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o amplo corredor de acesso a um apartamento qualquer da Asa Sul, vê-se uma parede toda furada. Um morador o percorre para chegar até a sua porta. O vento e a brisa circulam livremente. As sombras uniformes pintam o chão e a parede. O barulho das cigarras, que cantam em árvores próximas, parece estar do lado de dentro. A chuva, quando forte, entra sem pedir licença. A beleza e o charme dos primeiros blocos da Capital clamam o ideal de uma moderna arquitetura que perdeu espaço para a funcionalidade das construções contemporâneas. Mas, por mais que surjam prédios cheios de inovações tecnológicas, são os quadradinhos de boa parte dos blocos do Plano Piloto que se tornaram a cara de Brasília. O símbolo da liberdade dos brasileiros que viram surgir uma cidade moderna misturada ao barro vermelho do Planalto Central foi refletido nas primeiras construções. As superquadras seguiram uma mesma característica, com até 11 blocos posicionados simetricamente, térreo com livre circulação, com a utilização de pilotis, e a fachada com paredes “furadas”, chamadas de cobogós. Havia a intenção de criar uma amplitude, além de permitir a entrada do vento e da luz solar. Os cobogós eram um recurso que ajudava a evitar a monotonia, definir as fachadas e modelar o visual das superquadras. A arquitetura de Brasília é uma referência tão grande que os cobogós, apesar de terem sido criados em Pernambuco no início dos anos 1920 e utilizados em construções no Brasil inteiro, são uma marca da cidade, mesmo que muitas vezes as pessoas não saibam seu nome. “Era um dos elementos que se dispunha para compor a estética da arquitetura moderna, por isso foi muito usado em Brasília”, explica o arquiteto e professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Marcos Paiva de Oliveira. Os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa adotaram o elemento vazado em muitos de seus projetos, ainda no Rio de Janeiro. E, claro, trouxeram para a nova Capital. Na Asa Sul, eles são unanimidade. Quase todas as superquadras têm prédios com os cobogós, seja no corredor de acesso aos apartamentos ou na área de serviço. Eles são vistos também na Escola Parque da 308 Sul, no Elefante Branco e na Escola Classe 108 Sul. Na Asa Norte, foram mais utilizados nas áreas de serviços. Não é difícil encontrá-los em quadras como a 206 Norte, que tem prédios projetados pelo arquiteto Marcílio Ferreira, e inúmeras outras, como a 205 Norte e a 416 Norte.

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Revista GPS Brasília 10  
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