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e resolvem, todos, exilar-se no Brasil. Bianco havia perdido a mãe e agora perde sua casa, mas mal imaginava ele o que lhe aguardava. Em 1937, já no Rio de Janeiro e com apenas 18 anos, Bianco é levado por um amigo da família ao prédio do Ministério da Educação, onde Portinari preparava a pintura de um afresco. Lá se depara com alguns assistentes do pintor, entre eles Burle Marx, que tentavam fazer a mão de um garimpeiro. Nesse momento duas coisas muito importantes na carreira do jovem estavam prestes a acontecer. Depois de observar as inúmeras tentativas frustradas de obter um desenho correto da mão, Bianco se oferece para fazer os traços e tem seu trabalho aprovado por Portinari, que o convida para retornar no dia seguinte. Outro fato importante foi o contato com o Modernismo, que lhe traria novas ideias e mudaria a sua forma puramente acadêmica de pintar. No ateliê de Portinari, Bianco convive com os grandes nomes desse movimento artístico, entre eles Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Heitor Villa-Lobos e muitos outros.

A Segunda Guerra Um importante papel da arte é a denúncia social. Através da história é possível acompanhar os acontecimentos da humanidade nas telas dos grandes mestres: protes-

Cangaceiros, óleo sobre tela, 1949

tos, críticas, apoio, oposição, resistência, tudo está lá. No início da década de 40, o italiano sentia duramente o terror dos acontecimentos que assombravam toda sua pátria, horrores da Grande Guerra horrorizaram e influenciaram a pintura de Bianco. Alguns fatores pré-guerra também contribuíram para essa fase, segundo Bianco: “Fui criado por uma mãe que era um ser de vivacidade extraordinária, uma pianista que dava concertos internacionais, executando peças do barroco italiano, Monteverdi e Vivaldi, uma música italiana aristocrática. Em contraste com meu pai, que, por ser antifascista, atuou como jornalista do maior jornal de Nápoles, mas foi castrado intelectualmente, foi anulado com a ascensão de Mussolini ao poder. Devo ter vivido

inconscientemente nesse clima contrastante, entre a alegria criativa de minha mãe e o peso do drama político e existencial do meu pai. Senti esse contraste emocional em profundidade, mais do que ter vivido uma vida alegre.” Todo esse terror pré e durante a guerra trouxe um drama e um peso grande às telas do pintor, que já sofria também uma influência do modernismo que pregava uma ruptura com a pintura acadêmica, pedindo que fosse criado algo de novo. Nesse período, a temática foi bastante variada, mas o foco estava na cultura e nos costumes brasileiros, tudo com o drama e peso que a época impunha. Alguns temas, como os quadros dos retirantes e temas sociais regionais, o cangaço e seus moradores, tiveram mais destaques.

As obras-primas Originalmente, o termo obra-prima referia-se a uma peça de arte manufaturada, produzida por um artesão que pretendesse ascender à posição de mestre, Bianco sem dúvida alcançou esse status. Em um vídeo em que conversa com o amigo e marchand Maurício Lima, o artista fala sobre os quadros que considera suas duas obras-primas. Coincidentemente ambas versam sobre temas bíblicos: uma relata a Anunciação, o momento antes da “concepção” do filho de Maria, e o outro mostra o exato momento após a morte de Jesus, o Cristo Morto. O processo de criação de uma obra-prima se difere de outras, por existir o desenvolvimento de uma ideia às suas últimas consequências e, no ato de execução, o artista encontrar-se em um momen-

Revista GPS Brasília 5  
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