Page 1

17 de Abril de 2013

Ainda no monte do Maio

N

o último artiguinho aqui publicado falei no monte do Maio e falei de tudo quanto a vista pode alcançar dali, daquele lugar altaneiro, um belo miradouro debruçado sobre o casario do Peso, sobre o vale de Jugueiros e toda a montanha de Loureiro com a ossatura bronzeada do Marão a servir de pano de fundo, na distância dos cenários. Eu, amigo, de todos os horizontes e todas as lonjuras, tinha por costume subir até lá cima, ao monte do Maio. Isto nos tempos da minha juventude, como se quisesse deixar por ali as marcas do meu território e refazer o mundo das minhas aventurosas descobertas. Adiante…Já me perguntaram se é fácil subir ao monte do Maio. Mas, vamos voltar lá, em busca dos longes revelados e a matar alguns velhos saudosismos. Digamos, desde já, que o monte do Maio não tem acesso por estrada pública e só uns caminhos de consortes e umas escadinhas da meia-encosta lhe vão dando a necessária serventia. Digamos ainda

que o monte do Maio não é altaneiro em demasia. Visto em altitude, é um arremedo de monte. Mas é um prodígio de vistas panorâmicas. Tanto eu como meus irmãos, além doutras ocasionais fraternidades, tínhamos ali, mesmo no ciminho, o símbolo de todas as aventuras e que era um marco geodésico sempre caiadinho de branco e a que chamávamos o Pinoco. Por esse tempo dizíamos que o Pinoco mirava outros Pinocos lá por longe, de monte em monte e que serviam para uma conveniente medição da terra. Também ouvíamos dizer que era por via da tropa e de uma qualquer estratégia militar. Dito isto, vamos ali, a deslado do Pinoco, ver a casa do Bernardo Perdigão. Ele e a mulher a Engrácia, não têm filhos e vivem naquele meio desterro, afeiçoados a uma casa que não tem água nem tem luz. Mas é uma casa ainda altaneira, debruçada sobre o vale do Fontão e Remostias, ainda os baixios das Fontainhas com a sua antiga Capela das Sete Esquinas.

Em volta da casa do Bernardo tem o governo de duas ou três pipas de vinho, algumas árvores fruteiras e uma pequena horta de couve galega e outros renovos. Em tempo de chuva aproveitava as escorrências do telhado, para encher um pequeno tanque e os barris de sulfato. O Bernardo é um homem de pequena estatura, muito pitoresco e todas bonomias. Gosta de nos receber e gosta de nos mostrar esta ou aquela curiosidade. A casa, soalheira por fora e um tanto enoitecida por dentro, é sobre o comprido, sem janelas e só uma telha de vidro em meio de telha vã dá alguma lumieira à espacidão da saleta comum. A cama de ferro, lá no fundo, está mergulhada numa quase penumbra e nem sei se é cama de bons-dias ou boas-noites. Avulta, na parede, um Cristo crucificado já enegrecido pela fumaceira do tempo mas donde parece irradiar um misto de luz e santidade num rosto descaído. Há ainda uma gaiola sem pássaro e há, no caibramento do tecto, um extenso dossel de teias de aranhas

Por Manuel Braz Magalhães

que, no dizer do Bernardo, é um bom sumidoiro de varejas, moscas, moscardos e mosquitos, a bem do aranhão. Na mesa de comer está um lampião de faces vidradas, um candeeiro de petróleo, um jarrinha com flores de papel e um exemplar do Seringador que é uma distracção das escassas letras do Bernardo, ele que vai sabendo novas do calendário, a época das sementeiras, a sazão dos frutos e, por acréscimo, alguns anexins, de par com umas saborosas anedotas. Nas meias tintas da casa do Bernardo ainda se divisa um gato preto retinto, de olhos bem avivados de amarelo, a andar por ali por cantos e recantos, numa postura felina e sorrateira como que a querer escorraçar o diabo. Do mais, o que se vê são os trastes domésticos, panelas e alguidares, canecas e pratos ladeiros, malgas e pequenas travessas, com o caneco da água de cozinhar e beber pousado numa banqueta. A mulher do Bernardo, a Engrácia, é uma mulher lideira, alta, bem encorpada, sempre vestida de preto

e dizem que dada a feitiçarias e bruxedos. Tirante uma ferradura pregada no tabuame da porta, nunca vi por ali amuletos nem registo de lengalengas ou ladainhas distorcidas. Mas o Bernardo, meão de estatura, esse é dado à violência doméstica e quantas vezes vem lá de cima, pela tardinha, uma desenfreada gritaria da Engrácia. Mas, no dia seguinte, a Engrácia vem à fonte encher um caneco de água e não se dá conta de que tenha quaisquer pisaduras, nem a cabeça escaqueirada nem sequer duas costelas metidas dentro. Como se a violência doméstica do Bernardo fosse uma violência bem domesticada. E a Engrácia lá vai, a subir os caminhos do monte, de caneco à cabeça e a falar sozinha, como que a castigar o cansaço. Eu cá me fico, em descanso e a dialogar com a memória de outros tempos. (conclusão no próximo número)

Um Aluno Meu

A

o som da sirene, na sua expressão infantil, mas já denotadora de personalidade forte, costumo notar-lhe uma mudança brusca, como que se todo o seu íntimo fosse abalado por frenesim que lhe transmite vida, ânimo, movimento. A atenção desvia-se-lhe e o seu olhar fita-se para além da janela, abstracto, longínquo, como se aquele som, que nos fere os ouvidos, o chocasse irresistivelmente, o obrigasse a fugir da sua carteira de escola e o atraísse, qual poderoso íman, para o som estridente que se prolonga para além do rio, galga montes e leva a má nova ares além. Fica inquieto, longe de mim e dos companheiros tão próximos. Noto, porém, que no palmito de cara não há manifesto de medo. Não lhe vislumbro no olhar o estigma do receio, antes lhe brilha na expressão algo corajoso que me diz existir no íntimo daquele meu aluno uma necessidade de ir algures, ajudar, salvar, acudir a quem precisa. Que sei eu? Nestes momentos tenho a convicção, e que prazer indefinível sinto nisso, que aquele rapaz nervoso, irrequieto, mas bom, há-de um dia ser um homem. Não o será apenas no corpo, que este é mera e fugaz passagem cá por baixo.

14

Por Professor Eurico A. Patrício Há-de sê-lo em espírito, sentimentos, coragem e humanismo, altruísmo. Há-de renunciar muitas vezes ao prazer, à comodidade e até à segurança pessoal, para correr ágil, apressado, aflito até, à chamada do toque aflitivo que não o convida à alegria nem ao prazer, mas sim, e ele compreende-o bem, ao sacrifício, à abnegação e até, quantas vezes, à dádiva da própria vida. Frequenta a 3ª classe o miúdo. Não é um aluno brilhante, excepcional, mas não é todavia um mau aluno. É regular, um pouco acima da mediania. As suas qualidades impõem-no aos condiscípulos que o admiram e respeitam. É pontual, metódico, ordenado e está sempre pronto a resolver qualquer dificuldade ao seu alcance e que um colega menos dotado lhe apresente para solução. É altruísta. Não se envaidece com a superioridade manifesta em relação a uns, nem se amofina que outros mais dotados o excedam. É modesto. Sente-se bem nas suas possibilidades, mas procura aperfeiçoar-se e progredir lutando teimosa e persistentemente para alcançar os seus objectivos. Gosto muito dos meus alunos. Mas, perdoe-se-me a franqueza por me sentir um pouco mais inclinado para este a que me venho referindo. As suas qualidades granjearam-lhe

do seu professor um lugar de primazia e uma admiração particular. No quartel dos nossos bombeiros soou há dias, forte como sempre, e a chamar os nossos briosos Soldados da Paz à sua humanitária missão, a atroadora sirene.

Os outros miravam-no atentos e pairava no ar uma expectativa que os mantinha presos ao seu companheiro. Propus-me aproveitar o momento, que tão oportuno se deparava, e interroguei novamente o Joaquim. - Que tens rapaz, pareces tão aflito? - Nada sr. Professor, mas…é que

Como que pressentindo que algo de anormal se iria passar com o pequeno, observei-o dissimuladamente. A reacção habitual manifestouse, mas desta vez mais forte, mais excitante e mais intimativa. Eu, que quase adivinhava o que se passava no íntimo do Joaquim, é este o seu nome, para me certificar de que não me enganava, perguntei-lhe se estava doente, se se sentia mal, se queria ir até lá fora. Que não, que estava bem, dizia-me ele. Dizia-o de boca, que a expressão e o corpo traíam-no sem ele o poder evitar.

para no futuro serem homens na verdadeira acepção da palavra, senti que a escola pode e deve, ao mesmo tempo, indicar-lhes o espinhoso, mas tão nobre caminho que os eleva acima de todos os egoísmos: O caminho que conduz à s f i l e i r a s d o s B o m b e i ro s . Peso da Régua, 6 de Maio de 1968

eu gostava muito de ser bombeiro. Que grande lição de amor ao próximo nos deu nesse dia o pequenito! E eu, cuja missão é guiar crianças

SEMANÁRIO INDEPENDENTE DEFENSOR DO ALTO DOURO

Nota: Esta deliciosa crónica e ainda muito actual no seu tema - a apelar ao sentimento grandioso de humanismo dos bombeiros foi publicada no jornal “Vida por Vida, órgão oficial da A. H. dos Bombeiros da Régua, em 6 de Maio de 1968. O seu autor, um grande professor do ensino primário, um talentoso jogador de futebol do Sport Clube da Régua, um homem bom, que foi um grande e anónimo benemérito da nossa instituição, faleceu, com 80 ano de idade, no dia 14 de Abril de 2013. Ao Professor Eurico, como caridosamente o tratávamos, esteja onde agora estiver, os bombeiros da Régua reconhecem a sua maior gratidão pela ajuda que lhes prestou em toda a sua vida. Que na Eternidade, a sua Alma descanse em Paz.

UM ALUNO MEU e AINDA NO MONTE DO MAIO  

Textos de Eurico A. Patrício e Manuel Braz de Magalhães publicados no Jornal semanario regional "O ARRAIS", edição de 17 de Abril de 2013

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you