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RETRANCA

VIDA E FAMÍLA

O busto do ex-presidente e a bandeira de Minas Gerais decoram a casa

relatos como se seu inconsciente não permitisse esquecer aqueles momentos. Affonso não se cansa de falar daquele que foi, na verdade, seu grande herói, morto há quase 40 anos. “Vivi a relação mais íntima que uma pessoa pode ter com a outra. Com JK, aprendi a ser gente, a ser homem, a ser amigo e a me preocupar com as pessoas”, declara. De vez em quando, uma pausa para enxugar as lágrimas e respirar fundo. “Sempre me emociono”, confessa. A intimidade dos dois era tamanha que até pegar as roupas que JK ia deixando pelo caminho quando chegava em casa o coronel fazia. “Imagina só, um militar, fardado, com todas aquelas estrelas na roupa, dobrando as vestimentas do presidente e cuidando das cuecas dele. Eu pedia: ‘presidente, não joga’. Ele me olhava e me xingava. Era aquele xingamento de amigos, sabe? A gente caía na gargalhada”, conta. Aos 99 anos, ainda é galanteador. Não perdeu a natureza de admiração pelas mulheres. Dá para imaginar as festas que fez ao lado de JK, conhecido por ser sedutor. “Ele era um homem bonito e simpático e, além de tudo, tinha o poder. O mulherio ficava doido. Ele tinha muitas fãs por aí”, revela, às gargalhadas.

Assim como JK, Heliodoro nasceu em Diamantina. Perdeu o pai no dia do aniversário de sete anos. Na época, era aluno de dona Júlia Kubitscheck, mãe de Juscelino. “Ela era uma ótima professora, uma boa pessoa, mas muito severa. Meu dedo dói até hoje de uma reguada que levei enquanto fazia uma leitura. ‘Não se lê com o dedo’, ela me disse. Essa é uma lição que lembro até hoje”, brinca. Ainda na infância, já em Belo Horizonte, vendeu doces, engraxou sapatos e trabalhou em bancas de jornal para ajudar a mãe, Dolores, viúva com sete filhos. Ao completar 18 anos, escolheu a carreira militar, assim como seu pai e alguns de seus irmãos. A formação acadêmica só veio mais tarde, quando, já adulto, cursou Direito na antiga Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro. O coração de Affonso foi conquistado há 50 anos por Conceição Samarco, uma mineira de Ouro Preto que ele conheceu no Rio de Janeiro. Na época, os dois eram casados e só ficaram juntos tempos depois. E o amor era verdadeiro. Sãozita, como é carinhosamente chamada, é sua companheira no dia a dia até hoje, aos 94 anos. O segredo desta longa relação ele garante que é o bom humor. “Nós não brigamos. Ela é brava. Quando vem me dar uma bronca, retribuo com um elogio e ela se desmancha”, diverte-se. Os dois estão sempre de mãos dadas, veem televisão juntos e apreciam o pôr do sol da sala de TV de que, até pouco tempo, antes de as árvores crescerem, era possível visualizar o Memorial JK. “Quando dava para ver, eu todos os dias chegava na janela e acenava para Juscelino”, conta. As coincidências não param por aí. Os números do endereço da casa – Quadra 19, conjunto 7, casa 6 – formam o ano de morte do ex-presidente. O coronel leva uma vida tranquila, sai pouco de casa. Vai ao Memorial JK – que ajudou a fundar e dirigiu de 1981 a 1995 – e ao Instituto Histórico e Geográfico do DF, do qual é presidente desde 1993, que fica na 903 Sul, e atua na promoção da história da cidade e de seu criador. Toda última quinta-feira do mês, participa de um almoço no Clube da Aeronáutica .“Eu ainda não me aposentei. Só vou parar de trabalhar quando morrer”, garante. Affonso é 14 anos mais novo que JK. Quando Juscelino era governador de Minas Gerais, no início da década de 1950, iria receber um embaixador da Síria e precisava de alguém que falasse inglês. Affonso foi indicado para o trabalho. Desde então, não saiu mais do seu lado. Tornou-

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