Page 99

I

magine a cena: o pai de um jovem passa por uma cirurgia durante tratamento de câncer e precisa de transfusão de sangue. Na busca por um doador, o sangue do filho é compatível. Alegria na família. O jovem é aprovado com êxito nos procedimentos de doação e chega à fase da entrevista de triagem sobre os seus hábitos. Tudo corria bem até questionarem sua opção sexual. Abruptamente, o enfermeiro puxa o formulário para si e carimba o papel com a palavra inválido para doação de sangue. O jovem é homossexual. Quinze anos depois de ser impedido de doar sangue para o próprio pai, Christus Nóbrega, 38 anos, conta essa história com os olhos marejados. Como atitude, o artista plástico nascido na Paraíba decidiu “oferecer flores”, como diz, em vez de partir para o lado da retaliação. Durante dois anos, com a ajuda de médicos, engenheiros químicos e técnicos laboratoriais, conseguiu desenvolver uma tinta de impressora feita com o seu próprio sangue. Com o composto, imprime uma série de autorretratos e fotos de plantas, em especial flores. Assim, criou a série Sudário, uma forma de protesto “ao preconceito do próprio Estado”, como classifica. Por esse e outros projetos, o mestre e doutor em Arte Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) foi escolhido para representar o Brasil em uma residência artística na Central Academy of Fine Arts (Cafa), em Pequim, na China. A união entre as embaixadas visa articular a parceria acadêmica entre UnB e Cafa. Em novembro deste ano, o artista embarca para o intercâmbio de dois meses. “Já comecei a estudar mandarim”, brinca. A brasiliense Karla Osório foi quem indicou o professor para o intercâmbio no país asiático. A colecionadora de arte contemporânea acredita e incentiva o trabalho do artista pelo Brasil e pelo mundo. “A obra dele é importante pela inovação com as pesquisas. O seu trabalho artesanal com alfinetes lembra a acupuntura, o manuseio do papel remonta ao origami, ele trabalha em uma escala delicada e frágil com a fotografia em 3D, acredito que daí venha o interesse dos chineses”, afirma Karla. Segundo a galerista do Gabinete de Arte k2o, Brasília é um celeiro de bons artistas, mas há uma demora para eles conquistarem espaço. “O Christus, com certeza, é um dos melhores artistas da cidade nessa geração”, diz. O único brasiliense com duas imagens a série Transfúgio no acervo da Fondation Cartier pour l’art contemporain (Fundação Cartier de Arte Contemporânea), em Paris, o professor gosta de trabalhar com autorretratos. Ele mesmo se fotografa de perfil ou de costas. Em raras cenas, o rosto

Quadro Algozes V, autorretrato com borboletas em alto relevo

aparece suavemente. A intenção por trás disso é: “abrir a minha obra para que a história das outras pessoas penetre mais em meus trabalhos. Quando o rosto não está tão aparente, o corpo, como símbolo, fica mais evidente”, explica. O trabalho do artista é bem elaborado, pesquisado, fundamentado, minimalista. Entretanto, multitarefado seria o adjetivo mais característico do artista. Ele trabalha com diversas ideias ao mesmo tempo, demonstrando empolgação contagiante e orgulho peculiar ao falar sobre cada uma delas. O desafio atual, perto de ser finalizado, é o projeto Algozes. São oito quadros com 1,20m de altura por 85cm de comprimento. Neles há um corpo em movimento montado com cerca de duzentas borboletas, formando um complexo quebra-cabeça. “Nas imagens, é como se as borboletas rasgassem a minha pele. Gosto desse animal pela questão aparentemente dócil, mas que esconde um sistema perturbador de autocamuflagem, como as borboletas-corujas”, explica. GPSBrasília « 99

revista_GPS_brasilia_edicao_11.indd 99

07/08/15 00:39

Revista GPS Brasilia 11  
Revista GPS Brasilia 11  
Advertisement