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COMPONDO A HISTÓRIA A relação do artista com a música começou muito cedo. Em 1977, com apenas oito meses de idade, Hamilton de Holanda e a família mudaram-se do Rio de Janeiro para Brasília. Aos cinco, ganhou o primeiro instrumento musical, uma escaleta, com a qual fez a estreia para o público, no Clube do Choro de Brasília, ao lado do irmão Fernando César e do pai José Américo. O bandolim apareceu um ano depois, presente do avô. Daí em diante, com a inexistência de professores de bandolim na cidade, tornou-se autodidata no instrumento, enquanto estudava outros aparelhos musicais como piano e violão. Chegou até a formar uma banda de rock: “Os entregadores de pizza” era o nome do grupo com o qual tocava em reuniões no salão de festas do bloco I da quadra 103 Sul. “Eu nunca fui fechado, escuto de tudo. Se vou gostar ou não, isso é outro papo”, conta e, com entusiasmo, relembra: “Eu estava naquele show da Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, quando um grande tumulto feriu 400 pessoas, houve apedrejamento de ônibus e muros pichados. Foi em 1988, eu tinha 12 anos e desde aquela época escuto Capital Inicial, Legião, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso”. Reforçando o respeito e admiração mútua entre os artistas brasilienses, comenta que recentemente o músico Digão, da banda Raimundos, prestigiou o seu evento de choro e samba Baile do Almeidinha, no Rio de Janeiro. Na década de 1980, enquanto a Capital Federal borbulhava com a eminência do rock, Hamilton de Holanda passava a infância no Clube do Choro e na Escola de Música de Brasília, ia para lá tocar com o pai e o irmão. Começou os estudos no Colégio Dom Bosco. Na 5ª série, mudou para o colégio Sigma e lá permaneceu até o fim do Ensino Médio. Passou no vestibular para Engenharia Civil na Universidade de Brasília (UnB) e para Contabilidade no UniCeub. Mas o talento musical falou mais forte. Trocou as contas pelo curso de Música na UnB. “Meu pai me apoiava, mas minha mãe morria de medo. Mas eu encarei e disse: ‘Mãe, fica tranquila.’ E, hoje, ela morre de orgulho!”, relembra. Depois de formado, ele passou uma temporada de um ano de estudos na Cité International des Arts, em Paris. De volta ao Brasil, em 2002, mudou-se para o Rio de Janeiro. Hamilton não pensa em voltar a viver em Brasília. “Hoje em dia eu estou bem carioca”, confessa. Mas sempre que pode está na Capital. No final do ano, é certo. Vem visitar os pais, irmão e sobrinhos. No bar Beirute, acontece o encontro com os amigos. “É até difícil vir a Brasília, porque não 48 « GPSBrasília

consigo ver todo mundo. Às vezes dá confusão, dizem que eu não apareço. Mas, a minha vida é tão corrida. Venho mais para fazer shows. Nem sempre dá para dormir na casa da minha mãe. Ela fica brava, mas tenho que dormir no hotel, por causa do corre-corre de horários”, explica.

INSPIRAÇÃO ILIMITADA Mesmo após os 35 anos de carreira, o bandolinista continua apaixonado pelo que faz. “Graças a Deus esse problema de falta de inspiração eu não tenho. Estou sempre compondo. A vida, por si só, me inspira, porque música é sentimento. Parece que, na minha cabeça, cada nota musical está ligada a um sentimento. Então, eu vou trabalhando, me divertindo nessa ligação”, revela. Hamilton tornou-se o artista oficial do bandolim de dez cordas. O instrumento original possui oito. A um amigo, pediu o acréscimo das duas cordas extras, por sentir a necessidade de aproveitar todo o potencial do instrumento. Estruturalmente, a concepção de um bandolim pede que o músico toque com palheta, porque a corda é muito dura, feita de aço. Além disso, o movimento repetitivo pode causar lesões. A atividade de um músico profissional assemelha-se às atividades de um atleta de alto rendimento. Semelhança, inclusive, na seara das dores. “Eu já tive muita dor, até que descobri a origem do problema. A dor não está aqui – aponta para as mãos – , a dor está aqui – aponta para a cabeça. É muito mais a mente quem manda no corpo”, explica o musicista. Na nova geração de músicos, Hamilton afirma escutar de tudo. Adora a dupla sertaneja Victor e Léo, escuta pop e admira o trabalho do norte-americano Bruno Mars. “Música boa tem em todo lugar do mundo. Eu gosto de música indiana, cubana, tenho uma relação muito forte com o flamenco por causa do Raphael Rabelo, porque ele se aproximou muito do Paco de Lucía, um grande guitarrista espanhol de flamenco. Então, é assim, a minha língua materna é o choro e o samba, mas eu aprendo a falar inglês, italiano, francês, tocar jazz...” elucida. Da geração consolidada, inspira-se em Raphael Rabello, Baden Powell, Pixinguinha, Tom Jobim e Hermeto Pascoal. E, claro, no pai. O maior ídolo e primeiro professor de quem sempre recebeu e ainda recebe ensinamentos marcantes: “Meu pai sempre dizia para eu aprender a tocar algum instrumento musical, que eu faria muitos amigos. De fato, a música tem esse grande poder de agregar, de juntar as pessoas. Me orgulho de fazer parte disso tudo”, conclui Hamilton de Holanda.

Revista GPS Brasília 15  
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