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“T

odas as manhãs, ao despertar, penso que ainda vou encontrá-lo em meu quarto e no meu banheiro para os primeiros comentários do dia. Hábito velho que trouxemos de Minas, levamos para o Rio, transportamos para Brasília e novamente nos acompanhou para o Rio. Ficou de tal modo integrado na minha lembrança que dele não me posso esquecer”. Foi assim que o ex-presidente Juscelino Kubistchek começou uma carta em 18 de julho de 1964 para um grande amigo. A intimidade nas entrelinhas é o registro mais fiel de uma relação que se eternizou entre JK e o Coronel Affonso Heliodoro dos Santos. “Fui o melhor amigo de Juscelino”, garante, sem falsa modéstia. O sonhador e desbravador Juscelino teve ao seu lado um assessor que, por ser militar, fazia um contraponto ao jeito bossa nova do ex-presidente. Ele estava sempre em alerta e cuidava do amigo com zelo e atenção. Em alguns momentos era possível fazer uma analogia a Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. O contraponto e a oposição definiam a tônica desta relação de profunda amizade. Esta analogia termina quando entendemos que Juscelino, ao invés de caçar monstros em moinhos de ventos, construiu a monumental Capital do Brasil. E o Coronel Affonso pôde viver toda a intimidade deste importante momento do nosso País. Aos 99 anos – o centenário será comemorado em 18 de abril –, o pioneiro é a história viva da Capital. É o último representante vivo da equipe presidencial de JK. Conheceu o ex-presidente como ninguém e vive até hoje de contar histórias do amigo. Heliodoro nasceu em Diamantina, foi aluno da mãe do presidente conterrâneo, reencontrou-o em Belo Horizonte, começou a trabalhar com ele no Governo de Minas Gerais e coordenou suas campanhas políticas. Atuou nos bastidores e aconselhou JK em muitas de suas decisões. Era com ele que o ex-presidente compartilhava dos primeiros acontecimentos do dia, como relata a carta, e até as medidas políticas. A cópia da carta, escrita quando JK estava no exílio em Paris, está emoldurada e exposta na parede do escritório do coronel, em sua casa no Lago Sul, onde mora desde 1982. Já leu tantas vezes que sabe narrar de cor. Por ali, fotos do ex-presidente e centenas de livros, um deles com dedicatória de JK. Uma vitrola ainda toca discos que o faz lembrar as serestas que frequentou com Juscelino. Peixe Vivo, de Milton Nascimento, que acabou se tornando uma espécie de hino em toda homenagem ao ex-presidente, traz muitas lembranças e o emociona. No andar de cima, mais fotos do fundador de Brasília.

Coronel passa os dias ao lado da mulher Sãozita, com quem está há mais de 50 anos

Em uma cômoda, um pequeno busto do ex-presidente ladeado pelas bandeiras de Minas Gerais e do Distrito Federal, e uma miniatura do Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro. Há ainda placas e medalhas. Um grande relógio decora a sala de jantar. “Sempre fui escravo do horário, afinal, sou militar né? Mas agora é só enfeite, não tenho hora para nada”, comenta, com seu sotaque mineiro. O Coronel da Reserva da Polícia Militar de Minas Gerais, mesmo com a idade avançada, não deixa de atender a imprensa. Adora contar seus casos. Caminha com dificuldades, mas em determinado momento toma fôlego e estica a coluna para dar meia dúzia de passos como um militar marchando, até sentar à mesa onde conversaria com a nossa equipe. Chega com sapato engraxado, calça social, camisa de botão com a manga dobrada, um lenço de tecido no bolso e óculos de grau. Sorridente, já é perceptível seu bom humor, alegria e um semblante de quem é grato à vida que teve. A idade chegou, mas o tempo não passou na sua memória. Os fatos parecem não sair de sua cabeça. Repete GPSBrasília « 57

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