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É visto como o ministro “voto vencido”, por muitas vezes ser um dos únicos a discordar do relator. Ele é, como gosta de dizer, da velha guarda. Anterior a ele, somente o ministro Celso de Mello, que entrou em 1989. “Sou um juiz à moda antiga”, diz. De sua gestão como presidente da corte, em 2002, ele se orgulha de ter instalado a  TV Justiça. Mello assumiria a presidência da República durante viagem de Fernando Henrique Cardoso. Então, em um jantar no Palácio da Alvorada, conversou sobre a matéria com o presidente. “Eu disse a ele: se o senhor for sancionar, gostaria de fazê-lo quando for substituí-lo’. Ele me autorizou e o fiz em solenidade no Palácio do Planalto. Usando um jargão futebolístico, eu posso dizer que bati o escanteio e fui para o gol, cabecear”, comemora. “Foi um grande ganho para a sociedade”. Depois da instalação da tevê e diante de decisões que envolvem a rotina da sociedade, muitos ministros tornaram-se famosos.  Por onde anda, é abordado para fotos e recebe questionamentos sobre sua atuação. “Mas não tenho pretensões políticas”, garante. Prestes a completar 70 anos, o ministro vai se aposentar somente aos 75. E, apesar de ser carioca e manter um apartamento no Rio, não pretende deixar Brasília, onde vive há mais de 30 anos. “É uma boa cidade para se viver”, diz. Ele já foi professor, e pensa em atuar como consultor. “Não vou abandonar a atividade, senão morreria de tédio”.

“NEM SEI SE ELA (A PRESIDENTE DILMA) FICANDO DE JOELHOS HOJE TERIA A SIMPATIA DO LEGISLATIVO. E NINGUÉM PODE SE APEAR DE UM CARGO DESSE POR SER A CAMPEÃ EM ANTIPATIA E ARROGÂNCIA”

VIDA LEVE De um lado, o visual impecável, com terno, gravata e abotoaduras. A seriedade e concentração em um dia a dia entre livros e processos. De outro, a vida tranquila em casa-chácara no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, com direito a leite fresco tirado diretamente da vaca, patos e galinhas e pé de amora. “Amo mexer com a natureza”. Tem ainda uma motocicleta para passeios semanais pela Ponte JK e pela Avenida das Nações. O ministro vive entre o universo magistrado, os livros de romance e uma vida social discreta. Tem um português erudito e um humor quase inglês. Mello é casado há 43 anos com a desembargadora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, Sandra De Santis. Eles têm quatro filhos, dos quais três são atuam no Direito e uma é médica, além de três netos. Flamenguista, não é difícil encontrá-lo na torcida em uma partida no Mané Garrincha ou no Maracanã. Adora falar

de livros, de viagens, dos netos e das notícias do mundo. Apreciador de uma boa gastronomia, aos domingos, às vezes, se aventura pela cozinha. Apesar de comer pouquíssimo. Gosta de vinhos e entende suas uvas. Reserva sempre um tempo para ler romances. “Normalmente, mais de um livro ao mesmo tempo e tenho a mania que minha mulher não entende: todo livro, até os romances, eu leio com uma caneta na mão”. Atualmente, entre as leituras jurídicas, estão os diários do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Os Anjos Bons da Nossa Natureza, porque a violência diminuiu, de Steven Pinker. “Aconselho, inclusive, aos estudantes de Direito terem sempre um romance. Porque tem conflito de interesses e você adota posição. Com isso, aguça a sensibilidade”, diz. Os livros são também seus presentes. Em um arquivo no computador, mantém a relação das pessoas as quais ele presenteou e quais são os exemplares. “E mais do que isso, eu gosto muito de fazer dedicatórias”.

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Revista GPS Brasília 13  
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