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anarquista, mas anarquismo não é quebra-quebra. Os black blocks são revoltados? Eu também sou. Só não saio por aí espalhando violência e bagunça. R: Você esquece que a bagunça não começa com os black blocks. A bagunça já existe nas nossas escolas, hospitais, bancos. Está aí, para todo mundo ver. A violência está calcificada em nossas vidas. É preciso quebrar o feito para construir o novo. Quantas palavras você quebrou essa semana, Nicolas Behr? Quantos rabiscos eu quebrei essa semana? Nenhum. A Copa do Mundo e Brasília N: A construção desse estádio bilionário foi uma péssima ideia de investimento. É um Coliseu e as pessoas não querem mais pão e circo. O povo quer transporte público de qualidade, educação. Nunca entrei na obra e não pretendo ir tão cedo. É uma agressão ao povo brasiliense. Durante os jogos da Copa do Mundo quero fugir de Brasília. R: Ele me ofende visualmente e é um erro absurdo de planejamento de governo. A Copa, como legado político, será algo infernal. N: Sabe o que desejo, Ralph? Que o estádio seja desmontado e o governo use todas aquelas colunas, cadeiras e

concreto para construir escolas públicas. R: Boa ideia. Nesse momento, quais as atividades que devem estar acontecendo dentro do estádio de Brasília? Talvez uma noiva sendo fotografada para o book de seu casamento? Que fracasso. Amor por Brasília R: Eu sou bairrista. Nós somos bairristas. Cheguei aqui em 1962. Tinha nove anos de idade. Meus pais resolveram atender o chamado feito por Juscelino Kubitschek. E você? N: A gente vai se conhecendo aos poucos durante essa entrevista. Cheguei em 1974. Agradeço diariamente à minha mãe por ter decidido deixar Cuiabá e vir para cá. Quando minha família se mudou, Brasília era uma cidade com apenas 14 anos de existência. Em termos históricos, são segundos. Hoje, percebo que esse choque da chegada me fez criar. Posso dizer que vivi intensamente as quadras 400. E esse Gehre vem de onde? R: Da família do meu pai, Nicolas. Um “alemão-batata”. Meu avó Rudolph Gehre veio com o irmão e o primo para o Brasil e trouxe o sobrenome Gehre com eles. N: Então, Brasília... “virei” poeta para entender a racionalidade dessa cidade. Tenho

um grande amor por Brasília. Ela me cobra, eu cobro. Como cidade-teste, é provocadora. Já ouvi dizer que não é a pessoa que escolhe morar aqui e sim Brasília que escolhe seus moradores. Arte X Luxo N: Para escrever não precisa de luxo. Nada além de papel e caneta. E imaginação. R: O mesmo serve para um desenhista. Sabia que aos nove anos minha vida já se resumia a desenho? Essa sensação é estranha, mas também muito confortável. Hoje tenho essa consciência. Minha memória de infância inclui as figuras que se formavam nas rachaduras dos muros.

N: Bonito. Outro dia estive na casa de uma socialite brasiliense. Fui apenas conhecer seu jardim, mas ela estendeu o convite para o interior de sua residência. Após o fim do tour, voltamos ao jardim. Ela me abordou, chocada, dizendo que eu não comentei, nem elogiei sua coleção de obras de arte. Ou seja, ela teve aquela atitude com a finalidade de exibir seus quadros e esculturas caríssimos. Arte para mim não é luxo. É expressão. R: Essa cena relatada por Nicolas é o consumo de arte transformado em fetiche, em um símbolo de status esvaziado. O interesse nem sempre está conectado à valorização da arte em si.

Revista GPS BRASILIA ed 6  
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