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RETRANCA

A árvore com tronco retorcido é um dos atrativos da 308 Sul

vive ali não quer sair de jeito algum. É difícil encontrar um apartamento vazio, mesmo em uma das quadras com o metro quadrado mais caro de Brasília. Observa-se um senhor de boné sentado embaixo do bloco, contemplando o pouco movimento da quadra. Outro faz sua caminhada matinal. Tem aquele que limpa um laguinho cheio de carpas em frente ao bloco F, onde jovens conversam sentados nos bancos ao redor. No meio da rua, duas amigas se encontram e conversam um pouquinho. O porteiro ajuda uma senhora a carregar as compras do mercado até o elevador. Uma mulher passeia com um cachorro. Um casal namora embaixo do bloco. O clima parece ser ainda de interior. É como viver dentro de um grande parque. As árvores típicas brasileiras, como o Pau Brasil, Palmeiras e Ipês suavizam o concreto. Venta forte, um frio gelado bate no rosto. Embaixo dos blocos – são nove, identificados pelas letras do alfabeto, de A a I –, os pilotis e os vãos livres dão a sensação de não haver limites. Banquinhos convidam para sentar, contemplar a paisagem e sentir a atmosfera da quadra. A árvore com tronco retorcido na Praça dos Cogumelos, bem no centro da quadra, onde antigamente as crianças brincavam despretensiosamente, hoje é local de prática de Le Parkour. Jovens movem-se rapidamente entre

obstáculos, usando o próprio corpo. Mas não é difícil ver um visitante se arriscando entre os galhos, nem que seja só para tirar uma foto. Ao se caminhar na direção da W3 Sul, depara-se com um edifício todo grafitado por fora, o Espaço Cultural Renato Russo. O local foi construído na década de 1970 e era super agitado na época. Mas é preciso se contentar só com a fachada, porque o local está fechado desde dezembro de 2013 por problemas de conservação, sem previsão para reabertura. Como diz a arquiteta Maria Elisa, filha de Lúcio Costa: “Os moradores pertencem à quadra, mas a quadra não lhes pertence”. Diariamente, estudantes de Arquitetura vão ver de perto o plano do urbanista. E grupos de turistas passeia pela chamada Quadra Modelo. Tiram fotos da arquitetura. Ouvem explicações e histórias da cidade, procuram entender como Brasília funciona. Alguns moradores até se arriscam a interagir. O ideal é fazer esse passeio com quem realmente conhece a cidade, para entender a inteligência urbanística da Capital. “As pessoas se surpreendem por serem prédios sem grade, com comércio próximo e um local onde surgem amizades”, revela o historiador Yliam Miranda, 29 anos, morador da 308 Sul desde que nasceu e que, nas manhãs

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Revista GPS Brasilia 11  
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