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“ISSO AQUI ERA UM VERDADEIRO CANTEIRO DE OBRAS. CHEGUEI DE TERNO DE LINHO E GRAVATA. A POEIRA ERA TANTA QUE IMPREGNOU E NUNCA MAIS SAIU. O TECIDO FICOU DURO”

CARLOS ELIAS Ele é um arquivo vivo. Conversar com ele é se surpreender e se emocionar com suas histórias e lembranças. Datas, nomes, detalhes. Ele se lembra de absolutamente tudo. Não é à toa que era o responsável por guardar todos os papéis, desenhos e pranchetas utilizados pelos arquitetos e calculistas. Carlos Elias tem 90 anos e continua na ativa. É o fiel escudeiro do empresário e construtor Gilberto Salomão, e quem cria seus projetos. Nasceu na Zona da Mata, em Minas Gerais. Mas aos três anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro com sua família, onde viveu até os 34 anos. Em 1950, o burburinho sobre a construção da Nova Capital tomou conta da Cidade Maravilhosa. “Imagina que 60% dos cariocas eram contra a transferência para Brasília”. A luta de JK foi árdua para conquistar tal façanha, mas o final foi feliz e com ele levou Oscar Niemeyer e sua equipe. O pai de Carlos era amigo pessoal de Oscar e foi o próprio que o convidou para ir para Brasília. Elias aceitou, desembarcou animado e pronto para trabalhar. “Isso aqui era um verdadeiro canteiro de obras. Cheguei de terno de linho e gravata. A poeira era tanta que impregnou e nunca mais saiu. O tecido ficou duro”, conta. O mineiro era um homem de confiança. Sabia a temperatura ideal e a melhor maneira de conservação das cartolinas, dos papeis vegetal e manteiga. Os livros de registro também ficavam sob sua escolta. Inclusive foi quem salvou os desenhos de virarem cinzas. É que um incêndio no Departamento de Edificações acabou com tudo que estava lá. Mas Elias havia pressentido que algo aconteceria. “Eu transferi tudo que estava lá para um cofre, do qual só eu tinha o segredo”, relembra. Entre esses projetos, estavam os desenhos de Niemeyer dos palácios, da Catedral e da Esplanada. Se não fosse a sagacidade de Elias, o trabalho de Niemeyer e sua equipe estaria totalmente perdido. Pelo feito, ele foi homenageado por JK e recebeu um abraço de agradecimento do mestre. “Lembro-me como se fosse hoje”, conta, orgulhoso.

e depois os levava de volta para casa. “A poeira era tanta que nós usávamos uma escovinha para limpar as pranchetas. O barro deixava nossas roupas encardidas. Não adiantava lavar que não saía”, relembra Barney. Na época, os três haviam deixado suas namoradas no Rio de Janeiro. Ficaram dois anos sem vê-las, imersos no projeto mais audacioso das suas vidas. Para relaxar, iam para a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, ou simplesmente se reuniam para beber cachaça. “Não tinha o que fazer. Nossa alegria era nos encontrar para jogar conversa fora”, diz Sylvio. “De vez em quando também jogávamos bola. Lembro-me bem de um dia que Niemeyer decidiu jogar conosco. Ninguém queria marcá-lo com medo de machucar o chefe. Ele ficava irritado”, completa. Oscar tinha um relacionamento mais distante com a equipe. “Em um dos encontros com ele, recebemos o pedido da construção do Pombal, na Praça dos Três Poderes. Ele veio da mulher do presidente Jânio Quadros, a Eloá. Oscar ficou indignado, xingou-a. Ele não queria construí-lo de jeito algum, mas acabou o fazendo para não criar atritos. Contrariado, rabiscou o desenho ali mesmo na minha frente e pediu para executá-lo”, relembra César. GPSBrasília « 47

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Revista GPS Brasília 13  
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