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mos. Para nós, e falo em nome dos colegas, processo não tem capa, tem conteúdo. Os ministros têm conversado nos bastidores sobre a situação do País? Não. A vida no Supremo é interessantíssima. Nós não nos comunicamos. Eu, por exemplo, não participo de qualquer conversa que envolva uma causa que deva ainda julgar. Não trocamos figurinhas. Você tem que ser espontâneo e deixar seu espirito fluir a partir da sua formação técnica e humanística. É a consciência com a ciência. Eu não mando voto para o colega e não recebo voto de colega. Eu não faço teatro. Não vou para lá de cabeça feita. Eu quero ouvir os advogados, quero ouvir os colegas. É um voto de improviso. Fazendo uma análise sociológica, o senhor acha que a nossa essência é corrupta? Quando o Brasil foi descoberto, não vieram para cá os melhores portugueses, vieram os degradados. Mas não está no nosso sangue a corrupção. O sentimento de impunidade levou certos ocupantes de cargos públicos a baixarem a guarda e a cometerem certos atos. Mas graças a uma imprensa livre e ao funcionamento das instituições, as coisas afloraram e nós estamos procurando a correção de rumos. Eu não tenho a menor dúvida de que, a partir desse mega julgamento da Lava Jato, o detentor de um cargo público vai pensar duas vezes antes de cometer ou praticar alguma falcatrua. A mídia internacional fala de um clima de guerra civil fria. O senhor acha provável que, em um cenário extremista, haja envolvimento das Forças Armadas? Eu só vejo uma hipótese de as Forças Armadas intervirem: em termos tumultos públicos de rua e as forças repressivas, refiro-me a Polícia Militar, não serem capazes de segurar esses conflitos. Primeiro, receio a decepção no dia seguinte do impedimento, daqueles que acham que estaremos com as dificuldades afastadas. Segundo, pelo segmento que o PT se diz porta-voz, dos menos afortunados. O PT sabe fazer oposição e é um estilingue muito eficaz. Você imagina ele ferido como agora? É a sua sobrevivência que está em jogo. O senhor já esteve na presidência da República. Como foi? Sim, mas como zelador do Planalto. Isso é algo que deviam corrigir. Quando o presidente já tinha viagem programada, saiu muito em jornais que o palácio receava a minha assunção, como se eu fosse um macaco na cristaleira. Quando assumi, os jornalistas começaram a questionar

“TEMOS EXECUTIVOS COMO GERALDO ALCKMIN (PSDB-SP) E JOSÉ IVO SARTORI (PMDB-RS), QUE PEGARAM UM ESTADO QUEBRADO E ESTÃO TENTANDO RECUPERAR, COLOCANDO EM RISCO O PRÓPRIO PERFIL POLÍTICO” qual era minha política. Eu dizia: “Não fui eleito. Eu não tenho um mandato de quatro anos. Que política?”. Eu não poderia ter política. Se o senhor recebesse uma ligação da presidente Dilma, convidando para um cafezinho. O que o senhor diria a ela? Primeiro, ela não ligaria para mim, eu não privo dessa intimidade com a nossa chefe do Executivo. Eu não teria o que dizer, a situação é realmente dificílima. Claro que eu não gostaria de estar na pele dela. Não deixaria chegar ao ponto a que chegou. Mas eu sou um homem do diálogo, disposto a ouvir, como todo e qualquer juiz. Agora minha compreensão é toda própria. Hoje, o brasileiro, descrente com o Executivo e com o Legislativo, está apostando as fichas no Judiciário, em especial para o Supremo. O que o senhor tem a dizer a esses brasileiros? Que o Supremo não falte a nacionalidade. E a nacionalidade exige a observância do nosso figurino constitucional. É o papel primordial do supremo ser guarda da Constituição e cada qual dos colegas perceba a responsabilidade que recai na cadeira que está sendo ocupada e personificada por ele. Vamos atuar conforme a legislação. GPSBrasília « 35

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Revista GPS Brasília 13  
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