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Crônica

Nossas vidas seguiam e, como sabemos, a cidade não para. Presenciei, dessa maneira, o marco zero de Samambaia, Recanto das Emas e do Setor Sudoeste, todos com endereços servidos em sopas de letrinhas. Conheço o Sudoeste de forma menos pior. Faço sempre a barba ali, na CLSW 303. Belo trato semanal na face hirsuta do quarentão maltratado. Com direito a toalhinha quentinha e tudo. Um bairro emergente, de emergentes, o Sudoeste. Não vai aqui nenhuma crítica – considero emergir sempre melhor que submergir. Ou quase sempre. Se a minha Vila Isabel dá samba, quadras e blocos que começam logo depois do SIG (olha!) provocam o estro. Senão, vejamos. Eudoro Augusto, ex-lisboeta e atual patrimônio das letras abrigado em Brasília, mostra no poema “A Morte da Lua na Intimidade” toda a inspiração artística capaz de emergir da visão da lua de um apartamento do Sudoeste. Isso apesar do salgado

aluguel que ele deve pagar – ou pagava até 19 de junho de 2008 – pelo cafofo da SQSW, hein. Como dinheiro não tem valor quando o assunto é amor, passo a palavra para Eudoro: “Às 6 e 34 do dia 19 de junho/ ano de 2008/ estou presenciando o desfalecimento da lua/ pela varanda do apartamento que alugo/ no Sudoeste. Momento belo mas breve./ Neste instante não penso em ninguém/ nem mesmo em mim./ Percebo apenas aquela água nublada de prata/ aquela luz que não rasga nem cega/ aquela lua lua lua/ saindo de cena com a maior elegância/ moderna e eterna como nunca./ Tem dias que o sol é cruel.” Adulto e casado, sob o sol cruel da obrigação profissional, passei a perambular pelos espaços da política tradicional em Brasília, descendo e subindo o Eixo Monumental pelas avenidas S1 e N1. Faz quase vinte anos que circulo nesse ambiente arcano. Ainda assim a poesia me acompanha.

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Entre os meus gurus da fé no verso está o ex-mineiro Chico Alvim, proprietário de uma bela casa numa QL de um SHIN qualquer. O poema “Em Minas” ilustra bem um dos carmas brasilenses derivado da proximidade com o circo político de Pindorama. Escreve o mestre de Araxá: “O senhor é de Brasília? Então me diga/ E essa tal da política/ como é que anda por lá?” Chico Alvim para administrador do Lago Norte já! Winston Churchill, raposa felpuda da política e primeiro ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, alertava que um sujeito, qualquer sujeito, jamais chegaria ao fim da sua jornada se parasse para arremessar pedras toda vez que um cão ladrasse. Dito isso, aviso que não elencarei aqui as milhões de críticas daqueles que sentem falta dos tradicionais nomes de ruas, os mesmos que insistem em dizer que desconhecem esquinas cá.

A essas pessoas, recomendo doses generosas do poeta curitibano Paulo Leminski. Aliás, que acaba de ter toda a poesia reeditada. “Em Brasília, admirei/ Não a Niemeyer lei/ a vida das pessoas/ penetrando nos esquemas/ como a tinta sangue/ no mata-borrão, / crescendo o vermelho gente,/ entre pedra e pedra,/ pela terra adentro. Em Brasília, admirei./ O pequeno restaurante clandestino,/ criminoso por estar/ fora da quadra permitida./ Sim, Brasília./ Admirei o tempo/ que já cobre de anos/ tuas impecáveis matemáticas. Adeus, Cidade./ O erro, claro, não a lei./ Muito me admirastes/ muito te admirei.” Sacou, véi?

*André Campos é desatador de nós, casado com a Cíntia, pai do Gabriel e da Maria Luiza, de quem está rompido desde que ela começou a namorar um tal de Jay, vocalista de uma banda de metalcore.


Revista GPS Brasilia 4