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A IGREJINHA Não há como não comparar Galeno com Alfredo Volpi, que foi um grande defensor da cultura popular brasileira. Coincidência ou não, Galeno foi eleito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para pintar os painéis da Igrejinha que antes foram criados pelo pintor ítalo-brasileiro. Os painéis de Volpi foram destruídos por atos de vandalismo. Há sete anos, Galeno recebeu a missão de substituir os painéis, pois eram irrecuperáveis. “A Igrejinha foi importante porque eu coloquei o pé em Brasília”, explica o artista, que confidencia a resistência das pessoas por ser um artista de uma “Cidade Satélite”. Isso foi bastante latente, quando Galeno começou os primeiros esboços, alguns moradores diziam não ser apropriado. “Acho que houve certo preconceito. Alguns preferiam um artista mineiro para pintar a Via Sacra, mas Brasília não foi feita nesta visão. Comecei a tocar o projeto independente e aí está o resultado”, diz. Assim como Portinari que pintou a Igreja da Pampulha e foi execrado na época, Galeno foi alvo de comentários maldosos, mas nada que abalasse a sua autoestima. Na época, muitos fiéis criticaram o fato de a Virgem Maria não ter rosto e segurar uma pipa nas mãos, enviando um abaixo-assinado ao IPHAN. Mas, o superintendente do instituto na época, Alfredo Gastal, saiu em defesa do artista. Com o trabalho finalizado, os ruídos deram lugar a elogios. Muitos se emocionaram com a Virgem que, além de carregar a pipa, tinha flores ao invés de coroa e ainda um carretel de linha em volta do pescoço. Hoje, um quadro de Galeno é uma verdadeira obra-prima. É colecionado por chefes de estado. Começou com o ex-presidente Fernando Collor de Melo, que fazia questão de presentear personalidades com a sua obra. 60 « GPSBrasília

Depois, Fernando Henrique Cardoso começou a propagar sua arte para o mundo. O último a receber um trabalho seu foi o presidente norte-americano Barack Obama, pelas mãos da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele é o artista mais novo que está ao lado de Portinari, Di Cavalcanti e Bruno Giorgi no Palácio do Itamaraty. Entretanto, nada tira de Galeno o ar simples do menino que adorava pular no rio quando garoto, brincar nas dunas de areia, um jovem que só almejava a liberdade. Pai de seis filhos, Galeno não se prendeu nem ao casamento. Foram três, dos quais teve dois filhos com cada mulher. Morou junto com mais de seis mulheres. A última havia saído há duas semanas de sua casa quando fizemos a entrevista. “Não sou uma pessoa difícil, mas o meu universo é diferente. O artista tem seus momentos de introspecção. Meu ateliê também é na rua ou quando estou viajando, às vezes estou sonhando acordado”, explica. Sobre seus sonhos ou projetos que quer realizar, Galeno não se programa. “Nunca fui preparado para aquela coisa de ‘busque seus sonhos’. Para mim, sonho é aquele doce que, se você não encontrar numa padaria, deve ir em outra”, brinca. Do futuro, o que se espera é o presente. É ir para o Delta e produzir sua obra. Um poema escrito em um catálogo seu define muito a sua vida. Trata-se de Fernando Sabino. “Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino”. Serviço Instagram: @galenoart Gabinete de Arte k²o abinetedearte o com

Revista GPS Brasília 15  
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