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ENCONTRO

2013 – Um balanço geral Ralph: Estou encaixando meu tempo em uma forma prevista e desenhada. Tenho conseguido ter mais tempo para mim, meu trabalho, meus desenhos. Acredito que esse acerto, que não é fácil, tenha sido a maior conquista de 2013. A verdade é que ainda não fiz um balanço geral desse ano. Daqui a alguns meses, é possível que minha resposta sobre esse tema seja outra. Nicolas: Estou vivendo a melhor fase da minha vida. O ano de 2013 foi muito especial em termos de literatura. Fui convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e para a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. Isso pode

ser um sinal de que a vida começa mesmo aos 55 anos. Ralph: Gosto muito de uma frase da Bibi Ferreira que diz assim: “A minha velhice é definitiva, mas a sua juventude é totalmente provisória”. Esse acerto de contas com o tempo parece ser uma constante para ambos. Biografias não-autorizadas – polêmica sem dono R: Lamentável a postura do Caetano Veloso. Não é de hoje que me aborreço com ele, que tornou-se um chato opinativo. Ele não é um filósofo, apenas um letrista e compositor, que se acha no poder de regular a opinião de tantos sobre questões existenciais e práticas.

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Quando leio o texto que Chico Buarque publicou no jornal O Globo, fico furioso. Sobre Roberto Carlos, creio que a majestade subiu-lhe à cabeça. Tenho um exemplar da tal biografia barrada, objeto de tanta celeuma. Comprei antes de ser recolhida. É um bom livro, bem escrito, coisa de fã. N: Já fui biografado pelo Carlos Marcelo para a Coleção Brasilienses. O livro se chama Eu Engoli Brasília, e toda a experiência de ter sua vida como tema de uma biografia é bem estranha, mas muito positiva. Sobre a polêmica, sou a favor da liberdade de expressão. O artista é um homem público e quem busca visibilidade vai para a chuva e corre o risco de se molhar. Esses personagens que se pronunciaram sobre as biografias não autorizadas têm todo direito de processar, mas não de impedir uma publicação. É triste ver essas pessoas manchando a própria biografia com atitudes restritivas e mesquinhas. R: O sujeito costuma ser biografado por se tratar de um filtro do mundo. O Nicolas está certo. Nada justifica essa pobreza de visão que corre sério risco de se tornar censura. Black blocks e as manifestações de junho N: Participei de algumas mani-

festações em junho e fui acompanhado dos meus filhos. Falta criatividade aos manifestantes e, honestamente, acho que os black blocks não vão chegar a lugar algum. Eles provocam uma violência maior do Estado. Sou totalmente a favor dos protestos, mas o rastro de agressividade que esses mascarados deixam me parece niilista e, pior, não ajuda a construir nada concreto. R: Discordo do Nicolas. É fácil rejeitar a violência com que os black blocks atacam de forma tão visível, permitindo o registro da mídia, mas é importante que eles deem essa visibilidade à violência, situando-a claramente como um posicionamento diante dos governos, do Congresso, da Câmara Legislativa e como parte da vida. Não é bonito, mas é um fato: a vida é violenta. Creio que as manifestações que vimos tomar as ruas em junho é um desejo por mais verdade sobre a realidade tão artificializada que vivemos. Somos feitos de tantos vazios, tantas tolices, que nos atravessam... 70% de água, 30% de coisas alheias. É sobre essa condição que os black blocs estão aplicando o susto. Não é bom, mas ao menos é um alerta real e as consequências daqueles protestos de junho são definitivas. N: Também me considero um

Revista GPS BRASILIA ed 6  
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