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Planalto Central do Brasil é um terreno áspero e seco que abriga árvores pequenas e tortas. Crescer no Cerrado exige força e resistência para enfrentar o fogo e a falta de água. O último projeto do arquiteto Oscar Niemeyer executado em Brasília homenageia uma frágil manifestação da vida que surge neste ambiente inóspito: a flor do Cerrado. Uma torre monumental de concreto em um dos pontos mais altos da cidade, a 20km do centro de Brasília. É vista de todos os lugares e, de lá, todos os lugares podem ser vistos. Mais de 50 anos depois da inauguração da Capital, surgiu a Torre de TV Digital para coroar a modernidade sonhada por JK. Para dar ao límpido céu azul da cidade um complemento. A tulipa que faltava. Apesar do concreto, é poética, assim como os versos da canção de Caetano Veloso: “Da próxima vez que eu for a Brasília eu trago uma flor do Cerrado pra você”. E seja no nascer ou no por do sol, olhar para ela é se encantar. Ela é grandiosa. São 170 metros de altura – 120m de concreto e 50m de estrutura metálica – além das antenas. Construída para receber o sinal digital das TVs, a torre é ainda um projeto turístico que passou a oferecer uma nova perspectiva da cidade. Antes, somente pelas janelas dos aviões era possível ter uma visão tão ampla da Capital. Basta parar o carro e entrar na fila, que normalmente é grande, mas é rápida. Enquanto espera, observa-se um espelho d’água e vários holofotes, que garantem a iluminação à noite, projeto do iluminador Peter Gasper, indicado por Niemeyer. A torre de concreto branca tem uma faixa de vidro preto. “Para dar leveza”, justificava. Parece, em um primeiro momento, um elevador panorâmico. “Mas não é. Quero que o visitante tenha uma surpresa ao chegar ao mirante e ver a cidade lá embaixo”, dizia. O branco já foi tomado por um pouco de poeira. “São os praticantes de rapel que limpam e pintam”, explica um funcionário. Somente 27 pessoas por vez, divididos em três elevadores, sobem até o mirante, o ponto mais alto em que o público tem acesso – a 110m de altura. Por enormes Celso Junior

janelas redondas podem-se ver diferentes áreas. Os visitantes afoitos param de janela em janela para fotografias. Querem uma lembrança de 360 graus da Capital Federal. Preocupam-se com o tempo, são apenas oito minutos – para que a rotatividade seja maior. De um lado, é possível ver o crescimento do Distrito Federal para o Norte, entre casas e prédios. Do outro, todo o Plano Piloto. Pais explicam para os filhos onde ficam os monumentos. “Ali fica a Ponte JK, que a gente passa todos os dias quando vai para a escola”, relata um deles. Quando o tempo se esgota, o comentário é um só: “Queria ficar mais aqui em cima”. Mas já é hora de descer. As duas cúpulas de vidro, situadas uma em cada lateral em diferentes alturas, ajudam a compor o desenho da flor. Elas são feitas com diferentes vidros nos tons de azul. Na mais alta, situada a 80 metros do chão, a ideia é fazer um restaurante, mas isso ainda não se concretizou. A outra, a 60 metros de altura, é destinada a exposições temporárias. Atualmente, elas estão fechadas para visitação. A Torre de TV Digital é um espaço democrático. De crianças a idosos, de todas as classes sociais. Virou ponto de encontro. Foodtrucks, exposição de carros antigos, diversão para crianças lotam o estacionamento de famílias em busca de entretenimento e diversão. Há várias formas de celebrar embaixo da flor do Cerrado.

Vista panorâmica do mirante da Torre Digital

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Revista GPS Brasília 13  
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