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tizadas estudantes da UnB desmaiavam de paixão pelo astro da cidade, que nas horas vagas cursava Direito no UniCeub. O visual era despojado. Calça jeans rasgada, coturno ou tênis, camiseta branca ou preta e um casaco amarrado na cintura. Óculos escuros e suspensórios. Nada parecido com o advogado Paulo César Cascão, que atualmente circula pela cidade de terno com gravata e semblante sereno. Hoje, o rock´n´roll está em sua memória e em sua alma. Aos 47 anos, nascido em Brasília, Cascão se orgulha de fazer parte dessa história. “Sou de uma geração formada por Cazuza e Renato Russo. Foi uma época expressiva, de composições emblemáticas e vozes transgressoras que cantavam o que a juventude precisava ouvir de uma maneira pouco acadêmica, mas muito certeira. Essa fase marcou a história musical do País”, lembra Cascão, que rabiscou seus primeiros versos em 1983, época em que fundou a banda e tocava como baterista. E Cascão estava onde queria. Desde adolescente curtia música. Era técnico de som do saudoso Teatro de Bolso Rolla Pedra, local onde dezenas de bandas se apresentavam, em Taguatinga. Fundador do Detrito Federal, a banda teve várias formações. Entre desentendimentos e bons momentos juntos, reações tí-

picas dos roqueiros idealistas da época, ele esteve na formação original até 1998. Nesse tempo, fez de sua música um protesto antimilitarista. Falou de política e de injustiça social, principalmente. Nessa década, chamada de Rock Brasília - a era do ouro, Cascão esteve em inúmeros projetos. Asas do Rock, Rock Cerrado, Rock Verão. Gravou o lendário disco Rumores, compilação das bandas locais idealizada pelo selo Sebo do Disco. E viu florescer de Aborto Elétrico a Raimundos. Esteve ao lado de Finnis Africae, Escola de Escândalo, Elite Sofisticada, Arte no Escuro, Peter Perfeito, 5 Generais. “Eram mais de 40 grupos. A cidade exalava música”, conta. “Éramos, na verdade, uns românticos. Queríamos derrubar tudo. E as bandas daqui não se pareciam entre si, mesmo saindo do mesmo núcleo”, lembra, dizendo que para fazer um som, na época, era preciso apenas um instrumento, uma tomada. “Galpões, garagens, em cima de caminhão... Tudo era viável. Em Brasília, boa parte dos roqueiros tinha informação e poder aquisitivo. Viviam do ócio, tinham espaço e tempo de sobra para protestar”. E nessa fase, ele viveu a fama. Com a banda, se apresentou nos principais programas de televisão. De Xuxa a Jô Soares. Levava a cara da capital para o Brasil. Fez

shows por todo o País. Deu autógrafos, foi assediado. Mas depois de quase 20 anos envolvido na música, resolveu dedicar-se ao Direito. Há 13 anos, abriu seu escritório e mudou de vida. “Não diria que foi uma mudança. Foi um amadurecimento”, afirma. “Na vida, tudo tem o seu tempo. Eu aproveitei o meu. Tirei proveito disso e hoje estou onde devo estar. A minha nostalgia é boa”, complementa. Hoje, leva uma vida tranquila se comparada ao frenesi de um astro de rock. Sua energia está concentrada nas dezenas de clientes que atende em seu escritório. E sua voz é ouvida nos tribunais, defendendo os seus. Ao contrário de outrora, Cascão trocou o Sky’s por uma alimentação balanceada. Bebida somente em compromissos sociais. Dorme cedo, pratica atividades físicas, estuda seus processos e prefere a baguncinha em casa, na companhia de amigos, numa cobertura no Sudoeste, onde mora com a mulher, a juíza Silvana Chaves. Segundo os amigos, a pessoa que o colocou “nos trilhos”. E tem Beatriz, a filha de 15 anos, fruto de seu primeiro casamento. Da época de músico, ficaram as boas histórias e o amor pela arte. Também bons amigos desse cenário. Em casa, entre os densos livros de Direito, guarda mais de quatro mil discos, além de guitarras autografadas que ganhou nas diversas turnês que rea-

lizou com outras bandas. Nos lugares aonde transita, no Lago Sul, especialmente no Gilberto Salomão, local que abriga o seu escritório, Cascão é sempre reconhecido. Por adoradores do rock garagem. Por antigos fãs. E por amigos de juventude que, com suas vidas profissionais consolidadas, acabaram tornando-se clientes. Conheça um pouco mais desse adorado roqueiro e advogado. Como foi o início da trajetória da banda Detrito Federal? A banda surgiu em 1983. Eu tinha 17 anos. Tocávamos na UnB e nas quadras em cima de um caminhão, que carregava toda a parafernália. À medida que íamos cantando, as pessoas vinham chegando. E batíamos ponto no Teatro de Bolso Rolla Pedra. Gravamos o nosso primeiro disco independente em 1985. Em 1987, fizemos um disco pela Polygram. Tivemos Charles Gavin, do Titãs, como produtor. Assim como as bandas da época, o Detrito Federal fazia críticas ao governo? O próprio nome era um trocadilho com Distrito Federal. Nossa crítica era à ditadura militar. Em Brasília especialmente. As nossas letras eram proibidas pela censura. Mas isso não nos intimidava, a gente continuava fazendo shows pela cidade. Para o governo militar, nós éramos um bando de doidos.


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