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“AQUI É A CIDADE QUE AJUDEI A CONSTRUIR. É A CIDADE QUE AMO”

SYLVIO SCHOELLKOPF O desenhista é o mais emotivo do grupo. Ao se lembrar de Oscar, não conteve as lágrimas. Não o vê apenas como o mestre das linhas sinuosas, o enxerga como um pai, alguém que lhe deu uma chance de fazer algo para ficar na história. Era ele o responsável por criar os desenhos técnicos dos projetos elaborados por Niemeyer. Posicionar perfeitamente as instalações elétricas e fazer os cálculos. Antes de vir para Brasília, Sylvio morava com um tio no Leblon. Após se alistar no Exército, ficou sabendo que estavam recrutando trabalhadores para ajudar a construir a Capital do País. Foi aí que o marechal Alcir de Paula Freitas Coelho o convidou para vir com ele. Sylvio não pensou duas vezes. Deixou sua namorada e atual mulher, Neide, para trás, embarcou em um avião de hélice e desceu no aeroporto de madeira. Schoellkopf tem apenas o Ensino Médio. Aprendeu a desenhar no barracão com os outros colegas. “Niemeyer trouxe muita gente com o objetivo de ajudar. Uma dessas pessoas foi o Baiano, que cuidava da cantina. Ele era um paizão”, diz. Em 1961, Neide, sua namorada, passou em um concurso e mudou-se para perto de Sylvio. Foi aí que se casaram. Na época, Oscar Niemeyer enviou uma carta para Juscelino Kubitschek cedendo um apartamento na 404 Norte para o novo casal morar. Vida nova, casa nova. Em 1978, o desenhista foi convidado para trabalhar na Infraero, onde era o responsável por regularizar todas as áreas de aeroportos do Brasil. Em 1990, aposentou. Atualmente, aos 83 anos, mora com Neide em um dos condomínios do Lago Sul e diz que não troca Brasília por nenhuma outra cidade. “Aqui é a cidade que ajudei a construir. É a cidade que amo”, afirma.

Sylvio era o desenhista. César, o arquiteto, e Elias, o arquivista. Eles ainda mantêm contato. Não tanto quanto antes, mas o afeto e a consideração pelo outro continuam latentes. Em meio à entrevista com Sylvio, César ligou para o amigo. “Estou metendo o sarrafo em você, Barney”, disse rindo. E assim é o clima entre eles. De cumplicidade e carinho. A vida no meio dos tratores, da poeira e da falta de estrutura não foi fácil. Mas os três não se arrependeram. Eram orientados pelo braço direito de Niemeyer, o arquiteto Nauro Esteves. Era ele quem comandava a equipe de 24 pessoas, entre arquitetos, desenhistas, projetistas, produtores de maquete. “Era um ambiente muito informal, apesar de termos muito trabalho. Cada um tinha um apelido. Muitos dados pelo próprio Oscar. O meu era Texas, porque fiz parte da faculdade de Arquitetura nos Estados Unidos”, conta César. Moravam na Fundação Casa Popular, um conjunto de casas feito exclusivamente para quem estava ajudando a construir a cidade onde hoje é a W3 Sul. Um ônibus passava para buscá-los

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Revista GPS Brasília 13  
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