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de levar para casa, todas geometricamente trabalhadas em três dimensões, na cor laranja – a cor da alegria, da energia, do sucesso –, em formas livres e volumosas. Dessa maneira, o artista interage com mestres das artes plásticas, como Servulo Esmeraldo e Franz Weissmann. Foi o que, certa vez, afirmou o crítico de arte Marcus Lontra a respeito do trabalho de Sanagê. “Questionam como eu deslanchei tão rápido nas artes. Digo que não é bem assim. Há 30 anos venho construindo o trabalho que apresento hoje. Ao invés de ver novela, eu leio livros de arte. Tenho uma biblioteca enorme e dedicação exclusiva ao trabalho”, revela. Com obras expostas em prédios por toda a cidade, integrando acervo pessoal de colecionadores, o artista atrai a atenção de marchands. Além do talento particular, simpatia nata, otimismo contagiante e veia empreendedora, Sanagê é um idealista. “Eu quero ter, pelo menos, uma obra no MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova York -, por que não? Eu penso em trabalho 24 horas por dia, em busca das minhas dez mil horas de dedicação para obter sucesso”, revela.

QUANDO TUDO COMEÇOU Obra da exposição Neoclipes

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abe aquele clipe que as pessoas costumam usar para prender papéis? Você já parou para observar as dimensões, traços, formas desse objeto feito ora de plástico ora de metal, inventado pelo norueguês Johan Vaaler, em 1899? Provavelmente, não. Possivelmente, esse mero objeto, tão trivial no dia a dia, passe mesmo despercebido. Mas para Sanagê Cardoso, não. O renomado artista carioca, brasiliense desde 1972, destaca-se na remodelagem de clipes. Ou seja, a arte que envolve desconstruir a proporção áurea da peça e dar novo formato ao arame. O protótipo se transformará em uma grande escultura de aço. “Toda obra que eu faço começa em um clipe. Ele está presente em todas elas”, explica. Da obsessão por esse material surgiram as esculturas da exposição Neoclipes – A Tradição e o Contemporâneo. Entre os formatos, todos exclusivos, a imaginação ganha liberdade. Existem obras de dez metros; outras que pesam mais de uma tonelada; miniaturas de 25 centímetros com menos de um quilo; trabalhos conceituais que provocam olhares céticos. E a grande maioria das peças dá vontade

Imagine-se no lugar de um jovem carioca de 18 anos recém-chegado a Brasília dos anos 1960. Você possui talento para a fotografia e investe na arte. Passa a fazer sucesso, torna-se respeitado e admirado. Nas horas vagas, possui a mania, ou o hobby quase inconsciente, de remodelar clipes de metal. Com os próprios dedos, dá formatos diferentes àqueles arames de aço. Quase sem querer vai guardando as novas formas em uma caixinha. Logo, ela fica cheia deles. E agora? O que fazer com tantos clipes distorcidos? Bem, com a máquina fotográfica sempre próxima, Sanagê trabalhou luz, cenários, ângulos e começou a registrar os clipes estilizados. Após algumas exposições dessas imagens inusitadas, aquela famosa luz inspiradora apareceu para Sanagê. A ideia passou a ser maximizar os clipes e transformá-los em algo palpável, de preferência, em aço. Assim, apresentou a proposta de esculturas para diversos metalúrgicos. Todos rejeitaram a ideia. Para resolver o problema, o artista foi prático. Abriu uma pequena fábrica e começou a fazer as peças em aço carbono e inox. “Não entendiam e recusaram-se a executar. Já que ninguém quis fazer, eu mesmo decidi aprender a cortar, soldar e até fundir o aço para dar origem às minhas obras”, conta. GPSBrasília « 63


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