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A foto de JK entre porta-retratos da família

“COM JK, APRENDI A SER GENTE, A SER HOMEM, A SER AMIGO E A ME PREOCUPAR COM AS PESSOAS” -se Chefe do Gabinete Militar. Todas as noites, colocava o amigo na cama, sempre depois de meia-noite. “Ele dormia tarde. Eu ficava até o momento de apagar a luz”, conta. E o despertar era por volta de 6h. “Dormíamos muito pouco. Juscelino era muito trabalhador “, garante.

PRESIDÊNCIA E EXÍLIO Quando JK foi eleito presidente, Heliodoro tornou-se subchefe do Gabinete Civil na Presidência da República. Acompanhou JK em todo o processo de construção de Brasília, desde as primeiras viagens para analisar a região. “Aqui era só mato. Mas Juscelino era um entusiasta e empolgava todos que estavam a sua volta. Ele sempre acreditou que conseguiria construir a Capital”, conta. Heliodoro lembra que chamava a atenção a alegria dos trabalhadores e a rapidez como tudo acontecia. “Juscelino não se continha de tanta felicidade”. A tristeza, segundo ele, foi quando JK deixou o governo e, por isso, não conseguiu dar continuidade ao desenvolvimento da cidade. Anos depois, após o Golpe Militar, Juscelino foi acusado de corrupção e cassado, tendo os direitos políti-

cos suspensos por dez anos. Foi quando precisou deixar o Brasil, em um exílio voluntário. A carta, citada no início do texto mostrava a solidão que JK viveu. “Não posso deixar de confessar que viver fora do País sem saber quando será possível o regresso é o castigo mais cruel imposto a um homem que só pensava no Brasil”. Aquelas palavras tocaram Affonso, que, sem pensar, desembarcou em Paris para uma temporada com o amigo. “Larguei a família para passar um tempo com ele. Ele precisava de mim, estava sozinho”, acredita. Quando JK mudou-se para Nova York, ele voltou ao Brasil. “Em Nova York ele tinha as filhas e a mulher”, conta. JK voltou ao Brasil em 1967. Emocionado, o coronel conta que, como acompanhava JK em todos os compromissos, era para estar no acidente que vitimou o presidente, em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, enquanto ia de São Paulo para o Rio de Janeiro. “Nesse dia, precisei ficar no Rio. Quando cheguei em casa e minha mulher me contou o que aconteceu, peguei o carro e fui até o local do acidente. Precisava ver que aquilo era real. Foi horrível”, lamenta. “Até hoje isso não foi esclarecido. Mas foi um assassinato”, acredita. Apesar do coração mineiro, foi Brasília, a cidade que ele viu nascer, que ele escolheu para viver. Voltou para cá quando se iniciou a construção do Memorial, em 1979. Nunca mais saiu. “Vou morrer em Brasília. Não fui eu que escolhi, a cidade que me escolheu”, declara o coronel, que já recebeu o título de Cidadão Honorário de Brasília. Por aqui, seguiu sua vida contando as histórias. Palestras e entrevistas sempre fizeram parte do seu dia a dia. E também colocou no papel muitas dessas vivências. São seis livros lançados, todos relacionados a Brasília e JK. “Para mim, foi uma felicidade ter servido a um homem com as qualidades de JK. Ele era inteligente, culto e muito bom. Não tinha maldade, não fazia nada para prejudicar ninguém. Ele deixou um grande buraco nesse País. O Brasil precisava de mais políticos como ele”, acredita. Heliodoro diz ter muito orgulho de ser candango. “Ser candango significa que eu participei de uma fase importante para o Brasil, assim como muitas outras pessoas. Mas, modéstia à parte, eu participei da intimidade. Eu era o auxiliar que estava 24 horas com JK. Acompanhei as primeiras reuniões, a discussão sobre cada etapa da cidade, tudo mesmo”, lembra.  Depois de quase duas horas de entrevista, é possível sentir JK mais vivo do que nunca. Ao ser questionado sobre o que diria ao amigo se o reencontrasse, não hesitou em responder: “O que você está fazendo aí do outro lado. Volta para cá, sinto muito a sua falta”, diz, com um largo sorriso saudoso no rosto. GPSBrasília « 59

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