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ão Paulo – A aparência sugere austeridade e distância. O enigmático silêncio em seu olhar profundo, buscando respostas para suas certezas, revela a grandiosidade do arquiteto francês, que é capaz de contextualizar retamente uma ideia sem se importar quanto tempo isso leve. Desde que fique claro. Ele não tem preguiça de esclarecer, elucidar. O oposto da impressão primeira. Nouvel nada mais é que uma figura introspectiva, extremamente sensível ao contexto, cuja a criação inicial de sua obra se dá a partir da observação do meio. Da escola contextualista, é de sua fonte que Alexandre Allard bebe ao convocá-lo para levantar a torre do pau-rosa, a Rosewood, dando a continuidade vertical ao complexo Matarazzo, tombado em 1986. Criador de audaciosos cartões-postais mundo afora, como o Instituto do Mundo Árabe e a Fundação Cartier, em Paris; a Torre Agbar, em Barcelona; o prédio 100 Eleventh Avenue, em Nova York; o Louvre, de Abu Dhabi; Copenhague Concert Hall, em Copenhague; ou a Galeria Lafayette de Berlim, seus projetos se transformam em cartões postais. E sua próxima missão seria entre nós. Como foi receber esse projeto? Vim atenuar o contraste. A proposta é continuar com o que já existe. Cidades deveriam ser feitas por sedimentação e mutação. Acho um privilégio explorar a materialidade, manter o simbolismo. Criamos um diálogo com árvores de 15 metros. É possível praticar o contextualismo, sua escola de origem? Vim trabalhar com os costumes brasileiros, enxergar o lado interno e externo. O formidável em São Paulo é o fenômeno da conversão e reversão, uma vez que trabalhamos numa arquitetura existente.

Em 30 anos de carreira, suas obras se transformarão num marco da época? Eu não me interesso pelo futuro, pois só posso agir sobre ele através do presente. O futuro para mim é uma extrema nostalgia. O que sobrará será testemunho. Você diz que não acredita em arquitetura de interiores. Para mim só existe arquitetura e urbanismo. Não há técnicas especializadas. Você se opõe à criações em série? Esse é o ponto de vista americano. É o começo da barbárie. Arquitetos presos a programas de computador, que fazem prédios em série. Isso é uma doença. Os apartamentos atuais estão no nível do prazer de viver? O que pensa sobre a arquitetura do espetáculo? Arquitetura heroica sempre existirá. Mas sem profundidade não tem o meu incentivo. Cada época tem o poder simbólico de uma nova atitude. Se provocar outros contextos urbanos, é positivo. Você é admirador de Oscar Niemeyer? Grande criador. Ele conseguiu criar um simbolismo com economia de meios e materiais. Ele fez um trabalho de escala e Brasilia é uma das provas através do inverso das curvas. Veja a Catedral. São as tensões das construções. Ele cria o encadeamento de coisas simples e evidentes, cujo resultado é muito forte. É universal e acessível a todos. A voluptuosidade das curvas com o vazio traz calma e força. Ele é um Deus.

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Revista GPS Brasília 13  
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