Issuu on Google+

RETRANCA

C

Clima de tranquilidade da quadra

TÃO APRECIADA PELOS BRASILIENSES, A SUPERQUADRA CONSTRUÍDA PELO BANCO DO BRASIL É A ÚNICA QUE SEGUIU À RISCA O PROJETO DE LÚCIO COSTA. A PREFEITURA LUTA PARA MANTÊ-LA ORIGINAL, TAL QUAL OS TRAÇOS DO URBANISTA. AOS 53 ANOS, ELA É A IMAGEM VIVA DA COMUNIDADE PERFEITA SONHADA PARA A NOVA CAPITAL POR MARCELLA OLIVEIRA | FOTOS SÉRGIO LIMA

inco horas da tarde, as crianças correm livremente entre os blocos. No gramado, começam a jorrar jatos d’água, uma diversão para os pequenos, que ficam encharcados. Estão sob o olhar atento das mães, sentadas no banco, aproveitando a sombra das árvores, enquanto papeiam e saboreiam café com bolo e biscoito. Nesse ínterim, os maridos cumprem expediente no Banco do Brasil. O endereço? A Superquadra 308 Sul, na década de 1960. Não foi a primeira quadra de Brasília, mas seguia à risca tudo o que o urbanista Lúcio Costa havia planejado. Por isso, tornou-se modelo. Ali viviam jovens funcionários do banco que vieram transferidos para a recém-inaugurada Capital. Tiveram filhos e viram a cidade se transformar. Vizinhos que criaram laços familiares para diminuir a saudade da terra natal. Daí surgiu o carinhoso jeito brasiliense de chamar os pais dos amiguinhos de “tia” e “tio”. Depois da escola, as crianças criaram um hábito típico da cidade: brincar embaixo do bloco, construído com pilotis. Uma lenda urbana surgiu sobre a altura máxima dos prédios, de seis andares. Era para que a mãe conseguisse ser ouvida lá de cima quando gritasse: “Menino, sobe que o almoço está na mesa”. Parecia um jardim de casa. Corriam, pulavam Amarelinha, subiam nas árvores, jogavam futebol, brincavam de pique-esconde, bete ou pique-pega. Aprendiam a andar de patins e bicicleta. Todos estudaram no Jardim de Infância da 308 Sul, depois na Escola Classe, projetada por Oscar Niemeyer, e na Escola Parque. A educação era de primeira qualidade. Divertiram-se na piscina do Clube Vizinhança. Iam à missa na Igrejinha Nossa Senhora de Fátima. O passeio no fim de semana era pela W3 Sul para fazer compras na BiBaBô ou na Fofi. Uma época em que não precisava se preocupar com segurança. As portas dos apartamentos ficavam abertas. A relação era de comunidade, tipo cidade de interior. Ninguém trancava os carros. As escolas não tinham grades, nem os parquinhos. A única preocupação era com a sujeira causada pela poeira. Frequentavam os amplos apartamentos uns dos outros e faziam compras na Sociedade de Abastecimento de Brasília (SAB), primeiro mercado da cidade. As festas de aniversário eram embaixo do bloco. No gramado, muitos piqueniques. No Espaço Cultural da 508 Sul até Renato Russo já se apresentou. A vida cultural incluía também apresentações no teatro da Escola Parque, ou comprar figurinhas da banca do seu Lourival, a primeira de Brasília, na entrada da quadra de baixo, a 108 Sul.

34 « GPSBrasília

revista_GPS_brasilia_edicao_11.indd 34

07/08/15 00:34


Revista GPS Brasilia 11