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os pés descalços sobre a terra vermelha e, na vibe do reggae, tropeçava nos ratos que saíam então dos esgotos no bairro em rápida transformação. Em 1984, um tipinho banal convertido à cena new wave – baseado na SHIGN 708, bloco H – cruzou meio Plano Piloto dentro de uma calça laranja da Company (ui!) para arrumar um cobertor de orelhas na Asa Sul. Euzinho, viu. Estou enroscado até o momento atual nessa história. É: lá se vão quase trinta anos. O objeto do meu desejo – no passado e ainda hoje – bem que podia se chamar Suzanne, como a guria “half crazy” da canção de Leonard Cohen. Ou Suzana, à semelhança da musa riponga do poeta Nicolas Behr, ex-cuiabano com pinta de herói vicking. Assim eu poderia ter declamado – em meio à urgência hormonal hardcore imposta, à época, pelos meus 14 anos – o poema eternizado na parede externa do INL (opa!), ao lado do bloco G, da

SQS 306, onde também já constituí residência: “naquela noite/ suzana estava/ mais W3/ do que nunca/ cheia de L2/ suzana, vai ser/ superquadra/ assim lá na/ minha cama” Mas não. Não havia Suzanne e nem Suzana no meu destino. Precisou de cigana não. A cara-metade tinha sido batizada com outro conjunto de letras. Culpa da mãe. Da sogra, digo. Cresci e passei na UnB. Lá, estudante de comunicação, eu me (des)eduquei por meio da leitura cavalar de poesias. O que antes era um hobby virou uma quase rotina. Tornei-me assíduo frequentador de um grupo etílico-literário, que se escondia no DCE Bar (sempre as siglas), na comercial da 407 Norte (nunca soube o endereço ao certo), para cometer versos durante o dia – e à noite também. Aulas que é bom, necas! Não dava tempo, compreende? Mesmo deformado pe-

las raras incursões no curso de jornalismo e por excesso de versos, meu romance com a menina da 705 Sul avançava. Encontrei na poetisa carioca Ana Cristina Cesar – que nunca veio habitar esta plaga – uma porta-voz para o meu sentimento pré-adulto. Diversas vezes, eu me imaginei ajoelhado ao pé da minha namorada, sob o efeito da fumaça aromática dos bambuzais universitários, a recitar: “Minha boca também/ está seca/ deste ar seco do planalto/ bebemos litros d’água/ Brasília está tombada/ iluminada/ como o mundo real/ pouso a mão no teu peito/ mapa de navegação/ desta varanda/ hoje sou eu que/ estou te livrando/ da verdade.” O mico nunca rolou, relaxem. E talvez, por isso, a relação vingou de vez. Isso e mais uma pequena gravidez, claro, que hoje aos 17 anos transformou-se num cara bonito pacas.

Gabriel é o nome do homem lá de casa. Em certa medida, uma homenagem ao mítico vocalista e guitarrista Gabriel Thomaz (atual Autoramas) do Little Quail and Mad Birds. A banda permanece símbolo de uma geração nomeada – com precisão pelo diretor e bróder Patrick Grosner – de Baré-Cola, tribo desbunde do roquenrol de Brasília anos 90. Vem filme aí, aguardem. Canta, Gabriel, canta: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis/ Sete, oito, nove, dez, onze, doze, Treze, catorze, quinze, dezesseis/ Eu sei que são dezesseis/ Centos, duzentos, trezentos, quatrocentos/ É que não dá, desse jeito eu vou pirar SQS, HIGS, SBS/ Pra mim é tudo igual/ SQN, SHIN, CLN/ Vou dar uma decida na comercial/ Dezesseis, eu sei que são dezesseis/ L2, W3, eu sei que são dezesseis”

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