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ENTREVISTA

MARCO AURÉLIO MELLO SÃO 25 ANOS DE MAGISTRADO. SEUS PRONUNCIAMENTOS COSTUMAM REPERCUTIR BEM E MAL, MAS SEM O ABALAR. VEEMENTE, DIZ QUE ATUA COM A CIÊNCIA E A CONSCIÊNCIA. ENTRE A LITURGIA DO OFÍCIO, UM ESPÍRITO AVENTUREIRO QUE SE DELEITA COM ROMANCES, O FLAMENGO E UMA MOTOCICLETA POR MARCELLA OLIVEIRA « FOTOS SÉRGIO LIMA

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ão vejo com bons olhos o que nós teremos a seguir no Brasil, mesmo sendo um homem otimista”. Assim começa a nossa entrevista com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello. Em meio ao turbilhão de acontecimentos políticos do País, o magistrado conhecido por suas frases polêmicas e sua opiniões firmes é cortês e formal. Com semblante austero e tom de voz inalterável, revela seu sentimento de preocupação: “Estamos diante de um impasse indesejável. O Brasil está sangrando”. Nossa primeira tentativa de entrevistá-lo foi no dia em que o Governo Federal anunciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Ele solicitou o adiamento e voltamos em duas semanas, pontualmente na hora marcada – ele não gosta de atrasos. Em um gabinete com vista para a Praça dos Três Poderes, sentamos em uma pequena mesa redonda, com um exemplar da Constituição Federal, a qual ele cita em quase todas as análises. Deu respostas que criticaram severamente o governo, admite achar ruim o processo de impeachment, acredita que a presidente Dilma Rousseff (PT) nunca terá uma boa relação com o Legislativo, defende a renúncia coletiva e diz que o País está desgovernado.

O gabinete acumula histórias de 25 anos de atuação no STF, mas também traz um pouco da vida pessoal. Dezenas de porta-retratos, com fotos da família, momentos no tribunal e de descontração. Imagens de santos barrocos, brasões, placas condecorativas, uma benção do Papa João Paulo II, seu retrato pintado e a mesa oficial impecavelmente arrumada.  “É um bom enfeite”. Mas se lá tem um pouco da vida particular, em sua residência tem a vida profissional. “Gosto mais de analisar os processos em casa”, revela. De terça a quinta ele cumpre o expediente no tribunal, participa das sessões plenárias e realiza audiências. Entre sexta e segunda, prefere trabalhar em casa, incluindo finais de semana. Desde o escândalo do mensalão, o STF tem assumido postura de nortear as decisões políticas do Brasil. Diante disso, diariamente ministros do Supremo estão no noticiário por comentários que fazem. Marco Aurélio é perspicaz e não tem problema com polêmicas. Procura ter um discurso isento, sem assumir um lado político. Chegou ao STF indicado pelo então presidente Fernando Collor de Mello, em 13 de junho de 1990, seu primo, após atuar no Direito do Trabalho. Formou-se na tradicional Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Atuo com a ciência e com a consciência”, costuma dizer.

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Revista GPS Brasília 13