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A N O S 3 2 / 3 3 • N O S 2 7/ 2 8 • 2 0 16 / 2 0 17

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE VERGÍLIO FERREIRA LEMBRANÇA DE OSMAN LINS UM OLHAR SOBRE A LITERATURA DE PAÍSES AFRICANOS QUE FALAM PORTUGUÊS AS TROVAS DE FERNANDO PESSOA DE AVEIRO A PERNAMBUCO: O SANGUE PORTUGUÊS EM VELAS BRASILEIRAS


encontro REVISTA DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO

A N O S 3 2 / 3 3 • N o s 2 7/ 2 8 • 2 0 16 / 2 0 17

R. Imperador Pedro II, 290 Santo Antônio - Recife - PE CEP 50010-240 Tel.: (81) 3224.2002 gplrpe@terra.com.br www.gplpe.com.br


Saudações luso-pernambucanas. Maria de Lourdes Hortas

Bico de Pena de José Carlos Viana

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Os encontros, quer afetivos, quer culturais, são a essência da jornada humana através dos tempos: na troca de experiências e ideias, construímos a nossa identidade. Nesta edição, Encontro prossegue em harmonia com os objetivos que, desde a sua origem, a norteiam: expressarse como um dos muitos elos do universo lusófono, tecido por várias culturas, multicolorido entrelaçamento que nos enriquece e diferencia. As matérias selecionadas para a presente publicação, apontam para esse significado: a troca de conhecimentos e informações entre os falantes de língua portuguesa, espalhados pelos vários quadrantes do planeta. Aos nossos leitores, votos de boa leitura.

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expediente

REVISTA DE CULTURA DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO (Fundada em junho de 1983) Período: 2016/2017 Ano: 32/33 Números: 27/28 ISSN 2446-8304 Seleção de Textos Ana Karina Soares Márcia Hortas Maria de Lourdes Hortas Correspondente em Angola: Francisco Soares Jornalista responsável: Márcia Hortas DRTPE-3358 GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO (fundado em 03 de novembro de 1850) Diretoria Executiva - 2017/2019 Presidente: Celso Stamford Gaspar Vice: Alexandre de Souza Reis de Melo

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1º Secretário: Alberto Ferreira da Costa Júnior 2ª Secretário: Célia Stamford Gaspar Amaral Tesoureiro: André Rodrigo Matos Biondi Vice: Bento Domingos Tavares Romeira Diretora Cultural: Maria de Lourdes Mateus Hortas Vice: Alexandre Furtado Vice: Manuel Mendonça Salazar da Silva Diretora Social: Bento Domingos dos S. R. de Sá Ferreira Vice: José Carlos Lopes Tinoco Vice: Maria Lencastre P. de Menezes e Cruz Diretor de Patrimônio: João Jorge Barbosa Marinho Vice: David Ferreira da Silva Vice: Jorge Luís Pinto Barbosa Diretoria de Comunicação: Maria Gabriela B. Sales Valente Vice: Adriana Reis de Melo Diretora Institucional: Ana Karina Pereira dos Santos Soares Vice: Vera Lúcia de Oliveira Silva Diretor para Assuntos Internacionais: António José Bastos de Almeida

Coordenação da publicação: Kássia Alcântara | Combogó Comunicação Projeto gráfico e diagramação: João Paulo Angelim | Combogó Comunicação Capa: edição de imagem da pintura feita por Dorindo Carvalho Gráfica: WDT Gráfica | Tiragem: 100 unidades


sumário

EDITORIAL .......................................................................................5 HOMENAGEM Vergílio Ferreira - por José Rodrigues de Paiva .......................................11

DEPOIMENTO Atelier Sandra Paro Arquitetura em Mosaico: labor socioeducativo cultural através de manifestações artísticas ................26

ARTIGOS Carlos Felipe Moisés: Lembrança de Osman Lins ..........................................32 Francisco Soares: Alain Mabanckou, autor-ator africano .............................38 Astrid Cabral: Tanussi Cardoso, poeta do lirismo a pino ..............................41 Zuleide Duarte: A proximidade distante da esperança - Considerações em torno do romance A esperança é uma travessia de Laila Lalami ................44 Vera Sato: Um olhar sobre a literatura de países africanos que falam português ........................................................50

RELEITURA Maria de Lourdes Hortas : As trovas de Fernando Pessoa ...............................56

CRÔNICA Albuquerque Pereira: Sobre Mauro Mota ............................................62 Ana Karina Pereira dos Santos Soares: De Aveiro a Pernambuco - o sangue português em veias brasileiras .........................................................65 Dirceu Rabelo: Quem os ouviu não os amou .......................................69

POESIA

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Cláudio Couceiro: Se minha rua falasse .................................................. 72 Anderson Braga Horta: Duas Vertentes de Minas ....................................76 Diego Mendes Souza: Promontório Natalício ..........................................78 Ana Karina dos Santos Soares : Faces do Rio ...........................................79 Andrea Campos : O que eu amo em ti ...................................................80

FICÇÃO / CONTO Oscar Kellner Neto: O Saco .....................................................................82 Juareiz Correya: Otaler/Relato ...............................................................85

ESTANTE Livros recebidos por Encontro ................................................................87

NOTÍCIAS DO GABINETE ....................................................................89 ENTREVISTA Com o presidente do GPL-PE, Celso Gaspar .................................................93

PÁGINA FINAL Comemoração dos 166 anos do GPL em 03 de novembro de 2016 .................. 96

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homenagem

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homenagem

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE VERGÍLIO FERREIRA 1916/ 2016

Vergílio António Ferreira nasceu no dia 28 de janeiro de 1916, em Melo, aldeia do Conselho de Gouveia, a meia distância entre Guarda e Viseu, em plena Serra da Estrela, Portugal. Faleceu no dia 1º de março de 1996, em Lisboa. Considerado um dos mais significativos escritores portugueses do século XX, sua vasta obra está dividida entre ficção (romance e conto), ensaio e diário. Em homenagem ao centenário do seu nascimento, publicamos um ensaio do professor José Rodrigues de Paiva, estudioso do grande ficcionista, a quem dedicou sua tese de doutorado.

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O VIOLINO DA INFÂNCIA EPIFANIA MUSICAL OU A PALAVRA ABSOLUTA EM PARA SEMPRE José Rodrigues de Paiva Professor da UFPE, escritor, poeta, ensaísta, nasceu em Coimbra, Portugal, mas está radicado no Recife desde a infância.

“Para sempre. Aqui estou”¹, diz Paulo ao passar os umbrais da casa da infância na aldeia serrana, para onde volta na extrema velhice para esperar a morte. É um “sobrevivente a si mesmo”, como diria Pessoa². Sobrevivente do mundo cuja existência é o que lhe restou na memória e na casa, ela mesma quase um escombro, também, assim deixada pela ação do tempo e dos bichos que incansavelmente roem a madeira das escadas, das portas, das vigas, do assoalho. Chega para sentir, com emoção, esse apelo final, esse cântico breve, fugaz, embora eterno, que é a voz da terra a subir, desde sempre e para sempre, desde o fundo dos vales à montanha e que se espraia, ondeando, como um cântico das eras. Não levará muito tempo e estará a ouvir, ou a pensar que ouve, esse cântico que pelo ar se espraia partindo de uma voz primordial de camponesa cantando na apanha do milho ou das batatas. Mais um pouco, e mais a emoção se lhe acenderá com o achado do violino da infância jogado entre os trastes para o arrumo no sótão, o que lhe traz à lembrança a música de Schubert, de Grieg, de Brahms... Ave-Maria, Canção de Solvejg, Dança húngara... Paulo lembrar-se-á dessa música cuja verdade desejou, e conseguiu alcançar, guardando-a para si na sua memória afetiva, tornada mais sensível “em certas horas de chuva e de vento,” ou pelo calor de um verão intenso. Paulo ouve a música primordial da sua ancestralidade tão logo chega à casa da aldeia: “uma voz canta ao longe, na dispersão do entardecer. Vem do fundo da terra, sobe em círculos pelo ar, evola-se na distância”. Ele fica “a ouvi-la no silêncio em redor.” (PS, p. 10). Ele a ouvirá sempre, quer na realidade da tarde quente de agosto, quer na memória que traz de volta o passado ao presente do seu reencontro com a casa, com a aldeia, a montanha, os horizontes do sem-fim. Mas a narrativa não revela de imediato o que canta essa voz que “vem do fundo da terra”: “vem de longe, dá a volta pelos montes, uma voz canta pelo ermo das quintas. Ouço-a na minha alegria morta, na revoada da memória longínqua, escuto-a. [...] é a voz da terra, da divindade do homem.” (p. 16). Só lentamente essa música se irá mostrando, reconhecida, mas com resistência, pela memória de Paulo: “É um canto claro, ouço-o no fundo

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1 FERREIRA, Vergílio. Para sempre. 2. ed., Lisboa: Bertrand, 1984, p. 9. Daqui em diante, as citações feitas desta obra serão referidas no próprio texto, utilizando-se a sigla PS seguida dos números das respectivas páginas. 2 No poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos.


da terra, da água das origens. [...]. A voz ondeia pelo espaço, aproxima-se, afasta-se às revoadas como um sino. Não reconheço a cantiga – virá já da minha infância?” (p. 21). A voz e a canção, de início não reconhecida, vão pontuando o presente e o passado de Paulo, a sua memória, o seu reencontro com a terra, até que, enfim: “Ó minha amora madura, quem foi que te amadurou?” – sei a canção, canta! Pelo infinito dos milênios, a tua voz pura. “Foi o sol e mais a lua” – na tarde imensa da minha solidão. [...]. É um canto com um ritmo de igreja, Deus mora ainda na sua infinitude, “foi o sol e mais a lua e o calor que ela apanhou” – com um ritmo de eternidade. (PS, p. 37).

Esta canção de sempre, antiquíssima cantiga da terra, Paulo a ouvirá constantemente ao longo da sua recordação pela tarde de calor do alto verão de agosto. Ela estabelecerá diálogo com outras espécies de música, mas regressará sempre, etérea, ondeando pelo espaço, como de monte a monte, de horizonte a horizonte, e quando se cala, ele exaspera-se e grita para a distância e contra a solidão do silêncio: “ – Can...an...ta!”. A novos apelos de Paulo, e como se lhes respondesse, a voz anônima que intermitentemente ora se cala ora se ergue, ressurge com a mesma ou com outras cantigas: “o meu amor quer que eu use / as chaves ao coração” (PS, p. 177), mas “na solidão astral de uma tarde abandonada, na vertigem do fim, na esperança impossível de quem a esgotou” (id.), tanta coisa se interpõe entre o canto ouvido ou sonhado por Paulo e o passado que a sua memória incansável busca recuperar, que só muito mais tarde a cantiga se completa: “O meu amor quer que eu use / as chaves ao coração” – canta. [...]. “Dá-me um abraço que eu morro / dá-me um aperto de mão”, repete ainda a música, depois cala-se. É uma voz de mulher, deve estar agora aplicada exclusivamente ao trabalho [...]. “O meu amor quer que eu use” [...]. (PS, p. 250).

É a voz primordial que antecede a tudo, a toda a palavra e a toda a música. Introito da existência, é o contraponto constante que numa espécie de fuga vai “dialogar” com as outras músicas da vida de Paulo: o poema-tango da sua adolescência em Penalva, a música de guitarra da sua juventude em Coimbra, o violino da infância reencontrado na velhice, que é quando Paulo descobre que a sua música esteve presente nele a vida inteira. Como numa obra cinematográfica, em Para sempre cada fase da vida do protagonista, cada situação ou ambiente, tem o seu motivo musical, a sua “trilha” a sublinhar uma atmosfera ou uma memória. Assim a passagem de Paulo por Penalva, a cidade que “ficava no alto de um monte [...], quase deserta, imóvel na eternidade” (p. 57), é associada a uma certa música que até ele chega, depois, na velhice, pelas ondas da memória: E de repente, na minha memória longínqua – donde virá a música? ergue-se ao alto, embate com a luz nas janelas dos prédios, encobre com a claridade todo o espaço da Sé. “ Poema-tango” – deixem-me ouvir. Vem a música não sei donde, é uma música pobre. Mas está cheia de memória, que é onde está tudo o que sou. [...]. Hora imóvel da minha evocação – que vem fazer aqui o que se passou? o que nunca existiu? “ Poema-tango, mágica harmonia de passional sentimento”. (PS, p. 75).

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É à memória dessa música que Paulo relembra os seus companheiros de Penalva, com os quais tinha longas conversas “filosóficas”: o Pacheco – um “tarado” –, o Miranda – que andava “a escrever um romance, O Cristo Falhado e que era muito contra os padres” –, o Manaças – fumador de cachimbo e “muito reaça” (p. 92). Mas a memória, frágil e intermitente como “fogachos na noite”, tudo vai misturar, e as conversas de Penalva podem depois estar noutra cidade e o Poema-tango misturar-se com a música primordial que “sobe do fundo da terra”, com um “hino” ingênuo da despedida juvenil de uma cidade universitária, ou com uma balada ou um timbre de guitarra evocador da mesma cidade e do mesmo tempo: “Adeus cidade com que saudade vamos partir” [...] “De ti levamos nos corações as mais sentidas recordações para o porvir”. E logo a força da música, ainda que assim ingênua e “rasteira”, despojada de altura e transcendência, lhe presentifica a cidade e as “memórias de alegria” e do amor: “– Tens visto a Sandra?” (p. 91). Mas as “engrenagens” da memória continuam a funcionar incansavelmente: E de novo, vindo do campo – meu Deus. Era um canto grande como o mundo. E triste. Torrentes de gerações, passam, o canto fica. Como uma ondulação pelas águas. Fica e o meu peito a soerguer-se de uma emoção oculta e absurda. [...]. É um canto alegre, de triunfo. Sobre a miséria a fome a escravidão. É um canto ingênuo e puro – “ó minha amora madura, quem foi que te amadurou”. (PS, p. 92).

Repare-se que acompanhando a idéia de um tempo único ou que na memória se funde na indefinição havida entre todos os níveis de passado, o presente e o futuro (representado por um desejo que se tenha no presente), na evocação emocionada de Paulo tudo se mistura. A partir do Poema-tango da adolescência insinua-se o “hino” de despedida da Universidade, o que opera a fusão de tempos muito próximos – na verdade um único tempo, o da fase estudantil nas suas duas últimas etapas –, operando também a fusão de espaços nas cidades de Penalva e da Soeira (Guarda e Coimbra, numa realidade toponímica e biográfica). Regressado da breve evocação à realidade em que narra ou relembra, Paulo ouve outra vez, vinda do campo, a “música da terra”. Mas ao dizer que “torrentes de gerações passam [e] o canto fica”, “como ondulações pelas águas”, ele tanto poderá ter desejado significar “torrentes de gerações” de camponeses, herdeiros desse “canto da terra”, quanto de gerações de estudantes, herdeiros da música da Soeira (ou Solária) – a música de Coimbra –, herdeiros desse canto que fica “como ondulações pelas águas”, imagem que muito bem pode ser associada às águas do Mondego, o rio de tão forte presença e significado na “mitologia” estudantil coimbrã e tantas vezes evocado por Vergílio Ferreira, nos romances e sobretudo no seu diário. A reforçar esta hipótese, tem-semais adiante, na evocação mais que emocionada da “Solária, a Cidade do Sol”, ou “Soeira, Cidade da Luz”, (“da ilusão, legenda da juventude, terra natal do excesso” de Paulo – p. 119) a visão que o protagonista tem, “projetada contra o céu azul”, de “uma guitarra enorme [que] preenche todo o espaço do céu”:

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Não quero ouvir, não quero ouvir – não ouças. Um arrepio no ventre, como oblíqua, uma vertigem. Tremem as cordas a todo o espaço, tremem os meus olhos. Vibram as cordas no tempo, ressoam à eternidade. E à ondulação da balada – quem eu? Em que ponto do universo sou verdade? Em que ponto posso outro conhecer-me? Mas nada adianta interrogares-te. Vem a balada atrás de mim como tanta memória morta – é da inutilidade


da vida. [...]. Cordas plangentes de uma profunda amargura como uma grande alegria. Dobram no tempo e na morte, são as vozes do augúrio. (PS, p. 119-120).

Como uma inevitável associação temática, esta visão de Paulo introduz a micro-narrativa do filho do “Kalifa”, professor de Paulo e de Sandra, no curso universitário, que, desejando dar uma resposta pública à reprovação do filho num exame do curso de música, promoveu um concerto de piano em que o reprovado aluno se apresentaria como concertista. Paulo e Sandra vão. São os únicos convidados que comparecem. Paulo recorda: [...] lembro-me bem. [...] Mas havia uma música, recordo-me muito bem, era uma tarde obscura de névoa. [...]. Era uma música saltitada e no fim eu disse: – Campanela de Liszt [...]. Cerro os olhos à incandescência da tarde, ouço de novo a música do nosso encontro no eterno. É uma música vivaz, cheia da energia da minha excitação interior. Toca ainda uma vez, filho mortal do Kalifa. Toca por sobre o tempo e a morte, por sobre a solidão. A alegria floresce nesta tarde de incêndio, como um sorriso primordial. E no limite da montanha, uma dança pesponta a união da terra e do céu. Toca ainda e sempre, que mais quero para a vida, para o cansaço e a ruína, que o instantâneo florir da graça, na imóvel evocação? (PS, p. 122-123).

Analisando esta cena, Carlos Francisco de Morais³ assinala a semelhança entre o seu resultado na emoção de Paulo ao relembrá-la, tantos anos depois da sua ocorrência, com o resultado idêntico, sentido por Alberto Soares, quando, à distância de vinte anos, relembra a música de Cristina. Diz Francisco de Morais que o que Paulo vê ou sente é o rompimento das barreiras da solidão e da transitoriedade, delimitadoras do humano, que a música oferece, pois tanto Paulo quanto o filho do Kalifa são mortais, o que é reafirmado na própria passagem citada [...], mas o poder da música não é constrangido, atravessa tempo e espaço, supera a solidão e a morte, como se percebe ao reconhecer, nas palavras de Paulo já velho dirigidas ao pianista, as palavras de Alberto, que, solitário e efêmero, na noite de inverno, evoca a música de Cristina para experimentar o que há na vida de superior a suas circunstâncias”.4

Com efeito, as semelhanças entre uma cena e outra, a força da evocação emocionada e a linguagem que a exprime nos dois romances, Para sempre e Aparição, têm muito em comum: o trecho final da evocação de Paulo – Toca ainda uma vez, filho mortal do Kalifa. Toca por sobre o tempo e a morte, por sobre a solidão. A alegria floresce nesta tarde de incêndio, como um sorriso primordial. E no limite da montanha, uma dança pesponta a união da terra e do céu.Toca ainda e sempre, que mais quero para a vida, para o cansaço e a ruína, que o instantâneo florir da graça, na imóvel evocação? (PS, p. 122-123) –

3 MORAIS, Carlos Francisco. A música essencial – Arte e condição humana em Aparição, Cântico final e Para sempre, de Vergílio Ferreira. São Paulo: Antiqua, 2003. 4 MORAIS, Carlos Francisco. Op. cit., p. 149.16 Id., p. 89.

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é praticamente um eco, uma repetição da voz de Alberto Soares que Paulo rediz, à distância de outros vinte anos, que é o tempo decorrido entre um romance e outro5. Eis a evocação de Alberto: Toca uma vez ainda, Cristina. Agora, só para mim. Eu te escuto, aqui, entre os brados deste vento de inverno.Chopin, Noturno nº 20. Ouço, ouço.6 Toca ainda, Cristina. E que estarás tu tocando? Bach? Mozart? Não sei. Sei apenas que é belo ouvir-te tocar nesta hora breve de inverno, neste silêncio fechado como uma pérola. Um halo vaporoso estremece à tua volta e eu tenho vontade de chorar. Que tu sejas grande, Cristina. E bela. E invencível. Que te cubra, te envolva o dom divino que não sei e evoco ainda à memória de um coral majestoso no centro do qual te vejo como no milagre de uma aparição. (Id., p. 187-188)7.

Ainda como inevitável associação pela qual é responsável o próprio poder de evocação da música, a sua magia na impregnação do passado ao presente, na capacidade que tem de presentificar o outrora, a cena do filho pianista do Kalifa reintroduz, como conseqüência inarredável, o principal motivo musical de Para sempre, que é o do violino da infância de Paulo: Era uma música alegre, trilada, lembrava-me não sei que sapateado de dança. Tinha-a ouvido não sei onde, tentara reproduzi-la no violino – eu disse que nunca mais tocara violino? Não é verdade. O Padre Parente ensinou-me, hei-de contar. Fora um violino de três quartos, por causa da incompatibilidade do meu tamanho. Mas depois que vim para a Soeira, havia uma tuna estudantil, tia Luísa consentiu-me que o trocasse por um normal [...]. (PS, p. 122). 5 Precisamente 24 anos. 6 FERREIRA, Vergílio. Aparição. 7. ed. Lisboa: Portugália, 1971, p. 41-42. Daqui em diante, as citações feitas desta obra serão referidas no próprio texto, utilizando-se a sigla Ap seguida dos números das respectivas páginas. 7 Outro importante ponto em comum entre Para sempre e Aparição, são as cenas que, respectivamente, dizem respeito a Paulo (criança) e doente, e Cristina, agonizante no hospital, depois do acidente que a vitimou. Estando Paulo doente e impossibilitado de tocar violino, pede à tia Joana que coloque o instrumento sobre uma mesa onde o possa ver da cama, sendo de tal forma intensa a sua visualização do instrumento, que se pode imaginar, ver e sentir, tocando-o, manuseando os seus recursos técnicos, executando-o. Em Aparição, no seu momento final, Cristina, num gesto que só Alberto percebe, põe as duas mãos sobre as dobras do lençol, como se nelas “sentisse” o seu piano, como se tocasse imaginariamente. São duas belas cenas de que vale a pena transcrever excertos: As coisas à minha volta fechavam os olhos para ouvirem a melodia inaudível. [...]. Olhava o violino anichado na sua caixa e sentia-o fisicamente no meu queixo e nas mãos. Calcava as cordas com os dedos imagináveis, apertava o tampo com o queixo contra o ombro. E os dedos gravavam-se dos sulcos das cordas, a articulação movia-se com o tempo das notas. Mas sobretudo havia em todo o meu corpo o arrepio da passagem da melodia, a suspensão sutil da sua maravilha. Era um prazer intenso e inexplicável. [...]. Era [...] a execução de todo o meu corpo e a criação de qualquer coisa que perdurava em mim como um bom sabor que não era sabor e enchia o ar como o esplendor de uma festa. Todo eu participava assim na criação desse mundo e na privação dele parecia-me que alguma coisa muito importante se não cumpria no meu destino, na minha apetência natural. Por isso a vista do violino criava-me na imaginação a satisfação dessa urgência, preenchia o espaço que ia de mim até ele, recriava-me organicamente a minha totalidade. Um pouco me esquecia assim a febre que me queimava ou era uma febre que a música me vibrava como se tudo fosse a transcendência de mim, o frêmito em que eu me transfundia como se a música e o instrumento e eu próprio fôssemos a mesma forma de ser. (PS, p. 186-187).

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[...] a certa altura, sem que ninguém mais tivesse visto, só eu vi, só eu vi, Cristina, as tuas mãos pousadas sobre a dobra do lençol moveram os dedos brevemente. Era um movimento concertado das duas mãos, mas num ritmo de cansaço final. Na dobra do lençol tu sentias o teu piano, tu tocavas, Cristina, tu tocavas para mim. Música do fim, a alegria sutil desde o fundo da noite, desde o silêncio da morte. (Ap. p. 221-222).


E depois de ter ouvido a Campanela na execução do filho do Kalifa, Paulo repentinamente lembrou-se: “Pedir-te que toques a Ave-Maria de Schubert – não fui capaz: Dó...ó...si, dó, mi... Não tive altura até à coragem de pedir. Música longínqua, no traçado remoto da minha vida inteira.” (id., p. 123). E nessa sequência de associações musicais, Paulo ouve novamente o cântico da terra: Uma harmonia invisível na coordenação dos astros – que é que significa na minha solidão? Vem na aragem leve, é a voz de uma mulher. Vem da desgraça, da ruína, da fadiga, passa. Depois regressa. Sobe alto até aos astros, abre como uma flor, embate no silêncio do mundo. Nada mais há a dizer. [...]. Uma voz canta no impossível. E é preciso uma vontade bruta animal para me não matar. (PS, p. 124).

Se com relação a determinado aspecto de estruturação dos romances de Vergílio Ferreira efetivamente se pode falar de interseccionismo ou do que o próprio romancista prefere chamar de “embrechamentos”, Para sempre será sem dúvida o ponto alto na utilização desse recurso, aqui aplicado com extrema competência vindo a constituir um traço de elevado refinamento da sua arte. Pela interseccção o romancista operacionaliza a fusão de tempos, de espaços, de tempo/espaços, de temas, e, dentre tudo isto, o interseccionismo musical. Relacionado com a pintura, sobretudo a cubista, desde quando Fernando Pessoa o “inventou” em poesia e o praticou com maior rigor no poema “Chuva oblíqua”, o interseccionismo, essa técnica de compor a estrutura de uma criação artística por volumes superpostos através dos quais se pode ver em profundidade, como na pintura, ou por “camadas” temáticas que se interseccionam podendo alternar-se numa espécie de ir-e-vir na composição do texto, como na poesia, pode ser pensado também na música, obedecendo à mesma formulação técnica. Estaria, sem dúvida, próximo da idéia do leitmotiv musical, porque esse ir-e-vir alternativo de frases, imagens ou “camadas” que se movimentam numa espécie de espiral posta em movimento durante o qual vão girando os elementos que se repetem em rodízio, acabam não só por marcar a sua presença, mas vêm a ser motivos condutores para uma etapa seguinte no desenrolar da obra. É exatamente assim que ocorre o interseccionismo musical de Para sempre. O “canto da terra” entoado por uma mulher anônima traz de volta a infância de Paulo à sua memória de velho. Por consequência, impõe-se-lhe a adolescência em Penalva, e nela a música que o marcou nesse período, o Poema-tango. Adolescência e juventude universitária misturam-se na sua memória e nela a música do piano do filho do Kalifa, a da guitarra cujas cordas “vibram no tempo, ressoam à eternidade”, a das baladas juvenis que acalentaram tantas gerações de estudantes... O piano do filho do Kalifa sugere-lhe a música tocada no violino da infância, a Ave-Maria de Schubert. Mas como tudo isto está disperso ao longo de um passado que o velho Paulo rememora sozinho no presente solitário da casa da aldeia, a fazer contraponto com todas estas lembranças musicais, sempre a voz anônima canta, repete ou renova a sua canção da terra. Mas sem dúvida a mais importante cena musical de Para sempre é o da descoberta que Paulo faz da música, na infância, aprendendo a tocar violino, e o da sua redescoberta na velhice, quando reencontra o mesmo instrumento entre os velhos trastes largados ao acaso pelos vários cômodos da casa abandonada. É ao súbito reencontro

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do violino que o remoto passado da infância se lhe presentifica com a música que era dela: [...] encostada a um canto, a caixa preta do violino. [...]. É um violino pequeno, um violino de três quartos, padre Parente disse que um grande não dava para mim. [...]. Tomo a caixa devagar [...]. Está ali, inteiro, espera-me desde antes de mim. Sei ainda a Canção de Solveje (de Grieg?), o Momento Musical de Schubert, a Dança Húngara – de quem é? O braço do violino na minha mão esquerda, a pressão dos dedos da direita no arco, o violino entalado no queixo, a restituição do meu todo perdido – toco mal [...]. Melodia antiga, na perfeição da memória. Na distância aérea da minha imaginação. Casa deserta, o silêncio de uma tarde quente. E através das camadas sobrepostas do tempo e da amargura. Minha melodia antiga. (PS, p. 54-56).

Será a partir deste “achado” do violino que Paulo se vai reencontrar com a infância. Mais do que isso: vai mesmo “ver-se” numa certa cena da infância, aquela em que a tia Luísa, depois de o preparar com roupa limpa, o manda sozinho a casa do padre Parente. Paulo criança diz que não vai, e Paulo velho, revendo a cena na memória, diz-lhe: “– Vai! [...]. Vais ter uma revelação” (p.129). Paulinho foi e ouviu a proposta do padre: “– Tu queres ir para a tuna? / Padre Parente tocava violino, sabia outros instrumentos, tinha organizado uma tuna na aldeia.”(p. 132). O padre propõe-lhe o violino. “Era uma tarde doce, começo de outono, eu ia aprender violino. Não sabia bem o que era isso, mas já tinha ouvido, um som magoado de um choro terno.” (p. 132-133). O padre mostra-lhe, então, o instrumento: Belo, de verniz, o interior da caixa forrado de pano verde, sobre as cordas um pano de seda – o violino. Imediatamente começou a explicar-me o instrumento, eram quatro as cordas, mi lá ré sol, o braço, as cravelhas, o estandarte, que era um triângulo de madeira preta que segurava as cordas em baixo, [...]. (PS, p. 132-134).

E é então que se dá a “revelação”: – Senta-te [diz o padre.] Vou-te tocar a Ave-Maria de Schubert. A mão corria-lhe tremente abaixo e acima no braço do violino e na tarde que se evolava, uma música suave e longa e misteriosa como não sabia o quê. Evoco agora essa música e também não sei. Qualquer coisa me arrepia e suspende, sobe em mim até um limite e desce de novo e alastra como a imensidade de um mar. Depois ergue-se de novo, arranca ainda até ao impossível, quebra de novo num repouso espraiado. Música do meu abismo, ó mistério inacessível e tão perto da minha comoção. Ardem-me os olhos agora que a evoco, ao anúncio indistinto da amargura e da paz. Deve ser isso a oração, mas nunca rezei assim. Uma ascensão de nós, um esvaimento de nós e uma força humana, todavia, numa irmanação divina. Sol que se levanta ou uma lua enorme e clara num céu imenso e intensamente escuro, ou um mar aberto até ao infinito de nós, qualquer coisa de plácido e majestoso, padre Parente tocava, eu ouvia abismado no incognoscível, no excesso que me estriava de frio. Era uma tarde de outono, havia silêncio no mundo. E eu sentia-me confrontado com o secreto e terrível e todavia doce e fascinante como o mistério de uma lenda da montanha. E terno um tremor estremece-me o olhar e lembrei-me, não sei porquê, da palavra inaudível de minha mãe. (PS, p. 134-135).

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A “revelação” não se encerra com a demonstração que o padre Parente faz do instrumento nas partes que o compõem, nem tampouco com a execução da Ave-Maria. A “revelação” perdura e prossegue como uma “aparição” que lentamente se mostra, se revela, se amplia e se vai completando na progressiva aprendizagem do violino e dos mistérios da música como a própria “invenção da beleza”. Paulo vai aprender a solfejar e a tocar, integrado aos componentes da tuna e participando dos ensaios que o padre realizava regularmente. Era à noite e pelo inverno, e o Paulo velho que recorda tem “a memória toda branca de neve” (p. 179). Recorda-se que depois da infância, já no liceu e depois mesmo na universidade, ainda tocou violino, então um instrumento maior “de tamanho de um homem.” (id.). Era à noite e tia Luísa suspendia uma lanterna de um braço, com o outro levava a caixa ao colo (p. 181). “[...] o que me lembra é o tempo da infância, como é próprio da senectude, que avança para o futuro de costas. E a música foi-me então a invenção da beleza foi assim. [...] música que me chamas e eu estou tão cansado. Como se sobre os destroços de uma ruína, e um halo luminoso como de uma estrela, vejo-o.” (p. 179-180). Paulo tem “a memória cheia de noite e de neve que fosforesce no escuro” (p. 181): Memória escura da infância, mas é necessário que o violino vibre no tempo e a sua música chegue até mim. Lembro as tardes, eu estudava solfejo à luz indecisa do entardecer. Semibreves, mínimas, semínimas, colcheias e o mais, e os tempos de cada uma, e os compassos desde o quaternário. Cai neve pelo horizonte, estou só no meu quarto ao alto da casa onde agora o violino, teias de aranha velam o seu abandono. Todo o espaço em redor se conglomera de flocos de neve eu ensaio no violino a Ave-Maria de Schubert para tocar na igreja. [...] música eterna do meu silêncio final, a palavra última, a fundamental por sob todo o linguajar do mundo. (PS, p. 181).

Paulo reconhece então, nesse recordar da infância e da “invenção da beleza” que estava na elevada limpidez da música e na sua capacidade de dizer o indizível, essa palavra absoluta que ele tanto buscou, a que fosse capaz de resumir tudo, a palavra fundamental, a primeira e a última, que, intocada, pairasse em originária pureza, por sobre “todo o linguajar do mundo”. Paulo tem a memória cheia de música, de neve e de noite: É uma música difícil, com a terceira e quarta ou quinta posição, tudo na quarta corda, ó música terna. Cai neve, é necessário que ela caia para a minha memória existir. Há o vasto céu de cinza, a revoada da neve a toda a roda do horizonte, há o silêncio intrínseco do mundo ao abismo de um olhar maravilhado. Tenho o violino na mão, suspendo-me eu também, olho pela janela o suave encantamento. (idem).

Paulo está deslumbrado pela emoção desse reencontro com a beleza e por haver descoberto que era aí que se ocultava esse Graal da palavra. A música é afinal a ampla metáfora da Arte, do belo e da plenitude, capaz de resumir em si todas as artes e de falar mais proximamente ao coração do homem. Capaz de ultrapassar os limites impostos à linguagem humana. É o que, por outras palavras, diz também Rosa Maria Goulart: que é na música que Vergílio Ferreira “encontra a forma mais adequada de sugerir a inefabilidade da emoção artística; mas ela é também uma espécie de rendição à vida no que esta tem de mais deslumbrante.”8 É o que disse, na aula de antigamente ouvida por Paulo e por Sandra, o professor de linguística ou de filosofia: 8 GOULART, Rosa Maria. Romance lírico – o percurso de Vergílio Ferreira. Venda Nova: Bertrand, 1990, p. 263.

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“Diz-se às vezes que essa palavra a sabem os artistas, o poeta, o músico, o pintor, ou seja os que não dizem o que dizem, mas dizem apenas o silêncio primordial, ou seja o que não se diz.” (PS, p. 198). Paulo está deslumbrado pelo poder transfigurador da música – tão frágil, tão etérea, tão abstrata, tão volátil, mas tão poderosa na sua capacidade de ultrapassar limites, e não só os da palavra, mas os da própria natureza e os das circunstâncias culturais e sociais do homem. É o que demonstra a cena da tuna ensaiada pelo padre Parente, em que homens de tão humilde condição se transfiguram, como num milagre, ao halo de magia e encantamento só possível de alcançar na transcendência artística: Éramos quantas figuras? aí umas quinze ou vinte, representavam as artes e ofícios, alguns dos tunos vinham pela noite de quintas longínquas à procura do mistério com as suas violas e bandolins. E durante uma hora ou duas as enxadas de cavar, as plainas e as enxós, os instrumentos de barbearia esqueciam entre os dedos nodosos do trabalho e o que existia era a delicadeza finura da irrealidade da música em que a bruteza se transcendia ao intocável da beleza. Mãos grossas, desajeitadas, mãos humildes, ó mãos gravadas de uma condenação milenária, mãos brutas trabalhadas a rudeza, mãos elementares ao nível duro da terra, tanadas a calos e Invernos seculares. Tenteiam agora incertas tímidas no deslumbramento da delicadeza, como desamparadas no meio de um palácio, tenteiam com finura as cordas finas de arame, desenham para a noite, no terror do deslumbramento, a arquitetura do impossível. (PS, p. 182-183).

Essa transcendência, a sentem os próprios rústicos elevados a artistas, quando, já dispensados do ensaio geral, se postam, quase em veneração, a ver o ensaio solo de Paulo, colocado o menino, em pé, sobre um estrado “como um pedestal” (p. 183), tocando no violino a Ave-Maria de Schubert, acompanhado ao órgão por padre Parente. Era quase com veneração que todos o olhavam e ouviam a música do seu instrumento. Tia Luísa também. “Os homens formavam círculo” e “embevecidos [...], assistiam.” (id.). Até que por fim a música acabou e todos ficaram “ainda em silêncio até que a aparição se dissipasse.” (PS, p. 183-184). O caráter sagrado da música, o seu poder de dizer o indizível, a sua transcendência para além das misérias e fraquezas do transitório, o sinal da sua perfeição, apesar das imperfeições da humana aprendizagem, ressaltam da cena em que Paulo toca sozinho para os tunos. Também o mistério, o milagre, o espanto da aparição da beleza nessa “estranha melodia [...] inventada pelos deuses desde que um homem sofreu” e necessitou dessa proteção superior, lenitivo para o sofrimento que reside na Arte que ele encontrasse e “o acolhesse e defendesse e inventasse a imagem de um abrigo contra a dor e a miséria.” Paulo o sabe e o compreende – a esse mistério – a partir da sensibilidade que tem mas auxiliado pela aprendizagem intelectual que adquiriu. Tia Luísa e os músicos rústicos da tuna o sentem por intuição e pelo espanto da descoberta da beleza.9

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9 Carlos Francisco de Morais oferece desta cena uma interpretação exemplar: “Nessa cena musical, semelhante, pelos fatos que a compõem e pela linguagem em que eles são fixados, mais à criação de um mito do que a uma recordação de infância, temos na rudeza dos homens que circundam o menino como, no mito cristão, os pastores ao Menino, [sic] ... portador de uma verdade suprema, [...]. Já na música do menino [...] se encontra a afirmação da possibilidade da superação dessa rudeza metafórica, [...]. // Outro registro do valor redentor da música para a condição humana aparece na sutil submissão de tia Luísa, [...]. Por ocasião da cena musical, tia Luísa é


É lenta a aprendizagem da beleza, do fulgor do milagre, do espanto e do sagrado da música. Paulo evoluirá no caminho para a perfeição, como quem lentamente sobe uma montanha, até ao dia da sua apresentação pública, numa festa religiosa, a do encerramento do mês de maio, festa do Adeus à Virgem – em que se executará a Ave-Maria de Schubert. Na velhice, Paulo reconhecerá ter sido aquela a festa da sua plenitude – a plenitude da beleza e da linguagem absoluta representadas pela música – e vai recordá-la em contraponto com um momento em que agudamente sentiu o esvaziamento da linguagem, o vazio e inútil vozear do mundo no meio “dos atropelos e [d]a corrupção dos dias e [d]a barafunda infernal de um falatar desvairado” (PS, p. 232). A esse vazio, representa-o o discurso inócuo de um conferencista, “um Carlos da Assunção [que falava] sobre a ‘Função Moderna da Cultura’”. Paulo não o ouve, porque a linguagem da música e da emoção de que a sua memória está repleta predominam sobre o vazio, o desinteresse, o lugar-comum e o sem-sentido da fala do conferencista. Do ponto de vista da técnica narrativa, esta passagem de Para sempre, situada no capítulo XXVIII é um dos altos momentos em que o escritor operacionaliza o recurso da fusão de diferentes tempos e espaços e também onde se dá a realização do interseccionismo narrativo trabalhado a filigranas de perfeição. De regresso à casa da aldeia onde rememora a sua vida, Paulo, na velhice que é o seu presente, revê na memória, numa espécie de vertigem em que todos os tempos se misturam, os momentos marcantes da sua existência. No episódio em questão, Paulo revê-se na infância, ao tempo em que aprendeu a tocar violino, e na idade adulta, logo após o casamento com Sandra, quando viviam ainda na cidade da Vigia, “uma terra de cubos brancos ao pé do mar.” (p. 229). É nessa cidade, no Círculo Cultural do Sul, que ele vai com Sandra ouvir a conferência de Carlos da Assunção, pela qual não tem grande interesse. O desinteresse de Paulo aumenta à proporção em que descobre a mediocridade do conferencista. Ao mesmo tempo em que rememora este momento, Paulo, na velhice, relembra o episódio musical da sua infância, um instante de intensa plenitude existencial e estética, mas que só ao término da vida consegue ver assim. No momento em que relembra, alternam-se as duas cenas na sua memória que as presentifica simultaneamente, e de tal forma elas se interligam que é como se de fato se fundissem numa única, tudo se operacionalizando numa espécie de movimento de vaivém. Sendo esta cena musical o ponto alto da aprendizagem de violino por Paulo, na infância (o momento em que se vai apresentar em público e tocar a Ave-Maria com padre Parente a acompanhá-lo ao órgão), o excepcional dessa ocasião é simbolizado por um certo aparato de palco e já desde a entrada de Paulo na igreja onde se daria o concerto: Tia Luísa abandonara-me à minha própria sorte, dá-me a caixa do violino e eu que vá sozinho até ao estrado do órgão. [...]. O órgão estava em cima de um estrado mas puserase uma peanha sobre ele para toda a gente me ver elevado ao prodígio que era eu. [...]. (PS, p. 230). mostrada como a pessoa que porta e guarda a luz física, material, pois está em suas mãos o lampião que iluminará o caminho de retorno para casa, mas, durante a música, ela se submete, demonstrando timidez, humildade e atenção, diante da luz que o menino irradia, nessa música que, sinestesicamente, pode ser vista girando entre os astros e brilhando como candeia posta num pedestal, [...].” (MORAIS, Carlos Francisco de. Op. cit., p. 154-156).

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Portanto, porque a ocasião era especial e o violinista também (um “prodígio”), era necessário que o artista fosse bem visto por todos e por isso o seu lugar era uma peanha (espécie de pedestal) colocada sobre o estrado: o lugar de destaque. Sobre ele o menino, e neste, a angústia que o toma todo: [...] padre Parente cantava. Cantava no intervalo dos mistérios do terço e as arcadas da igreja tremiam. [...]. Eu tremia todo na idéia de falhar na minha exibição. Tão difícil a Ave-Maria de Schubert com as várias posições desde a primeira creio que até à quinta. [...]. Padre Parente veio para o órgão, afinei o lá, ele tocava-o na tecla. Tomou-me ele o instrumento para o afinar todo, havia um silêncio subitamente arrefecido nas arcadas de pedra. Subi para um pequeno estrado posto sobre o outro e à minha volta cresceu um enorme vazio. Só eu e o infinito da grandeza que eu havia de preencher. Então padre Parente deu a entrada e eu ataquei. Sou agora lá a misteriosa beleza de uma paz solene que alastra pela igreja. (id., p. 232).

Vencida na criança a angústia que antecedia a execução, o velho que sucedeu ao infantil violinista pondera, então, sobre a estreiteza e a mediocridade da vida a que só a transcendência da arte pode dar grandeza: Que é uma vida inteira com os atropelos e a corrupção dos dias e a barafunda infernal de um falatar desvairado? Que me é a vida cumprida até à hora da desagregação? Uma criança algures que eu não mereço, ó infância absoluta como diadema da decrepitude, uma criança e a melodia que sobe como coluna de incenso, uma comoção estremece ao meu olhar apodrecido. Todas as religiões da história do homem, todas as alegrias como um lago calmo, e as esperanças erguidas como uma vaga pelas eras, e todo o sofrimento e tudo o que é eterno no modo de se ser humano conglomerados no instante único de uma música serena e simples e enorme como um amanhecer. Estou lá, aqui, neste abandono frio. [...]. (id., p. 232-233).

O simultâneo ver e sentir de Paulo, na infância e na velhice que a memória nivela num só tempo e num só espaço, no cansaço e na arrefecida indiferença “para o passado e para o futuro” permite-lhe, além de ver, também ouvir: não só o violino da infância com a música que lhe pode justificar a vida e transmitir-lhe com profundidade e em essência o sinal do absoluto na linguagem sem palavras que ultrapassa a do mero falar, mas também a voz primordial, o canto da terra que no fundo do vale silenciara, mas que Paulo quer ainda ouvir como “voz de inocência primitiva [...], voz da força da terra”. E por fim, na memória envelhecida de Paulo, a lembrança da apoteose desse encontro com a beleza e o profundo mistério da música: E finalmente, na terceira posição, creio, dou a arcada suavemente, uma paz solene na tarde que esmorece, a Virgem tinha os olhos no alto, a cabeça levemente inclinada, padre Parente, no acorde final, como se esvaído de esforço e comoção, vergou a cabeça toda para o teclado do órgão. (id., p. 235).

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Deve ter-se seguido, a esse acorde final cheio de paz e de sagrada solenidade, o silêncio profundo que a isso corresponde e que a própria grandeza da música impõe


depois de si. Mas Paulo, velho e sozinho na casa, quer ouvir ainda. Quer ouvir o violino e a voz da terra que silenciara também, calada desde o fundo do vale e na montanha: “Terão acabado os trabalhos no campo? não ouço a mulher cantar, mas não é possível que acabassem. Trabalha-se o dia inteiro para a Bíblia ter razão, [...]. Ah, cantares uma só vez ainda na vasta melancolia desta tarde sufocante. Estou só, era bom que soubesses. Mais só do que tu, que tens o canto por companhia.” (PS, p. 243)10. O silêncio da solidão leva-o ao desespero do grito contra o vazio: “ – Can... an... ta! [...] Can... an... ta!” (p. 243 e 248). E foi quando de novo, na realidade já a não esperava, vem pelo grande espaço triste da tarde, entra por todas as janelas, sai pelas outras da frente à procura do cosmos. “O meu amor quer que eu use / as chaves ao coração” – canta. [...] o canto é lento como o da igreja, como a sua voz de infinitude. “Dá-me um abraço que eu morro / dá-me um aperto de mão”. (p. 250).

Paulo continua a ouvir, reconfortado, pela tarde que finda, essa “voz longa, ampla”, que “sob o teto do céu, expande-se, pela montanha. É a voz grave da terra, traz em si todo o peso da germinação. Escorre nela o suor do esforço e do triunfo, da fatalidade e da resignação. É a voz da escuridão e das raízes.” (p.252). Paulo quer ouvi-la sempre e chama-a de volta quando ela silencia, chama também de volta a si mesmo, na infância, com o violino, e a Sandra morta, mas, subitamente, “quem entrou foi o Matraca, o cão” (p. 253), um cão também do passado, que “vinha ainda mais velho”, tão velho ou ainda mais que o próprio Paulo.11 Ele ouvirá ainda a voz da mulher, a voz da terra que “canta como o braço de um náufrago” (p. 261), até que ela se cale definitivamente. “O seu trabalho cumpriu-se e houve música ainda como um enfeite desnecessário.” (p. 299). “Vê as aves [que] riscam o céu na satisfação do fim.” Lembra-se que se conta “de algumas que cantam ao morrer” (id.). Vê a tarde que finda e sabe que “os campos recolhem-se para a noi10 Muito mais do que o canto de Irene, em Estrela polar, a voz desta mulher anônima cujo canto se ouve reiteradamente ao longo de Para sempre, como uma “voz da terra”, sugere sutilmente o poema de Fernando Pessoa “Ela canta, pobre ceifeira”, graças a determinados elementos que do poema pessoano convergem para a anônima e simbólica personagem do romance de V. F. Elementos como a relação entre o canto e o trabalho, o canto que “ondula” ou “ondeia” no ar, a sensação simultânea de alegria e de tristeza, que ele transmite, o poder de arrebatamento que tem, ao passar. Transcrevo o poema de Pessoa: “Ela canta, pobre ceifeira, / Julgando-se feliz talvez; / Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia / De alegre e anônima viuvez, // Ondula como um canto de ave / No ar limpo como um limiar, / E há curvas no enredo suave / Do som que ela tem a cantar. // Ouvi-la alegra e entristece, / Na sua voz há o campo e a lida, / E canta como se tivesse / Mais razões p’ra cantar que a vida. // Ah, canta, canta sem razão! / O que em mim sente ‘stá pensando. / Derrama no meu coração / A tua incerta voz ondeando! // Ah, poder ser tu, sendo eu! / Ter a tua alegre inconsciência / e a consciência disso! Ó céu! / Ó campo! Ó canção! A ciência // Pesa tanto e a vida é tão breve! / Entrai por mim dentro! Tornai / Minha alma a vossa sombra leve! / Depois, levando-me, passai!” (PESSOA, Fernando. Obra poética. Nova Aguilar. Rio de Janeiro: 1983, p. 78). 11 É importante lembrar aqui o simbolismo do nome do cão: Matraca é um “instrumento de madeira formado por tabuinhas movediças que se agitam para fazer barulho e que substituem a campainha nas festas da Semana Santa de alguns países.” (Dicionário LelloUniversal). Portanto um instrumento relacionado com o recolhimento ou o sofrimento da Paixão. O próprio romance decifra esse significado simbólico, pela voz de Paulo, que considera mal escolhido o nome do cão: “[...] foi um erro teres-lhe chamado Matraca. A matraca é aquela tábua de argolas que se batem pelas ruas quando está o Senhor morto e se não podem tocar os sinos. É um nome fúnebre. Mais fúnebre que qualquer outro porque lembra a morte da divindade. Lembra sexta-feira santa da Paixão, no sábado de Aleluia já não se toca.” E continua com ironia: “Era nome para um cão do prior ou do cangalheiro. Não para ti, que tens todo o passado de um homem e um futuro para o encheres dele.” (PS, p. 191). O cão representa também em Para sempre, como em romances anteriores, a última companhia do homem.

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te que vem” (id.). Na tarefa de fechar todas as janelas que abrira, reencontra ainda a caixa do violino, o instrumento com “as cordas todas” e tenta nele uma melodia, a única de que se lembra, “na quarta corda, a corda de sol”, a que sobe da sua “memória obscurecida” (p. 305). “A melodia enche o silêncio da casa, enche todo o [seu] passado que a procura. Toda a terra vibra nela, todo o universo se explica numa palavra final. A mais alta, a mais profunda. Mas não [é ele] que a [faz] vibrar, é ela só que a si mesma se diz.” (id.). Sente que “para lá dela se sutiliza ao [seu] ouvido até ao silêncio final onde se perde a aspereza da [sua] execução. Que palavra se diz neste dizer? não a sei. Sei apenas que esse silêncio se preenche de tudo o que não sei dizer nem sobretudo me apetece dizer. Como uma rede que sustivesse todas as impurezas, o fio da água passa e a sua pureza me comove e só ela me existe. Fecho a caixa do violino, fecho a janela.” (id.). Paulo encontrara finalmente a palavra que procurara a vida inteira e que estava nessa música da infância que lhe enchera a vida toda – naquele momento de epifania –, embora ele nem sempre o tenha sabido e só muito tarde o viesse a descobrir. A palavra absoluta, a primeira e a última, a mais alta, a mais profunda, a que era capaz de resumir em si a vida toda, capaz de dizer o indizível, que é o que só a Arte diz, e que, mesmo depois de todo o fim, ainda haveria de pairar por sobre todo o inútil vozear das eras, todo o inútil tagarelar humano. Essa palavra pertence à Arte e ao seu indecifrável mistério, porque do homem “é apenas o silêncio sem mais e o eco de uma música em que ele se reabsorva.” (PS, p. 306).

Referências bibliográficas FERREIRA, Vergílio. Aparição. 7. ed. Lisboa: Portugália, 1971. FERREIRA, Vergílio. Para sempre. 2. ed. Lisboa: Bertrand, 1984. GOULART, Rosa Maria. Romance lírico – o percurso de Vergílio Ferreira. Venda Nova: Bertrand, 1990. MORAIS, Carlos Francisco. A música essencial – Arte e condição humana em Aparição, Cânticofinal e Para sempre, de Vergílio Ferreira. São Paulo: Antiqua, 2003. PESSOA, Fernando. Obra poética. Nova Aguilar. Rio de Janeiro: 1983.

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ATELIER SANDRA PARO ARQUITETURA EM MOSAICO:

LABOR SoCIOEDUCATIVO CULTURAL ATRAVÉS DE MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS

Se alguém pronunciou a frase ‘’transmitir cultura é difundir a luz’’, talvez esse alguém conheça o trabalho que vimos realizando em nosso atelier, há vinte anos, no bairro do Pina, em Recife. Nesse caso, a luz que se transmite é duplamente intensa, pois além de transmitir cultura, realizamos também um intenso labor socioeducativo, imbuídos de um verdadeiro ‘’espírito renascentista’’. Sem apoios ou recursos, temos capacitado jovens do bairro no entorno do atelier para o ofício do mosaico, através da produção de murais urbanos, públicos e particulares de grande porte, além de outras obras em mosaico, incentivando todos a participarem das diversas etapas do processo de execução da obra de arte, despertando para o fato de que a beleza integral existe, que pode ser eterna e que eles mesmos podem contribuir em criá-la com seu trabalho diário. Seguimos trabalhando conforme o modelo romano, onde a produção de um mural em mosaico começa com o desenho realizado por mim (pictor imaginarius), também responsável por passar o desenho em tamanho natural. Para sua execução, conto com mosaicistas qualificados (musearius), encarregados de cortar e assentar as tesselas, sempre sob minha orientação. Todos nós participamos da instalação da obra de arte no local apropriado. 26


depoimento

Pernambuco é uma terra de tanta fertilidade artística, que mesmo considerando que o nordeste brasileiro não tem a herança cultural da arte musiva, aqui lançada essa semente, revelam-se talentos que podem ser autênticos criadores de obras de arte em mosaico, enriquecendo a paisagem urbana, que atua como suporte artístico, contribuindo de maneira importante para embelezar Recife e tantos outros espaços públicos de outras cidades. Não obstante, nos últimos anos, buscamos elevar o nível de qualidade e exigência dos temas escolhidos para representar essa arte milenar, que se iniciou com a representação de diversos monumentos Patrimônios Artísticos e da Humanidade existentes entre Brasil e Espanha, como Olinda, Recife, Ouro Preto, São Miguel das Missões, São Luís do Maranhão, Santiago de Compostela, Casa de las Conchas e, inclusive, ousamos transpor para o mosaico o rosto da Madonna, pintado por El Greco, em seu célebre quadro Sagrada Família, um dos mais belos da pintura universal. Após várias exposições realizadas no Brasil, Espanha e Argentina, diversas obras de arte em mosaico encontram-se expostas permanente no Museu Judaico de Buenos Aires, Museu Sinagoga de Recife, Palácio do Governo do Maranhão e Instituto Cervantes Recife, além de diversas outras cidades e espaços públicos, como praças, igrejas, centros culturais, espaços particulares e painéis, sempre contribuindo no embelezamento do seu entorno.

São Pedro dos Clérigos / Recife Painel em mosaico sobre desenho realizado ‘’in situ’’ pelo arquiteto José Maria Plaza Escrivá

Buscando continuamente explorar novos caminhos, também representamos em mosaico delicadas linhas da beleza dos desnudos, femininos e masculinos, os quais foram expostos no Museu de Arte Contemporânea de PE e teve um painel 27


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Convento São Francisco/Olinda Painel em mosaico sobre desenho realizado ‘’in situ’’ pelo arquiteto José Maria Plaza Escrivá

simbolizando um atleta masculino desnudo, como os antigos corredores Olímpicos gregos, apresentado na mostra Rio de Janeiro e Barcelona: duas cidades olímpicas frente ao mar, no Instituto Cervantes Rio de Janeiro, durante os meses prévios ao RIO 2016. Do encontro artístico com o arquiteto espanhol José Maria Plaza Escrivá, nasceu uma frutífera colaboração hispano-brasileira, intensificando a vocação socioeducativa, através da Fundação Artístico Cultural Iberoamericana, agregando mais valores às atividades artísticas e ampliando as atuações.

A árvore da vida / Penápolis - SP Mural em mosaico na Praça, com 18 m²

A partir dos registros iconográficos desenhados in situ pelo Arqt. José Maria, são escolhidos os monumentos mais simbólicos de rotas, itinerários e caminhos dos mais significativos Patrimônios Artísticos e Culturais entre a Península Ibérica e América e produzidos painéis em mosaico, os quais são apresentados em exposições em museus e instituições culturais da Europa e América. Dessa maneira, o espaço do atelier, vem realizando mostras, Saraus Líricos e oficinas de mosaico, integrando-se totalmente ao seu entorno e à própria cidade ao 28


Paisagem impressionista / Shopping Center Recife - Recife Mural em mosaico com 3 m²

Paisagem Buganville / Shopping Boa Vista - Recife Mural em mosaico com 5 m²

Paisagem Dourada / Ferreira Costa - Aracaju Mural em mosaico com 3 m²

Desnudo masculino Painel em mosaico, desenho realizado ao natural pelo arquiteto José Maria Plaza Escrivá

Catedral Santiago de Compostela / Espanha Painel em mosaico sobre desenho realizado in situ pelo arquiteto José Maria Plaza Escrivá

Madonna / El Greco Painel em mosaico, desenho realizado pelo arquiteto José Maria Plaza Escrivá

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receber visitações em geral, além de escolas públicas e particulares, despertando novos horizontes às crianças, jovens e também aos educadores, cumprindo seu propósito de exercer uma função sócio educativa artístico cultural. Toda essa cultura e beleza partida da luz, realizada com a colaboração de jovens mosaicistas recifenses, está se difundindo pelo mundo, porém desta vez não a partir de Roma ou Bizâncio, mas, sim, de Pernambuco. 30


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LEMBRANÇA DE OSMAN LINS Carlos Felipe Moisés Como poeta publicou o seu primeiro livro, A Poliflauta do Bartolo, em 1960 . Entre 1962 e 1994 colaborou nos jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde e O Estado de São Paulo, e nas revistas Isto é e Visão como crítico literário. Tem vários livros de ensaio publicados. Com doutorado em Letras, tornou-se professor da USP. Também foi professor de literatura brasileira na Califórnia. Como poeta, entre outros, publicou Círculo Imperfeito (1978), Subsolo (1989) e Lição de Casa e Poemas Anteriores (1998).

1 No início da Primavera de 1979 (Osman Lins nos deixara fazia menos de um ano), a pequena comunidade de latinos ligada ao Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia, em Berkeley, alvoroçou-se com a chegada de Julio Cortázar, que iria passar entre nós três longos meses. Não foi o primeiro escritor latino a passar por lá. Já tínhamos tido a companhia de Vargas Llosa e outros viriam: Manuel Puig, Augusto Monterroso... Cada uma dessas visitas foi, a seu modo, memorável, como a de Vargas Llosa. Na conferência que fez para o grande público, o escritor peruano desencadeou verdadeira romaria de estudantes ao meu gabinete (eu era o único brasileiro nas imediações), todos interessados em conhecer Os Sertões, livro ao qual ele não poupara elogios. Vargas Llosa trabalhava então no seu Guerra do Fim do Mundo, que sairia em seguida. Na oportunidade, improvisei, com orgulho, várias minipalestras sobre Euclides da Cunha.

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Na verdade, eu invejava “nuestros hermanos”, que podiam convocar quantos escritores quisessem, para atividades quase sempre mais atraentes que as aulas propriamente ditas. Por que não trazer para o nosso convívio Lygia Fagundes Teles, Antônio Callado, Campos de Carvalho, Nélida Piñon, Ferreira Gullar e tantos outros? Fiz o que estava ao meu alcance. Comecei pela chefia do Departamento, passei pela diretoria do Instituto de Estudos Latino-americanos, fui ao Dean, ou melhor, à secretária do Dean de Humanidades (ao próprio, não tive acesso), e nada: estamos em crise, não temos verba. E os latinos de fala espanhola?, eu perguntava. Ah, existem várias instituições culturais, nos Estados Unidos e nos países de origem, que patrocinam a sua vinda. Tentei recorrer ao nosso consulado em San Francisco. Outra vez: nada.


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Só então me dei conta: no Departamento de Espanhol e Português, éramos dez professores, nove dos quais lidavam com literaturas de língua espanhola (do Siglo de Oro ao boom latino-americano) e só um, eu, com literatura brasileira e portuguesa. O jeito foi me conformar, e aproveitar a oportunidade para usufruir do contato com escritores como Cortázar. Um dia ele entrou em meu gabinete e perguntou se eu conhecia Osman Lins. Falou-me com entusiasmo do encontro que eles tinham tido, pouco antes, em Frankfurt. Elogiou a beleza extraordinária de Avalovara, romance que ele leu e passou a admirar. Cheio de orgulho, puxei da estante o meu exemplar. Ele começou a folhear, com ar de agrado, e se surpreendeu com a dedicatória de Osman. “Então você o conhece (logo corrigiu: conheceu-o) pessoalmente?” Voltei à estante e fui espalhando na mesa O Visitante, O Fiel e a Pedra, Guerra sem Testemunhas, Nove Novena... De repente, um estalo. Lembrei-me de ter lido, em alguma parte, um texto de Osman sobre Frankfurt, e acabei por encontrar: “Relatório de Frankfurt”, capítulo de Do Ideal e da Glória, saído em 1977, pouco antes de eu viajar para a Califórnia. Cortázar não o conhecia. Ficou interessadíssimo quando lhe revelei que Osman o mencionara. Li em voz alta (pode ser em português mesmo?, ele disse que sim): Quem já leu Guerra e Paz não pode ter esquecido Pedro Bezukow. Julio Cortázar, o autor de Rayuela, não é gordo nem corpulento [...]. Mas, como Bezukow, tem “aquele ar ao mesmo tempo ingênuo e perspicaz, inteligente e tímido que o distinguia de todos os presentes”, dominados por sua estatura incomum. [...] Como sucedia sempre em Frankfurt, encontrei-o numa festa. No centro da sala, Cortázar, devido a sua altura, que o põe quase fora do alcance das outras pessoas, e também por ser um homem delicado, curvava-se na direção dos interlocutores e fitava-os com os olhos muito abertos, como se fosse um pouco surdo e se esforçasse por captar o que diziam. Combinamos um encontro em Paris e, durante a festa, via-o de longe, a planar sobre os demais, parecendo um balão extraviado, à procura da saída e dos ventos noturnos.

Cortázar pareceu deslumbrar-se com o singelo retrato. Pediu-me para repetir, queria se certificar de que nada lhe escapara, mas já agora implorou: despacito. Aí ficou deveras comovido. Seus “olhos muito abertos” divagaram na direção da estante, como que a indagar se eu ainda escondia ali outras preciosidades de Osman Lins. Depois murmurou umas frases breves, nas quais só consegui distingir: “Tolstoi, sí, claro, Tolstoi... la salida, los vientos nocturnos...”. Levantou-se, agradeceu e convidou-me para a cerveja que ele todos os dias tomava no fim da tarde, na companhia dos estudantes e um ou outro colega, numa das cantinas do então florido campus de Berkeley. Osman gostaria de ter estado lá. 2 São Paulo, 1973. Logo depois da última aula da tarde e antes da primeira da noite, corro para a Livraria Cultura, Avenida Paulista,Conjunto Nacional. Era o lançamento de Avalovara. E já encontro lá uma multidão de admiradores de Osman Lins. Compro

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o meu exemplar e me ponho na fila de autógrafos, que dava algumas voltas no saguão da livraria. Feliz com o belo exemplar em mãos (e já conformado: quem sabe chego para a segunda aula), comecei a ler: No espaço ainda obscuro da sala, nesta espécie de limbo ou de hora noturna formada pelas cortinas grossas, vejo apenas o halo do rosto que as órbitas ardentes parecem iluminar – ou talvez os meus olhos: amo-a – e os reflexos da cabeleira forte, opulenta, ouro e aço. Um relógio na sala e o rumor dos veículos. Vem do Tempo ou dos móveis o vago odor empoeirado que flutua? Ela junto à porta, calada. Os aerólitos, apagados em sua peregrinação, brilhavam ao trespassarem o ar da Terra. Assim, aos poucos, perdemos, ela e eu, a opacidade. Emerge da sombra a sua fronte –clara, estreita e sombria.

E por aí fui, inebriado. (Pouco depois, uns amigos comentaram ter estranhado, eu ali na fila, sem tirar os olhos do livro, sem cumprimentar a ninguém... “A culpa é do Osman”, expliquei.) Ao chegar a minha vez, diante do escritor, disse-lhe que já tinha lido mais de dez páginas, e exclamei: “Poesia pura, Osman! Poesia pura!”. Estávamos de pé, ainda nos abraçávamos. Ele cochichou: “É, são umas centenas de páginas, na expectativa de que uma ou outra tenha algum sopro poético, e você já foi encontrando poesia nas primeiras... Fico feliz”. Daí por diante, passamos a brincar com isso, esporadicamente. Ele uma vez disse admirar o fato de eu ser poeta. Eu retribuí: o que eu mais queria era ser prosador, mas para escrever uma prosa que tivesse o vigor poético da sua. Como não sou capaz, escrevo os meus poemas. Dão menos trabalho: só algumas palavras, poucas frases, uma página inteira não dá um parágrafo da sua prosa. Poeta? O que eu sou é um prosador preguiçoso. Só assim faz sentido a dedicatória que ele colocou no meu exemplar de A Rainha dos Cárceres da Grécia: “Para o Carlos Felipe Moisés, poeta e ensaísta, abraço amigo do prosador aspirante a poeta, Osman Lins”. 3 São Paulo, 1966. No último ano do meu curso de Letras, eu lecionava no Cursinho do Grêmio da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Três colegas, professores do mesmo Cursinho, tinham resolvido montar uma livraria. Batizada Sagarana, a loja se instalou na Galeria Nova Barão, entre a Rua Barão de Itapetininga e a Sete de Abril. Sabendo que eu estava para lançar um livro de poesia (Carta de Marear, o meu terceiro), os colegas propuseram que o lançamento fosse na livraria recém inaugurada. No dia, os sócios da Sagarana suspenderam suas aulas. Mais dois ou três colegas-professores se solidarizaram, e convocaram os alunos para comparecer. Resultado, a Galeria foi tomada por uma horda de jovens entusiasmados com aquela inesperada noite de folga, no árduo caminho que eles tinham a percorrer até o Vestibular. Foram vendidos 240 exemplares do livro. Nas duas experiências anteriores, somadas, eu não tinha chegado perto disso. E nunca cheguei depois. Espremido atrás de 34


uma pequena escrivaninha, no mezanino, eu já tinha perdido a conta das dedicatórias que assinara, quando de repente avisto, no meio da algazarra ali formada, ninguém menos que Osman Lins, com um exemplar do livro debaixo do braço. Como sempre, elegantemente trajado, paletó e gravata, em contraste com o estilo bicho-grilo reinante. E discretamente postado na fila dos autógrafos. Difícil descrever o que senti: surpresa, espanto, vergonha. Levantei-me, ignorei a fila à frente dele, fui abraçá-lo, como que a pedir desculpas: “Osman, não era pra você ter vindo... Enfrentar esse tumulto, esse desconforto... O seu exemplar estava separado, eu ia lhe entregar dia desses”. Ele ficou quase bravo: “Não senhor, um autor não deve dar seus livros a ninguém. Livros devem ser comprados. E o escritor tem que prestigiar os demais escritores”. Não foi um gesto de cortesia. Foi o cumprimento de um princípio do qual Osman nunca abriu mão. Fazia pouco tempo que eu o conhecera, numa roda que frequentava a casa de José Paulo Paes, de quem eu já era amigo, e às vezes me pedia colaboração, como tradutor, para a Editora Cultrix, que ele dirigia. Era uma roda de escritores e professores, todos famosos e prestigiados, como Osman, todos mais velhos que eu, pessoas da geração dos meus pais. Talvez por isso, a aproximação foi discreta. Só nos avistávamos ocasionalmente, nessas reuniões. Daí a surpresa: Osman ali, no lançamento de um livro meu, em meio àquela balbúrdia. E a surpresa maior: ele me considerava um escritor, como os demais da sua roda. Eu não sonhava com isso. Aprendi, fui aprendendo aos poucos, graças em parte ao gesto de Osman, que escrever não é só a satisfação de um desejo ou impulso íntimo. É também um compromisso que se assume com os camaradas de profissão e com toda a sociedade, no rumo da fraternidade. A partir daí, começamos a nos aproximar. Orgulho palpável! Aquele grande escritor, que eu já admirava antes de o conhecer, podia ser meu amigo.

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4 Berkeley, 1980. Eu tinha acabado de me mudar, do pequeno apartamento em que morei por dois anos, nas imediações do campus de Berkeley, para outro, bem maior, numa cidade vizinha, El Cerrito. A distância não era problema. Antes, eu dava alguns passos e já estava no meu gabinete. Agora, caminhava o mesmo tanto até a estação mais próxima do BART (Bay Area Rapid Transitt, o metrô da região) e saltava numa das entradas da Universidade. O aluguel? Menos da metade do que eu pagava pelo luxo de morar ao lado do campus. Logo soube por que: o apartamento de El Cerrito estava em condições deploráveis, lesado por levas de inquilinos pouco civilizados. Aconselhei-me com um colega do Departamento. Ele me sugeriu arregaçar as mangas, comprar umas ferramentas e uns materiais e, nos fins de semana, dar eu mesmo um jeito naquele lugar maltratado. Orientado pelo colega, adquiri um pacote de ferramentas, lixas grossas e finas, latas de tinta e verniz, ferragens várias. Eu não sabia lidar com nada disso, mas, pensei, tenho agora um bom pretexto para começar. Levei a tralha toda para casa e aos poucos fui aprendendo a lidar com pregos enferrujados, madeiras empenadas, roscas que não rosqueavam, etc, etc. Em cerca de um mês, todas as portas e gavetas de todos os armários funcionavam sem reclamar e sem se desmantelar; o banheiro, limpinho, reluzia com a espécie de forro que apliquei, no chão e nas paredes; os quartos ficaram até perfumados com a nova pintura; a sala ganhou vida com as cortinas e a reforma que fiz nas paredes, forradas de madeira,que eu lixei, poli e envernizei, um verniz discreto, sem brilho (acho que nós chamamos “cera”), recomendação do colega norte-americano que me instruíra e estimulara. Chamei o manager para ver a obra, ele quase desmaiou de espanto. No dia seguinte, apareceu com o proprietário, que quase desmaiou também, me abraçou, brindamos com umas cervejas e ele, na minha frente, ordenou ao manager:“Nosso amigo tem dois meses grátis de aluguel”. Então me lembrei de Osman Lins – que tem tudo a ver com o episódio, claro. Muito tempo atrás (nós mal nos conhecíamos), ele um dia me perguntou o que eu andava fazendo. Fui desfiando: faço o meu curso de Letras, mas dou minhas bicadas nas aulas de Filosofia, os cursos são no mesmo prédio (o da hoje histórica rua Maria Antônia – ninguém sonhava com Cidade Universitária); dou minhas aulas no Cursinho, escrevo umas coisas, e no tempo que sobra leio de tudo, muita literatura, claro, e um pouco de filosofia, sociologia, história, antropologia, psicologia. Ah, ia me esquecendo: uma vez por semana encontro um grupo que estuda antroposofia, depois nos dedicamos ao cinema. Você sabe, Antonioni, Godard, Kurozawa, Bergman... Ele sorriu, não disse nada. (Eu é que na hora não reparei: ele só fizera guardar o comentário certeiro para mais adiante). A conversa prosseguiu. Às tantas, ele observou, discretamente, como se a reprimenda não fosse para mim: viver enfurnado em especulações abstratas, alta cultura, pode fazer mal ao indivíduo, ele perde o contato com a vida real. O intelectual precisa também, de vez em quando, usar as mãos, lidar 36


com coisas palpáveis. E, como quem não quer nada, perguntou se eu dominava algum ofício, se me dedicava a algum trabalho manual. Respondi que não, nada de trabalho manual, eu mal sabia distinguir entre uma chave de fenda e um alicate. Isso não era comigo. Depois de fazer o discreto elogio do ofício de alfaiate, ele desconversou. Na hora não percebi nada (Osman está de gozação, pensei) e esqueci o assunto. O intelectual precisa, também, usar as mãos? Onde já se viu?! Levei quase vinte anos para me dar conta do que Osman quis dizer, e só não disse por delicadeza: pare com isso de querer provar ao mundo que você não precisa da força dos braços para sobreviver, que sobrevive muito bem com o intelecto. Em El Cerrito, noitinha, estirado numa poltrona da minha nova sala (a mulher e as crianças dormiam em paz), olhei em volta e admirei, com orgulho, o lindo, o esplêndido apartamento que eu reformara com estas mãos inábeis e até então praticamente inúteis. Só escreviam. Osman gostaria de saber disso. 5 São Paulo, 1967. Marcáramos de nos encontrar em sua casa, às onze horas da manhã. Era um assunto de interesse comum. Conversaríamos até por volta do meio-dia e sairíamos para almoçar nos arredores. As circunstâncias em que o encontro se deu e a conversação que travamos foram tão inusitadas e marcantes, para mim, que me esqueci por completo do assunto que gerou o encontro. Cheguei antes da hora marcada, obsessão que me segue desde a infância: respeitar os horários, fazer o possível para jamais deixar quem quer que seja à minha espera. A criada atendeu à campainha, já sabia da minha visita, pediu-me para aguardar na sala. Espiei o relógio: onze horas menos vinte minutos. Ela trouxe uma bandeja com um copo d’água e um café. Fui bebericando: quinze para as onze. Olhei em volta: quadros, peças de arte sacra, umas pratarias, objetos de adorno do mais apurado gosto, tudo muito aconchegante, sem ostentação. O relógio, implacável, não parava de se mostrar, exibido: cinco para as onze.

Versão ampliada do depoimento prestado no Simpósio 40 anos de Avalovara (Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, 23/10/2013), sob a coordenação de Sandra Nitrini e com a participação de pesquisadores da obra de Osman Lins. (Disponível em video.mp.br/portal/video/video.action;jsessionid=0E4bb9D 3Ed907766223A771DC5A4F93A?iditem=20777.)

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ALAIN MABANCKOU: AUTOR-ATOR AFRICANO Francisco Soares É professor há mais de vinte anos de literatura africana de expressão. Atualmente leciona nas Universidades de Évora e da Katiavala Bwila, em Benguela. É critico literário, poeta e fotógrafo.

Alain Mabanckou é um romancista e poeta cada vez mais relevante no mundo francófono e africano. Além das qualidades da sua escrita, é o que podemos chamar de autor-ator, ou seja, um autor que trabalha a sua figura pública de maneira que parece estar a representar um papel no teatro. Claro que todos os escritores compõem uma figura pública e a reiteram constantemente. Só que a maioria compõe a figura de uma pessoa normal e respeitável, ou compõe a figura do que se espera de um autor nos dias de hoje, repete-a constantemente e com ar sério, reitera-se como sujeito público empenhado na melhoria da sociedade e comprometido com boas causas, ou seja, compõe uma figura canónica dentro dos parâmetros admitidos para a função social de escritor e sugerindo que ela corresponde ao sujeito real. Mabanckou não corresponde a esse tipo de escritor, antes lembra a «Herança estética» de M. António: veste-se de forma exuberante, cores garridas sempre que possível, compondo com as roupas e os chapéus uma figura que faria inveja e furor em qualquer subúrbio da ‘África negra’, rindo como nós nos ríamos (M. António), sem ter medo de que o acusem de satisfazer o estereótipo europeu do ‘negro’. Pelo contrário, ele joga livremente com o gosto público das grandes cidades da ‘África negra’, brinca reinventando e pervertendo estereótipos os mais diversos e deve divertir-se bastante, espalhando uma energia positiva entre os oceanos. Ele nasceu na República do Congo em 1966, ou seja, três anos antes de ela virar República Popular do Congo. Viveu em França durante cerca de quinze anos e partiu depois para os EUA, onde se tornou professor universitário (literatura francófona) e de escrita criativa. 38


Tem sido bastante premiado, com obra suficientemente vasta, onde ressaltam cinco romances e muitas recolhas de poemas e novelas. Apesar disso, a sua escrita mantém a frescura dos dias de juventude e surpreende-nos a cada instante. Em 2006 saiu, em Paris, o romance pícaro Mémoires de porc-épic, um dos seus grandes sucessos, a par de Black bazar, Lumières de Point-Noire, ou Verre cassé. Mémoires de porc-épic foi traduzido para português (Mabanckou, 2007) e apanhei há poucos anos a 2.ª ed. port.ª já. O livro tem mesmo todas as condições para se tornar um clássico da literatura africana e mundial, parecendo-me que a sua receção caminha, justamente, nesse sentido. Para o leitor entender cabalmente o romance, convém saber que há, entre os mitos congoleses, um segundo o qual certas pessoas, que passaram por uma iniciação, possuem um duplo, que geralmente encarna sob a forma de animal. Esse duplo pode ser nocivo. Ele obedece ao seu duplo, ou senhor, em tudo e, realizando as suas vontades, o torna perigoso. O romance do porco-espinho (Mémoires de porc-épic) joga com esse mito. Como se calcula, um porco-espinho, ainda por cima duplo nocivo de uma pessoa a quem obedece em tudo, não é propriamente uma figura moral, pelo que tem muito boas condições para se tornar uma personagem pícara. Logo aí, devemos parabenizar o autor pela sua escolha, de resto muito sugestiva também. Porque, por exemplo, o pícaro não estava previsto na lenda tradicional em que Mabanckou se baseou. É que o autor se posiciona muito livremente, quer em face das tradições e seus caciques ressequidos, ironizados no romance, quer em face dos intelectuais ‘modernos’ africanos, bem vestidos e bem-pensantes, que denunciam as tradições orais como fontes de obscurantismo e o seu estudo como ainda uma forma de manter os africanos na ignorância e sob uma perspectiva exógena. Ambos saem parodiados, como também os etnólogos, ou antropólogos sociais, os académicos ‘ocidentais’, os políticos da nova África e o ser humano em geral, com suas fraquezas e mazelas morais – bem como o próprio duplo nocivo. 39


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Ao contar a estória do porco-espinho, em primeira pessoa, com um discurso que mistura a escrita automática e a narração oral, o ritmo da fala quotidiana e o da conversa de café e de quintal, o autor revê uma dupla tradição também: a das oraturas africanas (alterando livremente a lenda e ironizando alguns provérbios, bem como mostrando a pertinência de outros) e a da história literária europeia, que também comenta e também livremente, sem qualquer complexo de colonizado. Isso o deixa numa posição que, aproveitada com muita liberdade, lhe permite, baseado numa lenda e crença tradicionais, torna-se um ponto central dos cruzamentos e caminhos por que passam as literaturas africanas e europeias, bem como todas as literaturas globalizadas hoje (alguma ainda não é? Pior para ela). Esta narrativa constitui, por isso, uma grande alegoria do estado mental e cultural de muitos escritores africanos de hoje, em particular de origem banto. Ao reinterpretar, como africano contemporâneo, não só a sua herança tradicional, mas também a história literária europeia, ou de referência europeia, o autor consegue meter a sua lança fora de África e obrigar a rever diversas das valorizações que damos por adquiridas. Mas o fundamental é a liberdade, o conhecimento, a ironia e o bom-humor que animam este livro e o tornam, mesmo, de leitura apaixonante. Fundamental, ainda, o sentido de ritmo que anima aquela prosa e que a tradução não perverteu. Do princípio ao fim é como se estivéssemos numa conversa de Domingo, sacudindo o sono da leitura. Só um autor suficientemente globalizado e, ao mesmo tempo, enraizado consegue realizar uma peça destas sem dar sono e sem apelar à nossa complacência, antes reativando os melhores estímulos que a literatura tem produzido em todos os séculos e em todos os lugares.

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Tanussi Cardoso, poeta do lirismo a pino Astrid Cabral Astrid Cabral nasceu no Amazonas, mas há muitos anos está radicada no Rio de Janeiro. Poetisa consagrada, foi professora de Literatura em importantes Universidades no Brasil e no exterior. Além dos muitos livros de poesia, publicou crítica, ficção e traduções.

O título Eu e outras consequências logo nos oferece a chave para penetrar o último poemário de Tanussi Cardoso: eis que o leitor se defrontará com vasto e profundo mar de subjetividade em denso intercâmbio com o mundo circunstante. O que ressalta na intensa dinâmica de interior versus exterior é a profunda comunhão que vai se estabelecer entre as duas esferas antagônicas e conflitantes, reduzindo o fosso abissal que costuma separá-las. O real em torno, ainda que violento e fragmentário, vai comparecer amorosamente abraçado por Tanussi, que acata a recomendação de Nietzche sobre o necessário acolhimento do caos como gerador de estrelas. A incorporação da realidade objetiva ocorre através de múltiplas perspectivas voltadas para memórias da infância, vivências cotidianas e indagação do mistério existencial. O novo livro se estrutura, portanto, em 3 distintas, mas não blindadas partes: Da colheita, Do encontro e Do enigma. A colheita se baseia nos cacos de espelho que o museu da memória guarda, conforme o fabuloso metafórico insight de Jorge Luis Borges. Mas as remotas lembranças tanussianas afloram contornadas pelo halo de reflexões indagativas e timbradas pelo criativo espanto “que o espanca”. Tanussi Cardoso é poeta do lirismo a pino. Produz uma poesia sem contaminações com o reles, sem concessões ao banal rasteiro. Vai do transbordamento à contenção, dos vastos mares à minúscula gota d’água. Daí os versos extensos e os versos mínimos que se alternam em forte contraste através do livro. “O inferno cronológico ou 41


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seis visões da Guernica de Picasso” se desdobra em longa série de poemas de cunho épico e onírico celebrando a crueldade da Morte, enquanto outros primam pela concisão, atingindo o epigramático auge de um verso único, prenhe de poderosas significações como “Todo rosto é máscara que se move”. Sempre intenso, uma vez que visceralmente vinculado à pujança emotiva, o poeta expõe com absoluta sinceridade intuições singulares, delineadas com preponderância de contundente percepção visual, sob o famoso “olho do tigre”, traço marcante de sua dicção poética. A primeira parte, que denominou Da colheita, abrange, “dissolvida na neblina” e em abundantes enumerações, a infância suburbana, de onde emerge o casarão de Cachambi e se sucedem vários entes familiares em meio a pungentes recordações inaugurais. Emergem também a premência de sua vocação poética (o recorrente tema da palavra em geral e de sua própria voz) os mortos que o habitam e a Morte coletiva mais seu cortejo de horrores, além de considerações sobre a existência em seu todo, bem como seu específico ser individual. Porém o passado não prevalece sobre o presente arrastando-o à nostalgia, uma vez que afirma em gesto salutar: “eu não sou/de onde nasci//eu não sou de onde vim// eu sou/onde estou//eu sou/onde sou”. Ampara-se também na certeza de que como poeta não está condenado à voraz fugacidade cósmica, graças ao “Grão” que produz: “Diariamente construo/não a minha vida.//Mas o que dela existir/enquanto morto.” Na série “Palavras & poeiras” Tanussi medita em narcísico exercício sobre sua inconfundível voz poética, mas é em “Iluminação” que ele nos revela a autonomia do poema, aludindo ao abismo entre o estado consciente e o inconsciente, poço e fonte de que jorra a poesia. São epifânicos os versos: “É o poema quem diz/o que o poeta não fala” Na segunda parte, Do encontro, o tema fulcral será o do cotidiano vivido nas cidades, mas como subjaz na epígrafe de Saramago, ele nos apresentará a particular “cidade pequena” em que vive de fato, ou mesmo aquela irreal do desejo ou da memória. Duas são as urbes que se delineiam geograficamente, Rio de Janeiro e Ciudad de México, ambas, no entanto, metamorfoseadas pelo olhar seletivo e transfigurador de Tanussi. Além disso, gerando certo equilíbrio, observa-se forte contaminação temática no conjunto, pois os poemas de cunho nitidamente urbano competem em número com aqueles de fundamental presença da natureza. Isso para não falar de alguns eventuais poemas metapoéticos e de versos afins desse gênero que de certo modo assaltam e se impõem dentro de outra composição maior. Em “Impressão de viagem”, por exemplo, múltiplos versos anafóricos vão cantar, no corpo de um poema urbano, a precedência da criação poética sobre a realidade exterior, inclusive afirmando-lhe triunfante fusão ao final. “E em algum momento, sobre o chumbo de sangue das pirâmides,/ la Ciudad e o poema são a mesma coisa.” 42


O setor abre-se surpreendentemente com a visão de um rio que viaja ao encontro do mar. Nesses versos já se amalgamam metonímias que remetem à esfera da cultura: “um rio é entre/sombras de sol e medo/cabrais roseanos/cruzes epitáfios.”, mas a natureza vai prevalecer numa sequência de cinco belos poemas celebratórios do mundo natural e onde se destacam “Poema para qualquer ano novo” e “Divagações metafísicas sobre a morte de um pombo”. Além de certo desencanto carioca, o arraigamento do poeta ao mundo divino do primitivo torna-se evidente no poema “Cotidiano”, que encerra a segunda parte do livro com o verso: “O poema: cavalo pronto a ser montado.”, após o desabafo que sugere o mal-estar citadino: “o bar o ônibus o cinema a loucura a raiva o céu/convidam ao definitivo suicídio.” Do enigma, terceira e última parte do livro, vai desenvolver-se em torno do amor, desencontros, contradições, mistérios. A percepção do erótico chega a extrapolar o humano, abrangendo os insetos e o mundo vegetal. Leia-se a exemplo: “Duas moscas trepam sobre a mesa./Na fruteira,/A rubra vergonha das maçãs”. No tratamento do tema, dois aspectos de linguagem se destacam. Há poemas em clima de diálogo, por serem declaratórios e vocativos, já que endereçados ao ente amado. Outros, despidos de persuasão, são autotélicos e meditativos, ao se debruçarem sobre o fenômeno emotivo em si, tecendo amplas considerações. Entre estes se sobressai a composição “Sobre o amor”, onde Tanussi Cardoso analisa filosoficamente esse sentimento-mor, apontando-lhe não só verdades e contradições, mas sobretudo a grave precariedade que lhe é inerente. Observa-se, aí, demonstração verbal de rara sabedoria, através de versos que vão se elencando num crescendo emotivo: “O amor é assim: queima no peito/e explode como vulcão./ Deixa cinzas e rastros./Covarde,/porque sabe que nenhuma palavra/ é maior que o não.” Tanussi Cardoso, no livro atual, revisita temas centrais de obras anteriores: eros e thánatos, laços de família, a apaixonante criação poética que o imanta e desafia a “ouvir a pronúncia de Deus/ou seu Silêncio”, pois conforme ele mesmo já afirmou: “o poeta é só/um homem/dentro/ de Deus”. Tais reiteradas e básicas questões muitas vezes se justapõem e se mesclam em extraordinária aliança. É o que acontece no poema: “O morto que vive em mim”, onde o poeta instaura no próprio corpo o milagre da ressurreição do amado, graças à sacra proeza de anulação da morte pelo amor. Ainda ecoa em nós os versos de seu belíssimo livro anterior, “Exercício do olhar”: “sonho em desaprender a lucidez/que me atormenta”. No entanto, como conseguiria Tanussi desembaraçar-se do agudo e comovido olhar com que contempla a condição humana, e que o caracteriza como exímio artista da palavra? Assim é que, ora, nos confessa: “Deus consegue dormir o sono dos justos./ Só eu, aqui, olhos abertos, explodo.” 43


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A proximidade distante da esperançaConsiderações em torno do romance A esperança é uma travessia de Laila Lalami Zuleide Duarte É doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Foi professora da UFPE , atuando na pós-graduação. Atualmente é professora titular da UFPB. Tem trabalhos publicados em livros e revistas internacionais.Possui 5 livros, entre ensaios e ficção, recebeu 5 prêmios e coordena vários projetos de pesquisa.

O desejo de fuga para uma realidade menos dolorosa, a promessa, às vezes vã, de melhores condições de vida habitam o imaginário de pessoas vivendo sob regimes totalitários ou recém libertos desses, criando a ilusão de que se pode deixar, definitivamente no passado, a experiência/vida que se quer apagar. O esquecimento como meta para construção de uma nova realidade é atravessado por lembranças recorrentes e por obstáculos às vezes instransponíveis ou quase. O sonho alimentado de transpor barreiras, romper os diques que represam as possibilidades de passos mais além é acompanhado pelo sentimento de esperança, de fé na vitória contra obstáculos da mais diversa ordem. O primeiro conflito enfrentado por quem deseja migrar é pessoal e intransferível. Arrancar-se da terra natal deixando família, amigos, afetos é a primeira batalha. A decisão não anula o sofrimento mas deixa-se substituir, pouco a pouco, pela fantasia de ganhos maiores. A imaginação do futuro migrante viaja nas belezas da terra prometida, eterno mito do eldorado. O sofrimento, a saudade, as privações e, principalmente, os riscos de uma empresa nem sempre segura dão lugar ao idílio com a miragem, o longe, a terra do porvir. Paralelamente, há uma forte indústria de captação de indivíduos que se endividam e arriscam o pouco que têm numa aventura incerta. É esta a situação das personagens Murad, Faten, Halima e Aziz no romance A esperança é uma travessia (2005) da autora marroquina Laila Lalami.

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Primeiro romance marroquino publicado em inglês, o romance teve enorme sucesso de público, inscrevendo as letras marroquinas no universo de língua inglesa. Para esclarecer, a excelente literatura marroquina contemporânea tem textos publicados em francês, em sua


grande maioria, em espanhol como nas línguas nacionais. Isto explica o fato de o Marrocos ter ficado sob o protetorado da Espanha e da França até 1956. Autores como Tahar Ben Jeloun, Fatema Mernissi, Driss Chraibi, Abdellatif Laâbi entre outros publicam em francês, enquanto Mohamed Zafzaf e Mohamed Choukri o fazem em árabe. Compreende-se que o árabe marroquino ou as línguas berberes não tenham muitos falantes fora do Marrocos daí a necessidade de calibanescamente, usar a língua do colonizador para divulgação mais abrangente da arte literária do país. Catorze quilômetros separam os pretensos migrantes do sonho de liberdade. A Espanha depois da curta travessia que se revela um autêntico desastre. O caráter clandestino da aventura enche de expectativa os viajantes. A ansiedade revela-se em passagens como CATORZE QUILÔMETROS. MURAD AVALIOU ESSE Número(sic) centenas de vezes no último ano, tentando decidir se valia a pena ou não. Houve dias em que dizia a si mesmo que a distância não era nada, uma pequena inconveniência, que a travessia levaria uns trinta minutos se o tempo estivesse bom. (p. 9).

Seria mesmo fácil, como Murad idealizava? O bote para a duzentos e cinquenta metros de Tarifa e o comandante exige que todos saiam do barco e nadem a distância que falta para a terra firme. O alvoroço reinante cai como uma bomba entre os passageiros que nem dispõem de muito tempo para a protestos porque o Zodiac (significativo nome para transportar destinos que querem mudar sua rota) acaba por virar. Quem conseguirá fugir da guarda costeira e chegar a Espanha? Esta interrogação se põe no primeiro capítulo do livro, intitulado “A viagem”, quando o narrador já apresenta cada personagem no seu cotidiano. Segundo Stéfhane Mosès,“o exílio não significa somente e talvez nem mesmo fundamentalmente, o distanciamento geográfico em relação ao país (lugar) de origem; o exílio é a separação ela própria, isto é um apartar-se em relação ao mundo e à sua história”(1982,p 186). Essa leitura reflete sobre a gênese desse exílio voluntário, para o locus do antigo colonizador (antigo protetorado), em busca de oportunidades de trabalho que garantirão desafogo econômico e assistência à família deixada na pátria, de conforto e da esperança de juntar-se aos queridos em melhores tempos. Esse tipo de exílio que motiva o homem, é retratado no texto de Laila Lalami como a nova busca da terra prometida. A velha e viciada terra do colonizador com a sedução do desenvolvimento, do bem viver, da novidade. Este atual e renovado canto de sereia leva Aziz Ammor a partir da casa dos pais, deixando ali Zohra, a esposa, a quem promete retornar em dois ou três anos. A partida do homem, em princípio, enfrentou uma grande oposição que afrouxou nos sucessivos meses de desemprego. A escassez de trabalho, as ofertas de atividades informais e um tanto arriscadas fizeram Aziz buscar lutar pelo dinheiro que lhe possibilitaria atravessar os tais catorze quilômetros. O enorme sentimento de culpa apoderou-se do homem na preparação da travessia. Sentia-se responsável pela esposa, deixada com os seus pais na expectativa do retorno dali a dois ou três longos anos. Aziz saboreou o pão, aspirou o aroma do chá, para levar na memória a pátria que largava, lançando-se ao sonho: Aziz tentou memorizar cada sensação que podia - o sabor do pão de trigo, o cheiro do chá de menta fumegando, a textura do divã debaixo dele, o som de seu pai dedilhando as contas da oração. Sabia, que, nos meses que se seguiriam, precisaria de cada uma delas para ajudá-lo a sobreviver..(94)

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Aziz sabia que no exílio, alimentar-se-ia das lembranças e do desejo de retorno. Aprovisionar as emoções aguçadas pelos sentidos, gravá-las no escrínio da memória era a forma de não perder os laços, de não se perder de si mesmo... A capacidade de perceber as coisas miúdas faz da narrativa de Lalami o painel da sociedade marroquina independente. A retirada dos protetorados, as refregas políticas por liberdade não deixaram o cidadão comum em condições mais favoráveis de vida. Em Rabat, como em Casablanca ou Tânger, os desvalidos da sorte continuaram o doloroso périplo em busca de dias melhores. Daí compreender-se o desejo do exílio, embalado pela ilusão de uma vida mais larga e, talvez mais feliz. A noção de locus amoenus onde aportar, afinal, após a caminhada, conforta mas parodoxalmente também angustia personagens/pessoas que partem, deixando para trás um passado que não se recolhe no olvido, confundindo-se com um presente de perdas, fatalmente aliadas à forma de ser e estar no mundo. Recorrendo a Frantz Fanon compreendemos esse exilado e seus companheiros de quem falaremos adiante como “condenados da terra,” considerando o fato de empreenderem uma viagem que os exila também, da possibilidade de sobrevivência no lugar de pertença, como o Adão de Heinrich Böll (Wo warst du Adam?, 1951)ou como o dilemático“José” de Drummond: marcham para onde? Aonde vão dar, na busca da vida perdida a cada movimento do Zodiac, a cada barulho sugerindo a presença da guarda costeira. Murad Idrissi também é passageiro do Zodiac. Homem instruído, formado em literatura, vivia de trabalhos esporádicos, mostrando o paraíso marroquino do escitor Paul Bowlesou o palácio de Bárbara Hutton aos turistas. O dinheiro que trazia para casa era pouco e vivia a expensas da irmã Lamya. Movera céus e terras para conseguir o dinheiro e pagar o pela travessia no Zodiac. Animava-o a esperança: Tudo vai ficar bem agora. Ele se consola com a antiga fantasia que o sustentava em casa, durante todas aquelas noites, nas quais não conseguia dormir, pensando em como pagaria o aluguel e alimentaria sua mãe e seus irmãos. Imagina o escritório no qual irá trabalhar, pode ver seus dedos movendo-se rápida e precisamente sobre o teclado, pode ouvir o telefone tocando. Imagina-se indo para casa, um moderno apartamento bem mobiliado, a esposa o cumprimentando, a televisão ao fundo.(p. 20).

Preso pela guarda costeira, Murad amargou a detenção e o interrogatório do inglório retorno. Não conseguiu ultrapassar os catorze quilômetros que o levaria a Tarifa e ao velho mundo novo, retornando humilhado e triste à condição anterior. Uma enorme vergonha apodera-se dele:” Como vai poder mostrar a cara em Tânger outra vez?”(p.22). A esperança de uma nova tentativa anima o sonhador Murad que calcula, com a venda das pulseiras da mãe, tentar novamente. Um emprego na loja de uma amigo do cunhado redirecionou o destino do rapaz. Entre tapetes, turistas e livros, o Murad se descobre um “contador de histórias”, criando um universo particular, capaz de abrigar os sonhos e a as fantasias que nunca o abandonaram. As esperanças do agora escritor, adquirem foros de realidade, pela escrita, exílio possível. Halima e Faten: destinos cruzados

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A jovem Faten também era passageira do Zodiac juntamente com Aziz, Murad, Halima e outros mais. Fiel seguidora do Corão, a jovem estreitou laços de amizade com Noura, a filha de importante autoridade marroquina. A convivência com Faten desperta em Noura o interesse pela religião e sua mudança de comportamento preocupa Larbi e Salma que logo atribuem a culpa da mudança à jovem amiga. O ambiente fica tenso quando, Noura se recusa a viajar para o estrangeiro(EUA) a fim de prosseguir os estudos. Intrigado, Larbiresolve pedir a opi-


nião de Faten que responde: Não acha que um diploma de uma universidade estrangeira seria melhor para ela? - Não, não acho. Acho que é uma vergonha valorizarmos sempre diplomas estrangeiros mais do que os nossos. Ficamos tão cegos de amor pelo Ocidente que estamos dispostos a dar-lhes o que temos de mais brilhante, em vez de manter tudo aqui, onde precisamos deles.(p. 50).

No discurso de Faten, a crítica à mania, tal como analisada por Álvaro Pageaux (2001): a mania de considerar melhor tudo o que vem de fora. O complexo de inferioridade, o preconceito herdado do colonialismo que levaa desprezar a cultura local, para buscar o brilho e a grandeza falsos do ocidente. Postura longamente cultivada pelo discurso eurocêntrico de suposta superioridade e excelência. Esclarecida, a jovem Faten sabe os riscos que corre com aquelas afirmações. Porém firme nas suas convicções ela ousa externá-las, para sua ruína. O ódio que Faten despertou no pai de Noura levou-o a tramar sua reprovação e consequente desastre na vida da jovem. Ao ser questionado pela filha sobre a possibilidade de ajudar a amiga, ele despeja todo rancor sufocado, respondendo com ironia;_”Não creio que seja possível. Precisaria infringir a lei. Extremamente não-islâmico, como você bem sabe, ele disse.” (p. 54). Larbi decidiu, num só golpe, o destino da filha Noura e da amiga Faten. Descobrindo os objetos de devoção de Noura, pensou na própria mãe e compreendeu o caminho sem volta que a filha escolheu. Já Faten empreendeu outra travessia, começando no bote inflável que a conduziu a Tarifa. Ali percebeu a necessidade de usar os recursos extremos de que fala o Corão. Para Faten, aceitar a corte do Guarda Civil espanhola era uma situação limite. Considerou: Não precisava falar espanhol para saber que ele queria fazer um trato com ela. Lembrouse do que seu iman havia dito na mesquita subterrânea em Rabat: que situações desesperadas pedem medidas desesperadas.(p.140)

Subjugada sexualmente pelo guarda, Faten viu traçar-se um novo destino: a vida acadêmica fica para trás, em Rabat. O uso do hijab, as contas para rezar, os sonhos de servir à pátria também se distanciaram. A devoção foi abalada com a mudança radical de vida. Faten precisava distrair os homens que a procuravam a fim de receber o dinheiro com que se mantinha no apartamento que dividia com Betoul. A desesperança, a amargura, refletem-se em pensamentos como os transcritos a seguir: Pensou em sua melhor amiga, Noura, lá em Rabat e ficou imaginando o que teria acontecido com ela, se mantivera o hijab ou, como Faten, teria parado de uasr. Noura provavelmente ainda o usava. Ela era rica; podia se dar ao luxo da fé. Mas, então, Faten pensou, Noura também podiase dar ao luxo de não ter fé; provavelmente achou que o hijab a limitava demais e acabou tirando-o para mostrar suas roupas de grife. O dinheiro tinha dessas coisas. Ele nos dava escolhas.(p. 137-38).

Empurrada pelo destino, a fanática seguidora do Corão tornou-se uma dama da noite, negociando o corpo antes sonegado aos olhares indiscretos, ciosamente protegido da cupidez de estranhos. Despir as vestes, deixar-se macular no corpo e na alma, representou, para Faten, o exílio de si mesma, de suas convicções mais arraigadas, de sua forma de se relacionar com o universo. Estrangeira para si mesma como disse Kristeva (1991), Faten escolhera alguém com quem não se encontrasse muito para dividir o apartamento. Como ela trabalha na noi-

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te, encontrou Betoul , funcionária diurna. Na Espanha Faten conheceu o estranhamento da desterritorialização (Deleuze e Guattarri, 1975) as datas festivas tinham sido esquecidas, o vestuário austero abandonado e até o exemplar do Corão jazia numa mesinha empoeirado pela falta de uso. Embalada pela atenção do adolescente Martín, a moça julgava estar diante de uma pessoa diferente. Afinal, ele demonstrava interesse pela pessoa e não só pelo sexo comprado. Entretanto, o sonho da idealista Faten desmorona ao constatar o interesse sexual após tantas tentativas de confidência. Desencantada, a moça pagou com o corpo e viu ruir seu ídolo de barro. Um diálogo desagradável acontece na última visita de Martín; -Por que você vem a mim? - perguntou Faten. - Há muitas garotas lá fora. Como Isabel e... -As mulheres neste país não sabem como tratar um homem. Não do jeito que vocês, garotas árabes, fazem. Faten sentiu a raiva crescer dentro dela. Queria lhe dar um tapa na cara. -Estive lendo - ele disse - sobre as obrigações da mulher para com o homem e essas coisas. É um assunto fascinante. (p.141)

O mesmo machismo odiado no próprio pai, no pai de Noura e em outros homens, aflorava com vigor no discurso de Martín. Propôs tomar conta dela, ajudá-la a conseguir situação legal perante a imigração e outros favores, pagáveis naturalmente, com serviços sexuais e subserviência. Era demais para a jovem. Despediu-se pedindo que não tornasse a procurá-la. Faten precisava reavaliar a vida naquele exílio. De repente, lembrou-se do eid (festa da quebra do jejum) e decidiu cozinhar os pratos tradicionais e aguardar a amiga para partilhar a refeição. Para Halima, mãe de família, provedora do lar, os maus tratos do marido Maati a levam a procurar o Zodiac com os filhos a fim de fugir à vida que levavam. Tentando divorciar-se do marido Halima encontrou preconceito social, exploração e toda sorte de achincalhe. Os homens representantes da lei também não agiram corretamente com ela. Ao questionar o juiz a quem tentou subornar se ele garantia para ela a guarda dos três filhos foi expulsa da casa com uma saraivada de impropérios. Halima sonhava migrar, como os irmãos instalados na França e em condições de enviar dinheiro para Fatiha, sua mãe. Ela, entretanto, com três filhos, sem dinheiro para aviar a documentação e, principalmente, sem tempo para aguardar nas imensas filhas à frente da embaixada, optou pela viagem clandestina quenão lhe saiu bem: jogada na água, Halima e os dois filhos menores foram salvos pelo filho Farid, que granjeou, a partir de então, a fama de santo. A fama do menino atravessou Casablanca e embora a mãe negasse a santidade, os vizinhos assediaram de tal forma que Halima acabou por consentir em certos toques e bênçãos, só para evitar maiores contendas. O menino, surpreso, interpelou a mãe: -É verdade?-Perguntou ele. -O quê? -Que sou um santo? -Deus o livre, menino - disse, balançando a cabeça. -Aquela mulher é louca. (...) -Então por que me pediu pra tocar no filho dela? -Porque aquele era o único jeito de conseguir que ela fosse embora. Você não viu? ... -Não pode fazer mal, certo? -Ao menos desse jeito ela foi feliz para casa. (p. 121)

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Halima sabia que a crendice grassava entre os marroquinos e na sua pouca informação não podia compreender como ainda precisava trabalhar para sobreviver, se tinha um santo em casa. Sua vida mudara desde o retorno porque saiu da casa da mãe, que sempre ficava contra ela nas questões com o marido e conseguiu, afinal, o divórcio de Maati. Tornou-se vendedora de beghrir (panquecas de semolina) no mercado e foi tocando a vida, transformada em venturosa mãe de um santo a quem até a truculenta avó Fatiha cultuava. O exílio revelou-se para os Aziz e Faten, únicos que lograram atingir a Espanha, um local de perdas das referências e malogro das esperanças. Aziz não conseguir levar a mulher para a Espanha pois na travessia perdeu-se dela e ela dela. Não imaginava a vida com Zohra na Espanha. À mulher restou a espera do papéis para migrar, que o marido jamais enviaria pois achava pois, ...não conseguia imaginá-la sozinha num apartamento, sem ninguém para conversar, enquanto ele trabalhava. E ele, também, tinha seus próprios hábitos agora... (p. 164).

Concluímos, recordando o poeta parnasiano Vicente de Carvalho com seu” Velho Tema” Velho Tema I Vicente de Carvalho Só a leve esperança em toda a vida / Disfarça a pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência, resumida,/ Que uma grande esperança malograda./ O eterno sonho da alma desterrada/ Sonho que a traz ansiosa e embevecida/ É uma hora feliz, sempre adiada / E que não chega nunca em toda a vida./ Essa felicidade que supomos /n’Árvore milagrosa que sonhamos/ Toda arreada de dourados pomos ,/ Existe sim: mas nós não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos/E nunca a pomos onde nós estamos.

Referências bibliográficas ANAYA FERREIRA, Nair Maria. Transulturación y Poscolonialismo en el Caribe anglófono. In:WELLE,F.S.(org). Multiculturalismo, Transculturación, Heterogeneidad, Poscolonialismo. México: Herder, 2011. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: pour une literature mineure. Paris: Minuit, 1975. KRISTEVA, Júlia. Estrangeiros para nós mesmos. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. LALAMI, Laila. A esperança é uma travessia.Rio de Janeiro: Rocco, 2007. MOSÈS, Stefhane. Systèmeet revelation: la philosophie de Franz Rosenweig. Paris: Seuil, 1982. PAGEAUX, Daniel Henri; MACHADO, Álvaro Manuel. Da literatura comparada à teoria da literatura. 2. ed. rev. e aum., Lisboa: Presença, 2001.

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UM OLHAR SOBRE A LITERATURA DE PAÍSES AFRICANOS QUE FALAM PORTUGUÊS Vera Sato Pesquisadora de assuntos ligados à cultura ibérica, articulista, pintora e escritora, é também diretora da UBE e componente da diretoria do GPL. Conselheira do FESTLATINO, Movimento que promove a cultura e línguas de origem latina. Residente no Recife. e-mail: artistaverasato@gmail.com

Em minhas andanças, tive a oportunidade de conhecer diversas pessoas, algumas delas me intrigaram, outras me inspiraram e verdadeiramente abriram meus horizontes, dentre estas, destaco Tânia Macedo e Rita Chaves, ambas professoras e estudiosas de literaturas africanas de língua portuguesa, que conheci na USP durante um encontro da lusofonia. Outra fonte de inspiração foi um encontro com o escritor Luandino Vieira. Estava eu a passear pela Galícia e pelo norte de Portugal, quando fui ao seu encontro, no antigo Convento de San Payo, nos arredores de Vila Nova de Cerveira, uma construção rústica em pedra situada no alto de uma serra isolada, local que fora adquirido pelo artista plástico português José Rodrigues, misto de residência e museu, e que na época estava sendo a moradia de Luandino. Ele me recebeu muito gentilmente e conversamos bastante. Um fato me intrigou: no ano de 2006 foi-lhe outorgado o Prêmio Camões de Literatura, com o valor pecuniário de 100 mil euros, que foi rejeitado, segundo o próprio, por “razões pessoais”. Perguntei-me quem era este homem, um escritor que rejeitava tão importante láurea? Conhecer as professoras acima citadas, bem como o Luandino despertou-me o interesse por este viés do conhecimento. Benjamin Abdala Junior diz: “As literaturas dos países africanos colonizados por Portugal formaram-se, enquanto sistemas, no decorrer do século XX. Procuraram afastar-se da tradição da Pátria, identificada com o poder colonial, construindo simbolicamente a Mátria africana, a “mamãe - África” , saudada em muitos poemas. Para tanto valeram-se também de repertórios literários românticos e modernistas da pátria brasileira, épocas de afirmação nacional “.

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Este texto é apenas uma breve e despretensiosa leitura de alguns autores africanos, esperando que a mesma convide ao conhecimento dos autores lusófonos de cultura africana.


INFLUÊNCIA DO BRASIL NAS LITERATURAS AFRICANAS A literatura dos países africanos de língua portuguesa, profundamente marcada pela história, traz o passado com matriz de significado. O contato com o mundo ocidental deu-se sob forma de choque. Como o desenvolvimento, houve ruptura na cultura africana. Esse passado colonial, as lutas pela independência, aconteceram na complexa conjuntura dos anos de 1970. No entanto, a independência dos diversos países não deu conta do projeto utópico que os africanos tinham em mente. A influência do Brasil na literatura africana é inarredável. No entanto, no Brasil, houve uma passagem mais longa, da literatura portuguesa para a brasileira propriamente dita. Os autores brasileiros se apropriaram da língua do outro (a língua portuguesa) e construíram a sua própria literatura. É essa utopia que os escritores africanos perseguem. As relações de convivência Brasil-África no início foram traumáticas, por conta do tráfico de escravos vindos principalmente de Angola. Com o tempo, essas relações foram se modificando, revitalizadas pelos escritores africanos, que, desde o século passado até hoje , são unânimes em afirmar, quer em entrevistas, quer em depoimentos, a força do Brasil como matriz fundamental na formação identitária e na consciência nacionalista. Para a África lusófona, o Brasil foi um catalisador, influência intensificada no Arquipélago de Cabo Verde e no distante Moçambique. O primeiro livro de poesia em português, publicado por um africano no continente, é do escritor nascido em Bengala em meados do século 19, José da Silva Ferreira que viveu algum tempo no Brasil. No livro de Ferreira anotamos os primeiros sinais de segmento romântico, apego à terra, apreço pela natureza, sementes de uma consciência nacionalista que se intensifica com o tempo. Os poemas desse livro nos mostram a ligação com o nosso Gonçalves Dias. A literatura brasileira sempre foi muito lida na África. Escritores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Érico Veríssimo e principalmente Jorge Amado. Muitos desses autores eram censurados pelos países africanos, mas chegavam, clandestinamente , aos leitores ansiosos por um mundo mais justo e mais livre. Em Amado, viam-se personagens que faziam parte do universo africano. A admiração pelos escritores brasileiros nessa época não se restringiam aos regionalistas, aos ficcionistas, estendia-se também à poesia. O lirismo de Manuel Bandeira apaixonava os escritores africanos e “PASÁRGADA,” de Manuel Bandeira, essa fantasia cantada em versos, tornou-se uma recorrência da poesia caboverdiana. A identificação com os brasileiros é também explicada pela língua, pela nossa raiz colonial, e alimentada pelos meios de comunicação. A Revista O Cruzeiro, consumida em países africanos, levava a nossa cultura e nossos costumes àquele povo. Nossa música popular e o nosso futebol os encantavam e os influenciavam. A literatura africana que fala o português é muito rica e tem escritores de valor reconhecido internacionalmente. Entre os mais conhecidos destaco Luandino e Pepetela, ambos angolanos. Nos anos 40, em torno da Revista Mensagem, temos os nomes Antonio Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz. São famosos, nas diversas Áfricas e em várias épocas, Ruy Duarte de Carvalho, Agostinho Neto, Ana Paula Tavares, José Eduardo Agualusa. Nas margens do Índico: José Craveirinha, Eduardo White, Luís Carlos Patrakim.

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TRES ESCRITORES AFRICANOS AGOSTINHO NETO Ao falar dos escritores africanos não posso esquecer Agostinho Neto, que teve desempenho político incontestável e produziu excelente obra literária. Nasceu em 1922 em Kaxikane, distrito de Luanda, Angola. Era membro do grupo de estudantes africanos que desempenharia um papel decisivo na independência de seus países, no que se chamaria a Guerra Colonial Portuguesa. Preso pela Pide (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) durante o período salazarista, ficou no Tarrafal, prisão política em Cabo Verde, indo mais tarde para a prisão em Lisboa. Quando foi libertado, passou a residir em Lisboa de onde foi para o exílio. Assumiu a direção do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola , do qual se tornou presidente. Em 1975 tornou-se o primeiro Presidente de Angola, até 1979 quando faleceu. Durante o período em quem foi presidente, mais precisamente em 1975-76 recebeu o Prêmio Lenin da Paz. Vale ainda ressaltar, que além do lado político, Agostinho praticava o seu humanismo através do exercício da profissão de médico. Exerceu com brilhantismo uma função literária, para isso não lhe faltam talento e experiência. Sua vivência ideológica, doutrinária e cultural, sua biografia, são fatores decisivos para torná-lo um grande escritor. São assuntos abordados por Agostinho, temas políticos e uma grande obra poética, a luta pela libertação nacional, a denúncia da escravatura, o racismo no período colonial e outros aspectos sociológicos. Muitíssimo conhecida, sua poesia de 1974, “Sagrada Esperança”. Temos também o Agostinho a escrever poesia amorosa, dedicada ao seu grande amor, sua esposa, a portuguesa Maria Eugênia Neto. De grande sensibilidade, a poesia dedicada à mulher amada: “Um bouquet para ti”. Bem representativa do pensamento e do sentimento do Agostinho Neto é o poema que transcrevo:

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A tua mão poeta atravessou os oceanos até mim A tua mão poeta encontrou-me sentado na ilha-África levantada no coração de Lisboa A tua mão poeta partiu de mim para mim pela tua voz pela tua voz ritmada das enxadas nos terrenos adubados pelo sangue da sujeição pela tua voz milhões de vozes fraternidade amor Situadas para lá das algemas para lá das grades Sempre livres sempre fortes sempre grito sempre riso A tua mão poeta um poeta de amor escrito com cinco dedos de África sobre a ânsia humana de amizade e paz A tua mão poeta sonorizando o batuque liberdade entre as cubatas escravas da vida Tenho-a na minha mão e através dela oferto-me à nossa África. (in Renúncia Impossível)


LUANDINO VIEIRA Nascido de pais portugueses e também português, recebe o nome de José Mateus Vieira da Graça. Em 1935, ainda menino, vai viver em Angola, entrando em contato com o povo pobre e desvalido nos bairros populares numa Luanda colonial. Em fins dos anos 40, surge o Movimento dos Novos Intelectuais em Angola: a vida cultural em Luanda é efervescente, concursos literários, lançamentos de jornais e revistas, fundação de cineclubes, etc. A finalidade era aglutinar pessoas e mobilizar discussões sobre a situação colonial. José Mateus, então adolescente, entusiasmado com este ambiente, adota Angola como sua terra e seu povo, muda de nome e traça o seu futuro numa luta sem trégua. Dessa memória e dessa experiência irá compor-se uma das matrizes literárias do escritor. Para Luandino são anos difíceis. Este pseudônimo que era utilizado de início para os desenhos editados num dos jornais, é incorporado ao autor e à sua personalidade. Na sua obra João Vêncio - os Seus Amores, um simpático marginal que divide com o intelectual sua pequena cela, confessa seu amor pela cidade: Muadiê: eu gramo de Luanda - casas, ruas, paus, mar, céus e nuvias, ilhinha pescadórica. Beleza toda eu não escoiço. Eu digo: Luanda - e meu coração ri, meus olhos fecham, sôdade. Porque eu estou cá, quando estou longe. De longe é que se ama.

Sua militância valeu-lhe anos de prisão, em meio a um regime colonial repressor num país convulsionado por lutas coloniais e de libertação. Sobre Luandino Vieira diz José Saramago: “A sua obra, importantíssima, foi precursora da literatura angolana e tem raízes na terra e na cultura do país”. Transcrevo alguns versos de Luandino, da sua Canção para Luanda: (...) A pergunta no ar / no mar / na boca de todos nós: - Luanda onde está? / Silêncio nas ruas / Silêncio nas bocas Silêncio nos olhos (...) (in Renúncia Impossível)

MIA COUTO (Antonio Emilio Leite Couto) Autor reconhecido internacionalmente e muito festejado no Brasil, nasceu em Moçambique. Em entrevista no Brasil, ele disse que vê Portugal na literatura brasileira e confessa que o escritor brasileiro Guimarães Rosa o influenciou, não só na maneira de olhar o mundo, mas na prática de usar neologismos. Mia declara que adota neologismos porque, segundo ele, o que há a dizer ainda não existe na língua, e por isso precisa dessa nova linguagem para se expressar. Fala do seu amor pela língua portuguesa, língua do afeto, e diz que não saberia escrever noutra língua que não fosse a portuguesa. Diz ainda que se considera um contador de estórias. LITERATURA AFRO-BRASILEIRA Por curiosidade, antes de encerrar este texto, gostaria de lembrar alguns autores brasileiros

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afro-descendentes. O primeiro é uma mulher, Maria Firmina dos Reis, escritora, poeta e educadora maranhense, nascida em 1823. Pioneira na literatura feminina afro-brasileira, ela escreveu o livro Úrsula: primeiro livro abolicionista escrito por uma mulher. Outro escritor brasileiro-africano foi Luís Gama. Nasceu em Salvador em 1830, de mãe negra livre e pai português branco, e foi feito escravo aos 10 anos. Mais tarde conseguiu alforria, tornando-se jornalista, escritor e advogado-rábula. Autor consagrado aos 29 anos, é considerado o maior abolicionista do Brasil. Dominava a poesia lírica e a satírica. Nos escritos não omite a sua negritude, usa imagens tradicionais do seu tempo, porém nessas imagens adapta ao imaginário afro, por exemplo a Musa é da Guiné, o Orfeu tem carapinhas. Nosso escritor maior, o mulato Machado de Assis, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1839, seus avós paternos eram escravos. Seu sofrimento é não só pela cor que carrega, mas pela herança da escravidão. Machado retrata em alguns dos seus escritos a escravidão sob o ponto de vista cínico do senhor de escravos, da falsa camaradagem senhor-escravo. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, narra o que é considerado um dos relatos ficcionais mais perturbadores já escritos sobre o psicologismo da escravidão: o negro liberto compra o seu próprio escravo para tirar sua desforra. Por fim lembro Castro Alves (1847, Bahia) também chamado “O Poeta dos Escravos”. Em seus poemas fala dos graves problemas sociais e da escravidão, clamando pela liberdade. Abolicionista, seu poema épico-dramático mais famoso é o “Navio Negreiro”, denunciando a crueldade da escravidão e recriando poeticamente as cenas dramáticas do transporte dos escravos nos porões dos navios negreiros. CONCLUSÃO Brasileiros e africanos, ao longo dos tempos, se visitam, leem a literatura uns dos outros, intercâmbio de ideias e de cartografias, pelas semelhanças dos seus povos em venturas e desventuras. Nossa língua portuguesa tem uma dinâmica própria e uma plasticidade peculiar, os escritores que estão a escrever nesta língua, não importando a sua nacionalidade , colaboram para a revitalização e difusão do idioma.

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releitura curvas expandida

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AS TROVAS DE FERNANDO PESSOA: CIRANDA DE HETERONIMOS? Maria de Lourdes Hortas Escritora luso-brasileira, vive no Recife. Tem vários livros de poesia publicados, os quais recentemente foram apresentados em forma de livro digital, sob o título Poesia Reunida, publicado pela Panamérica Editora, Recife. Como ficcionista, escreveu uma trilogia sobre emigração portuguesa: Adeus Aldeia, Diário das Chuvas e Caixa de Retratos, este último traduzido para o espanhol e publicado em Buenos Aires. Organizou várias antologias, entre as quais Palavra de Mulher e Poetas Portugueses Contemporâneos.

Um envelope verde, com o rótulo Quadras, contendo 60 folhas manuscritas, foi encontrado na célebre arca de Fernando Pessoa pelo professor Georg Rudolf Lind: 325 trovas, publicadas como Quadras ao Gosto Popular, pelas Edições Ática, Lisboa, 1965. Para quem lê e admira o grande poeta português, o volume, isolado, numa primeira leitura rápida e descompromissada, pode parecer um conjunto de versos menores, pecadilhos do gênio, escritos por entretenimento ou desfastio, talvez entre um copo e outro, às mesas do Martinho da Arcádia ou da Brasileira do Chiado. Mas se vier à lembrança do leitor um poema de Fernando Pessoa, ele mesmo, a impressão inicial será por certo modificada: Tudo o que vemos é outra coisa./ A maré vasta, a maré ansiosa,/ É o eco de outra maré que está/ Onde é real o mundo que há.

A partir dessa advertência, as trovas nos revelam que são de fato muito mais do que aparentemente parecem: outra coisa, eco de outra maré, maré vasta, maré ansiosa... água de um mesmo oceano inesgotável e fundo.

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Inseridas no conjunto da obra pessoana, as Quadras vêm confirmar a inquietude do poeta que se queria múltiplo e fragmentado para ser inteiro, completo e universal. Ficcionista da própria vida, Pessoa é todos os personagens que o habitam e assume personalidades várias, com formas de expressão, estilos e visões de mundo diferenciados. Depois de ter sido o poeta culto de fórmulas e conceitos, sentiu-se tentado


releitura

a acrescentar mais uma cor ao fantástico caleidoscópio que é o universo da sua poesia. As Quadras, escritas na maturidade, à época da publicação da Mensagem (1934), embora possam significar , e até mesmo acentuar, o interesse do poeta pelo folclórico e castiço, seriam, provavelmente, uma outra face do poliedro, encenação a mais, outro dos seus “fingimentos”. Nas Trovas, ao pôr em cena o poeta popular, ele confirma: Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação.

Transpondo fronteiras e inibições, tendo por veículo a imaginação, após Pessoa viaja pela temática popular, falando de rosmaninho, romarias, sardinhas, manjericos - elementos que são lugares comuns no gênero que nasce da ingenuidade dos poetas do povo. Por trás desse mimetismo, no entanto, vamos encontrar, inteiro, o Fernando Pessoa de todos os heterônimos: Mas que grande disparate É o que penso e o que sinto Meu coração bate, bate E sozinho minto, minto.

É a mesma postura intelectual irônica, malabarismo angustiante de aros que se entrelaçam: verdade/mentira; real/irreal; pensar/sentir. O conceito do fingimento, expresso na Autopsicografia desdobra-se: Tenho uma pena que escreve Aquilo que eu sempre sinta Se é mentira, escreve leve Se é verdade, não tem tinta. * Compreender um ao outro É um jogo complicado Pois quem engana não sabe Se não estava enganado.

Mas não é apenas o ortônimo que se veste de trovador. Também Álvaro de Campos se mostra de relance – Não oiço as suas cantigas/ Só tenho pena de nada – para aparecer, mais nitidamente, nos primeiros dois versos de outra quadra: na quinta que nunca houve/ Há um poço que não há(...), ou em quadras como as que se seguem: Teus olhos tristes, parados Coisa nenhuma a fitar. Ah, meu amor, meu amor Se eu fora nenhum lugar! * Deixaste cair no chão

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O embrulho das queijadas Riste disso e porque não? A vida é feita de nadas. * A vida é um hospital Onde quase nada falta. Por isso ninguém se cura E morrer é que é ter alta.

Porém a ciranda não se fecha com as quatro mãos dos dois personagens referidos. Outras mãos abrem a roda para cantar no mesmo aparente tom ligeiro e despreocupado, como se Pessoa decidisse reunir nas Quadras todos os poetas que o habitavam, levando-os para uma merenda numa alegre romaria. Ricardo Reis fez-se presente, cantando o prazer das ilusões: Todas as coisas que dizes Afinal não são verdade Mas se nos fazem felizes Isso é felicidade. * Tens um anel imitado Mas vais contente de o ter Que importa o falsificado Se é verdadeiro o prazer? * Voam débeis e enganadas As folhas que o vento tomba. Bem sei, deitamos os dados Mas Deus é quem deita a soma.

Alberto Caeiro, poeta que nasceu poeta como os rios nascem rios, bucólico guardador de rebanhos, não poderia estar longe na assimilação dos cenários campestres: O ar do campo vem brando Faz sono haver esse ar Já não sei se estou sonhando Nem de que serve sonhar. * Baila o trigo quando há vento Baila porque o vento o toca Também baila o pensamento Quando o coração provoca. * O burburinho da água No regato se espalha É como a ilusão que é mágoa Quando a verdade baralha.

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No trovador todos os heterônimos se confraternizam. Tanto assim que, no prefácio que escreveu para as Quadras ao Gosto Popular, Jacinto do Prado Coelho fez a seguinte observação: “Se não erro muito, estas quadras “populares” de Fernando Pessoa, já no plano dos temas, já no plano das formas, confirmam a tese que defendi, da identidade na espantosa diversidade”. De fato, as faces múltiplas frequentemente se justapõem na limpidez de espelho destas composições singelas. Paralelamente, Pessoa, mágico sempre pronto a tirar da manga da cartola alguns lenços ou pombos ocultos, faz-nos mais uma surpresa: a da presença feminina. Praticamente exilada do seu mundo, a mulher encontra nas Quadras um campo virgem, que marca e domina. É a ela que o poeta frequentemente se dirige: Eu tenho um colar de pérolas Enfiado para te dar: As pérolas são os meus beijos O fio é o meu penar.

E, do fio do seu penar, as pérolas rolam, soltas. É o colar que se rebenta e, com ele, todo o ressentimento do amoroso frustrado. Se por vezes é galanteador - Toma lá minha menina/ O ramalhete que diz./ Cada flor é pequenina,/ Mas tudo junto é feliz – mais frequentemente é o namorado infeliz, descrente, rejeitado: Trazes uma cruz no peito/Não sei se é por devoção./Antes tivesses o jeito/ De ter lá um coração. A opinião que tem da mulher é sempre pouco lisonjeira, vestindo-a com matizes de leviandade: Quando tiraste da cesta Os figos que prometeste Foi em mim dia de festa Mas foi a todos que os deste. * Não me digas que me queres Pois não sei acreditar. No mundo há muitas mulheres Mas mentem todas a par. * Água que não vem na bilha É como se não viesse. Como a mãe, assim a filha... Antes Deus as não fizesse.

Este desencantamento, todavia, não afasta certo humor, muito frequente em Álvaro de Campos: Na praia de Monte Gordo Meu amor, te conheci. Por ter estado em Monte Gordo É que assim emagreci.

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Nesta quadra,o humor infantil e sensual, lembra o autor das cartas a Ofelinha, única namorada do Pessoa de que se tem notícia. O mesmo ocorre com a que se segue: Trazes um lenço novinho Na cabeça a descair. Se eu te beijar no cantinho Só saberá quem nos vir.

A interlocutora a quem se dirige é a mulher que poderia encontrar nas ruas da metrópole onde vivia, - mulher do povo, com avental, xaile e chinelas, de brincos que são como andorinhas. Como amador, Pessoa não se limita a enlear-se nos atavios da amada – anéis, linhas, dedal, mantilha. Tal qual os autênticos trovadores do Cancioneiro, também se transforma na “cousa amada”, indo ao extremo de falar como se fosse a namorada aldeã : Vesti-me toda de novo/E calcei sapato baixo Para passear entre o povo/E procurar quem não acho. * Vou trabalhando a peneira/E pensando assim, assim. Eu não nasci para freira./Gosto que gostem de mim. * Meu coração é uma barca/Que não sabe navegar Guardo o linho na arca/Com o ar de o acarinhar.

No prefácio que escreveu para Missal de Trovas (1914), de Augusto Cunha e António Ferro, Pessoa emite um conceito lírico e surpreendente, para o poeta de formação inglesa e intelectual que foi: “A quadra é o vaso de flores que o Povo põe à janela da sua Alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria. Quem faz quadras portuguesas, comunga a alma do povo, humildemente de todo nós e errante dentro de si próprio.” Parece-me que este texto, por si só, preenche as lacunas e indecisões da minha impressionista e despretensiosa leitura das Quadras. Errante dentro de si próprio, Pessoa, ao escrever as suas Quadras Portuguesas quis comungar “a alma do povo, humildemente de todos nós”, proposta que é, de resto, a mais profunda causa da poesia. Recife/ Festlatino, 11/4/2015

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SOBRE MAURO MOTA Albuquerque Pereira Cearense, pernambucanizado desde a década de 1950, radialista, jornalista, cronista, dramaturgo e poeta, vive no Recife. Trabalha atualmente na Companhia Editora de Pernambuco – CEPE. É poeta premiado pela APL – Academia Pernambucana de Letras e publicará, em breve, sua tetralogia de poesia inédita, em edição digital, pela Panamerica Nordestal Editora, do Recife – PE.

Primeiro peço licença para resumir a biografia do nazareno pernambucano Mauro Mota. Ele é de 1911 e desde 1984 faz poesia na Eternidade. Antes de se mudar, Mauro ensinou na Escola Normal, onde entrou falando de cátedra sobre O Cajueiro Nordestino, a origem dessa árvore, ela entre os indígenas e flamengos, sua distribuição geográfica, sua devastação, o caju e a castanha na culinária, nas artes populares e eruditas, no folclore, na literatura e na toponímia. Mauro chefiou a redação do Diário da Manhã e dirigiu o Diário de Pernambuco, onde fez do suplemento literário porta de entrada de novas gerações de poetas. Superintendeu o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, atual Fundação Joaquim Nabuco, dirigiu o Departamento de Documentação e Cultura da Cidade do Recife e o Arquivo Público Estadual. Sua prosa e, principalmente, sua poesia ganharam as academias Pernambucana e Brasileira de Letras, além de prêmios: da APL, por suas Elegias; da ABL, o Olavo Bilac; da Câmara Brasileira do Livro, o Jabuti; e o Pen Clube do Brasil, pelos poemas do seu Itinerário.

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Mas, como sabemos, o Brasil é um arquipélago cultural analfabeto em comunicação. Salvo raríssimas exceções, intelectuais municipais não conhecem intelectuais estaduais que, por sua vez, não conhecem, como gostariam, intelectuais nacionais. Por isso eu comecei a saber de Mauro somente a partir do Dia de Finados de 1955. Foi em dois de novembro daquele ano que, vindo de Fortaleza, cheguei aqui para ficar. Marcado por essa curiosa data inaugural do que seria a minha pernambucanidade, a ser ainda inventada por Gilberto Freyre e colocada em livro de Nilo Pereira, um dia encantei-me ao descobrir este poema, cujo final diz assim:


crônica

Prefiro o cemitério do mar tranquilo, nesta tarde de finados. Na superfície deslizam jangadas de velas brancas.· Há uma tristeza envolvendo o céu, a areia fina da praia, as ondas mansas, e eu sinto, nesta tarde de finados no mar, o beijo frio e póstumo dos afogados.

O poema, intitulado “Finados”, era de quem? De Mauro. Mauro Mota. Mais precisamente, Mauro Ramos da Mota e Albuquerque. Faço, aqui, pela primeira vez em público, esta confissão. Sempre gostei de lembrar e dizer a mim mesmo, em voz alta, este nome completo: Mauro Ramos da Mota e Albuquerque. Mauro Ramos da Mota e Albuquerque. Mauro Ramos da Mota e Albuquerque. Essa repetição me dava o poder mágico de materializar meu parentesco imaginário com aquele ícone da nossa literatura. Na verdade, eu me valia daquela coincidência de sobrenome para, à minha maneira, “ser” um pouco aquele desmedido bardo, de quem o jornalismo me aproximava, ele no Diário de Pernambuco, eu na Rádio Tamandaré, onde ouvia suas crônicas, lidas pelo saudoso locutor Ziul Matos. Nesse tempo, meados da década de 50 do século passado, eu morava, com Fernando Luiz da Câmara Cascudo, num apartamento chamado “Cantinho do Céu”, apelido inspirado no último dos 18 andares do Edifício Capibaribe, único da Rua da Aurora. De vez em quando os pais de Fernando – o folclorista Luiz da Câmara Cascudo e sua Dahlia, a quem ele chamava de “animadora incomparável” nos livros que a ela dedicava, vinham ao Recife, e, nessas ocasiões, eu me aproveitava das poucas horas de sono de que precisava o ilustre hóspede para, noites adentro, desfrutar-lhe a imensa cultura geral. Também via de perto notoriedades locais da época: Nilo Pereira, Jordão Emerenciano, Gilberto Freyre, e, naturalmente, Mauro Mota, entre os que vinham trocar ideias e degustar vinhos europeus com aquele famoso L. da C.C. Até que em certo dia de 1961, tive o meu alumbramento: Mauro recebia Aurélio Buarque de Holanda, de passagem pelo Recife e coube-me entrevistar os dois na TV Clube, após o que fomos almoçar no restaurante Maxim’s, na praia do Pina. Faltou pouco para me engasgar, não da peixada, mas de emoção. Seguiu-se à vizinhança em Casa Amarela, nossas residências à pequena distância uma da outra e do Sítio da Trindade. E para completar, fui colega, anos depois, de sua formosa filha Tereza, na Fundaj, onde, mais de perto, também pude conhecer e admirar dona Marly, essa lady pernambucana da pintura, da prosa e da poesia. Esta publicação, da casa pernambucana de Luiz Vaz de Camões, o maior de todos os poetas de língua portuguesa. A parte lírica da sua obra imortal é deslumbrante, mas n’Os Lusíadas está o seu poema monumento, em honra d“aqueles que por obras valerosas se vão da morte libertando” . Todo grande poeta tem os seus Lusíadas. Os de Manuel Bandeira estão no seu alucinante “Carnaval”. Os de Mauro Mota, nas Elegias: De mim perto, bem perto, junto, unida, como nunca estiveste, agora estás.

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Foste e ficaste - estranha despedida, reino de sombras, de silêncio e paz. Tua presença é eterna, eterna é a vida que, feliz, para sempre, viverás. Morta é a morte, levaste-a de vencida, não nos separaremos nunca mais. Quando chegar meu derradeiro instante, ó noiva ausente num país distante, nossos amigos todos ouvirão vozes e cantos, músicas e abraços. Dos fantasmas que formos nos espaços será o encontro sem separação. (nº 3) Irrevelada angústia da última hora: tantas frases de amor não foram ditas, e silenciosamente foste embora para as grandes distâncias infinitas. Pássaro ou anjo que distante mora, inquietas asas pelo céu agitas. Voltas e pousas suavemente agora dentro das minhas solidões aflitas. Voltas, e eu fico em dúvida se pousas, tal a ternura com que vens e a calma, tão leve como o espírito das coisas. Chegas, após vencer longos caminhos, com a pureza que só vive na alma das rosas virgens e dos passarinhos. (nº 6)

Perdoem-me por voltar ao tom pessoal. Mas devo-lhes outra confissão. Trabalhando com Mauro Mota na mesma empresa, carregando um dos seus sobrenomes, conhecendo-o do “Cantinho do Céu” e sendo seu vizinho em Casa Amarela, pouco convivi socialmente com ele. Negligenciei as oportunidades de beber da sua água viva. Só depois que ele se mudou, tive consciência da minha sede. É verdade que me restam seus livros. Mas eu podia ter tido muito mais. A gente é assim: quanta coisa não faz, quanta coisa não diz enquanto é tempo. Às vezes, inconscientemente, dá chances, mais que às perdas, a um misto de saudade doída e silente remorso.

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De Aveiro a Pernambuco: o sangue português em veias brasileiras Ana Karina Pereira dos Santos Soares Recifense, formada pela Faculdade de Direito do Recife, é Procuradora do Estado de Pernambuco desde 1995. Desde os 15 anos dedica-se à Literatura. Premiada em vários concursos literários, participou de algumas antologias. Em 2011 publicou o seu primeiro livro de poesia, Estações da Alma, pela Scortecci Editora. Atualmente, exerce o cargo de diretora Institucional do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco e integra a diretoria do movimento “Festlatino” (Movimento Cultural Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas), idealizado pelo escritor Humberto França.

Lembro-me da primeira viagem de avião que fiz, em 1985, aos quinze anos, para São Luís do Maranhão, com a minha avó Leonor de Oliveira Borges Pereira. Ao entrar no air bus, senti-me verdadeiramente engolida por um monstro de asas compridas e que, ainda por cima, me levaria para terras desconhecidas e distantes do meu cotidiano no Recife. Logo, todavia, a estranheza passou e comecei a deliciar-me com os “brinquedos” da tecnologia, que aquele “desbravador dos ares” me proporcionou, como os fones de ouvidos, que, sem saber, usei por cima da cabeça, quando devia tê-lo passado por debaixo do queixo. Equívocos de passageira de primeira viagem à parte, o que nunca imaginei é que aquela “nova” terra, pronta a ser desvendada pelos meus olhos curiosos, criaria um vínculo indissolúvel entre mim e Portugal. Explico: Leonor de Oliveira Borges Pereira (minha saudosa avó) era filha de José da Silva Borges, nascido na freguesia de São Martinho da Gândara, Concelho de Oliveira de Azeméis, no Distrito de Aveiro, em Portugal, no ano de 1892, logo após, portanto, a proclamação da República, no Brasil. 65


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Corria, portanto, sangue português na minha veia brasileira, o que justificava, na minha mente juvenil, a guitarra portuguesa, a imagem de Santo Antônio, as joias lusas escondidas nas caixas de sapato, encontradas na casa de meus avós maternos, bem como as histórias que ouvia de minha avó, sobre os cruzeiros que seu pai proporcionava com toda a família e da sua vida de comerciante bem sucedido, em terras maranhenses, onde ela havia nascido. Em entrevista divulgada em página do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira no Maranhão, inserida no texto sobre as “Marcas lusitanas no Maranhão”, de Bruno Gouveia¹, destaca Fernando Silva que seu pai, Adelino Silva, “(...) chegou ao Maranhão aos 12 anos de idade, como muitos filhos lusitanos, para começar a trabalhar na firma M.Borges & Cia., estabelecida na Rua Portugal, n. 170. ‘ Meu pai veio com José da Silva Borges, amigo e visinho do meu avô em Portugal, e, aqui, em São Luís proprietário da tradicional Mercearia Neves (...)’” (Destaque nosso). O pai de Fernando Silva, portanto, veio para o Brasil acompanhado – para o meu espanto – com o meu bisavô, amigo de sua família! A vinda do meu bisavô para terras maranhenses, como de outros conterrâneos, insere-se, por óbvio, num capítulo maior da imigração para o Brasil daqueles portugueses que preferiram um polo menos atrativo, aos invés de se deslocarem para o Rio de Janeiro ou São Paulo, Amazonas ou Pará, Bahia ou Pernambuco. Como enfatiza Marcelo Vieira Magalhães², a inserção dos portugueses na vida maranhense não se dava somente pelo viés econômico, mas também social, havendo registros da participação de alguns na Associação Comercial do Maranhão, desde sua fundação em 1878. Destaca, ainda, o referido autor as sociedades beneficentes e associações fundadas por eles, senão veja-se: “...) pareciam gozar de grande prestígio social, como se pode perceber na presença de autoridades locais e de parte das elites e possivelmente de pessoas menos abastadas, nas festividades promovidas, por exemplo, pela Sociedade 1 de Dezembro (Publicador Maranhense, 03-12-1872, p-2, n 207). Essa entidade, fundada em 1862 contava em 1881 com 699 sócios (Publicador Maranhense, 15-01-1881, n 11, ff 2). Foi responsável pela fundação do Hospital Português em 1867, primeiramente com o objetivo de atender os portugueses necessitados. A entidade existe até os dias atuais e o Hospital foi arrendado à iniciativa privada muito recentemente. Outra instituição importante para os portugueses foi a Sociedade Pariótica, fundada em 1869, que tinha o objetivo de instruir os seus patrícios que no Brasil chegavam com pouca ou nenhuma instrução, eram ministradas aulas de português e francês. A Sociedade Pariótica, em 1872, convocava a sociedade a participar da entrega de prendas aos 16 alunos formados naquele ano, de uma turma de 40, no curso noturno, como informa um jornal local. Anterior a estas foi o

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1 GOUVEIA, Bruno. Marcas lusitanas no Maranhão. Disponível a partir de: <http://www.comunidadelusobrasileirama.org.br/pgs.php?id_c=71&id_r=13>. Em 24 out 2016. 2 MAGALHÃES, Marcelo Vieira. Portugueses no Maranhão (1822-1889): ensaio sobre a imigração. Disponível a partir de:


Gabinete Português de Leitura, fundado em 1853, “com o fim de disseminar o gosto pela leitura, propiciando ao público bons livros de sua opulenta e variada biblioteca, além de patrióticas sessões cívicas e conferências ilustradas” (VIVEIROS, 1992, p.393). O Gabinete no ano de sua fundação havia emitido 95 ações, cinco anos depois já eram 187 associados. Sua biblioteca foi sem dúvidas se não a maior do Maranhão naqueles tempos, uma delas, tinha em 1863, 8.634 volumes (VIVEIROS, 1992) e era aberta ao público em geral mediante pagamento módico. Outras existiram e desapareceram ainda no século XIX, como a Sociedade Beneficente Luso-Brasileira (1872), que era vinculada a Santa Casa da Misericórdia. No século XX podemos citar o Centro Republicano Português, inaugurado em 1911 com 20 sócios e que dois anos depois contava com mais de 90 (PAXECO, 2008). Outro exemplo é o Sport Club Luso- Brasileiro fundado em 1917. O número de associados cresceu tanto que foram formadas duas equipes de futebol. Em 1931 era inaugurado o Grêmio Lítero Recreativo Português, local de forte sociabilidade das elites e classes médias locais até a década de 1980 (Destaque nosso).

Na década de 50, os imigrantes portugueses lideravam o comércio no Maranhão, na condição de proprietários e dirigentes dos principais estabelecimentos, dentre os quais se inclui a “Mercearia Neves” do meu bisavô e a “Mercearia Lusitana”, de seu irmão Domingos da Silva Borges – que deu origem a um dos grupos mais tradicionais no ramo de supermercado no Nordeste: o “grupo Lusitana”. Os estabelecimentos situavam-se na chamada “Rua Grande”, de grande importância no cenário histórico, cultural e social de São Luís, como bem observa Célia Mesquita Santos, no trabalho que desenvolveu sobre as representações espaciais naquele logradouro, colhendo depoimento de antiga moradora da rua em tela, que ressalta3:

José da Silva Borges

Era uma Rua de famílias ilustres que foi aos poucos se acabando. A Rua Grande foi a primeira Rua importante que São Luís teve. Toda a vida da cidade girava praticamente em torno dela! Também aqui tinha de um tudo! O comércio era cheio (acho que corria mais dinheiro naquela época). [...] nem se precisava sair daqui para nada. [...] As pessoas se conheciam e se respeitavam. Eram todos educados, independente de sua postura social. [...] 3 SANTOS, Célia Regina Mesquita. As representações espaciais dos antigos habitantes e comerciantes da Rua Grande. Disponível em: < http://www.liber.ufpe.br/teses%20/arquivo%20/20030825150040.pdf>. Em 24 out 2016, p. 84/85.

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A gente ficava na janela ou na mureta, que era uma espécie de murinho, característico das casas em estilo bangalô, e de lá se admirava o passa-passa das pessoas, aproveitávamos também para ver os paqueras. Foi um tempo muito gostoso mesmo! As casas eram, em sua maioria, uma mistura de residência e comércio, com famílias influentes e ilustres. Os comerciantes procuravam dar à Rua um aspecto aristocrático, caprichando em suas vitrines. Nessa época, era comum, à noitinha, as pessoas irem à Rua Grande apreciar essas vitrines, que sempre estavam muito bem arrumadas. Nem se compara com a bagunça que é hoje! O comércio era totalmente diferente do que se vê agora. As lojas, eram motivo de orgulho para a Rua, tinha a Real Jóias, a Casa Garimpo, a Casa Paris, a Mercearia Neves (com artigos importados, para um público mais refinado), a Calçadeira Piauiense, que trazia todas as novidades do sul e sudeste do país, a Confeitaria Cristal (essa bem mais antiga) e muitas outras... Mas tinham também as lojas mais simples, como a Mercearia Brasil, a padaria Duas Nações, o Lusitana, que na época era apenas uma mercearia (ver Fig. 21) o Café Mineiro, ponto de encontro dos senhores da época, e outros tantos... (Destaque nosso).

Não conheci o meu bisavô, salvo através das fotos e da sua história que, aos poucos, vai-se revelando para mim. Faleceu, em 1955, com pouco mais de sessenta anos, no Hospital Português, em São Luís. No espelho do tempo, todavia, vejo-o partindo de seu lugarejo, no distrito de Aveiro, ainda moço, em busca da realização de sonhos em terras brasileiras. Nisto, certamente, nos parecemos: no gosto pelas descobertas! No avesso do caminho, sou eu quem parto para Portugal, quem sabe perseguindo outro grande desafio: desvendar quem verdadeiramente sou!

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QUEM OS OUVIU NÃO OS AMOU Dirceu Rabelo Antônio Dirceu Rabelo de Vasconcelos é pernambucano (Tuparetama, 1939). Advogado, professor, ensaísta e poeta é também um profundo conhecedor da poesia brasileira. Pertence à Academia Pernambucana de Letras, com vários livros publicados, principalmente de poesia.

Na data em que escrevo este artigo (19-04-99), quando são decorridos 113 anos do nascimento do poeta Manuel Bandeira, lembrei-me de fazer, publicamente, o registro de uma idéia que me suscitou, ainda na adolescência, a leitura do ITINERÁRIO DE PASÁRGADA. Por volta de 1913/1914, em Clavadel, Suíça, onde desfrutava a convivência do então jovem de 18 anos, Paul Eugène Grindel, que “pour des motifs très literaires” passaria a assinar-se Paul Éluard; e da namorada deste, e depois esposa, Mlle. Diakanova, posteriormente mulher de Salvador Dali; por volta daquela época, Manuel Bandeira pensava publicar uns que ele intitularia, se não me engano, POEMETOS MELANCÓLICOS, já então do conhecimento de Paul Éluard, e muitos dos quais incluídos em A CINZA DAS HORAS, livro de estréia do poeta, em 1917. Esperançoso, Bandeira, ainda em Clavadel (1914), enviou a Eugênio de Castro o soneto dedicado a Camões e mais dois poemas, “pedindo-lhe uma recomendação para o seu editor”. Como confessado pelo próprio poeta no ITINERÁRIO DE PASÁRGADA, nunca teve ele resposta do tão festejado simbolista português. Se, com a publicação de A CINZA DAS HORAS, Manuel Bandeira foi apontado pela pena de João Ribeiro – e ninguém mais autorizado para dizê-lo, na época, do que João Ribeiro – como “um excelente e verdadeiro poeta”, por que o nosso bardo, tão bem recebido pela crítica nacional, haveria de ter começado a última estrofe do poema “Versos escritos n’água”, incluído em A CINZA DAS HORAS, com o verso que deu título a este artigo? A quem se poderia atribuir o motivo dessa mágoa do poeta? A Paul Éluard? Evidentemente que não. Nenhuma restrição poderia ter partido daquele que viria a ser um dos expoentes da poesia francesa do século XX; dele, principalmente dele, que

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um dia subscreveria uma dedicatória como esta: “À Manuel Bandeira, qui me révéla littéralement mon amour de la poésie et ses possibilités”; e que, sobrevinda a primeira guerra mundial, convidaria o nosso poeta para ser correspondente de uma revista que ele, Éluard, pretendia fundar em seu país. Que acontecimento, então, teria provocado o desencanto do poeta, externado naquele verso, que lhe saiu do íntimo, ao que parece, como disse o poeta no poema “Desencanto”, também de A CINZA DAS HORAS, “deixando um acre sabor na boca”? Não teria sido o silêncio de Eugênio de Castro? Particularmente, penso que sim. Mas não tenho conhecimento de a hipótese já haver sido admitida por qualquer dos estudiosos da obra de Manuel Bandeira. É um desafio a quantos se ocupam em estudar e divulgar a simples e grande poesia do ilustre brasileiro e, para honra nossa, pernambucano do Recife, nascido – e aqui vai uma referência que me parece necessária – na rua da Ventura, hoje Joaquim Nabuco, e não na rua da União, onde morava o avô do poeta. Digo poesia simples, porque acessível ao homem comum; grande, porque assim o proclamam a crítica e o tempo, este o mais judicioso de todos os críticos. Enganam-se aqueles que pensam ser poesia o texto que alguém escreve para o leitor decifrar. Costumo dizer, com a franqueza do meu limitado entendimento, que só há três tipos de poesia: a que presta, a que não presta e aquela que ninguém sabe o que é. Esta última, artifício a que recorrem os inúmeros pretensos poetas enganadores dos incautos, é a pior de todas. É a antipoesia. Mas urge concluir: se um dia confirmada for a minha desautorizada suposição a respeito do magoado desabafo de Manuel Bandeira ao escrever o verso que deu título a este artigo, Eugênio de Castro terá abdicado, em favor de João Ribeiro, do privilégio de apresentar ao mundo uma das mais expressivas vozes da poesia ocidental.

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SE MINHA RUA FALASSE Claudio Couceiro d’ Amorim Claudio Couceiro d´Amorim, advogado, poeta, participou do movimento dos poetas da rua do Imperador. Gosta de fotografia e tem belos trabalhos publicados na área. Pernambucano do Recife, atualmente dedica-se ao projeto de revitalização da rua do Imperador.

Tenho ido tanto ao encontro dela E dela estou gostando tanto Que certa noite peguei-me sonhando Como bom seria se ela falasse De coisas que eu gostaria de ouvir Pois dela quero de tudo saber! Com certeza falaria ela também De coisas tantas Que eu não gostaria de saber... Mas que falasse, disso eu queria! Seria ela de mais falar, ou calar? Ah, como seria bom de tudo saber, Se minha rua falasse! Quantas coisas me diria E quantas coisas calaria?... Mas sendo rua e mulher Muito mais coisas diria Afinal, que dissesse o que quisesse! Eu juro, a tudo ouviria! Ah, se minha rua falasse... No dia seguinte acordei feliz Tinha de fato sonhado, A rua tinha falado, eu ouvi! Sua voz um pouco trêmula Parecia até meio triste Contando como tudo começou E como ela assim ficou...

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Sou a rua do Imperador Rua do Imperador dom Pedro II É assim que me chamam Com toda a pompa e circunstância Desde que ele por aqui passou Com destino às Princesas. Sou filha do Recife, com muito orgulho Nasci na ilha de Antônio Vaz Sou das águas, sou das pontes Sou das lutas, sou do Sol Sou da dança, sou do povo! Quando criança meu pai contava Histórias de meus antepassados Contava até histórias de tempos batavos, De tempos de lutas, de festas e de danças E assim, eu dormia feliz! Falava de Maurício de Nassau e de Marcgrave Amantes do Recife e da natureza De suas terras, águas, estrelas e céus Naqueles tempos em terras novas. Assim fui crescendo, e meu pai me contando... Falava de coisas aqui acontecidas No mesmo chão que hoje é meu De coisas que aqui já existiam e aqui se passaram Antes de eu ser quem sou... Falava até de nomes que esse chão já teve: Do Colégio, da Cadeia Nova e de São Francisco, Antes mesmo de ser só do Imperador. Está vendo ali, me dizia, hoje é um Convento Já foi hospício, oratório, até um forte já foi Chamado Ernestus, Hoje é só de São Francisco, o dos pobres! Antes mesmo de você nascer, disse meu pai, Já teve ali uma Cadeia chamada de Nova Ali Frei Caneca esteve preso. No outro extremo, você conhece, A igreja do Espírito Santo Essa, já teve vários usos e donos, A primeira construção foi a mando de Nassau Já foi calvinista e Colégio dos Jesuítas! Agora, sou eu que conto, disse-me a rua. Falo do que vivi e de tudo o que bem sei... E assim, ela foi lembrando toda feliz De coisas que viveu ainda jovem Falou da Praça 17

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De Sacadura Cabral e Gago Coutinho Do Gabinete Português, do Palácio da Justiça E até da Secretaria da Fazenda e de Cícero Dias. De seu pai, não se cansou de falar Contou de seus rios, de suas pontes e de seu povo! De maracatus, frevos, lampiões, bondes e poetas Sim, os Poetas da Rua do Imperador! Ah, do carnaval, então, contou muitas coisas Falou de blocos antigos e mais novos Falou de passistas e orquestras De Nelson Ferreira e de Capiba, Com sua Recife Cidade Lendária. E sobre a boemia na Esquina da Lafayette? Ah, como ficou contente minha rua Quando falou da Esquina da Lafayette! Ali era um ponto de encontro e atenção de todos, De dia, ah, de dia só iam homens! As conversas eram sobre política, artes e negócios. Entre piadas e coisas sérias, tomava-se café. Por ali passavam Joaquim Cardoso, Ascenso Ferreira, Mario Melo, Gilberto Freyre e Carlos Pena. As notícias corriam soltas... Por perto ficavam o Jornal do Commercio O Diário de Pernambuco, o Jornal Pequeno e outros. De noite, disse-me ela sorrindo, De noite chegavam também mulheres! As conversas já não eram tão sérias As brincadeiras corriam agarradas, Tomava-se cerveja com muitos agrados. Depois de tanto falar empolgada Fui percebendo que minha rua Foi baixando a voz, mais compassada, E ficando, aos poucos, triste e chorosa. É saudade, seguiu dizendo: O tempo foi passando, as coisas mudaram As pessoas foram para outras ruas Os prédios ficaram abandonados As calçadas mal cuidadas... E logo percebi, disse-me a rua, Que me tornei mais passagem

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Poucos chegam para ficar, para bem-estar! Hoje, as pessoas vivem entre vidros e paredes Hoje, sou apenas mais uma rua de carros Ninguém olha mais para mim, Só passam! Ah, como eu queria ser novamente Uma rua cheia de pessoas e de vida! E ela, assim dizendo, calou-se Nada mais ouvi, Além de choro e soluços. Nada mais vi em meu sonho Agora tornado pesadelo. Do que lágrimas e olhos tristes. O Sol bateu-me nos olhos como a dizer: Pronto! Desejo atendido! E logo acordei feliz: minha rua falou! Embora sabendo estar ela agora triste Chorosa e muito saudosa... Mas, logo, logo, ficará ela sabendo

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DUAS VERTENTES DE MINAS Anderson Braga Horta Nasceu em Carangola, MG, em 1934. Poeta, contista e crítico literário. Publicou O Horizonte e as Setas (contos, 1967). De poesia, entre outros, publicou: Altiplano e Outros Poemas (1971), Cronoscópio (1983) Antologia Pessoal (2001) e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2003).

I – VISÕES DO ITACOLOMI Dorme Ouro Preto. A noite chegou. Ainda há pouco o dia em burburinho era um grito, era um canto. Já o sono se instalou e vai tomando conta das coisas. Cala o coro de igrejas, a fala animada dos rábulas, lundus de escravos, assomos de garimpeiros e mercadores. Os sussurros e ais das senhorinhas em flor tornam-se em anseios que flutuam na sombra. Já carruagem nenhuma arranca ástreas faíscas da fria pedra nas ruas íngremes. Já nem o embuçado de áureas conspirações desliza na treva. Os mendigos e os aleijados sonham. Funda noite. Já apenas duas sombras se movem. Vela o poeta: no lábio um silêncio, no peito um confuso rumor de anjos que se atropelam. Um músico bêbedo volta para casa. No braço o sonoro instrumento, abandonado. Na cabeça, que bruxuleia e se entorpece, uma vaga canção de lampiões que se apagam. 76

Na alma uma convulsão de estrelas se levanta.


II – A MOÇA DE SÃO JOÃO DEL REI Em São João del Rei, junto ao jardim da gare, irrompe, súbito, a moça linda em seu vestido branco, simples no porte de princesa. Era a beleza eterna que se plasmava ali em pura argila diante de nossos olhos. Oh! não haver para ela um Rafael, um Miguel Ângelo ou uma simples câmara fotográfica. Nunca saberá que a vi. Que um desconhecido a admirou. Beleza assim era para encantar o país, o mundo, a galáxia. Mas ela subia imponente e humilde a calçada do jardim da estação, sonhando talvez o sonho modesto e glorioso de ser mãe, de comandar suavemente uma família. Não conhecerá a imortalidade da tela ou da pedra. Mas ficará indelével no sonho do poeta e restará para sempre gravada nas raias do Universo.

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PROMONTÓRIO NATALÍCIO Diego Mendes Sousa Segundo ele mesmo diz, nasceu com o coração encalhado nas águas do Delta do Rio Parnaíba, na Parnaíba, litoral do Piauí, em 1989. É autor de inúmeros livros de poemas, dentre eles, Divagações (2006) e Fogo de Alabastro (2011). Advogado nas horas vagas, Poeta em tempo integral e crítico literário, com ensaios sobre as obras de Carlos Nejar e Astrid Cabral.

Eis o poeta marino em seu caderno de seda remendada, a fiar a costura dos seus sonhos agulhados de esporões tristonhos além da sua dor pelágica de sinfonia curandeira no embornal de pássaros sangrados Ei-lo! Tirante do abismo estelante e mareado - este Poeta que fugiu no glosado horizonte da noite ressumada na alma das marinas, outras vagas divinas! in Coração Costeiro (2016)

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FACES DO RIO

Ana Karina dos Santos Soares Recifense, formada pela Faculdade de Direito do Recife, é Procuradora do Estado de Pernambuco desde 1995. Desde os 15 anos dedica-se à Literatura. Premiada em vários concursos literários, participou de algumas antologias. Em 2011 publicou o seu primeiro livro de poesia, Estações da Alma, pela Scortecci Editora. Atualmente, exerce o cargo de diretora Institucional do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco e integra a diretoria do movimento “Festlatino” (Movimento Cultural Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas), idealizado pelo escritor Humberto França.

Longe de mim Há o Tejo, Que me fala Do que procuro, Como se entendesse, Depositado ao fundo, O olhar do silêncio. Às suas margens, Vejo almas cheias, Impregnadas de lua, Trazendo luz amarela Para o seu leito profundo. Pensamentos em filigranas Enchem suas águas, Que, vez por outra, se revolteiam Formando um bailado rotundo. Embora distante O Tejo invade-me. Não quer partir, Como meu amor, Mesmo sendo rio.

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O que eu amo em ti Andrea Campos advogada, professora de Direito na Universidade Católica de Pernambuco, poetisa, com vários livros publicados, faz parte do grupo que coordena o Festlatino.

O que eu amo em ti não são teus lábios afogueados, cava e cova de meu desejo. O que eu amo em ti não são as gotas de orvalho sobre a relva de teu corpo onde brinca o meu sonho inominado. O que eu amo em ti não é teu hálito recendendo a barro no estio, nem teu gesto hirto e grave em meu instante vazio. O que eu amo em ti não é a última centelha que acendes na escuridão, nem as fatias de tua sombra sob a luz. Não são tuas mãos, pedras pousadas sem asas, entrelaçando as horas de meu dia. O que eu amo em ti é o teu íntimo detalhe indefinível e indefinido, é esse cisco de areia que plantas em meu olhar sobre o deserto alvorecido. É lá onde cabe e descabe o meu amor e eu me transbordo toda entre o silêncio e a palavra infinita. 80


ficção/conto

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O SACO

Oscar Kellner Neto Escritor e poeta, é natural de Franca/SP (1949), casado, pai de dois filhos, avô de três netos e vive em Delfinópolis/MG, entre serras, cachoeiras e lagos, desde 1975. Arte-Educador, Professor de Gramática e Redação, Técnico em Contabilidade e Advogado atuante, Kellner também se dedica às artes plásticas e à escultura, áreas em que sempre logrou êxito.

Com o volume de entulhos e trastes incoerentes jogado nas costas -acompanhando seu gingado-, o anão pardo, olhos patagônicos, cumpre seu itinerário cotidiano, alheio aos desencantos políticos e aos desastres econômicos do arraial. Conversa -sussurrando indecifrações- com os pássaros, as borboletas, as árvores e os animais. O seu linguajar estranho lembra, às vezes, um som glacial há muito esquecido pelos ouvidos do Homem. Sempre ao pôr-do-sol, senta-se num barranco do rio represado e os peixes vêm à tona e conversam com ele, formulando - quase sempre - queixas ecológicas contra o desaguamento de dejetos fecais em seu meio ambiente. Ele gunguna qualquer coisa que não se entende e os aquáticos saltitam, numa borbulhante demonstração de seu contentamento. Jamais se conseguiu descobrir o conteúdo do saco que leva às costas. Percebe-se apenas ser duma substância macia como a dos tecidos amarrotados, assim como se fossem máscaras recolhidas ao fim de algum baile a fantasia de eras remotas. Uma profusão de cordéis e amarrilhos fecha hermeticamente a boca encardida do grande embornal, formando uma espécie de cabo que o pequeno Mutuquinha não solta em hora nenhuma. Presume-se, todavia, que à noite, quando mergulhamos nos sonhos, então sim, ele abre o depositório de seus segredos, pois, no silêncio de sua choça se ouve nessas horas um burburinho formado de risadinhas esganiçadas, rugidos surdos, xingatórios incompreensíveis e cantigas mortas que se prolonga até o nascer do sol.

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Em certo anoitecer, um homem de cor, aproveitando-se de sua fragilidade e natureza pacífica, tomou-lhe à força o enigma ensacado e fugiu, indo satisfazer a curiosidade longe de seus impropérios guturais... Muitos dias depois, do negro, encontraram apenas a pele já seca, esticada por meio de varas verdes, perto do Matadouro Municipal, dependurada numa grande árvore onde os magarefes, ainda hoje, põem a secar os couros das reses abatidas. De carapinha, que não foi separada do corpo, os urubus comeram uma terça parte dos miolos e as formigas sugaram os olhos liposos. Ninguém pensou culpar o homenzinho, uma vez que, depois do furto, nada estancou a torrente de seu choro infantil e seus lamentos se tornaram tão ruidosos que a população de Coivaras não dormiu enquanto ele chorou, sem parar, durante dez dias. Sua palhoça, nessa ocasião, se coalhou de curiosos tentando consolá-lo, penalizados com aquele arremedo de gente -nem criança nem adulto- chorando sangue quando se acabaram suas reluzentes lágrimas de vidro.

E lá sentia-se, pelo arrepio dos pêlos e pelo zumbido contínuo, a presença invisível de inúmeros seres murmurantes, compartilhando a aflição do pequeno roubado. Borboletas multicores enfeitaram as paredes sem reboco, se revesando em revoadas ininterruptas; vagalumes incontáveis forraram o teto durante as dez noites do pranto-anão, piscapiscaluzindo iluminação esverdeada no ambiente ladrilhado pelas lágrimas, onde o chão se recobriu de peixinhos de cristal translúcido que re-

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fletiam o colorido das borboletas, as luzes dos pirilampos e o escarlate do plasma, inaugurando maravilhosos espectros ainda desconhecidos à visão humana... No nascente do décimo dia, milhares de pássaros se dirigiram rumo Norte, numa formação tal que lembrava a rigidez marcial das esquadrilhas aéreas. À tardinha, os que estavam presentes viram e aclamaram a chegada triunfante da mochila que veio planando da direção da Serra do Pico do Cão, trazida pelos amigos alados de Mutuquinha e pousou suavemente em seu quintalzinho de brinquedo. Só aí sua mágoa terminou e ele sorriu... Nessa hora, então, seu rosto se iluminou duma tal maneira que ofuscava a vista de todos e, num crescente resplandescimento, numa transparência de asceta em êxtase, ele levitou por longos minutos. Subitamente, emitindo um urro de alegria ensurdecedor, fez abrir, no centro da casinha, uma cratera sem fundo que, exalando gases intoleráveis, tragou tudo o que se encontrava ao redor, num raio de três metros e quinze centímetros. Dos curiosos que sobreviveram, nenhum conservou intactos os tímpanos e depois disso nunca mais alguém voltou ao casebre. Isso foi na véspera do achado do couro seco de Zoé Caolho, aberto e espichado segundo as normas elementares do aproveitamento da pele bovina, que foi reconhecido graças à cicatriz duma pálpebra intacta: a mesma que lhe originou o apelido. Ninguém mais ousou, sequer, tocar o saco encardido. Ele voltou a perambular pelas ruelas poeirentas carregando nas costas o fardo enfeitiçado de sua solidão... Mas, na mente e no peito de cada coivarense ficou uma certeza após esses acontecimentos: quando o Mutuquinha achar que é hora e resolver terminar com a farsa da demência inofensiva e despir os trajes da mendicância e assumir sua real condição de Duende Guardião do Tesouro Mineral de Itaniope e, por fim, do alto da torre da igreja matriz, libertar o mistério lacrado por cordilhos e amarréis, o lugarejo se tornará encantado e todos conviveremos, felizes, com toda sorte de silfos, duendes, sacis, bruxas, ogros e dragões oriundos dos contos de fadas ouvidos na infância e perdidos nos meandros do esquecimento humano. (do livro COIVARAS).

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OTALER/ RELATO Juareiz Correa Nasceu em Palmares, Pernambuco, Poeta, contista, produtor cultural e editor, tem se projetado na vida cultural do país.Com vários livros de poesia publicados, entre os quais Americanto Amar América, organizou várias antologias e , atualmente, prepara uma edição revista e aumentada da coletânea Poesia Viva do Recife.

Gideão girava a passagem nos dedos quando a voz feminina no alto-falante anunciou a partida do ônibus. Gideão aprontou-se com um sorriso sério e, dentro do ônibus, acomodado na sua poltrona, meteu os olhos mais uma vez na passagem : Recife – Rio. O ônibus saiu da estação rodoviária às 9 horas da manhã. A moça sentada ao seu lado também ia ao Rio. Nas duas poltronas ao lado estavam os pais dela que conversavam pouco; mas a moça e os outros passageiros parecia estourarem de tanto conversar. No primeiro dia da viagem Gideão fez um esforço enorme para coordenar as idéias. Tinha certeza que ocorria algo muito estranho. Era o itinerário, completamente errado: não havia, em todo o percurso, nenhuma ligação possível do Recife para o Rio. Disse isto a moça ao lado e ela riu rebatendo que ele estava enganado, que o ônibus ia mesmo na direção do Rio, ela conhecia o itinerário de olhos fechados, já estava cansada de viajar ao Rio nas férias. Gideão tão bem conhecia o verdadeiro itinerário que falou rapidamente para os passageiros das poltronas vizinhas, perguntando-lhes se o ônibus estava indo em direção ao Rio. Claro responderam nós vamos ao Rio. Todos iam ao Rio. Perguntou e todos iam ao Rio. Mas aquele não era o caminho do Rio, protestou. Não para coordenar as idéias. Tinha certeza que ocorria algo muito estranho. Era o itinerário, completamente errado: não havia, em todo o percurso, nenhuma ligação possível do Recife para o Rio. Disse isto a moça ao lado e ela riu rebatendo que ele estava enganado, que o ônibus ia mesmo na direção do Rio, ela conhecia o itinerário de olhos fechados, já estava cansada de viajar ao Rio nas férias. Gideão tão bem conhecia o verdadeiro itinerário que falou rapidamente para os passageiros das poltronas vizinhas, perguntando-lhes se o ônibus estava indo em direção ao Rio. Claro responderam nós vamos ao Rio. Todos iam ao Rio. Perguntou e todos iam ao Rio. Mas aquele não era o caminho do Rio, protestou. Não havia ali nada 85


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que os conduzisse mesmo ao Rio. Já estavam na metade do segundo dia de viagem quando Gideão interrogou os motoristas. Ora, mas o que havia de errado, perguntaram. Iam para o Rio. Aquele era o itinerário, havia ali nada que os conduzisse mesmo ao Rio. Já estavam na metade do segundo dia de viagem quando Gideão interrogou os motoristas. Ora, mas o que havia de errado, perguntaram. Iam para o Rio. Aquele era o itinerário de sempre do ônibus. E os motoristas cantavam gargalhando : Rio, Rio, Rio. Todo mundo batia com o pé, batia as mãos, na cadência do samba : “O Rio de Janeiro continua lindo , oi...! O Rio de Janeiro continua sendo, ai...! O Rio de Janeiro, fevereiro e março !” Era noite quando o ônibus chegou a Manaus. in Pequenas historias pequenas 2016 – Ebook produzido pela Panamerica Nordestal Editora

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estante

LIVROS RECEBIDOS POR ENCONTRO | Maria de Lourdes Hortas

DávIDA DevoLvIDA Carlos Felipe Moisés /Lumme editor, São Paulo, 2016 Segundo o autor nos diz, na apresentação do livro, trata-se de uma reunião de poemas, de 1960 a 2015. Segundo ele, (...) “ A ordenação cronológica teria dado relevo às etapas de uma evolução buscada desde o início, mas optei por privilegiar os temas recorrentes, índices de certa maneira de sentir e de dizer, que nem sempre segue a linha do tempo.”

CoISAS poemas etc. Pedro Américo de Farias / Linguaraz editor, recife, 2015 “Na presente seleção de poemas - Coisas – depurados ao longo de bons anos – Pedro Américo de Farias entrega ao leitor o melhor da sua lavra(...).” Lourival Holanda, na apresentação do livro.

A HAGADá De PÊSSACH Do SerTÃo curvas expandida

A edição deste livro foi realizada pela Associação Sefaradita de Pernambuco. Conforme informações na contracapa, “ ...esta é a primeira Hagadá de Pêssach publicada no Brasil pela comunidade de descendentes de judeus hispano-portugueses, seguindo o rito sefardita de Amsterdão, incluindo trechos em Ladino e com ilustrações no estilo xilogravura de Cordel.”

CeLeBrANDo CAMõeS, 2ª edição José rodrigues de Paiva/Associação de estudos portugueses Jordão emerenciano, recife,1916 Segundo o autor, em nota prévia, este livro reúne “ textos de circunstância motivados por convites que me haviam sido feitos pelo Gabinete Português de Leitura de Pernambuco para, integrando as solenidades do 10 de junho, falar sobre o tema em sessões solenes realizadas pela instituição.” Na segunda edição foi acrescentado o discurso “ Camões, poeta e soldado: um homem entre as armas e as musas”, que, segundo JRP, foi resultante de convite do Instituto Cervantes e da Fundação Artística Cultural Iberoamericana.”

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diversos Poesia e Tradução, nº23, dez. 2015 Revista portuguesa de poesia, publicada em Águas Santas/ Porto.Entre os colaboradores encontram-se os brasileiros Anderson Braga Horta e Aricy Curvello.

Sobre Escritos, Rastros de Leituras Astrid Cabral, Ed. da Universidade Federal do Amazonas, 2015 Após publicar 16 livros no campo da criação literária, especialmente da poesia, bem como 6 na área de tradução, Astrid reúne parte dos seus textos de crítica e vários depoimentos e entrevistas suas, onde expõe o seu pensamento sobre o seu ofício.

Do que é feito o poeta Anderson de Braga Hortas/ Thesaurus, Brasilia, 2016 Neste livro o autor reúne textos sobre intelectuais vivos e atuantes, ao lado de figuras que já deixaram o panorama cultural brasileiro. Além disso, há vários artigos dedicados ao acordo ortográfico de 1990.

Jantares Ecianos do Recife Dagoberto Carvalho Jr,Hélio Coutinho e Gladstone Vieira Belo/ Editora Nova Presença, Recife, 2016 Memórias lítero-gastronômicas da Sociedade Eça de Queiroz, entre os anos 1993-2013.

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notícias do gabinete

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2016 ---

Gabinete Português de Leitura promove Encontro de Poesia Poesia, Portugal e Brasil. Três componentes essenciais do projeto Encontro de Poesia, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, que realizou seu primeiro encontro de 2016 no dia 28 de abril. O evento, realizado frequentemente no Gabinete, costuma ser iniciado com homenagens a dois poetas (um brasileiro e um português), nascidos no mês em que se realiza o Encontro. Além disso, há três poetas convidados de Pernambuco que discorrem sobre a sua poesia e recitam alguns poemas de sua autoria. Neste ano, o Recital, coordenado por Maria de Lourdes Hortas (diretora cultural) e Ana Karina Soares (vice-diretora cultural), conta com a assessoria do poeta José Terra Correia. Os homenageados são Mario de Sá Carneiro, português que nasceu no dia 18 de abril e pertenceu à geração de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira, recifense nascido no dia 19 de abril. Segundo Maria de Lourdes Hortas, em cada Encontro de poesia, o GPL convida uma escola estadual, que leva turmas de ensino médio para assistir ao evento. “É uma forma de levar a poesia e os poetas de forma viva à juventude, como ilustração e incentivo de leitura”, explica. No Encontro de abril, a convidada será a Escola prof. Ernesto Silva, de Olinda, que levará 60 alunos, acompanhados de professores de literatura. Para encerrar a tarde, haverá uma confraternização, com breve coquetel.

MARCELO REBELO DE SOUSA em VISITA aO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (GPL-PE) viveu um momento marcante no último dia 8 de agosto. A instituição fez parte do roteiro do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que esteve no Brasil para participar da abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, e veio ao Recife para uma visita oficial de trabalho. Ao chegar, o Presidente, que já havia participado de um encontro no Real Hospital Português (RHP), era aguardado por cerca de 300 integrantes da comunidade portuguesa no Recife. Ele conheceu o acervo da entidade e assinou o Livro de Ouro, que registra as visitas mais importantes recebidas pelo espaço.

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Em seguida, Marcelo Rebelo de Souza fez um pronunciamento oficial para os convidados do GPL-PE e recebeu das mãos do presidente em exercício, Celso Stamford Gaspar, o Colar da Comenda de Mérito Luís Vaz de Camões. “Essa visita é um reconhecimento oficial do governo português da importância da nossa comunidade não só no Recife e Pernambuco, mas no mundo”, declarou Celso sobre o significado da passagem do Presidente pelo GPL-PE. Ainda durante a visita, o Governo de Portugal firmou compromisso de conceder ao Gabinete o título de Membro Honorário da Ordem do Infante Dom Henrique. A honraria reconhece os serviços relevantes a Portugal na expansão da cultura portuguesa, da sua história e dos seus valores. A celebração contou com as presenças do vice-governador de Pernambuco, Raul Henry, do prefeito do Recife, Geraldo Júlio, e do embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Ribeiro Telles.

PRÉDIO DO Gabinete Português de Leitura passa a contar com elevador Os associados e frequentadores do GPL-PE ganharam um verdadeiro presente no último dia 3 de novembro. Durante a comemoração dos 166 anos, a instituição inaugurou o elevador de acesso ao Salão Nobre da casa. A solenidade de descerramento da placa do equipamento contou com as participações do presidente em exercício do Gabinete, Celso Stamford Gaspar, da diretora de comunicação do Real Hospital Português (RHP), Laura Areias, e do vice-provedor do RHP, Alberto Ferreira da Costa Júnior. “O elevador é um sonho antigo e um marco, pois mostra que a comunidade portuguesa não se acomoda diante da crise. Sempre olhamos para frente e essa é apenas a ponta do iceberg. É o início

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de uma história maior, que incluirá a recuperação de toda a quadra e imóveis do Gabiente”, ressaltou Celso Stamford, falando sobre o antigo pleito dos sócios e frequentadores do espaço e que trouxe mais conforto e comodidade aos visitantes com limitações de mobilidade. A inauguração foi acompanhada de perto pelos convidados, que também conheceram o hall do elevador batizado como Comendador Alberto Ferreira da Costa. O equipamento tem capacidade para transportar oito pessoas e foi instalado graças à parceria com o Real Hospital Português (RHP).

Gabinete Português de Leitura celebra 166 anos de tradição

A noite do último dia 3 de novembro foi marcada pela comemoração de mais uma aniversário do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (GPL-PE). Cerca de 200 convidados estiveram presentes para festejar os 166 anos da instituição, que ganhou nova exposição, apresentação cultural e melhorias na infraestrutura para celebrar o dia. A programação começou com a abertura da exposição “Cervantes e as três viagens de Quixote e Camões: uma iconografia”, que reuniu desenhos do arquiteto José Maria Plaza Escrivá e mosaicos da arquiteta Sandra Paro. A solenidade continuou com a inauguração do elevador de acesso ao Salão Nobre do GPL-PE. Já no Salão Nobre, os convidados presenciaram um momento de emoção e homenagens com a entrega do Colar do Mérito Luiz Vaz de Camões ao atual presidente do Gabinete, Antônio Bastos de Almeida, que está afastado por motivo de saúde, mas fez questão de comparecer ao evento. “É preciso destacar que as conquistas do Gabinete são méritos de toda a equipe e que Celso tem feito um trabalho exemplar na minha ausência”, afirmou. Também foi agraciado com a comenda o empresário Domingos da Silva, fundador do Armazém Coral. Já o empresário Bernardino Tinoco, da Construtora Santo Antônio, o economista Claudio Monteiro Areias e Serafim Coelho Carneiro Leão, do Real Hospital Português receberam a Medalha de Mérito Luiz Vaz de Camões. A noite ainda contou com o tradicional corte do bolo e a apresentação do bandolinista Marcos César, acompanhado pelo maestro Lúcio Azevedo e pela cantora Juliana Cumaru. O trio encantou o público com repertório de fados. O Gabinete Português de Leitura de Pernambuco foi fundado, em 1850, como um espaço para reuniões e comemoração de datas importantes para Portugal. Em 1851, a primeira sede foi instalada na Rua Cadeia, hoje Avenida Marquês de Olinda, no Bairro do Recife. A construção da sede atual, na Rua Imperador Dom Pedro II, bairro de Santo Antônio, foi concluída em 1921. O espaço conta com salão nobre, auditório e salão de exposições. O acervo da biblioteca conta com mais de 80 mil volumes, incluindo obras raras dos séculos XIX, XVIII e XVII e está permanentemente à disposição do público.

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Gabinete Português de Leitura recebeu evento da ULisboa Durante dois dias, o Gabinete Português de Leitura (GPL-PE) foi o centro das atenções de cerca de 400 estudantes pernambucanos. Nos dias 22 e 23 de novembro, a instituição recebeu representantes da Universidade de Lisboa (ULisboa) que vieram ao Brasil para apresentar tanto a instituição quanto o programa de internacionalização, que busca levar estudantes estrangeiros, especialmente do Brasil, para estudar no local. “Foi com muito orgulho e honra que abrimos as portas do Gabinete para que os alunos tivessem a oportunidade de ter esse contato direto com uma universidade que não carece de elogios e vem para nossa cidade estreitar os laços com os nossos estudantes”, declaro o presidente em exercício do GPL-PE, Celso Stamford Gaspar. O encontro foi comandado pelo próprio reitor da ULisboa, Professor Antônio Cruz Serra, que apresentou e destacou as qualificações da instituições. “A ULisboa é a maior universidade portuguesa e tem 50 mil alunos. E gosto de destacar algumas das nossas conquistas. Na Engenharia, ocupamos a posição 17 do ranking europeu, em Engenharia Civil estamos na posição 10 e, na Engenharia Mecânica, estamos em 14º lugar. Temos muitas áreas nas quais a ULisboa compete com o que há de melhor no mundo”, ressaltou o reitor. A ULisboa, que é uma instituição pública, oferece um grande número de vagas específicas para estudantes internacionais, resguardadas pelo Estatuto do Estudante Internacional. Essas vagas estão distribuídas pelos vários cursos de graduação e pósgraduação que são oferecidos nas 18 escolas da instituição.

Gabinete Português de Leitura recebe lançamento do livro de Maria de Lourdes Hortas

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No dia 07 de dezembro de 2016, o Gabinete Português de Leitura de Pernambuco (GPL-PE) rendeu uma justa homenagem a uma de suas mais ilustres integrantes. O espaço abriu suas portas para receber o lançamento do livro eletrônico poeta, ficcionista e artista plástica, Maria de Lourdes Hortas, que também é diretora cultural da casa. O e-book Poesia Reunida de Maria de Lourdes Hortas – 50 anos de poesia é organizado por Juareiz Correya, trará todos os poemas publicados nos nove livros de Maria de Lourdes. Além das poesias, a obra traz textos críticos sobre os livros da escritora e apresentações de cada obra, em um verdadeiro trabalho de resgate. “Estou muito contente, porque realmente é uma reunião de todos os livros que já publiquei e fazer 50 anos de poesia é uma emoção grande. Estou muito feliz. Além disso, é um suporte novo e eu me sinto muito ligada à modernidade”, afirmou Maria de Lourdes. O e-book está à venda na livraria virtual da editora Panamérica Nordestal, responsável pela obra. http://www.panamerica.net.br/portal/portal.php


entrevista

ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DO GPL-PE: CELSO GASPAR Por Márcia Hortas

O presidente reeleito fala de sua paixão pelo GPL: fazer sempre o melhor pela instituição que aprendeu a amar desde a juventude. O mais jovem presidente que o GPL de Pernambuco já teve, acaba de ser reeleito por mais um biênio para cuidar dessa “casa portuguesa com certeza”, que há 176 anos dissemina a cultura lusófona pelo Estado. Filho de portugueses e bisneto de inglês, reúne as qualidades do modo português apaixonado de lutar à racionalidade inglesa de preservação dos valores da ética. curvas expandida

Diante da maior crise econômica já vivida pelo Brasil, a cultura tende a ficar relegada a segundo plano pelas instituições brasileiras. Mas Celso Gaspar não se intimida diante das dificuldades. Pretende dar continuidade ao seu trabalho de modernização com responsabilidade, do GPL que aprendeu a amar desde a juventude.

Como surgiu o seu interesse pela cultura luso-brasileira?

Desde a minha infância meu pai sempre fez questão de trazer para perto de nossa família todas as coisas materiais e imateriais que nos ligam às terras lusitanas, além disso, a comunidade sempre nos acolheu muito bem em todos os aspectos.

Há quanto tempo o senhor se dedica à

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encontro // REVISTA DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO propagação dessa cultura no Recife?

Já em minha adolescência sempre fiz questão de estar perto da comunidade portuguesa, principalmente por uma influência paterna e, lógico, também pela minha admiração e respeito a tudo isto que sempre me fascinou e me fascina até hoje. Considero-me um amante da literatura ligada à colonização do Nordeste do Brasil e luto pela propagação dessa história de forma correta e coerente, ao invés do que é narrado por uma minoria de historiadores, que não enaltecem a importância da cultura portuguesa e seu legado, como deveria ser.

Seu pai, o Dr. João Gaspar, foi presidente do GPL, o trabalho de divulgação da cultura portuguesa que o senhor desenvolve em Pernambuco seria uma espécie de continuidade daquele realizado pelo seu genitor?

Tento dar seguimento ao trabalho feito por ele e, também, do fruto de algumas gestões que passaram pelo GPL. Não podemos deixar de considerar que tudo isso se soma ao fato da verdadeira paixão que tenho pelas coisas de Portugal. Meu tio-avô Palmeira, que foi Provedor do Real Hospital Português, também nos deu as possibilidades de crescer junto dessa cultura e nesse convívio, principalmente porque fez uma grande gestão naquela instituição e nos espelha para seguir seus passos.

Existe da sua parte um interesse particular em resgatar as suas raízes de origem portuguesa?

Neste caso, estas raízes já são bastante fortes, o que vem agora é o interesse em consolidar isso com meus descendentes. A comunidade precisa incentivar a participação dos mais jovens – principalmente os luso-descendentes – nesse resgate e, para tanto, necessita oportunizar a presença dos jovens nas nossas instituições.

Observei o nome Stamford em seu sobrenome de família. Sua mãe é de origem inglesa ou norte-americana? Se sim, até que ponto acha que esse fato influenciou na sua formação cultural e humana? O meu bisavô por parte de mãe era inglês, meu avô Pedro Maul Stamford, pessoa de quem jamais poderei deixar de reconhecer de que os valores “da ética, da moral e do caráter” estão sempre ligados à formação cultural, religiosa e humanitária que recebemos dos nossos entes.

Para o senhor, qual o papel cultural e social do GPL em Pernambuco?

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Vem desde a sua fundação, quando o GPL-PE foi dedicado a unir os portugueses do Estado. Considero, hoje, o Gabinete Português de Leitura de Pernambuco um centro cultural de troca de conhecimento e cultura, com um acervo bastante importante em todos os aspectos. Nunca deixando de frisar que tudo isso é uma obra material e imaterial criada com os esforços de todos os que já passaram por esta casa, consolidando os feitos Lusitanos aqui em Recife e no Brasil. Jamais o Gabinete deixará de ser um difusor de conhecimento!


A última grande leva de imigrantes portugueses em Pernambuco foi nos anos 50. Dentro de algum tempo, não teremos mais imigrantes dessa geração para gerenciar instituições portuguesas aqui no Estado, qual seria a solução? Tentar engajar os filhos e netos dos imigrantes? Posso falar com toda convicção que estes imigrantes, inclusive alguns hoje em plena atividade nessas instituições, têm essa preocupação e já podemos ver um trabalho de conscientização bastante ativo sendo posto em prática. A meu ver, isso é uma questão de tempo, tudo se acomodará e todos nós, herdeiros desta “magnífica obra”, temos a consciência de nossa responsabilidade diante disso tudo e as oportunidades estão surgindo para os mais jovens.

Sabemos do grave momento de crise econômica, social e política pelo qual o Brasil passa atualmente, como fazer cultura em um país onde faltam direitos sociais básicos, como o direito à Educação e à Saúde?

Somos desbravadores em nossa essência, assim como os comandantes das naus, também não aceitamos o cotidiano com facilidade, sempre queremos mais; neste caso, a vontade de vencer nos impulsiona para frente. Já temos o exemplo de nossos antepassados que também nunca se curvaram diante dessas dificuldades que sempre existiram e ainda existem em nosso Brasil. Somos um país com história, mas com sua difusão relegada a um segundo plano, cabendo às instituições como o GPL-PE não deixar que ela caia no esquecimento.

Que legado pretende deixar como marco da sua gestão no GPL?

Junto com a nossa diretoria, inclusive ao lado do vice-presidente Alexandre Reis, tentamos deixar a mensagem de que a continuidade e a renovação com responsabilidade é a chave do sucesso. Estamos na busca incansável de não só mantermos o que temos, assim como também estruturar a modernização do GPL-PE, trazer um modelo de funcionamento e gestão autossuficientes, com convênios e projetos culturais que tragam a sustentabilidade econômica e financeira da Instituição. A responsabilidade fiscal e financeira é algo de que não abrimos mão.

Poderia resumir em uma frase o foco da sua gestão, recentemente renovada por mais dois anos?

O reconhecimento e apoio ao nosso trabalho é a fonte que alimenta a vontade de sempre fazer o melhor por esta Instituição que aprendemos a amar ...

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Comemoração dos 166 anos do GPL em 03 de novembro de 2016 Discurso do SecretÁrio do GPL Angelo Ferreira da Silva (...) Estamos em festa comemorando o aniversário desta Instituição. Se não o fazemos à moda tradicional, cantando os parabéns para você, não é porque nos falte vontade e alegria, mas por não encontrarmos tantas velas no mercado. Este Gabinete Português de Leitura, comemora hoje 166 anos de sua existência, em boa hora, idealizado pelo Comendador Miguel José Alves, chanceler do Consulado de Portugal em Pernambuco, e fundado no dia 03 de novembro de 1850 pelo médico português João Vicente Martins. Ao fundar esta Instituição, João Vicente Martins, visou estabelecer uma ponte de amizade e solidariedade entre os que deixavam suas terras de além-mar para aqui fincar raízes e adotar como sua segunda pátria este rincão brasileiro. A união dos portugueses que iam chegando com os já residentes em Pernambuco, ia congregando e fomentando o amor à Pátria portuguesa e ao Brasil. A partir do fim do século XIX e no início do século XX o Gabinete Português de Leitura tornou-se um dinâmico centro de convivência familiar, de cultura e lazer, que bem refletia o nível social da cidade de Recife, na época. Os empresários portugueses estabelecidos no centro da cidade quase diariamente ali se encontravam, para trocar ideias, matar as saudades dos familiares e amigos que em Portugal ficaram, ler os jornais, embora com bastante atraso, por serem transportados, pelo correio marítimo, mas aqui chegavam, trazendo notícias das suas aldeias e vilas.

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A vida associativa desde então florescia e resgatava a memória nacional, preservando a história do esquecimento, provocado pela distância.É desse tempo o surgimento dos memoráveis saraus, onde as famílias portuguesas se reuniam para prestigiar artistas vindos de fora, ou mesmo nacionais, como acontecia na


Tuna Lusa, formada por membros da Instituição GPL. Esta Instituição foi criada sem finalidade lucrativa, e até hoje, é mantida graças ao trabalho voluntário dos seus Diretores e às doações a ela feitas, por abastados homens de negócios, do passado e do presente, aqui radicados. Nessa época, outras associações portuguesas foram surgindo, algumas fundadas no próprio Gabinete Português de Leitura, como foi o caso do Real Hospital Português de Beneficência em Pernambuco, depois transferido para o Sítio Cajueiro em cujo local se encontra até hoje. Posteriormente surgiram o Clube Português com suas memoráveis festas dançantes e o Clube Esportivo Almirante Barroso para a prática do remo. Em seguida o Conselho da Comunidade Portuguesa e a Câmara de Comércio Brasil/Portugal. O Gabinete passou a ser ponto de Referência Cultural nesta região, reconhecido em 1949 como entidade de utilidade pública, com o recebimento constante de medalhas, condecorações e diplomas. A biblioteca do Gabinete, com seu valioso acervo, passou a ser frequentada por estudiosos e pesquisadores nacionais e internacionais, entre eles personalidades ilustres, como Gilberto Freyre, Mauro Motta, Cezar Leal, Ariano Suassuna, Jordão Emerenciano e muitos outros. Conforme registros no livro de visitas desta Casa, vemos os autógrafos de renomadas personalidades, como Joaquim Nabuco, Ramalho Ortigão, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Júlio Dantas e Clovis Beviláqua. Somam-se a estes, alguns mais recentes, como por exemplo o arcebispo D. Helder Câmara, Mario Soares, ex-Presidente da República Portuguesa, assim como o do Prêmio Nobel de literatura portuguesa José Saramago. E o mais recentíssimo registro feito nesse livro, foi descoberto pelo próprio, quando ao colocar ali o seu segundo autógrafo, visivelmente emocionado por constatar que há 20 anos, quando aqui esteve, já como figura de destaque nos meios políticos portugueses, ali deixou a sua assinatura e voltou agora a nos honrar com sua visita na condição de Presidente da República de Portugal. No dia 8 de setembro de 2016, MARCELO REBELO DE SOUZA, presidente da República Portuguesa, na sua vinda ao Brasil, para participar da abertura das Olímpiadas de 2016, incluiu em seu roteiro, uma visita ao Gabinete Português de Leitura de Pernambuco e outra ao Real Hospital Português de Beneficência, conforme havia prometido ao Provedor Alberto Ferreira da Costa, no encontro que este manteve antecipadamente com ele, em Lisboa. Nesse mesmo dia, depois de ter sido recepcionado e homenageado com honras de Chefe de Estado no Real Hospital Português, quando condecorou e foi condecorado com as mais altas distinções concedidas pelo Governo Português e pela Instituição Real Hospital Português de Beneficência em Pernambuco às pessoas e Instituições merecedoras dessa distinção através dos seus Representantes Presidente e Provedor, respectivamente.

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encontro // REVISTA DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO (...) Em seguida, todos se deslocaram para a Rua do Imperador Pedro II, para aqui no Gabinete Português de Leitura, receberem e concederem idênticas honrarias, agora das mãos do Presidente do GPL em exercício, Celso Stamford Gaspar. O Senhor Presidente da República de Portugal demonstrou com sua visita e seus gestos de afeto e carinho para com todos os presentes, o reconhecimento oficial do governo português, da importância que dispensa às Comunidades portuguesas de Pernambuco, do Brasil e do mundo. (...) Navegar é preciso!Já foi dito antes, desta vez não utilizaremos as românticas e saudosas Caravelas que nos levaram aos confins do mundo e à primeira e concreta Globalização. Se soubermos usar os novos e modernos mecanismos virtuais de aproximação e comunicação entre os povos, estaremos contribuindo para concretizar o Grande Projeto da lusofonia já em marcha, que nos levará à realização do tão sonhado V IMPERIO tão cantado em prosa e verso e acalentado por Luiz Vaz de Camões, Pe. Antonio Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A maioria dos Presidentes desta Casa, junto com suas Diretorias Executivas, cada um fez a sua parte, na ampliação, manutenção e conservação deste patrimônio material e cultural representado por este imponente edifício e por esta volumosa Biblioteca. Não vamos citar seus nomes para não corrermos o risco de esquecer alguns e também por não termos dados suficientes para detalhar o que fizeram em suas gestões. Citaremos os que atuavam no momento mais recente da realização de eventos que foram destaque neste Gabinete. Em 1983, José Rodrigues Paiva na gestão de Jorge Peixoto, criou a Revista Encontro e em 1990, Armando Areias e João Lopes Ferreira criaram e lançaram o informativo “Cidade e as Serras”. Graças ao empenho da escritora, Maria de Lourdes Hortas, Diretora Cultural deste Gabinete em várias gestões, continuam com suas publicações normais mantidas até os dias de hoje. Na gestão de Antonio da Costa Martins foi adquirido o prédio vizinho, de número, 310. Aquisição imobiliária que completou a quadra que vai da Rua do Imperador, Sequeira Campos, Diário de Pernambuco e Marques do Recife, cuja totalidade dos imóveis pertence hoje ao Gabinete Português. Houve naturais discussões relacionadas a essa aquisição, quanto a necessidade da compra na época e sua utilização futura. Porém diz o ditado que o sol se põe para quem vende e nasce para quem compra. Valeu a compra.

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Depois de vários anos desocupado e bastante maltratado por falta de uso e de conservação, graças a habilidade de negociação bem-sucedida do Presidente do Gabinete Português, Antonio José Bastos de Almeida junto ao Provedor do Real Hospital Português Alberto Ferreira da Costa, está sendo totalmente reformado para ali ser instalada a Faculdade de Enfermagem do Real Hospital Português.


Foi nessa mesma oportunidade que o então Presidente do Conselho da Comunidade Portuguesa, Zeferino Ferreira da Costa com a colaboração da maioria dos seus membros custearam o Obelisco comemorativo dos 350 anos da Restauração Pernambucana, inaugurado em Grande estilo no Cais da Alfandega e doado ao Município. São motivos de regozijo para este Gabinete e para todos nós, poder constatar, inscritos no seu quadro Diretivo e Associativo figuras ilustres que nos enriquecem como Instituição cultural e orgulho de serem cidadãos de duas pátrias Portugal e Brasil. Entre esses, temos, Alfredo Antunes, José Rodrigues Paiva, Maria de Lourdes Hortas, Laura Areias, Esmeralda Moura Camacho e Ramos André. Todos professores, jornalistas e escritores de sucesso. De todos eles o professor Alfredo Antunes, sem desmerecimento dos demais, merece que se lhe tire o chapéu, por ser o maior saudosista e fadista que eu conheço. (...) Por falar em professores lembro-me da época não muito distante quando tivemos aqui em Recife um grupo de professores portugueses ensinando matemática, física, engenharia e arquitetura, todos fizeram escola nesta terra e ainda hoje são lembrados e reverenciados por muitos que deles foram alunos e ainda agradecem ao governo português, por tê-los obrigado a pedir asilo político ao Brasil, passando a ensinar aqui o que não puderam continuar a ensinar lá. Ruy Luís Gomes, José Cardoso Morgado, Antonio Pereira Gomes, Antonio Brotas, Delfim Fernandes Amorim e Zaluar Nunes, vieram ensinar nas faculdades de Recife. Ruy Gomes era a estrela do time, professor catedrático reconhecido internacionalmente e aqui fundou o Instituto de Física e Matemática da Universidade Federal de Pernambuco. Antes de vir para Recife, ensinou na Universidade da Baia Blanca Argentina, foi Reitor da Universidade do Porto antes de ser exilado e depois do 25 de Abril, quando regressou a Portugal, reassumiu essa mesma Reitoria. Foi lançado Candidato à Presidência da República Portuguesa em 1951, um dos motivos que o levou à cadeia, junto com José Cardoso Morgado. (...) O Mundo mudou e criou um Grande desafio para o atual e os futuros Presidentes deste Gabinete, no que se refere à manutenção da sua biblioteca. A leitura de um livro hoje, não apenas pode ser feita retirando-o de qualquer estante, mas em qualquer computador ou na palma da mão, em qualquer outro aparelho de menor tamanho. Os cuidados e os custos com sua preservação, neste caso, são menores, basta salvá-los na memória desses instrumentos. Diante disso a tendência da frequência e procura nas bibliotecas ficará cada vez mais reduzida, restrita a uns poucos estudantes e pesquisadores e a manutenção do livro cada vez mais dispendiosa. O livro se não for bem cuidado e manuseado estraga-se, mas se não for utilizado, deixa de ter utilidade.

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encontro // REVISTA DO GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA DE PERNAMBUCO Todo este Grande e valioso acervo cultural, literário, corre o risco de ser perdido, se não for digitalizado o que por sua vez é um processo dispendioso, mas que não pode deixar de ser realizado. Deixo aqui o nosso reconhecimento a todos os nossos antepassados que por aqui passaram, por tudo que fizeram por esta Instituição, que hoje completa essa memorável data de sua existência, marco indelével da presença da lusa raça, nesta terra, e o agradecimento aos nossos irmãos brasileiros que generosamente sempre nos acolheram. (...) Gilberto Freire, foi sem dúvida, um dos que melhor soube definir o valor dessa mistura de brancos, negros e índios na construção deste Grande País que é o Brasil. Precisamos também externar nosso reconhecimento pelo que foi e está sendo realizado no presente momento, nesta Casa. Ela sempre teve os seus generosos padrinhos que nos momentos, difíceis vem ao seu encontro. Justo é reconhecer e agradecer pelo grande impulso que está sendo dado pelo Provedor Alberto Ferreira da Costa restaurando e implantando no prédio anexo, a Faculdade de Enfermagem do Real Hospital Português, assim como a instalação de um elevador que já está funcionando e permitindo que nós jovens possamos frequentar esta Casa sem a desculpa de que não podemos subir escadas. Coisa de pai para filho, ou melhor de filho para pai. Para ele uma calorosa salva de palmas que bem merece. Esta parceria não teria existido se o Presidente Antonio Almeida não tivesse negociado e concretizado com sucesso, essa transação junto ao Provedor do Real Hospital Português. Do mesmo modo, a busca por novos padrinhos continua. O próximo já está sendo procurado, e tem em vista ajudar a concretizar o projeto de iniciativa do Presidente em exercício, Celso Stamford Gaspar, já aprovado, nos órgãos oficiais, para a construção do novo Edifício Garagem e Salas comerciais, em substituição a todas as lojas deterioradas, da Rua Diário de Pernambuco, sem descaracterizar a fachada externa. O outro grande projeto importante para o nosso Gabinete refere-se à digitalização de todo este valioso acervo que requer elevada quantia de recursos financeiros necessários à sua concretização. Não temos dúvida que novos padrinhos surgirão. Finalizo agradecendo pela paciência de todos os presentes, obrigado pela atenção. Recife, 03 de novembro de 2016

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Nota – O discurso foi condensado, com autorização prévia do autor.


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REVISTA ENCONTRO - Nº 27/28  
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