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“NO DELTA DO PARNAÍBA, ESTOU COMPLETANDO A INFÂNCIA QUE EU NÃO VIVI. SE ME PERGUNTASSEM HOJE O QUE EU QUERIA SER, EU DIRIA: ‘QUERO SER MENINO’”

A PINTURA Foi nos anos 1970 que Galeno fez um curso de pintura no Centro da Criatividade onde funcionava a Fundação Cultural, com direção do pintor Luiz Aquila, em Brasília. “Foi a primeira vez que eu usei modelo vivo. Lá comecei a usar as cores fortes. Um dia, uma mulher disse que eu tinha que sujar um pouco a cor senão as pessoas não conseguiriam olhar para a minha obra. O que ela não sabia é que na mesma época artistas do Parque Lage, no Rio de Janeiro, já declinavam para esse formato de pintura”, conta. Foi convivendo com Athos Bulcão e Rubem Valentim que Galeno foi desenvolvendo sua obra. Freqüentava exposições em galerias onde estavam os mestres e participava de salões de arte onde eles eram jurados. Um dia, foi até a casa de Valentim para lhe mostrar seu trabalho. O pintor que chegou a lecionar na UnB disse que ele daria um bom ilustrador. Mas Galeno quis ir além e Valentim foi convencido disso. Tempos depois, no Salão de Arte Riachuelo, Valentim era jurado da banca examinadora e deu o prêmio de primeiro lugar para Galeno.

Naquela época, Galeno pintava figura e paisagem. Com o tempo, passou a pintar elementos da infância que estavam no seu inconsciente imaginário e que se tornaram característicos de seu trabalho. Das lembranças, a pipa, o carretel, a lamparina, o anzol e as rendas que saíam das mãos de sua mãe. O artista autodidata se consagrou no cenário nacional. Foram muitos prêmios. Foi ganhador do Salão das Cidades Satélites que foi de suma importância para o desenvolvimento de seu trabalho, pois os artistas não tinham local para mostrar o que estavam fazendo. Em 1982, foi selecionado para o Salão Nacional, mas o primeiro lugar só aconteceu em 1986. “Foi emblemático para mim. Era casado, tinha filhos, morava de aluguel. Com o dinheiro do prêmio, comprei uma casa e assim resolvi sair do banco e passei a me dedicar integralmente à pintura”, conta. Nesse período, Galeno conheceu Vera Brant, uma dama da sociedade brasiliense, entusiasta da arte e dos novos talentos. “Ela me aconselhou a mostrar meu trabalho para Ana Maria Niemeyer que tinha uma galeria no Shopping da Gávea. Quando fui para o Rio, passei no endereço e deixei meus catálogos com um cartão. Seis meses depois, recebi um recado dela me convidando para um exposição na cidade carioca. Achei até que fosse brincadeira, mas era verdade”, lembra. Galeno pintava e os desenhos que fazia pediam para saltar da tela e ganhar vida. Assim, começou a fazer esculturas com seus objetos. Sempre os elementos da infância são protagonistas. “Não falo de um mundo que não me pertence, esses objetos definem quem eu sou, de onde vim, a minha família. É a minha alma”, enfatiza. GPSBrasília « 59

Revista GPS Brasília 15  
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