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obram páginas de currículo para definir Cristovam Buarque. O pernambucano, aquariano de 72 anos é engenheiro mecânico, economista, educador, professor universitário e autor de 33 livros. Foi o primeiro reitor da Universidade de Brasília por eleição direta de 1985 a 1989, governador do Distrito Federal de 1995 a 1998, ministro da Educação no primeiro mandato do governo do ex-presidente Lula, candidato à Presidência da República pelo PDT e hoje é senador pela segunda vez, tendo sido o parlamentar mais votado, mais de 833 mil votos, e o primeiro senador a se reeleger no Distrito Federal. Filho de pais de classe média baixa, Cristovam Buarque foi o primeiro filho a entrar em uma universidade. No período da ditadura militar, pelo movimento estudantil, o jovem rapaz, de apenas 20 anos, tornou-se militante político na Ação Popular, liderado por Herbet de Souza, o Betinho. Perseguido pela ditadura, ficou exilado em Paris, onde fez seu doutorado na Universidade de Paris-Sorbonne. No início da década de 80, voltou ao Brasil para dar aula na UnB. Em 1986, quando lecionava no Departamento de Economia, projetou o Bolsa-Escola e três anos depois saiu da universidade diretamente para o governo do DF para implementar o projeto. Atualmente, filiado ao Partido Popular Socialista (PPS), tem mandato até dezembro de 2018. Morador da Asa Norte, Cristovam é uma pessoa de hábitos discretos e extremamente gentil, assim como sua mulher, Gladys, com quem é casado há 46 anos e tem duas filhas e três netos. O senador conversou com a nossa equipe de reportagem e falou sobre PEC do Teto, Lava Jato, abuso de poder, Distrito Federal e, claro, educação. Em um papo franco, com aquele tom de voz manso característico do político, Cristovam confidenciou que pensa em sair candidato à presidência nas eleições de 2018. O senhor escreveu um livro sobre a nova es uerda final, como ela é? Acredito que a esquerda velha, que eu chamo de ex-querda, não foi capaz de entender o que estava acontecendo no mundo. Alguns dizem que a esquerda não existe mais. Esquerda é a palavra que se dá ao conjunto de pessoas que tem três características: o descontentamento com a realidade atual, o sonho de uma sociedade diferente e a crença de que esse sonho não será atingido pelo mercado. É preciso militância política para construir esse sonho. Isso é esquerda. O Partido dos Trabalhadores deixou de ser esquerda? Lamentavelmente, o PT é um exemplo de ex-querda. Perdeu o sonho, caiu no presente. Passou a defender di-

reitos privados. Eu não acho que seja de esquerda quem barra o avanço técnico. Tem que usar o avanço técnico a serviço desse sonho. Por isso, eles cometem erros. Que tipos de erros? Primeiro, a economia não é um lugar de debate ideológico, como estão fazendo agora em relação a PEC do Teto (Proposta de Emenda à Constituição que limita os gastos públicos). Estão achando que é de esquerda ficar contra o teto. O lugar do debate político direita versus esquerda não é na economia. Segundo, o que caracteriza uma pessoa de esquerda é saber se ela defende que a escola do mais pobre seja tão boa quanto a do mais rico. Defender que a escola seja melhor, todos defendem, mas defender que seja a mesma, aí são poucos. Terceiro: o propósito que define uma sociedade rica, não é mais o Produto Interno Bruto, tem que ser o bem-estar das pessoas. Por último e muito importante: Estado não é sinônimo de público. O PT deixou de defender o interesse público? Sim, deixou de defender a saúde pública para defender o direito do trabalhador do hospital estatal, passou a ser o defensor dos servidores e não dos doentes, por exemplo. A esquerda que está aí não tem compromisso público, tem compromisso com o Estado e com os servidores. O senhor começou em movimentos de esquerda e iniciou a carreira pol tica no O senhor saiu ma oado por ter sido demitido do ministério da Educação? Por que eu sairia magoado? A única razão que tem para dizerem que eu saí magoado foi porque eu fui demitido por telefone. Mas eu deixei o PT dois anos depois porque percebi que o partido estava conservador, defendendo direitos e privilégios e caminhando para perder a vergonha. E você me pergunta se sou de esquerda por que saí do PT? O PT deixou de ser de esquerda porque faltou com o compromisso com a austeridade. A esquerda que está aí ficou consumista, depredadora. Eu sou favorável à austeridade: nos gastos, no dia a dia, no consumo. sua escolha foi o D por ue era um partido de oposi o o meio do caminho, o PDT vira base aliada… O PDT tanto era oposição que me fez candidato à presidência contra o Lula. Só que passaram seis meses, Lula foi eleito, ofereceu um ministério a Carlos Luppi, presidente do partido, e ele passou a ser o mais fiel servidor de Lula. E isso, vamos elogiá-lo, ele se mantém até hoje. Ele não acredita em nada do que a Justiça está dizendo. Eu digo isso em elogio a ele. Eu critico a cegueira, mas elogio a fidelidade. GPSBrasília « 33

Revista GPS Brasília 15  
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