Page 91

inquieta e ágil, lançava um olhar para a mulher, Jasmine, com quem está casado há dez anos, como se dissesse, “Me tire daqui em breve”. “Tudo é low-tech, high-tech. É por isso que se você quiser ser atemporal nos seus projetos, tem que entender e usar a próxima super tecnologia. Não se trata de uma escolha. Mas antes de tudo nós temos que proteger a humanidade. Às vezes, algumas tecnologias matam”. Você tem um envolvimento estrito com materiais sintéticos, o plástico, de onde sur em suas cria es Eu sou o presidente mundial do Clube de Admiração da Inteligência Humana. O plástico é um produto criado pela inteligência humana. Nós não criamos a madeira, não criamos a pedra, não criamos o ferro. Nós criamos o plástico. Hoje alguns produtos sintéticos são muito melhores, de melhor qualidade, mais inteligentes do que alguns produtos naturais. E é por isso que, se eu puder, eu uso plástico para honrar a inteligência humana. E também eu não mato uma árvore, eu não mato nada. Isso significa que o plástico não mata ninguém. Eu sou o presidente mundial do Clube de Não Mortes, o que significa que não precisamos matar para viver. Voc ent o á tem o seu le ado definido O maior desafio é não esquecer minha essência, é não querer fazer a “obra-prima do Starck”. Você precisa ser muito forte consigo mesmo para não pensar “Eu sou rei da criatividade”. Na verdade, estamos falando de ser um criador puro. Eu tive que ir mais fundo na cultura, ler livros que eu nunca havia lido e esse foi absolutamente outro desafio. Eu estou muito feliz porque esse novo processo me levou para outro lugar, me deu uma nova qualidade de trabalho. Eu respondi exatamente essa mesma pergunta para o criador desse projeto, que disse que queria representar o Brasil desde suas raízes até a alma, a cultura. Desde a pedra e a madeira até o artefato Brasília.  rabalhar com m o de obra e mat ria prima do rasil foi um desafio Não, não para mim. Outras pessoas eu acho que tiveram problema porque existe uma grande diferença entre eles. O caminho foi ir até a alma do Brasil. Por isso foi possível criar essa imagem. O meu trabalho é sempre encontrar o centro. Quando eu começo, eu digo: “Por que isso? Por que esse mistério, essa mágica? A floresta, a umidade…”. Depois eu percebo: “Ah, isso é por causa disso”, e começa a lógica de tudo. Assim, você se torna brasileiro e você passa a ser brasileiro por séculos. Depois, eu faço isso para um cliente africano, para o cliente italiano... O principal é sempre “o porquê”.

esses sete anos voc acabou se envolvendo muito com o rasil Passou a admirá-lo? O Brasil é rico, rico, rico e isso combina comigo, porque existe uma loucura. Tem paixão, escuridão, claridade, cor, som... coisas assim que me tocam. É um prazer estar no Brasil. Voc

multifuncional omo se define Não sou um pouco de tudo, é diferente. Eu não sou um arquiteto, não sou designer e eu não quero ser nenhum desses dois porque não me interessa pessoalmente. Foi o trabalho que me escolheu mais do que eu escolhi o trabalho. A primeira regra é que todo mundo precisa de legitimidade para viver. Para mim, que não sou muito inteligente, a mais fácil legitimidade é servir. Porque eu tenho uma doença mental. O meu nível de criatividade é doentio. Eu tenho ideias, eu tenho visões. Isso significa que meu trabalho não é construir um prédio, é ter uma ideia do que a cidade deve ser.  Eu uso uma cadeira, eu uso perfume, eu uso meus óculos para falar sobre mutação porque isso é biomecânico, que faz parte da biogêneses, que é o próximo futuro.  E como consegue tornar real tantas invenções em sincronia com a demanda da sociedade? É quando você passa sua vida com alguém chamado sociedade e civilização. Imagine sua mulher ou marido falando apenas sobre uma coisa pelo resto da vida, você fugiria. E é por isso que um dia eu farei uma pedra, outro dia um avião, um dia um carro elétrico, um dia um moinho de vento, um dia óculos. O meu trabalho é de comunicação. Eu proponho ideias e não imponho nada. Mas, sobre tudo o que falo, eu entendo muito. Quando é sobre algum avião, o técnico me pergunta “Como você sabe disso?”. E eu respondo: “Eu não sei, mas eu sei”.  E morar no mundo não te cansa? Ficar distante de casa? Para mim é muito fácil porque eu sou um viajante, eu sou nômade e eu trago a minha casa comigo, que é a minha mulher. Eu sempre viajo com a minha mulher, que é a minha casa, e isso é o suficiente. Com ela eu tenho música boa, eu tenho um sorriso, eu tenho elegância, eu tenho beleza, eu tenho amor, eu tenho calor, eu tenho tudo. Nós nunca nos separamos. Somos sozinhos no ar, somos um casal solitário. Eu sou um pouco autista e é por isso que minha mulher é a minha única relação com o mundo. Hoje eu falo porque eu sou obrigado a falar. Não... é um prazer falar com vocês, mas normalmente não é meu trabalho falar. Em geral, eu não abro minha boca. GPSBrasília « 91

Revista GPS Brasília 15  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you