a memória do seu confronto com Greg e o seu padrasto. Nenhum dos dois sequer tentou negar. — Ânimo, Callie,— disse ela à garota no espelho. — Você está finalmente vivendo sem sua mãe, padrasto e irmãs. Apenas você. Agora você é uma mulher independente. Pode fazer o que quiser. A tua vida está nas suas mãos. Talvez ela volte a fazer dieta. Quando a barriga dela protestou com um ruidoso barulho, ela riu. Ok, uma dieta depois de encomendar uma grande pizza de pepperoni com linguiças e azeitonas extras. Sussurrando, ela abriu a porta e dirigiu-se para a pequena sala de estar, pegando o telefone sem fio e ligando para a pizzaria mais próxima. Devia chutar a si própria por


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ter o número da pizzaria na discagem rápida, mas agora estava muito esfomeada para se importar. Depois de encomendar a pizza, ela começou a arrumar o apartamento apenas para se sentir ocupada até a pizza chegar.

Quinze

minutos

depois,

quando

ela

estava

começando a suar por se movimentar tanto, soou a campainha. — Chegou a pizza!— Callie cantou alegremente. A sua comida de conforto sempre tinha sido pizza e sem mãe ou irmãs para a aborrecerem com as calorias, ela podia comer tantas quantas quisesse. Não era saudável, mas era muito bom. Tirando dinheiro da bolsa, Callie foi praticamente correndo para a porta, abrindo-a sem se preocupar em olhar através do olho mágico para ver quem era. — Uau, desta vez foi rápido, Manuel,— dizia ela enquanto abria a porta, com um largo sorrio no rosto. — Costuma demorar tanto — Callie congelou. SANTO DEUS!! De olhos bem arregalados e boca aberta, Callie ficou colada ao chão, incapaz de dizer alguma coisa compreensível, devido à visão que tinha na sua frente. Com apenas uma toalha branca enrolada à cintura, o sujeito nu na frente dela


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não era o Manuel, o entregador de pizzas magrinho que sempre

entregava

as

encomendas

dela.

Não,

este

sujeito…este sujeito…querido e doce Jesus! — Olá,— disse o deus do sexo com um sorriso malicioso. — Você se importa que eu use o seu chuveiro? O meu estragou. Callie tentou falar mas as palavras não saíam. Ao invés, os seus olhos permaneceram fixos naquela boca luxuriosa antes de viajarem para o impressionante seu peito e abdominais. Ele devia ter acabado de sair do chuveiro porque a sua pele ainda estava molhada e o seu cabelo louro escuro ainda pingava. Ela observou, hipnotizada, enquanto uma gota de água começava

a

abdominais…e

sua um

viagem pouco

desde mais

o

seu

para

peito baixo

até

aos

antes

de

desaparecer na toalha branca que ele tinha enrolada à cintura. Callie queria gemer com aquela visão. Ela queria lamber as gotas de água que estavam na sua pele, queria mergulhálo em chocolate e— Olá?— A sua voz profunda e divertida interrompeu-a. Os olhos de Callie elevaram-se para se encontrarem com os olhos azuis sorridentes dele. — Então… sobre o banho?


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Callie pestanejou, imaginando-o no chuveiro e quase teve uma hemorragia no nariz. O coração dela estava tão acelerado que ficou admirada que não tivesse saído do peito. — Você e-está nu,— conseguiu ela finalmente dizer, e quase gemeu por quão estúpida soava. O deus do sexo franziu a testa, parecendo ainda divertido. — Não é correto. Tenho uma toalha. Callie engoliu em seco e mordeu a língua para se impedir de dizer que desejava que ele não tivesse a toalha. — Então você se importa?— Perguntou ele novamente, colocando uma mão na soleira da porta e inclinando-se para a frente. — Eu preciso mesmo desse chuveiro. Callie olhou dentro dos olhos dele e continuou a olhar…e a olhar…e a olhar. —Por

favor?—

Os

seus

olhos

azuis

profundos

imploraram, e ela percebeu que estava concordando como se estivesse em transe. Nesse momento, se ele lhe pedisse a lua, ela teria lhe dado. — Obrigado!— Ele deu-lhe outro sorriso malicioso e passou por ela. Ele adentrou no apartamento dela como se tivesse todo o direito de estar ali, encharcado e extremamente lindo. Callie olhou para ele, mal acreditando que ele estava


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no apartamento dela, quem quer que ele fosse. Seria ele um presente de Deus? Um amor tórrido que foi enviado para acabar com as suas noites miseráveis e solitárias? Callie virou os olhos para o céu e pensou, Obrigada, antes de fechar a porta suavemente. Ela empurrou o dinheiro que segurava no bolso das calças. —Obrigado, cara,— disse ele novamente enquanto parava na sua sala de estar, mãos nos quadris e observando o apartamento. — Eu sabia que você não se importaria. Callie permaneceu em silêncio, devorando a visão dele na sua sala de estar. — A propósito, me chamo Chris,— disse ele quando o olhou. — Mudei-me para a porta ao lado há alguns dias. Callie pestanejou. A porta ao lado? Sim, é isso! O apartamento ao lado esteve vago há algum tempo. Ela não sabia que alguém já se tinha mudado, até agora. — No outro dia vi você da janela,— Chris estava dizendo, examinando o pequeno conjunto de chá na sua mesa de vidro que estava na sala de jantar. Ele pegou uma minúscula xícara branca com detalhes florais e fez uma careta. — Ei, o que é isto? — Uma xícara de chá,— respondeu ela, ainda olhando


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para ele. — Recebi de herança da minha avó. — Ah.— Chris olhou impressionado. — Devia gostar muito dela para exibir isto assim. Parece um pouco afeminado.— Ele tornou a colocar a xícara no lugar e endireitou-se, um sorriso se curvou nos lábios quando viu uma enorme TV de plasma montada na parede. — Porra,— assobiou ele em apreciação, — Bom. — O-obrigada. — Então aonde é o chuveiro? No quarto?— Chris olhou em volta, parando para ver as cortinas cheias de flores que cobriam a janela e fez outra careta. — Você também recebeu estes da sua avó? Callie assentiu. — S-sim. — Ah.— Chris olhou para as cortinas mais alguns segundos antes de dar de ombros. — Ok. O chuveiro é no quarto, certo? Callie assentiu novamente. — Você não faz ideia do quanto eu te agradeço, cara,— disse-lhe Chris, dirigindo-se ao quarto. — Tenho um encontro. O coração de Callie caiu. — Um encontro?— Claro que


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um homem lindo daqueles tinha de ter uma namorada. Não que um sujeito daqueles lhe prestasse atenção, a não ser que fosse como o Greg e andasse atrás do seu dinheiro. —

Sim.—

Ele

sorriu

e

mexeu

rapidamente

as

sobrancelhas. — Ashley. Ela é muito sensual e tem uns seios grandes.— Ele segurou seios imaginários na sua frente e piscou o olho. —Se é que me entendes. O queixo de Callie caiu. Ela não sabia se o achava irresistivelmente charmoso ou extremamente mal-educado. Viu-o entrar no quarto e desaparecer na esquina, mas ainda estava falando. — A maldita água parou de correr bem no meio do banho. Depois me lembrei de você e como pareceu um cara simpático.— Chris saiu do quarto, segurando uma toalha macia e rosa que estava na casa de banho dela. Ele fez-lhe um olhar engraçado. — Rosa? — Eu gosto da cor,— respondeu ela na defensiva. Sinceramente, o que se passa com ele para julgar as suas coisas? Ela é que estava lhe fazendo um favor por deixá-lo usar o chuveiro. Graças a Deus que ela tinha arrumado antes, ou ele teria encontrado mais do que uma toalha rosa no seu banheiro. Tal como, um par das suas calcinhas rosa. Callie corou.


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Caramba, ela devia ter dito que não mas distraiu-se com aquele corpo e aqueles olhos azuis. Chris deu de ombros e regressou novamente ao quarto. Desta vez Callie seguiu-o, determinada a dizer que tinha mudado de ideia. Nem sequer o conhecia! Ele podia estar mentindo e--Callie congelou e engasgou-se. Chris ficou de bunda de fora, a sua toalha branca no chão em frente à porta da casa de banho. As suas costas nuas estavam viradas para ela, dando-lhe uma visão deliciosa do seu traseiro provocador. Quando ele se inclinou para ligar o chuveiro, os seus músculos flexionaram e Callie teve que se esforçar para manter suas mãos para si mesma. Que os céus a ajudassem. Ela queria tocá-lo. Apenas um toque, apenas um toque. Apenas um momento para agarrar aquele traseiro e senti-lo esculpido na sua mão. Callie gemeu. Oh céus, céus. Naquele momento, Callie começou a entoar todas as orações de que se lembrava. ...E não nos deixeis cair em tentação, Mas livrai-nos do mal. Para o Teu reino, O poder e a glória, Para todo o sempre. Amém. — Ei,— disse Chris, se virando com um sabonete rosa na mão, — Tem algum sabonete com aroma masculino? Porque este cheira a flores.


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Callie guinchou e quase desmaiou com a visão do seu…do seu coiso. Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus. Respira Callie, respira!! Oh meu Deus, oh meu Deus, oh meu Deus! Chris fez uma careta para a sua expressão, notando que corava. — Ei, tudo bem, cara? Callie nem conseguia falar, os olhos dela colaram-se ao coiso dele. Nem sequer conseguia desviar o olhar mesmo que quisesse! Além disso, ele nem teve a decência de se virar! Ele estava ali orgulhoso e nu diante dela como se fosse uma coisa usual! Chris seguiu o olhar dela para as suas impressionantes partes antes de voltar a olhar para ela. Ele apertou os olhos para ela e, de repente parecia desconfiado. — Ei,— disse ele, o som estranho da voz dele a fez olhar para ele. — Você não é… gay, é? Callie pestanejou. Gay? Que raio ele estava falando!? — Porque,— continuou ele a dizer gravemente, — essa não é a minha praia, não que eu tenha alguma coisa contra homens gays, o meu irmão é gay. Só estou dizendo que sou um homem de mulheres, não homem de homens. Entendeu? — Eu não sou gay!— Gritou Callie, ainda confusa. O quê!? Ele pensava que ela era lésbica? O que raio lhe deu


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para pensar que ela era…espera. Os olhos de Callie arregalaram-se. O que é que ele acabara de dizer? Essa não é a minha praia… Sou um homem de mulheres, não um homem de homens. E antes disso ele disse que não tinha nada contra homens gays. Espera… não, nem pensar! Ele…ele pensava que ela era um homem!? O quê!? Chris olhou-a, como se não tivesse acreditado nas suas palavras. — Tem certeza? Callie manteve a boca fechada e olhou para ele. Ele tinha acabado de a insultar e não fazia ideia! Ele pensava realmente que ela era um…ele! — Tenho certeza,— foi a sua resposta rápida. Chris riu. — Desculpa cara, tinha de me certificar. A maneira como olhava para mim. Sem ressentimentos, certo? Callie sorriu firmemente. — Claro que não. — Ok, ok. Bem, eu já saio dentro de alguns minutos. Obrigado novamente.— Fechou a porta no rosto dela. Ainda sorrindo, Callie virou-se e não parou de andar até ter chegado à cozinha. Ali, abriu uma gaveta e tirou uma grande faca.


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— Vou matá-lo,— disse ela simplesmente, examinando a lâmina afiada. — Sim.— Quando ela viu o reflexo dos seus olhos

zangados

na faca,

a

energia

foi drenada

dela.

Suspirando, ela tornou a colocar a faca na gaveta e fechou-a. Inclinou as suas costas na bancada e baixou a cabeça. Deus… que humilhante! Ele pensava que ela era um homem! Callie gemeu e cobriu o rosto com as mãos. Era assim tão gorda que ele não era capaz de saber o sexo dela? Era tão…tão…tão embaraçoso! Callie fungou, lutando contra as lágrimas. Por isso ele ficou tão à vontade perto dela, andando nu. Desde o início ele assumiu que ambos eram homens. Outro macho não se importava de ver outro macho quase nu…depois perguntou se ela era gay. Callie riu. Oh Deus! Ela só queria que o chão se abrisse e

engolisse

o

seu

traseiro

gordo.

Sentia-se

tão

envergonhada…tão mortificada! Não admira que ele achasse que a sua xícara de chá e as cortinas e a toalha rosa fossem muito afeminados. Ele não a via como uma mulher. A via como um homem gordo. Se ele tivesse

encontrado

um

dos

seus

grandes

sutiãs,

provavelmente ele iria assumir que era para apoiar os seus seios gordos de homem.


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Ela devia odiá-lo por humilhá-la desta maneira, mas não conseguia. Não era culpa dele que ela era tão gorda que ele não conseguia perceber que ela era de fato uma garota, não um rapaz. Ela andava sempre vestida com camisas grandes por isso quando ele a viu no outro dia da janela, devia ter assumido que era um rapaz. Ela não tinha nada de feminino. — Sou patética,— disse Callie em voz alta. Um homem como Chris nunca a veria como uma mulher, mesmo que soubesse que ela era uma garota. — Gorda e patética,— murmurou ela e baixou a cabeça, deixando

as

lágrimas

rolarem

pelas

gorduchas e caírem, e caírem…e caírem.

suas

bochechas


— Então ali estava eu,— disse Chris, na frente de Callie, o seu rosto bonito corado e animado. — Ali estava eu, completamente nu enquanto tentava subir pela janela de Jessica. — Não!— Disse Callie chocada, de olhos redondos e brilhando com humor. — A janela? Chris assentiu, um sorriso largo que passava pelos lábios dele. — Sim, a janela. Callie bateu as palmas das suas mãos gordas e riu. — E o que aconteceu depois?


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— Alguma vez você tentou subir por uma janela e desceu por uma árvore?— Perguntou ele, curvando uma sobrancelha. — Não é fácil. Eu ainda sinto as cascas da árvore a ralando meu traseiro. Callie riu novamente. — Oh meu Deus! Não acredito. O pai dela pegou você? Chris abanou a cabeça. — Não. Na hora em que ele irrompeu no quarto dela, eu já estava saltando da árvore e correndo em direção ao meu carro. — Completamente nu? O rosto lindo ficou sério, Chris ergueu a sua mão esquerda e colocou-a sobre o coração e disse numa voz solene: — Tão nu como quando vim ao mundo. Callie

rebentou

numa

gargalhada,

o

seu

corpo

rechonchudo tremia no sofá enquanto imaginava o traseiro nu de Chris correndo pela sua vida no meio da noite com medo da ira de um pai. — Oh meu Deus,— guinchou ela, lágrimas rolando pelo rosto, — Não posso acreditar! Você é tão escandaloso! Chris observou-a rindo, o sorriso largo voltara ao rosto dele. — E foi isso que aconteceu no meu encontro de ontem à noite com a Jessica.


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Callie acenou uma mão para ele, ainda rindo. — Você é mau. Chris deu de ombros, aceitando a acusação dela como se fosse um elogio. — O quê? Não é que Jessica seja menor de idade. Ela tem vinte anos! O pai dela é muito protetor. Ainda bem que ela tinha trancado a porta ou eu teria virado picadinho. O pai dela parece o Hulk Hogan.1 Callie limpou as lágrimas dos olhos e abanou a cabeça para ele. — Porque é que a maioria dos seus encontros acabam com um sujeito lhe perseguindo? — Ei,— Chris apontou-lhe um dedo, — Está falando da Megan, certo? A mulher com quem saí na semana passada? Caramba, eu não sabia que ela era casada! A mulher mentiu. Callie revirou os olhos, mas o sorriso no rosto dela não desapareceu, a imagem humorística de Chris subindo pela janela nu ainda estava na cabeça dela. Desde que eles se tornaram amigos, Chris ia sempre ao apartamento dela para lhe contar as suas desventura das quais ele chamava de encontros. O coração dela morria sempre um pouco cada vez que ele lhe contava as suas atividades recentes com outras mulheres, mas o que ele contava deixava-a sempre a rir. — Bem, ainda bem que você está bem,— disse-lhe ela, — Ou provavelmente estaria me contando esta história no 1

Lutador de Wrestling.


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hospital se tivesse caído da árvore e partido alguma coisa. Um ar de horror cômico formou-se no rosto dele. — Pode imaginar o que diria a minha lápide se eu tivesse caído e partido o pescoço? 'Aqui jaz Chris Walker: Nasceu Nu, Morreu Nu.' Callie resfolegou e tentou abafar uma gargalhada com as mãos. — Chris! Cale-se! É um bobalhão! Chris curvou as sobrancelhas. — Admita, sentiria a minha falta se eu tivesse morrido. — Sentiria falta de todas as histórias loucas que você conta,— contrapôs ela. — A tua vida parece tão excitante. Tenho um pouco de inveja. Chris franziu a testa. — Também teria uma vida excitante se não te prendesse tanto aqui dentro. O sorriso de Callie morreu. — Estou bem. — Sério? — Chris inclinou a cabeça para o lado, uma madeixa de cabelo louro escuro escorregou para a testa. — Quando foi à última vez que você teve um encontro? Callie desviou o olhar dele de sondagem e curiosidade. — Há algum tempo. — Sim ok,— foi a resposta dele, claramente não


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acreditando nela. — E há quanto tempo foi algum tempo? — Isso não é da sua conta,— murmurou ela, ainda não olhando nos olhos dele. — Mas digo que estive noivo. — A sério?— Chris pareceu tão surpreendido que ela teve de olhar para ele. — Sim, sério. — Ah.— Ele olhou-a pensativo por alguns segundos antes de perguntar, — Então, o que aconteceu? Callie suspirou, desejando ter ficado calada acerca do seu noivado com Greg. Agora ela teria de mentir mais e já lhe tinha mentido o bastante. — Não deu certo entre nós. — Por que? — Apenas não deu certo, Chris. Esquece. Não quero falar sobre isso. Chris olhou com simpatia para ela. — Ela te traiu? Callie levantou-se tão rapidamente do sofá, que teria caído para a frente se Chris não a tivesse segurado e apanhado nos braços para a amparar. Ganhando o seu equilíbrio, Callie tirou as mãos dela, afastando-se para colocar espaço entre ambos. O seu pobre coração já estava acelerado pelo inesperado toque dele.


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— Não, não houve traição envolvida, — disse Callie. — Eu terminei o noivado. Fim da história. — Uau,— Chris ergueu as mãos em defesa, — Meu, calma, estava apenas curioso. Você é sempre tão fechado. Mal fala sobre si. Apenas fiquei surpreso por ter estado noivo. Callie deu de ombros. — Já te disse que não me relaciono com a minha família. Foi por isso que me mudei. — Sim,— concordou Chris, — Mas, foi a única coisa que me disse. Dois meses tentando lhe conhecer e não sei muita coisa sobre você. —Tenho um passado doloroso,— disse ela sinceramente. — Não quero realmente falar sobre isso com um estranho. — Ah.— Chris cruzou os braços e maldita fosse se não notou os músculos flexionarem sob a camiseta cinzenta. — Então agora somos estranhos, não é? Callie suspirou. — Sim… não. Não sei. Chris… Você é meu amigo.— Baixou o olhar para que ele não visse quão patética ela achava a sua existência. — O meu único amigo. — Ei, Cal.— Chris afagou-lhe o ombro, sentindo a melancolia do seu amigo. — Desculpa ok? Se quiser que eu me cale e que pare de perguntar sobre o seu passado, eu me calo.— Quando ela o olhou, ela o viu sorrir provocadoramente


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para ela. — Sabe que eu sou um idiota abelhudo. Callie sorriu, respondendo à provocação. — Você não é um idiota, Chris. Chris bufou. — Acredite, eu sou um idiota.— Quando a campainha soou, ele passou por ela e abriu a porta. — Boa! A pizza chegou! Já não era sem tempo, estou esfomeado. Callie seguiu-lhe os movimentos e pensou tristemente: Não, Chris, eu sou a verdadeira idiota porque tenho mentido este tempo todo. Já tinham passado dois meses desde que Chris havia entrado na vida dela, dois meses desde que ela abrira a porta para ver este lindo estranho à sua porta com nada exceto uma toalha branca em torno da cintura. Ele pediu para usar o chuveiro e ela teve de deixá-lo entrar… e ficaram amigos desde então. E ela vem mentindo desde então. Callie viu-o pagar a pizza, rindo com Manuel. — Ok, obrigado cara,— Chris, tomando as duas caixas de pizza das mãos de Manuel. Fechou a porta suavemente e abriu a caixa de cima. — Mmmm,— fechou os olhos e gemeu em êxtase, inalando o aroma da pizza de pepperoni e linguiça. Chris abriu os olhos e mexeu as sobrancelhas para ela. — Sentiu o


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cheiro? É o cheiro da comida dos deuses. Callie teve que rir da expressão e das palavras dele. Chris adorava tanto pizza quanto ela, provavelmente ainda mais. Ela queixava-se sempre que ele podia comer uma caixa sozinho e não ganhar um grama, no entanto se ela comesse tanto quanto ele, ganhava milhões de quilos. — Cal, amigo,— disse-lhe ele, já tirando uma fatia de pizza da caixa, — Por que não é um bom amigo e tira uma Budweiser1 da geladeira? — Deixa eu adivinhar,— brincou ela, — Essa é uma bebida dos deuses? — Claro que sim! Callie riu e se dirigiu à cozinha, agarrando uma garrafa de Budweiser para Chris e uma de Pepsi Diet para si. Quando ela saiu da cozinha, ela o viu já sentado no sofá, as suas pernas esticadas e pés em cima da mesa de vidro com a TV plasma bombando. Com uma caixa de pizza no estômago e meia fatia já comida na mão esquerda e o controle remoto na direita, Chris mudou os canais, tentando achar algo para assistir. Callie

parou,

absorvendo

a

visão

dele

no

seu

apartamento. Ele parecia tão relaxado e despreocupado, usando uma camiseta cinzenta que evidenciava a sua 1

Marca de cerveja.


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musculatura atlética juntamente com uma bermuda de basquete azul escuro. Ele estava completamente alheio à pequena mentira dela. Ok, talvez fosse uma grande mentira, devido a todo este tempo que ele acreditava que ela era um… ele. Chris estava relaxado perto dela porque acreditava que ela era um homem. Um homem gordo. E Callie nunca o tinha corrigido. Não era que ela não tivesse planejado corrigir isso. Há dois meses, enquanto ele usava o chuveiro dela, ela havia preparado um discurso para ele, deixando-o saber que ele tinha cometido um erro quanto ao sexo dela. Mas, depois ele saiu do chuveiro vaporoso com um sorriso no rosto, esqueceu o que ia dizer. Chris tinha sido tão simpático, tão acessível. Apesar deles terem acabado de se conhecer, ele a tratava como se fosse um companheiro. Um amigo chegado. E enquanto ela se sentava ao lado dele no sofá, com ele ainda usando uma toalha branca enquanto comia a pizza que ela havia encomendado, Callie percebeu o quanto ansiava por ele. Ansiava esta proximidade que ele lhe dava. Por isso ela não lhe disse. Ela não corrigiu o erro dele e continuou o deixando pensar que ela era um homem. Dois meses depois, a mentira já tinha se enterrado tanto que ela não poderia lhe contar a verdade sem o perder. E ela tinha muito medo de perdê-lo. Perder este homem brincalhão,


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charmoso e lindo. E apesar de ele a tratar como se fosse um amigo chegado, nunca a vendo como uma mulher, Callie não se importava. Estar perto dele era o suficiente. Ser o melhor amigo dele era o suficiente. Pelo menos tinha sido assim que ela se convencera todo este tempo. — Ei,— a voz de Chris tirou-a dos seus pensamentos. Ela levantou a cabeça e viu-o olhando para ela. — Vai ficar aí ou vai me fazer companhia?— Ele riu. — Eu não me importo. Posso comer esta pizza toda sozinho. — Porco,— disparou ela, mas devolveu o sorriso. Quando ela se sentou ao lado dele, o sofá afundou-se e ela balançou. Chris não comentou, comendo outra fatia de pizza. Agradecida, Callie ficou confortável ao lado dele. Ela adorava a indiferença de Chris acerca do seu peso e aparência. Ela sentia-se tão confortável perto dele. Mesmo agora, ela usava calças cinzentas largas e sweater azul e provavelmente tinha uma aparência de merda, mas Chris não se

importava,

não

olhava

para

ela

com

nojo

como

provavelmente Greg olharia. Sorrindo, ela lhe passou a cerveja e quando ele ergueu uma sobrancelha para a Pepsi Diet, ela olhou para ele. — O que foi?


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— Nada,— ele riu e deu uma dentada na sua pizza, erguendo os olhos para o céu em êxtase. Callie riu. — Calado. Eu sei que beber um refrigerante sem

açúcar

enquanto

se

come

algo

gorduroso,

é

contraditório, mas, faz me sentir melhor. — Sim, Sim,— respondeu Chris, mastigando, — Claro companheiro, como quiser. — Oh você!— Callie inclinou-se para ele e tirou-lhe a fatia da mão. — Dá-me isso! — Ei!— Choramingou Chris, — Isso é meu! — Ah!— Callie deu uma grande dentada na fatia dele e mastigou ruidosamente na frente dele. — Agora é minha,— disse ela entre mastigadas. Chris revirou os olhos resfolegando, refastelando-se no sofá e passando entre os canais. Sentindo-se como se tivesse ganhado a batalha, Callie terminou a pizza contente e pegou outra fatia da caixa que estava em cima da mesa. — Sabe,— começou Chris casualmente, ainda mudando os canais, — Marquei um encontro pra você. Callie ficou tão surpreendida que se engasgou. Chris deixou cair o controle remoto imediatamente e atirou a caixa da pizza para longe, batendo-lhe furiosamente nas costas


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enquanto ela arrebentava-se numa tosse muito forte.

— Ei,— disse ele preocupado quando a tosse parou, — Tudo bem? Callie assentiu, não querendo falar mas a sua mente gritava: OH MEU DEUS! O QUE É QUE ACABOU DE DIZER!? Chris

observou

o

rosto

vermelho

dela

e

olhos

lacrimejantes até a cor voltar ao normal antes de relaxar. — Caramba, Cal, você me deu um grande susto. Callie não respondeu. Ao invés ela abriu o seu refrigerante tomou um grande gole. Ela o viu observá-la, ainda com preocupação no rosto. — Estou bem,— disse-lhe ela, limpando a boca com as costas da sua mão gorda. — Estou bem. Você apenas… me surpreendeu.— Ela colocou o refrigerante na mesa de vidro. Satisfeito por 'Cal' não tossir mais, Chris reinstalou-se no sofá. — Surpreendido a respeito disso? Porque eu disse que tinha marcado um encontro para você? — Sim. Isso. — E marquei, sabe. Conheço muitas mulheres. — Aposto que sim,— murmurou Callie baixinho.


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— Eu ouvi. Callie revirou os olhos. — Eu não preciso de nenhum encontro. — Eu acho que precisa. — Não preciso. — Eu conheço esta garota,— disse ele, ignorando o olhar dela. — O nome dela é Susan. — O quê?— Disparou Callie, — Ela é uma das tuas namoradas? Pediu para ter um encontro piedoso comigo? Chris franziu a testa. — Cal... —

Eu

não

preciso

de

encontros,—

sibilou

ela,

interrompendo-o. — Susan não é uma das minhas namoradas. É uma colega de trabalho. —

Oh.—

Callie

fungou,

recordando-se

que

Chris

trabalhava num Hospital para veteranos como fisioterapeuta. — E? — Acho que vocês vão se dar bem. — Não quero saber. Não quero sair num encontro.— Callie não mostrou qualquer emoção no rosto mas por


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dentro… por dentro estava passada. Um encontro!? Um encontro!? Com outra mulher!? Oh sim, isso vai ser desastroso. — Tarde demais. Callie congelou, olhos selvagens olhavam para ele. — O que é que você disse? Chris riu para ela. — Eu disse tarde demais. — Cara, espero que esteja brincando. — Não.— Ele abanou a cabeça. — Você.— Ele apontou para ela. — E eu.— Apontou para si mesmo. — Vamos ter um encontro duplo na sexta-feira. O queixo de Callie caiu. — O QUÊ!? Chris assentiu, completamente afetado por seu ultraje. Na verdade, ele tinha um ar presunçoso quando pegou uma fatia de pizza e deu uma dentada. Ele mastigou, os seus olhos azuis brilhavam com travessura. — Você me ouviu. — Está falando sério? Marcou mesmo um encontro!?— Ela esperava que ele estivesse brincando ou que ainda não tivesse marcado nada. Ele assentiu, dando outra dentada na pizza. — Sim,— disse ele alegremente, enfatizando o M.


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Callie

queria

dar

uma

estalada

naquele

sorriso

presunçoso. — Christopher! Como você pode!!? — Foi fácil. Fui falar com a Susan no outro dia e perguntei-lhe se ela queria ir a um encontro e ela disse que sim. Os

olhos

de

Callie

estreitaram-se,

de

repente

desconfiados. — Disse-lhe que era um encontro… comigo? Um flash de culpa atravessou-lhe no rosto antes de responder. — Talvez. — Não disse, né?— Callie ficou boquiaberta. — Chris! Aquela mulher não sabe que você marcou para ela um encontro comigo! Não com você! — Cal, ela não se importa. Susan é simpática e, — Callie deu-lhe um soco no braço com toda a sua força. — Ei! Pare com isso!— Chris esfregou o braço. — Caramba, isso doeu. — Você merece, seu idiota! Como você foi capaz? Aquela pobre mulher.— Callie recostou-se no sofá, a cabeça a mil. Céus! Isto era desastroso! Como ele podia fazer isto? Um encontro? Pior! Um encontro com uma mulher que não sabia que se ia encontrar com… com ela. Os olhos de Callie arregalaram-se com horror. OH MEU DEUS! Chris tinha-lhe marcado um encontro com outra


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mulher! Ela é uma mulher! Não que ele soubesse, uma vez que ele pensa que Callie-Cal- é um homem. Callie gemeu e escondeu o rosto com as mãos. — Oh não. —Ei,— ela sentiu Chris a afagar-lhe as costas, — Não se preocupe muito com isso. Vai correr tudo bem. Callie gemeu. — Chris, eu não posso ir a este encontro. — Por que não? — Porque…porque não está certo. Você a enganou.— Não que eu tenha moral para falar. Tenho lhe enganado este tempo todo. — Tarde demais,— disse Chris severamente. — Você vai. — Não. — Caramba, Cal! Porque não? Precisa viver um pouco, cara. Não gosto que desperdice a sua vida neste quarto, vivendo da herança da sua avó porque tem medo de ir para o mundo real. Callie ficou boquiaberta. — Não tenho medo! — Ah não?— Chris inclinou-se para a frente até olhar fixamente nos olhos dela. — Então por que não vai a este encontro, hã? — É diferente!


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— Covarde. — Não sou covarde! — Sim, sim. Claro, Cal, claro.— Chris levantou-se. — Continua aqui fechado, mas depois não diga que eu nunca tentei lhe fazer um favor. — Eu nunca pedi para você marcar um encontro!— gritou Callie, olhando para ele. Chris olhou tristemente para ela. — Cal, és um bom sujeito. Eu gosto de ti. Foi por isso que eu te marquei um encontro. Não é saudável ficar preso no seu apartamento, amigo. Callie

fechou

os

olhos

e

balançou

a

cabeça,

completamente destroçada. Claro que ele tinha razão. Ela vivia trancada no seu apartamento, muito intimidada pelo mundo exterior, onde não havia nada mais do que dor para uma garota como ela. Uma gordinha. Ela não podia descer a rua sem alguém olhar divertidamente para ela ou dizer qualquer coisa desagradável. Porque é que ela achava que mudar de casa seria diferente? — Cal?— O peso das mãos de Chris assentou no ombro dela. — Ok, admito, devia ter sido sincero com a Susan, foi mau. Eu vou explicar-lhe as coisas mas acho que ela não se


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importa. Se ela ainda quiser ter este encontro, você vai? Callie abanou a cabeça, recusando-se olhar para ele. — Por favor? — Não. — Muito, por favor? — Não. — Muito, por favor, com uma cereja no topo? Callie riu apesar de não querer. — Não, Chris. — Cal, vamos. Diga sim. Vamos sair na sexta e nos divertir.

Vamos

construir

as

nossas

memórias

juntos,

companheiro. Estou sempre contando os meus encontros e acho que já está na hora de irmos juntos a um encontro. Callie queria chorar. Ela não queria ir a um encontro com outra mulher. Ela queria ir a um encontro com ele. Mas ele não sabia disso. Nem sequer sabia que ela era uma mulher. Ele não sabia que o seu melhor companheiro 'Cal', é uma grande e gorda mentirosa. — Cal? Por favor? — Ok,— murmurou ela em defesa. Ela não queria que Chris pensasse que ela era uma covarde e com certeza ela


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não queria que ele se desapontasse mais com ela. — O quê? O que você disse? — Eu disse ok!— Ela olhou para ele. — Muito bem. Eu vou. Mas só se a Susan concordar depois que lhe conte a verdade. Chris riu, parecendo satisfeito consigo mesmo. Ele afagou-lhe o ombro. — Viu, foi assim tão difícil? Estou orgulhoso de você, companheiro. Callie gemeu e enterrou o rosto nas mãos. Que trapalhada! Sexta-feira era dali a dois dias e ela esperava desesperadamente

que

Susan

ficasse

suficientemente

indignada com Chris por ter mentido e falasse, Não, ao encontro. Mas Callie não era assim tão sortuda. No dia seguinte, Chris ligou do emprego e disse-lhe para se preparar para o encontro na sexta-feira. Susan disse, Sim.


Callie olhou para o seu reflexo no espelho e gemeu. — Você está muito bem,— disse Chris atrás dela. Ela olhou-o no espelho e gemeu novamente. — Eu pareço o Sr. Cabeça-de-Batata! Chris revirou os olhos e aproximou-se dela. — Não parece nada. Não vou tentar dissuadi-lo deste encontro, é tarde demais. Vamos nos encontrar com a Brenda e a Susan dentro de algumas horas. Callie gemeu pateticamente, fazendo uma careta a si mesma no espelho que não estava muito satisfeito com as suas formas redondas. — Chris, não quero ir!


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— Tarde demais. Você vai. Agora vire-se e deixa-me arrumar a sua gravata. Dando ao seu reflexo outro olhar patético, ela fez beicinho e relutantemente virou-se para enfrentar Chris. — Nada mal,— comentou ele, arrumando a gravata dela, uma vez que ela não conseguiu. Callie olhou para o rosto dele, o coração começou a acelerar com a proximidade dele. Ela podia sentir o perfume dele, forte e masculino, não era de todo desagradável. Ele parecia tão dolorosamente bonito no seu terno preto Armani, tão lindo com o seu cabelo curto louro num corte clássico e mesmo assim tinha cachos soltos na testa, fazendo-o parecer um libertino irresistível, dos seus queridos romances. Os dedos de Callie formigavam para escovar a sua franja para trás, para sentir a textura do seu cabelo contra a sua pele. Mas deteve-se, se concentrando no rosto dele, que estava com um ar de concentração enquanto lhe arrumava a gravata marrom que combinava com o terno. Ugh! O estúpido terno dela! Há algumas horas atrás, Chris havia perguntado o que ela iria usar para o encontro deles no Fireman's Ball e quando ela olhou para ele sem expressão, arrastou-a do seu apartamento e levou-os para o centro comercial tão depressa


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que deixaram marcas na estrada. Ali, foram ao Big & Tall, uma loja de roupa masculina, onde passaram uma hora escolhendo um terno para ela. Na verdade, pensou Callie, enviando um olhar obscuro a Chris; ele tinha levado uma hora para escolher um terno para ela. Ela morreu de vergonha o tempo todo, esperando que ninguém perguntasse se era mesmo um homem. E depois, ela morreu

com

mais

humilhação

quando

ninguém

lhe

perguntou o sexo. Todos assumiram que ela era um homem. Eventualmente, depois de experimentar uma dúzia de ternos que Chris tinha escolhido, o seu amigo tirano havia finalmente escolhido um terno marrom-escuro que ela pensou que a deixava mais redonda. Agora estavam no quarto do seu apartamento, onde ele a tinha obrigado a mudar de roupa para que pudesse prepará-la para o encontro, que aconteceria em duas horas. Ele deve ter pensado que se a deixasse sozinha, ela destruiria o terno. Ele estava certo, Callie estava pronta para marcar um voo para o Triângulo das Bermudas, só para evitar este encontro. — Pronto. — disse Chris, quando terminou de arrumar a gravata dela. — Agora o cabelo. — Ele esticou as mãos e penteou o seu curto cabelo com os dedos. Callie fechou os olhos, saboreando os dedos fortes dele nela. Ela teve de se controlar quando começou a se inclinar para frente, perdida


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na magia do toque dele. —Pronto. — Chris deu um passo atrás e estudou-a. Ela riu quando ele pousou o polegar sob o queixo enquanto os seus olhos a perscrutavam. — Sim, parece bom. — Ele riu. — Eu devia ser estilista. — Você não desenhou o terno, — Callie não conseguiu conter uma gargalhada. Chris deu de ombros. — Muito bem, então um consultor de moda. Meneando a cabeça para ele, Callie virou e tornou a olhar-se no espelho. — Chris, eu nunca vou parecer bem. Pareço… robusto. Não havia outro adjetivo. Não surpreendia o porquê as pessoas a confundiam com um homem, mesmo ela pensava que parecia um homem pesado de fato. Talvez ela não devesse ter cortado o cabelo há alguns meses atrás. Ela tinha a certeza que o seu cabelo curto juntamente com o seu excesso de peso era a razão das pessoas confundirem o seu sexo. Ela cortara o seu longo cabelo louro e pintou de ruivo como um gesto simbólico. Fora com o velho e venha o novo. Agora ela desejava ter mantido o cabelo comprido para que as pessoas não pensassem que era um homem. O único lado


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bom disto era Chris, apesar dele ter sido o primeiro a confundi-la com um homem. —Pare de se menosprezar. — Chris fez uma careta para ela. — É o interior que conta, certo? Callie resfolegou e revirou os olhos. — Sim, certo. Sairia comigo? — Claro, sairia mesmo contigo. — Chris encontrou os olhos dela no espelho, os seus olhos brilhando com humor. — Mas você vem com um equipamento extra entre as pernas que não gosto. — Ele afagou-lhe o ombro com um suspiro triste. — Desculpa amigo. Callie teria rido se ela pensasse que o erro dele sobre o sexo dela era tão engraçado. De fato, era aterrador que ele ainda não tivesse percebido que ela era uma mulher! Sim, a voz dela não a ter denunciado porque também era rouca! Era realmente triste sentir-se tão pouco feminina perto do homem que a fez apaixonar-se por ele. E Chris a fez se apaixonar por ele. Ao longo destes dois meses, a sua paixão transformara-se em amor. Ela já não conseguia ver o mundo sem Chris. E ele estava completamente alheio aos sentimentos dela assim como ao seu sexo… e no fim marcou-lhe um encontro com outra mulher.


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Que confusão, Callie pensou pesarosamente. — Você vai adorar o Fireman's Ball, — Chris disse, observando-se no espelho enquanto apertava a gravata preta. — Todos os anos, para agradecer aos bombeiros, eles dão o lucro obtido com os bilhetes para a caridade. Todos os homens se vestem com smoking e as senhoras com os seus vestidos elegantes. — Chris piscou-lhe o olho no espelho. — E há dança lenta. Callie suspirou, rendendo-se ao seu destino. — Eu não sei dançar, rápido ou lento. Chris parou. — O quê? Callie deu de ombros. — Eu não danço. Nunca dancei.— Nem sequer nas festas organizadas pela minha mãe e irmãs. Callie era muito desastrada e não tinha qualquer sentido de ritmo. Ela só iria fazer papel de tola se tentasse dançar. — Todos sabem dançar. — disse Chris, não convencido. — Não. — Callie abanou a cabeça. — Eu só sei fazer isto. — Com os braços pressionados de lado, ela começou a balançar como se fosse um pinguim. A gargalhada de Chris encheu o quarto. Apesar de tudo, Callie riu, e ele continuava a rir enquanto ela balançava pelo quarto. Ela evitou olhar para a sua cama extragrande porque


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lhe trazia demasiadas imagens perversas com ele. — Ok. — chiou ele, colocando uma mão no estômago — Ok, pare. Pare! Já percebi. — Ele limpou os olhos. — Cara, isso é horrível. Callie parou de balançar e deu novamente de ombros. — Eu avisei. — Então não sabe dançar? Nada? — Não. — Nem sequer algo simples como uma dança lenta? — Não. Chris uma careta. — Caramba, tem que dançar com a Susan pelo menos uma dança lenta. Callie animou-se. — Então quer dizer que já não preciso ir ao encontro? Chris deu-lhe um olhar obscuro. — Não, você vai. Apenas tenho de te ensinar como se dança lento. Callie pestanejou estupidamente. — O quê? — Você ouviu. — Chris passou por ela e ligou o rádio que estava em cima da cômoda. — Não é difícil. Só vou te ensinar alguns passos.


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— Chris, eu não danço! — Cal, todo mundo consegue dançar, com treino. — Ele afastou-se do rádio e virou para ela. — Ok, vamos lá. Callie olhou para ele de boca aberta. — Hã? Ele acenou uma mão impaciente para ela. — Vem cá. Eu lhe ensino a dançar calmamente. Ele estava falando sério!? — Cal. — Ele enviou-lhe um olhar severo. — Vamos lá. Hesitante, Callie deu um passo na direção dele. — Provavelmente vou pisar e partir os seus pés, Ok? — Então não pise neles. — respondeu ele simplesmente. — Agora vem.— Ele deu-lhe um sorriso charmoso. — Vamos dançar. — Oh céus. — murmurou ela baixinho antes de fechar a distância. O seu coração batia contra o peito, deixou-o segurar em suas mãos rechonchudas e colocou-as nos ombros dele, antes dele segurar a sua grande cintura com as mãos fortes. — Se disser sobre isto a alguém, — ele murmurou perigosamente para ela, — eu nego tudo. Callie riu.


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— Ok. — Chris endireitou-se nos seus 1,85m de altura. — Agora, começa só a balançar de um lado para o outro. — ela riu quando iniciou a sua dança de pinguim. — Não, assim não. Assim. — Guiando-a, eles começaram a mover os corpos para a frente e para trás. — Sim, assim mesmo. Callie olhou para ele, o seu pobre coração agitado contra o peito enquanto o seu estômago ardia com borboletas. Chris… ele estava tão… tão lindo, por dentro e por fora. Fazer uma coisa destas por ela, mesmo pensando que ela era um homem… ele é tão boa pessoa. Ele estava fazendo tudo isto para o benefício dela. Fechando os olhos, Callie ouviu a música que vinha do rádio e percebeu que era uma canção romântica. Uma canção apropriada para uma dança lenta… uma canção apropriada que combinava com o que o seu coração dizia a Chris. Palavras sem voz que ele não tinha maneira de ouvir. Vou sonhar contigo esta noite, até amanhã, vou segurar-te esta noite! E não há lugar nenhum onde eu queira estar do que no meu quarto sonhando conosco… — Cal, — a voz de Chris interrompeu-lhe a canção mental, — tudo bem? — Hã? O quê? — Os olhos de Callie arregalaram-se e viu os olhos azuis de Chris nela.


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— Está bem? — Repetiu ele preocupado. — Oh. — Callie pestanejou, afastando-se dele para limpar os olhos. Oh Deus! Ela nem sequer percebeu, mas havia chorado. — S-sim, deve ter entrado algo no meu olho. Era uma desculpa patética e ambos sabiam, vendo que os

seus

olhos

estavam

fechados

o

tempo

todo,

mas

felizmente, o Chris deixou passar. — Certo. — disse ele, pigarreando e parecendo de repente envergonhado. — Ok. Houve um silêncio estranho antes de Callie o quebrar ao dizer — Ok! Acho que agora vou para o meu apartamento para me preparar. — Ela passou por ele, rosto vermelho de vergonha. Estúpida, pensou ela, batendo mentalmente na sua cabeça. Estúpida, Callie estúpida! — Vou buscá-lo dentro de uma hora. — disse Chris atrás dela. — E não tente fugir, coloquei um dispositivo de rastreamento no teu corpo, quando você estava distraído. Callie abriu a porta e riu, mas não se virou. — Sim, sim, não fujo. Até já. — Ela fechou a porta e respirou de alívio. Deus! Isto era demais! Chris era uma tentação muito grande. Enquanto ela caminhava até ao seu apartamento, a alguns passos do de Chris, Callie rezou para que Susan


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ligasse cancelando o encontro. No entanto, continuou sem sorte porque exatamente uma hora depois, Chris bateu à porta para ir buscá-la.


— Vai. — Não quero! — Cal, vá lá, homem! Vai buscar-lhe! Callie gemeu e abanou furiosamente a cabeça. — Vai você buscar-lhe! Chris olhou para ela. — Não sou o acompanhante dela, lembra? Você é. Callie olhou para ele. — Sim, graças a você! Chris olhou solenemente para ela, aqueles olhos azuis que adquiriram o olhar de cachorrinho desiludido. Callie


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cruzou os braços e abanou a cabeça, sem disposição de ser vítima de Chris e da sua aparência. — Não. — murmurou ela teimosamente. — Não vou fazer isso. Silêncio. Ela recusou-se a olhar para ele, mas ele continuou a dizer. — Vai fazer. Silêncio. Começando a transpirar sob o pesado silêncio, Callie mexeu-se, desconfortavelmente, no seu lugar, muito ciente dos olhos de Chris em cima dela até que, finalmente, ela atirou as mãos ao ar e disse um frustrado, — MUITO BEM! Eu faço! Deus! Chris arregalou um sorriso. — Pronto, foi assim tão difícil? — Ele afagou seu ombro. — Vai pegá-la, tigre. — Gostaria de ter um tigre que vomitasse em cima de você, — murmurou Callie enquanto abria a porta do carro. Balançando para fora do elegante Volvo azul de Chris, Callie bateu na porta e endireitou-se, já caminhando para o seu primeiro encontro com a sua — acompanhante. Callie olhou para o escuro céu que brilhava cheio de estrelas. Onde está um cometa quando precisamos de um?


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Ela iria para debaixo dele só para acabar com o seu tormento. — Cal, — chamou Chris por detrás dela. Ela se virou e o viu já fora do carro, braço direito esticado para lhe dar um ramo de rosas vermelhas. O coração de Callie vibrou com a visão dele oferecendo flores a ela, de repente, sendo levada de volta para uma fantasia onde Chris confessa o seu amor eterno por ela, aqui e agora. — Não se esqueça de lhe dar isto, — disse-lhe, estilhaçando a sua pequena fantasia em mil pedaços. Resmungando, ela inclinou-se para frente e arrancou-lhe o ramo das mãos e deu um olhar fulminante antes de se virar e dirigir-se para a pequena casa azul que mais parecia uma cabana rodeada por um pequeno jardim. — E arrume a gravata! — Gritou Chris atrás dela, — Está um pouco torta! Callie ergueu a mão livre e acenou sem se virar. O riso divertido de Chris soou atrás dela enquanto fazia o seu caminho

para

o

alpendre.

O

alpendre

acendeu

imediatamente, quase a cegando. Murmurando, ela tocou a campainha. A porta azul abriu alguns segundos mais tarde, revelando uma bonita mulher com um vestido azul de seda, com o cabelo preto solto. A mulher sorriu para ela,


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mostrando os seus perfeitos dentes brancos sob uns lábios pintados de vermelho. — Você deve ser o Cal. Com a mente em branco de nervosismo, Callie abanou a cabeça em sinal negativo, depois parou rigidamente antes de acenar afirmativamente a cabeça furiosamente. Oh Deus, pensou ela, estou a fazer papel de boba! Será que ela vai perceber que eu sou uma fraude? Oh Deus, acho que vou vomitar. Susan riu, os seus olhos castanhos brilharam de divertimento para Callie. — Então em que pé ficamos, querido? Você é ou não Cal? — Sou. — Callie guinchou e depois entregou as rosas à outra mulher. — Para você. — Obrigada. — Susan aceitou as rosas e inalou o seu aroma. — Adoro rosas! Callie olhou estupidamente para ela, olhos bem abertos, rosto pálido. Contudo, na sua cabeça, a história era outra. Ela não percebeu que eu sou uma mulher! Devo ficar aliviada? Isto é tão humilhante, será que ninguém percebe que sou uma mulher!? Vou matar o Chris por causa disto! — Você é tímido, nao é? — Perguntou Susan com um sorriso. — Chris me disse que era. Bem, vou colocar estas queridinhas num vaso e já venho para me juntar a você e ao


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Chris no carro, ok? Callie assentiu e virou-se, quase tropeçando em si mesma quando voltava ao carro. Chris cumprimentou-a com um sorriso largo. — Bom trabalho, homem. — elogiou. — Estou orgulhoso de ti. — Odeio você. — disparou ela. Chris riu. — Amigo, até ao final da noite, vai me amar. Já te amo, pensou Callie tristemente, sabendo que apesar de ter dito que o odiava, não era realmente verdade. — Aí vem ela, — disse Chris e assobiou. — Caramba, Susan, você está muito bem. Susan

ria

enquanto

se

dirigia

a

eles,

quadris

balançando sedutoramente. Callie observou e não conseguiu evitar invejá-la. Ela nunca ficaria bem num vestido daqueles e com certeza Chris nunca iria olhar para ela com pura admiração masculina como naquele momento. Apesar de Susan ser o par dela, ela sentiu-se sobrando. — Cal? — A voz de Chris interrompeu-lhe a auto comiseração mental. — Não vai lhe abrir a porta, amigo? — Hmm? Oh! — Saltando, Callie abriu rapidamente a porta e chegou o banco do passageiro para a frente. —Errr...


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— ela olhou nervosamente para Susan, — depois de você. — Que cavalheiro, — disse Susan com um sorriso. — Obrigada. — E antes de Callie reagir, Susan dobrou-se e beijou a bochecha de Callie antes de entrar no carro. Com os olhos dolorosamente abertos, Callie olhou para a mulher antes de olhar silenciosamente para Chris. Chris piscou-lhe o olho e ergueu-lhe um polegar antes de deslizar para o assento do condutor. Foi preciso a batida da porta para acordar Callie do choque, mas ela ainda ficou pregada ao chão por vários segundos, lutando contra a necessidade de fugir. — Vai entrar, amigo? — Perguntou Chris, de dentro do carro. Engolindo

em

seco,

Callie

colocou

o

assento

do

passageiro no lugar e balançou para dentro do carro, extremamente ciente de que Susan estava sentada bem atrás dela. Podia sentir o doce perfume floral da mulher. — Então muito bem, — ela ouviu o Chris quando fechou a porta. — Vamos pegar a Estrada para ir buscar Brenda. Ironicamente, quando Chris ligou o motor, a rádio disparou com a música de Katy Perry — I Kissed A Girl1 — Gemendo, Callie inclinou para frente e bateu com a testa no porta-luvas. Chris e Susan trocaram olhares enigmáticos, 1

Tradução: “Eu Beijei uma garota”


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mas não comentaram o estranho comportamento de Callie. Se Callie invejava Susan, então iria odiar Brenda. Quinze minutos depois de terem ido buscar a Susan, Chris estacionou o carro na frente de uma impressionante casa branca com uma cerca de madeira. Do lugar dela, Callie observou Chris sair animadamente do carro e se direcionar para a entrada onde a mulher já se encontrava para o cumprimentar. A mulher era pequena e delgada, cabelo escuro preso elegantemente no alto da sua cabeça. Uma agulha imaginária espetou no coração de Callie enquanto observava Chris dobrar-se e dar um beijo sensual nos lábios da mulher, enrolando um braço em torno da cintura dela para puxá-la contra o seu corpo. — Uau, — disse Susan atrás dela, — ela é linda. Callie desviou o olhar, mas concordou com Susan. Brenda é linda. Hesitando, Callie olhou novamente pela janela e observou o casal que já se dirigia ao carro, o braço de Chris ainda estava enrolado na pequena cintura de Brenda. A maneira como se olhavam, pareciam estar apaixonados. Nessa altura, o coração de Callie começou a sangrar. Era muito diferente ouvi-lo falar sobre os seus encontros, comparado com realmente vê-lo com outra mulher nos seus braços.

A dor

era tão insuportável, que as lágrimas


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começaram a picar. Ela nem sequer conseguia falar ou mesmo mexer-se quando Chris lhe abriu a porta e olhou-a com um sorriso. — Cal, — Chris ergueu uma sobrancelha, — Você se importa? Levou alguns segundos para perceber o que ele estava falando. Ele queria que ela fosse para o banco de trás para que Brenda pudesse sentar-se na frente com ele. Lutando contra as lágrimas, Callie balançou para fora do carro, ciente de que Brenda a olhava enquanto ela lutava para sair do carro. Sem olhar para cima, Callie puxou o banco para frente e foi para o banco de trás e para sua humilhação, tropeçou e bateu com o joelho no carro. — Whoa! — Chris ajudou-a a estabilizar. — Tudo bem, amigo? Não querendo falar, Callie apenas assentiu e entrou no carro. Ela não precisou olhar para saber que Susan olhava para ela com compaixão. Era tudo o que ela podia fazer para não explodir em lágrimas. Como explicaria isso? — Olá, — Brenda sorriu para Susan enquanto deslizava graciosamente para dentro do carro. — Você é a Susie certo? — Susan, — Susan sorriu. — Não me chamam de Susie desde o secundário! — Ambas as senhoritas riram, mas Callie


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estava demasiado longe para ouvir. Ela estava morrendo por dentro, chorando interiormente porque não podia derramar uma lágrima, com medo de ser questionada. Como é que ela poderia dizer que estava chorando devido a um desgosto amoroso? Que ver o Chris feliz com outra mulher, uma linda mulher asiática com um lindo vestido vermelho chinês que se agarrava às suas pequenas curvas, fez Callie desejar nunca ter nascido? Que estava chorando porque Chris a via como homem e nunca...nunca... Callie olhou pela janela e desejou que a noite já tivesse terminado. Por que está tão triste, sua idiota? Perguntou a si mesma. Não foi você que disse a si mesma que não se importava que ele a visse como um homem desde que ficasse ao seu lado? Não havia sido suficiente ser seu amigo? Não foi por isso que não lhe disse a verdade? Então por quê? Por que é que está chorando? As outras três pessoas no carro falaram alegremente umas com as outras, mas Callie manteve-se em silêncio, mesmo quando Chris tentou introduzi-la na conversa. Quando finalmente chegaram ao Baile dos Bombeiros, que era um grande salão de baile dentro de um casino, Callie começou a contar os segundos, desejando que o tempo voasse muito depressa, para que pudesse ir para casa e


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chorar até adormecer. Se

ela

estivesse

bem-humorada,

teria

apreciado

observar as decorações dos bombeiros. O átrio era simples com uma grande pista de dança e uma grande bola de espelhos presa ao teto, bem acima deles. Como Chris tinha dito, todas as mulheres tinham vestidos elegantes e os homens usavam smokings, uma grande quantidade de comida disposta em longas mesas nos cantos da sala. Até havia uma elegante fonte de chocolate no centro da pista de dança, com uma pequena estátua de um caminhão de bombeiros no meio da fonte. A música estourou em torno deles e todos estavam se divertindo exceto ela. E Chris reparou logo nisso. — Ok, — disse ele num suspiro, trinta minutos depois de terem chegado. Ele levou-a até um canto, longe dos ouvidos bisbilhoteiros dos seus pares. — O que se passa com você? Por que esse aspecto? — Não sei do que você está falando, — Callie respondeu suavemente, rosto sem expressão. — Uh-huh. — Chris ergeu uma sobrancelha. — Anda, desembucha. Porque não está se divertindo? Ainda nem sequer chamou a Susan para dançar. Caramba, ainda nem sequer falou com ela desde que chegamos.


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— Deixe-me em paz, — murmurou ela. — O quê? — Eu disse, — Callie olhou para ele, — deixe-me em paz. — Ah, vamos, — Chris enrolou um braço em torno dela e balançou-a. — Não seja um desmancha prazeres. A noite ainda é uma criança e tenho certeza que Susan adoraria dançar com você. Em outra situação, o toque dele colocaria o seu coração num frenesi, mas Callie sentia-se muito para baixo para tirar prazer daquilo, porque ela sabia que aquele toque era casual. Suspirando, ela livrou-se dos braços dele e afastou-se. — Não me apetece dançar. Chris fez uma careta para ela. — Cal, o que se passa? Sabe que pode falar comigo, certo? Alguém disse alguma coisa que te ofendeu? — Ele olhou em volta, a linguagem corporal ficou tensa com o pensamento de alguém ofender o seu amigo. — Quem foi? Diga e eu trato deles com prazer. Callie sacudiu a cabeça. — Não, ninguém me disse nada. — Na verdade, além de alguns olhares, ninguém prestou atenção nela. Ela estava grata por isso. Chris olhou para ela, sobrancelhas que franziram com


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preocupação e confusão. — Ei. Não está se divertindo, está? Ela agitou a cabeça, novamente. — Não se preocupe, Chris. Eu estou bem. Porque não volta para o seu par, ela está olhando nesta direção. Chris olhou de volta e viu o olhar questionador de Brenda. Ele mostrou-lhe um sorriso e voltou a sua atenção para Callie. — Sabe de uma coisa, já sei como te colocar outra vez de bom humor. Eu nunca estive de bom humor, pensou Callie, mas não comentou. Toda esta autocomiseração estava deixando-a cansada. — Espere aqui, — disse Chris, o seu rosto bonito ficando, de repente, animado. Ele apontou severamente para ela enquanto começou a andar para trás. — Não vá a lugar nenhum, ok? Fique aqui. Callie ergueu uma sobrancelha e o viu se virar para ir em direção à cabine do DJ. Começou a se instalar uma sensação horrível no seu estômago, quando ela o viu sussurrar no ouvido do DJ. O DJ com dreads coloridos e camiseta com um arco-íris riu para Chris e assentiu, dando mais atenção aos seus discos. — O que é que você fez? — Perguntou ela desconfiada,


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quando ele regressou. Com um largo sorriso no rosto, Chris não disse nada, mas agarrou sua mão e começou a arrastá-la para a pista de dança vazia. — Oh não. — Os olhos de Callie arregalaram-se. — Oh não, não, não. Chris, não quero fazer isto. Não quero dançar! — Vamos lá, — Chris pediu, ainda arrastando-a pela sala até a pista de dança. — Dança comigo, Cal. Callie abanou a cabeça, com o coração que batia descontroladamente. — Chris! Não! — Ela tentou agarrar-se ao chão, mas foi arrastada. Chris continuou a arrastá-la como se a luta dela não o afetasse. — Chris! Ele libertou-a assim que chegaram no meio da pista. Sentindo muitos olhos neles, Callie tentou fugir, mas tornou a ser arrastada. — Fica. — Chris olhou-a severamente. Ele acenou para o DJ e o DJ mostrou-lhe dois polegares antes de das colunas com alto falantes, começarem a tocar uma canção familiar. — Oh Deus, — gemeu Callie, reconhecendo — Thriller — de Michael Jackson. — Vai Cal, — Chris riu para ela. — Nenhum mortal pode resistir, ao mal do Thriller. — Depois mandou a cabeça para


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trás e uivou, fazendo Callie saltar. It's close to midnight and something evil's lurking in the dark...¹ Callie cobriu o rosto para não rir com a visão de Chris, que começava a se contorcer como os zumbis no vídeo do Thriller. Sempre que ela tentava se afastar, colocava-se na frente dela, bloqueando o caminho com a dança, forçando-a a afastar-se dele. Cause this is thriller! Thriller night! There ain't no second chance against the thing with forty eyes, girl...² Callie riu quando viu que mais pessoas se juntavam a Chris para dançar Thriller, vários deles eram bombeiros. Chris apontou para ela, rindo enquanto balançava os quadris sugestivamente e rodopiava em torno dela. They will possess you, unless you change that number on your dial...³ Rindo incontrolavelmente, Callie já não reparava que os outros olhavam para eles, ao invés disso perdeu-se no brilho humorístico nos olhos de Chris enquanto dançava e a puxava para se juntar a ele. ¹ Primeiros versos da canção Thriller ("É quase meia-noite e algo maligno espreitando na escuridão...”) ²Porque isto é terror! Noite de terror! Não há segunda oportunidade contra a coisa de quarenta olhos, garota…’ ³ Eles irão te possuir, a menos que você mude o número do seu telefone...


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— Dança, Cal! — Gritou Chris sobre a música. — Segue os nossos passos! Callie tentou seguir os passos, mas sabia que estava fazendo um péssimo trabalho, mas não se importava! De repente, estava se divertindo muito. E havia outros que tinham se juntado a eles, incluindo Susan, que não sabia os passos exatos, mas também estava se divertindo. Se ela estava fazendo papel de boba, então eles também. Ali mesmo, o amor dela por Chris cresceu ainda mais e de repente, ela desejou que a noite nunca mais acabasse, não neste momento que compartilhavam. Ela desejava tê-lo só para si, mas depressa a música acabou com Chris rindo e lhe afagando as costas. Ele estava orgulhoso dela e ela sorriu-lhe, orgulhosa de si também. Ela não percebeu neste momento, mas, mais tarde, percebeu que Chris estava a ajudando sair da concha, uma coisa de cada vez.


Ainda rindo e sem fôlego, o trio regressou para perto de Brenda, que estava rindo e foi de imediato ao encontro de Chris e deu-lhe um beijo na bochecha. — Vocês pareciam tão bobos, — Brenda riu enquanto Chris lhe plantava um beijo na testa, o seu braço enrolado em torno da sua cintura. — Mas foi engraçado de se ver. Callie sentiu que a mulher olhava para ela e de repente, se

sentiu

autoconsciente.

Remexendo-se,

ela

deu

um

pequeno sorriso a Brenda. — Foi divertido. Chris é um ótimo dançarino. — Não seja modesto, — Chris piscou para ela, — diz o


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que passa de verdade pela sua cabeça. Sou um dançarino FANTÁSTICO Callie bufou e revirou os olhos, mas foi incapaz de não ficar

afetada

por

aquele

largo

sorriso

provocador.

— Desculpa, apenas um elogio por dia. Se eu te der mais do que isso, depois fica ganancioso. Chris mostrou-lhe um olhar ferido, antes de olhar para Susan. — Que grande amigo que é, certo? Susan riu da expressão dele. — Você é um ótimo dançarino, Chris, mas Cal está certo, não podemos aumentar ainda mais o teu ego. — Está vendo? — Chris olhou para Brenda, — Eles estão se unindo contra mim. — Mmm, — Brenda fez um ruído surdo, dando-lhe um beijo no queixo. — Bem, eu acho que você é um dançarino fantástico. — Isso aí, — Chris riu e aninhou-se no pescoço dela. Callie o observou e imaginou-se descartando Brenda e se atirando nele como se fosse um esquilo voador. A imagem de Brenda parecendo uma panqueca, estranhamente a fez sentir-se um pouco melhor. Só um pouco. Ao pensar na panqueca, Callie olhou longamente para


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as mesas cheias de guloseimas. Realmente não era saudável comer sempre que lhe apetecesse, mas ainda assim, uma vez que ela esteve tão nervosa por causa deste encontro, ela não havia comido desde o café da manhã. Suspirando, Callie resistiu caminhar até a mesa, dizendo a si mesma que podia esperar e comer qualquer coisa no conforto da sua casa. Ela não queria que ninguém a olhasse de maneira esquisita. Ela já viu a reação das pessoas. A garota gorda perto da mesa da comida. Ha ha ha. Não, Callie corrigiu-se com um estremecimento. O sujeito gordo perto da mesa da comida. —Christopher! Callie ergueu o olhar para a voz animada e observou um homem elegante vestido com um brilhante smoking cinzento que ia em direção a eles. O homem era bonito, com cabelo louro e olhos azuis risonhos que pareciam muito familiares. Ela assistiu com espanto como o homem bonito veio até Chris e deu-lhe beijos ruidosos de rosto colado. — Ei, Abel, — Chris sorriu para o homem com olhos idênticos aos seus. — Ainda bem que você conseguiu vir. — Ha! — Abel acenou com uma mão, parecendo demasiado gracioso enquanto o fazia. — Não perderia isto por nada. Surpreendentemente, há muitas pessoas importante


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aqui. Rindo, Chris separou-se de Brenda e olhou para os seus três companheiros. — Senhoras, — disse ele suavemente, — e senhor, — acrescentou ele com um piscar de olho para Cal, — deixem-me apresentar-lhes o meu irmão, Abel. — Uh-belle, — pronunciou Abel, sorrindo para os amigos do seu irmão. — Eu pronuncio assim o meu nome porque é mais elegante, não acham? Callie olhou para ele, hipnotizada. Então, este era o misterioso irmão gay

de

Chris? Ele era certamente…

extravagante. — Abel, — disse Chris, usando o nome masculino que a sua mãe tinha dado, porque era ridículo dizer Uh-belle. — Abel, apresento-lhe Brenda, a minha linda acompanhante. Susan, a minha linda colega e Cal, o meu lindo amigo. Callie enviou-lhe um olhar seco, sabendo que Chris estava novamente a provocando. — Olá, — Brenda sorriu e estendeu uma mão a Abel. — Muito prazer em finalmente conhecê-lo. Chris falou muito sobre você. É cabeleireiro, certo? Queria ir ao seu salão aqui em Seattle. — Tem que fazer uma reserva, querida, — disse Abel,


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ignorando a mão de Brenda. — O meu salão está sempre cheio. — Oh. — O sorriso de Brenda diminuiu enquanto baixava a mão. — Que bom? — Adoro as madeixas claras no teu cabelo, — comentou Susan, admirando Abel, — ficaram divinas. Abel sorriu para o elogio, suavemente afagando o seu cabelo. — Bem, obrigado, faço o meu melhor para fazer propaganda do meu trabalho. Callie

manteve-se

olhando

para

Abel,

de

repente

sentindo-se esmagada pela presença dele… e ele tinha uma grande presença. Ela nunca conheceu ninguém como ele. Abel concentrou-se em Callie e riu. — Ah, então você é o Cal. Chris me falou tanto sobre você, que acho que te conheço desde sempre. — Para surpresa dela, ele dobrou-se e deu beijos no ar, nas bochechas dela. Ele endireitou-se, olhos brilhantes de divertimento. — Meu Deus, como você é adorável. — Novamente para sua surpresa,

ele

beliscou

suavemente

suas

bochechas

gorduchas. — Tão fofo! Callie arregalou os olhos para ele, boca aberta para protestar, mas as palavras certas não sairam. Ela olhava


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suplicando para Chris, mas o idiota estava demasiado divertido para o seu gosto. Certamente não iria ter nenhuma ajuda. — Anda, — disse Abel de repente, deslizando os seus braços em torno de Callie. — Vamos falar e nos conhecer melhor. Até te mostro fotos nuas de Chris de quando ele era bebê. Sabia que ele fez xixi na cama até os sete anos? — Abel suspirou tristemente. — Realmente trágico. — Ei! — Chris olhou para o seu irmão. — Não se atreva. — Humph! — Abel jogou a cabeça para trás e ignorou Chris, praticamente arrastando a pobre e confusa Callie com ele. — Ele fez sabe, — Abel sussurrou com malícia. — Até tenho uma foto dele chorando ao lado da cama, com uma mancha de xixi. Callie riu nervosamente, olhando de volta para Chris que já tinha se envolvido numa conversa com Brenda e Susan. Engolindo com dificuldade, ela olhou para Abel e não deixou de reparar que ele era tão alto quanto o seu irmão, mas com uma estrutura mais magra. Ele não tinha os mesmos

músculos

que

Chris

tinha,

mas

parecia

graciosamente ajustado. Contudo, ela ainda se perguntava o que é que o irmão de Chris queria com ela? Não deveria ele estar falando antes


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com Brenda? Afinal de contas, Brenda era a acompanhante do irmão dele. Por outro lado, ela era apenas o seu amigo gordinho. Callie estava completamente perdida quanto ao interesse de Abel. — O meu irmão não é maravilhoso? — Perguntou Abel, guiando-o para o banheiro masculino. Callie não comentou, olhando silenciosamente para a placa: Banheiro - Homens. Oh céus, pensou ela, só espero não ver o que não quero ver ali dentro. Se a mãe de Callie a visse agora (a mesma mãe que tentou fazer de Callie uma senhora, mas sem sucesso) teria um ataque. O banheiro estava admiravelmente limpo, com as cabines desocupadas. Abel largou a mão de Callie e se olhou no espelho. — Ouviu? — Hã? — Callie saltou. — O quê? — Eu disse, o Chris não é maravilhoso? — Os seus olhos se conectaram com os de Callie através do espelho. Sentindo-se como um coelho encurralado sob o olhar dele, Callie assentiu furiosamente em concordância. Abel sorriu. — Sabe, quando eramos crianças, ele levava os nossos pais à loucura. Ele era um coração mole e todas as semanas ele vinha para casa com um animal abandonado.


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Callie sorriu com carinho perante a imagem de um jovem Chris com um cachorro ferido nos braços. — Eu também era gorducho, — admitiu Abel com um suspiro. — Quero dizer, bastante grande. E as crianças provocavam constantemente e até fui intimidado. Apesar de ser dois anos mais velho do que Chris, ele sempre brigava por minha causa. Callie olhou para o reflexo de Abel, perguntando-se porque ele estaria lhe dizendo isto, não que ela se importasse. — Desde a escola primária até o início da escola secundária, ele sempre me defendeu. Não poderia pedir irmão melhor. Foi por causa dele que eu perdi todo aquele peso. Quando ele era um calouro e eu era residente, me fez começar a fazer ginástica. — Abel revirou os olhos quando recordou. — Ele era um tirano! Mas ainda assim, ele me ajudou a perder peso e agora olha para mim. Pareço fabuloso, não pareço? Callie assentiu. Era difícil de imaginar que um homem bonito com Abel alguma vez tinha sido gordo. — Agora sabe porque é que eu o adoro tanto. Nós tomamos conta um do outro — Abel sorriu, virando-se para ela. — Então vê porque eu tenho que perguntar porque uma menina aparentemente tão simpática como você está fingindo


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ser um homem. O coração de Callie parou. —O-o quê? Abel cruzou os braços e inclinou na pia. — Vamos lá, não tente negar. O meu irmão cego pode não ser capaz de ver, mas eu sou. Você é uma garota. Oh céus, pensou Callie com um sentimento doentio que se instalava no seu estômago. Estou condenada! Abel ergueu uma sobrancelha loura bem definida. — Então? —

Não

sei

do

que

está

falando,

disse

ela

pateticamente e tentou fugir, mas Abel foi mais rápido. Ele se colocou suavemente no caminho dela para bloquear a saída. — Nem pense, — ele balançou a cabeça. — Acho que não. Callie mordeu o lábio inferior, se sentindo perdida e encurralada. Oh céus! Por quê!? Por que é que depois de todo esse tempo, tinha de ser o irmão de Chris a descobri-la? Por quê!? Os ombros redondos baixaram em derrota, e ela olhou pateticamente para ele e disse baixinho, — Não diga a ele, por favor.


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— Por que? — Desafiou ele, — Por que não devo dizer? Dê-me uma boa razão porque eu não devo dizer ao irmão que ele tem sido enganado todo esse tempo. Os olhos de Callie ardiam com lágrimas não derramadas devido ao pensamento de Chris a odiando por causa da sua mentira. Iria magoar muito ver aqueles lindos olhos azuis céu, olharem para ela com traição e nojo. — Por favor, — ela ouviu-se suplicar, — Por favor não lhe diga. — Por que? — Porque… não quero que ele me odeie. — Cobrindo o rosto com as mãos, o seu corpo começou a tremer devido as lágrimas suprimidas. — Por favor. Não quero que ele me odeie! Eu-eu fiz por desespero! Quando me conheceu, ele pensou que eu fosse um homem e não o corrigi porque… porque… — Callie desistiu e estouro-se em lágrimas. Acabou, pensou ela, a farsa dela acaba esta noite. Abel vai dizer a Chris que ela é uma fraude gorda e ele iria odiá-la. Nem sequer iriam ser amigos! — Pronto, pronto, — Callie sentiu uma mão que lhe afagava as costas. — Coitadinha. Está apaixonada por ele, não está?


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Callie assentiu, com o rosto ainda enterrado nas mãos. Sentia-se

muito

envergonhada

devido

ao

seu

colapso

emocional para olhar para o irmão do homem por quem ela estava desesperadamente apaixonada. Abel suspirou em simpatia. — Eu sei. Aquele homem é incrivelmente charmoso e bem parecido comigo para o seu próprio bem, não é? Callie assentiu fracamente. — Parece que todas as garotas se apaixonam por ele e os meus amigos choram por ele ser hétero que nem um poste. — Ele afagou-lhe novamente as costas. — Mas tenho de admitir, é a primeira pessoa a fazer sacrifícios só para ficar ao lado dele. Não consigo imaginar outra mulher abandonando a sua feminilidade desta maneira. — Eu sei, — Callie disse, desanimada, — Sou patética. Uma gorda e patética mentirosa. — Caramba, — murmurou Abel, — Chris não estava brincando quando disse que você gostava de se menosprezar. Finalmente, Callie tirou as mãos do rosto e pestanejou para ele. — Chris falou mesmo de mim? Abel assentiu com um sorriso. — Sim, era como se fosse novamente um garoto com um cachorro abandonado. Ele


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disse que você era uma pessoa muito triste e que queria te ajudar. Ele gosta de você. Acha-a engraçada e inteligente, mas que lhe falta confiança. Callie fungou. — Não consigo ajudar. — Às vezes, por mais que tente ser corajosa e erguer o punho para o mundo, o mundo se esforça para derrotá-la e sentia-se derrotada. — Sabe, — começou Abel, enrugando o nariz. — Estou surpreso por Chris ter te confundido com um homem. Ele orgulha-se de ser um sedutor. — Porque sou gorda, — disse Callie tristemente. — E o meu cabelo é curto e a minha voz é rouca. Ninguém percebe que eu sou uma mulher desde que cortei o cabelo curto e ganhei muito peso. —Por que é que o cortou? Ela deu de ombros. — Foi um gesto simbólico. Mudeime para uma cidade nova, uma casa nova. A cabeleireira me convenceu a cortar mais curto do que eu queria, antes de pintar desta cor. — Callie apontou para o seu cabelo castanho-escuro, que Chris tinha colocado gel. — Ela disse que me fazia parecer angelical. Que monte de merda. Abel riu. — Coitadinha. Deveríamos ir até esse salão e acabar com a cadela.


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Callie riu, esfregando os olhos com as costas da mão. — Eu gostaria. — Apesar de Chris pensar que é um homem, ele deve pensar que se passa mais alguma coisa com você. O coração de Callie saltou. — O quê? O que quer dizer? Abel deu de ombros. — Bem, ele pediu para falar com você para saber se você é como eu. — Hã? Ele riu novamente. — O meu irmão quer que eu veja se você é gay, querida. O queixo de Callie. — O quê!? Por que? Eu disse que não era. — Bem, — Abel cutucou no seu queixo, olhando para ela de alto a baixo. — Bem… apesar de ser verdade que para um olho destreinado, você parece… masculina, Chris tem aquele instinto de sedutor. Eu acho que o subconsciente dele lhe diz que você é uma garota, mas uma vez que nunca o corrigiu, ele assume que você é um homem gay. Ele saiu muitas vezes comigo e com os meus amigos e ouviu-nos falar. Alguns de nós falam… como meninas. Ele disse que você fala da mesma maneira. Primeiro ele confundiu-a com um homem, agora era um


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homem gay? Callie suspirou. A humilhação nunca mais vai acabar? — Sabe, devia dizer a verdade,— disse Abel. — Chris… ele dá confiança com muita facilidade, mas uma vez quebrada, é quase impossível tornar a tê-la. Ele pensa muito bem de você, querida. Temo dizer que se ele descobrir a sua pequena mentira, vai ficar muito irritado. — Eu sei, — ela sussurrou com voz rouca, fazendo a sua voz parecer ainda mais rouca. — Eu sei que devia ter sido sincera com ele, mas… lamento.— Callie baixou a cabeça com vergonha. Abel suspirou. — Bem… eu acho que a culpa também é dele por assumir coisas erradas. Sinceramente, mal posso esperar para ver a expressão dele quando souber que o seu instinto de sedutor falhou. — Os lábios dele torceram com humor. — Vai fazê-lo diminuir a sua arrogância. Callie olhou esperançosa para ele. — Então…isso quer dizer que não vai lhe dizer? Abel cutucou novamente no seu queixo e estudou-a, mas ela podia ver o brilho malicioso no seu olhar. — Bem, não é da minha conta, mas esta situação é bastante divertida. Naquele instante, Callie apaixonou-se por ele. Não era o


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mesmo amor que sentia por Chris, mas era mais um sentimento fraterno. — Obrigada! — Ela atacou-o, enrolando os seus braços em torno dele e apertando. — Obrigada, obrigada, obrigada! — Uf! — Abel fez um som sem fôlego enquanto ela continuava a apertá-lo, praticamente levantando-o do chão. — Cal… querida… está me sufocando. — Oh! — Callie largou-o e afastou-se com um sorriso ingênuo. — Desculpe. — Humph! — Abel endireitou o seu terno. — Meu Deus, você é uma garota forte, não é? — Eu sei que é errado continuar a mentir, — disse ela com voz grave, — Mas eu… eu só quero mais algum tempo assim com ele. Se ele soubesse que tinha cometido um erro e visse que eu sou uma mulher, nunca mais me trataria como um amigo íntimo. Nunca mais confiaria em mim e me trataria como…

como

ele

trata

agora.

Provavelmente

ficaria

envergonhado e manteria distância. Abel assentiu em concordância. — Verdade. — Eu sei que esta mentira vai estourar nas minhas mãos, mais cedo ou mais tarde, por isso enquanto eu puder… quero estar ao lado dele. Mesmo que seja como amiga.


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Os olhos de Abel ficaram tristes quando olhou para ele. — Está partindo o meu coração, sabia? — Eu sei. — Era o preço que ela estava disposta a pagar. — Pobrezinha, flor. Flor? Callie riu mentalmente com isso. Ela não era nenhuma flor. Ou talvez o que Abel queria dizer era que como uma flor… ela começa a murchar, sem realmente saber o que é ser amada por Chris. Abel tirou uma caneta e um cartão-de-visita do seu bolso e escreveu o seu número de telefone no verso. —Toma, — ele entregou o cartão. — Se precisar de ajuda em alguma coisa, qualquer coisa mesmo, ligue. Não tenha medo. Callie olhou para o número dele e o olhou agradecida. — Obrigada. — Bem, — Abel soltou um longo fôlego e sacudiu o seu casaco. — Já estivemos aqui tempo suficiente, não acha? Provavelmente,

Chris

está

se

perguntando

por

que

demoramos tanto tempo. Agora enxugue essas lágrimas. Não quero que ele pense que eu tentei te agarrar e a fiz chorar. Assentindo, Callie foi rapidamente a uma cabine buscar papel e assoei ruidosamente o nariz. Sorrindo fracamente


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para Abel, ela lavou e secou as mãos. — Ok. — Ela o olhou. — Melhor? Abel assentiu, não apontando para os seus olhos inchados e para o rosto vermelho. Hesitante na saída, Callie parou e olhou para ele. — Hum… Abel, como é que descobriu que… você sabe. — Que é uma mulher? — Abel acenou com uma mão. — Bah! Não me insultes. Tenho um olho bem treinado e é preciso ser cego para não ver que você não é um homem. Além disso, estive lhe observando desde que entrou na sala. A maneira como olha para o meu irmão denuncia o que sente por ele, querida, mas, com certeza, o meu irmão também não viu isso. Ele é tão incorrigível. Callie franziu a testa. Santo Deus! Ela era assim tão óbvia? Era bom começar a esconder melhor os seus sentimentos. Susan não tinha comentado nada, então talvez ela não tivesse se dado conta, mas e a outra mulher, a Brenda? Sempre que a bonita mulher asiática pensou que Callie não estava prestando atenção, ela dava-lhe aqueles olhares. Estaria a Brenda na “onda” dela? — Vem, vem, o teu príncipe te espera. — Abel fez uma pequena mesura elegante e balançou a mão para a saída. Callie riu suavemente e deslizou para fora do banheiro e


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colidiu com o seu pior pesadelo. — Desculpe, — retumbou a familiar voz profunda, não parecendo nada arrependido. Olhos verdes escuros fixaramse

nela

com

nojo.

Devia

olhar

por

onde

anda,

companheiro. Callie ficou boquiaberta com o belo rosto familiar de seu ex-noivo. Puta merda! A sua mente gritou em choque. Que raios Greg está fazendo aqui? Esta noite estava continuamente a levá-la de uma situação estranha para outra.


— Por que não olha por onde anda? — Trovejou Abel, aparecendo atrás de Callie. Ele ergueu uma sobrancelha como se desafiasse o outro homem. Os olhos verdes escuros de Greg se estreitaram, nem sequer um pouco intimidados. — Por que não se mete na sua vida e sai do meu caminho? — Ele passou por Callie olhandoa mais uma vez e passou por Abel sem mais uma palavra. Mas Abel ainda não tinha acabado com ele. Seguindo o charmoso, mas rude homem de cabelo escuro, com um brilho malicioso nos olhos, Abel bufou. — Meu Deus, que mal educado? A sua mãe não lhe ensinou boas maneiras?


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Greg disparou um olhar mortal para Abel, mas não serviu de nada. Conduzindo-se a uma cabine vazia, ele bateu com a porta. — Burro pomposo, — Abel murmurou baixinho, mas sentiu-se excitado. Talvez tivesse encontrado o seu alvo do mês. Era sempre mais engraçado brincar com os héteros. Ele só tinha de descobrir qual era o nome do Sr. Insolente, o que não devia ser muito difícil. Ele tinha um ar de pessoa ilustre que era facilmente reconhecido. Abel não levaria muito tempo para descobrir quem ele era exatamente. Com isso em mente, Abel virou-se alegremente e descobriu que o seu novo amigo 'Cal' , tinha desaparecido. Callie caminhou tão rápido quanto as suas pernas deixavam, olhando em volta nervosamente. Viu Chris e a sua acompanhante falando com homens que ela assumiu serem bombeiros, mas Susan não estava à vista. Em pânico, ela começou a olhar em volta à procura de rostos familiares. Se Greg estava aqui, havia uma forte possibilidade de Richard, o seu maldito padrasto, estar ali também. Mas o que ambos estariam fazendo ali!? Pensou Callie, com a cabeça a mil. Ela os tinha deixado em Portland, então o que estariam eles fazendo em Seattle!? Estariam ali a


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negócios? Greg e Richard eram implacáveis no negócio imobiliário, por isso talvez estivessem aqui em Seattle, para fechar algum negócio… Callie congelou, o seu coração nervosamente acelerado quase que saltava pela garganta quando ela viu a figura familiar da sua mãe que envergava um vestido Esmeralda, com o seu cabelo louro pálido empilhado no alto da cabeça. Mesmo com quarenta e três anos, ela ainda era uma mulher vistosa. OH MEU DEUS! A mente de Callie gritou com horror. NÃO! A minha mãe não! Era só o que lhe faltava, a sua mãe estar ali também! Gemendo de frustração, Callie fez questão de se esconder atrás de dois casais, observando a sua mãe que estava do outro lado da sala. Isto é mau, pensou Callie com uma sensação de morte iminente. Se a sua mãe estava aqui, então as suas irmãs também estariam. Tal como pintinhos seguindo a galinha, as suas irmãs nunca se afastavam da sua mãe. E com toda a certeza, ela avistou Sarah e Hannah não muito longe de Annie Picket-Greene, ambas as garotas usavam vestidos corde-rosa, quase idênticos, exceto a saia de Hanna que era mais comprida. A vaidosa Sarah, tinha muito orgulho das


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suas pernas finas e fazia qualquer coisa para as exibir. Mas o que é que eles estariam fazendo ali!? Pensou Callie novamente. Esta noite tinha sido feita para dar cabo do disfarce dela? Mas ainda assim, o Greg não a tinha reconhecido. O idiota. Teria ela mudado tanto ASSIM? Claro que da última vez que eles se viram, ela era mais magra e tinha um longo cabelo louro, mas ainda assim! Era extremamente perturbador que o seu ex-noivo não a tivesse reconhecido. Tal como o resto, ele pensou que ela fosse um homem. Seria diferente com a sua família? Era nauseante, mas ela esperava mesmo que eles não a reconhecessem. — Cal? Guinchando, Callie olhou atrás dela para ver Chris vindo em sua direção. O sorriso caloroso nos seus lábios carnudos fez com que o seu coração flutuasse, mas esta não era a hora de imaginar-se os lambendo. Agora estava na hora de correr mais depressa que uma prostituta de saltos. Virando-se, Callie mergulhou na multidão, esperando perder-se de Chris. — Cal! — O ouviu gritar atrás dela, fazendo algumas cabeças virarem na sua direção. Callie resmungou, gritando mentalmente para que Chris se calasse e não chamasse a atenção para ela.


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— Com licença, — murmurou Callie, empurrando através das pessoas. — Desculpe, com licença, vou passar. — Olhares desaprovadores foram na sua direção, mas ninguém a parou. E depois, ela teve de se esbarrar no seu segundo pesadelo da noite. — Whoa, — Richard, o seu padrasto foi contra o ombro dela. — Veja por onde anda. — Com quarenta e quatro anos, Richard ainda era um homem charmoso, com faixas de cabelo prata misturadas ao seu cabelo preto e era estranho, ele se parecia com o ator Richard Gere, coisa que ele realçava aos outros. Com a sua altura de 1,82m tal como Greg, Richard Greene podia ser um homem charmoso, mas Callie sabia que sob aquele charme estava o coração de um implacável homem de negócios. — Desculpe, — murmurou Callie, afastando-se de Richard e dando rapidamente a volta por ele. Ela podia sentir os olhos dele queimar as suas costas enquanto ela se afastava. Não é bom, não é bom, Callie entoou, enquanto se apressava à saída. Ela estava cercada pelos palhaços da sua família! — Cal! — Ela ouviu Chris gritar atrás dela novamente, apesar de parecer que estava cada vez mais longe. — Ei!


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Ela virou, e fixou os olhos dele do outro lado da sala. Deixe-me

em

praticamente

paz,

tentou

apertando

os

ela

dizer-lhe

olhos,

com

para

ele

o

olhar,

captar

a

mensagem. Ele queria dar cabo do disfarce dela!? Ele não via que ela estava desesperada tentando sair dali sem atrair mais atenção? Pergunta estúpida, claro que não. Ele não fazia ideia. E isso, pensou Callie destroçada, é exatamente o problema. Ela não podia arriscar que um dos seus parentes a reconhecesse quando Chris estava apenas a uns passos dela. Seria muito difícil explicar à sua família porque é que ela estava vestida de homem e seria realmente devastador implorar o perdão a Chris se ele descobrisse acerca da mentira

dela.

Sarah

iria

certamente

gostar

da

sua

humilhação. — Cal, — Abel apareceu do nada e colocou-se no caminho dela. — O que houve? Para onde vai? — Ajude-me! — Implorou quase se desfazendo em lágrimas, pela segunda vez esta noite. Isto era demais para ela. — Afaste o Chris de mim! Amordace-o e amarre-o como se fosse um porco, se tiver que fazer! Abel pestanejou. — Por que?


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— A minha família está aqui! De olhos arregalados com surpresa, apenas levou alguns segundos para tomar a sua decisão. — Está bem. Conte

comigo.

De

repente,

sentindo-se

divertido

e

entusiasmado, Abel virou rapidamente para ir na direção do seu irmão. Mas ela ouviu-o dizer, — Não me divertia tanto desde aquela orgia em Paris! Orgia? Callie murmurou, olhando para ele e sacudindo a cabeça com espanto. Abel era muito estranho. Endireitando os ombros redondos com determinação, Callie virou para a saída, mas parou quando viu que sua mãe a olhava. Esquivando-se, Callie andou mais depressa. Não vou conseguir, pensou ela pesarosamente. A saída ainda estava longe e estava difícil caminhar por entre a densa multidão. Olhando para trás, ela viu a sua mãe avançar para ela num passo rápido, mas gracioso. Será que Deus a castigaria por desejar que a bola de espelhos brilhante caísse em cima da cabeça da sua mãe? Não para a ferir intencionalmente… apenas para fazê-la desmaiar. Condenada, pensou Callie. Estou condenada. E depois ela viu um vestido azul de seda. Susan! A ideia que se formou imediatamente na sua cabeça foi


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completamente inesperada e impulsiva, mas era o único plano que ela tinha. Tempos desesperados pediam medidas desesperadas, e ela estava mesmo desesperada! Para tirar a sua mãe do caminho, ela estava disposta a fazer qualquer coisa… e era por isso que ela ia fazê-lo. Desculpa, Susan. Callie avançou para a mulher que estava de costas para ela, esperando que Susan a perdoasse e não fizesse uma cena. — Susie! — Gritou ela, agarrando no braço de Susan. — Aqui está você! Eu-eu te amo! — E antes que mudasse de ideia, ela girou a Susan e plantou-lhe um beijo nos lábios. Callie ouviu uma inalação afiada por detrás dela, por isso interrompeu o beijo e olhou para trás, a tempo de ver a sua mãe caminhar para o seu padrasto. Annie Picket-Greene odiava qualquer demonstração de intimidade ou afeto em público. Ela pensava ser um ato vergonhoso que tinha de ser feito em privado e Callie viu que o seu plano havia dado resultado. Ela conseguiu afastá-la. Provavelmente Annie nem a tinha reconhecido ou então teria feito uma cena, vendo a sua filha beijar outra mulher, sem vergonha. Provavelmente ela teria de olhar melhor para Callie, que lhe parecia estranhamente familiar à distância. Segura! Callie deixou sair uma exalação de alívio e


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virou-se para se desculpar com Susan, mas deu uns passos atrás quando viu que os olhos furiosos dirigidos a ela não perteniam a Susan. Oh meu Deus! Os olhos de Callie arregalaram-se. Beijei a mulher errada! — Seu porco! — A mulher desconhecida gritou com raiva, ao mesmo tempo que puxava o braço direito atrás e disferiu um soco no olho esquerdo de Callie. Cambaleando para trás com o impacto do soco, Callie bateu contra a mesa. A mesa quebrou com o peso dela e a comida voou para a frente. Tonta, Callie viu como voavam vários tipos de comida, acertando nas pessoas que estavam na pista de dança. Mulheres a serem bombardeadas com comida voadora que rebatiam nas outras pessoas que tentavam escapar. Para piorar a situação, um presunto rotativo acertou em cheio na parte de trás da cabeça de um homem, que o lançou para a frente. O pobre homem foi contra a fonte de chocolate, antes de cair no chão. Mais mulheres e homens gritavam quando começaram a escorregar na maciez do chocolate espesso que estava derramado no chão. Horrorizada e desesperada, Callie observou o caos que estava diante dos seus olhos, sabendo


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que tudo isto tinha sido culpa sua. Lutando contra as lágrimas, desajeitadamente, Callie tentou se endireitar. — Cal! — Chris apareceu na sua frente, olhos azuis arregalado com choque e preocupação. Abel não estava muito longe, com a mesma expressão preocupada. A julgar pelo ar nos seus rostos, Callie assumiu que eles tinham

assistido

a

tudo.

Enquanto

ela

tentava

desesperadamente prevenir que ocorresse um desastre, inconscientemente causou outro. Engolindo um soluço, ela deixou que Abel e Chris a colocassem de pé. Uma dor tão avassaladora invadiu seu peito que assim que ficou de pé, se afastou deles e virou para fugir. — Sou um desastre, — sussurrou ela entre lágrimas. — Uma arma de destruição em massa ambulante. — Se o expresidente Bush andasse à procura de uma arma de destruição massiva, ele estaria à procura no lugar errado, porque ela estava bem ali. Envergonhada com culpa e humilhada para além das palavras, Callie fez o seu caminho para a saída, ignorando que Chris gritava o seu nome. Dirigiu-se às escadas, ignorando os ruídos das pessoas e máquinas do casino, tal como tinha feito há uma hora quando entrou no edifício. Chegando finalmente ao exterior, ela ergueu o olhar


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para o céu escuro da noite e inalou ar fresco, desejando não ter vindo a este estúpido encontro. Desejando que tudo tivesse

terminado

de

maneira

diferente.

Desejando…

desejando… desejando… — O meu vestido está arruinado! — Callie ouviu um guincho feminino atrás dela. Não precisou virar para saber que era Brenda, mas virou mesmo assim. Chris, Abel e Susan seguiram a zangada mulher asiática com uma figura exótica. Brenda olhou acusadoramente para Callie. — Este vestido foi feito pela minha falecida avó! Ela me deu antes de falecer, no meu 21º aniversário e olhem! Olhem para ele! — Ela apontou para o que parecia ser molho de carne e outras manchas de gordura no fino vestido de seda chinês, com padrões de videiras verdes. — Está arruinado! — Lamento, — sussurrou Callie. — Brenda acalme-se. — Chris agarrou furiosamente nos ombros da sua acompanhante. — Foi um acidente. — Ele é um acidente ambulante! — Gritou Brenda, quase em lágrimas. — Este vestido é muito valioso para mim! Não tem preço! — Então não devia usá-lo, querida,— comentou Abel, — teria poupado muita preocupação. — Brenda olhou para ele. Cantarolando agradavelmente para si mesmo, Abel ignorou o


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olhar dela e colocou-se ao lado de Callie. De repente, Callie sentiu-se excessivamente cansada e oca por dentro para chorar. Ele estava preocupado com ela, mas ela sabia que tinha arruinado a noite e desiludido Chris. Ele tinha feito tudo isto por ela e ela arruinou tudo. Ela nem sequer merecia ser amiga dele. — Vou deixar vocês todos em casa, — disse Chris mas Callie interrompeu-o. — Eu vou apanhar um táxi. Chris virou-se para franzir-lhe a testa. — Cal. Callie abanou a cabeça. — Vou de táxi. — Ela não suportava estar no mesmo espaço que ele. Neste momento, ela não se sentia merecedora de estar na presença dele. — Eu levo-o para casa, — ofereceu-se Abel. — Não me importo. — Aceita, — disse Chris, enviando-lhe um olhar que dizia que não iria discutir com ela acerca disso. Sentindo-se dormente, Callie deu de ombros e assentiu. —Foi bom conhecê-lo, — disse-lhe Susan com um pequeno sorriso antes de seguir Chris e Brenda. Que mulher simpática, pensou Callie. Ela virou e seguiu


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Abel até a área de estacionamento. — Espere aqui, — disse Abel antes de desaparecer. Ela apenas esperou por alguns minutos antes de chegar um elegante Porsche vermelho e estacionar na frente dela. Abel saiu do lugar do condutor e deu a volta para abrir a porta do passageiro para ela. — Por favor. — Vou sujar o seu carro, — disse Callie, sabendo que estava repleta de comida. — Querida, é apenas um carro. — Abel fungou ofendido. — Agora entre no carro ou terei de lhe raptar? Suspirando, Callie deslizou estranhamente dentro do pequeno carro, esperando não ficar presa. A viagem até o seu apartamento

foi

silenciosa.

Surpreendentemente,

Abel

permaneceu em silêncio. Provavelmente ele era sensível o suficiente para perceber que ela não estava com disposição para falar e ela ficou grata por isso. Quando chegaram ao complexo de apartamentos dela, Abel estacionou o carro e saltou para fora para abrir a porta. — Quer que lhe acompanhe? Callie balançou a sua cabeça pesadamente. — Não, obrigada. Vai para casa e descanse, por favor. Foi muito bom conhecê-lo, Abel. Devo-lhe imensamente.


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Abel observou-a pensativamente antes de dizer, — Não fiz grande coisa. Callie sorriu fracamente. — Fez o suficiente. Obrigada pela carona. — Ela passou por ele e entrou no edifício marrom, sentindo os olhos de Abel nela até desaparecer dentro do edifício. Nos cinco dias seguintes, Callie evitou Chris e todos como se fossem uma praga e trancou-se nos confins do seu apartamento. Era o único lugar onde ela se sentia segura da crueldade do mundo real.


Estou farto disto, pensou Chris obscuramente enquanto abria a porta e a batia. Já tinha se cansado de esperar que Cal saísse da sua autocomiseração. Estava na hora de entrar em ação. — Cal! — Gritou ele, batendo na porta do seu amigo. — Cal! Abre a porta! Eu sei que está aí. Já tinham passado seis dias e ele ainda não teve qualquer notícia de Cal. Sim, claro, os primeiros dois dias, ele tinha sido tolerante, sabendo que Cal devia sentir-se envergonhado para encará-lo, mas após seis dias de silêncio, começava a deixá-lo zangado. Agora Cal estava sendo


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covarde. Ele nem sequer atendia suas ligações. — Cal! — Chris bateu na porta com mais força. — Abre! — Não, — disse uma voz rouca e abafada do outro lado da porta. Chris olhou sombriamente para a porta marrom, colocando as mãos nos quadris com frustração. — E por que não? — Vai embora, Chris. — Não vou a lugar nenhum enquanto não falarmos. — Já estamos falando, por isso vai embora. Ele olhou para a porta. — Abre. — Não, — a voz de Cal era teimosa. Praguejando baixinho para a teimosia do Cal, Chris parou e sorriu para a idosa que passava por ele. Ele cumprimentou-a educadamente com um aceno. — Minha senhora. — A idosa olhou desconfiada e voltou ao seu caminho antes de olhar novamente para ele com uma expressão de apreciação pelo seu charme. Ah, se eu fosse cinquenta anos mais nova, pensou a idosa melancolicamente antes de entrar no seu apartamento.


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Já não se fazem homens assim. Vendo a idosa desaparecer no seu apartamento, Chris virou a sua atenção novamente para a porta de Cal. — Cal, não é saudável para você ficar enfiado aí. Olha, o que aconteceu na sexta-feira… não foi culpa sua. Foi um acidente. — Foi um desastre. — Seguiu-se uma fungada patética. Tinha sido um desastre. A testa de Chris franziu com o pensamento. Ele tinha arranjado um encontro para socializar o pobre homem, mas tinha sido culpa dele, por ter obrigado o seu novo amigo vulnerável a ir ao Baile dos Bombeiros. Era óbvio que Cal não estava preparado para ir a bailes ou encontros. Faltava-lhe muita autoconfiança. Olhando para a porta, Chris disse, — Ouvi dizer que o quartel de bombeiros local recebeu uma doação generosa e anônima de dez mil dólares, no dia a seguir ao baile. Foi você, não foi? O silêncio surdo do outro lado da porta confirmou a sua suspeita.

Eu

sabia,

pensou

Chris

com

sentimentos

misturados. Sentia-se muito orgulhoso de ter um amigo suficientemente bom para doar uma boa quantidade de dinheiro, mas por outro lado ainda pensava que Cal só tinha doado porque se sentia responsável. Chris tinha parte da


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culpa por ter levado o seu amigo naquela noite. Tinha sido uma noite estranha. Um minuto ele tentava chegar a Cal e no seguinte estava sendo arrastado pelo seu irmão, Abel, tagarelando acerca de um homem mal-educado que ele tinha encontrado no banheiro. Afastando-se da conversa de Abel, a coisa a seguir que ele vê é Cal beijando outra mulher que obviamente confundiu com Susan por causa do vestido e tinha sido socado por isso. E abriram-se as portas do inferno. — Cal. Olha amigo, sinto-me ridículo por estar aqui falando com a porta. Vai me deixar entrar ou não? — Não. Chris praguejou novamente sozinho. Já estava farto disto. — Cal, abre a maldita porta ou eu arrebento com ela. — Faz isso e dou queixa na polícia. Chris deu um olhar obscuro à porta. Por que tanta teimosia… — Muito bem, — ele ladrou, — então vou dizer ao gerente para abrir a porta porque… porque acho que você tem drogas aí dentro. — Hah! Veja o que ele teve de fazer. — Vá em frente, — Cal disparou, zangado. — O gerente está na minha lista de vencimentos. Eu sou dono deste


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edifício. — Bem, merda, — murmurou Chris, correndo os dedos pelo cabelo em frustração, depois deu outro olhar obscuro para a porta. Ele desconhecia esse pequeno fato. O edifício devia ser uma das propriedades que Cal herdou da sua avó. Apesar dele não compreender porque é que um sujeito rico como Cal vivia num apartamento como este. Claro que era um lugar decente, mas não era nenhum palácio. Cal poderia manter uma vida de luxo, mas não queria, outra coisa que ele respeitava no seu amigo. Cal não ostentava a sua riqueza. Mas verdade seja dita, Chris não pensava que Cal soubesse lidar com tanto dinheiro. Cal não estava vivendo num apartamento, Chris pensou sombriamente. Ele vive na sua própria prisão, escondendo-se do mundo. — Muito bem, então. — Chris bateu com uma mão na porta. — Quer assim? Então vou incendiar todo o edifício. — Não se atreveria. — Experimente, amigo. Vou fazê-lo. Vou começar com uma pequena fogueira em frente da tua porta, mantê-la até os bombeiros chegarem e vê-los arrombarem a sua porta. O que é que acha disso, hã?


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— Você é louco. — Abre, — ele enervou-se, — a porta. — Ele sabia que estava brincando com fogo, mas também sabia que Cal faria qualquer coisa para não chamar atenção para si. Chris esperou, olhando para o olho mágico e sustendo a respiração. Ele exalou quando ouviu cliques do outro lado e a porta abriu. Um Cal de ar abatido cumprimentou-o, rosto inexpressivo. — Você está parecendo uma merda, — disse Chris, olhando para Cal enrolado num cobertor azul. Uma nódoa negra no olho esquerdo de Cal começava a desvanecer e Chris não conseguiu evitar uma careta. O seu amigo não parecia bem. E podia usar uma escova, pensou Chris, olhando para o penteado da Noiva de Frankenstein. —

Credo,

respondeu

Cal

sarcasticamente.

Obrigado. Gostei de te ver também. — Sem outra palavra, ele virou e se afastou ruidosamente. Chris

entrou,

fechando

a

porta

e

observou

o

apartamento sombrio. Quase não havia luz. Cal tinha coberto todas as janelas com as cortinas. A única luz vinha de um abajur na sala de estar e da pequena janela da cozinha. — Morreu alguém? — Perguntou Chris, chutando uma caixa de pizza do caminho. Jesus, aquele lugar estava


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caótico. — Cale-se, — ele ouviu Cal murmurar. Chris seguiu-o até a cozinha e observou o seu amigo colocando água quente numa caneca preta juntamente com um saquinho de chá, que tirou de um pote branco. — Por quanto tempo vai ficar aqui fechado, Cal? — Para sempre, — disse Cal sem olhar para ele. Ele passou por Chris e sentou-se numa das cadeiras da cozinha. A cadeira de madeira chiou com o peso de Cal enquanto se sentava e segurava uma caneca fumegante entre as mãos. Ainda não olhava para Chris, o que o deixava ainda mais furioso. — O que está fazendo não é saudável. — Não é da sua conta. — Então é assim? — Chris sentou-se na frente de Cal. — Um acidente e vai colocar o rabinho entre as pernas e não sair daqui? — Sim. — Agora está sendo um estúpido. — Não entende, — sussurrou Cal. — Olha para você. Chris franziu a testa. — O que tem eu?


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Finalmente Cal olhou-o, mas o movimento foi lento e solene. — Você é perfeito. Chris

olhou

para

Cal,

completamente

derrubado.

Perfeito? Cal pensava que ele era perfeito? Mas que merda. Cal não era o único que conseguia manter segredos. Chris também tinha o seu. — Eu não sou perfeito, — disparou ele. — Muito longe disso. Cal suspirou. — O que é que você quer? — Eu quero que saia deste maldito apartamento e que apanhe um ar fresco. — Não percebe que eu sou um desastre ambulante? — Cal abanou a cabeça. — O mundo fica melhor sem me ter caminhando nas ruas. — Está sentindo pena de si mesmo. — Mais ninguém sente. Chris estalou. — Porque você já sente pena o suficiente de si mesmo! Olha para você! Não está com bom aspecto! Cal inclinou-se para trás, fogo retornando aos seus olhos. — O que eu faço ou como aparento, não é da sua conta, Chris! Se eu quiser rebolar em autocomiseração na


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minha própria casa, estou no meu direito! — É da minha conta, — insistiu Chris. — Você é meu amigo e eu não deixo os meus amigos se matarem, o que é exatamente o que está fazendo, Cal. Está se matando. — Cale-se. — Não é saudável a maneira como come quando está deprimido. — Cale-se. — E não é saudável ficar deprimido o tempo todo. — Cale-se! — Gritou Cal. — Não faz ideia do que eu estou passando! Chris escarneceu. — Claro que sei. Está sentindo pena de si mesmo. Pobre do gordo Cal Picket. Cal ficou boquiaberta. Esta tinha sido a primeira que ele comentara sobre o peso do seu amigo. Chris não se sentiu culpado. Ele havia sido benevolente com Cal, sabendo que o seu peso era um assunto delicado. De fato, Cal lembrava-lhe muito o seu irmão que teve o mesmo problema de peso, desde a escola primária até à escola secundária. Mas já bastava. Chris sentiu que estava na hora de interferir. — Ouviu, — disse Chris, com a voz estranhamente


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calma. — Pobre do gordo Cal Picket. O lábio inferior de Cal tremeu. — Cale-se. — O que passa? A verdade magoa? — Cale-se! — Cal bateu com a caneca na mesa e levantou-se, olhando para Chris. — Silêncio! — Não, não me calo. — Chris abanou a cabeça. — Precisa aceitar que é pesado e fazer algo sobre isso, e não trancar-se neste apartamento e esperar que o mundo te esqueça, porque eu não esqueço. Recuso-me. — O problema não é só o meu peso! — Cal chorou, — Sou eu. Tudo em mim! Eu não sou… bom. Chris olhou tristemente para ele. — Por que você é sempre tão duro consigo mesmo? — Por que se interessa tanto? — Cal disparou de volta. — Diz que é porque sou seu amigo, mas mal me conhece. Só nos conhecemos há dois meses. Porque se preocupa tanto comigo? Porque não me deixa em paz? Chris abriu a boca e fechou. Por que? Ele não sabia o porquê! Era só que… caramba. Havia mais alguma coisa em Cal que o atingia. Talvez porque ele lhe fazia lembrar tanto Abel quando eram mais jovens, quem sabe. Havia qualquer coisa no outro sujeito que lhe aumentava os instintos


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protetores. Cal fungou. — Esquece. Não quero falar mais. Saia. Chris ficou tenso. — É isso mesmo que você quer? Quer que eu vá embora e te deixe em paz? — Sim. — Não vou voltar. Cal olhou para ele. — Ok. — Estou falando sério, Cal. Se eu sair, não vou voltar. A nossa amizade acabou porque não vou ficar sentado e ver você destruir a sua vida antes mesmo de ter a oportunidade de viver. Cal continuou a olhar para ele, mas desta vez em silêncio. Então que assim fosse, Chris pensou e virou-se. Ele saiu da vida de Cal sem olhar para trás, mas por dentro… por dentro ele sentia tristeza porque sabia que Cal podia ser melhor do que isto. Melhor do que alguma vez imaginou.


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Callie ouviu a porta fechar com um clique suave. Ela olhou para o espaço a sua frente, onde Chris passou há alguns segundos, e caiu de volta no seu assento. Pronto, pensou ela, consegui afastá-lo com sucesso. É melhor assim. Mas Callie não se sentia melhor. Sentia-se horrível e destroçada. Ela tinha afastado Chris intencionalmente, mas a dor… a dor era insuportável. Inclinando a cabeça, ela enterrou o rosto nas mãos e soluçou. Chris… Chris tinha ido embora da sua vida para sempre. E o seu coração sangrou apenas com o pensamento. Callie queria correr atrás dele, para lhe dizer que tinha entendido tudo o que ele havia dito. Queria pedir perdão, que faria qualquer coisa para o trazer de volta à sua vida, mas de que serviria? Ou ela ficava ao lado dele e continuava a ser seu amigo, vendo outras mulheres colocarem as mãos em cima dele ou se manteria afastada. De qualquer maneira… era como se fosse uma sentença de morte para o seu coração. Chris, cantarolou ela, Chris, Chris, Chris! Não quero que vá embora, mas também não posso continuar a mentir pra você. Não é justo… mas ao mesmo tempo, não quero que me odeie. Tenho tanto medo. Callie ouviu o telefone de casa tocar, mas ignorou-o,


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desejando que o mundo a deixasse em paz. — Cal? — A voz de Abel ecoou na cozinha, vinda da secretária eletrônica na sala de estar. — É Abel. Acabei de falar com Chris e perguntei de você, mas ele me deu o seu número. Ele disse que vocês já não eram amigos. Querida, escuta. Você o ama certo? Então não o deixe escapar, você vai se arrepender. Aposto que já está arrependida. Vai falar com ele, Cal. Não quero saber se é para admitir a sua mentira ou apenas para restaurar a amizade de vocês. Apenas vai. Não é a única a sofrer, querida. Claro que a sua amizade começou com uma mentira, mas o universo é misterioso. Quem sabe, quando finalmente você tiver coragem para dizer a verdade, ele talvez te perdoe. Arrisque. Chris merece. Callie ergueu a cabeça das mãos e olhou na direção da secretária eletrônica. Permaneceu onde estava durante trinta minutos lutando consigo mesma, com muitas indecisões, mas sempre chegava a mesma conclusão. Ela não conseguiria viver sem Chris. Ela pensou que por ele conseguiria, mas ficava

muito

magoada.

Insuportavelmente.

Callie

lutou

consigo mesma durante mais trinta minutos, antes de se render. Marcando o número da pizzaria, Callie olhou para a porta pela qual Chris havia saído, esperando não ser tarde demais. Que ele a aceitasse de volta. Vinte minutos depois,


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ela estava em frente à porta dele, com uma caixa de pizza nas mãos. Antes de ir, ela tomou um banho e penteou-se, vestiu um par de calças cinzentas limpas e uma camiseta branca. Mas não havia nada que ela pudesse fazer acerca da nódoa negra no seu olho esquerdo. Respirando fundo, inclinou para frente e tocou a campainha. Chris não deve ter espreitado pelo olho mágico, porque quando ele abriu a porta, um lampejo de surpresa atravessou-lhe o rosto bonito, antes de ficar inexpressivo. — O-olá. — Ela tentou sorrir. — P-Para você. — Ela enfiou a pizza debaixo do nariz dele. Chris olhou para a caixa e depois para ela. Ele não fez qualquer movimento para segurá-la. Engolindo em seco, Callie abriu a caixa. Ela tinha escrito as palavras Desculpa. Me aceite de volta. Desculpe-me? com gomas que tinha encontrado na cozinha. Quando ele não aceitou a pizza, Callie dobrou-se e colocou o rádio a trabalhar. — Querido volte, — tocava o rádio, — pode colocar toda a culpa em mim. Eu estava errado e não consigo viver sem você. Chris

olhou

para

os

seus

olhos

esperançosos

e

lastimáveis e explodiu num ataque de riso. Callie sorriu,


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incerta de como aceitar a gargalhada. Chris riu durante três minutos seguidos, incapaz de olhar para Callie sem cair em outra gargalhada, enquanto a música tocava. — Desculpe. — Disse-lhe ela quando ele conseguiu se controlar. — Estou disposto a tratar dos meus problemas… se me der outra oportunidade com a sua amizade. Ainda rindo, Chris tirou uma fatia de pizza da caixa e deu uma dentada. — Mmm, — ele revirou celestialmente os olhos. — Pizza de queijo e gomas. A minha favorita. Nessa altura, Callie soube que tudo estava novamente bem entre eles.


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Equipe Pégasus Lançamentos


o


Envio: Soryu Tradução: Sandrinha Revisão Inicial: Revisão Final:

Cacau S. Márcia S.

Formatação, layout e leitura final: Gaby

B.


“A tradução em tela foi efetivada pelo Grupo Pégasus Lançamentos, de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição integral da obra literária física ou em formato e-book. O grupo tem como meta a seleção, tradução e disponibilização apenas de livros sem previsão de publicação no Brasil, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupo, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download dos livros cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor/usuário fica ciente de que o download da presente obra se destina tão somente ao uso pessoal e privado. Deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social e bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho de tradução do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor/usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderá individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo o grupo citado no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998.”

Equipe Pégasus Lançamentos


Nota da Autora Big Fat Liar livro 2 é a continuação do Big Fat Liar livro 1. Uma vez que o livro 1 terminou no Capítulo Seis, o livro 2 irá começar no Capítulo Sete. Se não leu o Livro 1, faça-o, por favor, para conseguir seguir a história de Chris e Callie. Obrigada. Cookie Moretti


Callie olhou para o campo de golfe aberto e quase tropeçou em si mesma, tentando correr de volta para o carro. — Uh-uh, — Chris agarrou-lhe nos ombros e a parou antes que ela conseguisse chegar ao carro dele. — Acho que não, cara. — Aquela coisa vai me matar! — Gritou Callie. — Vou morrer antes de conseguir fazer metade do caminho! — Não seja tão dramático, — Chris provocou e a obrigou dar meia volta para enfrentar o campo de golfe. — Este lugar é perfeito para correr. Callie olhou tristemente para o grande campo de golfe que ficava na encosta abaixo deles. Parecia que se esticava em

círculos,

quilômetros

após

quilômetros.

Não

havia

hipótese dela conseguir dar uma volta completa num só dia e


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Chris esperava que ela o percorresse em, pelo menos, duas horas! Com a boca seca, ela lambeu os lábios e olhou para Chris. — Quanto mede o campo? As sobrancelhas de Chris franziram enquanto começava a alongar, dobrando-se para tocar nos seus Nikes brancos. — Acho que são cerca de cinco quilômetros. — Cinco quilômetros!? — Sim. Ela ia morrer hoje. Chris olhou para ela. — Não é tão mau quanto parece, Cal. — Tenho mais de 45 quilos de peso a mais! — Callie apontou para o campo. — Para mim parece o vale da morte! Olha para aquelas encostas! Chris suspirou, balançando a cabeça para o teatro de Callie enquanto ele continuava a alongar. — Tem que se habituar a caminhar em volta do campo, só isso. Venha aqui todos os dias e ficará um profissional. Os olhos de Callie se arregalaram com a ideia de ter que ir caminhar pelo campo todos os dias. — Admite, — ela choramingou — Você me odeia. Isto é uma maneira de me castigar.


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Por quê? Por que é que ela concordou com isto? Ah sim, Chris a tinha convencido, de alguma forma, que precisava se se exercitar desta maneira, uma vez que ela se recusou a entrar num ginásio, porque tinha muita vergonha. — E-eu acho que vou para o ginásio com você, — disse ela fracamente. Decerto que o ginásio não tinha campos da morte como este. — Vai ficar bem, — disse Chris, endireitando-se. Ele mostrou um sorriso matador a duas garotas que passaram por eles correndo. Callie observou as garotas baixarem a cabeça e rirem. — Que nojo, — murmurou ela, com ciúmes. —

Não

seja

ciumento,

Chris

riu

para

ela,

completamente alheio de quem ela realmente tinha ciúmes. — Hmph! — Callie enfrentou o campo de golfe e suspirou. O céu estava de um azul bonito, o ar da manhã estava fresco, mas agradável. Sim... era um bom dia para morrer, naquela manhã de sexta-feira. Eu devia ter concordado em me encontrar hoje com a minha mãe, pensou Callie com outro suspiro. Ela devia ter evitado ir ao campo de golfe com Chris, mas nãooooooo, teve de recusar o convite da sua mãe para o café da manhã,


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porque ela teve medo que a sua mãe a reconhecesse como sendo a pessoa que estava no Fireman's Ball. A sua mãe não tinha mencionado o baile durante a conversa que tiveram ao telefone no dia anterior, mas mencionou que ela e a sua família iriam ficar em Seattle até domingo. Aparentemente, Richard e Greg estavam à procura de casas para venda. — Anda, — Callie ouviu Chris dizer, — Começa a alongar. Não quer fazer uma distensão muscular, não é? — O Abel tem razão, — ela zombou dele, — Você é um tirano. Bufando, ela tentou acompanhar os alongamentos de Chris e desistiu cinco minutos depois. Credo, o sujeito conseguia

dobrar-se!

Fingindo

alongar-se,

Callie

olhou

sorrateiramente ao homem ao seu lado, admirando os seus músculos. Vestido com calções de corrida preta e uma camiseta branca sem mangas, Chris parecia em forma e em bom estado e muito tentador para seu próprio bem. Ela adorava a forma como a brisa suave farfalhava no seu cabelo curto e louro escuro, adorava observar a concentração no seu lindo rosto enquanto alongava.


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— Ok. — Chris endireitou-se, movimentando os ombros. — Preparado? —

Não,

Callie

estalou e

gemeu

enquanto se

endireitava, mãos nas costas para apaziguar. Enquanto babava nele, ficou dobrada tempo demais. — Eu preciso mesmo? — Você prometeu. Foi uma das condições para te perdoar, lembra? — É um chato. — Claro que ela se lembrava. Ontem, quando eles discutiram e fizeram as pazes, ele a tinha feito prometer que iria fazer exercícios para perder peso. Para lhe agradar, ela concordou vigorosamente, mas se arrependeu logo. Chris pegou o rádio vermelho que estava no chão. — Ouvir música deve te ajudar a bombar. — Uau, — Callie resmungou sem entusiasmo. — Tenho um CD com várias músicas, — disse Chris, ignorando o seu humor amargo. — Tem alguma preferência? — Tem Spice Girls? — Quando ele a olhou de maneira engraçada, ela olhou-o na defensiva, — O que foi? —

Spice Girls? — Chris meneou a cabeça. — Cara, o seu


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gosto por música é tão... — Afeminado? — Disse ela quando ele parou o que ia dizer. — Sim. — Ele franziu a testa. — Agora que mencionou. Callie pensou em lhe dizer a verdade, mas decidiu não fazer. Ainda não estava preparada para isso. Estalando a língua, ela ergueu uma sobrancelha para ele. — Abel disse que ainda pensa que eu sou gay. Chris

evitou

olhá-la

nos

olhos,

parecendo

completamente culpado. — Talvez. — Ele olhou-a. — É? — Sou o quê? — Gay? Não vou julgar, — acrescentou ele rapidamente. — Já julgou, — Callie bufou. — Vamos lá acabar com isto.— Deixá-lo pensar que ela era gay, talvez fosse melhor. Podia safar-se mais facilmente do que faria como um hétero. Ainda nem sequer tinham passado dez minutos, desde que começara a descer a colina, e já estava transpirando e cansada. Ofegando, ela começou a arrastar os pés. — Vamos lá Cal! — Gritou Chris para ela a vários metros de distância. — Você consegue! Estamos quase lá, cara!


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— Eu te odeio! — Gritou ela. O seu coração estava aceleradamente louco e o peito ardia. Correr não era para ela. Ela suava que nem um porco! Devia ter vestido roupas mais leves como Chris havia sugerido antes de irem, mas optou por usar uma das suas calças pretas e grosso casaco com capuz cinzento. — Vamos lá, — disse Chris, correndo na frente dela. — Está quase lá. Nada como uma boa corrida pela colina para botar o sangue a bombear. Callie ignorou-o e continuou a arrastar-se colina abaixo. A canção do Sir Mix A Lot's - Baby Got Back1, explodiu no rádio que Chris transportava ao ombro e Callie teve que bufar. E ele teve o descaramento de falar sobre o gosto musical dela. Ha! — Estou morrendo, — gemeu ela quando finalmente chegou ao fim da colina. Com os membros moles, ela ajoelhou-se e pressionou a bochecha esquerda contra a superfície fresca da relva. O seu redondo traseiro ficou espetado no ar, mas ela não se importou. A relva fresca estava tãooooo boa. — Anda, — Chris colocou um pé no traseiro dela. — Levanta.

1

Música estilo Rap, lançada nos anos 90. <https://www.youtube.com/watch?v=kY84MRnxVzo>


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Resmungando, ela se deitou de costas e olhou para ele. — Acho que estou vendo dobrado! Não consigo continuar. Deixa-me

aqui,

Chris,

não

consigo

mais.

Dramaticamente, ela esticou a mão direita para o céu. — Acho que ouço os anjos me chamarem, para me juntar a eles. Chris revirou os olhos. — Não pode estar morrendo, Cal. Mal correste pela colina abaixo. — Continua, — insistiu Callie fracamente, — Já não consigo mais. Diz à minha mãe que a odeio e diz às minhas irmãs que as vejo no inferno. — Pensei que estivesse ouvindo anjos. — Se cale Chris. Deixe-me descansar. Não estou habituado a isto. — Cal, cara, — disse Chris, colocando o rádio na relva antes de se deitar de costas ao lado de Callie, — Precisamos seriamente construir o seu vigor. — Ele colocou as mãos sob a cabeça e virou para olhar para ela. — Não há qualquer hipótese de percorrer o campo com uma atitude dessas. — Deixa-me em paz, — Callie resmungou, sentindo-se ofendida. — Só me dê um tempo. Qual é a pressa?


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Chris deu de ombros. — Acho que não há. Estou apenas animado que tenha agarrado a sua vida. Perder peso é o primeiro passo. — Pensei que achasse que o que conta é o interior. — E é... mas não faz mal tentar manter a forma e a saúde para vivermos mais tempo. Callie tentou lhe dar um pontapé, mas falhou. — Hah, tem resposta para tudo, não é? Chris

sorriu,

parecendo

novamente

presunçoso.

Caramba, ela adorava aquele sorriso presunçoso. — Oh sim, — começou ele, — Brenda quer se desculpar pela forma como agiu na sexta-feira passada. Brenda? Callie olhou para ele. — Você... você ainda sai com ela? — Sim. — Sentindo-se descansado, Chris virou de barriga para baixo e começou a fazer flexões. Callie observou-o, admirando os seus bíceps, mas ao mesmo tempo sentiu um pouco em pânico. Desde que ela o conheceu, que era um pouco mais de dois meses, ele nunca ficara com uma garota tanto tempo. O máximo tinha sido uma semana e se ela calculou corretamente, Chris já andava


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com Brenda há mais de duas semanas. Pigarreando, ela virou de barriga para baixo e tentou imitá-lo nas flexões, mas desistiu rapidamente. Ela nem sequer podia com ela mesma. Que vergonha! Chris viu o que ela tentara fazer e agitou a cabeça, um pequeno sorriso divertido apareceu no rosto. — Então... — começou Callie tão naturalmente quanto possível, sem parecer muito interessada. — Ainda anda com a Brenda, hã? Chris mostrou-lhe um olhar engraçado, virando de costas para fazer abdominais. — Não acabei de dizer isso? —

S-sim

mas...

é

surpreendente.

Pela

minha

experiência, você tem uma garota diferente todas as semanas. Chris parou a meio dos seus abdominais e franziu a testa. — Huh, acho que tem razão. Acho que a Brenda é diferente. — E continuou com os seus abdominais. Diferente? Caramba, isso não soava bem. — Diferente? — A Brenda é... esperta. — E as outras garotas não eram? Pensei que uma das garotas com quem saiu era neurocirurgiã.


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Chris caiu de costas e olhou para ela. — A Brenda é... legal. — Legal? E as outras garotas não eram? Chris ergueu uma sobrancelha para ela. — Porque é que, de repente, está tão curioso sobre a minha relação com Brenda? Callie manteve o seu rosto indecifrável, dando de ombros como se não se importasse. — Estou apenas surpreso. Ela tem de ser alguma coisa se ainda está com ela. Você. O Sr. Casanova. Ele riu. — Sr. Casanova? Gosto disso. De qualquer maneira, Brenda quer pedir desculpa e te convidar e a Susan para sairmos. Callie olhou para ele horrorizado. — Outro encontro não! Chris riu da expressão dela. — Não, apenas amigos que se dão. — Não quero ir. — Vamos lá, Cal, é importante para ela. Ela se sente mesmo mal por ter gritado e desde que ela sabe que é o meu melhor amigo, se sente ainda pior. Dê-lhe uma oportunidade e vamos.


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Callie resmungou. — É importante para você que eu vá? As sobrancelhas de Chris franziram. — Sim... sim, acho que sim. Quero que você e a Brenda se deem bem. Ambos são importantes para mim. Callie

resmungou

novamente,

desejando

não

ter

perguntado e que ele não tivesse respondido. As palavras dele derreteram-lhe o coração. Claro que ela era importante para ele da mesma maneira que Brenda era importante, mas mesmo assim... ela sentia-se especial por ser uma pessoa importante na vida dele. — Aonde vamos? Chris riu charmosamente para ela. — Mundo do Golfe. Os olhos de Callie arregalaram-se. — O novo parque de diversões? — Sim. Ela olhou-o desconfiada. — Sugeriu esse lugar a ela, não foi? Só para me provocar. — Ele, provavelmente, devia saber que após a pequena corrida em volta do campo de golfe, ela nunca mais iria querer ver um campo novamente, nem mesmo um fictício. Chris balançou as sobrancelhas. — Talvez.


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— Oh você! — Ela tentou levantar a perna gorducha para lhe dar um pontapé, mas ele saltou e esquivou-se com uma gargalhada. — Vamos lá cara. — Chris dobrou-se a agarrou nas mãos. — Levanta para continuarmos. Callie gemeu e inclinou-se para trás. — Não quero! — Para de ser bebê. — Ele puxou com mais força. — Levanta. — Se eu disser que vou a esse estúpido parque, arranja um carrinho de golfe e vai me buscar? — Cal! Suspirando, Callie deixou-o ajudá-la, relutantemente. — Se eu morrer aqui, vou te assombrar, sabe disso, não sabe? — Sim, sim. — Chris pegou no rádio. — Eu digo à Brenda que disse sim. — Ei! — Callie olhou para ele. — Eu ainda não concordei. — Então me pegue se não quiser ir. — Chris curvou um dedo para ela, um sorriso provocador no rosto.


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— Não é justo! — Callie choramingou quando ele começou a correr. — Vem cá! — Ela começou a correr atrás dele, mas claro, no fim ela não conseguiu o pegar, teve que admitir a derrotada e de má vontade concordar em ir.

Domingo chegou muito rapidamente para Callie porque era o dia em que ela ia sair com Chris e a namorada dele para o Golf World. Susan cancelara na última hora. — Vou ser uma vela, — estava ela dizendo a Chris enquanto eles se dirigiam ao carro estacionado na frente do edifício deles. — Não vai nada, — assegurou Chris. — Porque é que a Susan cancelou? Chris contornou o carro até ao lugar do condutor e destrancou as portas. — Alguma coisa de família. — Ele abriu a porta e entrou. — Sim certo, — Callie resmungou, abrindo a porta do passageiro e deslizou para dentro do carro. — Ela é esperta. Sabe como evitar um desastre ambulante. — Ela fechou a


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porta ao mesmo tempo em que Chris. — Cal, você não é um desastre ambulante. — Chris mostrou um olhar que dizia que estava sendo absurda. Ele ligou o motor e colocou o cinto. Callie imitou-o e também colocou o seu cinto. — É verdade. Eu sou um desastre ambulante. — Cal, se cale. Está apenas rabugento porque eu estou te obrigando a ir. — Pode crer que sim. Chris balançou a cabeça enquanto conduzia pela curva. — Olha, eu sabia que iria ficar assim quando soubesse que a Susan havia cancelado, por isso liguei para o Abel para convidá-lo. Callie animou-se com a menção da sua nova pessoa favorita. — Ele disse que sim? — Ele disse que ia nos encontrar lá. Callie bateu palmas, imediatamente alegre com o pensamento de tornar a vê-lo. — Yay! Chris revirou os olhos. — Gosta do meu irmão, não é? — Ele é fantástico!


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— Hmm. — Chris parou o carro no sinal vermelho. — Então, — ele olhou para ela, — gosta mais dele do que de mim? Callie sentiu-se enrubescer e baixou a cabeça. — Uh... bem... eu... é diferente. Claro que eu gosto mais de você. — Então eu sou mais fantástico? — Sim. — Ótimo. — Chris riu e virou à esquerda ao sinal verde. — Eu digo-lhe que disse isso. A cabeça de Callie levantou e deu-lhe um soco no braço. — Seu idiota. Chris riu. Brevemente chegaram a casa de Brenda. De má vontade, Callie saiu do carro para entrar no banco traseiro, para deixar a outra mulher sentar-se na frente. Claro que Brenda não tinha mudado desde a última vez que se viram. Brenda ainda era exoticamente bonita com a sua aparência asiática e corpo esguio, com um vestido roxo e um cinto brilhante em torno da cintura. Ela deixou o longo cabelo preto solto e Callie sentiu o seu perfume enquanto ela deslizava para o banco da frente.


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Bem, alguém é fã de Britney Spears, pensou Callie, reconhecendo o aroma. A sua irmã, Sarah, tinha o mesmo gosto em perfumes. — Olá, Cal, — Brenda virou e sorriu para ela. — Lamento a última sexta-feira. Fui mal-educada. Callie deu de ombros. — Foi culpa minha, por isso não tem nada que se desculpar. Brenda virou para frente e beijou Chris nos lábios. — Tem razão. Ele é simpático. Do banco de trás, Callie fez caretas para eles e fingiu vomitar. Chris apanhou a parte do vomitar e mostrou-lhe um olhar de comporte-se bem. Callie acomodou-se e enrubesceu ao ser apanhada. Ela não sabia porque não gostava de Brenda. Ok, talvez fosse por ter ciúmes, mas havia algo duvidoso sobre a outra mulher. Ela parecia tão... falsa. Não que eu possa falar, pensou Callie solenemente. Sou eu quem está disfarçada de homem. Apenas demorou quinze minutos a chegar ao Golf World. Eram oito horas da noite, mas o lugar estava cheio de adolescentes barulhentos e crianças com as suas famílias. Também havia pessoas da idade deles em encontros ou apenas como amigos. Callie olhou para cima, para a enorme


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bola de golfe cor-de-rosa, no topo do edifício do parque de diversões, esperando que a sua má sorte a fizesse cair mesmo em cima dela. — Querido! — disse Abel assim que os viu dirigirem-se na direção da entrada. Ele abriu bem os braços e apressou-se em direção deles. Brenda sorriu e abriu os braços para abraçá-lo, mas parou quando o viu dirigir-se a Callie. Abel abraçou Callie e deu-lhe beijos no ar. — Há quanto tempo! Callie riu e devolveu os seus beijos no ar. — Muito tempo. Olá, Abel. — Ele pronunciou o nome dele como Uhbelle, para agradá-lo. Abel entrelaçou o seu braço direito no dela. — Tem um ar radiante e o que é isto? Perdeu peso? Callie corou e assentiu. — Um pouquinho. — Ela havia perdido peso na sua semana isolada do mundo. Os dois dias de exercício com Chris provavelmente também ajudaram. Na sexta-feira tinha sido o campo de golfe da morte e no sábado ele a convenceu ir para o ginásio do edifício deles, uma vez que ela não queria fazer YMCA¹ com ele. — Bem, tem bom aspeto. — Abel afagou-lhe a mão. — Aprovo. ¹ Young Men's Christian Association, Associação cristã de jovens(homens)/para jovens(homens)


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— Olá, Abel, — Brenda sorriu para o irmão de Chris. — É bom te ver novamente. Abel acenou graciosamente uma mão. — É sempre bom me ver. Sou muito fabuloso. Callie escondeu um sorriso. Então Abel também não gostava de Brenda, hã? Que mundo pequeno. — Reservou uma mesa para nós, como te pedi? — Perguntou Chris a Abel, mostrando-lhe o mesmo olhar de comporte-se bem, que tinha mostrado mais cedo a Callie. — Uma mesa? — Abel revirou os olhos. — Querido, eu reservei uma sala inteira. Venham, venham, eu mostro o caminho. —Eu acho que ele não gosta de mim,— Callie ouviu Brenda murmurar pateticamente a Chris enquanto ela e Abel passaram por eles. Chris beijou-lhe a testa para acalmá-la. —Eu não gosto da namorada dele,— Callie murmurou para Abel quando estavam a alguma distância do outro casal. Abel olhou para ela. —Querida, nem eu e Chris também não.— Ele deu-lhe o famoso piscar de olho de Walker. — Só que ele ainda não sabe. Callie riu, adorando Abel ainda mais.


Abel, parecendo confortável e estiloso, usando calça de couro branca, camisa branca e um chapéu de golfe preto e branco, como Gatsby¹. Os guiou para dentro do edifício do parque de diversões e os olhos de Callie arregalaram-se com a visão de luzes brilhantes e ruídos que vinham das máquinas de jogos e crianças agitadas. A última vez que tinha estado num parque de diversões tinha sido há muitos anos, ela tinha doze anos, antes do seu verdadeiro pai, Simon Picket, ter morrido. Todos os Verões, ele tirava um tempinho na sua sempre ocupada agenda, e levava ela e as suas irmãs ao Disney World. Quando morreu, levou toda a alegria com ele. Bem, ¹ Personagem da obra: O Grande Gatsby (The Great Gatsby), romance escrito pelo autor americano F. Scott Fitzgerald. Publicado pela primeira vez em 10 de abril de 1925.


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levou a alegria dela. As suas irmãs e mãe ficaram muito bem, assim que Richard apareceu na fotografia, apenas um ano depois da morte do seu pai. Às vezes ela sentia que era a única que sentia saudades e amava o seu pai. — Por aqui, por aqui, — disse Abel, ziguezagueando por entre as crianças. Finalmente chegaram ao local onde se situavam as salas de festa e Callie deu um suspiro de alívio, porque conseguia sentir pequenos olhos virados para ela. As crianças eram muito curiosas. — Aqui. — Abel abriu a porta e deixou-os entrar, onde uma mulher negra muito alta e careca os cumprimentou. Callie levou alguns segundo a perceber que não era uma mulher. — Pessoal, quero que conheçam um dos meus fabulosos cabeleireiros, Mizz Ivory. — Olá! — A voz estridente de Mizz Ivory fez Callie estremecer, mas ela sorriu para a extravagante Mizz Ivory. Da cabeça aos pés, Ivory usava cor-de-rosa desde os seus sapatos de salto agulha brilhantes, calças de couro justas e um espartilho tipo top coberto por uma pequena jaqueta rosa escura. Tinha grandes argolas roxas que balançavam nas orelhas e sombra brilhante e batom roxos. — Oh meu Deus! — Mizz Ivory bateu palmas, que Callie


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notou que tinham grandes unhas pintadas de roxo. — Tinha razão, Abel! Eles fazem realmente um par adorável! Brenda corou e colocou o seu longo cabelo preto antes de oferecer um sorriso luminoso a Mizz Ivory. — Olá Ivory, — ela estendeu a mão, — Sou... — Não é a coisa mais adorável!? — Disse Mizz Ivory, dirigindo-se a Callie que estava do lado de Chris. Mizz Ivory beliscou as bochechas de Callie. — Eu podia te devorar! Os olhos de Callie arregalaram-se. O que é que estava acontecendo com os gays e as suas bochechas!? Mizz Ivory libertou as bochechas de Callie e olhou para Chris. Eles eram quase da mesma altura e era quase cômico vê-los olharem-se. — Chris! — Mizz Ivory abraçou Chris, que lhe afagou as costas estranhamente e disse — Olá, Ivory. Mizz Ivory afastou-se e sorriu para Callie e Chris. — Chris! Não me disse que tinha um parceiro tão adorável. O queixo de Callie caiu. O quê!? Ivory pensou que ela... e Chris fossem um... um casal? Por detrás de Ivory, Callie viu o sorriso divertido de Abel e percebeu imediatamente que Mizz Ivory estava apenas os provocando. Provavelmente, Abel estava por detrás daquilo. A piscadela que Abel lhe deu, confirmou as suas suspeitas e teve de evitar rir por causa da


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maldade dos seus amigos. — Está enganado, — disse Chris, enviando um olhar ao irmão que lhe disse que sabia o que estava acontecendo. — A minha namorada é a Brenda. — Ele alcançou o pequeno ombro de Brenda e colocou-a firmemente na frente de Mizz Ivory. — Oh. — Mizz Ivory piscou o olho a Brenda. — Bem, é uma coisinha adorável. — Ivory dobrou-se e afagou a mão de Brenda. — Pobrezinha, parece esfomeada. Chris não lhe dá de comer? Abel! Precisamos encomendar o nosso jantar e rápido! Callie riu e rapidamente estudou as suas feições, quando Chris a olhou. Ela mostrou-lhe o seu olhar mais inocente, como quem diz: O que é que eu fiz? — Já pedi a alguém fazer o pedido, querida, — Abel disse a Ivory. — Agora vamos, vamos sentar e conversar. Ivory, esses sapatos ficam fabulosos em você. Mizz Ivory deu orgulhosos passos pequenos em direção à mesa castanha, os seus sapatos clicando no chão de mármore, enquanto os seus quadris balançavam. — E eu não sei? Picam os meus pobres dedos, mas tudo bem, é o preço a pagar pela beleza.


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Callie acabou por ficar sentada entre Ivory e Abel enquanto Chris e Brenda sentaram-se na frente deles. Ela olhou em torno da sala, observando as paredes brancas e rosas com as palavras — Golf World — escritas em letras coloridas. — Espero que não se importe que convidei Ivory, Chris, — Abel dizia ao seu irmão, — Não podia deixar a pobre querida sozinha. Ela tem passado um mau bocado. — O meu namorado terminou comigo, — Ivory suspirou tristemente. — Deixou-me por uma Mexicana magrinha, que mais

parece

um

daqueles

cães

pequenos

de

olhos

esbugalhados. Como é que se chamam? Chihuahua? Aqueles pobres coitados parecem estar sempre esfomeados. E por alguma razão, todos os olhos aterraram em Brenda, cujos olhos se arregalaram por estarem olhando para ela. Callie virou a cabeça para esconder um sorriso. A pele morena de Brenda empalideceu e ela levantou-se. — Com licença... Eu, eu tenho de ir ao lavabo. — Chris levantou-se para acompanhá-la mas ela já estava correndo até à porta, fechando-a firmemente atrás dela. A mandíbula de Chris apertou-se enquanto se virou para olhar para o trio que olhava para ele inocentemente. — Ok, o que raios foi aquilo?


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Callie desviou os olhos dos olhos zangados azuis dele, fingindo admirar a pintura de uma enorme bola de golfe corde-rosa

na

parede.

Ela

sentiu

que

Ivory

se

mexia

desconfortavelmente a sua direita e Abel dava de ombros à sua esquerda. — O que foi? — Abel pestanejou inocentemente ao seu irmão mais novo. — O que é que fizemos? — Vocês sabem bem o que fizeram. — Chris franziu-lhes as sobrancelhas. — Porque é que todos foram tão maus para a Brenda? — Hah! — Abel acenou uma mão. — Ela é muito sensível, só isso. — Eu nem sequer conheço a mulher, — Defendeu-se Mizz Ivory. — Eu só estava falando de Chihuahuas. Callie espreitou pelo canto do olho para ver a expressão de Chris e estremeceu quando os olhos azuis dele fixaram nela. — O que foi? Eu não fiz nada. — Quando eu voltar com ela, — disse Chris, enfatizando cada

palavra,

é

melhor

todos

se

comportarem.

sarcasticamente.

Sim,

Entenderam? Abel Capitão!

saudou-o

senhor,


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Chris resmungou antes de se virar e ir atrás da sua namorada. Callie admirou, sem vergonha, quão bonito parecia naquelas calças azuis e como lhe esculpiam o traseiro. — Oh oh, — disse Ivory, — ooooh, agora é que é. Chateamos um homem branco. — Vocês são tão maus, — riu Callie. — Mas agora me sinto mal. Talvez nós fomos muito maus para a Brenda. Abel revirou os olhos. —Eu acho que se ela não aguenta o calor... — Então que saia da maldita cozinha, — terminou Mizz Ivory. — Olé! Callie riu para os dois comediantes. — Ainda bem que vocês decidiram vir. Teria ficado aqui muito sozinha. Chris disse que eu não seria uma vela, mas eu sei que ele só estava sendo simpático. — Bem, eu não gosto daquela Brenda, — disse Abel. — Ela é muito... — Superficial? — Arriscou Ivory. — Sim, isso. Era bom saber que não era a única que se sentia


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daquela maneira em relação à namorada do Chris, mas ainda assim... talvez tivessem sido muito maus. — Talvez fosse melhor fazermos como o Chris sugeriu e deixá-la em paz. Quero dizer... mal a conhecemos e nunca sabemos... ela até pode ser simpática. Ivory bufou. — Como quiser, querida. — Esqueçamos a Brenda, — Abel pegou na mão de Callie. — Como vão as coisas entre você e o meu irmão? — Acho que bem. Ele me obriga a fazer exercício e me ensina a comer saudável. — Não há faísca? Callie riu disso. — Faíscas? Abel, ele ainda acha que eu sou um homem, um homem gay. Ivory espreitou-a. — Querida, não parece um homem. Talvez um pouco masculinizada porque, bem... olha para o que está vestido! É um desastre da moda. Callie olhou para os seus jeans pretos, que eram um tamanho maior e a sua camiseta polo azul. — O que tem de errado com o que tenho vestido? — Cal, — Abel olhou-o, — comprou essas roupas antes ou depois de Chris te ter confundido com um homem?


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— Hum... antes? — Vê! — Ivory apontou uma unha roxa para ela. — Com esse corte de cabelo e as suas roupas masculinas, não admira que Chris te tenha confundido com um homem. Se Abel e eu não tivéssemos uns bons olhos, também teríamos te confundido. Querida, tem que se vestir melhor. Os ombros de Callie caíram. Eles não precisavam lhe dizer aquilo que ela já sabia. — Mas é difícil encontrar roupas femininas para o meu tamanho. — Encomenda online, — sugeriu Ivory. Callie deu de ombros. — Agora é tarde. Chris já me vê como um homem. — Diz a verdade, — disse Abel. Callie abanou a cabeça. — Ainda tenho medo... Não estou preparada para lhe dizer a verdade. — Pobrezinha. — Ivory afagou-lhe a cabeça. — Se enterrou num buraco bem fundo, hum? Callie assentiu. — Sim. — O que eu me pergunto, — começou Abel, — é o que é que o meu irmão vai pensar quando começar a perder todo esse peso e começar a parecer cada vez mais uma mulher.


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Callie congelou. Caramba! Ela não tinha pensado nisso! Antes de lhes perguntar o que podia fazer, a porta abriu e Chris entrou seguido por Brenda. — Desculpem, — Brenda sorriu para eles, — apenas precisava de ar fresco. — Pensei que tivesse ido aos lavabos femininos, — disse Abel e Callie cutucou a perna dele quando Chris o olhou obscuramente. — Bem. — Mizz Ivory levantou-se. — Uma vez que o nosso empregado está levando algum tempo para vir aqui, porque não vamos para as traseiras e jogamos golfe? Hum? Alguém? — Ok. — Callie disparou. — Parece-me bem. — Qualquer coisa para quebrar a grande tensão que se tinha instalado. Dez minutos mais tarde, estavam na parte de trás do edifício do parque de diversões, jogando mini golfe, sob o céu da noite. Cada jogador tinha a sua bola colorida e tacos. Callie observou Chris indo para trás de Brenda para ajudá-la. O casal riu quando Brenda errou o buraco, mas Chris recompensou-a com um beijo na testa. — Cal, — chamou Chris, — é a sua vez, cara.


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Callie arrastou os pés em direção a eles e parou ao lado de Chris. — Ok. Estou aqui. — Força, — Chris encorajou-a com um sorriso, de repente bem-humorado novamente. — Não falhe. — Boa sorte, — Brenda abriu-lhe um sorriso e sorriu para Chris. Cadela, pensou Callie sombriamente, colocando a sua bola no local certo. Chris e Brenda afastaram-se enquanto ela posicionava o seu corpo para acertar na bola com o seu taco. Aquela mulher realmente provocava-lhe os nervos. Parecia que cada vez que Callie estava por perto, Brenda tinha que estar toda derretida com Chris como se ela estivesse regozijando-se sobre o fato de Chris ser o homem dela. Provavelmente

ela

pensa

que

eu

sou

gay.

As

sobrancelhas de Callie franziram em concentração enquanto olhava para a bola, imaginado que era a cabeça de Brenda. Porque é que a Brenda parecia ser tão ciumenta da sua relação com Chris? Devia ser Callie a ter ciúmes, e tinha mesmo. Brenda tinha o que ela não tinha. A aparência, o corpo de matadora, o homem sexy. Callie resistiu à necessidade de esmagar a bola de golfe com o taco e preferiu bater suavemente. A bola vermelha rolou até passar pelas outras bolas e entrar no buraco.


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— Boa jogada, Cal! — Chris elogiou-a, batendo palmas. Callie riu. — Uau! — Ela ergueu o taco e sacudiu-o animadamente. — Viu isto, Chris? — Ela virou — Viu... — o taco escorregou-lhe da mão e atingiu em cheio o rosto de Brenda. — Oh meu Deus! — Brenda! — Chris gritou e apanhou a sua namorada. Brenda gemeu, esfregando a sua testa vermelha, onde o taco a atingiu. —

Lamento

tanto!

Callie

olhou

para

Brenda,

aterrorizada. A minha má sorte atacou de novo! — Oh céus. — Abel e Ivory aproximaram-se de Callie. — Ela está bem, Chris? — Estou bem, — disse Brenda, ainda esfregando a testa. — Chris, eu acho que quero ir para casa. — Mas nós mal começamos a jogar, — Ivory protestou. —E ainda nem sequer comemos. — Tem certeza que quer ir para casa, querida? — Perguntou Chris a Brenda. — Se quiser se sentar... — Quero ir para casa. — Brenda olhou para ele. — Agora. Chris suspirou. — Está bem. Eu te levo para casa. —


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Ele olhou para o seu irmão. — Pode levar o Cal para casa? Eu vou ficar com a Brenda. — Claro, — Abel assentiu. Os ombros de Callie caíram, observando Chris levar Brenda para fora do portão. Ele nem sequer olhou para trás. — Tornei a fazer asneira, — gemeu ela. — Pronto, pronto, — Abel afagou-lhe o ombro. — Vê desta maneira, ela provavelmente fez algo para merecer. Então, provavelmente, fez um favor a alguém, querida. Callie gemeu novamente e baixou a cabeça. Nem sequer os mimos de Mizz Ivory a fizeram sentir melhor. Neste momento, provavelmente Brenda estava dizendo a Chris para ficar longe dela.

Nessa

mesma

noite,

por

volta

da

meia-noite,

a

campainha de Callie tocou. Usando o seu preferido pijama roxo, que as suas irmãs disseram que ela parecia o Barney, Callie arrastou-se para fora da cama até à porta. Quem poderia ser àquela hora? O


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mundo não podia a deixar lastimar-se e ver uma maratona de Crepúsculo? — Quem é? — disse Callie e abriu a porta. — Olá. — Chris sorriu inseguro para ela, mãos enfiadas nos bolsos dos seus jeans. — Se importa que eu entre? — C-claro. — Callie afastou-se rapidamente para deixálo entrar. Ela tentou organizar o seu cabelo de cama, quando ele virou as costas e parou quando ele olhou para ela. — Desculpa aparecer a esta hora. Callie abanou a cabeça, fechando e trancando a porta. — N-não. Eu não me importo. Nem sequer estava dormindo. — Gah! Porque estava ela, de repente, tão nervosa? Não era a primeira vez que Chris aparecia no apartamento dela a esta hora. Muitas vezes ficaram acordados a noite toda para verem filmes. — Hum, — ela aproximou-se dele. — Aconteceu alguma coisa? Pensei que estivesse com a Brenda. Chris suspirou, correndo uma mão pelo cabelo. — E estava... mas discutimos. — Sobre? Chris deu de ombros. — Coisas.


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Callie não estava acreditando. — Foi sobre mim, não foi? Chris, desculpa. Não tinha intenção de lhe acertar com o taco. Chris riu. — Eu sei que não. — Ela está zangada comigo, não está? Provavelmente nunca mais vai me ver. — Ótimo, pensou Callie. Eu também não a quero ver. — Não é isso, ela pensou... — Chris interrompeu-se, franzindo as sobrancelhas. — Pensou o quê? — Ela queria que eu acabasse a minha amizade com você. Eu sabia. — E o que é que você disse? — Eu disse-lhe que ela estava sendo dramática. — E o que é que ela disse? Chris franziu a testa. — Ela acha que... deixa pra lá, esquece. É estúpido. Callie olhou para ele. — O que é que ela acha, Chris? Chris abaixou a cabeça e ergueu os olhos, olhando para ela sob as pestanas. — Ela pensa que você gosta de mim e


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que foi por isso que o meu irmão e o seu amigo foram maus para ela. — Huh. — Callie mordeu nervosamente o seu lábio inferior. Bem, caramba. — E o que é que você acha? — Eu acho que ela está sendo paranoica. — Vai parar de ser meu amigo? Chris olhou-a secamente. — Estaria eu aqui se já não quisesse ser mais seu amigo? Callie riu nervosamente. — Ah, sim, tem razão. — Ainda tem cerveja na geladeira? Ela assentiu. — Sim. Muita. — Ela só comprava essas coisas para Chris e nunca as tocava. — Ótimo. — Chris dirigiu-se à cozinha dela. — Porque vou me embebedar completamente. Trinta minutos e dez garrafas depois, Chris estava deitado na cama dela e rindo histericamente para o rosto de Edward Cullen na televisão. — Cara, — ele riu, — mas que maricas! Ele está tão bêbedo, pensou Callie, deliciada com a visão dele na cama dela. Lá estava sentada na cama, de costas encostadas à cabeceira da cama enquanto Chris estava de


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costas ao seu lado. Da posição dela, ela podia admirar o corpo delicioso dele com a sua larga estrutura dominando metade da cama. — Não acredito que as garotas ficam loucas por ele, — disse Chris, balançando a cabeça. Ele deu outro gole na sua décima Budweiser. — Deixa o Edward em paz, — Callie defendeu o seu homem de fantasia, — ele é querido e nobre. — Tretas, — resfolegou Chris. — Olha como ele é fraco e franzino comparado com o Jacob. — O Jacob também é bom. Mas o Edward é um pouco mais sensível. As garotas gostam disso. — Mulheres. — Chris revirou os olhos. — O que é que elas sabem? Passam tanto tempo fantasiando com homens que não existem e tentam fazer de nós, homens reais, à imagem deles. Que se dane isso. — Eu acho que está bem assim, Chris, — disse-lhe ela sinceramente,

sendo

muito

ousada.

Você

é

ótimo.

Qualquer garota teria muita sorte em te ter. Chris parou de beber e olhou para ela. — Acha que sim? Callie assentiu, erguendo os joelhos para si. — Sim.


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— Obrigado, cara. — Chris bateu-lhe levemente nos pés. — Também é ótimo. Callie olhou para ele, desejando ser essa garota de sorte. No seu coração, ela sabia que podia ser a mulher perfeita para ele, mas ao mesmo tempo não se sentia digna dele. Não da maneira como ela era agora. Talvez quando ela perdesse todos os quilos extras... — Brenda quer que eu conheça os pais dela, — admitiu Chris de repente. Callie pestanejou, surpreendida. — Oh? Hum... você quer? Chris deu de ombros, virando-se de lado para encará-la. — Não sei, cara. A Brenda é perfeita e tudo o mais, mas não sei se quero conhecer os pais dela. A seguir vai querer um anel de noivado. — Então não os conheça. — Ela já lhe disse que eu iria. Aquela

cadela

conspiradora,

pensou

Callie

sombriamente. Tentando prender Chris para o casamento, hã? Bem, é o que veremos! — Ela acha que está na hora de eu assentar, —


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suspirou Chris. — Talvez ela tenha razão. Não estou ficando mais novo. — Só tem vinte e quatro, Chris. — Os meus pais também estão me pressionando. Acho que uma vez que Abel é um caso perdido para eles, eu sou o único que pode lhes dar netos. — Não é nenhuma máquina de fazer bebês! — Callie exclamou com indignação, apesar de, secretamente, imaginar crianças de olhos azuis com as covinhas de Chris. — Eu deveria ter ficado no serviço militar. — Chris deixou-se cair de costas e olhou para o teto. — Lá ninguém me azucrinava para me casar. Callie olhou para ele, completamente surpresa. — Não sabia que tinha estado no serviço militar. — Porque é que ele nunca mencionara isso antes? — Não é o único com segredos, — murmurou Chris. O coração de Callie parou. — O-o que quer dizer? — Nunca me disse que era dono deste edifício, até discutirmos. — Oh. — Callie suspirou de alívio. O seu grande segredo estava a salvo. — Oh... bem. Você nunca me perguntou e


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nunca surgiu como assunto. — Hum. — Chris virou-se e colocou a garrafa no chão antes de agarrar e abrir outra. — Porque é que saiu do serviço militar? — Perguntou ela, curiosa pela vida que nunca soube que ele tinha vivido. — Fui destacado para o Iraque. — Ele ergueu dois dedos. — Duas vezes. — Que idade tinha, quando foi pela primeira vez? — Dezoito. Os olhos de Callie arregalaram-se. — Uau. Era uma criança. Chris meneou a cabeça. — No serviço militar, não era. Vi coisas... fiz coisas das quais não me orgulho. Callie sofreu por ele. — Deve ter ficado aterrorizado. — Não, no início não estava. Senti-me grande e mau, um

verdadeiro

soldado

americano.

Um

herói.

Depois

aconteceram os ataques e perdi quase todos os amigos que fiz. — Chris olhou para a garrafa na sua mão, perdido na recordação da guerra. — Eu mal consegui escapar vivo. Havia explosões muito próximas. — Quer falar sobre isso?


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Ele balançou a cabeça. — Não. Eu nunca quero dizer a ninguém o que eu vi... o que eu tive de fazer para manter vivo o resto dos meus homens. — Ele fechou os olhos, como se a recordação o magoasse. — Desisti assim que acabou a minha missão. — Por quanto tempo? — Quatro anos. — Chris... — ela hesitou, sem saber o que dizer ou limpar o ar doloroso no seu rosto. — Lamento. — Eu também. — E o que ele quis dizer com aquilo, ela não sabia. Ele não desenvolveu. Chris fechou os olhos e rapidamente adormeceu. Callie tirou-lhe da mão a garrafa cheia cerveja e colocoua na mesa de cabeceira. Saindo da cama, ela foi até ao armário e tirou um grande cobertor azul e colocou-o em cima dele. — Deve ter passado por muito no serviço militar, — disse para ele por simpatia. Desligou a televisão e subiu na cama com ele, aconchegando-se ao seu lado. — Boa noite, meu amor. Que os seus sonhos sejam desprovidos de pesadelos. — E antes de perder a coragem, ela inclinou-se para frente e deu-lhe um beijo na testa.


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Suspirando, ela instalou-se de lado e olhou para ele. Ele parecia um rapazinho inocente no seu pequeno sono. Callie fechou os olhos, mas uma hora depois ela caiu no sono.


Callie acordou com o rosto de Chris a escassos centímetros sobre o dela. Assustada,

Callie

guinchou

e

saltou

para

frente,

embatendo com a sua testa na dele. Ambos sibilaram, esfregando as testas e olhando um para o outro. — Ei, para que raios foi isso? — Chris disparou para ela. — Eu!? — Exclamou Callie, o seu coração que batia descontroladamente contra o peito. — E você!? Porque é que estava olhando para mim, como se fosse um pervertido? Chris bufou e saiu da cama. — Não sou nenhum pervertido. Estava olhando para você por que... — Porque o quê? — Perguntou Callie quando ele parou. Ela pressionou a sua mão direita contra o peito, tentando


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acalmar o furioso bater do seu coração. Ele deu-lhe um tremendo susto! — Murmurou dormindo. Callie olhou para ele, de boca aberta. — Estava olhando para mim porque eu murmurava? — Também parece afeminado. Aquela declaração fez o coração dela parar. — O-o quê? Chris penteou o cabelo com os seus dedos e olhou-a. — Sabe... parece afeminado quando está dormindo. Callie engoliu com dificuldade. — Ha! P-primeiro acusame de ser gay e agora pareço uma garota? — Callie riu. — É mesmo demais. — Ela continuou a rir, provavelmente parecendo lunática. Os olhos de Chris estreitaram-se para ela e ela riu mais ainda. Abanado a cabeça, Chris deu de ombros. — Tem razão, foi mau. Mas lembra-me Abel quando ele era maior. Ele parecia um pouco feminino quando tinha excesso de peso e quando o perdeu... caramba, ele ainda parece feminino. Não que ele se importasse, o homem adora a sua aparência. Huh. Certamente que isso explica porque é que ele a confundiu com um homem. E como ela se vestia com roupas


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de rapaz com penteado de rapaz, sem contar que estava mentindo todo este tempo sobre o seu gênero, não havia realmente nenhuma razão para ele pensar que ela era de fato... uma ela. Ela nunca o incitou a acreditar que era uma mulher. Callie parou de rir. — Vocês dois são parecidos. Chris olhou para ela. — Está dizendo que eu pareço feminino? Ela abanou a cabeça. — Não, quero dizer... a cor dos seus olhos e os trejeitos. São ambos muito convencidos. — E Chris é bonito, mas de uma maneira masculina. — Está no sangue, — Chris franziu a testa. — Vamos lá, levanta. Vou fazer o café da manhã. Callie olhou para o relógio da cômoda e fez uma careta. Café da manhã? Já passava do meio-dia. — É segunda-feira. Não trabalha? — Já liguei para lá. — Disse-lhe Chris, já saindo pela porta. E foi quando ela reparou. Chris só usava boxers azuis. De queixo caído, ela o viu sair confiantemente para fora do quarto, como se fosse o dono do pedaço. Atirando com os cobertores para longe, ela quase ficou emaranhada nos lençóis e praticamente caiu da cama para


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correr atrás dele. Parando na frente da porta do quarto, ela teve uma boa visão dele na cozinha, procurando nos armários de cima por utensílios de cozinha. Ela inclinou-se na ombreira da porta, admirando os seus músculos e aqueles tão sensuais abdominais. Apesar das pernas dele serem um pouco peludas, ela adorava quão fortes e firmes eram. Hubba, hubba, pensou Callie, passando a língua no seu lábio inferior, porque se sentiu um pouco seca. Meu, meu Deus esmerou-se quando estava criando Chris. Era como se Ele tivesse batido com as mãos e gritado:

QUE HAJA

SENSUALIDADE, e lá nasceu Chris. — Vem me ajudar a fazer o café da manhã, — Disse Chris quando a viu perto da porta. — Quer os seus ovos mexidos ou estrelados? — Mexidos, — disse Callie, notando que o cabelo de Chris estava um pouco despenteado, mas dava-lhe uma aparência sexy. Chris já estava aquecendo a frigideira em cima do fogão. — Ovos estrelados, — disse ele, fazendo uma exibição e quebrando os ovos na frigideira antes de derramar as gemas. — Saindo. Rindo, Callie entrou na cozinha e ligou o pequeno rádio


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roxo que estava na bancada. — Gosto de ouvir música quando cozinho. A comida fica melhor. — Ah sim? — Chris ergueu-lhe uma sobrancelha. — E que tal se cantarmos para a nossa refeição? Callie riu quando ele uivou e acompanhou a canção antiga que passava na rádio. Well shake it up baby now!1Ele usou a espátula como microfone, rebolando os quadris para frente e para trás. — Twist and shout! Come on , come on , come on baby now! Come on and work it on out! Batendo palmas, Callie juntou-se a ele. — Well work it on out, honey! — Ela agarrou na grande colher de pau e usou-a como microfone. — You know you look so good! Chris apontou a espátula para ela. — Look so good! Callie estalou os dedos e girou-se suavemente. — You know you got me goin' now! Just like I knew you would. Ambos uivaram: — Oooooooooooh! E foi assim que eles passaram os dois minutos seguintes, cozinhando e cantando juntamente com The Beatles - Twist and Shout. Bem, o Chris cozinhou e cantou enquanto Callie dançava e cantava juntamente com ele. 1 Versos da música: Twist And Shout da banda The Beatles.


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Quando a campainha tocou, ela e Chris riam tão alto que quase não ouviram. — Espera, — Callie arquejou, acenando com a colher de pau para ele, antes de pousá-la na bancada. — Já volto. — Ela foi para a porta de entrada, ainda rindo quando a abriu. — Callie! O sorriso de Callie congelou e a gargalhada morreu na garganta. Os olhos dela abriram-se tanto que doeram. — SSarah! — Olá! — A sua irmã Sarah sorriu lindamente para ela, parecendo bonita num vestido florido de Verão. — Bem, não está feliz por nos ver? A mãe tem pedido para nos visitar enquanto estamos em Seattle, mas você nunca aparece por isso... aqui estamos nós. — Surpresa! — Exclamou Hannah, esticando as mãos para frente. Tal como a Sarah, ela também usava um vestido de verão, mas completamente amarelo. Oh merda. Callie olhou para as suas irmãs. — P-pensei que vocês se tivessem ido embora no domingo. —

Os

nossos

pais

foram,

Hannah

sorriu

brilhantemente, — Mas Sarah e eu decidimos ficar para te visitar. O Greg também está aqui.


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Mais merda. — E então? — Sarah ergueu aquela sobrancelha condescendente que lhe era familiar. — Não vai nos deixar entrar? Callie continuou a olhar para elas, completamente atônita. — Uuuuuuuuuuuuuuuuuh... — Cal? — chamou Chris da cozinha. — Quem é? Oh não! Chris! Callie olhou para trás dela. Como é que ela se esqueceu dele!? — Quem é? — Perguntou Hannah em voz alta, tentando espreitar para dentro. — Ninguém. — Callie saiu rapidamente e fechou a porta. — Hum... ninguém. — Bem, não parecia ninguém,— Sarah zombou, soando como uma beldade atrevida do Sul. — Um homem está dentro do seu apartamento, Callie. Hannah guinchou. — Ooooh! Quem é ele? Diz! Diz! — É apenas o meu vizinho, — disse Callie, bloqueando a porta para que Hannah não irrompesse pelo apartamento. — Apenas? — Sarah ergueu as suas sobrancelhas louras. — O que é que ele está fazendo aí?


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— Estamos fazendo o café da manhã, Sarah. — Mas já passa muito do meio-dia. Callie revirou os olhos. Ela não esquece desta parte sobre Sarah, Miss Abelha Rainha. — E daí? Sarah olhou para a sua irmã mais nova, um pouco assustada por ter usado um tom tão hostil. Callie havia sido sempre tímida, mas agora ela parecia... um pouco sem rodeios. — Hmph! — Sarah levantou a cabeça. — Deixa-nos entrar. — Não. — Callie olhou para ela. — Lamento, Sarah, mas esta a é a minha casa, não é a da mamãe. Não podem me obrigar a fazer algo que eu não quero. Os olhos de Hannah arregalaram-se, intercalando o olhar entre Sarah e ela. Callie nunca tinha enfrentado Sarah desta maneira. Parece que a irmã delas havia crescido! — Cal. — Chris abriu a porta. — O que está acontecendo? Todas as senhoras congelaram, olhando para Chris e para a sua quase nudez, de olhos arregalados. Callie gemeu, Hannah abanou-se com uma mão e Sarah piscou para ele. — Quem, — Sarah sibilou, — é este?


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— Chris, — disse rapidamente Callie, empurrando Chris para dentro. — O meu vizinho! Já tinha dito. — Quando Chris não conseguiu entrar completamente, ela empurrou-o com o cotovelo. Chris entrou no apartamento com um doloroso — Oof! — Fiquem aí, — apontou ela em sinal de aviso, para as suas irmãs. — Já volto. — Ela bateu com a porta nos rostos assustados delas e trancou-a, por precaução. Respirando fundo, ela virou e pressionou as costas contra a porta. Chris olhava para ela, esfregando o estômago. — Para que raios foi aquilo!? Callie guinchou. — Desculpa. Ainda a esfregar o estômago, ele olhou para a porta atrás dela. — Quem eram elas? — Uuuuuh. — Pensa Callie pensa! — A minha irmã e a minha... ex-noiva? As sobrancelhas de Chris elevaram-se. — Huh. A sério? Qual delas? Callie olhou para ele, como se fosse um veado apanhado nos faróis. — Qual delas o quê? — Qual delas é a sua ex? A mais baixa ou a loura mais


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alta? — A mais alta. Chris assentiu. — Bem... não vai deixá-las entrar? — Não! — Callie abanou a cabeça, espalhando os braços pela porta. — Não! Hum... Eu... eu ainda não consegui esquecê-la. Eu estou, hum... não quero vê-la agora. — Oh Callie sua mentirosa gorda! Ela estava enterrando-se cada vez mais. Chris olhou para ela com simpatia. — Caramba, lamento. Quer que eu lhe diga para ir embora? Callie abanou a cabeça. — N-não. Eu digo. Você fica aqui, ok? Por favor? Franzindo a testa, Chris assentiu. — Claro. Vou acabar o café da manhã e pôr a mesa. Vai falar com ela. Leva o tempo que quiser. — Obrigado. — Sentindo-se extremamente culpada por estar mentindo, porque ele estava sendo tão compreensivo, Callie destrancou a porta e voou para fora. Fechou-a firmemente

atrás

dela,

antes

que

as

suas

irmãs

se

aproveitassem e entrassem. — Oh céus. — Hannah abanou-se. — Aquele homem é


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bom! Callie sorriu fracamente, mas sentiu uma ponta de orgulho. — Sim, pois é. — Parece que está se dando melhor do que pensávamos, — admitiu Sarah. — A mamãe tinha a certeza que você correria de volta para casa, após um mês de ter saído. — Bem, azar o dela, — estalou Callie. — Como podem ver, eu estou muito bem, porque é que não vão agora para casa? Hannah fez beicinho. — Mas eu quero falar com Chris. — Ele é meu, — rosnou Callie antes de se impedir. Oh bolas. — Teu? — Sarah cruzou os braços. — Bem, afinal de contas, parece que não anseias pelo Greg. — Callie, — disse Hannah, olhando para ela. — O que raios fez ao seu cabelo? A mamãe vai ter um ataque quando souber que cortou todos aqueles cachos dourados e pintou! — O cabelo é meu, — estalou Callie. — Posso fazer o que quiser com ele. — E que atitude é esta? — Sarah bufou. — Seattle é má para você, querida.


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— Oh se cale, Sarah, — disse Callie, zombando da pronúncia de beleza do Sul atrevida. — Parece um rapaz, — Sarah apontou acidamente. — E você é uma cadela. Hannah engasgou-se. — Oh... uau. Callie isso foi um pouco desnecessário, não acha? Viemos aqui para te visitar. —

Não

vieram

não.

Callie

riu

sem

humor,

completamente sem paciência para as suas irmãs mais velhas. — Vocês vieram aqui para verem se eu rastejaria atrás de vocês, quando as visse. Provavelmente até para espiar. Certo, Sarah? — Está sendo desrespeitosa, — Sarah bateu com o pé. — Não tolero, Callie... — Não precisa, — Callie sorriu docemente para ambas. — porque já acabamos. — Continua a agir assim, — disse Sarah, de repente presunçosa, — e não te convido para o meu casamento. Callie pestanejou. — Casamento? Sarah tirou um pequeno envelope da sua bolsa cor-derosa. Sorrindo, ela estendeu a carta para Callie. — Sim, o meu casamento. Vou me casar... com o Gregory.


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Callie olhou para o convite. Ela não teve coragem de aceitá-lo, mas, ao mesmo tempo, não sentia nada. Nem inveja ou ódio. Sarah ia casar com o seu ex-noivo, que não era de todo uma surpresa para ela. Sarah sempre teve um olho para Greg. Olhando para sua irmã mais velha dois anos, Callie sorriu docemente para ela. — Uau, parabéns, Sarah! Te desejo uma vida feliz com os meus restos. Adeusinho. — Callie virou-se e abriu a porta. Ela entrou, bateu com a porta e trancou-a. — Não correu bem? — Perguntou-lhe Chris assim que ela entrou na cozinha. Callie sorriu, sentindo-se como uma pessoa nova. — Não, na verdade... correu muito bem. — O que é que ela queria? — Hum... — Callie pigarreou. — Ela disse que, hum... vai casar-se novamente. — Huh. — Chris olhou em direção à porta. — Então acho que é bom para ela. — Ele parou e observou Callie. — Está bem? Callie assentiu. Na verdade, estava mesmo. — Sim,


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estou ótima. Acho que não estou tão caído por ela como pensava. — Ainda bem para você. — Chris deu a volta à mesa da cozinha e afagou-lhe masculinamente o ombro. — Está seguindo em frente, é um grande passo. Estou orgulhoso de você, cara. E, além disso, ela parecia um pouco metida a besta para você. Callie olhou para ele, tomada de surpresa. — Então... não a achou bonita? — Os homens sempre achavam que Sarah era bonita. Chris franziu a testa e deu de ombros. — Sim, ela é bonita, mas é muito superior para o meu gosto. Ela tem ar de querer que o seu marido satisfaça todos os seus caprichos. Tenho pena do sujeito que irá casar com ela. Callie riu. — Eu não tenho. — Boa viagem para Greg. Sarah pode ficar com ele. E se Chris foi capaz de assumir corretamente todas aquelas coisas sobre sua irmã, ela apenas desejava que ele fosse tão perceptivo com Brenda. Chris ergueu-lhe uma sobrancelha, mas não comentou. Ao invés, ele mudou de assunto. — Vamos comer. Depois vamos para o ginásio. Ela gemeu. — Outra vez? Chris vai me matar!


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— Ei. — Chris apontou um dedo para ela. — Sem preguiça. Se demorar demais, vai ficar indolente novamente. Callie mostrou-lhe a língua e ele riu, sentando-se ao lado dela. Por dentro, apesar de odiar a ideia de voltar a fazer exercício, ela estava deliciada de saber que iria passar o resto do dia com Chris. Enquanto ela se sentava ao lado dele, comendo e conversando, ela olhava de soslaio para ele, adorando o seu sorriso, a sua gargalhada, o calor nos seus olhos azuis. Ele podia pensar que ela era um homem, mas sob a atenção dele, Callie sentia-se a mulher mais sortuda do mundo.


As três semanas seguintes foram tortuosas e doces para Callie. Tortuosas porque todos os dias Chris arrastava-a para o exercício, eventualmente obrigando-a a se juntar a ele para fazer YMCA e doces porque, todos os dias, ela podia passar horas com o homem que amava e adorava. Combinado com uma dieta severa e exercícios de rotina, Callie também estava feliz porque todo aquele trabalho estava compensando porque ela estava perdendo peso que nem uma louca! Chris era ao mesmo tempo um parceiro divertido e severo e no final da terceira semana ela havia começado mesmo a fazer exercício, e já tinha perdido nove quilos. — Quanto mais pesado for, — Chris tinha explicado a


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ela quando olhou para ele com espanto após se pesar, — mais rapidamente perde peso. Para Callie, apesar de ela ainda ter um longo caminho a percorrer para ficar magra, o progresso de ter menos nove quilos era animado. Um dia ela olhou no espelho e ficou espantada que o seu rosto já não estava tão rechonchudo. Sim, ainda tinha bochechas gorduchas, mas não tanto como antes. O seu rosto estava voltando ao normal assim como o seu queixo. Ela mal tinha queixo duplo! Ela ficou tão animada com a descoberta, que saiu do seu apartamento correndo, bateu na porta de Chris e atacouo assim que ele abriu a porta. A animação e felicidade dela eram tão contagiantes que Chris riu com ela, elogiando-a por ser boa desportista e ter-se agarrado à dieta que ele lhe dera. No fim, ele prometeu-lhe que a levaria para celebrar, só os dois. E essa era a maior recompensa que ele poderia lhe dar. Sair apenas os dois para comemorarem? Céus!

Por outro lado, enquanto Chris estava animado e feliz


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pelo seu amigo, Cal, ele não podia livrar-se da sensação que algo estranho crescia com a amizade deles. Havia alturas em que ele se via olhando para Cal com divertimento, o seu cérebro, de repente, tentando descortinar porque é que se sentia esquisito perto dele. Havia algo em Cal que o fascinava. Quando é que esta fascinação tinha começado? Provavelmente no dia em que acordara na cama de Cal, lembrando-se do que tinham falado na noite anterior. Ele não fazia ideia do que o compeliu a falar com Cal sobre o seu tempo no serviço militar... Ele nunca falou sobre isso com ninguém. Nem sequer com o seu irmão ou pais. Chris pensou ter trancado essas memórias e sentimentos tão profundamente dentro de si, que ficou espantado por ter saído tudo na frente do seu novo amigo. Francamente, estes sentimentos estranhos e confusos que Cal agitava dentro dele e que o assustavam muito. Ele nunca tinha se sentido atraído antes por um homem, mas se ele fosse sincero consigo mesmo, não podia negar que decididamente havia algo em Cal que o atraía. E a cada dia que passava, esses sentimentos fortaleciam-se e Chris estava ficando cada vez mais confuso. Mas o que raios havia em Cal que era tão intrigante? Talvez

fosse

porque

o

outro

homem

se

comportava


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estranhamente como uma mulher, algo a que ele estava familiarizado, uma vez que tinha um escandaloso gay como irmão. Então era isso? Estaria Cal mentindo? Ele negou antes, mas e se Cal fosse mesmo gay e não se tivesse percebido... ou provavelmente não o admitisse para si mesmo. Ou talvez ele seja mesmo um homem muito afeminado, pensou Chris, zombando de si mesmo ao espelho. Ele já conheceu homens assim, homens que agiam um pouco afeminados, mas que eram héteros. — Está pensando muito sobre isso, cara, — disse ele a si mesmo quando pousou o pente e se afastou do espelho da casa de banho. — Pensando demais. — Chris entrou dentro do seu quarto e tirou umas calças pretas que estavam em cima da cama e vestiu-as. Estava vestindo uma camisa preta quando a campainha tocou. Endireitando a camisa, ele saiu do quarto e atendeu a porta. — Então para onde vai me levar? — Perguntou Cal assim que a porta se abriu. Ele entrou e olhou para Chris, animação e curiosidade iluminaram o seu rosto redondo. — Então? Vamos lá, pare de fazer segredo. Me diga! Balançando a cabeça, Chris fechou a porta, lábios torcendo de divertimento para a ânsia e impaciência do seu


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amigo. — Bom dia para você também, Cal. — É, na verdade, meio-dia, — disse Cal. — Não vim muito cedo, não é? Disse que me levaria para sair na parte da tarde. — Não, — riu Chris, — na verdade, veio na hora certa. — Ótimo. — Cal devolveu-lhe o sorriso. — Então aonde vai me levar? Chris riu e contornou Cal para chegar até à cozinha. — É surpresa. Tenha um pouco mais de paciência, cara. — Chris, — Cal choramingou atrás dele. — Está me torturando de propósito! Chris ignorou-o, andando casualmente na sua cozinha com mosaicos pretos e brancos. Ele abriu branca

e

tirou

uma

embalagem

de

suco

sua geladeira de

laranja.

— Suco? — Ofereceu a Cal. E tal como esperava, Cal olhou para ele. — Não obrigado. Rindo, Chris tirou um copo do armário e serviu-se de suco lentamente. Vagarosamente, ele encostou o seu quadril na bancada e levou o seu tempo levando o copo à boca, observando todo o tempo, a expressão carrancuda de Cal.


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— Eu sei o que está fazendo, — Cal resmungou, irritado. — Está novamente me provocando. Não acho divertido. — Bufando, Cal cruzou os braços e continuou a mostrar-lhe a cara emburrada. Chris terminou o seu suco de laranja e virou para laválo na pia, abrindo a torneira e enxaguando o copo com lentidão

deliberada.

Cantarolando

agradavelmente,

ele

agarrou no pano branco e secou o copo com ele. Ainda cantarolando, ele abriu o armário e guardou o copo. Quando ele se virou para lavar outro copo, Cal fartou-se e exclamou, — Chris!! Rindo, Chris ergueu as mãos. — Ok, ok, já percebi. — Havia algo de divertido em irritar e provocar Cal. — Quer saber para aonde vou te levar. Cal iluminou-se. — Aonde vai me levar? — Conhecer os meus pais. Cal andou para trás e pestanejou em surpresa para ele. — Os seus pais? Quer dizer os seus... pais? — As bochechas de Cal ficaram rosa. Por alguma razão, Chris também sentiu o seu rosto enrubescer. Para encobrir o seu súbito embaraço, ele deu de ombros e tentou parecer casual. — Sim, lembra que eu te


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disse que eles tinham uma Deli¹? — Oh. — Cal recompôs-se. — Sim, certo. Agora lembro. Então vai me levar para... — Comer lá, — terminou Chris. — Eles têm uma comida realmente muito boa, e muito saudável. — Oh. — Cal sorriu brilhantemente. — Fico feliz por ir finalmente conhecê-los. Caiu um silêncio estranho na cozinha. Pigarreando, Chris aproximou-se de Cal e perguntou, — Então, está pronto para sair? Cal assentiu, de repente envergonhado. — Hum... acha que o que estou vestindo está bom? Chris

parou

e

observou

as

roupas

de

Cal.

Estranhamente, eles quase coincidiram. O Cal também tinha jeans pretos, mas ao contrário de Chris, a sua camisa era cinza. Chris percebeu que ele tinha o cabelo crescendo. Já não tinha corte de cabelo tigela e usava uma versão mais feminina, pendurado até ao queixo de Cal. — Uh. — Chris pigarreou, sentindo-se estranhamente desconfortável. — Está muito bem. Provavelmente devia ¹Delicatessen=loja de comida


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pentear o cabelo para trás. Estando assim pendurado, te dá um ar mais feminino. — Oh. — Cal estendeu a mão e acariciou seu cabelo. — Hum. Ok. — Vou buscar o pente. — Chris caminhou a passos largos para fora da cozinha e até ao quarto. Regressou alguns segundos mais tarde com um pente preto na mão. — Toma, — disse ele, aproximando-se de Cal, — deixa-me te mostrar como se faz. Chris colocou os dentes do pente contra a testa de Cal e penteou o cabelo castanho-escuro três vezes. Ele tinha se perdido na concentração de colocar direito e perfeito o cabelo de Cal, e ficou um pouco assustado por ver que Cal olhava para ele enigmaticamente. Chris parou e também o olhou. Huh, pensou Chris. Cal tem uns olhos muito bonitos. Nunca tinha se dado conta. O seu amigo tinha grandes olhos cor de chocolate com um toque de ouro em volta da Iris. Eram realmente fascinantes. — C-Chris? — Cal piscou para ele. — Está bem? — Huh? Oh. — Chris afastou-se e sorriu inocentemente. — Pronto.


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— Obrigado. — Cal teve dificuldade em engolir e baixou o olhar, olhando para o chão. E foi quando o Chris percebeu que depois de ter perdido pouco mais de nove quilos, que Cal era na verdade bonito de uma maneira fofa. Se ele perdesse mais peso e ficasse com o seu peso normal, Cal será provavelmente muito atraente tal como era o seu irmão Abel. De uma maneira feminina. Provavelmente ainda mais. Quer isso fosse bom ou mau, Chris não tinha a certeza. Muitas garotas gostam de homens com aparência feminina. E muitos homens, pensou Chris, não iria gostar da direção que os seus pensamentos estavam indo, por isso parou de pensar. — Vamos lá, cara. — Ele indicou a porta com a cabeça. — Vamos embora. Cal ergueu o olhar e sorriu para ele. — O-ok. — Ele passou por Chris em direção à porta. Abrindo a porta, ele parou e olhou para Chris que olhava para ele. — Vem? Chris pestanejou e rapidamente assentiu. — Sim. Eu... eu te encontro lá em baixo. — Ok, — Cal sorriu timidamente para ele antes de sair e fechar a porta.


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Chris olhou para a porta fechada e, pela primeira vez, perguntou-se se Brenda teve razão este tempo todo. Cal teria mesmo uma paixonite por ele? Chris franziu a testa. Se isso fosse verdade, então ele se importaria que Cal tivesse uma paixonite por ele? Chris agarrou as chaves e a carteira na bancada, a ideia de Cal ter uma paixonite por ele perturbava-o ligeiramente. Colocou o pente preto em cima da bancada, a testa franzindo ainda mais. Por outro lado, talvez ele estivesse pensando muito sobre isso. Cal provavelmente apenas olhou para ele. — Sim, é isso, — Chris disse a si mesmo em voz alta, abrindo a porta e saindo. — Ele apenas olhou para mim. Pobrezinho, provavelmente tem adoração pelo herói. — Chris trancou a porta e caminhou pelo corredor. Ele parou perto das escadas que davam até lá em baixo e olhou para a porta castanha de Cal. — Chris? — Cal chamou-o lá de baixo. — Adoração de herói, — repetiu Chris. Assobiando, ele girou a argola das chaves no dedo e desceu as escadas.


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Vou conhecer os pais dele, pensou Callie, pirando por dentro. Ela sentou-se no banco do passageiro no carro do Chris, tão calma quanto conseguiu, mas por dentro, ela estava aos saltos como se fosse um desenho animado. Oh meu Deus! Vou conhecer os pais dele! Hah! Toma isso Brenda! Nem mesmo Brenda conheceu os pais de Chris, algo que ela sabia que a outra mulher estava incitando Chris para fazer. Chris tinha falado com Cal sobre sua relação com Brenda, admitindo que a mulher já começava a chateá-lo com todas essas expectativas. Então porque é que ele ainda estava com ela? Callie não fazia ideia. Ela desejava que ele já tivesse largado aquela mulher. — Os meus pais abriram a loja há cerca de dez anos, — estava Chris a dizer-lhe, algo que ele lhe tinha dito há meses atrás, mas deixou-o continuar. — O meu pai queria abrir a sua própria loja de sanduíches e a minha mãe acompanhouo. — Os seus pais parecem ótimos, — disse ela. — E são. Os melhores pais do mundo, quando não estão me chateando por causa de netos. — Os meus pais não prestam, — admitiu Callie.


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— Pensou que a minha irmã e noiva são esnobes? Devia conhecer a minha mãe e o marido dela, o meu padrasto. — Deve ter muitas saudades do seu pai, — disse Chris com empatia. Callie assentiu, sentindo um nó na garganta. — S-sim. Para mim, ele era o melhor pai do mundo. Ele nunca apontou as minhas imperfeições e me amava como eu era. Quando ele morreu... pensei que tivesse morrido também. — Odiou a sua mãe por ter voltado a casar? — Perguntou

Chris.

Ele

estava

surpreso

por

Cal

estar

finalmente se abrindo um pouco mais sobre sua família. — Na verdade, não. — Callie balançou a cabeça. — Eu sabia que ela estava sozinha. Eu acho que ela deve ter amado o meu pai, à sua maneira. Ela manteve o nome dele, mesmo depois de ter casado. Annie Picket-Greene. Richard não ficou satisfeito com isso, mas ninguém a conseguiu dissuadir. — Foi decente da parte dela, — comentou Chris. Callie olhou pela janela, lembrando-se do dia que a sua mãe havia anunciado que se ia casar novamente. — Não odeio a minha mãe por querer voltar a casar, mas fiquei ressentido por ter escolhido Richard. Ele era o melhor amigo e sócio do meu pai e eu odiava-o. Ele sempre elogiou as


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minhas irmãs, mas a mim? Ele sempre me tratou como fosse um objeto. É visto, mas não é ouvido. — O sujeito parece ser um grande idiota, — concordou Chris, virando o carro na esquina. — O que é que a sua mãe viu nele? — Ela estava sozinha, — disse Callie. — E acho que ter casado com Richard a fez sentir-se mais próxima do meu pai, apesar de nunca termos falado sobre isso. — Os seus pais devem ser ricos. — Sim, fortuna de família, mas nem todo o dinheiro do mundo pode trazer o meu pai de volta. — Lamento, Cal. Callie olhou para Chris e deu-lhe um pequeno sorriso. — Obrigado. Chris olhou para ela durante mais alguns segundos antes de se concentrar na estrada. — Sabe, — começou ele, — o seu pai é muito parecido com o meu. Vai adorá-lo. — Chris, se ele for como você, vou adorar. Aquilo apanhou-os um pouco desprevenidos, e durante alguns minutos ficou tudo no silêncio antes de Chris pigarrear e mostrar um sorriso charmoso para Callie. — Eu


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sei, sou fantástico, certo? Callie riu. — Sim. Dez minutos depois, chegaram em frente da C & A's Deli, no centro de Seattle. Callie saiu do carro e fechou a porta, olhando para o sinal vermelho, por cima da loja — O que quer dizer o C e o A? — Christopher e Abel, — disse-lhe Chris enquanto ele cotornava o carro. — O meu pai deu o meu nome e do meu irmão. — Que doce, — Callie sorriu. A loja tinha bom aspeto e estava confortavelmente entre duas mercearias. — Anda, — Chris deu-lhe um encontrão com o braço. — Vamos entrar para eu apresentá-los. Callie assentiu e seguiu-o. Os sinos que se encontravam acima da porta tocaram assim que eles entraram no edifício. Callie inalou o aroma dos sanduíches com um sorriso. A loja estava parcialmente cheia com clientes e Callie viu um homem e uma mulher atrás do balcão. — Chris! — A mulher, com cabelo loiro escuro num coque no alto da cabeça, sorriu abertamente para ele. Callie percebeu que era a mãe de Chris e Abel. Ela era uma mulher linda no fim dos seus quarenta anos, mal se notando


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quaisquer sinais de envelhecimento. Usava o uniforme da loja que era vermelho e preto, camisa vermelha e calça preta, juntamente com um avental branco. Até usava um chapéu preto, o qual tinha escrito as letras C & A em dourado. Abel é parecido com ela, pensou Callie, observando a mulher mais velha contornando o balcão para abraçar o seu filho mais novo. Abel e a sua mãe eram lindos, no sentido clássico. — Filho. — O homem mais velho atrás do balcão parecia-se muito com Chris. Então é assim que Chris vai ficar quando for mais velho, pensou Callie, admirando o Sr. Walker. Ele era um homem muito charmoso, com cabelo cor de areia, com umas madeixas brancas. Tinha o mesmo sorriso malicioso que Chris. Tal como a sua esposa, também ele usava o uniforme da loja e chapéu. — Ei, pai, — Chris acenou para o seu pai. — Como vai o negócio? — Vai andando, — Bradley Walker piscou o olho. — O que te traz aqui? — Queria mostrar a sua loja ao meu amigo. — Chris acenou para Callie. — Cal, esta é a minha linda mãe, Eliza Walker e o peido velho do seu marido, Bradley Walker.


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— Oh você! — A Sra. Walker bateu no braço de Chris, mas tinha um sorriso no rosto. — Chris, para de perturbar o seu pai. Rindo, Chris enrolou um braço em volta da cintura da sua mãe e deu-lhe um beijo na bochecha. — Mãe, pai, quero te apresentar Cal Picket. Ele vive no apartamento ao lado do meu. — Então você é o Cal. — A Sra. Walker sorriu para Callie. — O Abel nos contou tanto sobre você. O sorriso nos lábios de Callie congelou. — A-Abel? — Ótimo, o que é que Abel disse aos pais sobre ela? — Abel adiantou-se a mim, hã? — Chris fez uma careta. — O que é que ele disse? — Oh nada, — A Sra. Walker acenou graciosamente uma mão, recordando Callie de Abel. — Ele apenas disse que tinha um novo amigo e que está ajudando-o a perder peso. — Sim. — Assentiu Callie. — Sou eu. — Come um dos meus sanduíches, — o Sr. Walker sorriu para ela, — e vai te ajudar a perder peso mais depressa. — Para de fazer publicidade, pai, — zombou Chris,


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— estamos aqui para comer. — Ótimo! — A Sra. Walker foi para trás de Chris e abraçou Callie. — É bom te conhecer, querido. —

Hum.

Obrigado.

Callie

retornou

o

abraço,

parecendo insegura. Eliza Walker cheirava a rosas. E também cheirava a mãe. Quando foi a última vez que a sua mãe a abraçou? Callie nem se lembrava. — O que quer? — Perguntou o Sr. Walker a ela. — Temos muita coisa para escolher. Escolhe qualquer coisa e é por conta da casa. — Obrigada, pai. — Chris foi até ao balcão e observou as fatias de carne, que estavam por trás da janela de plástico. — Cal, vem aqui, cara, e pede o seu. Callie passou pela Sra. Walker e ficou ao lado de Chris. — Hmm. — Ela espreitou através da janela de plástico. — Hum... que tal um sanduíche de salame? — Ótimo. — O Sr. Walker abriu a caixa de pão. — Que tipo de pão querem? — Branco, por favor. — Devia comer de trigo, — disse-lhe Chris. — Tem menos calorias.


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Callie olhou para ele. — Odeio pão de trigo, sabe isso. Chris fez-lhe uma careta. — Não há nada de mal em pão de trigo. — Tem um sabor estranho. — Isso é porque não está habituado a comê-lo. — Ei! — Callie colocou um dedo no braço dele. — Pensei que esta fosse a minha celebração? O que quer dizer que posso escolher o que quero para comer. Por isso escolho pão branco. — Muito bem, — Chris rendeu-se. — Mas não se acostume. Callie mostrou-lhe a língua e ele riu. Sorrindo, Callie virou novamente a sua atenção para o Sr. Walker e congelou quando viu que os dois Walkers olhavam para eles. O Sr. Walker tinha um olhar perplexo no rosto e a Sra. Walker sorria para ela como se soubesse de algum segredo. Corando, Callie olhou rapidamente para o salame. — Hum. Salame com pão branco, por favor. Passaram mais de uma hora no deli. Callie riu com as histórias que a Sra. Walker contou sobre a infância de Chris e Abel. Chris parecia torturado, mas não pediu a sua mãe


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para sair. Callie podia ver isso nele. Ele adorava a sua mãe e Callie também começava a adorá-la. A Sra. Walker era como Abel. Divertida, espirituosa e escandalosa. Quando Chris disse que se iam embora, Callie ficou um pouco relutante com a partida. — Não se preocupe, querido, — Eliza Walker abraçou Callie uma última vez enquanto Chris foi se despedir do pai. — Nos vemos em breve. — Foi realmente muito bom conhecê-la, Sra. Walker. — Disse-lhe Callie sinceramente. — Chris e Abel têm sorte por ter uma mãe como a senhora. — Ah, — A Sra. Walker sorriu. — Por favor, trata-me por Eliza. Sra. Walker faz me sentir tão velha. — Elas partilharam uma gargalhada calorosa. — Toma conta do meu menino, ok? Às vezes preocupo-me com ele. Callie assentiu, sentindo-se estranha pela mãe do Chris estar lhe dizendo isto. — Ok. Eu tomo conta dele. A Sra. Walker-Eliza, riu. — Tenho a certeza que sim. Sabe uma coisa, o Abel contou-me tudo sobre você. Callie assentiu novamente. — Eu sei. — Não, quero dizer, — Eliza inclinou-se para frente e


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sussurrou-lhe ao ouvido, — Quero dizer TUDO sobre você. — Depois a mulher mais velha deu risadinhas! Os olhos de Callie arregalaram-se e olhou para ela. — Quer... quer dizer... tudo? Eliza assentiu. — Ele não contou ao meu marido, mas contou a mim. Eu sabia, pensou Callie. Abel já tinha contado à sua mãe que Callie era, de fato, uma mulher. Não admirava que a Sra. Walker tinha-lhe dado toda a atenção. — Eu acho tão romântico. — A Sra. Walker suspirou sonhadoramente. — Bem, não é a parte de mentir ao meu filho, mas a outra parte. — Qual outra parte? — A parte em que está apaixonada por ele e que faz qualquer coisa para estar ao lado dele. Até mesmo fingir que é um homem. — Eliza deu uma palmadinha no ombro dela com simpatia. — Pobrezinha. Devia surrar o meu filho por te confundir com um homem. Porque você parece uma garota! — É porque perdi algum peso, — admitiu Callie. — Acho que quanto mais peso perco, mais me pareço com uma mulher.


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— E Chris ainda não sabe? — Eliza abanou a cabeça. — Que vergonha. — Não vai lhe dizer? — Não, não se preocupe, não conto. Prometi ao Abel e eu não quebro promessas aos meus filhos. — Eliza sorriu. — E, além disso, eu vou gostar de ver a cara do Chris quando perceber a preciosidade que você é. Eu gosto de você, Cal. — Callie, — Callie corrigiu-a enrubescida. — O meu verdadeiro nome é Callie. — Callie, — Eliza repetiu. — Bem, eu gosto de você, Callie. Tem um bom coração, posso ver isso. Sou boa em julgar caráter. Se eu visse que era uma verdadeira mentirosa, má e maldosa, então eu diria imediatamente a Chris, mas já vi que ele está em boas mãos. A Sra. Walker riu e piscou-lhe o olho. — Talvez quando você decidir contar-lhe a verdade, consiga convencer o meu filho a ter bebês. Adoraria ter alguns netos. Callie estava tão vermelha que quando Chris voltou, disparou um olhar seco à sua mãe. — Mãe, o que é que fez agora? — Nada! — Eliza beijou o rosto do seu filho. — Divirtamse para onde quer que vão agora.


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— Sim, sim. — Chris olhou desconfiado para a sua mãe, antes

de

erguer

as

sobrancelhas

para

Callie

com

interrogação. Callie deu de ombros, fingindo não saber de nada. — Ok, até logo, pai! O Sr. Walker levantou os braços para lhes acenar. — Venham mais vezes, ouviram? — Claro que sim. — Callie acenou de volta. — Shoo, shoo, — A Sra. Walker enxotou-os do deli. — Adeus! — Que estranho, — disse Chris, franzindo a testa enquanto abria o carro. — Uh huh. — Callie respondeu. Nem faz ideia.


— Me deixa te marcar outro encontro, — disse Chris duas semanas depois de tê-la apresentado aos seus pais. Ele entrou no apartamento dela sem se incomodar em esperar que ela dissesse para ele entrar. Callie fechou a porta e olhou para ele, nada surpresa pelo súbito anúncio dele. — Tal como te disse a semana passada e na semana antes dessa... NÃO. Chris fez-lhe uma careta. — Porque não? Callie suspirou. — Se ainda não reparou, Chris, eu,— ela apontou para si mesma, — mais encontros, — ela desenhou um sinal de mais no ar, — é igual, — ela desenhou um sinal de igual, — a desastre. — Ela fingiu sufocar,


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revirando os olhos para trás e pendurando a língua para fora da boca. Chris revirou os olhos para o seu dramatismo. — Muito engraçado. Callie elevou as mãos no ar. — Estou falando sério! Não quero mais encontros, Chris. — E porque não? Não temos trabalhado nos seus problemas de insegurança bem como do seu peso, nestas últimas semanas? A sua confiança cresceu, posso dizer isso e está na altura de te testar. — A minha confiança melhorou, — concordou ela, — mas a minha má sorte não. — Cal... —

Chris,

ela

interrompeu-o,

completamente

exasperada por ele. — Porque quer tanto marcar encontros? O que é que está acontecendo? Se estiver cansado da minha companhia, me diga e eu... eu arranjo outra coisa para fazer sem ser tirar o seu tempo. Ele não fazia ideia do quanto a magoava dizer aquilo. O tempo que ela passou com ele, tinha sido o melhor da sua vida. Estar afastada dele durante um dia custava-lhe muito, mas se ele já não queria estar na Companhia dela...


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— Não é isso, — Chris zombou. — Então o que é? Por que os encontros? — Apenas quero que tenha mais confiança em você. — É só isso, Chris? Sério? — Ela não acreditava nele. Há muito tempo que Chris andava estranho, como se estar perto dela começava a incomodá-lo. Ela não tinha dito nada sobre o comportamento dele com medo de ter razão, mas agora estava tudo muito claro, ela talvez descubra o que está acontecendo com ele. — Porque está dizendo isso? — Chris olhou para ela. — Como se estivesse me acusando. — É... é porque estou preocupado, — sussurrou ela. — Ultimamente tem andado... distante. — Não tenho, não, — ele negou automaticamente. — Tenho estado com você como sempre estive, não tenho? — Sim... — ela assentiu, — Mas... Ultimamente, sempre que está por perto, há muita tensão. Tem alguma coisa no pensamento? Algo que quer libertar do seu peito? — Ela aproximou-se dele, com preocupação no rosto. — Há alguma coisa que quer me dizer? Poderia ser que o Chris já soubesse que ela não era um


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homem? Que era, de fato, uma garota? Não, pensou Callie, não pode ser isso. Ele já a teria apanhado a esta altura, mas ainda não sabia de nada, então o que está acontecendo com ele? Porque é que ele agia tão estranhamente perto dela? — Chris? — Perguntou ela, olhando suplicante para ele, com olhos de quem pergunta o que está acontecendo realmente na sua cabeça. Chris engoliu com dificuldade, tendo uma batalha dentro dele. Na verdade ele não sabia realmente o que está acontecendo com ele. Era sempre que ele estava perto de Cal... ele sentia... sentia o quê!? O que raios se passa com ele!? — Chris? — Callie colocou uma mão no braço dele. — Está bem? — Não, — cuspiu ele, — Não, não estou bem. — Ele puxou o seu braço da mão dela. — Eu já não sei o que é estar bem. Callie olhou para a sua mão, ainda no ar, onde o seu braço tinha estado. A súbita rejeição dele magoou-a bastante, mas não disse nada. Ao invés, ela baixou a mão para o lado e olhou para ele. — O-o que está acontecendo? Ela não percebeu, mas a sua voz rouca quebrou-se um


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pouco e Chris ouviu. Respirando fundo, ele virou para ela. — De qualquer forma, — disse ele, casualmente, fingindo que não se tinha passado nada de estranho entre eles. — Eu tenho um amigo que acho que vai gostar. Callie olhou para as costas dele, sentindo o seu coração partir. — Oh? — Sim. Eu trabalho com ele. Eu acho que vai gostar mesmo dele. Callie pestanejou. — E-ele? Chris deu de ombros e virou, com um sorriso falso nos lábios. — Sim, o Jerry é ótimo. Divertido e um verdadeiro amante fugaz. Ele é enfermeiro, no hospital onde trabalho. Ele estava tentando marcar-lhe um encontro com outro homem? Desta vez não é uma mulher? Callie só conseguia olhar para ele, para aquele sorriso falso no seu rosto bonito e por dentro... por dentro ela estava chorando. — Acha que eu sou gay? — Perguntou ela, já sabendo a resposta. — Bem, não é? — Chris riu e deu-lhe uma palmadinha no ombro. — Olha, cara, eu não discrimino. Eu tenho Abel como irmão, lembra? O Jerry é um ótimo sujeito. Devia darlhe uma oportunidade.


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— Devia? — Sim. Devia. Callie imitou-lhe o sorriso falso. — Ok. Se você diz, Chris. — Ok. Ótimo. — Ele coçou as costas do seu pescoço, de repente sentindo-se pouco à vontade novamente. — Hum, então vou ligar e dizer que disse que sim. Callie assentiu, atordoada. — Sim. Sim... faça isso. — Ok. — Chris colocou as mãos nos quadris, olhando estranhamente em volta do apartamento dela. — Huh, mudou as cortinas floridas por umas azuis. Belo toque. — Obrigado. — Ela havia escolhido aquela cor por ser igual aos olhos dele. Mas ela não podia dizer isso... não sem antes revelar os seus sentimentos. Chris olhou para as cortinas de seda azul, antes de ir embora sem outra palavra. Ele hesitou à porta e olhou para as costas de Cal antes de balançar a cabeça. — Até logo, Cal. Callie não se virou. — Até logo. — Mas provavelmente ele não a ouviu, porque já estava fechando a porta. Callie olhou para a porta fechada, olhos que ardiam pelas lágrimas não derramadas.


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Tal como ela prometeu, ela foi ao encontro com Jerry no dia seguinte. Sozinha. Chris não tinha ido com ela, dizendolhe que era melhor ela ir sozinha. Jerry foi um companheiro maravilhoso,

um

homem

gentil

com

cabelo

escuro

e

encaracolado e óculos grossos. Apesar dela ter o achado divertido, ela sabia que ele não era o Chris, e tal como Chris, ele não fazia ideia de que ela era, realmente uma mulher. Ele confessou que tinha acabado de sair do armário e não tinha experiência em encontros com outro homem. Jerry disse que ela era muito fofa, mesmo fofa. Um sujeito muito fofo. Ele não se importava que ela tinha um pouco de excesso de peso. Um pouco era um eufemismo. Apesar de ela ter perdido quase vinte quilos, ainda tinha mais vinte e sete quilos para perder, antes de atingir o peso ideal para ela. Ainda assim, era simpático por parte do Jerry fazer elogios que ela não merecia. Especialmente quando ela não conseguia desfrutar da sua companhia, uma vez que ela pensava em Chris o tempo todo.


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Ao longo de todo o encontro no Olive Garden, enquanto Jerry se sentou frente a ela no seu elegante terno branco, conversando animadamente sobre algo que nem sequer se lembrava, o tempo todo ela perguntou-se o que Chris estaria fazendo. Estaria ele sozinho em casa? Ou com a Brenda? A certa altura Jerry foi corajoso o suficiente para lhe perguntar, na brincadeira, se ele a estava aborrecendo... ou a ele, mas ela sorriu e disse-lhe que não, ela apenas não estava se sentindo muito bem. Uma hora de encontro e Jerry levou-a para casa, até a acompanhou à porta, e lhe deu um beijo hesitante

na

bochecha,

antes

de

acenar

alegremente,

enquanto ele descia as escadas até o seu carro. Uma vez dentro do seu apartamento, Callie tirou os seus jeans azuis e túnica branca e blazer e arrastou-se para a cama. Chorou até adormecer. Na manhã seguinte, Chris bateu na sua porta e ela abriu. Ele sorriu, parecendo extremamente charmoso com jeans pretos e camisa cinza, que lhe definia os músculos. — Então? — Ele sorriu, — Como ocorreu o seu encontro com Jerry? Callie ainda tinha o seu pijama lilás, agora um pouco mais largo. Ela olhou para Chris, sem nenhum traço de um sorriso no seu rosto. Olhando para a sua expressão solene,


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Chris soube imediatamente que estava algo errado e isso retirou o sorriso do seu rosto, numa questão de segundos. — O que aconteceu? — Exigiu ele, entrando no apartamento dela. Ele fechou a porta e olhou para Cal. — Ei, o que aconteceu? O Jerry te disse alguma coisa de mal? Juro por Deus que se ele disse, eu... — Você o quê? — Perguntou Callie. — Você o quê, Chris? Chris franziu os lábios, sobrancelhas franzidas. Ele abriu a boca para dizer, — Eu trato dele. — Que nobre da sua parte. — Callie virou e afastou-se dele. Sentia-se morta por dentro, para sequer ficar feliz por ele estar no seu apartamento. Sentia-se como o pior ser humano do mundo. Para este homem, ela mentiu e mentiu e mentiu... e para quê? Para sair com outras mulheres? Outros homens? Para morrer lentamente por dentro, enquanto observava outra mulher reclamá-lo? — Cal, — Chris seguiu-a, — O que aconteceu? Falei mais cedo com o Jerry e ele disse que vocês se divertiram bastante. — Então porque é que veio aqui perguntar se o encontro correu bem, quando já sabe? — Perguntou ela, andando pela


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cozinha. Ela abriu a geladeira e tirou uma embalagem de suco de laranja. — Porque eu queria ouvir a sua versão do encontro, — disse ele, observando-a colocar o suco numa caneca roxa de plástico que tirou do armário. — O encontro correu bem. — Então porque raios esta assim? — Assim como? — Uma desgraça. — Bem, peço desculpa. — Callie bateu com a caneca e embalagem do suco na bancada. — É ainda muito cedo e eu acabei de acordar. — Huh. — Chris observou-lhe o rosto, notando os círculos negros por baixo dos olhos. — Vocês não se embebedaram, não é? Parece que está de ressaca. Callie olhou para ele. — Chris, veio aqui para me insultar? Ele riu. — Não, desculpa, foi mau. Em outro momento, ela teria derretido com aquele sorriso charmoso, mas desta vez não. Ao invés, ela agarrou


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na caneca roxa e bebeu todo o suco. Chris olhou para ela, sobrancelhas erguidas. — Tinha sede, — explicou ela, atirando com a caneca de plástico para a pia. — Uh huh. — Chris cruzou os braços e encostou-se á bancada. — Então como correu o encontro? — Fantástico. — Ela passou por ele. — Fantástico? — Chris seguiu-a para a sala de estar. — Só isso? Callie sentou-se no sofá e ligou a TV com o controle remoto. — O que mais quer que eu diga, Chris? Chris sentou-se no braço de sofá e franziu a testa para ela. — Jerry disse que se divertiu e quer voltar a sair com você. — Não obrigado. Chris pestanejou. — O quê? —Eu disse: Não, obrigado. — O que quer dizer com não obrigado? Callie suspirou e olhou para ele. — O que foi? Quer que eu te dê a definição de não obrigado?


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— Whoa. — Chris ergueu as mãos. — Vejam quem acordou do lado errado da cama. Callie virou a sua atenção para a TV e continuou a mudar os canais aleatoriamente. — Cal, — ele ouviu Chris dizer, — O que está acontecendo, cara? Disse que teve um encontro fantástico, então porque é que não quer voltar a sair com o Jerry? — Porque não quero. — E porque não? — Pressionou ele. — Não entendo. — Porque é um idiota sem noção, — murmurou ela baixinho. — O que é que disse? — Nada. — Eu ouvi o que disse. E por que exatamente é que sou um idiota sem noção? — Chris cruzou os braços. — Elucidame, por favor. Callie levantou-se e atirou o controle remoto para cima do sofá. — Nada, Chris. Nada. Você é maravilhoso. — Agora está sendo um espertinho, Cal. O que raios está acontecendo com você?


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— O que está acontecendo com você!? — Retornou ela, completamente farta dele. Chris levantou, elevando-se sobre ela. — O que raios quer isso dizer? Frustrada, ela cutucou seu peito musculoso. — Quero dizer, o que está acontecendo com você por me bombardear com encontros de repente!? — Só te marquei encontros com a Susan e o Jerry! — Sim! — Exclamou ela, — Foi por isso que bati com o pé no chão e não aceito encontros com quem você chama de amigos. — Porque está falando dessa maneira? — Chris franziu a testa para ela. — Nem parece você. Callie riu sem humor. — Não pareço eu, Chris? Como o doce e falinhas mansas do Cal? Bom, quer saber? Você criou um monstro! — Ela empurrou os seus ombros rudemente contra os dele enquanto se afastava. — Não vire as costas para mim, — Chris estalou, ficando sem paciência. — Cal! — Se cale. — Cal! Para e explica o que raios está acontecendo com


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você! Callie parou na porta do seu quarto e girou. — É você o que está acontecendo, Chris! Eu te odeio! Chris andou para trás como se Callie lhe tivesse dado um soco. — O-o quê? Callie olhou para ele, quase em lágrimas. O seu peito estava tão sufocado de amor por ele, sufocado com culpa por causa de todas as mentiras que ela lhe disse, e ele... ele marcava-lhe encontros com outras pessoas! Homens e mulheres! — Você me ouviu! — Gritou ela para ele. — Eu. Te. Odeio! — Ela girou no seu calcanhar, entrou no quarto e bateu com a porta.

Chris olhou para a porta branca, completamente atordoado. Mas que raios? Furioso, ele se dirigiu à porta e bateu até tremer. — Abre a porta! — Vai para o inferno Christopher Walker! — Cal gritou do outro lado.


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Isso o chateou ainda mais. Quando ele tentou abrir a porta pela maçaneta e a encontrou fechada, ficou ainda mais irritado. — Cal Picket! Abre a maldita porta e enfrenta-me como um homem! — Vai se catar! Chris pestanejou. O... o que raio tinha acontecido ao seu doce Cal? Quem era esta... esta víbora!? Ele espancou a porta. — Por Deus, Cal! —Para de dizer o nome de Deus em vão, seu idiota! Ok, pensou Chris sombriamente, estava ficando sem paciência, acabou. — Abre a porta ou eu juro que a deito abaixo. — Faz isso, — desafiou Cal, — e eu te coloco uma ordem de despejo. Gostaria disso, eh, bonitinho? Bonitinho? Chris calou-se, completamente confuso. — Cal, abre a porta e vamos falar. — Sobre quê? — Cal riu. — Você não faz ideia do que quer falar. — Então me diga, — ele resmungou, — Me diga por que está agindo como uma cadela. — Hah! Desculpa, eu deixo a atuação de cadela para a


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sua namorada, Chris, porque a Brenda é uma cadela completa. — O QUÊ!? — Chris rosnou. — Oh sim, — ele ouviu Cal dizer, — Eu fui lá. Ele fez uma careta. — Cal, eu acho que sei o que está acontecendo com você. Tem andado saindo muito com o meu irmão e com a Mizz Ivory. — Enfia isso onde o sol não brilha, Romeu. Chris esfregou as têmporas. — Cal, abre a porta. Vou contar até cinco. — Sim? E depois? —Depois deito a porta abaixo. — Não se atreveria. — Experimenta. Passaram alguns segundos, depois um minuto, depois outro minuto... — Ok, — ele rosnou, afastando-se, — Você é que pediu. — Chris deu um pontapé na porta, a porta bateu contra a parede e espalharam-se pedaços de madeira no tapete castanho.


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Callie olhou para ele, de queixo caído quando ele entrou. — V-você...você partiu a minha porta! Chris riu. — Eu te disse que faria. Cal

agitou

os

braços

para

cima

e

para

baixo,

completamente em choque por ter feito aquilo. — É louco! — É de família, — disse ele. — Agora que estamos novamente cara a cara, quer me dizer o que raios aconteceu? Cal olhou para a sua pobre porta. — Partiu a minha porta! Chris fez uma careta, virando para a porta. — Não faz mal, apenas arrebentei a fechadura. — Você. Partiu. A. Minha. Porta! — Cal, esqueça a porcaria da porta e fala comigo. Cal olhou finalmente para ele. — Sai. — Não. — Muito bem. Então saio eu. — Ele tentou passar por ele, mas agarrou-lhe no braço e girou-o. — Não, — disse ele, balançando a cabeça, — Acho que não.


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— O quê? — Ele zombou. — Parte a minha porta e agora quer me prender aqui? Chris revirou os olhos. Sim, ele tinha andado muito tempo com Abel. — Cal, chega de melodrama e me diga o que está acontecendo com você. — Não sou eu, — Callie tirou o braço do aperto dele. — É você. — Eu? — Sim você. Você é que tem andado estranho e não tente negar. A mandíbula de Chris apertou, mas não negou. Ele tem andado estranho. — Eu posso explicar. — Então explica. — Você primeiro. — Não, você. Chris fez-lhe uma careta. —Está sendo infantil, Cal. — Como você, Chris. Chris fechou os olhos e contou até dez. Querido Deus, apeteceu-lhe esganar Cal. Chris abriu os olhos e olhou para o seu amigo. — Eu tenho andado estranho porque...


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— Por quê? — Cal ergueu uma sobrancelha. — Porque me sinto estranho quando estou com você. — Por quê? — Não sei. Cal olhou para ele. — Não sabe? — Não. — Que conveniente para você? — Para com o sarcasmo, Cal, — Chris resmungou. — Não gosto mais do que você. É frustrante para mim, ok? Frustrante porque eu não sei o que raios estou sentindo. Faz algum sentido?

Antes de Callie abrir a boca para responder, Chris estava falando novamente. — Claro que não faz sentido, — murmurou ele, passando uma mão pelo cabelo, — Não faz o mínimo sentido. — Talvez possa ajudar, — respondeu Callie. — Me explica esses... sentimentos estranhos. — Confusão e decididamente uma grande parte deles.


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— Ok. Confusão e mais? Chris parou de andar e olhou para ela. Ele olhava tão duramente para ela, que se começou a ficar impaciente. — Oo quê? Os olhos dele estreitaram-se. — Cal, quando é que percebeu realmente que era gay? — Quando vi um jogo de futebol e fiquei duro, — Callie respondeu sarcasticamente, mas ela viu que Chris tinha acreditado. — Futebol, hã? — Ele ergueu as sobrancelhas. Callie revirou os olhos. — Chris, eu não estava falando sério. — Então como? — Não sei! — Ela elevou as mãos. — Acho que olhei para você e pensei que não queria mais nada do que estar com você. — Callie engasgou-se. Oh merda. Chris olhou para ela, os olhos azuis cresceram. — O que é que disse? — N-nada. — Cal. O. Que. É. Que. Disse?


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Callie tremeu. — Esquece, Chris. — Você gosta de mim? Callie não disse nada. Ao invés, ela olhou para o tapete. Maldita seja e à sua língua! Oh Deus. Quando ela ergueu o olhar, porque o silêncio a estava matando, ela viu que ele ainda olhava para ela, mas com uma expressão indecifrável. — C-Chris? — Há quanto tempo? — Perguntou ele de repente. Callie engoliu em seco. — D-desde o início? — Então a Brenda tem estado certa? Callie assentiu, rasgando-se em lágrimas. — Desculpa. — Eu, — Chris parou, sobrancelhas franzidas. Nem parecia que ele estava vendo alguma coisa. — Tenho de ir. Quando ele se virou e saiu do quarto, ela não o impediu. Mesmo quando ela ouviu a porta de casa se fechar, não foi atrás dele. Antes, ela olhou para o lugar onde ele estava antes de ir para a sala de estar. Entorpecida, ela agarrou no telefone sem fio e marcou um número. — Sim? — Disse a voz de Abel no outro lado da linha. — Simmmm?


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— Abel? — Sussurrou ela, olhando para o vazio. — Acho que o Chris me odeia. Depois ela não resistiu e desatou a chorar.


— Céus, há tantas más vibrações aqui! — Exclamou Mizz Ivory, entrando no apartamento de Callie, cinco horas depois de Chris ter saído. — Callie. — Abel foi direito a ela e abraçou-a. — Desculpa só termos vindo agora, hoje foi um dia de louco no salão. — Ele afastou e olhou-a com preocupação. — Como está aguentando? Callie deu de ombros, olhos vermelhos e inchados por ter chorado durante horas. — Acho que estou bem. — Oooh, — Mizz Ivory fraziu o nariz e tirou uma embalagem de spray da sua pequena bolsa cor-de-rosa. — Querida, consigo sentir a tensão neste quarto. Temos de tirar todas estas más energias! — Ela começou a borrifar.


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Abel revirou os olhos e disse a Callie, — Ivory pensa que foi uma Sacerdotisa Africana na sua vida passada, e que de alguma forma a magia ainda permanece nela. Mizz Ivory continuou a borrifar. — Uh huh, continua a fazer troça de mim, Abel, mas vai ver. A Mizz Ivory tem o toque de magia. — Ivory guarda o borrifador na sua bolsa, — repreendeu Abel, — Porque isso é apenas spray corporal que comprou na Victoria's Secret. Mizz Ivory parou de borrifar e fez aquele olhar a Abel. — Querida, porque é que acha que eu faço compras lá? Todas aquelas magricelas usam alguma magia negra para serem assim lindas e magrinhas. Nunca viu o America's Next Top Model?¹ — Ivory estalou os dedos. — Tyra Banks tem excelentes vibrações. — Ignora-a, — disse Abel a Callie quando Mizz Ivory continuou a sua demanda. — Tenho tentado ligar para Chris, mas ele não atende. — Tem estado se harmonizando com o inimigo, — Callie riu secamente — Provavelmente ele sabe que está aqui. — Pobrezinha, — Abel afagou-lhe a mão. —Anda, vamos ¹ Reality show competitivo criado e apresentado pela supermodelo Tyra Banks.


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nos sentar e vai me contar desde o início o que aconteceu aqui, exatamente. Callie guiou Abel até ao sofá e foi ali que ela lhe contou exatamente o que aconteceu, até mesmo a sua confissão acidental. — Eu não lhe queria dizer assim, — sussurrou ela, — Ele estava me pressionando e me deixando louca e pronto. Falei. Abel colocou-se confortável no sofá, observando a expressão torturada de Callie. — Querida, o homem está se apaixonando por você e ainda não sabe. A cabeça de Callie ergueu-se, olhos arregalados. — S-se apaixonando? — Por você, querida. Ela abanou a cabeça. — Acho que não, Abel. Ele não parecia um homem apaixonado. — Porque ainda não sabe. Não está me ouvindo? — Abel suspirou. — Chris é tão teimoso que, provavelmente, levará meses antes de perceber e meses antes de aceitar. Aceitar que se apaixonou por outro... homem. Callie resmungou e cobriu o rosto com as mãos. — Estou estragando tudo, Abel.


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— Talvez agora seja uma boa altura de lhe contar a verdade, querida, — disse Mizz Ivory, caminhando do quarto para a sala. — E o que raios aconteceu à porta? — Chris partiu-a quando deu um pontapé. Ivory e Abel trocaram olhares. — Sim, — assentiu Mizz Ivory, — O homem está mesmo mal. — Ele não está apaixonado por mim, — insistiu Callie, — Está muito irritado comigo. — Callie, queridinha, escuta-me. — Abel tomou as mãos dela nas suas. — Chris está muito habituado a homens gays gostarem dele, caramba, todos os meus amigos praticamente se atiram a ele, mas ele diverte-se com isso. Mas você... é diferente. A reação dele com você é diferente, mesmo que ele acredite que você é um homem. Eu conheço o meu irmão e nunca agiu assim com mais nenhum homem. — O que suponho, — começou Ivory, — É que ele vê a qualidade feminina em você, os seus instintos de playboy dizem-lhe que você é toda mulher, mas o seu cérebro diz que é um homem, com uma pequena ajuda da sua mentira, claro. — Ele está desfeito e confuso, — Abel continuou, — Provavelmente pensa que está enlouquecendo.


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— Oh boa, — gemeu Callie, — Se ele acabar num hospital psiquiátrico, eu serei a culpada. — Também será por culpa dele, — disse Abel, — Por ter confundido com um homem. Callie suspirou. — O que vou fazer agora? — Eu acho, — Mizz Ivory deu uma palmadinha no seu queixo, — Eu acho que precisa de uma saída com as garotas. Ela pestanejou. — Saída com as garotas? — Boa ideia Ivory! — Abel sorriu para Callie. — Sim, te levamos para sair e vamos nos divertir fazendo compras no shopping. — Estou morta para te escolher algumas roupas, — Mizz Ivory guinchou e bateu as palmas com alegria. — Vamos nos divertir tanto! Callie riu com a animação dela. — Não sei... não me atrai ir a lado algum. — E depois? — Abel ergueu uma sobrancelha, — Vai ficar aqui fechada, limpando? — Sou muito boa nisso. Abel bufou e acenou uma mão. — Não, querida, vai com a gente e depois vamos todas para o karaokê.


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— Oooh! — Mizz Ivory guinchou novamente, — Adoro karaokê! Vou me sentir como os japoneses e filipinos. Sabe, cada filipino que eu conheço tem um aparelho de karaokê em casa. — Ivory franziu a testa. — Provavelmente deve estar na bíblia deles. Terás karaokê. Callie estourou numa gargalhada, porque o que Mizz Ivory disse, soou ridículo. — Aw, vê, pronto. — Abel afagoulhe a mão. — Rir é o melhor remédio. Agora vai te preparar. Mizz Ivory e eu esperaremos aqui por você. Cinco minutos depois, Callie saiu do quarto com calças de corrida cinzas e moletom de capuz cinza. Abel e Ivory se entreolharam e abanaram a cabeça. — Querida, não tem outro tipo de roupa sem serem calças de corrida e moletom de capuz? — Perguntou Mizz Ivory. — Sinto-me mais confortável assim, — explicou Callie pateticamente. — Hmm, — Abel olhou para ela, de cima a baixo. — Bem, essas parecem uns sacos. Estou orgulhoso, está perdendo peso. — Não se preocupe, meu desastre da moda, — disse Ivory, colocando o seu braço em Callie. — A tia Ivory vai fazer


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magia e te transformar num cisne. Tal como disseram, Abel e Ivory levaram Callie para um shopping, escolhendo indumentárias para ela e fazendo-a experimentar. Surpreendentemente, ela se divertiu. Sim, Chris ainda lhe assombrava o pensamento, mas Abel e Ivory não lhe deram muito tempo para se lamentar em relação a Chris. Até experimentaram um vestido azul-escuro. — Detesto, — lamuriou Callie enquanto Abel e Ivory andavam em torno dela, observando o vestido que eles tinham escolhido. — Está maravilhosa! — Insistiu Abel, — Só precisa de maquiagem e cabelo arranjado. — Mas eu pareço um balão, — resmungou ela. Ivory abanou a cabeça, — Está muito bem, isso é tudo da sua cabeça. Apenas não está habituada a usar vestidos, só isso. Callie suspirou. — Posso vestir agora a minha roupa? — Pode, — bufou Abel, — Mas vamos te comprar esse vestido. Murmurando qualquer coisa sobre homens, Callie dirigiu-se

para

os

provadores

e

vestiu

roupas

mais


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confortáveis. Mais tarde, antes de levarem Callie para o bar de karaokê, pararam na casa de Abel para arrumá-la. — Se não quer usar roupas femininas, — disse Ivory, exasperada por discutir com Callie, — Então, pelo menos, usa isto. São unissex. — Ela entregou a Callie um par de calças jeans que eram fascinantes de lado, juntamente com uma camisa brilhante cor-de-rosa, com botões na frente. Eles até lhe deram uns sapatos novos que combinavam com os jeans. Depois de se trocar, Abel e Ivory arrumaram-lhe o cabelo, cacarejando e desaprovando aqui e ali sobre como a mulher que trabalhou no seu cabelo devia levar um tiro, mas estavam satisfeitos por estar crescendo. No fim, pentearam o cabelo para trás, deixando madeixas caídas na testa. Até lhe colocaram um pouco de maquiagem, apenas pó de arroz e lip gloss cor-de-rosa. Quando Callie se queixou que os homens não usam lip gloss, Mizz Ivory resmungou e disse, — Oh por favor, Justin Bieber usa lip gloss e vê todas aquelas adolescentes a atirarem-se a ele. Observando-se no espelho da vaidade de Abel, ela teve que admitir que parecia... ok. Não propriamente linda, mas aceitável. Abel e Ivory trabalharam as suas magias nela... ela


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só esperava não encontrar Chris. Às nove horas da noite, chegaram a um dos bares de karaokê preferidos de Abel e Ivory, cujo dono era um amigo deles. Abel usava o seu terno de marca, calças pretas e um blazer com uma camisa rosa. Completou a indumentária com um lenço longo, macio, brilhante, rosa escuro e cravejado de diamantes negros. O seu cabelo louro estava penteado para trás e estava perfeito e ele sabia. Mizz Ivory colocara uma peruca castanha encaracolada, usando uma saia marrom e top sem alças. Ela estava fabulosa com os seus brincos de argolas e envergava um lenço de penas brilhante. Quando o trio entrou no bar, foram recebidos calorosamente. Aparentemente, quase todos no bar conheciam Abel e Mizz Ivory. — Se divirta, querida, — disse Abel a Callie enquanto lhe dava um Martini, — Se deixe se divertir. Se liberte! — Se liberte, — repetiu Callie, vendo Mizz Ivory a dirigirse ao palco e começa a cantar e a dançar com dois homens sem camisa. — Se liberte. — Ela engoliu o conteúdo do copo e quase se engasgou. Ela não estava habituada a beber.


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Uma hora depois, Callie estava completamente bêbeda. Ela ria e passava o melhor tempo da sua vida com os seus amigos. Abel e Ivory trocaram alguns olhares divertidos e deixaram-na continuar se divertindo. — V-vêm, — disse Callie embriagada, pendurando o seu braço no ombro de um homem que acabara de conhecer no bar. — Ele-ele p-pensa que sou um homem! — Callie riu loucamente, — P-pode imaginar!? — Callie atirou com a cabeça para trás e riu hilariamente sobre a música que os envolvia. — Ele pensa que sou um homem! — Eu não acho que seja um homem, — disse o homem ao lado dela, divertimento e interesse nos olhos dele. — Eu acho que é muito fofa. — A séeeeeeeeeerio? — Callie pestanejou para ele e inclinou-se de maneira que os seus rostos estavam apenas a alguns centímetros de distância. — Acha meeeeeeesssssmo que eu sou fofa? O homem riu. — Sim. — Oh meu Deus! Oh meu Deus! — Callie se engasgou, — É mesmo... tãaaaaaao incrível. Do outro lado da sala, Abel e Mizz Ivory observavam Callie com o homem desconhecido. — A garota está


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completamente bêbeda, — riu Ivory. Abel riu com o seu melhor amigo. — Hmm, acho que está na hora? Os olhos de Mizz Ivory brilharam com malícia. — Na hora de chamar o nosso cavaleiro desaparecido? Abel assentiu e pegou o Blackberry. — Que comece, — ele marcou o número de Chris, — A diversão. — Tal como previram, Chris não atendeu o telefone, deixando ir para a caixa de mensagem. Murmurando, Abel esperou até o gravador e disse dramaticamente, — Chris! Querido, tem simplesmente que vir buscar Cal! Tentamos levá-lo para casa, mas ele está completamente embriagado! — Pobrezinho, — Mizz Ivory lamentou. — Estamos no Vanity's Karaokê Bar, a dois quarteirões do restaurante da mãe e do pai. Você conhece. — Abel suspirou. — Só queríamos que ele se divertisse, mas agora está fora de controle e não nos ouve. Ele quer sair com um homem que não conhecemos. — Cal até quer fazer uma tatuagem do seu nome no seu traseiro, — acrescentou Ivory. — Portanto, vê, — continuou Abel, — Tem de vir buscálo. Eu acho que ele só ouve a você, querido. — Desligou o


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telefone e balançou as sobrancelhas para a divertida Ivory. — Três, dois... um. O telefone dele começou a vibrar. Rindo, Abel atendeu. — Simmmm? — O que raio fizeram vocês com Cal? — Disse a voz zangada de Chris do outro lado da linha. Abel mostrou o polegar a Ivory antes de pigarrear. — O Cal ficou louco, Chris. Venha logo buscá-lo... oh céus, eu acho que é ele quem está agora no palco! E vai fazer topless! — Abel desligou antes de Chris poder gritar com ele. — Somos tão maus, — riu Mizz Ivory. — Ele está a caminho, — Abel riu, — Tenho certeza. Anda, querida, vamos arrastar a Callie para o palco para um pouco de karaokê. Abel e Ivory atravessaram a sala e cada um pegou num braço de Callie e a arrastaram para o palco com um microfone. — Canta bem, querida, — disse Abel a Callie, passando-lhe o micro. — Canta bem.


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Callie olhou para o microfone como se fosse um objeto estranho. Ela olhou para a multidão que tinha se juntado e pestanejou, erguendo uma mão para tapar a luz brilhante que a encandeava. O que é que ela deveria fazer? — Canta. — Mizz Ivory cutucou-lhe o braço. Ela também tinha um microfone. — Cataremos com você. — Mesmo ao seu lado, Callie, — Abel apareceu à direita dela, rindo. — Conhece a Bonnie Taylor, não conhece? — Total Eclipse Of The Heart, — suspirou Mizz Ivory. — Ela é uma deusa. A música começou a tocar e Callie soube imediatamente o que fazer. Começou logo a cantar. — Every now and then I get a little bit lonely and you never come around (De vez em quando sinto-me um pouco sozinha e você nunca está por perto). — Turn around (Vire), — Abel e Mizz Ivory cantaram em uníssono ao lado dela. Callie olhou para a multidão. — Every now and then I get a little bit tired of listening to the sound of my tears (De vez em quando fico um pouco cansada de ouvir as minhas lágrimas).


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— Turn around (Vire). — Abel e Ivory murmuraram em torno dela, acenando com lenços de penas no ar. Callie começou a pensar em Chris enquanto cantava, perguntando-se se ele iria alguma vez voltar e vê-la novamente. Perguntando-se se lhe devia contar a verdade e como devia fazer. Parecia que no final, ela iria perdê-lo da mesma forma. — Every now and then I fall apart (De vez em quando desmorono)... — Turn around, bright eyes (Vire, olhos brilhantes)... — Every now and then I fall apart! And I need you now tonight! (De vez em quando desmorono! E preciso de você esta noite) — Callie fechou os olhos, agarrando-se ao microfone. — And I need you more than ever. And if you'd only hold me tight, we'll be holding on forever! (E preciso de você mais do que nunca. E se ao menos me abraçasse forte, ficaríamos assim para sempre) Callie perdeu-se na canção enquanto Abel e Ivory cantavam com ela, imagens do rosto lindo de

Chris

apareciam na mente dela. O primeiro dia que se conheceram, há

alguns

meses

atrás...

os

dias

que

passaram

no

apartamento dela vendo filmes até tarde... os dias que


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passaram

a

fazer

exercício

e

se

divertindo.

Terá

ela

novamente essas oportunidades com ele? — Once upon a time I was falling in love (Uma vez eu estava me apaixonando), — Cantou Callie melancolicamente, a sua voz quebrando, — But now I'm only falling apart (mas agora só me estou desmoronando). — Ela baixou o olhar, lágrimas queimando-lhe os olhos. — Nothing I can say, a total eclipse of the heart. (Nada que eu possa dizer, um eclipse total do coração) . — A total eclipse of the heart (Um eclipse total do coração), — Mizz Ivory e Abel ecoaram depois dela. — Turn around bright eyes (Vire, olhos brilhantes). A multidão explodiu em aplausos e vaias, assobiando para eles enquanto a música acabava e canção terminava. Mizz Ivory riu e fez uma reverência enquanto Abel se curvava graciosamente. Callie, por outro lado, continuou olhando para

o

chão,

sentindo-se

completamente

sozinha

e

desesperada. Independentemente da quantidade de vezes que ela tinha imaginado o cenário dela contando a verdade a Chris que ela era realmente uma mulher, o final era sempre o mesmo. Ele a detestava e não queria ter nada a ver com ela. — Uau, — disse Mizz Ivory, — Ele chegou aqui depressa.


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— Ele devia estar nas redondezas, — ela ouviu Abel dizer. — Callie, querida, — Abel cutucou-lhe o braço, — Olha para cima. Lentamente, Callie ergueu o olhar. O que ela deveria ver? — Na porta de saída, querida, — disse Mizz Ivory. Callie olhou através da multidão e congelou quando o viu andar entre a multidão. — Chris. — Desce! — Ladrou Chris assim que chegou na frente do palco, abaixo dela. — Cal! Desce, caramba! Callie continuou a olhar para ele, perguntando-se se estaria alucinando. Chris fez uma careta antes de lhe agarrar na mão. Ele puxou-a. — Vamos lá, Cal. Vou te levar para casa. Callie pestanejou e olhou para a sua direita. Mizz Ivory ergueu dois polegares para ela. Olhou para a sua esquerda e Abel riu para ela, acenando-lhe. — Vai, querida. Sem saber mais o que fazer, Callie sentou-se no canto do palco. Felizmente não era assim tão alto e com a ajuda de Chris, ela conseguiu descer em segurança. Colocando o microfone no palco, ela deixou que Chris a guiasse até à saída. Ela olhou para as mãos unidas deles.


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— No que raios estava pensando? — Exigiu Chris quando estavam na rua. Ela ainda não tinha largado a mão enquanto a guiava pela rua, para onde estava o carro estacionado. — Estando completamente embriagada naquele bar e tentando sair com um estranho? Callie pestanejou. — E-Está falando de quê? — E tentava te despir? — Estalou ele, ignorando-a. Cal, tenho sempre que estar tomando conta de você? Despir? Callie pestanejou novamente. Sim, ela podia estar um pouco tonta, mas já estava sóbria. Quando é que ela tentou se despir e ir para casa com um estranho? — Então? — Chris encarou-a quando ela chegou ao carro. — O que tem a dizer em sua defesa? Ela olhou estupidamente para ele, ainda pensando porque ele estaria tão zangado. Praguejando baixinho, Chris largou-lhe a mão e passou os dedos pelo cabelo. Parando, ele espreitou para o rosto dela sob a luz dos candeeiros da rua. — Cal... está usando maquiagem? Callie engoliu em seco. — Uh... Eu... é lip gloss. Ele olhou-a.


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— Justin Bieber usa, — defendeu. Chris pestanejou e olhou para ela por alguns segundos antes de balançar a cabeça. — Entra no carro. — Ele destrancou o carro e abriu a porta do condutor e entrou. Callie deu a volta ao carro e abriu a porta do passageiro. Ela entrou e fechou timidamente a porta, enquanto Chris bateu com a sua. — Coloca o cinto de segurança, — rosnou ele. Callie obedeceu sem discussão, sentindo que caminhava sobre ovos em torno de Chris. Ele estava furioso. Ele ainda estava zangado por causa do que tinha acontecido de manhã? A viagem até ao apartamento deles foi feita em silêncio. Callie estava começando a dormir, sentindo-se cansada e com sono. Todo aquele álcool que ela tinha consumido, estava se apoderando

dela

novamente.

Ela

não

estava

mesmo

habituada a beber. Sempre que o Chris ia ao apartamento dela e bebia Budweisers, ela ficava com o seu suco e chá. Quando chegaram, Chris teve que acordá-la. — Dá mais trabalho do que aquilo que vale, — resmungou Chris enquanto a ajudava a subir as escadas que dava para o apartamento deles. — Desculpa, — murmurou Callie. — Desculpa.


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— Onde está a chave da sua casa? Callie deu de ombros. — Abel a tem. — Perfeito, — Chris suspirou. — Está bem, acho que vai ter de ficar na minha casa até o Abel chegar com a sua chave. Chris abriu a porta e guiou-a para dentro. Ele fez uma careta quando ela quase tropeçou em nada e ele teve de estabilizá-la. — Jesus, Cal. Cuidado. — Desculpa. Chris apoiou-a até chegarem ao quarto. Callie sentou-se na beira da cama dele e olhou para ele, tonta. — Está zangado comigo. — Claro que estou zangado com você. — Ele olhou para ela. — Está sendo imprudente. Se tivesse ido para casa com um sujeito que não conhece... ele podia ser um assassino, Cal. — E daí? — Murmurou ela, — O que é que te importa? Odeia-me de qualquer forma. — Eu não te odeio. — Odeia sim. — Callie fungou. — Admite. Odeia-me porque eu gosto de você.


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Chris olhou para ela e suspirou. — Eu... eu não te odeio. — Mentiroso. — Sentindo-se tonta, Callie arrastou-se na cama dele e deitou-se. — Mentiroso. Eu também sou mentiroso. — Está bêbedo, — ela ouviu Chris dizer, — É isso que você é. — Não me odeie, — ouviu-se dizer Callie através da neblina da sua mente. — Por favor, não me odeie. O rosto de Chris apareceu no campo de visão dela quando ele se ajoelhou na sua frente. — Cal, eu disse que não te odiava. — Jura? A expressão dele suavizou. — Juro. — Não faz mal que eu te ame? Chris olhou para ela e não falou por um minuto, antes de dar de ombros. — Faz o que quiser. Callie sorriu, caindo no sono. — Ok.


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Chris

levantou-se

e

olhou

para

Cal,

que

tinha,

finalmente adormecido. — Que confusão, — murmurou ele, esfregando os olhos. Ele queria colocar alguma distância entre ambos e agora Cal estava... no quarto dele. Suspirando, Chris colocou as mãos nos quadris e girou o pescoço, sentindo os músculos tensos e cansados. Ele olhou para o teto com um franzir de testa antes de olhar novamente para Cal. — Vai ser a minha morte, sabe isso? Ele inclinou-se para frente e tirou uma madeixa de cabelo dos olhos de Cal. Endireitando-se, ele o olhou alguns segundos antes de balançar a cabeça. — Boa noite, cara. Chris saiu do quarto e apagou a luz.


Callie acordou com um raio de luz solar nos olhos, que atravessava por entre as cortinas. Gemendo, ela virou de lado, de costas para a janela para bloquear a luz no rosto. Suspirando, ela enfiou o rosto na almofada, inalando um aroma familiar e que não era o seu. Era um aroma masculino e forte. Pestanejando, Callie obrigou-se a abrir os olhos e ergueu a cabeça para olhar a almofada branca. Branca? As suas almofadas não eram brancas, eram roxas. Combinavam com o seu pijama favorito roxo. Callie esfregou os olhos e bocejou, levantando-se e olhando em volta. Através de sua cabeça latejante, ela percebeu que o quarto era familiar... mas não era o seu. Callie sentou-se e olhou para a porta aberta. Ela podia sentir o aroma forte de


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café que vinha da cozinha. A cozinha do Chris, pensou Callie ainda sonolenta. O que é que eu estou fazendo no quarto dele? Os seus olhos arregalaram-se quando percebeu onde estava exatamente. Na cama dele!? Esfregando a têmpora, ela saiu da cama e tropeçou. Endireitou-se e viu o seu reflexo no espelho da cômoda. Estou horrível, pensou, limpando os restos de sono dos seus olhos. Olhando para a porta, ela saiu na ponta do pé e entrou no banheiro. Tão silenciosa quanto pôde, ela lavou o rosto e escovou os dentes com o dedo. Ela não queria enfrentar o Chris com o mau hálito matinal. Olhando-se no espelho, ela secou o rosto e colocou a toalha no cesto da roupa suja ao lado do vaso e penteou o cabelo com os dedos. Está um pouco melhor. Callie pestanejou para o seu reflexo e suspirou. Bem... só um pouco. Encorajando-se, ela espreitou para o pequeno corredor que dava para a cozinha. Ela não viu Chris por isso saiu na ponta dos pés. Huh, talvez se fosse muito silenciosa, ela podia esgueirar-se e... — Para onde vai?


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Callie congelou, olhos arregalados quando percebeu que Chris estava observando-a, de costas para a parede, com uma caneca fumegante na mão. Ele inclinou a cabeça para ela, parecendo charmosamente fresco nos seus jeans e camisa preta, com botões na frente. O seu cabelo louro escuro estava ligeiramente desgrenhado, de uma maneira atraente. Callie teve uma vontade estranha de passar os seus dedos pelo cabelo dele, para saber se era tão macio quanto parecia. — Cal? — Ele ergueu uma sobrancelha a ela. — Hum, — ela endireitou-se e sorriu fracamente para ele. — Bom dia. — Já passa das duas da tarde, — informou ele, olhos azuis nunca vacilando, enquanto olhava para ela. Por alguma razão, a maneira como ele a olhava, enervou-a, fazendo o seu coração bater mais rápido e suar as mãos. — Oh,— disse Callie, esfregando as mãos nas calças. — Café? — Ofereceu Chris, dirigindo-se para a cozinha, onde estava a máquina do café. — C-claro. — Engolindo nervosamente, ele foi para a cozinha e sentou-se numa das cadeiras pretas, uma mesa de vidro em frente a ela.


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Chris

caminhou

casualmente

de

volta

para

ela,

colocando outra caneca preta fumegante na frente dela. Callie olhou para o líquido preto, mas não fez qualquer movimento para pegá-lo. Ela estava muito nervosa para beber o que quer que fosse. A atmosfera pesada no apartamento dele pesava sobre ela como tijolos. — Hum, — ela olhou para ele, — O que faço aqui? Ele parou de beber e olhou para ela. — Quer dizer que não se lembra? — Pedaços,— admitiu ela. — Me lembro de estar no bar... bebendo... cantando? Depois, — ela franziu a testa, — Depois você veio? Depois disso não me lembro de grande coisa. — Hum. — Chris sorveu o seu café. — Só isso? Céus, pensou Callie, sinto-me tão desconfortável. O que era estranho, nunca houve uma altura em que ela se sentisse desconfortável com Chris, mas agora... agora ela sentia-se como se tivesse feito alguma coisa e ele a olhava com reprovação. Se, de alguma forma, ele descobriu durante a noite que ela era uma mulher, ele estava levando o seu tempo para explodir com ela. — Estava pensando, — disse Chris após vários minutos


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de silêncio. Callie olhou para ele. — Pensando no quê? — É domingo. — Ele dirigiu-se á pia e colocou a sua caneca lá dentro. — Normalmente este é o dia em que corremos no campo de golfe. Vamos. Callie piscou. — A-agora? Chris olhou para ela. — Sim. Agora. O quê? — Hum. — Callie levantou-se. — Claro, acho que sim. Vou ao meu apartamento vestir qualquer coisa mais confortável... — Abel tem a sua chave,— Chris interrompeu-a. — Oh. — Merda. — Ele não apareceu aqui? — Quando Chris negou com a cabeça, ela começou a chupar o seu lábio inferior e quando reparou que Chris a observava-a tão intensamente, ela parou. Respirando fundo, ela libertou o lábio. — O-ok. Bem, posso pedir ao segurança lá em baixo... —

É

domingo,

lembra?

Chris

interrompeu-a

novamente, encostando o seu quadril à bancada e cruzou os braços. — O escritório está fechado.


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Oh merda, para tudo! Isso queria dizer que ela estava presa com Chris até que Abel decida aparecer com as suas chaves? Ou até segunda-feira? O que vier primeiro. Callie recostou-se na cadeira e olhou para Chris. — Tenho algumas roupas que te servem, — disse-lhe Chris, — Algumas roupas de treino. — Ok, — respondeu ela imperceptivelmente, depois ergueu o olhar. — Acho que preciso de ar fresco. — Ela pegou na sua caneca e passou pelo Chris para colocá-la na pia. Quando ela se virou, ele estava a bloqueando o caminho, o corpo dele a centímetros do dela. Com o coração batendo descontroladamente, ela ergueu o olhar para a tentadora pele morena que espreitava pela sua camisa aberta e fixou-lhe o olhar. Ele estava muito próximo e ela podia jurar que conseguia sentir o calor que irradiava dele. Lábios ligeiramente abertos, ela continuou a olhar para ele, sentindo-se presa sob o olhar dele. Para surpresa e choque dela, ele ergueu uma mão e retirou-lhe uma madeixa de cabelo da testa. Ela começou a tremer quando sentiu o polegar dele a roçar na sua pele, o seu corpo que começava a formigar com a proximidade e toque dele. Toda a masculinidade dele.


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Chris retirou a sua mão e olhou-a pensativamente, como se ele próprio não acreditasse que a tivesse tocado com tanta intimidade. Tão enervada como ela estava pelo toque dele, ela queria que fizesse aquilo novamente. Que Deus a ajudasse, ela queria senti-lo contra ela. Coração... corpo... alma. — Chris? — Ela disse o nome dele, a sua voz rouca soando sem fôlego. Como se tivesse saído de um feitiço, Chris pestanejou e afastou-se. Ele balançou a cabeça e virou. — Vou buscar as roupas. — Apressou-se, saindo antes de poder dizer mais alguma coisa. Callie o viu desaparecer no quarto e caiu sobre a bancada. O que raios foi aquilo!? A mente dela acelerou. Ele não a tinha tocado como se fosse um amigo chegado... nem sequer a olhara dessa maneira. Ela não tinha experiência, mas podia jurar que o toque dele foi um toque de amantes... e o olhar dele. Aquele olhar intenso Tremendo, ela pegou a caneca que estava na pia e bebeu o café, ignorando a picada de quentura do líquido. Buscando por respiração, ela tornou a colocar a caneca na pia e limpou a boca com as costas da mão. Olhando para a entrada do banheiro, Callie só esperava que Abel se apressasse e devolvesse a chave, antes que ela fizesse algo de perigoso


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como violar o seu irmão.

De dentro do quarto, Chris tinha as costas contra a parede, olhos fixos na mesma mão que tinha tocado em Cal. Ele não fazia ideia do que o tinha levado a fazer aquilo. Ele apenas sabia que Cal parecia tão vulnerável e ele sentiu a necessidade de confortá-lo. Depois sentiu nojo de si mesmo e, no entanto pareceu tão... certo. Praguejando, virou-se e colocou a mão na parede, fechando os olhos e inclinando a cabeça. Ele tentou esquecer o olhar inocente de Cal quando o tocou, tentou bloquear em como Cal tinha os lábios entreabertos, rosados e suaves. Mas era inútil... a imagem assombrava-o. Sim, ele tinha que tirá-lo do seu apartamento, antes que fizesse alguma coisa que fosse se arrepender mais tarde. Ele já não confiava em si mesmo para ficar sozinho com Cal. Para o bem de ambos... eles tinham de sair do confinamento do seu apartamento.


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Vinte minutos depois, depois de um longo e estranho silêncio no carro de Chris, chegaram ao campo de golfe. Callie saiu do carro e calças de corrida castanhas e moletom. Por outro lado, Chris também saiu do carro, usando calças cinza de corrida e regata branca. Normalmente ele trazia o rádio com ele, mas não desta vez. Fechando a porta, Callie olhou para o extenso campo de golfe, apanhando com a brisa. Ela tirou o cabelo do rosto e virou-se para olhar Chris e apanhou-o olhando para ela. Corando, ela olhou para o chão. — Anda, — ouviu Chris dizer, — Vamos começar a correr agora. Callie levantou o olhar. — Não vamos alongar primeiro? — Chris sempre gostou de alongar primeiro. Parecia estranho ele não querer agora. — Não, — ele abanou a cabeça. — Você quer? Ela deu de ombros. — Não... não é importante. — Então está bem, — Ele mostrou-lhe um sorriso que lhe acelerou o ritmo do coração. — Vamos começar. Sorrindo, ela o seguiu pela falésia e começou a correr ao lado dele. Depois de semanas correndo no campo de golfe, ela já não tinha muita dificuldade em acompanhar Chris. Ela


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se habituou a correr, mesmo em passo mais lento do que Chris estava habituado, ele nunca se queixou. Ele estava orgulhoso dela. Depois de quinze minutos de corrida, sentiram-se mais confortáveis um com o outro. Chris até começou a provocá-la quando reparou que ela abrandara um pouco. — Vamos lá pesado, — provocou ele, — A minha avó conseguia correr mais depressa do que isso. — Se cale, — disse ela com uma gargalhada. — Ainda estou correndo, não estou? Quando um casal idoso coreano, que estavam na casa dos sessenta anos, passou por Callie, Chris começou a rir e a insultá-la. — Não presta! — Ela chamou-o, quando ele estava a alguns metros de distância. Ela parou de correr e abaixou para recuperar o fôlego. Rindo, Chris correu para ela. — Anda, não desista agora. — Ele agarrou-lhe na mão. — Anda. Callie olhou para a sua mão na dele e olhou para ele. Chris sorriu-lhe, olhos azuis brilhando. Ela sorriu de volta e endireitou-se. — Ok. De mãos dadas, começaram a correr de novo. Ainda não


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tinham passado três minutos, o céu cinzento escureceu e começou a chover. — Não viu as NOTÍCIAS para saber se hoje iria chover!? — Gritou Callie sob a chuva forte enquanto eles corriam para um abrigo. — Não! — Chris gritou de volta. Quando

chegaram

ao

abrigo,

estavam

ambos

encharcados. — Ótimo, — resmungou Callie, penteando o cabelo com os dedos. — Bom trabalho, Chris. Ele fez uma careta. — Sim, como se fosse culpa minha estar chovendo. — Ele passou uma mão pelo cabelo. Callie inclinou-se na parede e tremeu, vendo a chuva cair com mais intensidade.

— Credo, só mesmo em

Washington. Chris olhou para ela e depois para a chuva. — Quando foi a última vez que brincou na chuva, Cal? — O quê? — Ela olhou para ele e congelou para o brilho malicioso que viu nos olhos azuis dele. A curva provocadora no sorriso dele fez o coração dela vibrar. — Brincar na chuva? Uh, nunca. A minha mãe me mataria. — Sério? — O sorriso de Chris alargou-se. — Quando


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Abel e eu éramos crianças, costumávamos brincar na chuva. — Tiveram sorte de não terem adoecido. Chris olhou para a chuva e depois para ela. — Vamos brincar. — O quê!? Ele riu, agarrou-lhe na mão. — Anda. — Não... espera... Chris! — Callie gritou quando ele a arrastou para a chuva. A chuva fria começou a cair sobre ela e ela tentou fugir para o abrigo, mas ele a agarrou na cintura e puxou-a de volta. Com medo que ele se esfregasse nos seus seios, ela lutou com ele. — Calma, — Chris riu, pressionando-a contra ele, — É apenas chuva! — Idiota! — Ela gritou e girou para empurrá-lo. Infelizmente, ele a arrastou para a beira da falésia e ambos tropeçaram e começaram a rolar pela relva escorregadia. Os gritos de Callie foram abafados pela chuva, mas Chris ouviu e puxou-a contra ele, enrolando os seus braços protetoramente em torno dela enquanto continuavam a rolar falésia abaixo. Quando finalmente chegaram ao fim, Callie aterrou de costas e Chris ficou por cima dela.


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Com falta de ar, ela olhou para ele enquanto ele se levantava. Ela pestanejou para as gotas que caíam no seu rosto. — Chris! Isto foi culpa tua! — Ela bateu-lhe no peito. — Seu idiota! Podíamos ter morrido! Chris riu, agarrando-lhe nos pulsos e prendendo-os na relva. — Acalme-se! Está ferido? Callie mexeu-se debaixo dele. — N-não, acho que não.— Ela tornou a olhar para ele e percebeu o quão próximo estava o corpo dele de pressionar contra o dela. Engolindo com dificuldade, tudo o que ela podia fazer era olhar para ele. — Sabe, Cal, — disse Chris, tirando-lhe o cabelo molhado do rosto, — Alguma vez alguém te disse que grita como uma garota? — Se cale, — resmungou ela. — Deixa-me levantar!— Eles estavam numa posição muito perigosa. Com o corpo molhado dela debaixo dele, ele podia perceber que ela era uma mulher. — Para de se mexer, — ele fez uma careta. Callie congelou com o som da voz dele. — Cal, — disse ele lentamente, — O que faria se eu te beijasse? — O-o quê? — Guinchou ela.


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Chris limpou a água que escorria pelo rosto dela e pelos olhos. Ele engoliu, dizendo a si próprio que o que estava prestes a fazer era estúpido e louco, mas agora estava preso na sua cabeça... ele queria fazê-lo. —Eu disse: O que faria se eu te beijasse? Callie pestanejou e ficou boquiaberta. — Está brincando comigo? Chris balançou a cabeça. — Não. Oh Deus, pensou Callie, o seu corpo ardia. Vou me arrepender tanto mais tarde... — Faz, — sussurrou ela. — Me beije. — O que disse? — Eu disse para fazer! — Disse ela mais alto. — Me beije. — Me beije por favor. O olhar quente de Chris caiu sobre os lábios dela e ela sentiu o seu pobre coração tremendo feito louco contra o seu peito, o seu estômago ardendo com borboletas. — Chris,— ela engoliu, — Por favor... me beije. — Teria ele mudado de ideia? Teria o milagre do desejo dele em beijála, voado assim tão rápido?


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Com a chuva ainda batendo neles, Chris baixou a cabeça, os lábios pairando a centímetros dos dela. Ela podia sentir a sua respiração quente que se esfregava nos seus lábios. Gemendo com impaciência, Callie elevou a cabeça e pressionou os seus lábios nos dele. Depois disso, ela não sabia mais o que fazer. Ela era inexperiente nesses assuntos e não sabia bem como proceder, tudo o que ela queria era ter os lábios de Chris nos dela. Além disso, não fazia a mínima ideia. Mas Chris fazia. Controlado, ele pressionou o corpo macio dela mais perto do dele e devorou-lhe a boca. Os únicos beijos que Callie tinha experimentado foram beijos rápidos no rosto ou um beijinho nos lábios do Greg, mas este... este era... outra coisa completamente diferente. Este era um beijo esfomeado... quase primitivo. Devia ser ilegal a maneira como Chris lhe explorava a boca, a língua dele que se esfregava intimamente na dela. Ela correu as suas mãos pelos bíceps dele, sentindo os músculos dele sob as suas mãos. Eles estavam encharcados... mas tão quentes. Quando finalmente o Chris se afastou, ele olhou para ela, olhos que ardiam de paixão e espanto. As sobrancelhas dele estavam franzidas, como se estivesse pensando muito no que tinham acabado de fazer e Callie queria apaziguá-lo.


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O que eles fizeram não era errado. Tinha sentido certo, mas no que estava o Chris pensando agora? Ele pensava que ele era um homem, portanto... porque é que ele a tinha beijado? O que queria aquilo dizer? A chuva transformou-se em chuviscos e Callie cedeu à necessidade para passar ternamente a sua mão no rosto dele. Ele continuou olhando para ela da mesma maneira e Callie estava a começar a pensar que ele estava se afastando novamente. Ela não queria isso. O que ela queria que ele fizesse era descontrolar-se e segurá-la... e nunca largar. Teria ele dado o doce gosto do paraíso para depois ir embora? Afastando-se dela, Chris levantou e virou-lhe as costas. Callie olhou para as suas costas largas, uma punhalada de dor que lhe rasgou o coração. Ela sentou-se, mas não se levantou. O beijo ainda estava a fazendo sentir-se como gelatina. — Chris? — Callie chamou-o. Ele endureceu e olhou para ela. Preparando-se para a rejeição dele, ela esticou a mão e esperou.


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Chris olhou para Cal, os cabelos molhados colados no seu rosto... os seus lábios inchados... o desespero e a ânsia nos seus olhos. Chris soube nesse momento que podia ir embora e Cal ia deixá-lo. Ele estava preparado para a rejeição, Chris podia ver isso nos olhos do seu amigo. Olhando para o céu cinzento, ele fechou os olhos e deixou a chuva cair no seu rosto. Os pensamentos e sentimentos dele estavam um caos. Os errados e os certos estavam tão misturados, que ele já não sabia para onde ir. Baixando o rosto, ele abriu os olhos e olhou para a mão estendida de Cal. Se ele tomasse aquela mão... provavelmente não haveria retorno. Ele agora tinha de escolher. Ir embora? Ou ficar? Serem mais do que amigos... ou afastar-se? — Chris, — Cal disse o nome dele. Chris encontrou os olhos suplicantes de Cal. — Por favor? Hesitante, ele tomou a mão de Cal na sua. Apertando, ele ajudou-o a levantar-se. Cal olhou para as suas mãos dadas antes de olhar lentamente para ele. — Vamos para casa. — Ainda de mão dada a Cal, Chris virou e levou-os para o caminho.


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Atrás dele, Callie olhou para as suas mãos, lágrimas queimando-lhe nos olhos. Ela não sabia exatamente o que isso queria dizer... a mão dele segurando a dela assim, mas ela esperava... ela apenas esperava. Não largue, disse-lhe o coração dela. Por favor... não largue.


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Equipe Pégasus Lançamentos


Envio: Soryu Tradução: Sadrinha Revisão Inicial: Revisão Final:

Cacau S. Márcia S.

Formatação, layout e leitura final: Gaby

B.


A tradução em tela foi efetivada pelo Grupo Pégasus Lançamentos, de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição integral da obra literária física ou em formato e-book. O grupo tem como meta a seleção, tradução e disponibilização apenas de livros sem previsão de publicação no Brasil, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupo, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download dos livros cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor/usuário fica ciente de que o download da presente obra se destina tão somente ao uso pessoal e privado. Deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social e bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho de tradução do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor/usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderá individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo o grupo citado no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998.

Equipe Pégasus Lançamentos


Nota da Autora Big Fat Liar livro 3 é a continuação do Big Fat Liar livros 1 e 2. Uma vez que o livro 2 terminou no Capítulo Treze, o livro 3 irá começar no Capítulo Quatorze. Se não leu os Livros 1 e 2, faça-o, por favor, para conseguir seguir a história de Chris e Callie. Obrigada. Cookie Moretti


No confinamento do carro de Chris, Callie se sentou silenciosamente ao lado dele. Remexeu-se, olhando três segundos para o perfil dele, se perguntando se a magia entre eles tinha morrido no campo de golfe. Desde que entraram no carro Chris ficou em silêncio, fazendo Callie ficar em silêncio… e o silêncio a estava matando. Ela tinha tantas perguntas. Porque é que ele a beijou? Ele gostava dela? Ele iria beijá-la novamente? Como ficaria agora a relação deles? No que ele estaria pensando neste momento? A expressão dura no rosto dele, a impediu de perguntar. Ele parecia tão inacessível, como se tivesse colocado uma parede entre ambos com o sinal de NÃO INCOMODE. Suspirando, Callie estremeceu e enrolou os braços em torno


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de si. Apesar dele ter colocado o aquecimento no máximo, ela mal podia esperar para tirar aquelas roupas molhadas. Abel ainda tem as minhas chaves, pensou ela. Acho que terei de vestir as roupas de ontem até ele aparecer. Se alguma vez aparecer. Parece que o Abel está fazendo-se de Sr. Casamenteiro. Pressionando

dois

dedos

nos

lábios,

ela

olhou

novamente para Chris. Todo o seu ser ainda formigava por causa do beijo que eles compartilharam. Ela devia confessar agora… dizer a verdade, mas estava receosa da reação dele. Sabia que ele não iria aceitar bem. Ousaria esperar que ele estivesse tão apaixonado por ela, que acabaria por perdoá-la? Mas um sujeito como Chris não pode estar apaixonado por alguém como eu, pensou Callie tristemente. Talvez a tivesse beijado por curiosidade. Espero que ele não esteja atraído por homens… isso seria seriamente terrível! Seria muito irônico se ela fosse a causa dele se sentir atraído por homens. Quando

eles

chegaram

ao

apartamento,

Chris

estacionou o carro em silêncio e saiu. Callie saiu do carro depois dele e fechou a porta, observando-o dar a volta no carro e caminhar para o edifício. Silenciosamente, o seguiu pelas escadas até ao apartamento.


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Timidamente, ela entrou depois dele e esperou na porta aberta. Chris parou e olhou para ela. — O que foi? — Foi a primeira vez que ele falou desde que tinham saído do campo de golfe. Callie se remexeu, torcendo as mãos na frente dela. — C-Chris… se não me quiser na sua casa, eu posso esperar lá for... — Não seja estúpido. — Ele desapareceu no banheiro e saiu com duas grandes toalhas azuis. Atirou uma a Callie e usou a outra para enxugar o cabelo. — Vai tomar uma ducha. — Não tenho roupas limpas… — Vou até Abel e trazer as suas chaves de volta, — disse ele, retirando sua camisa molhada. Callie corou e baixou o olhar. Ela olhou para o tapete. — Hum… ok. — Ela ouviu mais farfalhares e ousou erguer o olhar para ver Chris completamente nu no corredor. Bem, não estava completamente nu, estava de cueca mas… Oh céus. Com as suas costas viradas para ela, podia ver os seus músculos contrairem nas suas costas largas… e toda aquela deliciosa pele bronzeada… aquela bunda firme que quase que dava para ver a umidade…


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Engolindo, Callie olhou novamente para o chão. Estaria ele a testando? Ou só sendo um provocador? Continuou olhando para o tapete durante mais alguns minutos até que Chris saiu do seu quarto com jeans secos e camisa preta. — Tomo uma ducha quando voltar. — Ele passou por ela. — Tranque a porta. Ela o viu sair. Ele agia como se não tivesse acontecido nada entre eles. Fechando e trancando a porta, ela olhou para a maçaneta antes de ir para o quarto de Chris, onde tinha deixado as suas roupas secas de ontem à noite. Enrolando-se na toalha, a sua visão começou a ficar turva com as lágrimas. Fungando, apanhou as roupas e arrastou os pés para o banheiro. Oh Chris, pensou tristemente, no que estará pensando agora? Por que me afastou? Trancando a porta do banheiro, no caso de Chris decidir aparecer mais depressa, colocou a toalha e as suas roupas no tampo do sanitário e ligou o chuveiro. Observou o vapor elevar-se e fungou novamente. Provavelmente ele irá me expulsar assim que trouxer as minhas chaves. Provavelmente mal pode esperar por isso. Por que outra razão ele iria pessoalmente buscar as chaves no Abel? Eu sabia que iria me arrepender de beijá-lo. Lá no


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fundo, não se arrependeu do beijo, mas a devastação iria ter consequências. Depois do seu banho quente, se vestiu com as suas roupas secas e pendurou as roupas molhadas na cortina da banheira, para que secassem. Enfiou as calcinhas e sutiã numa sacola de plástico que encontrou na cozinha. Após limpar o banheiro, sentou em uma das cadeiras da cozinha olhando para a porta da frente e esperou, agarrando a sacola de plástico contra ela.

Chris bateu com a porta do carro e caminhou em direção ao salão do Abel. Abriu a porta e ignorou os olhares curiosos dos clientes e encontrou o sujeito que ele queria estrangular. — Abel, — rosnou ele, caminhando em direção a seu irmão indescritível. — Eu sabia que estaria aqui. — Chris! — Abel sorriu abertamente. — Com licença, querida, — disse ele a sua cliente e desfilou para ir ao encontro de Chris. — Olá, querido irmão mais novo. — Cale-se, — estalou Chris e estendeu a mão. — Dê-me


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as chaves do Cal. — Chaves? — Abel pestanejou inocentemente. — Não me lembro... — Abel, — os olhos de Chris estreitaram-se, com um aviso na voz. — Não estou com disposição de jogar os seus joguinhos, irmão. Agora me passe as chaves. — Chris! — Mizz Ivory saiu do escritório do salão e sorriu. — Como está o nosso Cal? — Ela lhe piscou o olho. — Divertiram-se ontem à noite? Chris olhou para ela. — Você tem as chaves do Cal? — Que chaves? — Ivory foi para o lado de Abel e tentou parecer inocente. Chris olhou ameaçadoramente para eles. — Parem, estou falando sério. Dêem-me as chaves. Abel olhou pensativamente para o seu irmão. — Chris, onde está Cal? — Em minha casa. Agora dê-me as chaves para que eu possa lhe entregar. —

O

que

é

que

você

fez?

Abel

o

olhou

acusadoramente. Algo não batia corretamente. Chris não estava agindo normalmente.


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Praguejando baixinho, Chris passou uma mão pelo seu cabelo úmido, em frustração. — Caramba, Abel, eu não fiz nada. Nós só queremos as chaves dele de volta. Você supostamente deveria ter entregado hoje de manhã, mas você nunca apareceu e não atendeu as minhas chamadas. — O que houve? — Peguntou Abel, — Porque está assim? O que aconteceu? — Não aconteceu nada, Sr. Abelhudo. — Suspirou Chris. — Então, vai me dar as chaves ou tenho que virar este lugar de cabeça para baixo para encontrá-las? — Qual é a pressa? — Perguntou Ivory. — Cal precisa de roupas limpas. — Só isso? — A intuição de Abel dizia que havia mais alguma coisa. Chris parou. — Vou levá-lo para sair. — Sair para onde? — Você não tem nada com isso, Abel. Agora dê-me as chaves. — Bem, alguém está rabugento, — murmurou Mizz Ivory, ganhando outro olhar do Chris. — Ele disse que vai sair com o nosso Cal, Ivory, — Abel


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meditou, olhando para sua parceira no crime. — O que conclui disso? — Hum. — Mizz Ivory bateu levemente no seu queixo. — Será… um encontro? Abel e Ivory olharam para Chris, sobrancelhas erguidas em interrogação. — Oh pelo amor de... — Chris revirou os olhos. — Sim, vou levá-lo para um… — ele parou, não acreditando no que estava prestes a dizer. — Um encontro. Mizz Ivory guinchou de animação. — Oooh ouviu isto, Abel? Chris vai levar o nosso Cal para um encontro! — Chaves. — Chris mexeu os seus dedos sob o nariz do Abel. — Hmph! — Abel tirou as chaves de Callie do bolso e entregou-as a Chris. — Não o magoe, Chris. Há coisas que não sabe sobre Cal, no entanto, pense bem nas suas ações antes de agir. Chris virou e saiu sem mais uma palavra, as palavras críticas de Abel agitaram-se em sua mente.


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Callie

reprimiu

um

bocejo,

começando

a

dormir

enquanto esperava por Chris. Já tinha passado uma hora desde que ele saiu do seu apartamento para ir buscar as chaves com o Abel. Endireitou-se quando ouviu a porta abrir e Chris entrou e fechou a porta. Sorrindo sonolenta para ele, disse — Olá. Chris caminhou até ela e colocou as chaves na mesa de vidro. — Vá para o seu apartamento e vista-se. Vamos sair. — Sair? — Ela esfregou os olhos e olhou para ele. — Aonde vamos? — A um encontro. Callie suspirou. Aqui vamos nós novamente. — Chris, não quero ir a mais encontros com os seus amigos. Estou farto. Chris olhou para ela, parecendo triste. — Não vai a nenhum encontro com mais ninguém a não ser… eu. O queixo dela caiu. — O-o que!? — Ouviu-me. — Chris começou a ir em direção ao seu quarto, Callie olhando para ele com os olhos arregalados. — Vai se vestir. Algo bonito. Devo estar sonhando, pensou Callie. Ele não me


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convidou para um encontro. Impossível! Chris parou em frente à entrada do quarto e olhou de volta para ela. — Então? — Ele ergueu uma sobrancelha. — Quer ir a um encontro comigo ou não? Callie assentiu lentamente, de olhos ainda arregalados como uma coruja. Um sorriso divertido apareceu no canto da boca do Chris antes de dizer — Então vai se vestir enquanto eu tomo uma ducha… ou quer juntar-se a mim? Atordoada,

Callie

assentiu

e

depois

balançou

rapidamente a cabeça, o rosto ficando rosado. — Não! Rindo, Chris assentiu. — Então vai se arrumar. Vinte minutos depois, Callie estava no seu apartamento, olhando o seu reflexo no espelho do banheiro. Já tinha vestido calças preta e camisa cor de baunilha. Acabou de abotoar a camisa enquanto se olhava ao espelho. Os seus olhos ainda estavam arregalados com descrença. Chris a convidou para um encontro! Talvez tenha imaginado, pensou ela, fazendo uma careta. A sua mente amorosa tinha inventado aquilo tudo. Não… tinha sido real. — Oh céus, — sussurrou ela, começando a entrar em pânico. — O que é que eu vou vestir!? — Ela parou. — Não


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espera, eu já escolhi o que vou vestir. — Callie se afastou e observou a sua indumentária formal. Ela ainda estava redonda nos quadris e cintura, mas… não estava muito mal. A perda de quase trinta quilos fez uma transformação dramática na sua figura. Mais vinte quilos e ela pareceria uma supermodelo! Ou não. Callie suspirou e endireitou a camisa. Virou de perfil e encolheu a barriga. Relaxou à vontade porque percebeu que não podia prender a respiração durante todo o encontro, só para parecer ter a barriga mais lisa. Pelo menos não saía pela camisa afinal. — O meu cabelo! — Exclamou ela, novamente em pânico. Como deveria arranjar o cabelo? Callie agarrou no pente e olhou para o cabelo. Já tinha crescido abaixo do seu queixo, contrastando com a sua figura redonda. — Talvez isto resulte. — Colocou o cabelo para o lado e penteou-o. — Se o Justin Bieber pode usar o seu cabelo assim… então eu também posso. — Callie fez o penteado de Bieber e riu. Nada mal. — E que tal um gloss? — Callie remexeu nas suas gavetas. Um pouco de gloss não iria fazer mal, certo? Chris já a tinha visto usar ontem à noite. Encontrando o gloss de cereja na gaveta, ela passou o líquido nos lábios. — Pronto. — Ela observou o seu reflexo. — Huh, nada mal. — Era bom ter


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a pele lisa, não era necessário pó. — Talvez um pouco de sombra. — Ela parou. Os homens não usavam sombra… mas, era suposto ela ser um homem gay. Callie riu. — As vantagens de ser gay .— Gemendo, ela colocou uma quantidade discreta de sombra e beliscou as bochechas para lhes dar uma cor rosada. Callie sorriu para si mesma no espelho. — Uau…Não pareço mesmo nada mal. — O que Chris iria pensar? — Vou sair em um encontro com Chris,— disse ela para o seu reflexo no espelho. Ela não sabia onde iriam ou o que o fez decidir levá-la num encontro, mas… — Vou a um encontro com Chris. — Callie guinchou. — VOU A UM ENCONTRO COM CHRIS!! Callie voou do banheiro para a cozinha, onde ligou o rádio. — Vou a um encontro com Chris — Ela riu e girou de animação. — Encontro! Encontro! Encontro! A música de Bob Seger, Old Time Rock n Roll, começou a tocar no rádio e Callie dançou ao som, abanando o seu traseiro redondo. — Uh huh, uh huh, — ela abanou o seu traseiro, — Vou a um encontro com Chris. Uh huh, uh huh! Ela estava tão entretida no que estava fazendo que não ouviu

a

porta

abrir

ou

viu

Chris

entrando

no

seu


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apartamento. Com a pressa, esqueceu de trancar a porta. Chris encostou na parede e viu Cal dançar, cabeça balançando com a música. Apareceu um sorriso divertido nos lábios dele enquanto via Cal dançando. Cal até se deixou cair e levantou com facilidade. Cruzando os braços, Chris observou e esperou que Cal percebesse que ele estava ali. — I reminisce about the days of old, — Cal cantou, abanando o peito, — with that old time rock n' roll! Quando a música terminou e Cal ainda não o tinha percebido, Chris disse — Interrompo? Callie guinchou e virou para ver Chris encostado na parede, parecendo pecaminosamente bonito e à vontade. Os grandes olhos dela sorveram-no, a camisa de seda preta que estava abotoada até metade, revelando a sua tentadora pele bronzeada. As calças preta e sapatos brilhantes. Ele usava um blazer preto sobre a camisa e tinha uma aparência tão diabolicamente bonita. Não eram apenas as roupas, mas a confiança que ele tinha. Crua… sexual. Sensual. Engolindo, Callie sorriu tremulamente. — Olá. Não te vi entrar. Estava apenas…uh… — Dançando? — Disse Chris.


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— Hum. Sim. Já volto. — Ela voou para o banheiro e bateu a porta. Callie olhou para o espelho e respirou, — Oh meu Deus! Oh meu Deus! Que vergonha! — Rapidamente puxou o cabelo para cima, rosto vermelho. — Cal? — Chris bateu na porta. — Está pronto? Callie abriu a porta e olhou para ele. — Pronto. — Então… vamos? — Ele estendeu a mão em direção à porta da frente. — Sim. Claro. — Oh meu Deus, murmurou ela enquanto passava por ele. Ela estava tão envergonhada! Atrás dela, os olhos de Chris brilharam com humor.


Callie surpreendeu-se por se encontrar num restaurante elegante no meio da baixa Seattle, perto do Space Needle 1.

Ela conseguia ver o alto obelisco, da posição em que

estavam, uma vista de tirar o fôlego do lindo céu laranjaarroxeado, enquanto o sol começava a se pôr. — Uau, — murmurou ela baixinho. — O que foi isso? — Perguntou Chris, sentando na frente dela, na fina e redonda mesa reta, com apenas um solitário, jarro esguio com uma rosa branca dentro. O resto do restaurante estava decorado em branco e preto, dando uma sensação europeia exótica, com pinturas estranhas nas paredes, também em branco e preto. Com a luz em baixa intensidade, Callie sentiu que toda a sala foi concebida para seduzir os sentidos. 1

O Obelisco Espacial (em inglês: Space Needle) é uma torre de 184 metros, edificada em Seattle;


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Inclinando-se para a frente, ela sussurrou, — Como é que nos trouxe para cá? Pensei que tivesse que fazer reservas para conseguir uma mesa no Mershachi’s. Chris deu de ombros, abrindo o cardápio, com as letras do nome Mershachi's, impressas em dourado. — Eu conheço o gerente. — Oh. — Callie recostou-se no seu assento e remexeuse. Sentia-se um pouco desconfortável. Em torno deles, havia casais que comiam e bebiam, tensão sexual por todo o lado. Quando as pessoas olhavam na direção deles, ela pensou que eles assumiam de imediato que eles eram um casal gay, porque apenas casais iam jantar em um lugar como Mershachi's. O que Callie não percebeu foi que, para a maioria dos convidados, ela parecia uma mulher, não um homem. Corando quando ela viu vários olhos olhando para eles com interesse, Callie esconde a cabeça sob a proteção do grande cardápio. Não é que ela nunca tivesse ido a um restaurante elegante… é que ela nunca tinha ido como homem… com outro homem, que pensa que ela é um homem quando, de fato, ela é realmente uma mulher. Complicado, pensou Callie pesarosamente. — Aconteceu alguma coisa?


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Callie espreitou por cima do cardápio, para olhar Chris. Ele não parecia nada deslocado. Na verdade, o sensual lugar parecia recebê-lo de braços abertos. Um ambiente sensual para um homem sensual. — N-não, — ela gaguejou. Chris a observou antes de concentrar a sua atenção no cardápio. Callie se mecheu no seu assento e tentou ler o cardápio, mas os seus pensamentos distraíam-na. Apesar do Chris ser tão chegado e educado, parecia muito longe. Ele ainda se distanciava dela e isso a magoava. Porque é que a tinha

convidado

para

um

encontro,

se

ia

agir

tão…tão…indiferente? E que lugar tão estranho para a levar no primeiro encontro deles. Callie endireitou-se e fingiu examinar o cardápio. De vez em quando olhava para Chris, esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Sinto-me tão… agoniada. Callie olhou novamente para Chris. Chris? O que é que você está pensando, sob esse lindo rosto em branco? Ele não estava mesmo mostrando qualquer tipo de expressão, não desde que foram acomodados na mesa há dez minutos por uma mulher, que quase devorou Chris com os olhos. A empregada mal se deu conta da presença de Callie. A empregada atrevida e de cabelo preto, apenas falou


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para saber que bebida ela desejava. Callie olhou para o cardápio e ergueu o olhar para ver Chris olhando para ela. Ela sorriu, mas ele não devolve o sorriso. Ele parecia estar perdido em pensamentos, com as sobrancelhas franzidas. Ok, ela já não aguentava mais este silêncio. Estava matando-a! — Chris. — Ela colocou o cardápio em cima da mesa. — O que está acontecendo? Ele pestanejou. — O quê? — Quero dizer, — ela hesitou, — por que estamos aqui? — Estamos num encontro. — Sim, já percebi essa parte, mas porque é que estamos num encontro? Deslocando-se no assento almofadado, Chris afastou o olhar dela. — Para comer. Callie

olhou

para

ele.

Convidou-me

para

um

encontro, trouxe-me para este restaurante elegante… apenas para comer? — Não é para isso que os restaurantes servem? — Ele pareceu evasivo e sarcástico. Callie não tinha se dado conta, mas ele estava tentando encobrir o seu próprio desconforto.


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Ela olhou para ele durante alguns segundos mais, antes de se levantar. — Aonde vai? — Exigiu Chris, olhando para Callie, quando ela começou a ir embora. Ele agarrou o seu pulso e a parou. Callie suspirou. — Chris, se me trouxe aqui só para comer, podíamos ter ido a qualquer outro lugar. Não faz sentido gastar tanto dinheiro neste lugar. Chris franziu a testa. — Não gostou? — Do restaurante? — Callie olhou em volta. — É ótimo, muito… exótico, mas não tem nada a ver comigo. Apesar de você se encaixar bem aqui… isto também não é a sua praia. Eu conheço-o e prefiro sentar na frente da minha TV plana, e ver um filme estúpido para nos divertirmos, enquanto comemos uma pizza e bebemos Budweiser. — Você não bebe Budweiser, — apontou Chris. Callie abriu um sorriso. — É verdade, mas também sei que o que estou dizendo é verdade. Chris… porque estamos aqui? O pomo de Adão sacudia, Chris olhou para ela com confusão e frustração. Callie não sabia se ele estava confuso e frustrado com ela ou com ele mesmo. De qualquer maneira, ele tinha quedizer o que se passava ali ou iria embora. Era


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simples assim. — Sente-se, — disse ele finalmente. — Eu vou tentar… explicar. — Chris sentou e esperou que ela se sentasse antes de acrescentar, — Lembre-se apenas que tentar é a palavra de ordem. Callie olhou para ele, observando, à espera. Chris suspirou. — Esse é o lugar onde, normalmente, eu tenho os meus encontros. Aposto, pensou Callie com ciúmes das mulheres sem rosto que Chris havia trazido ao Mershachi's, na sua demanda de as conquistar. —

Cal,

Chris

parou

e

praguejou

baixinho.

— Caramba, nem sei por onde começar. — Comece pelo beijo, — ela incitou. — Por que é que me beijou? —Por que me beijou de volta? — Disparou ele para ela. — Você já sabe que eu tenho… tenho sentimentos por você. — Callie recusou a afastar o olhar dele quando tudo o que queria era corar e fugir. — A pergunta agora é porque começou o beijo? — Sabe porque, — murmurou ele sombriamente.


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— Talvez, mas gostaria de ouvir o porquê. Chris olhou para ela. Callie se recusou a recuar. Por fora ela parecia calma e composta, mas por dentro o seu coração corria desenfreado e o seu estômago ardia com borboletas. Ainda assim… ela precisava ouvir as razões dele e esperar não ficar desiludida. Vendo que ela não ia desistir, Chris rosnou. — Cal, espera um pouco, amigo. Estou tão confuso quanto você. — Apenas responda à pergunta, — disse ela. — Por que é que me beijou? Ele olhou para ela. — Porque… eu quis. — Por que é que você quis? — Porque estou… atraído por você? — Ele fez soar como uma pergunta. — Não sei, — disse Callie, — Está? — Sim, — disse ele. — Deus me ajude, estou atraído por você. — Chris caiu contra a sua cadeira. — Por que? Não faço a mínima ideia. No início estava tudo bem, sabe? Éramos amigos, era o meu novo amigo. Queria lhe ajudar a perder peso e a ganhar confiança. Queria que se levantasse e lutasse contra o mundo e não que estivesse oprimido. Eu sabia que sob toda essa timidez estava um bom homem, alguém forte e


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inteligente. Chris fechou os olhos, como se algo estivesse o torturando. — Depois as coisas começaram a mudar. Não sei quando e com certeza não sei como… é que você… você… — O que tem eu? — Perguntou Callie, a voz quase um sussurro. Ver o Chris assim, excitava-a e assustava-a. Excitada que ele tinha admitido que havia uma atração entre ambos, mas também a assustava porque este homem, este lindo ser, podia partir seu coração. — Você é tão diferente, — disse ele finalmente, abrindo os olhos para olhá-la. — É diferente de qualquer homem ou mulher que alguma vez conheci. A maneira como me sinto perto de você, é diferente. Não sei quando começou mas encontro-me pensando em você, em como me faz rir, em como seu sorriso é tão tímido, mas, no entanto, ilumina uma sala. Como os seus olhos, cor de chocolate ao leite derretido com um toque de dourado, se acendem cada vez que olha para mim ou como brilham sempre que faço ou digo alguma coisa que acha engraçado. Chris inclinou para frente, rosto sério e aberto. — Às vezes

encontro-me

olhando

para

eles

tempo

demais,

capturado na sua mistura estranha de doçura, ingenuidade e intelecto. Você é uma contradição ambulante, mas não consigo me fartar de você. Levou algum tempo para eu


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perceber que era estranho estar sempre pensando em você ou no que estaria fazendo quando não estou por perto. Até os meus subordinados não deixam de perceber as ocasiões que eu falo de você nas conversas que tenho com eles. — Caramba, ainda no outro dia estava ajudando um paciente meu a andar e me perguntei, em voz alta, o que você estaria fazendo para o jantar. — Chris riu secamente, — Acredita nisso? Não percebe? Os meus pensamentos dirigidos a você, não são normais. Não um homem pensando no seu melhor amigo, mas um homem pensando no seu… seu… amante. Callie corou com a palavra amante. Mas Chris não estava fazendo um discurso retórico. Parecia que ela tinha ligado alguma coisa, que não podia ser desligada até estar completamente satisfeita. — Está me deixando completamente doido, — continuou ele, — Por que? Por que é que de repente tenho algum interesse por outro homem? O que é que você tem de tão especial? — Chris passou uma mão pelo rosto. — Penso nisso incontáveis vezes, mas não faz sentido a minha atração por você. Nunca me senti atraído por homem antes. Nunca. Eu adoro mulheres, todas as formas, todos os tamanhos. Pretas, brancas, mexicanas, asiáticas, qualquer uma. Chris olhou para ela, com uma expressão tão torturada


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e confuso que Callie queria levantar e abraçá-lo, lhe acalmar os nervos e os medos. Mas não o fez. Ao invés, ela permaneceu onde estava e olhou para ele, esperando que ele acabasse. — Cal, amigo, — Chris resmungou, — não sei como é com você, mas quanto mais tempo passo contigo, mais tempo quero passar contigo e isso não é… normal. Não para mim. Mas não consigo mais lutar contra. Estou muito cansado de lutar contra esses sentimentos que tenho por você. Trouxe você nesse encontro porque… porque eu desisto. Eu cedo. Quero ver para onde me levam esses sentimentos. Nos levam. — Mas eu sou gordo, — ela murmurou pateticamente. — E não sou bonito e eu... — Pare! — Chris ergueu uma mão. — Cal, não ouviu o que eu disse? Pareceu que eu só ligo para a sua aparência? Claro,

você

está

pesado

mas

faz

exercícios

e

está

conseguindo. Olha para o peso que já perdeu até agora! Mas mesmo que fique assim, não me importo. Nunca ouviu dizer que a beleza está no olho do espectador? Cal, se eu consigo superar que você é um homem e que estou atraído por você, então porque é que você acha que a sua aparência me afeta? A boca de Callie secou por causa do olhar desesperado e apaixonado dele. Os olhos dele atravessavam-na e que Deus a ajudasse… ela não queria que ele deixasse de olhar. Não


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queria que ele olhasse para outra mulher da maneira que olhava para ela neste momento. Ela podia viver com aquele olhar porque através dos olhos dele, ela era a única coisa que ele via. Umedecendo os lábios, Callie foi a primeira a desviar o olhar porque o olhar dele era muito intenso. Ela olhou para as mãos no seu colo, pulso acelerado, corpo em fogo. Ela afastou o olhar mas sabia que ele ainda olhava para ela. Finalmente, ergueu o olhar. — Chris, — começou ela, — Eu... — Já querem pedir? — A empregada de cabelo escuro estava de volta, sorrindo para Chris. Chris ignorou-a, mas ainda olhando para Callie disse, — Vamos embora. — O que? — A empregada pestanejou, estupefata. — Vamos embora, — Chris repetiu e levantou. Agarrou na mão de Callie e puxou-a até que ela não teve escolha a não ser ficar com ele. — M-mas senhor, — a empregada protestou fracamente enquanto passavam por ela. — Senhor! — Para onde vamos? — Perguntou Callie assim que chegaram ao exterior. Ela podia sentir os olhares curiosos que seguiam os movimentos deles.


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— Você tem as chaves do telhado do edifício dos nossos apartamentos? — Sim. — Como proprietária do edifício, ela tinha. — Ótimo, assim não tenho que arrombar a fechadura. De olhos arregalados, Callie o seguiu até o carro. Quinze minutos depois eles estavam de volta aos apartamentos com Chris a guiando apressadamente pelas escadas até o telhado. — Abre, — disse ele, acenando para a porta. Colocando-se na frente dele, Callie retirou as suas chaves do bolso e destrancou a porta. Silenciosamente, ambos entraram e a vista de tirar o fôlego da cidade iluminada cumprimentou-os. Inspirando o ar fresco, Callie caminhou pela superfície plana do telhado e parou na beirada e olhou para as luzes que brilhavam na vizinhança. — Eu venho aqui quando sou acordado pelos pesadelos, — disse Chris atrás dela. — Para espairecer. Callie olhou para trás dela. — Pesadelos? — Da guerra. — Oh. — É lindo, não é? — Chris ficou ao lado dela. — Sim. — Ela olhou pensativamente para ele. — Chris…


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você ainda tem pesadelos por causa da guerra? Já se passaram anos. Chris não a olhou nos olhos. — Não é tão ruim quanto antes. Quando voltei, os pesadelos eram frequentes, mas pararam quando os meses foram passando. Ainda assim, às vezes ainda me assustam. — Ele a olhou com um pequeno sorriso. — Desde que te conheci, os pesadelos pararam. Uma frase mortífera, pensou Callie, mas não se derreta com as suas palavras. Conte-lhe a verdade, Callie. Diga agora. Ele merece. Chris riu e Callie sorriu. — Qual é a graça? — Bem, — ele mostrou um sorriso, — Parece que as hipóteses dos meus pais terem um neto está arruinada. Oh Chris. Os olhos dela começaram a ceder. Ele era tão perfeito.

Tenho

que

lhe

dizer,

mesmo

que

dizer

significasse…perdê-lo. Talvez ele me perdoe se realmente me ama, mas de qualquer maneira, ele tinha que saber a verdade. A minha mentira já foi longe demais. — C-Chris, — Callie disse com voz rouca, — Chris, preciso dizer uma coisa. — O que? — Chris encarou-a e franziu a testa quando viu a expressão de dor sob o brilho do luar. — Cal? O que foi?


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— Primeiro, — ela agarrou-lhe a mão, — Diga-me uma coisa? — O que? — Você… me ama? Chris olhou para ela e puxou o cabelo para trás. — Eu… caramba, Cal, não sei. Talvez. Há decididamente alguma coisa. Estou decididamente me apaixonando por você. Callie sorriu. Ele estava se apaixonando por ela… não era um eu amo você direto ao seu coração, mas bastava. Antes que ele a odiasse, pelo menos ela sabia que ele a tinha amado… ou começando a amar. Era realmente mais do que merecia. —

Beije-me

novamente?

Perguntou

ela,

quase

desesperadamente. Rindo, Chris inclinou-se e beijou-lhe a testa, a bochecha direita e depois a esquerda, depois no nariz e finalmente nos lábios. Era um beijo de ternura pelo despertar do primeiro amor. — Eu te amo, Chris, — disse ela quando ele se afastou, — mesmo e muito. — Cal, — Chris riu abertamente, — Do que se trata isto? Callie se afastou-se dele e se preparou. — Chris, eu…na verdade sou mulh...


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— Espera. — Chris ergueu uma mão e tirou o telefone do bolso do blazer. — Abel está me ligando novamente. — Novamente? — Ignorei mais cedo as chamadas dele, — explicou ele, — Quando chegamos ao restaurante. Ele deixou algumas mensagens mas ainda não as vi. Espera, deixa-me só ver o que ele quer. — Chris atendeu a chamada. — Sim? Callie viu a expressão mudar. — O quê? — Rosnou ele. — O que quer dizer que ela está no hospital? Por que? — Chris parou. — Desmaiou? Quando? Como? Ela está bem? Deixe-me falar com ela. Caramba, ok, qual hospital? Está bem, — olhou para Callie, — Já estamos a caminho. — O que houve? — Perguntou ela ansiosamente. — Quem está no hospital? Chris tinha a mandíbula apertada. — A minha mãe. — A Sra. Walker!? — Callie cobriu a boca. — Não! O que aconteceu. — Já vamos saber. — Chris agarrou na mão dela. — Vamos.


Entraram

apressadamente

no

hospital,

Callie

caminhando rapidamente atrás do Chris. Não houve tempo para falar para onde exatamente a relação deles ia parar, durante o louco caminho até ao hospital. Callie só queria assegurar-se que Chris estivesse bem, dizendo coisas que nem ela sabia se eram verdadeiras ou não. Ela pensou que se as repetisse muitas vezes, se tornariam uma verdade. — Para que andar a minha mãe foi levada? — Chris rosnou assim que chegaram à Recepção onde estava uma pequena mulher negra com uma bata azul. — Eliza Walker, — disse Callie para a mulher confusa, — O nome dela é Eliza Walker. — Chris! — Chris e Callie viraram ao mesmo tempo para ver

Abel

indo

apressadamente

a

eles.

Este

Abel


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não era familiar a Callie. Este Abel parecia preocupado, sobrancelhas loiras franzidas e olhos vermelhos, como se estivesse chorando. Usando um suave terno branco que era mais adequado para um baile do que para um hospital, Abel estava elegante como sempre mas o seu lindo semblante estava desfigurado com tristeza profunda. — Abel! — Chris agarrou nos ombros do irmão. — Fala comigo! Como está a mãe? — Ela está bem, — disse Abel com voz rouca, como se a sua voz tivesse sido muito usada. — Por enquanto. — O que raios quer isso dizer!? — Chris, — murmurou Callie, esfregando-lhe o braço para o acalmar. As pessoas já olhavam para eles com testas franzidas. Não era educado criar um tumulto num hospital. Chris respirou fundo. — Abel, o que aconteceu? — Sigam-me. — Abel virou e começou a andar, os seus elegantes sapatos brancos estalavam no chão branco de mármore. — Então? — Pressionou Chris impacientemente quando chegaram aos elevadores. — Mamãe foi trazida para cá uma hora depois de você ter saído do salão, — disse Abel, — Papai contactou-me e eu


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tentei ligar para você, mas não estava atendendo o telefone e eu não sabia para onde vocês tinham ido no seu encontro. Chris

praguejou

baixinho

enquanto

entravam

no

elevador. — Coloquei o telefone só vibrando e ignorei as suas chamadas. Pensei que ia ser bisbilhoteiro. Se eu soubesse... — Não teria mudado nada, — disse Callie, — Isto não foi culpa sua, Chris. — Ela olhou para Abel. — Porque é que ela foi trazida para cá? Abel carregou num botão e encostou-se na fresca parede do elevador. — A mãe desmaiou na deli e convulsionou. O pai trouxe-a imediatamente para o hospital. — Ele fechou os olhos e respirou profundamente. — Aparentemente, os nossos queridos pais têm escondido há algum tempo o estado de saúde da mãe. — Que estado? — Chris exigiu. Abel esfregou os olhos, cansado. — A mãe está doente, Chris, já está há algum tempo e nós não fazíamos ideia… não fazíamos ideia. Ela sempre disse que era uma boa atriz. Bem, nos últimos meses ela tem-nos mostrado

um grande

desempenho. Bravo, mãe, bravo. — Do que está falando, Abel? — Perguntou Callie, — Quão doente ela está?


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— O pai disse que a mãe tem um tumor cerebral. Ela engasgou-se. — Não! Um tumor? Mas como? — A Sra. Walker sempre pareceu saudável sempre que ia visitá-la, de vez em quando, desde que se conheceram. Eliza, é tão radiante e alegre. Uma mulher que amava a vida e a sua família. — Pelo que o pai me disse, — disse Abel, saindo enquanto as portas do elevador se abriam, — ela já está doente há meses. Primeiro ela pensou que fosse uma gripe e recusou-se a ir ao hospital quando o pai insistiu. Depois começou a piorar. Tonturas, vômitos, desmaios. Seguiram Abel pelo corredor, ignorando as outras pessoas que passavam. — O pai disse que achava que ela estava novamente grávida, mas infelizmente não era o caso. Finalmente ele conseguiu levá-la ao hospital e foi quando descobriram que ela tinha um tumor. A TAC (Tomografia Axial Computadorizada) mostrou isso. — Eles têm a certeza de que é um tumor? — Chris abanou a cabeça, — Pode ser outra coisa ou... — Chris, — Abel olhou com tristeza para o seu irmão, — Fizeram vários exames. — Mas por que agora!? — Disparou Chris. Na verdade ele queria gritar — Mas por que a nossa mãe? — Porque é


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que, de repente ela, tem um tumor!? — O médico explicou que pode aparecer em qualquer momento, em qualquer idade. Tem feito tratamentos, mas já não são suficientes. Continua crescendo, Chris. A mãe precisa ser operada. — Porque é que não foi logo operada!? — Rosnou Chris. — Eles podiam ter tirado aquela coisa! — Sabe como a mãe tem medo de hospitais. Quando o médico sugeriu a cirurgia, ela perguntou se havia alternativas e ele disse que haviam os tratamentos… mas já não estão ajudando. — Abel parou em frente a uma porta fechada e virou

para

o

irmão.

sérios

riscos

se

ela

for

operada…mas se não for… — Morre na mesma, — Chris sussurrou e baixou a cabeça. — O que raios se passa? Abel olhou para o seu irmão perturbado. — Acho que agora sei por que é que ela queria tanto ter netos. Callie fechou os olhos bem apertados e sentiu as lágrimas caírem. Quando os abriu, ela desejou com toda a sua força, que tudo estivesse melhor. Que não estivessem no hospital, que a Sra. Walker estivesse segura no deli… mas não aconteceu. Quando abriu os olhos, ainda estavam em


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frente a uma porta branca e por trás estava… — Chris? — Ao som da voz, o trio ergueu o olhar e viu Brenda

dirigir-se a eles, com um sorriso hesitante no rosto.

Callie observou, estupefata, enquanto a mulher de terno cinzento foi em direção a Chris para o abraçar. Mesmo de terno de negócios elegante, uma camisa branca sob o casaco e saia curta, Brenda estava encantadora com o seu longo cabelo preto esvoaçante em torno dela. — Como está suportando? — Brenda perguntou ao Chris, com semblante preocupado. Chris olhou para ela. — O que está fazendo aqui, Brenda? — Ela estava no deli falando com a mãe, quando isto aconteceu, — Abel respondeu sombriamente, — e ela nos seguiu até aqui. — No deli? — Chris pareceu confuso. — Mas como... — Como nunca se preocupou em apresentar-me aos seus pais, — disse Brenda, — apresentei-me sozinha. Só lamento ter aparecido em um mal momento. As

mãos

de

Callie

apertaram-se

em

punhos.

A

vagabunda! Ela forçou a sua entrada na vida privada de Chris. Falar com os pais dele sem a sua permissão como se


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fosse uma bisbilhoteira, conspiradora. — Se houver qualquer coisa que precise, — murmurou Brenda, acariciando o rosto de Chris, — quero que saiba que estarei aqui, nesse momento difícil. Afaste-a, Chris, implorou Callie, afaste-a e conte sobre nós. Faça isso! Mas ele não o fez. Ao invés, Chris olhou demasiado tempo para Brenda antes de acenar. Ele agora tinha mais coisas para se preocupar, além da intromissão de Brenda. — Com licença, — Chris passou por Brenda e abriu a porta. A visão do seu pai ajoelhado ao lado da pequena cama que tinha a sua mãe, o fez parar. O seu pai segurava a mão pálida da sua mãe, cabeça baixa como se estivesse rezando… e talvez estivesse. — Chris, — a voz doce da sua mãe o fez erguer o olhar. Ela sorriu para ele. — Entra. Chris olhou para a sua mãe, congelou aonde estava quando olhou para ela. Ela parecia a sua mãe, mas estando ali deitada com uma bata azul de hospital, os lençóis azuis que a cobriam… não parecia ela. O seu rosto, normalmente rosado, estava agora pálido, lábios descoloridos. Os seus olhos brilhantes ainda brilhavam, mas pareciam estar diminuindo de intensidade, como se ela obrigasse o brilho a


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permanecer. Eliza Walker estava fraca e frágil. Esta não era a mesma mãe saudável que tinha afastado todos os monstros quando ele era criança. Não era a mesma mãe que tinha aplaudido e dado vivas quando ele marcou um gol num jogo de futebol, no colégio. Não era a mesma mãe que o tinha consolado enquanto ele chorava quando os seus amigos haviam morrido na guerra. Não era a mesma mãe que ele tinha visto na semana passada. A drástica mudança nela, dilacerou seu coração em pedaços. — Chris? — O sorriso de Eliza diminuiu. — Não vai entrar, querido? — Chris? — Ele ouviu a voz de Cal atrás dele. Chris olhou para trás e viu os olhos tristes e preocupados de Cal. Ligeiramente hesitante, Cal colocou uma mão reconfortante na dele. — Entra, Chris. Abraça a sua mãe. Tremendo, Chris entrou no quarto e foi direto para a sua mãe, ficando em frente ao seu pai. — Mamã, — ele sussurrou, erguendo a mão dela como se fosse de vidro. Caiu de joelhos. — Mãe. Eliza sorriu. — Olá, querido. Ele deitou a cabeça no colo dela e apertou os olhos. — Pronto, pronto, — ele ouviu a sua mãe murmurar, — Está


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tudo bem. Eu estou bem. — Por que? — Disse ele, — Por que nos escondeu isso? — Não quis preocupá-los. — Mesmo assim… devia ter-nos dito. Você e o pai não deveriam passar por isso sozinhos, mãe. — Chris, o que está feito, está feito. Mãe faz melhorar, ele queria implorar, mas estava fora do alcance dela. Estava nas mãos dos médicos salvarem a sua vida. — Cal, — Eliza sorriu, — Vejo que está ao pé da porta, querido. Entra, entra! — Sra. Walker. — Callie cumprimentou a mulher mais velha com um sorriso, enquanto entrava no quarto privado. — Olá. — Ora, Cal! — Eliza riu, — Você está fantástico. — O-obrigado. — Sra. Walker, — Brenda passou por Callie. — Como se sente? — Melhor, obrigada, — Eliza sorriu. — Nada de preocupante. — Suspirando de cansaço, ela colocou a cabeça na almofada. — Agora que os meus meninos estão aqui,


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sinto-me muito melhor. — Devia dormir um pouco, meu amor, — disse o Sr. Walker, roçando a mão na testa da sua esposa. — O médico disse que devia descansar o máximo possível. — Oh, pare de se preocupar tanto, — Eliza cutucou a mão do marido. — Estou muito bem. — Mas para os outros, ela não parecia bem. Estava hipocorada e doente. — Oh se ao menos eu tivesse algum neto para mimar, — disse Eliza maliciosamente, — Com certeza que me curaria miraculosamente. — Mãe. — Abel revirou os olhos. — É só nisso que pensa? — Na verdade, Sra. Walker, — Brenda interrompeu, ficando ao lado de Chris. — Chris e eu já andamos há algum tempo falando sobre filhos e nos casarmos. Todos na sala olharam para ela em surpresa, incluindo Chris. — Brenda, — disse ele em tom de aviso. Brenda riu e lhe bateu levemente no ombro. — Olha, Chris, a cor da sua mãe já estão voltando! Queria isso, não queria, Sra. Walker? Alguns netinhos e o Chris finalmente se assentando? — Ora… sim, — disse Eliza hesitante. — Claro.


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— Bem, não se preocupe com o seu filho mais novo. — Brenda olhou para ela. — Já estamos praticamente noivos! Agora só temos que marcar a data do casamento e em breve terá todos os netos que conseguir aguentar. Sua cadela manipuladora, pensou Callie sombriamente. — Então deve se concentrar em ficar melhor depois da cirurgia, — continuou Brenda. — Para ficar suficientemente saudável para assistir ao nosso casamento. — Netos, — murmuro a Sra. Walker melancolicamente, olhos se fechando. — Não seria bom? — O quarto ficou em silêncio enquanto ela adormecia. Chris colocou cuidadosamente a mão da sua mãe em cima da cama, antes de se levantar. Furioso, ele agarrou o braço de Brenda e a levou até à porta. Abel e Callie

os

seguiram, certificando-se de fecharem a porta. — O que raios você fez ali dentro? — Chris sibilou para Brenda. — Mentiu para a minha mãe! Brenda ergueu o queixo. — Chris, eu o fiz para que ela se sentisse melhor. Viu-a? Ela agora parece mais feliz com a ideia dos netos e de você se casar. Dei-lhe um motivo para lutar. — Não tinha o direito de...


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— Sou a sua namorada, — estalou Brenda, puxando o braço do aperto de Chris. — E você precisa se assentar Chris e fazer a sua mãe feliz. Ela quer netos? Bem, sou a melhor candidata para casar com você e dar-lhe netos. Não entendo porque está tão chateado, sabe que eu tenho razão. Como é que pode estar zangado comigo, quando eu acabei de lhe realizar um sonho? — Quero lhe dar um soco, — disse Callie a Abel sombriamente. — Oh céus, quero tanto fazer isso. — Preciso de ar fresco, — Chris murmurou, passando por Brenda. — Ninguém me siga. Abel

observou

Brenda,

uma

sobrancelha

erguida.

— Ora, você é uma mulher muito atrevida e devo dizer que também é uma cadela manipuladora. Brenda fixou os olhos de Abel. — Não fiz nada de mal. Apenas assegurei o futuro de Chris e fiz da sua mãe uma mulher feliz. — Chris não vai casar com você, — disse Callie, — Não com alguém como você, que está disposta a usar uma mulher doente para o obrigar a casar. Brenda olhou para ela. — O que eu e o Chris fazemos, não é da sua conta. Pensa o quê? — Brenda riu, — Pensou que tinha alguma chance com ele? Querido, ele não se


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interessa por homens e mesmo que se interessasse, era altamente improvável que ele escolhesse alguém como você. Abel afastou-se das mulheres e se encostou na parede, cruzando os braços enquanto as olhava com interesse. — Você não o merece, — Callie estalou, apertando as mãos em punhos. — Ele merece algo melhor do que você. — E depois? — Brenda cruzou os braços. — Acha que você o merece? Bem, alguém é muito sonhador. Não pode lhe dar aquilo que eu posso. Não passa de um amigo dele e assim que casarmos, vou fazer com que ele nunca mais te veja. — Está abusando, querida, — Callie resmungou. Ela estava tão tentada a bater no rosto da outra mulher. Brenda mandou o seu longo e macio cabelo para trás. — O quê? Quer me bater? Força, experimenta. Qual é o lado que Chris vai tomar? O meu ou o seu? Quer mesmo descobrir? Callie não disse nada. Brenda sorriu tolamente. — Vejo que anda perdendo peso. Boa tentativa, mas não importa o quanto você tenta mudar por fora. — Ela se aproximou de Callie até estarem a meros centímetros de distância. — Por dentro, continua sendo o mesmo cara gordo e desastrado que fala com Chris,


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salivando como um cão no cio por algo fora do seu alcance. É nojento. Um estalo alto deve ter ecoado no fundo do corredor enquanto a mão de Callie atingiu a bochecha direita de Brenda. Ambas as mulheres pestanejaram, completamente surpresas que Callie tivesse realmente dado um tapa nela. Callie olhou para a sua mão, boca aberta. Oh caramba… — Seu idiota! — Brenda exclamou e ergueu a mão para bater em Callie mas Abel foi ligeiramente por trás dela e agarrou sua mão. — Então, então, querida, — Abel riu, — Não podemos dizer que você não mereceu. — Larga-me! — Brenda gritou, tentando lutar contra o aperto de Abel quando ele envolveu um braço em torno da cintura dela para a travar. — Larga-me! — Ela olhou para Callie. — Vai me pagar por isso! — O que é que aconteceu!? — Chris caminhou na direção deles. — Pude te ouvir no outro corredor, Brenda! — Chris! — Brenda apontou um dedo acusador para Callie. — O seu amigo, acabou de me bater. Ele me bateu! Que tipo de homem bate numa mulher? — O quê? — Chris parou e olhou para Callie. — O que é


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que ela está falando? — Ele me bateu! — Brenda apontou para a sua bochecha vermelha. — Porque tem ciúmes de mim! — Isso não é verdade! — Exclamou Callie. — Chris, ela... — Bateu nela? — Chris perguntou friamente. Callie congelou. — Eu… ela… ela disse coisas que me deixaram louco e… — os ombros dela estavam caídos, impotentes. — Acho que me excedi. — Cal, não importa o quão louco ela te deixa! Bater numa mulher? — Ele parecia tão desapontado com ela. — Cuidado, Chris, — disse Abel, — Não piore as coisas, quando não sabe o que aconteceu. — Não importa o que aconteceu, — estalou Chris. — A nossa mãe pode estar morrendo e eles estão aqui lutando? — Ele abanou a cabeça. — Não quero saber quem começou. Os dois saiam da minha frente. — Mas Chris, — começou Brenda. Chris ergueu uma mão. — Cale-se, Brenda. Vai. — Chris. — Callie deu um passo na direção dele, mas ele se afastou, agitando a cabeça. — Você também Cal, — disse ele. — Saia. Abel, deixe-o


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em casa. — Sem mais palavras, ele abriu a porta e entrou no quarto privado da sua mãe. Callie guinchou quando ouviu o clique da porta fechando. Merda! Ela não queria irritá-lo! Abel

soltou

Brenda

e

parou

ao

lado

de

Callie.

— Desculpe, — murmurou ele. — Eu falo com ele depois. Ele está… preocupado com a mãe. — Isto não acabou, — Brenda sibilou para ambos e girou no seu calcanhar. Foi apressadamente pelo corredor em direção aos elevadores, sem olhar para trás. — Boa viagem para ela, — Abel bufou, virando Callie na outra direção. — Se não tivesse lhe batido, decerto que eu teria! — Agora Chris me odeia, — Callie lamentou-se, cobrindo o rosto com as mãos. — Ele pensa que eu sou… um monstro que bate em mulheres! — Ele pensa que é um homem, lembra? — Abel lembrou-a. — Ele não admite que um homem bata em mulheres sob circunstância alguma, a não ser que lute pela vida ou pela vida daqueles que ama. Callie fungou. — Ela me deixou tão louca! A maneira como ela usou a sua mãe e Chris!


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— Não se preocupe, — Abel deu uma palmadinha no seu ombro. — Eu explico tudo para ele mais tarde. Eu te levo para casa e você espera pacientemente por ele. Ele vai precisar mais tarde do seu conforto. — Não me surpreenderia se ele não voltasse para casa, — Callie sussurrou enquanto caminhavam pelo corredor. Mas no coração dela, desejava que sim. E após horas de espera no seu apartamento, depois de Abel a ter deixado… Chris não voltou nem ligou. Callie mal dormiu nessa noite.


Ah ha! Ali está ele. Abel entrou no bar cheio de fumo, ignorando os olhares curiosos na sua direção. Afinal de contas, o que estava um homem elegante como ele, num lugar cheio de bêbedos e encreiqueiros? Por causa dele, pensou Abel, sentando-se no banco vago ao lado da figura corcunda do seu irmão que segurava uma caneca de cerveja. O barman os olhou por detrás do balcão, notando a semelhança entre ambos. Chris ignorou-os, bebendo lentamente a cerveja que tinha na mão. Abel cruzou as pernas, olhos perscrutando, questionando. — Vai embora, — resmungou finalmente Chris. — Nem pense irmãozinho. Agora diga o que é que você


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tem? Chris disparou um olhar sarcástico. — Sem ser o fato de que a nossa mãe está morrendo nesse preciso momento? Abel acenou elegantemente uma mão. — Exagero. A mãe vai ficar bem. Se ela conseguiu criar dois malandros como nós, então pode fazer qualquer coisa. Ela vai viver. É a nossa mãe. Como se isso fosse suficiente para lutar contra um tumor, pensou Chris amargamente. Tomou um gole do forte líquido na sua caneca, lutando para não ver a imagem da sua mãe doente. Ele não queria a ver mais assim. Não a sua mãe. — Admita, — Abel pressionou enquanto cruzava os braços. — Há outra coisa que te trouxe para um lugar desses. Ou devo dizer… alguém. — Vai embora, — estalou Chris, — e me deixe em paz. — Não. — Abel estalou de volta. — Não vou te deixar sozinho e sabe por que? — Ele agarrou na caneca que Chris tinha na mão e a colocou em cima da mesa. Algum líquido entornou na sua mão, mas ele ignorou, olhos azuis ferozes em Chris. — Porque, — continuou ele sem demora. — Somos irmão e os irmãos tomam conta um do outro e, irmãozinho, neste momento precisa que alguém tome conta de você


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porque está sendo um completo idiota. Chris continuou teimosamente em silêncio. — O que vai fazer sobre Cal, Chris? — Não é da sua conta, Abel. — É da minha conta. — Abel agarrou o guardanapo que estava na mesa e limpou a sua mão. Franziu o nariz, odiando o cheiro daquele líquido. — Cal é meu amigo. — Isso não te dá quaisquer direitos. — Pfft, — Abel bufou. — Claro que dá. Sou Abel. — Disse ele com a sua confiança, como se sendo ele mesmo lhe abrisse qualquer porta. Chris revirou os olhos. Abel ignorou. — Chris, repito… o que vai fazer sobre o Cal? Sem aviso, os olhos inocentes cor de chocolate de Cal, vieram ao pensamento. Olhos magoados e acusadores quando ele o tinha mandado embora. Chris estremeceu. — Não sei. — Desculpe, — Abel inclinou a sua cabeça um pouco para o lado. — O que você disse?


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Chris falou mais alto. — Eu disse que não sei! — Bem, é melhor saber depressa, antes dele escapar. Oh já sei! — Abel estalou os dedos. — Porque não é um cavalheiro e pede desculpa? Chris ignorou o sarcasmo na voz do irmão. — Porque tenho que pedir desculpa? Ele e a Brenda estavam discutindo em frente à porta da nossa mãe. Ele bateu em Brenda! — Hah! — Abel bufou com isso. — Como se a bruxinha não merecesse. Chris olhou para ele. — O que está dizendo com isso? — Devia ter falado com Cal antes de tirar conclusões precipitadas e afastá-lo. Você não é o único sofrendo aqui, Chris. No momento em que Abel terminou de contar o que levou Cal a bater em Brenda, Chris se sentiu muito pior. Enterrou o rosto nas mãos e respirou fundo. — Que confusão. — É isso mesmo. — Abel deu-lhe uma palmadinha no ombro. — Chris, vá ver Cal e façam as pazes. El-ele está sofrendo. Sabe o quanto ele o ama. O ama também? — Não sei. — Querido, não minta para si mesmo. Ambos sabemos


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que está confuso. Está apaixonado pelo Cal e não admite. Pare de fugir, irmãozinho, porque mais cedo ou mais tarde Cal vai se fartar e vai parar de te perseguir. Chris baixou as mãos do rosto e olhou sombriamente para as suas palmas. — Mas e a mamãe? — O que tem ela? — Ela sempre disse que queria netos. — Ah ha! — Abel riu, — Então é por isso que você está aqui, embriagando-se para esquecer os problemas. Deixe-me dizer uma coisa, Chris. A mãe quer netos, mas quer mais a sua felicidade. Não deixe que a Brenda, a Bruxa, te obrigue a casar. — Se eu for ver Cal… a mãe nunca vai ter netos. — Há uma coisa que se chama adoção, Chris. Pense nisso. — Não é a mesma coisa e você sabe disso. — Vai ter que servir. — Abel olhou para ele com compaixão. — Faça o que está certo, Chris. Não deixe que a Brenda te manipule. Vai encontrar com Cal… além disso, tenho a sensação que ele quer te dizer algo. Chris levantou a cabeça. Encarou Abel pensativamente. — Na verdade, antes de você ligar, ele estava para me dizer


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alguma coisa. — Ele quase se esqueceu sobre isso. — Está me dizendo que você sabe o que é? Abel saiu do assento. — Vai encontrar com Cal e descobre. Chris agarrou o braço do Abel. — Abel, o que é? É alguma coisa má? — Agora que ele pensou nisso, Cal parecia torturado quando estava prestes a confessar… confessar o quê? — Oh, Chris — Abel suspirou. — Isso depende inteiramente de você. — Que raios isso quer dizer? — Ama o Cal? Se amar… bem, espero que sim, porque vai ser preciso muito amor para ultrapassar as suas questões. E é só o que digo. — Abel virou para sair e parou. — Oh e Chris? — Sim? — Quando Cal contar o seu segredo, lembre-se… tudo começou com você. Chris pestanejou. — Comigo? Abel afagou a cabeça de Chris. — Sim, com você… porque, às vezes Chris, você é tão cego até ao ponto da


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idiotice. Chris observou o seu irmão sair. Ele era cego? Cego a respeito de que? E Cal… depois dessa noite, depois de gritar com ele, Chris não o criticaria se ele nunca mais quisesse falar com ele. — Abel! Espera! — Ele seguiu Abel até à rua, o vento frio da noite o atingiu assim que saiu do bar. — Abel! Abel parou e deu meia volta. Ele nunca viu Chris assim. As bochechas coradas, o cabelo desgrenhado. Era a confusão e a esperança no olhar, idêntico ao seu, que fez Abel sorrir. — Sim querido irmão? — O que é que eu faço? — Chris caminhou até Abel e agarrou no ombro do outro homem. — Que raios eu faço? — A respeito do Cal? Acabei de te dizer. — Não. — Chris abanou a cabeça. — Sobre isso. Sobre os sentimentos que tenho por ele. Merda, estou muito assustado, mas… quando ele não está, quero ficar próximo dele. Nunca estive neste tipo de situação. O que eu faço, Abel? O que eu faço? Abel sorriu. — Oh Chris, não vê? — Acariciou a bochecha de Chris. — Vai falar com ele e diga as palavras. — As palavras?


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— Eu te amo.

— Pare de olhar pela janela, Callie, — Callie disse a si mesma, pela centésima vez. — Ele não vem. — Callie se afastou da janela com um suspiro. Passou a noite toda espreitando pela janela e pela porta, para ter a oportunidade de ver o Chris, e depois de tanto tempo, ele não apareceu. — Ele me odeia, — ela sussurrou, — provavelmente ele já nem sequer suporta me ver. — Nem sequer havia ligado. — A culpa é minha, — murmurou Callie, — Já devia ter dito a verdade há muito tempo. — Transformou tudo em uma confusão. Tantos mal-entendidos… Atirando-se no sofá, ela enterrou o rosto nas mãos. Oh Chris…onde está? Está com a sua mãe…ou nos braços de Brenda? — O que é que isso importa? — Callie riu amargamente. — Se ele estiver, eu o levei a isso. — Não é que ele alguma vez tivesse dito a Callie que a amava. Mas ele disse que sentia algo…algo forte o bastante para ultrapassar as barreiras dos sexos, mesmo ela sendo uma mulher, ele pensa que ela é um


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homem. Quando a campainha tocou, a cabeça de Callie levantou. Os seus olhos arregalaram-se, a boca formava um ‘O’. Quem seria? Seria Chris? Levantou rapidamente e se afastou do sofá. Teria Chris finalmente vindo para falar com ela? Os passos de Callie hesitaram. E se ele tivesse vindo para terminar com ela por ter batido em Brenda? — Não seja tonta, — Callie riu para si mesma. Não é que eles tenham mesmo começado a namorar. Dirigindo-se à porta, começou a ficar apavorada. E se Brenda estava com ele? E se estava aqui para dizer que ia se casar? Callie parou na frente da porta e olhou. Eu não quero isso, pensou ela. Não quero que ele se case com ela. Nem com ninguém… a não ser eu. Respirando fundo, ela destrancou a porta e agarrou a maçaneta. — Se for o Chris e ele estiver sozinho, vou dizer a verdade. — Decidiu ela. — A respeito de tudo. — Talvez ela acabasse por perdê-lo também, mas já não se importava. Estava na altura dele saber a verdade. Callie girou a maçaneta e abriu a porta, um discurso dramático que envolvia ajoelhar-se, estava prestes a sair de sua boca, quando ela percebeu quem estava na sua frente. — Gregory?


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— Callie. — Gregory, usando um elegante terno preto e sapatos brilhantes. — Precisamos conversar. Callie olhou para ele, a tensão saía do ombro dela. Hah! Não era Chris. Exasperou-se por nada. Mas porque estaria aqui o Gregory? — Gregory. — Callie sorriu — Que surpresa! O que faz aqui? — Importa-se? — Greg passou por ela e entrou no apartamento. — Prefiro não falar com você sobre assuntos de família, na porta. — Claro que não. — Afastando a desilusão por não ser o Chris tocando a campainha, ela fechou a porta. — Assuntos de família? — O seu cabelo está mais curto, — comentou Greg quando a encarou. Ele olhou de modo desaprovador para o cabelo dela. — Sarah tinha razão. Parece um homem. Ótimo, pensou Callie com alívio, ele não me reconheceu no Baile dos Bombeiros. — Greg, veio aqui para me perturbar por causa do meu cabelo? — Você perdeu peso, — continuou ele como se não a tivesse ouvido. — Parece… leve. Você está com bom aspecto. — Aquela observação surpreendeu aos dois. Callie não


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esperava que ele dissesse aquilo, ele pigarreou, parecendo desconfortável. Por alguma estranha razão, Callie corou. Greg estava charmoso como sempre, mesmo sendo frio como gelo. Mas ele não é o Chris, a sua mente sussurrou longamente. Não… não é o Chris. — Greg… o que você faz aqui? — Certo. — Greg pigarreou novamente. — Sarah e a sua mãe estão preocupadas com você. — Uh huh. — Ela não acreditava naquilo e demonstrou em sua voz. Greg endureceu. — É verdade. Porque tem ignorado as ligações delas? Callie deu de ombros. — Tenho andado ocupada. — Fazendo loucuras, já contaram. Foi a vez de Callie endurecer. Ela olhou fixamente para ele. — Está falando sobre o que? — Sarah contou sobre o homem que estava aqui. Quem era ele? — Não é da sua conta. — Como é que Sarah se atreve a espalhar boatos sobre ela. A respeito do Chris! Conhecendo


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Sarah, a sua irmã mais velha deve ter contado mentiras que nunca aconteceram. — Uma jovem como você não devia ter homens no seu apartamento, Callie. O tom de desaprovação na voz dele a fez corar, mas não se acovardou como fazia antes. Agora que ela tinha finalmente crescido, olhou abertamente para o seu ex. — Não sou uma garota, Greg. Sou uma mulher e se eu quiser trazer homens para o meu apartamento, bem… só eu é que sei, não você. Greg observou a garota… não, a mulher perante ele. Ao longo dos meses, certamente Callie tinha mudado. Já não tinha aquele longo cabelo louro, o substituiu por um curto e castanho, dando um ar de duende. Ela tinha perdido muito peso. Aquela roupa sem gosto e muito larga que ela usava não mostrava muitos melhoramentos no seu sentido de moda, mas ainda assim… Callie estava… diferente. Tinha adquirido alguma confiança, Greg decidiu. E ela nunca tinha mentido antes. Apesar do seu cabelo curto ser meio masculino… ela tinha bom aspeto. Leve. Feminina. Mesmo naquelas roupas largas. — Agora que acabou de questionar a minha bondade, — Callie abriu a porta. — Gostaria que saísse.


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Greg abriu a boca para dizer que não ia a lugar nenhum mas parou, olhando por cima do ombro dela. Ele fechou a boca e olhou. — Está olhando para onde? — Callie franziu a testa e olhou para trás. Ela congelou. — C-Chris! OH MERDA! Callie resmungou. Ótimo. Fantástico. Ela nunca quis que esses dois se encontrassem, mas olhem o que aconteceu. A pontaria de Chris foi terrível. O destino estava contra ela. Chris ficou atrás dela, ainda usando exatamente o mesmo terno de ontem à noite. Tinha um ar exausto, como se estivesse acordado a noite inteira, mas endireitou-se quando viu Gregory. — Estou interrompendo alguma coisa? — Não! — Disse Callie rapidamente. — Hum… Greg estava de saída. Não é Greg? — Ela disparou um olhar, um que ela esperava que ele ouvisse e saísse, mas claro que não saiu. — Quem é você? — Perguntou Greg sem preâmbulos. Callie gemeu. — Chris, — Chris disse ao outro homem. — E você é…? — Greg! — Disse Callie, — O meu… hum… o noivo da Sarah.


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— Sarah? — Chris pareceu pensativo antes de se lembrar quem era Sarah. — Oh! Sarah! Aquela garota que atirou... — Aquele convite de casamento, — Callie saltou, interrompendo-o. — Sim, é a Sarah. Greg estava aqui para me lembrar do casamento. É bom, não é? Mas agora ele vai embora. Sai, Callie queria gritar. Vai Greg! Vai! Não era assim que ela queria contar a verdade a Chris. Não era assim que queria que ele descobrisse as mentiras sobre ela. — Então você é o homem que a Sarah me contou, — disse Greg, fixando Chris. — O que é você para a Callie? — Callie? — As sobrancelhas de Chris franziram com confusão. — Quem é? Caramba! Oh não! Oh não! Oh não! — Greg, acho melhor que vá embora. — Callie contornou-o e começou, desesperadamente, a empurrá-lo. — Prometo que ligo mais tarde para Sarah. Agora vai. Greg franziu a testa, passando por Chris enquanto Callie o empurrava para fora. — Cal... — Falo com você mais tarde! — Callie agarrou Chris e o levou para dentro do apartamento. — Já, agora parabéns! —


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Ela fechou a porta e trancou, como medida de precaução. —

O

que raios foi isso?

Chris

ergueu

uma

sobrancelha quando ela o encarou. — Hum… não é importante. — Pareceu ser importante para mim. — Bem, mas não era! — Estalou Callie. Chris ficou em silêncio e Callie corou. Mesmo para os seus ouvidos, ela soava rude e na defensiva. — Chris… desculpe. — Não, — disse ele, timidamente esfregando a parte de trás do pescoço. Ele mostrou um pequeno sorriso. — Não é da minha conta. Foi mau. O coração de Callie apertou quando o viu. Ela estava nervosa há alguns segundos atrás por causa do Greg, mas agora o outro homem tinha ido embora, a presença de Chris encheu os seus sentidos. Apenas de olhar para o seu lindo rosto, sentiu borboletas em seu interior. — Parece cansado. — Ela hesitou antes de se aproximar. — A sua mãe…? — Ela está bem. Por enquanto. — Chris. — Callie calou-se. Lamento, não parecia o


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suficiente para o interromper. Como ela desejava conseguir curar a Sra. Walker, mas mesmo com todo o dinheiro que ela herdou… o dinheiro não seria suficiente. Mas podia conseguir os melhores médicos com ele. Era o mínimo que podia fazer. — Olha, Cal, — começou Chris, — sobre ontem à noite. — Ele suspirou pesadamente. — Desculpe. Abel contou o que aconteceu. — Oh. — Ele não está aqui para me dizer que vai se casar com a Brenda. Callie queria saltar de alegria. — Tudo bem. Provavelmente não deveria ter batido nela. — Não, provavelmente não. — Ele mostrou um olhar desaprovador. — Você é um homem. Podia ter feito alguns sérios estragos. Este é o momento que estava esperando, disse Callie a si própria. Este é momento perfeito para dizer a verdade. O momento perfeito... Todos os pensamentos voaram de sua mente quando, de repente, Chris a agarrou e os seus lábios cobriram os dela. Apanhada desprevenida, ela congelou alguns segundos antes de amolecer e inclinar-se para ele… para o beijo. A sensação da boca dele devorarando a dela, fez o seu coração acelerar como um louco e o seu corpo pegou fogo. Quando

ele

quebrou

o

beijo,

ambos

respiravam

com


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dificuldade. Chris beijou sua testa e riu para ela. — Desculpe, queria fazer isto desde que te vi. Está adorável. — Estou? — Ela guinchou, bochechas coradas. — Mas estou usando as minhas roupas normais. Nada de especial. — Você é especial, — disse ele e as suas palavras derreteram o seu coração. Oh Chris… ele estava dificultando que ela dissesse a verdade. — E não vou casar com a Brenda. — Chris continuou. — Não é ela que eu… que eu amo. Oh Deus. — Chris... — Não. — Ele abanou a cabeça. — Deixe-me terminar, Cal. Eu… eu te amo. — Chris riu, olhos azuis brilhando. — Eu te amo! Caramba, sabe faz bem dizer em voz alta. — Era como se tivessem tirado um peso de cima dos ombros. Chris olhou para Cal com um largo sorriso. Ele esperava ver Cal sorrir de volta, o que não esperava era ver aqueles lindos olhos castanhos cheios de lágrimas e que Cal irrompesse em soluços de partir o coração. — Cal? — Ele entrou em pânico. — Amigo, o que


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aconteceu? Callie abanou a cabeça e se afastou dele. Ela nem conseguia falar, de tão enojada estava de si mesma. Chris era extremamente bom para ela. — Cal? — Chris disse o nome dela com preocupação. — O que houve? Não está feliz? Eu disse a verdade. Eu te amo. Os soluços de Callie ficaram mais tortuosos. Ela estava praticamente se sufocando em lágrimas. Ótimo. Talvez morresse. Ela merecia. Por mentir para o Chris. Por ganhar o amor dele com mentiras sobre mentiras. Ela não merecia o amor desse homem lindo. Independentemente do quão almejasse… ela não era suficientemente boa para ele. — Eu te amo, — repetiu Chris, pensando que a razão pela qual Cal estava chorando era por não acreditar nele. — Eu amo! Nunca amei ninguém assim na minha vida. — N-não, — implorou Cal, — Não. Chris franziu a testa. — Não? Cal soluçou. — Por favor, Chris…eu…você…não pode me amar. Não está certo. Oh céus. — Está inseguro? — Perguntou Chris. — Porque, para mim, não importa que seja um homem. Posso viver com isso.


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Ou se for por causa do seu peso… também não me interessa. Desde que esteja saudável, não me interessa o seu aspecto. Você é perfeito. — Pare! — Callie ergueu uma mão, lágrimas correndo desenfreadas pelo rosto. — Chris, por favor, pare! N-não ddiga mais nada. Não! — Sentindo-se fraca, ela ajoelhou e cobriu o rosto. O rosto de uma mentirosa. — Eu te amo. — Chris ajoelhou perante ela e pegou nas suas mãos. — Nada irá mudar isso. Callie olhou para ele. — Só até você descobrir. — Descobrir o quê? — Chris lhe tirou o cabelo do rosto. — Para de chorar. Não gosto de te ver chorar. Callie tirou as mãos. — Quando te disser a verdade, não vai querer sequer olhar para mim. — Está falando do que? — Desculpe, — sussurrou ela. — Desculpe. — Cal, — os olhos de Chris estreitaram-se. — O que raios ocorre contigo? O que aconteceu? Diga, disse a si mesma. Diga! — Chris… não sou quem… o que você pensa que sou. A testa de Chris franziu em confusão. — Está falando do


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quê? É agora. Callie olhou bem nos seus lindos olhos azuis. É aqui que eu o perco. Eu sei. Ela ergueu as mãos e acariciou o rosto dele, memorizando a sensação da pele nos seus dedos, porque depois disto… provavelmente ela não poderia mais tocá-lo. — Eu te amo, — disse ela. — Te amo tanto. Tanto que dói. Chris colocou as suas mãos nela. — Eu sinto o mesmo. Novas lágrimas rolaram pelas suas bochechas. — Não faz ideia do quanto eu quis ouvi-lo dizer isso. Mas… mas não mereço. — Cal… amigo, está me confundindo e francamente está começando a me assustar. — O que raios o preocupa, Cal? Callie inclinou para frente e pressionou os seus lábios nos dele. Tinha a certeza que seria o último. — Cal? Callie levantou e se afastou lentamente. Chris ficou ajoelhado, olhando para ela em confusão. — O que está acontecendo? Callie abraçou a si própria. — Tenho que dizer uma


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coisa. Chris levantou — O quê? — Chris…tenho te enganado. — Sobre o que? — Sobre tudo. Chris riu. — Ok, Cal, pode ser mais específico? — Chris, não sou… não sou um homem. Chris franziu a testa. — O que? — Eu disse, — ela respirou fundo. — Não sou um homem. — Ok. — Chris riu nervosamente. — Então o que você é? Um travesti? — Chris riu da sua piada, mas quando viu que Cal não se riu com ele, parou. — É? — Não! — Callie abanou a cabeça. — Não. — Ok, — disse Chris lentamente. — Então do que se trata? — Chris, sou uma mulher. Ele pestanejou. — Uma o que? — Uma garota. — Callie tentou sorrir mas falhou.


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— Tadaaaa. S-surpresa! Chris olhou para ela e parecia que o seu coração estava sendo apunhalado por uma agulha. — Sou uma mulher, — disse ela suavemente. — Sempre fui. Chris continuou olhando para ela em silêncio. — Não era minha intenção engana-lo durante tanto tempo, mas… mas eu… nunca consegui dizer a verdade porque eu tinha muito medo. Ainda tenho medo, mas sabia que tinha que te dizer. Não podia continuar a mentir. Chris não disse uma palavra. Não conseguia. Sentiu-se morto por dentro. — C-Chris? Diz alguma coisa. Por favor. — Callie queria atirar-se aos pés dele e implorar por perdão. Ele olhava para ela… mas ela tinha a sensação que ele não a via. Não mais. — Não está brincando, — disse ele finalmente, através do silêncio. A sua voz soava vazia, desprovida de emoção. — Não. — Ela abanou a cabeça. — Não estou. Ele desviou o olhar para o chão. — Aquele dia que a confundi com um homem… — Eu ia dizer o erro, mas uma coisa levou à outra…—


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Callie deu de ombro, impotente. — Fui estúpido. Fui estúpida.

Queria

desesperadamente

ficar

ao

seu

lado.

Desesperada o suficiente para continuar a fingir que era um homem. Nunca pensei… nunca pensei que um homem como você pudesse me amar. Chris, lamento tanto. Lamento muito mesmo. — Abel sabia, não sabia? — Chris olhou para ela. — Ele sabia. — Sim. — Provavelmente estavam ambos rindo nas minhas costas. — Não! Nunca! — Os olhos de Callie arregalaram-se. — Nunca fizemos isso. Nunca o faríamos. — Aproximou-se dele e tentou colocar a sua mão no braço dele, mas ele recusou o seu toque. Aquilo doeu. Callie olhou para ele e sentiu. Perdera-o. — Chris? — Ele estava tão calmo que a assustou. Os olhos dela perscrutaram o rosto dele, tentando apanhar qualquer tipo de emoção, mas não havia nada. Nem sequer havia raiva. — Chris? Afastou-se dela e foi em direção a porta. — Chris!


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Espera! — O agarrou na mão. — Chris! — A voz de Callie tornou-se suplicante. Quando ele se virou para a encarar, o que viu fez ela deixar de respirar. E estilhaçou seu coração. Chris olhou para ela, seus olhos cheios de lágrimas não derramadas. Ela o libertou e encobriu os seus soluços com as mãos. — Agora quero odiá-la, — disse ele com voz rouca. — Céus, eu quero… mas sabe o que mais? Eu ainda te amo e isso é fodido. Nem consigo me obrigar a te odiar. Amo você demais, mas quem é você? Nem sequer sei, não é? Chris procurou o rosto dela. — Apaixonei-me por uma mentira. Quando ele se virou e saiu da vida dela, ela não o impediu. Não podia. Callie sabia que tinha que o deixar ir, mas ainda doía. Mas o que magoava mais era o fato de saber que o tinha magoado. Magoou-o demais. — Lamento, — sussurrou ela entre soluços, olhando para a porta que Chris deixou aberta depois da sua partida. — Lamento.


— Christopher, onde está o Cal? Chris endureceu sob a pergunta suavemente proferida pela sua mãe, mas não se virou para responder. Com a mandíbula apertada, ele continuou a esvaziar o pequeno copo de plástico dentro do jarro azul escuro que continha flores campestres; as preferidas da sua mãe. — Chris? — Não sei, mãe, — disse ele finalmente e acrescentou irritado: — Não sou o guardião dele. Ele ouviu sua mãe suspirar melancolicamente. — Não o


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vejo

muito

tempo.

Tenho

saudades.

Ele

é

um

maravilhoso… rapaz. Rapaz, uma ova, pensou Chris sombriamente. — Nem parece coisa dele não vir me visitar para saber como estou, — continuou Eliza. — Principalmente quando a minha cirurgia é depois de amanhã. Chris atirou o copo vazio no lixo, mas não encarou a mãe. Se ela visse a sua expressão agora, veria a raiva que ele cuidadosamente suprimia devido ao delicado estado dela. Ao invés, ele olhou pela janela, observando os carros lá em baixo que se moviam como formigas. — Gostaria que ele me ligasse, — disse Eliza com outro suspiro triste. — Já liguei para o telefone de casa, mas ele nunca atende. Você tem o número de celular dele, não tem Chris? Não pode ligar... — Não, — atirou Chris rapidamente, depois suavizou o tom. — Mãe… ele provavelmente está ocupado com… coisas. — Coisas? — Sim. — Chris, olha para mim. Endurecendo a sua expressão, Chris virou e finalmente encarou a sua mãe. Deitada numa cama de hospital de


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vestido rosa, Eliza observou cuidadosamente o seu filho antes de se sentar. Ela ainda se sentia muito fraca devido à sua condição, mas não tinha perdido a sua capacidade de se mover. — Mãe, — disse Chris em aviso. — Não se mexa tanto. — Afastou-se da janela e se aproximou da sua mãe que lhe acena com um riso. — Oh Chris, — Eliza riu, — Estou muito bem. Chris ajoelhou ao lado da cama e tomou a sua frágil mão. — Ainda assim…não devia abusar. — Estou bem, — assegurou ela novamente. — Agora diga o que aconteceu entre você e o Cal. Ah merda. — Nada, — Chris respondeu suavemente, mas não suave o suficiente porque obviamente Eliza não estava convencida. Ela ergueu uma sobrancelha, mas ele ignorou. — Está me dizendo que isso,— disse ela de sobrancelhas franzidas, — não é causado pelo que quer que tenha acontecido entre vocês? Christopher, posso estar doente, mas não sou cega. Chris levantou e largou sua mão. — Esquece, mãe. Ela olhou preocupada para ele. — Chris, o que


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aconteceu? — Eu disse para esquecer. — Como é que eu posso esquecer quando o meu menino está sofrendo tanto? Chris afastou o olhar investigador dela e olhou para a janela. O céu estava infinitamente azul e ele parecia não ver. Sentia-se tão vazio por dentro, que deixou a sua raiva permanecer por mais tempo só para preencher aquele vazio. — Christopher. Porque está sofrendo? — Mãe, estou bem. — Ele olhou para a porta. — Vou pedir à enfermeira que traga os analgésicos. — Espera aí Christopher Walker. — Os olhos de Eliza estreitaram-se nas costas dele. — Não vire as costas para mim. Praguejando baixinho, Chris deu meia volta e olhou para a sua mãe. Ela o olhou também, durante alguns segundos, antes dos seus olhos suavizarem. — Chris, pode estar de cara fechada, mas eu sei quando um dos meus rapazes está sofrendo. — O que quer de mim, mãe? — Quero a verdade.


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Ele riu sombriamente. — Eu também. Eliza suspirou. — Já descobriu, não foi? — Quando Chris não respondeu, ela tentou novamente. — Descobriu o segredo de Cal. Chris olhou demoradamente para ela, antes de rir obscuramente. — Sabe, não me surpreende nada que soubesse antes de mim, mãe. Caramba, o pai também sabe? Algum de vocês planejava me contar? — Está zangado por que, Christopher? — Perguntou Eliza, indo direto ao assunto. — Que Cal é uma garota ou que ela te enganou? — E qual é a diferença? — Respondeu ele. — Cal mentiu. Ponto. Ele… ela tem mentido este tempo todo. — E tenho a certeza que ela está arrependida. — Certo, mãe, isso me faz sentir muito melhor. — Certo que não se sentirá melhor se continuar agarrando toda essa raiva tola. — É tudo o que tenho. Eliza abanou a cabeça. — Por que não quer perdoá-la? — Porquê!? — Chris olhou para ela. — Por que raios iria perdoá-lo? Quero dizer ela…quero dizer… merda! — Ele virou


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com

raiva

e

fechou

os

olhos.

Maldição,

praguejou

mentalmente. Respirando fundo, expirou e aguardou um minuto antes de falar. — Não é assim tão simples, mãe. — Claro que não é, — disse Eliza suavemente. — O amor nunca é simples, Chris. Se a ama… e ama, não é, Chris? É por isso que é tão complicado perdoá-la. Você ama Cal. — Não sei quem amo, — sussurrou ele com voz rouca. — Eu nem sequer conheço a pessoa por quem me apaixonei. — Bobagem! Cal é Cal. Ela pode ter mentido acerca do seu sexo, mas sempre foi ela mesma com você. Ela te ama, Chris. — Não o suficiente para me dizer a verdade. — Ela disse a verdade. — Depois de mentir durante tanto tempo! Ela podia ter sido sincera comigo desde o início! Os olhos de Eliza estreitaram-se pensativamente. — Com quem está realmente zangado, Chris? Com Cal ou com você mesmo? Assustado, Chris olhou fixamente para ela. — O quê? — Eu o conheço, filho, eu sei que é um homem justo, por isso sei que deve ter tentado se colocar no lugar de Cal.


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Pensou sobre isso, certo? Como Cal deve ter se sentido durante todos estes meses, fingindo ser um homem porque tinha medo de te perder. Isso era verdade, mas caramba, Chris apertou as mãos em punhos. Porque é que ela não foi sincera com ele!? — Eu confiei em Cal, — Chris disse a sua mãe. — Sim, sou um idiota por confundi-la com um homem, mas confiei nela. Caramba, — ele riu sem humor, — Eu estava me tornar gay por ela! Eu teria desistido de tudo por Cal… tudo. — Oh Chris, — começou Eliza simpaticamente. — Não, — Chris ergueu uma mão. — Escuta. Quando pensei que Cal era um homem, fiquei louco! Ele começou a caminhar enquanto falava, mãos nos quadris e olhos diretos no chão. — Continuava pensando que havia algo de errado comigo, porque nunca gostei de homens romanticamente! Nunca… até Cal. Eu deveria saber… deveria saber que ele era na verdade uma ela, mas caramba, mãe! — Chris atirou as mãos com frustração e encarou a mãe. — Pensei que Cal era apenas um daqueles homens com aparência feminina como Abel! Penteou o seu cabelo para trás com os dedos e suspirou. — Céus… que confusão.


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— E você é o único que pode resolver essa confusão,— disse Eliza. — Tome Cal de volta, Chris. — Acho que não vou conseguir perdoá-lo. — Chris guinchou. — Ela. Perdoá-la. — Então não a perdoe. — EIiza suspirou. Sério, o filho dela era teimoso demais. — Não a perdoe, mas pelo amor de Deus, Chris, tome-a de volta! Ela é uma garota especial e eu gosto dela. — Brenda... — Ha! — Eliza abanou a mão. — Esquece a Brenda. Eu sei que ela não é para você. Precisa de alguém como a Callie. Chris, se a Callie consegue fazer você pensar que é um homem e mesmo assim se apaixonou por ela, então isso quer dizer que ela tem uma beleza interior que a maior parte das mulheres não tem. Ela esticou a sua mão. — Chris, vem aqui. Chris olhou solenemente para a mão esticada antes de a segurar. Ajoelhando-se ao lado da cama, olhou dentro dos olhos da sua mãe enquanto ela sorria ternamente para ele. — Oh, querido, — sussurrou ela e lhe bateu suavemente na bochecha com a mão livre. — Não entende? Callie é a sua alma gêmea e se a deixar fugir… vai se sentir oco para o resto


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da vida. Nunca vai se sentir completo. Ela baixou a cabeça e bateu com a sua testa na dele. — Chris, o amor não é fácil. Vem com muitos altos… e muitos baixos, mas no final das contas, não vai querer sair do lado da sua amada. Eu e o seu pai discutíamos muito quando éramos jovens e ainda discutimos, mas olhe para nós. Ainda estamos juntos porque não conseguimos nos ver com mais ninguém. Estar muito tempo longe do seu pai, dói. Isso é amor verdadeiro. Eliza fungou e limpou as lágrimas dos olhos. — Oh Chris, eu só quero que tenha o que eu e o seu pai temos… e tenho muito medo que você deixe escapar. — Mãe, não chore. — Chris amaldiçoou baixinho e ajudou-a a limpar as lágrimas com os seus polegares. — Mãe, não chore. Desculpe. A sua mãe agarrou nas mãos e apertou. — Prometa Chris, — exigiu ela com a voz tremendo. — Promete que não vai deixá-la escapar. — Sim, Chris, — disse a voz de Abel por trás dele. — Não deixe a Callie fugir. Assustado, Chris olhou para trás e viu Abel encostado contra a parede ao lado da porta. Ele e a sua mãe estavam


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muito distraídos para ouvirem Abel entrar. — Quando é que chegou? — Perguntou Chris com a testa franzida. — Acabei de chegar. — Abel deu de ombros. — Mas essa não é a pergunta que deveria fazer. — O quê? Abel desencostou da parede e cruzou os braços. — Irmãozinho, deveria me perguntar onde está Cal. Por alguma razão, o coração de Chris saltou uma batida e se sentiu endurecer. Os seus olhos se estreitaram para Abel. — Do que você está falando? — Se vai implorar a Callie para voltar para você, não vai conseguir no apartamento dela. Ela não está lá. Chris levantou e foi ao seu irmão. — O que raios está dizendo, Abel? Onde está Cal? Por que é que ela não… ela não estaria no seu apartamento? —

Porque

ela

foi

embora,

Abel

respondeu

simplesmente, não intimidado por Chris. Chris pareceu confuso. — Então onde ela está? — Bem, quer mesmo saber? — Abel zombou.


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— Abel! — Chris rosnou. — Abel, — chamou Eliza de sua cama. — Pare de provocar o seu irmão e diga onde está Callie. — Vai acertar as coisas com ela? — Perguntou Abel a Chris. — Porque não vou dizer nada se você for apenas atormentar a pobre garota. Ela foi embora para fugir de você. — Onde raios ela está!? — Vai acertar as coisas!? — Abel disparou de volta, olhos em chamas. Ele não sentia compaixão pelo irmão, neste momento. Quando Callie foi embora, estava completamente destruída. — Por favor, — Chris disse finalmente com olhos solenes. — Diga-me onde ela está. — Porque ele precisava saber… apenas tinha que saber. — Voltou para a sua terra natal, — informou-o Abel. — E sugiro que vá atrás dela antes que ela volte para o seu ex-noivo. Chris empalideceu. — Noivo? Abel assentiu. — É isso mesmo. Não a censure se ela cair nos braços dele para conseguir te esquecer. — Ele suspirou dramaticamente. — Trágico. Muito trágico. — Chris! — Eliza exclamou, — Não deixe que outro


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sujeito a tire de nós! Vai atrás dela! Chris olhou de volta para a sua mãe, sentindo-se atormentado. No seu interior, os seus sentimentos estavam todos em conflito. Metade queria esquecer que Cal alguma vez existiu e a outra metade queria ir atrás dela… — Então como vai ser, Chris? — Perguntou Abel, chamando a atenção dele. — Vai deixar a Callie ir embora ou vai deixar de chafurdar e ir atrás dela? A escolha é sua, irmão. A escolha é sua. — E Chris, — Eliza disse o nome dele e esperou que o seu filho mais novo olhasse para ela. Ela olhou para ele, olhar terno, mas ainda inabalável. — Espero que faça a escolha certa.


Capítulo Dez

Três dias depois da cirurgia da sua mãe, Chris se viu descansando preguiçosamente em seu sofá de couro preto, braço direito sobre o braço do sofá, com uma Budweiser fresca na mão. Os seus olhos azuis continuaram colados nas imagens projetadas na televisão, mas não estava prestando nenhuma atenção. A sua mente estava a quilômetros de distância… e o cerne dos seus pensamentos? Cal. Depois de três miseráveis dias apenas se concentrando na saúde da mãe doente, foi finalmente capaz de descansar em sua casa, com a certeza que o seu pai iria tomar conta da mulher mais maravilhosa das suas vidas. Eliza ainda não acordou após a cirurgia, mas os três homens estavam certos


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de que ela iria acordar a qualquer momento com um lindo sorriso nos lábios. Sentado no sofá da sua sala, Chris se deixou finalmente pensar em Cal e como ambos estavam. Tinham passado duas semanas desde a última vez que a viu e caramba, se não sentia saudades do seu amigo. Agora que ele finalmente se permitiu pensar nela, ela estava em todo o lado. O olhar de Chris caiu para o espaço vazio ao seu lado, o espaço que Cal havia ocupado tantas vezes. Conseguia imaginar… Cal sentada ao lado dele no seu ridículo pijama roxo, olhos brilhantes cor de chocolate fixos nele com o que uma vez confundiu com adoração de herói. Mas não tinha sido apenas adoração de herói, admitiu Chris a si próprio. Tinha sido algo mais. Como é que ele não conseguiu ver o amor brilhando tanto nos seus olhos? Porque é que ele não percebeu? Chris fechou os olhos e encostou a cerveja fresca contra a sua testa. Provavelmente ele não queria ver. No canto mais longínquo da sua mente, ele sabia que havia algo de estranho com o seu novo amigo Cal, mas tinha colocado essa suspeita de lado, preferindo ignorar esses sentimentos irritantes. Ele era tão culpado quanto Cal. Não, pensou Chris. Callie. O nome verdadeiro dela era


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Callie. Mas ainda assim, ela seria sempre o seu Cal. A única diferença é que ele agora sabia que ela era uma mulher…que ele havia abandonado. Amaldiçoando baixinho, Chris levantou rapidamente e começou a andar. Disse a si mesmo que a sua raiva era justificável. Ela tinha mentido e ele confiou em Cal, entregando a sua alma apesar de pensar que ela era um homem. Ele nunca agiu com ninguém, homem ou mulher, como agia quando estava com Cal. Nunca. Por isso a traição da sua mentira havia sido tão dolorosa. Sentiu-se um brinquedo. Chris parou de andar e observou o seu apartamento mal iluminado, notando que não houve nenhum lugar aonde Cal não tivesse estado. Ela estava a quilômetros de distância, no entanto deixou uma impressão eterna, a sua recordação, a sua marca… na alma dele e no seu domínio de solteiro. Os olhos dele caíram sobre a mesa, onde Cal se sentava na cadeira e o observava cozinhar, como se o observando a preparar as refeições deles fosse a coisa mais fascinante que já tinha visto. Agora lembrava-se da maneira como ela o olhava, com saudades nos olhos. Ele não tinha visto isso como saudade… só tinha visto isso como solidão. Chris encontrou-se andando na sua sala, lembrando do dia que tinha tentado ensinar Cal a dançar e como ele ficou


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tão animado com o balançar de pinguim dela. Colocando a garrafa de cerveja na mesa ao lado da cama, Chris deitou de costas, colocando ambas as mãos sob a cabeça enquanto olhava para o teto. Parecia que tinha sido ontem que ele acordou com Cal ao lado dele, parecendo tão jovem e inocente no seu sono. Apesar dela ainda se disfarçar de homem, Chris havia pensado que ele tinha uma aparência fofa. Ele devia saber quem Cal realmente era. Devia saber o quanto Cal iria significar para ele quando a observou dormir durante trinta minutos, antes dela abrir os olhos. Ele deveria saber… — Chris? — Abel entrou na sua sala, usando um terno roxo ultrajante, que só Abel podia usar. Percebendo que devia estar com o pensamento longe já que não ouviu Abel entrar no seu apartamento, Chris levantou da cama. Abel cruzou os braços e observou Chris sentar na beira da cama, notando o cabelo de cama, camisa cinzenta amarrotada e jeans. O seu irmão parecia abatido. — A mãe já acordou? — Perguntou Chris. Abel abanou a cabeça. — Não, vim aqui por outra razão. Chris esfregou o rosto de cansaço. — O que foi? — Ele


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não estava mesmo com vontade de ouvir os sermões do Abel. — Amanhã vou a um casamento. Chris franziu a testa para o seu irmão. — Uh…bom para você? Abel revirou os olhos e atirou o envelope que tinha na mão. Caiu ao lado do Chris, que olhou pensativamente. Ele ergueu o olhar e elevou uma sobrancelha. — Também estou convidado? — Leia. — Abel acenou uma mão para o envelope rosa. Suspirando, Chris pegou no envelope e retirou o convite. Fez uma careta quando viu o que dizia. — Que diabos é isto? — Hmph! — Abel colocou as mãos nos quadris e bateu impacientemente com os pés. — O que acha que é, Chris? Chris tornou a ler o convite. O convidamos cordialmente para o casamento da Srta. Picket e Sr. Emerson, em… Não conseguiu continuar lendo. Chris sentiu de repente um nó ardente em sua garganta, enquanto afastava o olhar do convite. Abel observou a sua reação, completamente satisfeito por ter finalmente acordado o seu irmão. Chris engoliu, uma dor ardente que consumia o seu estômago até subir e apertar seu coração. Todo o tempo,


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pensava ele: Ela não esperou… ela não esperou por mim. — Chris? — Abel inquiriu. — Então? — Porquê? — Perguntou com a voz rouca. — Por que é que ela não… — Esperou por você? — Perguntou Abel. — Às vezes as pessoas se cansam de esperar. — Ela podia ter esperado mais tempo, — disse ele. — Ela deveria saber que eu precisava de tempo para pensar! Para assimilar tudo isto. — Bem, tem vinte e quatro horas antes da Srta. Picket caminhar por aquele corredor. — Abel virou para ir embora. — Sugiro que esteja lá antes de ela dizer sim. — Então? — Perguntou Mizz Ivory assim que Abel saiu do apartamento. Ela usava um vestido roxo brilhante que combinava com o terno do Abel. Ela balançava com impaciência, a peruca castanha curta balançava com ela. — Então? Entregou o convite? O que é que ele disse? Como é que ele reagiu? Abel fechou a porta e sorriu. — Ele está vindo. — Ahhhh! — Mizz Ivory colocou dramaticamente as costas da mão na sua testa e fingiu desfalecer. — Não aguento! Ele tem que ir buscar a nossa Callie.


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— Pronto, pronto, — Abel afagou o seu dramático amigo, — Chris irá buscá-la. — Sinto-me tão perversamente culpada por enganá-lo. Os olhos de Abel brilharam com malícia. — Eu não disse especificamente que Callie é a Srta. Picket que se vai casar em vinte e quatro horas. Por isso não menti realmente. — Ele sorriu maliciosamente. — Às vezes, é necessária alguma decepção. — Sim! Sim! — Mizz Ivory aplaudiu. — Agora, milady. — Abel dobrou o seu braço e deixou Ivory entrelaçar o dela. — Vamos nos preparar para um casamento, que provavelmente, irá acabar em um desastre, graças a você? Mizz Ivory riu. — Claro que sim, querido.

A quilômetros de distância, Callie estava sentada em uma loja da moda, vendo Sarah pavonear-se com o seu vestido de casamento. O vestido era no estilo sereia, com rendas bonitas e bordados. O vestido estreito de cor pêssego, decididamente definia muito bem a figura magra da Sarah,


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agarrando aquelas curvas estreitas que Callie sabia que nunca iria ter. Ela já perdeu equivalente a uma pessoa em peso, mas estava longe de ser magra como a sua mãe e irmãs. Estranhamente, Callie estava satisfeita com isso. Ela estava confortável com o seu novo corpo. Podia não ser magrinha, mas as suas curvas voluptuosas (como Abel lhe havia chamado) ficavam muito bem. Podia ter doze quilos a mais, mas não se importava. — Sinto-me inchada neste, — queixou-se Sarah. — Está linda, — disse sua mãe, vestida com um terno verde. Sarah se observou longamente no espelho e franziu a testa. — Talvez deva ir com o outro vestido, mãe. — Bobagem, Sarah. Este vestido foi feito para ser usado por você. Exatamente, Callie pensou secamente. O vestido de dez mil dólares foi concebido apenas para Sarah, para o seu grande dia. — Gregory ainda não o viu, — continuou Sarah. — Acha que ele vai gostar? — Ele vai adorar, Sarah, — Hannah irrompeu ao lado de


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Callie. — Parece uma princesa de um conto de fadas. Sarah olhou-se no espelho, completamente babada com os elogios. — E você parece uma linda boneca com o seu vestido de dama de honra, Hannah. Hannah levantou e gemeu com um sorriso. Callie admirou a sua irmã do meio, concordando que ela parecia mesmo uma boneca perfeita com aquele vestido de cor pêssego sem alças e uma saia farfalhuda. Hannah parecia uma princesa bailarina. — Levante-se, Callie, — disse sua mãe. Ela virou para Callie e observou a sua filha mais nova enquanto ela se levantava. — Você perdeu peso, devo admitir... — Mas podia ter perdido um pouco mais, — saltou Sarah com um abanar de cabeça. — Ela é a única cujo vestido teve que ser aumentado. — Na verdade, — começou Hannah, — eu acho que a Callie parece doce. Callie pestanejou, surpresa pela defesa da sua irmã. — Pareço? Hannah assentiu. — Acho que sim. Eu gosto da sua aparência nesse vestido. Parece macia e… — Hannah pensou um pouco — angelical.


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Sarah bufou de uma maneira que não era digno de uma senhora. — Sério, Hannah. A nossa Callie? Angelical? — Concordo, — disse a Sra. Picket, — Callie tem um novo visual que é bastante apelativo. Callie olhou para a sua mãe. Não podia estar mais espantada! Depois de passar tantos dias na companhia da sua mãe, esta era a primeira vez que a mulher mais velha a deixou conhecer a sua aprovação. — Ela ainda não tem namorado, mãe, — Sarah bufou. — Ela será a única dama de honra sem par. — Eu tenho um par, — Callie olhou para a sua irmã. — Ele chegará amanhã antes do casamento. O nome dele é Abel. — Ele é bonito? — Hannah queria saber. — Como aquele bonzão do Chris. O que aconteceu? Porque é que ele não é o seu par? Callie sentiu o seu coração apertar. Uma sensação familiar. — Nós… não deu certo. —

Oh

Callie,

disse

Hannah

com

compaixão.

— Lamento. — Bem, quem perde é ele, — a mãe delas continuou a surpreendê-las — Provavelmente ele não era bom o suficiente


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para você, querida. — A Sra. Picket virou — Agora tirem os vestidos, senhoras. Amanhã temos um grande dia e ainda há muito para fazer. Callie observou a sua mãe ajudar Sarah a tirar o vestido, admirada com as palavras da sua mãe. Haviam sido tão simpáticas e… maternais. O que raios lhe deu? — Não ligue para Sarah, — Hannah sussurrou com um piscar de olho. — Eu acho mesmo que você está fabulosa. Callie sorriu. — Obrigada, Hannah. — E mal posso espera para conhecer o seu par amanhã. Callie

assentiu

e

viu

o

seu

reflexo

no

espelho.

Observando o vestido macio e de coloração pêssego idêntico ao de Hannah, até ela teve de admitir que estava muito bem. E não conseguiu deixar de pensar o que Chris iria pensar se a visse assim. Mas ele não vai vê-la assim, disse a si mesma. Porque ele não quer nada com uma mentirosa como você. Ela esperou quase duas semanas por Chris, à espera que ele a procurasse e agora… agora está na hora de parar de esperar. Abel disse que o amor leva tempo para curar, mas ela nunca iria se curar. Apenas o Chris pode preencher o vazio no seu coração, mas ele nem sequer telefonou.


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Callie se afastou do seu reflexo. Talvez um dia ela o esqueça, mas agora…agora a dor ainda era fresca e solitária. Sim. Callie suspirou. Não iria haver nenhum casamento de conto de fadas em seu futuro próximo.


A noiva caminhou lentamente pelo corredor da igreja, em direção ao noivo, uma visão de branco. Callie,

juntamente

com

mais

cem

espetadores,

observaram Sarah Picket deslizar graciosamente até Gregory, o seu futuro marido. Gregory permaneceu orgulhoso, elegante no seu terno preto com o seu cabelo preto penteado para trás. Aguardou pacientemente a chegada da sua noiva, olhos fixos nela, mas Callie não deixou de pensar em como ele não parecia satisfeito. Na verdade, ele parecia um pouco austero. — Psst! Callie!


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Callie olhou para trás e viu Mizz Ivory sorrindo e acenando para ela, como se tivessem falado há dez minutos atrás. Callie devolveu o sorriso e Abel, sentado ao lado de Mizz Ivory, piscou o olho como se partilhassem um segredo. Pestanejando com confusão e pensativa, Callie retornou a sua atenção para a noiva. No último minuto, Sarah mudou de ideia e decidiu usar uma versão em branco do seu vestido de sereia de tom pêssego. Não se importou que os estilistas e as costureiras tivessem trabalhado durante a noite toda apenas para aperfeiçoar a decisão de última hora. Desde que Sarah estivesse feliz. Tanto faz, Callie pensou desgastada. Dentro de alguns minutos, Sarah estará casada e Callie pode reservar uma viagem para França. Ela precisava de tempo longe da família e sim, até do Abel e Mizz Ivory. Apesar dela os adorar mais ainda por terem ido ao casamento, ambos estavam no seu escandaloso melhor. Miss Ivory num vestido de cocktail dourado muito apertado e peruca loira de caracóis, e Abel num terno branco branco justo e brilhante. Ele estava se destacando com aquele terno, juntamente com uma bengala branca e chapéu com uma pena. Estranhamente, ele parecia bem. Callie riu. Só Abel… Richard, o padrasto delas, envergava um terno Armani preto, ao entregar Sarah ao seu noivo e o padre começou o


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ritual para os declarar marido e mulher. Enquanto o homem de Deus falava, Callie não conseguiu deixar de olhar para as grandes portas brancas, sonhando que Chris irromperia ali dentro e prometeria o seu amor eterno a ela e seriam ELES a se casarem. Queria, disse Callie a si mesma com um bufo mental. Isso só acontece nos filmes, garota tonta e romântica. Ainda assim, o seu coração caiu enquanto o tempo passava e nada do Chris. Erguendo o queixo, Callie apertou os pés das flores em suas mãos. Os olhos dela turvaram enquanto ela focava a sua atenção em Sarah, que agora discursava acerca de amar Gregory e saber que ele era o tal desde o momento que se conheceram. Amordace-me, Callie pensou rudemente e depois de chutar a si mesma. Apesar dela e Sarah nunca terem se dado bem… ela queria que Sarah fosse feliz. Talvez com amor na sua vida, a sua irmã mais velha ficasse mais acessível e menos cruel. — Se alguém for contra esse casamento, — disse o padre com um vozeirão, — que fale agora ou se cale para sempre. — Pensei que só dissessem isso nos filmes, — sussurrou Mizz Ivory para Abel não muito discretamente.


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— Shh! — Alguém a mandou calar. Ivory olhou em volta. — Hey! Quem disse isso! Cale-se você! — Acalme-se, Ivory — Abel afagou-lhe a mão — Está fazendo uma cena. — Hmph! — Mizz Ivory sentou e relaxou. Ela acenou para ao padre. — Prosiga. — Gregory e Sarah olharam para ela. Callie segurou um riso, mas além dela, Hannah não se importou em segurar o riso. Quando a mãe delas olhou para ela, Hannah tossiu e deu o seu melhor para ficar com um ar sereno. E depois aconteceu. Assim como nos filmes, as portas duplas abriram, deixando entrar um raio de luz do sol ofuscante. Os convidados engasgaram, virando para a pessoa que tinha grotescamente e ruidosamente entrado na igreja. O coração de Callie deu um salto com a visão de Chris. Ele observou a igreja decorada de branco e prata, parecendo ainda mais atraente do que ela se lembrava, apesar de estar um pouco desgrenhado. De cabelo despenteado, terno preto ligeiramente amarrotado e gravata torta. Callie olhou para ele e pensou que nunca viu nada mais lindo em sua vida. E quando ele gritou o nome dela, ela quase desmaiou de excitação. Era agora! Este era o momento dela,


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tal como nos filmes! Porque outra razão Chris estaria aqui se não para vir buscá-la, certo? Callie deu um passo em frente, um lindo sorriso aflorou no

seu

rosto

enquanto

Chris

se

dirigia

a

ela,

com

determinação. — Callie! — Chris, — sussurrou ela, sentindo-se flutuar. Ela deu outro passo na direção dele. — Callie! — Gritou ele. — O que raios pensa que está fazendo!? Não pode se casar com ele! — Ele agarrou no cotovelo da noiva e aproximou-a dele. — Está doida!? Pensei que me amava. Porque é que está se casando com outra pessoa quando disse que ME amava!? — Me larga! — Sarah guinchou. — Chris, — Callie tropeçou desajeitadamente na direção deles, quando percebeu o erro dele. Ao contrário da sua irmã, ela nunca tinha sido especialmente graciosa enquanto estava de saltos. — Não sou eu…Oofph! E lá foi ela, tropeçando no longo véu de Sarah. Em uma tentativa de recuperar o equilíbrio, ela ia cair nos braços de Chris, mas Sarah desviou-se e em vez do braço de Chris, agarrou-se ao véu de Sarah. Sarah gritou horrores enquanto iam caindo. Chris e


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Gregory foram agarrar ambas as mulheres ao mesmo tempo, colidiram um no outro e foram projetados para trás. Chris caiu segundos depois de Callie e Sarah terem caído. Gregory deu um encontrão no confuso padre e segundos depois, caiu. Gritos encheram a igreja e Mizz Ivory benzeu-se. — Vamos para o inferno por isto. Os gritos de Sarah eram os mais altos, tamborilando nos ouvidos de Callie enquanto tentava desembaraçar-se da sua irmã mais velha em pânico. — Acalmem-se! — Ela ouviu a voz grossa do seu padrasto. — Acalmem-se! — Sarah! Callie! — Hannah tentou ajudar as suas irmãs mas acabou caindo em cima delas, fazendo com que Sarah gritasse ainda mais alto, como se isso fosse possível. — Sarah! — Callie estalou, — Cale-se! — Ela saiu de quatro da pilha de pessoas, desesperadamente procurando Chris através do caos. Onde estaria ele? — Callie! — De repente, Abel estava perante ela, ajudando-a a erguer-se. — Está bem? Callie assentiu, olhos arregalados enquanto procurava por Chris. — Chris… — Bem atrás de você. — Disse Abel. Callie virou e viu Chris já de pé, ajudando ao padre a


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levantar com um pedido envergonhado de desculpas. Ele parecia tão perturbado e fofo com o rosto vermelho. Callie nunca viu tal visão celestial. — Chris, — ela chamou por ele, largando as mãos de Abel. — Chris? Chris olhou na direção dela e congelou, confusão desenhada no seu rosto e depois surpresa. — Callie? Ela tentou sorrir. — O-olá. — Ela empurrou para trás os cachos emaranhados. Ele olhou para ela por um bom tempo e depois desviou o olhar para Sarah. Com a ajuda de Hannah e Gregory, Sarah estava finalmente de pé e cuspindo raiva. Já não tinha véu e revelou o seu rosto vermelho de raiva. — O meu casamento! —

Guinchou.

O

meu

casamento

está

arruinado!

ARRUINADO!! — Ela bateu com os pés no chão como se fosse uma criança fazendo birra. Chris pestanejou, olhos fixando em Abel que acenou alegremente. Apareceu a compreensão em seu rosto, antes de ficar tudo em branco. De mandíbula apertada, ele olhou para o seu irmão e depois para Callie. — Nunca planejou casar, — disse ele lentamente, — não é? Foi a vez de Callie piscar para ele. — O quê? Eu? Casar?


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— O quê!? Balançando a cabeça, Chris virou e se dirigiu à saída com passadas ponderosas e zangadas. Callie o viu ir embora, uma sensação de desamparo encheu seu peito. Chris… — O que está fazendo!? — Estalou Abel. — Vai atrás dele! — Ele empurrou-a gentilmente na direção das grandes portas. — Vai! — Mas... — Vai Callie! Não deixe ele fugir. Pode não haver outra oportunidade. Outra oportunidade. Ela andou em frente e tornou a tropeçar.

Malditos

saltos!

Irritada,

ela

dobrou-se

e

praticamente arrancou os saltos brancos dos seus pés e os atirou para trás de si. — OW! — Sarah gritou. — O que raios se passa aqui! Callie? Callie! Callie não se incomodou em olhar para trás e fugiu. Descalça e de coração acelerado, ela correu da igreja. O sol escaldante apenas a fez hesitar um momento antes de recomeçar a correr, desesperadamente à procura de Chris pelos jardins da igreja. Onde está? Pensou ela enlouquecidamente. Ele não


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podia ter ido muito longe! Callie procurou por todo o jardim, até que o viu na pequena ponte branca sobre o lago cheio de peixes. Suspirando de alívio, ela parou para o observar. Chris permaneceu alguns metros afastado, de costas viradas para ela, mãos enfiadas nos bolsos das calças. Permaneceu ereto, tensão nos ombros enquanto olhava para o lago. O seu cabelo mudava de direção por causa do vento, mas parecia que ele já não se dava conta de nada. Engolindo, Callie caminhou lentamente na direção dele. Manteve a sua coragem, esperando não falhar naquilo que ia fazer… que era ter de volta o homem que amava. Sem uma palavra, ela entrou na ponte e parou. Chris falou primeiro. — Vocês dois me enganaram novamente, — disse ele. — Como um tolo, eu vim correndo e caí na armadilha. — Por muito tempo, ele não disse mais nada, depois tornou a olhar para ela. — É assim que vai ser sempre conosco? Truques? Mentiras? Callie abanou a cabeça. — Não! Nãoo Chris…não. Eu… eu só… — Oh céus! Que momento perfeito para ela ficar com a língua presa! A coragem que ela reuniu para correr atrás dele, estava falhando. Apesar do rosto dele estar em branco, duro como pedra, a voz dele estava cheia de nojo com decepção de pensar que ela estava envolvida.


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— Chris não fui eu! Não planejei isto! Por favor… acredite em mim. — Não olhe assim para mim, pensou Callie. Com os olhos cheios de ódio. Ele olhou para ela, observando o seu rosto. O que ele viu o fez dar de ombros. — Sabe de uma coisa, não importa. Já não quero saber. — Ele suspirou. — Devia ter ficado em casa. Não sei no que estava pensando, correndo para cá… Callie encontrou a sua voz novamente. — Você… pensou em parar o casamento. Pensou que eu estava me casando com Gregory e que estava cometendo um erro. Certo, Chris? Certo? Veio porque… porque me ama? Foi arrojado da parte dela dizer aquelas palavras, mas que outra razão havia para ele estar ali? Era errado ter esperança? Chris a surpreendeu dizendo, —Tem razão. Eu vim aqui para impedir o casamento. Vim porque tenho essa obsessão doentia por você. — É amor, — Callie insistiu — Não é obsessão. — Apesar dela também estar obcecada por ele. Chris não respondeu. Ele virou a sua atenção de novo para o lago e ela se sentiu instantaneamente invisível. Mas ela não desistiria. Não quando ele tinha feito todo esse


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caminho. Respirando fundo, ela fechou a distância entre ambos até estar ao lado dele. Ela olhou para o lago cristalino, depois para os salgueiros e para o lindo jardim cheio de flores. O ar tinha o doce aroma dessas flores. O doce aroma de esperança e promessa. — Esse lugar parece que foi retirado de um conto de fadas, — comentou ela. Mais uma vez, Chris não respondeu, mas também não foi embora. Isso deu a Callie mais esperança. Descansando os braços na grade da ponte, ela olhava para os peixinhos lá em baixo. — Era uma vez, uma garota estúpida e gorda que conheceu um charmoso príncipe nu. Ela sentiu Chris endurecer ao seu lado, mas continuou. — Ele era tudo o que um príncipe deveria ser. Charmoso, bonito e muito simpático. Ela teria feito de tudo para ficar com ele… mesmo fingir ser um homem quando o príncipe assumiu que ela era um. Callie sentiu a garganta dolorida e o seu coração pesado. — Apesar de ser errado, ela não conseguiu evitar. Parecia ser a única coisa para manter aquele príncipe ao seu lado. Ela tinha medo que se ele descobrisse a verdade… iria embora. Que nem sequer seriam amigos. A estúpida garota gorda não


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suportaria isso. Estava desesperada. Com as lágrimas turvando a visão, ela se dobrou e descansou o rosto no braço que estava na grade da ponte. — À medida que o tempo passava, ela apaixonava-se cada vez mais pelo príncipe e se sentia extremamente culpada por enganá-lo. Ela queria muito dizer a verdade… muito mesmo. Mas tinha medo. Céus, como ela tinha medo. — Depois, contudo, apesar de todas as probabilidades, o príncipe também sentia algo por ela e ficou com mais medo, porque sabia que as garotas feias como ela não tinham finais felizes. Mas ela queria um. Ela queria o seu final feliz… as custas dos sentimentos dele. Callie fechou os olhos. — E ela está muito arrependida. Muito,

muito,

muito

arrependida.

O

que

ela

fez

foi

imperdoável. A sua única desculpa é que o amor a cegou. Tornou-a covarde. O príncipe deu-lhe amor, coragem e fé, em retorno, ela mentiu. Ela é muito desprezível! — Pare, — sibilou Chris. — Apenas… pare. — Mas é verdade, — sussurrou ela. — Sou desprezível e vou ser ainda mais porque vou te perguntar, meu príncipe, o que tenho que fazer para me aceitar de volta, porque não quero viver uma vida sem você.


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— Callie... Callie deslizou lentamente para o chão e olhou para cima. — Se tiver que implorar, imploro. Imploro, Chris. Não me resta qualquer amor próprio. —

Caramba,

Callie!

Levante-se!

Chris

estava

sofrendo, olhando para ela. Ele tentou ajudá-la a levantar, mas ela bateu em suas nas mãos. — Não. — Ela agitou a cabeça. — Vou fazer isto. Vou rastejar e implorar pelo seu perdão. Vou implorar e implorar e implorar... — Pare! — Chris ajoelhou-se. — Levante-se! — Não! — Ela sufocou entre lágrimas. — Não faço porque estou desesperada. Como posso fazer com que me ame novamente, Chris? Por favor, diga como. Chris enfiou os dedos no cabelo, em frustração. — Cal… o que raios está fazendo? — Ele levantou e Callie agarrou nas suas pernas. — Desculpe! — Chorou ela. — Desculpe, desculpe, desculpe, desculpe! — Cal! — Chris tentou tirar as mãos da sua perna, mas ela agarrou ainda mais. — Cal! Caramba! O que ela estava fazendo era irracional e dramático,


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possivelmente um pouco insano, mas ela permaneceu agarrada a ele. Era agora ou nunca. — Desculpe. Desculpeme, Chris. Chris olhou para ela e começou a rir. Ela pestanejou, mas ele continuou rindo. Ela não sabia como reagir a isso. Este era um momento sério! Porque ele estaria rindo? Ainda rindo, Chris deslizou para o chão perante ela e tomou o seu rosto nas suas mãos. Ele pressinou a sua testa na dela e suspirou. — Olha para nós, Cal. Parecemos dois maluquinhos. — Provavelmente, — disse ela — Mas isso não faz os meus sentimentos menos sinceros. — Eu sei. — Eu te amo. — Também sei disso. — Desculpe. — Sim. — Desculpe mesmo. — Eu ouvi. — Chris!


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Ele riu. — Cal, isso é tão… ridículo. Pare de pedir desculpas. — Chris limpou-lhe as lágrimas, acariciando suas bochechas com os polegares. Ele olhou para ela, para os olhos cor de chocolate e o que ele ali viu, fez o seu peito apertar como se fosse sufocar. O que ele viu nas profundezas dos seus olhos o deixou sem fôlego. Todas as vezes que ele tinha estado com ela, mesmo quando pensava que ela era um homem, como é que passou despercebido aquele brilho amoroso nos olhos dela? —

Oh,

Chris,

Callie

continuou

a

balbuciar,

inconsciente das mudanças que surgiam nele, — Lamento mesmo muito. Céus, não tem ideia. Não quero que me odeie, não quero que estejamos separados. — Ela o agarrou nos pulsos

e

apertou.

Por

favor,

por

favor,

outra

oportunidade. Chris suspirou. — Cal... — Eu prometo perder mais peso, — continuou Callie. — Cal... — E não uso mais aquele pijama roxo… e não como mais pizza... — Não come mais pizza! — Chris exclamou chocado, — Está tentando o suicídio?


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Callie ignorou-o. — E prometo ser mais sociável. Eu-eu posso ser mais como Sarah e Hannah. Posso usar vestidos, não usar suéteres e ... Chris beijou-a. Parecia a única maneira de calá-la. De olhos arregalados, Callie olhou para ele enquanto ele pressionava os seus lábios quentes nos dela. O seu coração flutuava como uma borboleta, e ela apenas conseguia derreter-se nos braços dele. Chris se afastou e a olhou nos olhos. — Cal, não quero que mude. Nem um bocadinho. Pode ter mentido sobre o seu sexo, mas… eu me apaixonei pela sua personalidade. — Ele colocou os cabelos dela para trás. — Não mude por minha causa. Eu é que deveria pedir desculpas. Callie abriu a boca mas não saiu nada. — Desculpe, — disse Chris. — Desculpe ter te confundido com um homem e desculpe por tudo aquilo que te fiz passar. Nem acredito que lhe arranjei um encontro com a Susan. — Ele riu. Callie olhou para ele. Ela não acreditava no que ele estava dizendo, que ele estava se desculpando. Chris pressionou a sua testa na dela e fechou os olhos. — Não sou um príncipe encantado, Cal. Sou um homem normal que comete erros e comete muitos. Muitos deles


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foram com você. Ele abriu os olhos e olhou para ela. — Desculpe por isso. Vim aqui para te ter de volta. — Sério? — Callie perguntou num pequeno sussurro. Ele assentiu. — Quando eu pensei que ia se casar com outra pessoa… digamos que me cansei de andar em círculos. Sem mais mentiras daqui para a frente. Sem esconder mais coisas um do outro. Vamos começar de novo Cal…Callie. — Brenda? — Já virou história. Antes de vir, me certifiquei que ela sabia que tínhamos terminado. Está acontecendo, pensou Callie. Isto estava mesmo acontecendo. Chris... Chris estava lhe dando uma nova oportunidade. Estava a aceitando de volta. Eles iam ficar juntos. Para sempre. Ela deixou-o ajudá-la a levantar do chão, ambos em pé e olhando-se nos olhos. O calor e amor que ela viu nos olhos dele, fez os seus olhos picarem novamente com lágrimas. Oh Deus, houve um momento que ela pensou nunca mais vê-lo olhar para ela daquela maneira. — O meu futuro é contigo, — Chris sorriu. — Eu sei disso. Eu acho que sempre soube. Apenas lamento ter feito


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você esperar… que te magoei. — Eu também te magoei, — Callie respondeu. Chris entrelaçou os dedos dela nos dele. — Então vamos prometer que nunca mais vamos nos magoar. Combinado? Callie sorriu. — Combinado. — E não quero mais te ver de joelhos novamente. É mais do que isso, Cal. Não devia implorar dessa maneira. — O-ok. Permaneceram ali, apertando as mãos um do outro, querendo saber o que fazer a seguir. De repente, ambos estavam envergonhados. Depois de terem confessado um ao outro, a tensão entre ambos se transformou em outra coisa. A amanteigada sensação do calor de um novo amor. Hesitante, Callie ergueu uma mão e acariciou-lhe uma bochecha, familiarizando-se com o toque da pele dele, com os contornos do seu rosto. Gravando este momento no seu coração. Ela sentiu tanto amor por ele, que não sabia o que fazer consigo mesma. Quanto a Chris, ele sentia-se da mesma maneira. Parecia que havia tantas coisas que ele deveria dizer, para declarar o seu amor, mas não encontrava as palavras corretas para descrever o que ela lhe fazia sentir. Não havia


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palavras. Por isso ele a tocou. Os seus cabelos suaves, o seu rosto quente, até a sua boca. Com o seu polegar, ele trilhou suavemente o lábio inferior dela. Eram macios e suaves como pétalas de flores. E de repente, assim do nada, ele queria ficar sozinho com ela. Queria mostrar não com palavras, mas com o seu corpo, o quanto a desejava. O quanto ele não se cansava dela. — Vem comigo, — sussurrou ele. Callie olhou para ele, confiança e amor brilhando nos ohos dela. — A qualquer lugar. Chris sorriu.


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Equipe Pégasus Lançamentos


Big Fat Liar Livros #1, #2 e #3 - Cookie Moretti