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MEMÓRIA

Você conviveu com Renato Russo? Éramos do mesmo núcleo cultural, chamado A Turma, com umas cem pessoas, que tinham o mesmo gosto e afinidade cultural. Brasília era pequena naquela época, frequentávamos o Gilbertinho, no Lago Sul, a Adega e o Beirute, na Asa Sul, e o Radicals, na Asa Norte. Qual show marcou sua carreira? O mais memorável foi em 1986, no aniversário de Brasília. Tocamos na Esplanada dos Ministérios, na época para um público muito expressivo, cerca de 40 mil pessoas.

cinco paqueras me esperando no término do show. Meu empresário, vendo a situação, não deixou nenhuma entrar no camarim. Eu tive que sair correndo pelos fundos. Até quando ficou na banda? Foram 17 anos. Deixei no ano 2000, mas naquela época só tocava eventualmente em situações particulares. A onda do punk rock havia passado, a dinâmica do mercado já não nos comportava mais. Hoje o Detrito Federal existe, mas com outra formação.

Você fez shows pelo Brasil? Foram muitos. Viajávamos a todo instante. Eram de três a quatro shows por semana. Tocamos em vários festivais, como o Abril Pro Rock, em Recife. Participamos de um grande evento também, o programa Mixto Quente, da Rede Globo, com Tim Maia e Cazuza, na Praia do Pepino, no Rio de Janeiro. Tínhamos uma plateia de 60 mil pessoas. Foi lindo. Nessa época ganhamos projeção nacional.

Depois veio a experiência como DJ. Como foi? Após a banda, nos anos 90, fui representante artístico da Warner Music do Brasil no Centro-Oeste. Paralelamente, comecei a me apresentar como DJ. Estive nas principais casas noturnas de Brasília, como o Gates, Fashion Club e Capital Club. E também nas melhores festas da cidade. Tinha noite em que eu tocava em três lugares. Foi outro período muito empolgante. Me mantive profissionalmente envolvido com a música, mas num outro contexto.

Como foi o sucesso? Era uma época boa. Muitos fãs. Eu era assediado. Uma vez uma menina me pediu um autógrafo e levantou a blusa, para eu assinar no peito dela. É um magnetismo que se cria com quem está em um púlpito. Tive uma situação engraçada, na boate Zoom, no Gilberto Salomão. Havia

Qual tipo de som você fazia? É engraçado lembrar como discotecar era, sobretudo, uma paixão. Eu chegava aos lugares com duas caixas enormes, cheias de discos de vinil. Tocava pop rock e house music. Não admito axé, sertanejo nem funk. Mas hoje é fácil ser DJ. Basta levar um computador com o set bem programado.

>> 76

Quando foi a última vez que você subiu em um palco? Tem uns quatro anos, durante a inauguração de um pub aqui em Brasília. O Bi Ribeiro e o João Baroni (do grupo Paralamas do Sucesso) iam se apresentar e cantei três músicas com eles. Foi muito bacana. Mas não consigo me imaginar nessa vida hoje. Como um roqueiro foi parar no Direito? Eu passei no vestibular em 1983, mas não estava preocupado com o Direito. Viajava muito, tocando pelo Brasil, perdia muitas aulas. Quando a gravadora demitiu a gente, em 1989, meu pai deu a dura e me mandou voltar para a faculdade. Foi o que fiz. Me formei em 1992. Mas continuei com a música. Estava na Warner, era DJ e ainda comandei uma das mais famosas lojas de discos de Brasília, a Redley Records. Quando assumiu o Direito? Só comecei a advogar quando deixei de trabalhar com música, em 2000. Para iniciar a nova profissão, fiz cursos de qualificação, me especializei. Voltei a estudar. E me apaixonei pela advocacia. Qual ramo do Direito você escolheu? Na verdade, não escolhi. O Direito empresarial que me elegeu. Quando decidi abrir o escritório, alguns amigos empresários confiaram em mim e passei a trabalhar para eles. Resolvia seus problemas

jurídicos e acabei me especializando no ramo. Estou há 13 anos nessa área. O que a música e o Direito têm em comum? Acho que o ponto em comum é que os dois pregam a justiça social e a igualdade. Desde a época de músico, eu queria, de alguma maneira, colocar uma poção de ética no mundo. São atividades diferentes, mas com um objetivo similar. Como foi mudar de vida? Foi uma reinvenção. Brinco que tenho três vidas: uma de rock´n´roll, uma de DJ e uma da advocacia. Não consigo me imaginar naquele batidão, com aquela quantidade de shows e viagens. Levo uma vida muito tranquila. Antigamente eu era da noite, hoje eu aproveito o dia. Ainda te abordam nas ruas? Muitas vezes. Quem é da minha idade lembra da época em que eu era cantor. Já fui reconhecido até em tribunal. Uma vez, antes de uma audiência começar, o juiz comentou que curtia a minha banda e cantarolou uma música nossa. Você tem saudades da época? Eu vivo o agora. Tenho ótimas recordações, sou grato por ter vivido com intensidade essa época áurea de Brasília, talvez a mais expressiva até hoje. Mas não curto o passado. Já fui o vocalista Cascão. O DJ PCCascão. Hoje, sou o doutor Paulo César Cascão, advogado. Muito prazer.


Revista GPS Brasília 5