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A escolha de estar ali é uma vocação. Muitos vão jovens. É o caso de Dom João Evangelista, um baiano de 24 anos, que passou pela última etapa da formação em junho deste ano. No Mosteiro desde os 18, é o monge católico mais jovem do País. “Não há nada melhor do que experimentar a alegria de ser de Deus, de ser amado. Diante dos muitos desafios que essa vida nos propõe, a liberdade sempre está em nossas mãos”, lembra. Dos pais, em 1991, recebeu o nome Ambrósio. Do prior, anos depois, João Evangelista. Sempre com um sorriso no rosto, possui uma quantidade considerável de amigos e pessoas que vão ao mosteiro para visitá-lo, a grande maioria jovens. Fruto da geração Y, também utiliza as redes sociais para evangelizar e colocar o papo em dia. O modo de vida simples dos monges confronta os ensinamentos do mundo atual, que prega o imediatismo. Pelos corredores da clausura, sozinhos, buscam a si próprios e encontram-se para que consigam encontrar Deus. “O melhor de ser monge é descobrir que você está sempre a caminho,

Um dos quartos da hospedaria do Mosteiro (acima); livro de orações usado nas refeições (abaixo)

A ROTINA

Dom Mauro dedica-se há mais de três décadas ao Mosteiro

nunca está pronto, que você não é perfeito”, conta Dom Mauro Cruz, 57 anos, 34 deles como monge. Quando o Mosteiro ganhou autonomia e foi elevado ao grau de Priorado, em 1995, foi ele o eleito para ser o prior do local. Hoje, 20 anos depois, faz valer os votos de obediência ao não ocupar mais o cargo para o qual o elegeram à época. Para Dom Mauro, estar ali não significa estar preso. “Você pode estar entre quatro paredes e estar com o mundo todinho em você, assim como você pode estar no mundo e estar enclausurado”, lembra. “Apesar de monge significar ‘só’, é uma solidão povoada de Deus e da presença dos irmãos”, finaliza. Na nova família, o sorriso paterno dos mais velhos dá a certeza de que os laços são verdadeiros.

Pela manhã, enquanto nas casas vizinhas do bairro mais nobre de Brasília famílias amanhecem para um dia corrido, os monges, sem pressa alguma, já rezam. O sino toca às 5h. Sem falar uns com os outros, seguem direto para a capela e lá iniciam a primeira oração: “Senhor, abri meus lábios”, enquanto passam o dedo na boca em forma de cruz. A partir de então, o diálogo está permitido. Quando terminam as vigílias – como é chamado esse primeiro momento juntos –, o sol começa a surgir. Durante todo o dia, têm outros seis momentos de oração em comum na capela. As três principais refeições – café da manhã, almoço e jantar – são feitas no refeitório. Não é permitido conversar enquanto comem. Pela manhã, canto gregoriano é a única coisa que quebra o silêncio. No almoço e no jantar, a voz é a de um dos irmãos, que se senta em uma cadeira, com uma pequena mesa à frente, que serve de base para o microfone, e faz leituras bíblicas ou espirituais. Acredita-se, segundo a regra de São Bento, que no mesmo tempo em que se alimenta materialmente é preciso se alimentar espiritualmente. GPSBrasília « 47

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