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Quinta-Feira, 09 de Fevereiro de 2012

Arquivo dos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua As melhores imagens da sua História

Um dia, nome de rua

A

notícia da atribuição do Crachá de Ouro ao comandante Carlos Cardoso dos Santos, por parte do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, não me surpreendeu. Teve sim, o condão de me comover, ao ponto de cerrar os olhos por uns instantes. Instantes que chegaram para recordar 45 anos de amistosa relação com o senhor Carlos Cardoso Santos. Há 45 anos era eu um jovem médico e ele um jovem funcionário do Hospital da Régua, ainda instalado no velho Solar dos Lemos e ao cuidado da Santa Casa da Misericórdia. Não precisei de muito tempo para dar conta de que o Senhor Cardoso, assim conhecido por toda a gente, era a encruzilhada de tudo o que acontecia no Hospital. Mesários, médicos, irmãs de caridade, doentes e pessoal de serventia, acabavam por ter de falar com o senhor Cardoso, por isto ou por aquilo… Isto ou aquilo, podia ser arranjar um remédio com urgência, redigir ofícios, prestar contas, dar uma

Camilo de Araújo Correia

explicação sobre os mais variados assuntos, resolver um diferendo, ler uma carta a um analfabeto, mudar uma lâmpada, ou tratar dos fusíveis… Mas não e julgue que o inegável préstimo do senhor Cardoso lhe serviu para se engrandecer aos olhos de alguém. Tudo fazia natural e discretamente, como se receasse poder vir a receber qualquer das mais diversas expressões de gratidão. Ainda sem farda, tinha já alma de voluntário e no peito espaço para as medalhas que aí vinham. E vieram. Tempos aqueles de vidas tão modestas que ainda hoje me aquece o bolso o primeiro ordenado. Foram trezentos escudos que o senhor Cardoso, como funcionário da secretaria, passou das mãos pobres da Misericórdia para as minhas, ainda a conhecer muito mal a cor do dinheiro. Quando o Hospital de D. Luiz I se mudou para modernas e amplas instalações, julguei que o senhor Cardoso se iria reduzir às suas funções mais específicas. Muito me enganei. De uma vez, desabafou,

assim, comigo o grande Provedor que foi Joaquim Augusto da Trindade Rodrigues: - Não sei o que seria desta casa sem Cardoso…só é pena não ter mais um bocadinho de assento… - Mas, senhor Trindade, que assenta pode ter uma pessoa sempre metida num enxame de exigências? - Pois é… pois é… - concordou o senhor Trindade. Não admira que o senhor Carlos Cardoso dos Santos, com tanta e tão aturada experiência de Misericórdia, viesse a ser um grande Provedor. Rodeado de um grupo de mesários, tão diligentes como devotados, deixou obra feita, nela avultando os modernos e carinhosos lares das nossas crianças e dos nossos velhos mais desprotegidos.

Não conheci tão de perto o mérito do senhor Carlos Cardoso dos Santos, como devotado Comandante dos Voluntários da Régua. Mas como reguense, atento e orgulhoso dos seus Bombeiros, posso testemunhar que nunca a nossa Corporação conheceu tão áureo período de eficiência, disciplina, diplomacia e expressão

humanitária. A Liga dos Bombeiros Portugueses deixa na honrosa farda do senhor Carlos Cardoso dos Santos um crachá de ouro. Cada reguense, ao abraçá-lo, lhe deixa no peito um crachá de fraternidade e gratidão.

Nota: Publicada no Jornal de Matosinhos, na edição de 17 de Março de 2000, esta magnífica crónica, além de ser um tributo à uma velha relação de amizade, é fiel testemunho de quem melhor conheceu as qualidades humanas e os talentos do homem que, durante 31 anos da sua vida, serviu “com eficiência, disciplina e expressão humanitária”, a Corporação de Bombeiros e a comunidade reguense. A primeira fotografia regista no Salão Nobre do Quartel Delfim Ferreira o acontecimento: no dia 28 de Novembro de 1999, durante as cerimónias do 119º aniversário da Associação, a Liga dos Bombeiros Portugueses reconhecia o exemplo de vida do Comandante Cardoso com a última condecoração que lhe faltava receber, o Crachá de Ouro.

SEMANÁRIO INDEPENDENTE DEFENSOR DO ALTO DOURO

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UM DIA, NOME DE RUA